6.12.12

PLURALIDADE COMO ELEMENTO DE UNIDADE: O CASO DOS BATISTAS

A pluralidade é um paradigma da cultura pós-moderna. A capacidade de aglutinar a diversidade e o diferente é uma característica do comportamento da sociedade que tem como marca a secularização, ou seja, não há uma hegemonia de raciocínio ou força mobilizadora única. Segundo Peter Berger houve o fim do monopólio religioso e ideológico. Neste sentido então, o pluralismo torna-se um princípio para o diálogo a partir da alteridade, ou seja, olhar o outro com suas convicções e tradições e estabelecer uma relação fraterna e respeitosa ao ponto de um mútuo enriquecimento. Isso é possível, segundo Claude Geffré, por ser o pluralismo um paradigma teológico.

Por esses dias tivemos mais uma oportunidade de vivenciar um diálogo fraterno e cordial entre a Aliança Batista Mundial (ABM), representada por Timothy George, deão da Beeson Divinity School, da Universidade de Stamford, em Birmingham, estado do Alabama, EUA, e presidente da Comissão de Doutrina e União Cristã da Aliança Batista Mundial, que participou de um sínodo no Vaticano, e foi recebido pelo Papa Bento XVI.

Na recepção à delegação da ABM, Bento XVI se dirige aos batistas da seguinte maneira:

***
Queridos amigos:

Dou-vos minhas cordiais boas-vindas, membros da comissão internacional patrocinada pela Aliança Mundial Batista e pelo Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos. Agrada-me que tenhais escolhido como lugar para vosso encontro esta cidade de Roma, onde os apóstolos Pedro e Paulo proclamaram o Evangelho e coroaram seu testemunho do Senhor ressuscitado derramando seu sangue. Espero que vossas conversas tragam abundantes frutos para o progresso do diálogo e o crescimento do entendimento e da cooperação entre católicos e batistas.

O tema que haveis escolhido para esta fase de contatos, «A Palavra de Deus na vida da Igreja: Escritura, Tradição e Koinonia», oferece um contexto promissor para examinar estas questões historicamente controvertidas, como a relação entre Escritura e Tradição, a compreensão do Batismo e dos sacramentos, o lugar de Maria na comunhão da Igreja e a natureza do primado na estrutura ministerial da Igreja.

Para conseguir nossa esperança de reconciliação e uma maior fraternidade entre batistas e católicos, é necessário enfrentar juntos temas como estes, com um espírito de abertura, respeito recíproco e fidelidade à verdade libertadora e ao poder salvador do Evangelho de Jesus Cristo.

Como crentes em Cristo, nós o reconhecemos como o único mediador entre Deus e a humanidade (1 Timóteo 2, 5), nosso Salvador, nosso Redentor. Ele é a pedra angular (Efésios 2, 21; 1 Pedro 2:4-8); e a cabeça do corpo, que é a Igreja (Colossenses 1, 18). Neste período do Advento, atendemos sua vinda em espera e oração. Hoje o mundo precisa mais que nunca de nosso testemunho comum de Cristo e da esperança trazida pelo Evangelho. A obediência à vontade do Senhor nos estimula constantemente a alcançar essa unidade tão emotivamente expressa em sua oração sacerdotal: «Que todos sejam um... para que o mundo creia» (João 17, 21). A falta de unidade entre os cristãos «contradiz abertamente a vontade de Cristo, e é escândalo para o mundo, como também prejudica a santíssima causa da pregação do Evangelho a toda a criatura».

Queridos amigos, eu vos transmito meus melhores desejos e vos asseguro minhas orações para a importante obra que empreendestes. Invoco os dons do Espírito Santo de sabedoria, entendimento, força e paz sobre vossas conversas, sobre cada um de vós e sobre vossos entes queridos.

Traduzido por Élison Santos

***

O batista norte-americano tem alguns textos publicados no Brasil sendo o principal deles Teologia dos reformadores (Vida Nova). Um estudioso das religiões, Timothy George salientou no encontro que os “bVisite: Gospel +, Noticias Gospel, Videos Gospel, Musica Gospelatistas e católicos divergem em temas teológicos e eclesiásticos, mas estão comprometidos em buscar maior entendimento mútuo através de um processo de diálogo amoroso e respeitoso”.

O encontro pontuou questões de evangelização e a capacidade de diálogo, além de alertar para a necessidade de olhar para países onde a liberdade religiosa (um dos principais princípios dos batistas) está sendo cerceada por autoridades e governos autoritários. Sobre a evangelização o teólogo batista completou de que todos os batistas confessam uma “fé vigorosa no único Deus trino, que em sua grande misericórdia e amor nos fez participantes da sua vida divina através de Jesus Cristo, o grande evangelizador, que nos salvou somente por sua graça”.

O ecumenismo sempre fez parte da agenda da ABM. Os batistas, de um modo geral, sempre preservaram a relação ecumênica, principalmente na Europa. Há, inclusive, no Conselho Mundial de Igrejas (CMI), batistas. O mesmo não ocorre no país de Timothy George. A Convenção Batista do Sul dos EUA, uma das maiores do mundo, por diversas vezes, recusou convites para fazer parte do CMI e da própria ABM.

Os batistas deveriam ser os principais a protagonizar o diálogo ecumênico exatamente por conta de seus princípios. Como lembra muito bem Zaqueu Moreira de Oliveira, o diálogo é possível desde que os princípios não sejam feridos.

A pluralidade é um elemento de unidade porque permite aos batistas, por não serem tutelados por nenhum segmento eclesiástico ou denominacional, pensar diferente e poder construir caminhos com outros irmãos.

1.12.12

“DEUS CONOSCO” – A MENSAGEM DO NATAL

É Natal.

Recitais são preparados; pessoas ganham presentes; crianças ficam felizes. Toda essa dinâmica nós já conhecemos. O Ocidente se especializou em transformar tudo em dinheiro, desde sexo até a religião.

De fato é lindo este tempo. As pessoas ficam mais solicitas, mais amigáveis, embora tenha alguns seres humanos que em época nenhuma fica amigável, mas de um modo geral as pessoas procuram se entender umas com as outras. Isso é o que eles chamam por aí de “a magia do natal”.

Para o Cristianismo o Natal é um símbolo de “encarnação”. É dizer que Deus se fez “carne quente e mortal” (L. Boff) e armou acampamento entre nós (Jo 1,14).  

No texto de Mateus 1,23 diz que ele seria chamado de Emanuel, ou seja, o “Deus conosco”. A presença de Jesus no evangelho de Mateus é sentida no início, o nascimento de Jesus, no meio quando se reúne dois ou três em seu nome e no fim quando diz: “eis que estou convosco todos os dias”. É uma cristologia emanuélica. É uma cristologia da presença efetiva de Jesus no meio da comunidade de fé.

Assim como o evangelho de João e o evangelho de Mateus acentuam a presença de Jesus no meio do povo. Tanto num quanto noutro, o ponto é a “encarnação”. Ele entra em nossas vidas e nunca mais se retira. A história já não é apenas conhecida pela Trindade, mas agora experimentada pela comunidade trinitária.

O que a maioria das pessoas que frequentam igreja fez com essa realidade espiritual?

Não presenciamos uma cristologia na comunidade que trate Jesus como aquele que está perto, que está no meio. Suas palavras são ignoradas pela maioria das pessoas na igreja. Ora-se em seu nome, canta-se em seu nome, mas não agem como ele agiu, não procura as pessoas que ele procurou, não valoriza o ser humano como ele valorizou. Em resumo, presenciamos um “Jesus esquizofrênico”. Ele não é real. As relações pessoais não passam pelo crivo de seus ensinamentos. É um “Cristo” transcendente. É um “Cristo” que tem prazer na disciplina. É um “Cristo” que não se importa muito com os fracos e carentes da comunidade de fé. Não há uma relação consciente de que ele, Jesus de Nazaré, está presente como o Emanuel no meio da igreja.

Natal não pode ser apenas festa e troca de presentes. Natal precisa acentuar um Cristo presente que olha para o ser humano na sua integralidade. Natal é tenda entre nós; Natal é o Emanuel com a igreja.

12.11.12

E O NOSSO PROBLEMA CONTINUA SENDO...

Como confundimos o ser cristão com o fazer alguma coisa na igreja. Ser cristão deixou de ser, ou nunca foi, ser semelhante a Cristo. Viver para Cristo com os olhos no outro (próximo). Esse continua sendo um problema para nós. Como desvencilhar o ser cristão com alguma atividade na igreja?

Outro problema é a velha ideia de que o nosso problema é a liturgia. Se a liturgia for “saudável”, a igreja é boa. Se cantar os hinos tradicionais, é uma igreja ótima. Se não houver coreografia, melhor ainda. Nutriu-se a ideia de que uma igreja saudável teologicamente é uma igreja com uma liturgia “correta”. Que bobagem. O Novo Testamento não fala de liturgia, mas sim de louvor, adoração, oração, ajuntamento, comunhão. A liturgia se adéqua ao seu contexto e não ao contrário. Não tem propósito dizer que os irmãos africanos não podem usar seus atabaques nas celebrações; como também dizer que os irmãos do Nordeste não deveriam usar os instrumentos típicos de sua região! Agora julgar a espiritualidade de alguém ou de uma igreja por conta da sua liturgia é ignorância bíblica. Olhemos os inúmeros exemplos no Antigo Testamento: Isaías chama atenção do povo para um detalhe em suas celebrações, estava tudo muito bonito, pomposo e impecável, mas as vidas dos celebrantes estavam em ruínas (Is 1)! O mesmo é com Malaquias, Ageu e Amós! É inacreditável que exista gente por aí dividindo igreja por conta de liturgia.

Andando por aí ouço vários pregadores falando de doutrina. Alguns até mesmo sabem o que estão dizendo, tem uma clara ideia dos sistemas doutrinários e tornam esses o critério para ser cristão. Esses agem como se o próprio Jesus tivesse formulado algum dogma e doutrina. Agora outros quando falam de doutrina não tem nem mesmo ideia do que esta falando. Não conhece os sistemas doutrinários em suas diferentes vertentes, católico, protestante e pentecostal. Formulam mensagens de doutrinação cobrando algo das pessoas que nem mesmo podem entender o sistema teológico de Calvino ou Lutero. Agora quando vão para a Bíblia falar de doutrina, se esquecem de fazer uma exegese básica do texto para perceber que doutrina nos evangelhos sinóticos não é o mesmo que doutrina nas pastorais. A doutrina de Jesus era estranha aos fariseus e escribas de seu tempo, melhor, a doutrina de Jesus não tinha nada a ver com as formulações dogmáticas e pesadas dos fariseus e escribas. A doutrina em Marcos 1,21-28 é Jesus integrar a comunidade de fé um homem que há muito tempo estava excluído do convívio religioso por conta de um espírito maligno. Não tem nada a ver com doutrinação, mas sim com vida, com transformação. Agora se for pensar em doutrina nas pastorais, é evidente que o problema é com o gnosticismo e a ideia de doutrina não está relacionada ao evangelho ou a pregação, mas sim a tradição dos apóstolos e seus ensinamentos.

Parece que o nosso problema continua sendo a doutrina correta. Ela precisa ser unívoca. Na doutrina correta não há diversidade de interpretação. Ela precisa ser aceita de ponto a ponta e quando assim se faz leva-se o título de ortodoxo.

Enquanto houver pessoas confundindo o ser cristão com o fazer alguma coisa na igreja; enquanto houver uma equivocada ideia de que a liturgia é o coração da igreja; quando a doutrina correta – seja lá o que for isso –, servi de corte entre os ortodoxos e os progressistas... o nosso problema continuará sendo um punhado de gente que vai ao templo e acha que é igreja brigando para fazer algo e esquecendo de ser; gente que acha que a liturgia é o termômetro de uma “igreja saudável”; e a doutrina ser usada para validar ou desqualificar pessoas, continuaremos tendo problemas.

24.10.12

A DURA TAREFA DE QUEBRAR CASTANHAS

Lembro-me quando li pela primeira vez o livro do pastor Ed René Kivitz – Quebrando paradigmas. Foi um livro “chocante”. Cursava teologia na Faculdade Teológica Batista de Campinas quando me deparei com um texto instigante e que desconstruía toda minha maneira de “ver” igreja e sua estrutura. Kivitz desconstrói o lugar do templo, do domingo e do clero.

Confesso que suas ideias me deixaram perturbado por um tempo, aliás, no seminário não existe matéria que não deixe o aluno perturbado... Bem, seu texto produziu em mim uma necessidade de conferir aquilo que acabara de ler em um texto de apenas 105 páginas. Percebi que a estrutura de uma igreja Batista tradicional desconsiderava as exigências do Novo Testamento e, mais ainda, que durante todo aquele tempo, antes do texto de Kivitz, eu havia admirado uma estrutura que não tinha muita coisa a ver com a vivência da igreja primitiva. Suas duras críticas ao templo, ao domingo e ao clero, deixou em mim uma sensação de que, ao longo do tempo, foi arquitetado ao na igreja que seguiu um modelo de funcionamento que não tinha muito a ver com o Novo Testamento. Exemplifico:
           
                                    HOJE                                     NOVO TESTAMENTO

                                    Templo                                  Casa

                                    Cargos                                   Dons espirituais

                                    Funções                                 Serviços

                                    Domingo                               Semana toda

                                    Pastor                                    Todos são ministros

                                    Departamentos                      Ministérios
 
Percebi que não seria fácil desenvolver isso em uma comunidade, até porque eu mesmo estava envolvido naquela estrutura de cargos, departamentos, comissões, assembleias e coisas do tipo. Percebi também que se quisesse seguir pelo menos algumas indicações do Novo Testamento quanto ao funcionamento da igreja precisa aprender a arte de quebrar castanhas. Tirar castanha do ouriço não é tarefa fácil. Exige paciência, traquejo e força ao mesmo tempo.

Uma igreja que não olhe o templo como lugar sagrado; uma comunidade que não veja o domingo como o único dia de estar junto aos irmãos; uma igreja que não veja no pastor o único responsável pelo desenvolvimento do corpo de Cristo. Para surgir uma igreja assim, ou seja, dinâmica e vibrante, a designação de “membro ativo” não pode ser meramente daquele que contribui e frequenta os cultos. Tem que ter algo a mais.

É preciso desenvolver os dons espirituais como único meio para edificação do corpo de Cristo; é preciso desenvolver a comunhão como elemento chave de agregação e unidade; é necessário apresentar Jesus e sua pessoalidade como exemplo de pastoreio.

3.10.12

FALTA POUCO

Estou contando os dias até 07 de Outubro.

Não aguento mais ver candidatos na TV falando tudo àquilo que o povo já sabe de cor – o que? – de que a vida nos grandes centros urbanos é desfavorável para os mais carentes. Para essas pessoas os hospitais estão superlotados; para essas pessoas a segurança é precária; para essas pessoas as condições de moradia são pobríssimas. Com um discurso demagogo e que só ludibria os incautos, os candidatos ao Poder Executivo usam e abusam de metas, estatísticas, números para mostrar o que o outro não vez e que dessa vez, se eleito, irá fazer. “Isso é uma vergonha” – para concordar com o Datena.

Falta pouco! Não vou precisar ver mais àqueles que ostentam o título de pastor fazendo campanha e usando o nome de Deus para legitimar o seu apadrinhado político ou a si mesmo. Pessoas que confundiram ou nunca entenderam a primazia da vocação pastoral acima de qualquer coisa. Falta pouco! Só em pensar de que não vou ouvir mais àquele velho discurso “irmão vota em irmão” já será bom demais.

Falta pouco. Os carros de som irão parar de poluir a cidade com as músicas mais esdrúxulas que já escutei – sem contar que é de extremo mau gosto muitas delas. Só em saber que isso irá acabar eu não vejo a hora de chegar 7 de Outubro.

Falta pouco para acabar com aqueles apertos de mão que você só se vê neste período. É nessa época que candidatos entram nas casas de gente simples, toma café amargo, faz carinho no cachorro, pega a criança no colo, dá tapinhas nas costas. Falta pouco para acabar com isso.

Falta pouco para que pessoas continuem lucrando com o voto vendido. Essas pessoas são a vergonha do País e nunca entenderam de fato o processo democrático, que, diga-se de passagem, custou muito de muita gente – dar ao povo brasileiro a prática da cidadania. Infelizmente há os corruptos passivos e ativos, e nesse caso não sei quem pode ser pior.

Falta pouco para não ver mais igrejas sendo usadas como curral eleitoral de líderes que suplantam a dignidade do processo eleitoral fazendo barganha com candidatos em troca de pouca coisa.

Falta pouco e não vejo a hora de chegar.

28.9.12

AS AGRURAS DO PASTOREIO

Seria muito bom se pudesse chegar a uma comunidade e vermos as coisas prontas. Como isso seria incrível. Mas isso nunca será possível. É assim porque em uma comunidade a matéria-prima são as pessoas, e gente sempre demanda cuidado e tempo.

O pastoreio lida diretamente com as pessoas. E as pessoas são assim: tem potencialidades, frustrações, alegrias, tristezas, qualidades e defeitos. Equacionar tudo isso não é tarefa muito fácil.

Eu invejo àqueles pastores e líderes que gastam a maior parte do seu tempo com cimento e tijolos e medem a frutificação do seu ministério a partir de obras. Seria muito bom se isso fosse possível no meu entender. Eu gostaria mesmo de medir o meu ministério a partir da receita da igreja, bastava cobrar, cobrar e cobrar a igreja; ah como eu gostaria de medir o pastoreio a partir da frequência dos irmãos nos cultos e principalmente nos Encontros Bíblicos de Domingo (EBD). Mas isso não é possível. Seria mais fácil, porque sempre é mais cômodo chamar atenção, prender e soltar, criar regras e estabelecer legalismo como ferramenta de pastoreio, mas isto não tem nada a ver com Jesus.

O pastoreio tem as suas agruras. Jesus teve as suas quando teve que lidar com a rejeição de parte de seus ouvintes porque não entendiam o que ele queria de fato – nada mais do que o senhorio do Reino de Deus; ele teve que trabalhar os seus discípulos porque a maioria deles alimentava apenas o lado político e messiânico do seu ministério; ele teve que lidar com uma Jerusalém, que assim como os profetas do Primeiro Testamento (AT), recusaram o seu pastoreio e ele não pode pastorear àquela gente, cuidar daquele povo, mostrar a eles o rosto materno de Deus assim como a galinha faz com os seus pintinhos. Se eu fosse citar os inúmeros dissabores que Paulo padeceu no seu ministério o texto perderia o seu objetivo. Fico apenas com Jesus.

Lidando com pessoas sempre haverá agruras. E está aí a dinâmica do pastoreio.

Jesus teve uma grande maioria que ouviram os seus discursos, mas poucos se envolveram com a sua pessoa. No ministério pastoral funciona da mesma maneira. Sempre haverá uma porção da comunidade que se liga ao pastor mais profundamente do que outros. Isso é um fato. Assim como Jesus, o pastor deve entender que nem todos gostarão da sua postura; nem todos irão assimilar o seu discurso; nem todos estão propensos a seguir a sua liderança. Mas assim como Jesus também, o pastor não deve concentrar suas forças e energia na direção dos detratores. Isso é gastar um tempo precioso que poderia ser empregado na direção daqueles que querem caminhar junto.

Já faz algum tempo que conversava com um amigo e colega de ministério e ele dizia que gostaria de estar indo para outro lugar a fim de estar tratando dos mesmos problemas, mas com pessoas diferentes. É a pura verdade. Os problemas podem até ser parecidos, mas as pessoas são únicas e essa é a graça do pastoreio – marcar pessoas tendo como ferramentas a pessoalidade, o caráter e o amor, mesmo com as agruras.

10.8.12

O PASTOREIO A PARTIR DE JESUS E PAULO – OBSERVAÇÕES QUANTO AO MODELO PASTORAL E AS CRISES DO MINISTÉRIO

1º Conclave Pastoral 
Ordem dos Pastores Batistas do Brasil, Subsecção – Vale do Ribeira 
4 de Agosto de 2012 – Hotel Estoril, Registro/SP

Um dia de sol; um lugar acolhedor; uma comida boa; os amigos, os colegas e irmãos de diferentes denominações. Este foi o cenário do 1º Conclave Pastoral. Um dia para refletir e ponderar algumas questões quanto aos desafios e os dilemas do ministério pastoral.

O nosso convidado foi o Pr. Natanael Gabriel da Silva (Igreja Batista Central – Sorocaba/SP). Alguém com trinta (30) anos de ministério pastoral.

Quem pensou que iria ouvir teorias sobre o crescimento de igreja ou modelos importados de crescimento, ou ainda, sete passos para ser bem sucedido no ministério e etc., ficou frustrado, apesar de ter a impressão de que o grupo lá presente esperava aquilo mesmo, ou seja, nada do mesmo. O Pr. Natanael abordou a figura do pastor em suas diferentes perspectivas, mas priorizou o texto bíblico e o modelo de Jesus e de Paulo no pastoreio.

Com uma hermenêutica centrada na construção teológica e comunitária do evangelho de Mateus, o expositor passou a identificar as características do ministério de Jesus e seu momento introspectivo, ou seja, o momento em que ele – Jesus – avalia o seu ministério a partir das circunstâncias.

O modelo pastoral de Jesus se dá na contramão de duas tendências bem nítidas no seu tempo: o modelo sacerdotal e o modelo profético. No primeiro, Jesus não se assimila de modo nenhum com o modelo sacerdotal, pelo contrário, esse modelo é identificado como opressor na figura dos sacerdotes do Templo de Jerusalém. No segundo modelo – profético – no qual Jesus faz parte, mas não nos moldes que o profeta era associado no seu tempo – como foi João Batista. A diferença entre os dois, Jesus e João, se dá no teor da mensagem e na maneira de proclamá-la. Enquanto João era duro com suas palavras e pregava o fim eminente de todas as coisas, Jesus, por outro lado, pregava o Reino de Deus e sua construção a partir de uma mensagem que confronta a consciência e provoca uma reação.

O capítulo onze (11) de Mateus foi alvo da exposição do Pr. Natanael. Neste capítulo, fazendo uma exegese a partir da compreensão de que todo o evangelho de Mateus é uma construção literária e teológica da história de Israel, Jesus tem um diálogo com os discípulos de João Batista que o questiona ser ele o Messias ou não. A resposta de Jesus é dada por meio do que está acontecendo. Ao final do capítulo onde é senso comum interpretar os versos 28 a 30 como sendo um texto “evangelístico”, ou seja, um texto para evangelizar pessoas que ainda não pertencem à Igreja, há um processo de reavaliação do ministério de Jesus. Nestes versos, Jesus fala com Deus-Pai sobre si mesmo. Aqui é Jesus colocando o seu modelo pastoral: mansidão, leveza, descanso, alivio. Diferente de João, Jesus tem a preocupação de pastorear com prerrogativas pouco convencionais tanto para os seus discípulos quanto para o imaginário profético do seu tempo. Mas é esse o modelo que ele deixa e procura imprimir em seus discípulos.

Não será os milagres a base do pastoreio; não será o texto-retórica que dará funcionalidade à pastoral. O que realmente dá suporte ao ministério pastoral é a pessoalidade. A pessoalidade de Jesus que dá a ele todos os ingredientes necessários para ser manso e humilde e oferecer descanso e leveza.

Diante desse modelo, ignorado é verdade, somos chamados a retomar a prática do pastoreio a partir das premissas de Jesus. Mas essa não é uma tarefa fácil. Há diante de nós os estigmas da institucionalidade que preserva as estruturas em detrimento de pessoas; existe a tal “concorrência” no segmento “evangélico” em que cada movimento ou denominação quer ter seu espaço sendo a mídia a grande aliada de modelos pastorais que se assemelham muito mais ao modelo sacerdotal que ao modelo pastoral de Jesus. Ainda pesa sobre nós a velha e inadequada concepção de que pessoas são números (quantidade de membros) e ministério pastoral é apenas mais uma profissão, e bem lucrativa, diriam alguns.

Jesus nos convida para pastorear com pessoalidade. Sem subterfúgios, apenas pastorear.

No período da tarde somos agraciados com uma leitura de Paulo a partir das duas Cartas aos Coríntios.

Depois de uma breve exposição quanto ao contexto de Corinto e sua diversidade de problemas como as religiões gregas, a moralidade e as questões de ordem pastoral na igreja com sua divisão entre grupos, inclusive um de Paulo, e a inconstância doutrinaria da igreja, Paulo na segunda Carta expõe toda uma problemática com a igreja e faz transparecer a face de um pastor que, pelas circunstâncias, mostra as debilidades do pastoreio e a difícil equação entre o procedimento político e pastoreio.

Depois de apontar os diversos desvios (pecados) da igreja em Corinto – noticias essas trazidas por Cloe (possivelmente sendo um grupo partidário de Paulo) daí a sua fala a partir das informações recebidas – na segunda Carta Paulo no segundo momento faz a sua defesa e por fim ele se faz de vítima.

Os capítulos onde (11) e doze (12) de 2Co é a mostra de alguém que procura ser respeitado, lembrado por aquilo que fez, mas não gostaria de dizer que fez e, que por isso, deveria ser respeitado por isso. Na verdade Paulo tem uma crise no seu pastoreio com a igreja de Corinto por se tratar de uma igreja que demandava certo trato político e ao mesmo tempo habilidade pastoral para lidar com as questões que ela passava.

Paulo estava em busca de reconhecimento e o que encontrou foram frustrações. A crise de Paulo é semelhante à de muitos pastores: pastorear por meio do amor ou desejar ser valorizado pela igreja-instituição. Paulo não soube lidar com esse dilema e no final do capítulo doze (12) ele fala como um “insensato”, ou seja, alguém que está reivindicando algo que na verdade não deveria por se tratar da natureza do ministério pastoral.

A ferramenta principal de Paulo era o pastoreio por meio da espiritualidade. Mas se tratando das questões de Corinto, Paulo não soube pastorear àquela comunidade e isso não foi bom para a sua vida e ministério.

Com Jesus temos o modelo de pastoreio (Mt 11,28-30). Com Paulo temos o exemplo de como não cometer erros quanto ao trato de uma igreja tão problemática como foi à comunidade de Corinto. Paulo deixa o modelo de como não incorrer em erros que frequentemente o pastor se vê envolvido dentro de uma distancia tão mínima que é entre a igreja-instituição e o pastoreio.

O pastoreio em tempos pós-modernos não necessita ter critérios de números de membros; o alvo do ministério não pode ser medido quantitativamente. Ele é muito mais que isso. Ele é doação do coração do pastor às ovelhas que necessitam do seu cuidado. Se for possível um pastoreio assim, não cometeremos o erro de achar que, pela função, devemos ser reconhecidos como tal.

1.8.12

ENTRE DISCÍPULOS E MULTIDÃO: A DIALÉTICA “EVANGÉLICA” HOJE

É típica nos evangelhos sinóticos a distinção entre multidão e discípulos. Por um lado há discípulos que seguem Jesus, e por outro há a multidão que vai atrás.

As semelhanças entre multidão e discípulos são evidentes. Tanto a multidão quanto os discípulos estão ouvido às palavras de Jesus em diversas ocasiões nos evangelhos. A multidão é amigável; ela fica maravilhada com os ensinamentos de Jesus (Mt 7,28). As diferenças entre esses dois segmentos também são claros. A multidão não tem rosto; ela é anônima; a multidão é mutante, em um momento busca Jesus em outro momento prefere Barrabás; na multidão não há uma constância; a multidão quer estar junto de Jesus, mas não quer se comprometer com ele; a multidão vai atrás de Jesus não pelos seus ensinamentos, mas pelo milagre dos pães (Jo 6). Os discípulos seguem Jesus. Mesmo não entendendo muita coisa da caminhada de Jesus e sua mensagem sobre o Reino de Deus, estão lá; mesmo dormindo no Monte das Oliveiras, mas estão lá.

Essa dialética – multidão e discípulos – me fez lembrar um livro do teólogo jesuíta uruguaio Juan Luis Segundo – Massas e minorias: na dialética divina da libertação (São Paulo: Loyola, 1975). Nesse texto Segundo trata da dimensão minoritária e massificante do Cristianismo colocando de que, originalmente, Jesus visou uma minoria – os discípulos, por exemplo – e não estava atrás da massa e nem mesmo se deixa se encantar por ela. Um livro que vale a pena ser lido por ser tão atual para os nossos dias.

Essa relação multidão-discípulos e massa-minoria são patentes no segmento denominado de “evangélico”. Parece que há uma sensação de que quando a massa está aderindo ao movimento (dados do IBGE apontou os “evangélicos” em 22,2% da população brasileira) é sinônimo de crescimento do Reino de Deus. Os pastores, bispos e apóstolos midiáticos quando atraem multidões é sinal de que Deus está “salvando” pessoas. Seria bom que fosse! A mensagem de Jesus sobre gratuidade, amor, perdão, diálogo, ou seja, os valores inegociáveis do Reino de Deus, não são vinculados nas grandes reuniões de milagres e vitória financeira. É a formação de multidão que corre atrás do milagre, da cura, não, propriamente de Jesus. Quando Jesus quis ensinar a multidão ela se dispersou, ouvir Jesus e seus ensinos não era relevante.

O segmento “evangélico” de massa está abarrotando os bolsos de pessoas que estão lucrando com a fé. Há verdadeiros impérios financeiros construídos a partir da boa vontade de pessoas que, sem arrependimento, não encontraram Jesus, mas sim Mamom (Mt 6,24).

Essa síndrome da massa tem, infelizmente, prejudicado a noção de comunidade. Geralmente a pergunta entre os pastores quando se conhecem é: “quantos membros tem a sua igreja?”. Pelo que me consta o evangelho de Cristo tem a ver com doação ao próximo; com a nossa maneira de ler a realidade; com a transformação da vida a partir do Reino de Deus. Portanto, não aceito um “evangelho” que ignora a premissa máxima da mensagem de Cristo – “buscar em primeiro lugar o Reino de Deus” (Mt 6,33).

14.7.12

TEOLOGIA(S) PARA ESTE TEMPO – DUAS PERSPECTIVAS EM DEBATE

Observações quanto ao debate entre Jung Mo Sung e Franklin Ferreira

Com o advento da chamada pós-modernidade as mudanças passou a serem frequentes. A efemeridade das coisas, dos conceitos e ideologias se tornou um fato. A dinâmica das mudanças não dá conta nem mesmo para o processo de habituação. Com a globalização – fenômeno que norteia não apenas a economia – as questões religiosas foram colocadas na pauta das discussões. Nas observações de João Batista Libânio, somos chamados, falando como teólogos, a pensar essa realidade com relevância e honestidade. Na sua vasta bibliografia, Libânio aborda as implicações dos fenômenos globalização e secularização (este último mais presente na Europa e EUA, mas já perceptível na América Latina – e no Brasil, segundo dados do IBGE os “sem-religião” saltou entre 2000 a 2010 de 4,7% para 8%) procurando apontar prospectivas coerentes para este tempo. No caso dele, um teólogo católico-romano, a dificuldade é alinhar mudanças de paradigmas com a Tradição da Igreja. Suas análises são pertinentes principalmente para enxergar onde a demanda teológica precisa ser mais contundente. As conclusões de Libânio e outros pesquisadores do tema Teologia e Sociedade concluem que a base antropológica da nova (um termo de José Comblin) cultura é pluridimensional, ou seja, é um ser humano que tem na sua subjetividade um valor em si. Daí a razão não ser mais o único caminho para a felicidade (como na Modernidade), mas ser, dentre outras, mais uma possibilidade de leitura do mundo.

Quando entramos no segmento protestante vemos que persiste o mesmo problema – lidar com as mudanças deste tempo em suas diferentes áreas. Tanto católico-romanos quanto protestantes estão discutindo as linguagens da nova cultura que é dinâmica. Quanto aos católico-romanos há uma clara distinção entre progressistas e conservadores sendo patente em reuniões (como foi na Conferência de Aparecida) e publicações. Já no universo protestante – onde a unidade nunca foi o ponto central, é fragmentado por natureza – as questões hodiernas têm sido tema de livros, palestras e debates. Duas tendências estão evidentes – conservadores (identificados, por alguns, como fundamentalistas) e não conservadores (identificados, por alguns, como liberais).

Essas duas vertentes se dá, principalmente, nas publicações. A ala conservadora tem deixado bem claro que não há diálogo com a nova cultura, mas confronto. Daí o aumento de livros sendo traduzidos que tratam da apologética numa clara mensagem de que a nova cultura precisa ser combatida – aliás, um dos livros (Em guarda, Vida Nova) do apologeta mais traduzido no Brasil, William Lane Craig, tem na capa um homem segurando uma espada – é a dimensão da defesa e do ataque. Neste mesmo intento as teologias sistemáticas estão dando a sua contribuição, reafirmando doutrinas e práticas tendo como referenciais teóricos e metodológicos teólogos norte-americanos. As teologias sistemáticas sempre funcionaram como formadora da educação teológica no País em seminários e faculdades das denominações protestantes.

Tanto a apologética quanto as teologias sistemáticas procuram estabelecer fronteiras para se pensar os rumos da cultura e seus desdobramentos em diversas áreas. A reivindicação de ambas é a posse da verdade, como discurso legitimador da fé e sua prática.

Dentro desse tema, educação teológica e a concepção sobre verdade, uma discussão me chamou atenção há algumas semanas. Ela se deu a partir de dois textos. O primeiro é de Jung Mo Sung, docente na UMESP na área de Ciências da Religião – Educação teológica e missão – um texto que foi publicado no livro Missão e educação teológica (ASTE, São Paulo). O outro texto é uma reação ao texto de Sung do consultor acadêmico de Edições Vida Nova Franklin Ferreira – Educação teológica e missão: uma resposta ao artigo de Jung Mo Sung. O texto de Sung provocou a reação de Ferreira devido o uso da Teologia Sistemática que este último escreveu com Alan Myatt. Os pormenores aqui não são de interesse pelo espaço, mas o que chamou a atenção é a clara distinção de ideias e posturas frente aos desafios da nova cultura. Enquanto Sung procura trabalhar a partir da subjetividade – um paradigma pós-moderno –, Ferreira advoga o conceito de revelação e verdade a partir de uma leitura bíblica e agostiniana. Enquanto um (Sung) defende uma educação teológica inclinada para uma nova linguagem tendo como ponto a experiência, o outro (Ferreira) pontua a relação Bíblia, revelação e Jesus Cristo como sendo unívocas.

É uma discussão interessante. As duas perspectivas são antagônicas, enquanto uma (Sung) delineia uma postura de adequação e diálogo com uma realidade plural, a outra (Ferreira) se dá a partir da igreja alegando que “quando a igreja é reformada, a sociedade é modificada”.

Diante desse acalorado debate fica evidente de que há duas perspectivas quando se trata de dialogar Igreja e Sociedade. Venho propondo uma via, a Teologia Pública, como uma alternativa a este cenário.

3.7.12

“CRESCEI E MULTIPLICAI-VOS”: OBSERVAÇÕES QUANTO AO AUMENTO DOS “EVANGÉLICOS” NO PAÍS

O IBGE divulgou dados do último censo e nele os denominados evangélicos saltou de 15,4% da população brasileira em 2000 para 22,2% em 2010. Isso é bom! Que ótimo! Isso significa que os “evangélicos” logo serão maioria – comemoraram alguns.

Em outro texto, neste blog, justifiquei – antes mesmo de Ricardo Gondim – o meu distanciamento da nomenclatura evangélico por entender que ele não cabe mais como mediador de sentido.

Mas diante dos novos dados do IBGE, gostaria de tecer algumas considerações quanto às implicações do crescimento dos evangélicos no país. Embora saiba que há pouquíssimos leitores deste blog (nem todo mundo gosta de ler bobagens – risos) aponto algumas coisas que considero pertinentes para o debate.

- A igreja evangélica cresce sem maturidade espiritual. Não há uma preocupação com um crescimento significativo na vivência cristã e seus desdobramentos em cidadania. São poucos os evangélicos, por exemplo, que esmeram em conhecer a Bíblia. Há uma hermenêutica sendo produzida na televisão, onde pessoas acatam o que o pastor, bispo ou apóstolo televisivo falou como se fosse um fato inquestionável. A falta de maturidade levam pessoas a contribuir com seus bens para que um império, erguido em nome da fé, seja cada vez mais abastecido e possa continuar na concorrência com outras denominações. Essa prática é bem mais visível no segmento neopentecostal e ainda bem que o próprio IBGE já faz a diferença entre os segmentos dividindo católicos, protestantes (históricos), pentecostais e neopentecostais.

- Não há um entendimento de que a igreja tenha um papel missionário holístico para a sociedade brasileira. As denominações não entram em acordo quanto a isso. Enquanto um está preocupado em como arrebanhar empresários para as suas reuniões, outras estão em busca de promoção própria. Não há missão, sim competição; não há uma clara concepção missionária no sentido de evidenciar os valores do Reino de Deus na sociedade, há proselitismo.

- Esses números, infelizmente, irá abastecer o marketing de alguns personagens do cenário evangélico. Os números servirão para que a Rede Globo coloque mais personagens evangélicos em suas novelas e contrate o maior número possível de artísticas do mundo gospel para a sua gravadora, a Som Livre. Isso porque o Jesus gospel está em alta. Há um comércio altamente lucrativo usando a marca Jesus. É um Jesus de vitrine, onde as pessoas se relacionam com ele através dos produtos. O Jesus gospel é badalado; ele é aclamado; pula-se nos estádios por ele; compram-se inúmeros produtos dele; há marcas de roupa, cosméticos e até mesmo celulares dele. Não é discipulado. Não é seguimento do Reino. É um Jesus para curtir.

O número de evangélicos pode até ser superior em 2050, mas tenho as minhas dúvidas se teremos uma igreja nos moldes do Segundo Testamento (NT).

28.6.12

CARTA DO PRESIDENTE DA CONVENÇÃO BATISTA DO ESTADO DE SÃO PAULO

Antecedendo a Semana Batista/2012 na cidade de Ribeirão Preto/SP, o presidente da Convenção Batista do Estado de São Paulo – Pr. Manoel Ramires Filho – divulgou uma Carta em que apresenta os seus desafios e avanços na liderança da CBESP neste período.

No meu entender, Pr. Manoel Ramires deixa um legado que envolveu um direcionamento para a CBESP nas suas reais necessidades e um encurtamento da equidistância da liderança da CBESP e a pluralidade pastoral e eclesial do nosso Estado.

Por essa razão, e com a sua permissão, que compartilho a sua Carta.

Pr. Alonso Gonçalves
***
São Paulo, 26 de junho de 2012.

Estou escrevendo ao irmão e a todos os pastores de nosso Estado, depois de quase um ano de mandato, por alguns motivos em especial:

Em primeiro lugar, para agradecer o apoio incondicional recebido e pelas orações desde o inicio de nossa gestão, sem o que seria muito difícil chegar onde temos chegado.

Jamais sozinho, mas juntos temos trabalho no sentido de mudar a maneira de ser Convenção.

Em segundo lugar, para afirmar que pela graça de Deus, apoiado por minha família, igreja, diretoria, GPVE e por todas as áreas da CBESP e executivos, pudemos completar

algumas tarefas a que nos propomos e iniciar outras que a próxima diretoria deverá dar continuidade. Dentre elas enumero algumas:

1 – A mais importante, ouvir pastores e líderes através de encontros, viagens, visitas às Associações e e-mails, e relacionando as críticas e sugestões num total de 12 páginas.

2 – Reunião com as áreas a nível de detalhes, apresentando as críticas e sugestões e discutindo temas importantes. No próximo jornal Comunhão sairá um questionário que fiz ao pastores Valdo e Lourenço, dando assim uma resposta ao que ouvi.

3 – Sistematizar o Estatuto e Regimento Interno. Nosso problema não é a estrutura que existe há no mínimo dez anos, mas o fato de não ser colocado em prática. Temos contado com o trabalho incansável do GPVE (Grupo de Planejamento e Visão Estratégica). Alguns exemplos:


a) Um Conselho Geral que realmente acompanha e supervisiona o trabalho das Áreas, dando trabalho para cada membro da diretoria e para todos os membros do Conselho, inclusive para os presidentes de Associações. O relatório agora é enviado para cada conselheiro, com 10 dias de antecedência, para ser discutido nas Câmaras Setoriais.

b) Capacitação para os executivos, staff e todos os conselheiros.

c) Empenho em democratizar a escolha dos próximos conselheiros, através de reunião com a comissão de renovação de áreas e com ênfase na qualificação. Mudança de mentalidade visando uma visão sistêmica e sinérgica, inclusive na busca constante do estreitamento das relações interinstitucionais.

d) Revisão e ampliação do Manual para a Semana Batista.

e) Construção do primeiro Planejamento Estratégico global com macrodiretrizes, e que deverá ficar pronto em novembro próximo, visando gestão em todas as áreas por princípios de administração.

f) Em elaboração pelo GPVE, instrumentos de avaliação para as áreas, o Regimento Operacional e o Manual para Confecção de Relatórios.

4 – Em análise pelo GPVE os resultados do Censo Batista, cujos resultados serão base para o Planejamento Estratégico da CBESP. Duas providencias foram aprovadas na última reunião do Conselho Geral, dada a sua urgência:


a) Autorização para o GPVE planejar e buscar ações que visem a capacitação urgente de pastores, líderes e igrejas, na busca de fortalecer o desenvolvimento da membresia das igrejas à maturidade e serviço cristão, como um dos meios de buscar solução para diversos dilemas apontados no Censo Batista.

b) O CETM, com apoio do GPVE, buscará meios de orientar os Seminários e Instituições de formação Teológica Batista do Estado, para que inclua em seu processo de ensino a formação de pastores e líderes, de modo a serem ministros que saibam lidar com o poder, que desenvolvam liderança descentralizada e cuidem de seu desenvolvimento pessoal, familiar e da igreja.

5 – Realização do Congresso de Eclesiologia, o inicio de uma profunda reflexão sobre a doutrina da igreja em nosso Estado, com elaboração de um documento para discussões futuras. Novos congressos deverão ser realizados para atender as macrorregiões.

Meus prezados e queridos irmãos, muito foi realizado, mas muito ainda está por ser feito. Todos os pedidos, sugestões e críticas foram encaminhados, e estão registrados para serem passados à nova diretoria, em especial, aquilo que estiver pendente de uma resposta.

Teremos uma grande Semana Batista em Ribeirão Preto, num local excelente, com mudanças grandes em relação às anteriores. Oremos para que a Assembleia tenha a direção de Deus, inclusive na eleição daqueles que darão continuidade ao processo iniciado.

No amor de Cristo.

De seu conservo e amigo,

Pr. Manoel Ramires Filho

21.6.12

I CONGRESSO DE ECLESIOLOGIA - CBESP

Alonso Gonçalves[1]
Membro da Comissão do I Congresso de Eclesiologia (CBESP)

Pensar a igreja é sempre um desafio, ainda mais neste tempo em que assuntos como crise institucional, secularização e globalização são recorrentes na sociedade. Aliar a identidade denominacional e relevância na sociedade é um dos grandes desafios da igreja contemporânea. O I Congresso de Eclesiologia promovido pela Convenção Batista do Estado de São Paulo (CBESP) aceitou este desafio e procurou promover a reflexão, levantar questionamentos e provocações sobre um tema tão peculiar para os batistas – igreja.[2]

Para gerar uma reflexão que não fosse tendenciosa, a escolha dos palestrantes contou com Israel Belo de Azevedo,[3] Isaltino Gomes Coelho Filho[4] e David B. Riker.[5] Cada um abordou alguma faceta da realidade eclesial. Israel falou sobre O que é igreja e sua missão em relação a Deus, o mundo e a ela mesma; Isaltino O governo da igreja e as lideranças eclesiásticas; Riker O culto e os seus princípios. Dentro de cada perspectiva as palestras foram direcionadas a fim de instigar, refletir e provocar reações. A tarefa da Comissão[6] do I Congresso de Eclesiologia foi colher as palestras e pontuar temas que são pertinentes à realidade eclesiástica do Estado de São Paulo. Dentro desse intento apresento minhas reações ao que foi abordado e aponto temas que merecem ser considerados, a partir de observações pessoais.

Israel Belo de Azevedo abordou temas que mexem com alguns paradigmas que estão impregnados no imaginário Batista como: disciplina na igreja; liderança feminina; recebimento de pessoas como membros que vivem em união estável; cooperação Batista; prospectivas quanto ao futuro da CBB. Israel mostrou de como os Batistas, ao longo da sua história, preservou os seus princípios e esses não podem ser esquecidos e nem mesmo desvirtuados, embora alguns já tenham sido como foi o da autonomia. A natureza plural dos Batistas, a facilidade de assimilar coisas contemporâneas (como foi o caso da liturgia) e a autonomia da igreja local, são pilares de uma identidade Batista que não podem ser ignorados quando se entra em diálogo com a sociedade. Por outro lado a Missão Integral (= Reino de Deus) da igreja precisa ser uma prioridade. No seu entender não cabe mais a igreja querer fazer ação social visando o proselitismo. Essa insistência se dá devido ao landmarkismo continuar vivo no substrato Batista.

Isaltino Gomes Coelho Filho abordou as diferentes compreensões que o Novo Testamento traz sobre a figura do pastor. Fazendo uma leitura bíblica sobre os conceitos de bispo, presbítero e pastor, Isaltino demostra que a liderança eclesiástica no Novo Testamento é plural, nunca definida plenamente, embora haja elementos que indiquem uma institucionalização da função pastoral nas Cartas Pastorais; a liturgia recebe influencia da sinagoga havendo, portanto, no Novo Testamento a essência do culto e não a imposição de uma única maneira ou forma de cultuar.

David B. Riker pensou o culto e seus princípios. Embora fosse nítido a sua dificuldade em traçar uma linha argumentativa para definir o que seja culto pela perspectiva bíblica e teológica, o reitor do STBE procurou definir culto a partir de conceitos etimológicos e não de ajuntamento tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Assim procedendo, ele quis delinear três momentos do culto – o que cultuar, a quem cultuar e como cultuar. Fazendo uma leitura principalmente dos conflitos enfrentados por Paulo em Corinto, o preletor alegou, dentre os seus princípios gerais do culto – que contou com o amor, edificação, reverência, inteligibilidade – o princípio que provocou questionamentos foi o da autoridade, onde o preletor defendeu, com base em 1Co 11, que a proeminência no culto deve ser do homem e a mulher sendo coadjuvante.

De um modo geral as reflexões serviram para fomentar ideias e começar a discutir conceitos e problemas. A iniciativa da liderança da CBESP foi ótima, pois criou uma oportunidade de se ter um fórum de debates com temas que, de fato, estão na agenda das igrejas.


Importante:
O texto com as considerações e reações da Comissão sairá em breve.

[1] Pastor da Igreja Batista Memorial em Iporanga/SP – Vale do Ribeira.
[2] Evento que ocorreu no dia 16 de Junho no Salão Nobre do Colégio Batista Brasileiro – Perdizes/SP.
[3] Pastor da Igreja Batista em Itacuruçá/RJ.
[4] Pastor da Igreja Batista Central de Macapá/AP.
[5] Reitor do Seminário Teológico Batista Equatorial, Belém/PA.
[6] Os membros dessa Comissão são os pastores: Alonso Gonçalves,  Antonio Lazarini Neto e Carlos Eliseu Dias da Rocha (Relator). 

13.6.12

ECOLOGIA E PROTESTANTISMO

Certa vez ouvi de um jovem membro de uma Igreja Batista de que foi visitar outra igreja e lá o assunto era sobre o lixo e de como as pessoas deveriam cuidar do meio ambiente. Isso foi no ano de 2004, aproximadamente. O que mais me impressionou no rapaz foi o comentário dele: “por que vou a uma igreja para ouvir sobre o lixo e o meio ambiente? Igreja não é lugar para se falar disso!” Infelizmente a compreensão daquele jovem de que meio ambiente e igreja não tem qualquer relação é compartilhada por muitos. Por alguns motivos.

A Era Moderna, patrocinada por Bacon e Descartes quando coloca a relação do ser humano com o mundo sob o paradigma de sujeito-objeto, inaugurou uma ideologia, a de que a ciência triunfa sobre a natureza, ignorando os seus limites e espaços. A proposta foi subjugar a natureza ao conhecimento científico, não se importando com as consequências. A questão ecológica é deixada de lado e o mundo é objeto a ser desvendado. Teve seus resultados benéficos, mas muito mais maléficos como presenciamos hoje.

O protestantismo, de modo geral, é fruto da modernidade, portanto, compartilhou dessa ideologia. Com a ênfase no indivíduo e o processo de dessacralização do mundo (planeta Terra), este passou a ser visto como útil apenas. A natureza passa a ser matéria-prima para a atividade humana. Decorre disso, a completa omissão para com a Criação e a falta de uma espiritualidade ecológica. O protestantismo, como um dos protagonistas do sistema capitalista (analises feitas por Weber), contribuiu e muito para o atual sistema exploratório da Terra, quando adotou a cosmovisão utilitarista ao invés da bíblica que apresenta a noção de mordomia e corresponsabilidade para com o meio ambiente.

A atividade econômica do sistema globalizado capitalista quando se atém ao lucro e não respeita a diversidade da vida, a formação geográfica natural de um lugar, a nascente de um rio, a biodiversidade do planeta, está ignorando a presença de Deus na Criação, além de negar, peremptoriamente, de que o ser humano não é parte integrante desse ecossistema.


Soma-se a isso a noção salvacionista do protestantismo que prega, canta e incuti apenas o céu como redenção para o gênero humano enquanto as catástrofes ambientais são vistas como sinais da segunda vinda de Cristo. Como decorrência disso, o protestantismo ignorou completamente uma espiritualidade integral do ser humano, concentrando apenas na leitura bíblica como devocional e na oração. É por este fato que no mercado editorial evangélico há escassez de livros que tratam sobre o tema da Ecologia, porque o assunto foi deixado de lado por anos e outros, totalmente triviais, tiveram a proeminência.

O mundo para agora nos próximos dias para discutir o desenvolvimento sustentável na cidade do Rio de Janeiro, é a Rio+20. As Nações Unidas quer dar um rumo para o planeta e chama a todos para o diálogo para traçar metas, abrir caminhos para um mundo onde o meio ambiente seja respeitado e valorizado como fundamento da Vida. Nas diversas palestras, discussões, debates e diálogos haverá um desses pastores televisivos em algum encontro? Acredito que não. Até porque a sociedade não conta ainda com uma Teologia Pública promovida por evangélicos (se é que essa nomenclatura ainda cabe aqui). É claro que teólogos como Leonardo Boff, a maior autoridade em meio ambiente no Brasil e fora dele, estará presente, juntamente com Marina Silva que, concretamente, não tem a sua denominação pentecostal envolvida, mas porque ela é uma militante do clima no país.

É uma pena que ainda não tenhamos o protestantismo envolvido de corpo e alma na defesa do meio ambiente. O que já existe ainda é muito paliativo.

8.6.12

O PASTOR – UMA PEQUENA TRAJETÓRIA DE UM CONCEITO

A diversidade, em todos os âmbitos, do Segundo Testamento (2º Test = NT) é senso comum entre os pesquisadores da Teologia Bíblica.
A cristologia tem suas variações dependendo do lugar em que as Boas Novas (proclamação – kerigma) chegam. Dois contextos importantes na leitura da cristologia do 2º Test se dão em ambiente judaico (uma cristologia de cunho escatológica) e helenista (uma cristologia mais cosmológica). Sem falar na cristologia de Hebreus, das Pastorais e do Apocalipse, que tem uma diversidade de conceitos e ideias incrível.

Na questão eclesiológica não é diferente. O 2º Test traz uma pluralidade quanto à organização, desenvolvimento e liderança dessas comunidades, ocasionando um ambiente rico e profícuo de entender e viver como igreja. Quem faz um trabalho competente e imprescindível neste sentido, é Jürgen Roloff (erudito alemão) com o seu texto A igreja do Novo Testamento, onde ele aborda as diferentes matrizes da eklésia do 2º Test.

No caso do pastor, o 2º Test apresenta uma evolução no conceito dependendo da situação (Sitz im Leben) em que o texto está inserido.

Nos sinóticos, por exemplo, Jesus pastoreia o povo de Israel. O seu cuidado se dá porque aquele povo era como ovelhas que não tinham pastor (Mc 6,34). Um povo abandonado pela classe religiosa, marginalizados pela ala mais radical da religião judaica, o farisaísmo; um povo que estava à espera do Messias e nutria a sua esperança nele. A esse povo Jesus se dá como pastor, como alguém que tem compaixão da multidão.

Em Paulo, o pastor é chamado por Deus para ensinar a comunidade, para ser despenseiro dos mistérios de Deus (1Co 4,1-2); para consolar, exercer cuidados como os de pai e mãe (1Tess 2,7 e 11).

É claro que Jesus não ensinou a hierarquia. Aliás, ele mesmo deu o exemplo quando lavou os pés dos discípulos. Nele somos todos um. Paulo irá completar isso em Gl 3,26-29 de que em Cristo não há homem ou mulher, escravo ou livre. Sendo assim não haveria distinção; não há quem seja mais importante que outro. É claro que essa concepção foi compreendida de diferentes maneiras dentro da diversidade do 2º Test. Nas igrejas paulinas o líder era uma figura carismática, exercendo sua liderança a partir de pressupostos espirituais e não institucionais. Razão porque ele tinha em cada cidade pessoas que abrigavam a igreja em sua casa (conhecidas como igrejas domésticas). Seus auxiliares no ministério pastoral foram Tito e Timóteo e, não sempre mais ajudou Corinto, Apolo. Nas comunidades domésticas a liderança era variada e não havia diferença entre homem ou mulher. Paulo reconhece a liderança de Febe na igreja de Cencréia, de Evódia e Síntique em Filipos e Áquila e Priscila como obreiros de redobrada dignidade.

Já em Jerusalém a liderança era sinagogal, um conselho de presbíteros que exercia o pastoreio principalmente na cidade de Jerusalém.

Quanto às Cartas Pastorais a função do pastor ou bispo é institucionalizada. Ele agora recebe esse ofício pela imposição de mãos e tem a responsabilidade de proteger a comunidade de ataques internos (disputas entre irmãos) e externos (as heresias). A ênfase recai sobre a “sã doutrina” como um depósito que precisa ser protegido a qualquer custo. Essa perspectiva que predominou no conceito de pastor, principalmente o capítulo três de 1Tm que nem mesmo Paulo (para aqueles que advogam que as Pastorais são da pena de Paulo) cumpriu todas as exigências ali expostas.

Com a Reforma Protestante a figura do pastor ficou reduzida ao ensino e a ministração das ordenanças (sacramentos). Pastor deixa de ser um conceito polivalente para conotar a uma pessoa.

Pastor tem a ver com a missão da igreja; pastor é sinônimo de cuidado e não de título; pastor não tem gênero, é tanto homem quanto mulher.

Olhemos para o supremo pastor, Jesus.