19.7.16

JIMMY CARTER: PERDENDO MINHA RELIGIÃO PARA A IGUALDADE

As mulheres tem sido discriminadas por muito tempo por uma interpretação distorcida da palavra de Deus.
Eu tenho sido um cristão praticante toda minha vida e um diácono e um professor da Bíblia por muitos anos. Minha crença é uma fonte de força e conforto para mim, como as crenças religiosas são para milhares de pessoas no mundo. Então minha decisão de cortar meus laços com a CONVENÇÃO BATISTA DO SUL, após seis décadas, foi doloroso e difícil. 
Foi, entretanto, uma decisão INEVITÁVEL quando a convenção dos líderes, citando alguns versículos cuidadosamente escolhidos e afirmando que Eva foi criada depois de Adão e foi responsável pelo pecado original, ordenaram que as MULHERES devem ser SUBMISSAS aos seus maridos e PROIBIDAS de servirem como diaconisas, pastoras ou capelãs no serviço militar.
Esta visão que as mulheres são, de alguma forma, inferior aos homens não é restrita a uma religião ou crença. As mulheres são proibidas de terem um papel mais pleno e igual em muitas crenças. Essa discriminação, injustamente atribuída a uma Alta Autoridade, tem providenciado uma razão ou desculpa de privar as mulheres de direitos iguais pelo mundo por séculos.
Em seu mais repugnante, a crença que as mulheres devem se subjugar aos desejos dos homens permite escravidão, violência, prostituição forçada, mutilação genital e leis nacionais que omitem o estupro como crime. Mas também custa a muitos milhares de meninas e mulheres o controle sobre seus corpos e vidas e continua a lhes negar acesso justo a educação, saúde, emprego e influência dentro de suas próprias comunidades.
O impacto dessas crenças religiosas alcança todos os aspectos de nossas vidas. Elas ajudam a explicar porque em muitos países os meninos são educados antes das meninas; porque dizem às meninas quando e com quem devem se casar; e porque muitas enfrentam riscos enormes e inaceitáveis na gravidez e no parto por causa que suas necessidades básicas em saúde não são encontradas.
Em algumas nações islâmicas, as mulheres são restringidas em seus movimentos, punidas por permitir a exposição de um braço ou cotovelo, privadas da educação, proibidas de dirigir um carro ou de competir com homens por um emprego. Se uma mulher é estuprada, ela é severamente punida como culpada do crime.
O mesmo pensamento discriminatório está por detrás da contínua lacuna de gênero no pagamento e no porque existem poucas mulheres no escritório no Ocidente. A raiz desse preconceito se esconde profundamente em nossas histórias, mas seu impacto é sentido todo dia. Não são apenas as meninas e as mulheres que sofrem. Danifica a todos nós. As evidências mostram que investir nas mulheres desenvolve maiores benefícios para a sociedade. Uma mulher educada tem crianças mais saudáveis. Ela tem mais possibilidade de mandá-las para a escola. Ela ganha mais e investe na sua família.
Simplesmente é autodestruição para toda comunidade discriminar metade de sua população. Nós precisamos desafiar essas atitudes e práticas cíclicas e antiquadas.Eu entendo, entretanto, porque muitos líderes políticos podem ser relutantes sobre pisar neste campo minado. A religião, e tradição, são áreas poderosas e sensíveis para se desafiar.
Nós decidimos em dar uma atenção especial para a responsabilidade dos líderes religiosos e tradicionais em garantir igualdade e direitos humanos e publicamos uma declaração onde dizemos: "A justificação da discriminação contra as mulheres e meninas no campo da religião ou tradição, como se tivesse sido prescrito por uma Alta Autoridade, é inaceitável". Nós estamos convocando a todos os líderes para desafiar e mudar os ensinamentos e as práticas prejudiciais que justifiquem a discriminação contra as mulheres.
Nós pedimos, em particular, que os líderes de todas as religiões tenham a coragem de compreender e enfatizar as mensagens positivas da dignidade e da igualdade que toas as religiões mundiais majoritárias compartilham.
A verdade é que os líderes religiosos masculinos tem tido - e ainda têm - uma opção de interpretar os ensinamentos sagrados tanto para exaltar ou para subjugar as mulheres. 
Eles têm, para seus próprios propósitos egoístas, escolhido o último. Suas escolhas têm provido a fundação ou a justificação para muitas das constantes perseguições e abusos contra as mulheres no mundo. Esta é uma violação, não apenas contra a Declaração Universal dos Direitos Humanos, mas também aos ensinamentos de Jesus Cristo, os Apóstolos, Moisés e os profetas, Mohamed e os fundadores das outras grandes religiões. 
Está na hora de termos a coragem de desafiar estas visões.

Jimmy Carter - ex-presidente dos Estados Unidos

8.7.16

ROGER HAIGHT E A ECLESIOLOGIA DE CIMA

A reflexão sobre a igreja sempre ocupou um espaço considerável na produção teológica. Diversos teólogos de diferentes concepções, conservadores ou progressistas, tem se dedicado ao tema em vários momentos da história da igreja. Roger Haight, que ficou conhecido pelo seu livro Jesus, símbolo de Deus (São Paulo: Paulinas, 2005) e por conta desse texto recebeu notificação por meio da Congregação da Doutrina da Fé, dedicou-se ao tema da igreja no livro A comunidade cristã na história (2012).

No universo católico o tema voltou com força principalmente depois da eleição do cardeal Jorge Mario Bergoglio, o primeiro papa latino-americano, que vêm assumindo, como papa Francisco, posições que causam, em alguns setores da igreja, entre os mais conservadores, por exemplo, desconforto. Por outro lado, o jesuíta está promovendo novos ares de libertação e projetando uma igreja que seja mais aberta aos grandes temas da contemporaneidade. Francisco tem procurado responder de maneira pastoral aos desafios eclesiais. O caminho, ao que tudo indica, está sendo difícil, mas necessário.

Com o objetivo de contribuir ao debate eclesiológico, trago alguns apontamentos a partir da eclesiologia de Roger Haight que procura fazer uma distinção espacial na eclesiologia que ele adjetiva como sendo de cima ou de baixo.

O método que Haight delineia é comparativo-dialético. De um lado o modelo de uma eclesiologia de cima do outro o modelo de uma eclesiologia de baixo. Aqui iremos ver suas percepções quanto a eclesiologia de cima.

Em uma eclesiologia pensada e constituída a partir de cima, o exclusivismo é tido como a única possibilidade de refletir a eclesiologia. Ao contrário do pluralismo, não há um reconhecimento, embora possa ter um entendimento quanto à natureza plural da eclesiologia, o discurso será exclusivista. Sendo o pluralismo uma importante chave hermenêutica e dialógica no atual cenário da teologia contemporânea, a eclesiologia de cima tende a ter uma “tradição particular que se sobrepõe às outras” (HAIGHT, 2012, p. 38). Essa postura procura invalidar as demais tradições quando uma comunidade de fé, dependente de sua trajetória histórica e de sua tradição teológica e hermenêutica, ou seja, a linguagem é sempre uma condição para formular o discurso seja ele exclusivista ou pluralista, cria-se uma imaginação de que há apenas uma única igreja universal e essa única igreja procura estender às demais a sua maneira de ser e pensar a fé cristã. Sendo assim, “a única igreja verdadeira, de modo que, ao descrever-se, ela descreve o modo como toda a igreja deve ser” (HAIGHT, 2012, p. 38). Indubitavelmente Haight está pensando na Igreja Católica quando descreve os elementos que compõem uma eclesiologia de cima, mas sua observação pode, facilmente, mas com algumas restrições devido ao sistema católico ser diferente em alguns aspectos às demais igrejas, no caso do protestantismo histórico, ser aplicado a uma determinada denominação cristã que sempre procura acentuar a sua condição de exclusividade e de igreja mais “verdadeira” que outras.

Outro aspecto de um modelo eclesiológico que parte de cima para baixo é a necessidade de estar em constante contato – ou rememorá-lo sempre – com o fundamento que legitima a autoridade. Como bem faz menção Haight, as escrituras é que dão a base e a autoridade da igreja, mas no caso da Igreja Católica, além da escritura, há também os concílios e o magistério que detém o mesmo grau de autoridade da escritura. No âmbito do protestantismo histórico há o símbolo da teologia sistemática e as declarações doutrinárias que exercem o mesmo papel do magistério católico. A linguagem de uma eclesiologia de cima é uma linguagem doutrinária, onde a tradição se solidificou no dogma e ele, então, detém o domínio na comunidade e delimita as fronteiras por onde ela deve caminhar na reflexão da fé. Uma vez que a autoridade da igreja é estendida a outros segmentos de controle eclesial, a comunidade de fé fica refém do seu próprio discurso, que se torna repressor, e passa a se comportar como uma “igreja que se insurge contra o mundo e a cultura humana; o mundo é conceituado como aquilo que está fora da igreja. Em contraste com o mundo em sua secularidade, a igreja define a esfera do sagrado” (HAIGHT, 2012, p. 39).

Assim como a Igreja Católica, alvo das reflexões de Haight quanto a uma eclesiologia de cima, tem suas dificuldades dialógicas com a sociedade (mundo) por conta da sua tradição doutrinária enrijecida pelo dogma, a realidade no protestantismo histórico não é muito diferente também.

No âmbito do protestantismo histórico as publicações doutrinárias conhecidas como teologia sistemática faz a função de normatizar a doutrina. Em ambientes teológicos confessionais, a teologia sistemática deixa de ser um recurso literário, ou seja, uma maneira de descrever e pensar a fé a partir de sistemas teológicos, e passa a ser, como publicação em si, um sistema de pensamento teológico-doutrinário que norteia a concepção de fé dos futuros pastores e pastoras.

Em uma eclesiologia de cima, a estrutura e organização da igreja é de cima para baixo, naturalmente. Tomando como exemplo a igreja romana medieval, Haight observa a estrutura hierárquica da igreja começando com Deus, Cristo, o Espírito, Pedro, o papa, o bispo, o sacerdote e último, dentro de um modelo piramidal, o leigo (HAIGHT, 2012, p. 42). Para Juan Antônio Estrada (2005, p. 228), essa estrutura como se apresenta é um equívoco quanto ao entendimento da atuação e ação do Espírito Santo. Para ele, o Espírito Santo age na base da igreja e não no cume hierárquico. A questão é que este modelo eclesiológico tende “a ver a sua estrutura de ministérios em correspondência com a vontade de Deus” (HAIGHT, 2012, p. 44), ou seja, não é uma forma de condicionamento da história, mas sim um mandato divino. Como bem salienta Haight, essa não é uma prerrogativa da Igreja Católica, “grosso modo, outras igrejas fazem a mesma coisa” (HAIGHT, 2012, p. 44). A necessidade da prerrogativa divina para a constituição da eclesiologia é uma prática atestada tanto na realidade católica quanto na realidade protestante. A principal característica de uma eclesiologia de cima “é a convicção de que é possível respaldar-se nessas fontes autoritativas divinas da teologia e no correspondente método de recurso a elas para estabelecer uma estrutura sobrenatural, divina ou revelada da igreja” (HAIGHT, 2012, p. 44).

Em síntese, os principais elementos que, para Haight, compõem hermeneuticamente uma eclesiologia de cima são:

(a) a tendência em situar à igreja como se ela estivesse fora do contexto da história, e sua concepção assume um caráter de a-histórica ignorando as ambiguidades de vivenciar os acontecimentos da história, uma igreja com essa dimensão tende a assumir um papel exclusivista diante da sociedade e das demais religiões;

(b) o aspecto doutrinário como único recurso legítimo na construção do discurso, e, não obstante a isso, o seu enrijecimento nesse discurso como característica de uma pretensa fidelidade a um sistema sancionado pela vontade divina, portanto, uma eclesiologia que tende a ignorar outras tradições religiosas e, consequentemente, se fechando para o diálogo com essas tradições como também para com a sociedade quando se acrisola em seu imaginário doutrinário;

(c) um sistema dominado de cima para baixo onde os ministérios ordenados têm a primazia e os tidos leigos não tem a mesma oportunidade de servir com os seus dons concedidos pelo Espírito Santo.

Referências

ESTRADA, Juan Antônio. Para compreender como surgiu a igreja. São Paulo: Paulinas, 2005.

HAIGHT, Roger. A comunidade cristã na história: eclesiologia histórica. São Paulo: Paulinas, 2012, vol. 1.

24.6.16

O PASTOREIO DE JESUS E A IGREJA EVANGÉLICA

Mesmo morosa, a igreja tem demonstrado certas articulações com a sociedade no sentido de enxergar àqueles que estão fora dela como objeto da ética e da ação pastoral, mais isso tem ocorrido de forma paulatina e, em alguns casos, quase imperceptível.

A incapacidade de ler a realidade da cidade e contribuir para amenizar as suas mazelas, passa por problemas e conceitos crônicos no âmbito das igrejas evangélicas, a começar pelo entendimento quanto ao papel do pastor. No caso do protestantismo de missão, o ideal de pastor é entendido a partir do evangelismo conversionista, que apela muito mais para a conversão individual e não, necessariamente, para a transformação social. O pastor é o evangelista que “ganha almas” para Jesus. Além disso, o pastor, no protestantismo de missão, de modo geral, é o guardião do sistema denominacional, onde sua figura é central para o bom desempenho das funções eclesiásticas. Não se desenvolve uma pastoral a ponto de se comprometer com o contexto. É uma pastoral voltada para a o templo, para o reduto dos membros que consomem do pastor sua capacidade intelectual, suas habilidades, talentos, dons e energia.

As igrejas protestantes históricas têm sérias dificuldades quanto à compreensão do pastoreio quando entendido fora do indivíduo, ou seja, do pastor. De alguma maneira há uma excessiva preocupação com o sujeito pastor, como suas qualificações morais, oratória, credenciais teológicas e espiritualidade. De maneira nenhuma, essas qualidades devem ser menosprezadas para o exercício do ministério pastoral, mas é latente a ausência de um modelo pastoral que vá além do templo. Não é mais concebível neste tempo uma pastoral “preocupada unicamente com a manutenção de seus membros e programas” (1).

A pastoral urbana tem como modelo o pastoreio de Jesus. Com sua pastoral, Jesus não propôs uma nova religião, mas o Reino de Deus. A ação pastoral de Jesus olhava para as pessoas e nunca para as estruturas como o luxuoso templo de Jerusalém. 

O modelo pastoral de Jesus impõe à comunidade de discípulos uma práxis que não olhe apenas, ou tão somente, para a igreja, mas sim para a cidade. Jesus não vivia nas sinagogas, mas sim nas cidades. Ele vivia no meio das pessoas. Na sai caminhada, ele focou em pessoas. Investiu nelas o seu tempo e energia. Ao mesmo tempo em que fazia isso, Jesus atacou as estruturas religiosas que, ao longo da história, perdeu a capacidade de olhar as necessidades daquela gente.

O pastoreio de Jesus envolve a sua pessoalidade. Ele se doa ao outro nas suas necessidades espirituais e materiais. Jesus vive entre o povo. Come e bebe com gente menosprezada. Ele se assenta com publicanos e compartilha com eles o pão. Jesus vivia na companhia do povo e sua caminhada foi pelos vilarejos e cidades. Ele não ficou enclausurado em uma sinagoga, mas viveu a experiência do Abba de forma intensa, procurando mostrar o rosto humano de Deus àquela gente.

O modelo pastoral de Jesus é baseado em uma práxis que integrava o ser humano à sua terra, aos seus direitos e ao seu Deus. Esse deve ser o modelo pastoral perseguido pela igreja que quer ser relevante na sociedade.

Esse é o desafio, não somente, mas principalmente, às igrejas evangélicas que carrega em sua trajetória uma concepção eclesiocêntrica de pastorear, uma vez que na tradição protestante o sujeito do pastoreio é o ministro ordenado e não, necessariamente, os cristãos. Falta ainda fomentação de um entendimento de que todos são convocad@s por Jesus para o desempenho da missão pastoral não sendo, portanto, a missão de apenas um indivíduo, ou seja, do pastor da igreja.

A proporção em que as cidades têm crescido tem sido alvo de intenso debate entre urbanistas, cientistas sociais e teólogos. É na cidade que se dão os projetos de vida; é nela que as realidades sociais mostram as suas facetas; é na cidade que as pessoas procuram sentido em meio aos seus dilemas. A pastoral passando por um processo de desterritorialização da igreja, ela se volta para o contexto urbano procurando ser elemento agregador do gênero humano.

A cidade tem sua dinâmica própria e seu processo contínuo de produção, favorecendo condições para a desintegração do ser humano em seus aspectos vitais. Temos como exemplo a própria relação com a natureza, com o outro, com a perspectiva da vida, o que gera uma série de doenças e psicoses por conta da atividade frenética estabelecida pelo círculo vicioso de obter-ganhar-consumir-ostentar status.

Diante da cidade, com todos os problemas que nos sãos conhecidos, a tarefa da pastoral é ser a ação do povo de Deus na cidade a fim de proporcionar libertação, tendo como seu sujeito a coletividade, ignorando credo religioso, condição social e instrução educacional.

A mensagem do Reino de Deus é integral, não paliativa.

Algumas constatações ajudam a entender esse distanciamento em relação a pastoral urbana. As igrejas evangélicas tendem a não fazer uma análise conjuntural da sua realidade; não visualiza os grandes problemas sociais que as cercam; não superam o conceito de “verdade” e “racionalidade”; perderam a leitura da Bíblia por causa da intermediação de doutrinas e de chaves hermenêuticas consideradas como verdades universais. Esses elementos inviabiliza um projeto de pastoral urbana.

A pastoral urbana se dá a partir do comprometimento com a sociedade, tornando-a parte dela, deixando de privatizar a fé para assumir os desafios prementes de uma cidade. Uma igreja que tem como novidade o Reino de Deus e todas as implicações disso, não pode olhar apenas para si mesma. A diversidade da manifestação do Reino de Deus exige a fomentação de uma pastoral urbana.

A missão da igreja, portanto, não pode se limitar a proclamar uma mensagem de “salvação da alma”: sua missão é fazer discípulos que aprendam a obedecer ao Senhor em todas as circunstâncias da vida diária, tanto no privado como no público [...]. A missão integral só é possível quando há discípulos que têm visão de conseguir a influência dos valores do Reino de Deus a todas as esferas da sociedade (2).

Viver na cidade e viabilizar a presença da igreja nela é um desafio. Entendendo seu contexto, apontando soluções pastorais. Ela pode concretizar ações em sua localidade e seu contexto.

Notas

(1) KOHL, Manfred W. & BARRO, Antônio Carlos. O papel do pastor na transformação da sociedade. In: KOHL, Manfred W. & BARRO, Antônio Carlos (Orgs.). Ministério pastoral transformador. Londrina: Descoberta, 2006, p. 105.

(2) REIS, Gildásio. C. René Padilla: introdução à sua vida, obra e teologia. São Paulo: Arte Editorial, 2011, p. 144.

21.6.16

VOZES QUE CLAMAM NO DESERTO: INDICAÇÕES BIBLIOGRÁFICAS SOBRE OS BATISTAS

Quando a denominação deixou de exercer um certo domínio na formação e divulgação de literatura, por razões diversas, mas sendo uma delas a extinção operacional da JUERP, os batistas no Brasil se viram diante de uma pluralidade em termos de informação e construção do seu pensamento. Houve quem discordasse com elegância da narrativa oficial dos primeiros batistas no Brasil, patrocinada pela Convenção Batista Brasileira e propagada pelo Pr. José Reis Pereira. Estamos falando de Betty Antunes de Oliveira e seu texto Centelha em restolho seco (São Paulo: Vida Nova, 2005). A hegemonia de uma narrativa oficial perdeu espaço quando vozes dissonantes se empenharam em des/construir narrativas obnubiladas pelo discurso hegemônico e centralizador, herança, em grande parte, dos missionários pioneiros que, naturalmente, trouxeram o evangelho, mas também sua cultura e ideologias.

Os textos que elencamos a seguir tem como principal objetivo contribuir para o diálogo entre os batistas. A proposta é trazer autores, desprovidos de reconhecimento denominacional, embora Zaqueu Moreira de Oliveira seja alguém com tal reconhecimento na denominação, mas a grande maioria não é, ou seja, não há um autor responsável pela narrativa oficial, portanto, não há pretensões de ser um texto definitivo. A grande maioria dos textos são frutos de pesquisas acadêmicas dos autores, o que, per si, ganha credibilidade por se tratar de pesquisadores. Assim, esses textos trazem contribuições para se pensar o modo de ser batista por vias alternativas. Lamentamos a ausência, ainda não publicada, da tese de doutorado do Pr. Alberto Kenji Yamabuchi que discutiu a questão de gênero na construção da história dos batistas no Brasil – O debate sobre a história das origens do trabalho batista no Brasil: uma análise das relações e dos conflitos de gênero e poder na Convenção Batista Brasileira dos anos 1960-1980. Tese de Doutorado. (Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo). São Bernardo do Campo: UMESP, 2009.

 ***
Batistas: dominação e dependência

João Pedro Gonçalves Araújo procura entender a dominação que os primeiros missionários norte-americanos exerceram sob os batistas brasileiros. O autor analisa os conflitos e a resistência sob diferentes aspectos.

Do confronto ao diálogo: o estilo batista de ser e a questão ecumênica no Brasil

Nilo Tavares Silva coloca a discussão do ecumenismo entre os batistas brasileiros. Fruto de uma pesquisa acadêmica, o autor traça as dificuldades que os batistas encontram para tratar o ecumenismo.

Histórias, tradições e pensamentos batistas

João Pedro Gonçalves Araújo traz importantes contribuições para uma geografia dos batistas. Fazendo uma leitura atenta dos documentos e atas de igrejas batistas históricas, o autor traça o perfil, as dificuldades, os conflitos e as crises dos missionários e os primeiros batistas brasileiros.

Liberdade e exclusivismo: ensaios sobre os batistas ingleses

Zaqueu Moreira de Oliveira traz a gênese da tradição dos batistas ingleses. As principais questões levantadas pelos primeiros batistas como John Smyth e Thomas Helwys são trabalhadas pelo autor. Um livro importante para compreender a trajetória do movimento batista e suas principais lutas como liberdade religiosa e separação entre Igreja e Estado.

O discurso batista: considerações à luz da análise do discurso

Ierson Silva Batista aplica a análise de discurso aos princípios batistas. Nesse livro o autor procura entender as principais distinções entre doutrinas e princípios para os batistas.

O marco inicial batista: uma discussão historiográfica sobre os primórdios do trabalho batista no Brasil

Fruto de uma pesquisa acadêmica, Marcelo Santos investiga o surgimento dos batistas no Brasil. Olhando para Santa Bárbara D´Oeste/SP e Salvador/BA. Além disso, o autor busca compreender a ideologia dos primeiros missionários no Brasil.

Os batistas: controvérsias e vocação para a intolerância

Organizado pelos pastores Jorge Pinheiro & Marcelo Santos, o livro traz a contribuição de pastores e teólogos batistas em temas como história dos batistas, movimento carismático, questões de gênero e teologia com seu aspecto social. Um livro imprescindível para o pensamento batista.

Quatro frágeis liberdades: resgatando a identidade e os princípios batistas
O autor norte-americano, Walter B. Shurden, trata dos quatro importantes princípios para os batistas: a liberdade da Bíblia, a liberdade individual, a liberdade da igreja e a liberdade religiosa. Com maestria, o autor expõe os fundamentos desses princípios, acentuando a pluralidade que envolve a ação e a teologia dos batistas.

31.5.16

PASTORES: VASOS DE BARRO

A relação de Paulo com a igreja em Corinto foi tensa em alguns momentos. O apóstolo sofria constantemente “ataques” por parte da comunidade que tinha preferências por outros líderes e deixava isso bem claro.

Em 2Coríntios, Paulo enfrenta uma crise ministerial com a igreja e podemos dimensionar isso em alguns trechos da carta.

As acusações que faziam ao apóstolo afetavam a sua vida e ministério. Em relação à sua vida, “diziam” que o apóstolo andava com pessoas “mundanas” (10,2) e o acusavam de não ser de Cristo (10,7). Quanto ao seu ministério, a sua pregação era questionada e ele passa a ser considerado um “mau” pregador (11,6). A comparação com Apolo era inevitável e pessoas da comunidade faziam questão de acentuar as diferenças entre os dois. Ainda no capítulo 11 (versículo 16), Paulo é tratado como um “louco” (a frona einai), ou seja, alguém insano.

As críticas são sintetizadas por Paulo (10,10): “pois dizem: As cartas dele são duras e fortes, mas sua presença pessoal é fraca, e sua pregação não impõe respeito”. Quanto à sua pregação, quando olhamos o texto (grego), o correto seria “desprezível” (exouqenhmenoz).

Não por acaso que 2Coríntios é considerada uma carta chorosa (2,4).

Quando o apóstolo fala sobre sua condição pastoral, prefere usar o exemplo do barro (4,1-7).

Diante de todas as críticas, Paulo se vê como alguém que precisa legitimar o seu ministério e enfrentar os seus acusadores. Isso ele faz e reconhece, como alguém fora de si (capítulo 12), mas percebe que não vale muito a pena. Há pessoas que ignoram argumentos quando eles não corroboram o que pensam.

Paulo está lidando com pessoas que não o reconhecem como um “vaso de barro”. Ele está trabalhando com pessoas que apostam na autossuficiência do apóstolo. Para esses acusadores, o apóstolo não poderia demonstrar fraqueza e Paulo faz questão de mencionar a sua fraqueza (12,5).

É indubitável o amor de Paulo pela igreja. Mas esse amor não estava alicerçado nas estruturas que alguns da comunidade queriam ver em evidência na vida de Paulo. O amor que Paulo expressa pela igreja se dava na comunhão de ideais e principalmente na proposta do evangelho.

Ele quer se mostrar com humanidade à comunidade e para isso recorre ao tema do vaso que é feito de barro.

O chamado para o ministério, de acordo com Paulo, se dá porque Deus convoca baseado na sua misericórdia. Nesse sentido, não se trata de méritos ou diplomas, mas de entender o chamado e atender aos critérios do Cristo. Há uma responsabilidade para tratar o evangelho, mesmo correndo um sério risco de não ser ouvido, de não ser atendido. Paulo é consciente disso.

Mas se o vaso é de barro, há pessoas que gostam de esmagar potes.

Há pessoas que se apegam as estruturas e tornam a vida de seus pastores difíceis, não acompanhando o pastor na condução da igreja por diferentes razões, algumas delas Paulo enfrentou em Corinto, como preferir a companhia de pessoas que ainda estão “fora” da comunidade ou até mesmo recusar a instrução pastoral por meio da pregação bíblica.

Pastor é feito de barro.

Uma pesquisa realizada pelo Pr. Lourenço Stélio Rega (Diretor da Faculdade Teológica Batista de São Paulo) alguns anos atrás (não há intenção aqui de atualizar os dados), trouxe números preocupantes sobre o Ministério Pastoral. Destacamos alguns aspectos dessa pesquisa:

- 16% o treinamento recebido no seminário pouco tem servido no ministério;

- 8% se pudesse deixaria o ministério e procuraria outro meio de sobrevivência;

- 13% o exercício do pastorado empobrece a vida família;

- 78% não estão satisfeitos com a autodisciplina no uso do tempo;

- 77% não estão contentes e satisfeitos com o tempo que investe na vida devocional;

- 51% têm de 1 a 5 amigos de verdade (49% não têm?);

- 9% não tem nenhum amigo de verdade;

- 38% não tem desenvolvido uma perspectiva de vida para daqui cinco anos;

- 30% se sentem mais inferiorizados hoje do que no passado. Se pudesse voltar atrás mudaria muita coisa na vida e ministério;

- 10% a igreja já foi responsável por desastres na família do pastor;

- 88% tem facilidade em perdoar os que ofendem;

Esses dados, revelam que pastores não são feitos de ferro ou de aço, mas de barro. O vaso de barro quebra, racha, mas se reconstrói, se refaz nas mãos de Deus (à exemplo do profeta Jeremias).

O barro demonstra a fragilidade do pastor e evoca compreensão das ovelhas para com o seu pastor.

6.5.16

QUE PALAVRA?

O pregador, diante do texto de 2Tm 2,15, diz, de maneira peremptória: o pastor precisa manejar bem essa palavra (mostrando a Bíblia para o auditório). Para completar, ele recorre a 2Tm 4,2 e completa: essa palavra (mostrando a Bíblia para o auditório) deve ser pregada a tempo e fora de tempo.

Associar a expressão “palavra” que aparece no Novo Testamento com a “Bíblia”, é muito comum.

Essa associação se deve, na grande maioria dos casos, a compreensão de que a Bíblia é a “palavra de Deus” e, portanto, quando o texto fala de “palavra” está se referindo à Bíblia (texto escrito).

Interpretar textos como 2Tm 2,15 (que maneje bem a palavra da verdade), 2Tm 4,2 (prega a palavra) ou Tg 1,22 (tornai-vos, pois, praticantes da palavra) – para dar alguns exemplos –, como se os mesmos estivessem fazendo referência à Bíblia, é um equívoco.

Aqui, não está em discussão se crer ou não que a Bíblia é a “palavra de Deus”, não é essa a questão.

A questão se dá em torno da aplicação do termo “palavra” – que aparece diversas vezes no Novo Testamento – ao texto bíblico, ou seja, uma interpretação automática de uma expressão (palavra) sendo associada com uma ideia (Bíblia).

As razões, para não se interpretar a expressão palavra como se estivesse fazendo referência ao texto bíblico, podem ser elencadas assim:

1 – Quando o Novo Testamento faz uso do termo Escritura, ele não se refere a ele mesmo, ou seja, Novo Testamento. Isso é claro em textos como o de Lucas 24,27 e 32. O texto de 2Tm 3,16 não contempla o Novo Testamento, apenas o que hoje conhecemos como “Antigo Testamento” (a Bíblia Hebraica).

2 – Os textos do Novo Testamento não estavam (todos) disponíveis para a comunidade primitiva (os de Paulo? – 2Pe 3,15-16), portanto, a tradição oral era a única maneira de transmitir o Evangelho. Não por acaso que alguns textos do Novo Testamento traz a permanência na tradição – algo já fundamentado na trajetória do cristianismo primitivo (2Ts 2,16; 3,6).

3 – Quando a palavra aparece no Novo Testamento ela se refere ao Evangelho, pregado, ou seja, o Evangelho de Jesus. Isso é frequente em Atos dos Apóstolos, por exemplo, como também nos Evangelhos Sinóticos (Mc 2,2 e 4,33; At 4,4 e 29).

4 – Nos textos paulinos a palavra é Jesus, ou seja, o Evangelho (2Co 2,17). A palavra da verdade não é um texto, mas sim uma pessoa – Jesus (2Co 6,7).

5 – Nos escritos joaninos a concepção entre palavra e Jesus ganha contornos radicais. As palavras de Jesus são as palavras do Pai. Por isso apenas uma pessoa poderia ser a verdade (Jo 14,6).

A partir disso, é possível dizer que a expressão palavra no Novo Testamento não alude ao texto bíblico. A palavra não é texto, mas uma mensagem proclamada e, depois, uma pessoa.

Não se trata de pregar o texto bíblico em si, mas uma pessoa, a palavra de Deus, Jesus.

Dito isso, não é concebível associar o termo palavra no Novo Testamento com Bíblia. Num primeiro momento a palavra é associada ao Evangelho – a proclamação da igreja a respeito de Jesus – e não com a Bíblia. Isso nunca foi possível com os autores do Novo Testamento.

Não por acaso que Tiago 1,22 traz “ouvintes” da palavra. Ouvimos a palavra (Jesus) e tornamos praticantes dele, Jesus.

A essa altura pode surgir o questionamento: e hoje, a palavra não é o texto bíblico? Sim. Mas só porque ela nos mostra e nos dá a conhecer Jesus. Mas daí dizer que a expressão palavra se refere ao texto bíblico já é outra coisa.

Assim, ninguém maneja Jesus como se fosse um livro a ser lido ou decorado, mas vivido. Assim, é possível falar dele (Jesus) a toda a oportunidade – 2Tm 4,2 –, pois ele é a palavra. Temos o acesso a ele por meio do texto bíblico que chegou às nossas mãos porque a palavra (Evangelho de Cristo) foi proclamado pelos primeiros cristãos. 

22.4.16

ANTAGONISMO BATISTA - PARTE II

A eclesiologia batista e suas contradições: Diretoria Administrativa tem prerrogativa espiritual?

Proponho! Há apoio? Apoiado. Em votação...

Assim os membros da Diretoria Administrativa da igreja são votados para mais um período de atividade.

As Igrejas Batistas no seu aspecto jurídico, são dirigidas por Estatuto e Regimento Interno. Em seu Estatuto há os membros da Diretoria Administrativa que são responsáveis por dirigir a parte burocrática da igreja.

Geralmente, os membros da Diretoria Administrativa têm suas funções discriminadas no Estatuto, cabendo a eles exercerem o que preceitua os dispositivos...

Compete ao presidente:
- Convocar e dirigir as Assembleias Gerais da Igreja;
- Representar a Igreja, ativa, passiva, judicial e extrajudicialmente;
- Assinar as atas das Assembleias Gerais da Igreja, depois de aprovadas...

Compete ao vice-presidente:
- Substituir integralmente o presidente em seus impedimentos eventuais e na vacância da presidência...

Compete ao primeiro secretário lavrar e assinar as atas das Assembleias Gerais da Igreja.

Compete ao segundo secretário auxiliar o primeiro secretário em suas funções e substituí-lo em seus impedimentos eventuais ou na vacância do cargo.

Compete ao primeiro tesoureiro:
- Receber, guardar e contabilizar todos os valores financeiros da Igreja;
- Efetuar todos os pagamentos autorizados pela Igreja;
- Apresentar balancetes nas Assembleias Gerais ou a qualquer momento que solicitado...

Compete ao segundo tesoureiro auxiliar o primeiro tesoureiro em suas funções e substituí-lo em seus impedimentos eventuais ou na vacância do cargo.

Em nenhuma dessas funções aparece um dispositivo espiritual para os membros da Diretoria Administrativa. É aqui que a eclesiologia batista encontra dificuldades, uma vez que o pastor é o líder espiritual da igreja e, ao mesmo tempo, com algumas exceções, também exerce a função de presidente da igreja no seu aspecto jurídico. Quando o pastor se ausenta, o vice-presidente (aspecto jurídico) assume as funções espirituais que cabe ao pastor. Se a mesma pessoa tiver qualificações espirituais para assumir a liderança da comunidade e exercer a função de vice-presidente, será proveitoso. Se não corresponder, a igreja sente as incoerências.

Os membros da Diretoria Administrativa, segundo o Estatuto, não têm função espiritual, apenas burocráticas e administrativas.

Há um antagonismo aqui.

Os membros da Diretoria Administrativa são tratados como líderes espirituais da igreja e geralmente estão em reuniões com o pastor-presidente para tratar de assuntos espirituais da comunidade e, não necessariamente, de temas burocráticos e administrativos. Assim, @ secretári@, que tem suas prerrogativas estatutárias, é chamad@ a emitir sua opinião em assuntos disciplinares e espirituais. O mesmo ocorre com os demais membros da Diretoria Administrativa. Demais líderes da igreja, que trabalham com pessoas, são deixados de fora de tais encontros, alegando que os mesmos são tem prerrogativas estatutárias.

O pastor, endossa essa perspectiva quando faz reuniões com a Diretoria Administrativa para tratar de temas correntes na comunidade que não seja, meramente, administrativo.

Esse antagonismo poderia ser minimizado, se houvesse oportunidade para que os líderes espirituais da comunidade (líderes, corpo diaconal) fossem chamados a compor uma rede de assistência espiritual com qualificações espirituais para tal. Cabendo a Diretoria Administrativa os assuntos burocráticos da igreja.