24.6.18

O DESCONTROLE EMOCIONAL DE NEYMAR, O ÍDOLO PATÉTICO QUE SOBROU PARA O BRASIL

Kiko Nogueira
Neymar chora.

Tite defendeu o choro de Neymar após a vitória suada do Brasil sobre a Costa Rica: “Ele tem a responsabilidade, a alegria, a pressão e a coragem para externar esse sentimento. Eu, por exemplo, sou um cara emotivo, mas cada um tem a sua característica”, disse.

Desequilibrado, Neymar foi às redes sociais se queixar.
“Nem todos sabem o q passei pra chegar até aqui, falar até papagaio fala, agora fazer…”, escreveu.

Segundo ele, as lágrimas são de “alegria, de superação, de garra”.
“Na minha vida as coisas nunca foram fáceis, não seria agora né! O sonho continua, sonho não, OBJETIVO!”. 

O mimimi ganhou o apoio de Thiago Silva, o zagueiro que abriu um berreiro indigente em 2014 antes da decisão nos pênaltis contra o Chile.
“Falei para ele: ‘Chora mesmo, só você sabe o que passou para estar aqui nesta Copa’”. Thiago Silva, um mestre em choramingar, é capitão. 

Tite gosta de repetir um mantra para seus comandados: “Mentalmente forte”. O resultado é esse que se vê.

A comissão técnica dispensou um psicólogo.

Tite faz esse papel como “coach” — uma dessas picaretagens marqueteiras que não significam coisa alguma, tipo “sustentabilidade”.

Neymar é tratado, simultaneamente, como um menino que precisa ter as fraldas trocadas e como um super salvador da pátria.

Nas entrevistas, os outros jogadores, a grande maioria estrelas em seus clubes, têm que ouvir perguntas sobre ele.

“Na minha vida as coisas nunca foram fáceis”, diz um sujeito que ganha mais de 700 mil euros por semana e carrega dois cabeleireiros para a Rússia.

É absurdo um atleta desabar dessa maneira na fase de grupos após superar a esforçada Costa Rica.

Tentou cavar um pênalti com um teatro ridículo.

Mais tarde, reclamou com o juiz que colocou casualmente a mão em seu peito: “Não me toque!”.

Deu um soco na bola. Xingou um adversário, em espanhol, de “filho da puta”, entre outras gentilezas, por uma falta ordinária.

Tomara que sejamos campeões.

Mas Neymar é o ídolo patético que este Brasil merece.

31.5.18

O PERIGO DA INERRÂNCIA SELETIVA

Molly T. Marshall (1)

Inerrância bíblica foi supostamente a razão para a aquisição hostil da Convenção Batista do Sul (SBC), ou ressurgimento conservador, como alguns preferem. Eu afirmo que a inerrância bíblica era uma mera ferramenta para a preservação do poder patriarcal e do privilégio masculino branco.

Eu estava involuntariamente na mira de tudo, tendo começado meu doutorado no Seminário Teológico Batista do Sul em 1979, o ano da primeira vitória fundamentalista seguindo o manual de Pressler (2) e Patterson (3). Quando entrei para a faculdade lá em 1984, a controvérsia estava a todo vapor, e a posição de alguém sobre o papel das mulheres no ministério tornou-se o teste decisivo para a inerrância. Como pastor que trabalhava na SBC na época em que fui contratada, tornei-me uma exposição de tudo o que os líderes masculinos temiam: uma mulher ordenada que reivindicou seu lugar de direito como líder pastoral.

No verão de 1984, a Convenção tinha notoriamente resolvido que as mulheres deveriam ser impedidas de exercer o ministério pastoral por causa da “prioridade na queda edênica”. Falo sobre a inerrância seletiva! Os proponentes escolheram um texto obscuro como prova da disposição duradoura de Deus sobre a culpabilidade feminina e, portanto, a incapacidade de liderar uma igreja. Naturalmente, este é o único lugar em todas as Escrituras (além do Gênesis) onde Eva é mencionada, e a abordagem hermenêutica dos conservadores Batistas do Sul convenientemente ignoraram a maioria do corpus paulino com seu acento sobre a transgressão de Adão.

A teologia ossificada tem sido a marca do ressurgimento conservador, e Paige Patterson é o principal exemplar dessa tradição. Destrutiva em sua aplicação, esta teologia promoveu resultados cruéis. Enquanto eu evito a proposição da inerrância, acreditando que ela reivindica algo para a Escritura que não reivindica por si mesma, a inerrância seletiva de Patterson tem sido buscada por interesse próprio e medo do poder das mulheres. 

Patterson leu aqueles avisos ou proibições historicamente situados sobre a liderança das mulheres, literalmente ignorando todos os textos que identificam a liderança e as realizações das mulheres. Uma interpretação masculinista de textos o manteve cativo, e o dano esmagador de sua abordagem de sua teologia veio à tona agora. Exigir que as mulheres mantenham silêncio sobre o abuso e se submeter à chefia masculina é tudo sobre o patriarcado e nada sobre os valores bíblicos.

Eu trabalhei em um projeto de livro no início dos anos 90 com Paige; ele fazia parte de uma equipe conservadora de autores, eu estava com a equipe moderada. O volume resultante foi Beyond the Impasse (“Além do impasse”), um destino que nos iludiu. O que me impressionou imediatamente foi sua incapacidade de ouvir qualquer coisa que desafiasse sua visão de mundo fundamentalista. Lembro-me de uma troca entre o renomado estudioso do Velho Testamento Walter Harrelson (4) e Patterson sobre sua abordagem das Escrituras e o que estava em jogo se você abandonasse a inerrância. “Se não há Adão e Eva históricos e literais”, alegou Patterson, “então não temos doutrina do pecado”. Harrelson respondeu com sua bondade característica, ainda que incisiva: “Ó meu querido irmão, minhas perguntas são muito maiores do que isso”. Ele sabia que uma falsa suposição sobre as Escrituras não permitiria uma fé coerente.

A visão obscurantista de Patterson também permitiu que ele ignorasse inúmeras bandeiras sobre o comportamento desagradável de Pressler com os rapazes. Enquanto o seu lugar de honra fosse preservado, ele poderia ignorar as alegadas aberturas de seu colega mais próximo, cujo caso agora está no tribunal. O objetivo de recuperar a SBC de sua tendência liberal importava mais do que a integridade daqueles que guiavam essa busca, como confirmam recentes divulgações (o caso das mulheres que veio à público agora).

A inerrância seletiva é tão prejudicial quanto a escolha de textos que reforçam as pressuposições liberais. A leitura de todo o texto divino-humano conta a história do envolvimento de Deus com a humanidade nas várias épocas, forjando a tradição judaico-cristã. A Bíblia fala implacavelmente de mudanças sociais e da esperança de que a nova comunidade forjada por Cristo supere as estruturas patriarcais.

Esconder-se atrás da inerrância, a fim de preservar o privilégio masculino, causa danos irreparáveis ​​a um testemunho cristão lúcido. Deus sabe, precisamos contar melhor nossa história e vivê-la mais plenamente, para que tanto mulheres quanto homens possam florescer.

Notas
(1)   Doutorado em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Sul; pós-graduação no Instituto Ecumênico Tantur (Jerusalém, Israel); Universidade de Cambridge (Cambridge, Inglaterra); Seminário Teológico de Princeton (Princeton, Nova Jersey). 
(2)   Paul Pressler, uma figura importante no processo fundamentalista da Convenção Batista do Sul em 1979. Em 2018, surgiram alegações de décadas de abuso sexual. Pressler foi acusado de ter estuprado um menino regularmente, começando quando o menino tinha 14 anos quando ministro da juventude. O líder da Convenção Batista do Sul, Paige Patterson, é acusado de ter ajudado no acobertamento do caso.
(3)   Paige Patterson, foi demitido do Seminário Batista do Sul depois que surgiu acusações de que ele teria aconselhado mulheres abusadas física e sexualmente a se manterem caladas e casadas.
(4)   Walter Harrelson, pastor batista; estudou na Universidade de Basileia (Suíça) e na Universidade de Harvard. No Brasil tem um livro traduzido: “Os Dez Mandamentos e os Direitos Humanos” (Paulinas, 1987).

12.5.18

AS OVELHAS PRETAS DA IGREJA

Não é novidade que quando há uma crise sistêmica, como essa que o país atravessa, setores conservadores da “Igreja Evangélica Brasileira” (na falta de um nome melhor para caracterizar um segmento do cristianismo não católico no Brasil, que funciona como um catalizador de diferentes posturas e idiossincrasias possíveis), ressuscitam alguns “inimigos” para legitimar o discurso político e a luta doutrinária. Não está sendo diferente da época pós-1964, quando as igrejas, notadamente as tradicionais, se alinharam com o regime civil-militar, mesmo quando viu a Igreja Católica pagar por seu “pecado” de ter apoiado, num primeiro momento, a deposição do governo de João Goulart e, depois, enfrentou sérios problemas com o regime, tornando-se vítima do aparelho repressivo do Estado de exceção que contava, sabidamente, com prisões, torturas e assassinatos.

Parece que o “inimigo” que setores conservadores da “Igreja Brasileira” elegeu para combater não é outro, somente no filme “Tropa de Elite 2” que o “inimigo era outro”. O “velho e conhecido inimigo” é o “comunismo”, dizem alguns. Outros falam no “socialismo”. Há quem diga “esquerdopatas”, uma mistura de esquerda política com psicopatia, qualificação usada por Silas Malafaia. Recentemente o pastor e deputado federal Marco Feliciano, não conseguiu chocar a todos quando contou uma “piada” quando perguntado sobre a morte da vereadora Marielle e do motorista Anderson em um programa de rádio. Disse: “O cérebro do esquerdista é do tamanho de uma ervilha. Há pouco tempo fiquei sabendo que deram um tiro num esquerdista no Rio de Janeiro e levou uma semana para morrer porque a bala não achava o cérebro”.

A polarização política no país vem somando imbecilidades, ao ponto que os conceitos “comunismo” ou “socialismo” são empregados nas Redes Sociais indiscriminadamente, desconsiderando as devidas conexões ou desconexões com os termos. Quem nunca ouvira falar de Karl Marx passou a odiá-lo, mesmo sem ter lido uma linha sequer das suas ideias. Assim, o “inimigo” a ser combatido no país é a “esquerda”, com o seu “satânico” intento de implantar medidas libertinas e fazer com que o país se transforme em uma “Cuba” ou em uma “Venezuela” economicamente. Essa é a narrativa, sem as devidas desproporções e limites, obviamente.

A narrativa do Golpe de 2016 se deu, para esse universo político-religioso, a partir do “combate ao comunismo”, assumindo o slogan de grupos de identificação política de “direita” na frase imperiosa: “Nossa bandeira nunca será vermelha”. Somou-se esforços para retirar do poder central do país o Partido dos Trabalhadores, acionando os parlamentares da conhecida “Bancada Evangélica”, também conhecida como a “bancada BBB” (da Bíblia, da bala e do boi), fazendo coro com o então “homem de Deus”, o pseudo-evangélico Eduardo Cunha. Quando o PT sai do governo, de maneira vexatória, o segmento evangélico conversador seguiu ignorando os inúmeros casos de corrupção explícita do atual governo, o embusteiro Michel Temer. Antes considerado “satanista”, Temer passou a ser uma espécie de “Ciro”, o rei da Pérsia que permitiu o povo de Israel voltar à Jerusalém. Se antes a corrupção sistêmica era causada e criada pelo PT, agora é preciso colocar nas mãos de Deus o próximo Presidente, que parecem que já “elegeram” (#SQN) um dos maiores engodos da democracia brasileira, o senhor Jair “Messias” Bolsonaro.

Para esses setores conservadores da “Igreja Brasileira”, a “esquerda” precisa ser combatida e isso se dá com um discurso doutrinário efusivo, ou seja, em grandes eventos, grandes igrejas, seminários, blogs, livros e Redes Sociais. Fazem um bom trabalho de articulação e marketing. O “inimigo” a ser encarado são os representantes da então “Missão Integral”, como se essa abrigasse os pastores e teólogos da “esquerda” (algo inverossímil). Mas o foco mesmo se dá em torno de nomes como Ariovaldo Ramos e Ricardo Gondim, por exemplo. As referências a esses dois é feita de modo velado em algumas ocasiões, mas em outras se dá de maneira aberta e audível. Esse setor alega que a Teologia da Missão Integral (TMI) é uma ramificação do marxismo cultural e, portanto, precisa ser extirpado da igreja, essas ovelhas pretas, quer dizer, vermelhas. Com isso, o discurso político vem alinhado ao discurso doutrinário, de tendência agostiniana-calvinista.

Para legitimar a pregação do evangelho sem, necessariamente, o comprometimento social (tensão que perdura no movimento evangelical), os pregadores e expoentes do setor conservador alegam estar de posse da “verdade” bíblica. A fim de ilustrar, recordo que uma vez estava ouvindo Jonas Madureira, um dos principais proponentes do conservadorismo evangélico, e ele dizia que a “igreja não deveria estar sendo guiada por uma agenda social, mas sim pela agenda de Deus”. Ao final da sua fala, abriu-se para perguntas. Indaguei: “Qual a agenda de Deus hoje?”. A sua resposta foi muito interessante: “A agenda de Deus é a palavra (Bíblia)”. E completou: “Na época que o ex-Presidente Lula foi indiciado pela ‘Lava-Jato’, no domingo preguei um sermão bíblico que veio de maneira certeira no atual momento que o país estava passando”. Uma pena não ter tido o direito da réplica. Nesse caso, a agenda de Deus funcionou assim: o pregador (Jonas) fez uso de um texto bíblico que, por coincidência divina (porque se tratava de uma série de mensagens), calhou com o indiciamento do ex-Presidente e, desta forma, o texto bíblico foi lido com as lentes da ocasião, ou melhor, serviu para dizer que os fatos estavam sendo, de alguma maneira, conduzidos por Deus. Não deixa de ser uma agenda. 

Ocorre que para legitimar o discurso doutrinário, é preciso combater o “inimigo”. O “inimigo” são pessoas e igrejas que professam um discurso aberto e integrador, com uma incidência político-social, identificados, porém, com uma perspectiva política à “esquerda” (com todas as dificuldades que esse termo acarreta e suas consequências políticas em discussão até hoje). Por isso, frases como “Não encontramos Deus na face do pobre, encontramos Deus na face de Cristo”, de Igor Miguel, por exemplo, são frequentes. É uma maneira de dizer que essa leitura dos evangelhos está equivocada (Deus na face do pobre), quando o correto mesmo é olhar para o Cristo, apenas ele, porque ele é a face de Deus (revelação). Isso é bom! Mas o Cristo que revela o Pai seria aquele de Mateus 25,34-40?

10.4.18

LULA DEU UM NÓ NAS FORÇAS DO GOLPE NEOLIBERAL

Que Lula há muito tempo deixou de ser homem e se tornou uma instituição é consenso à direita e à esquerda. O que está em jogo, em disputa, é o significado da instituição, o que ela representa.

Lula é o maior corrupto da história do Brasil ou a principal liderança popular que esse país já teve?

A disputa está aí. No atual estado da situação não sobrou muito espaço para meio termo. Ou é uma coisa ou é a outra. Cada um que escolha seu lado.

Na condição de instituição, todo gesto de Lula tem dimensão simbólica, é lido e interpretado por todos, por detratores e admiradores. Lula pega o microfone e o país paralisa em frente à TV. Os admiradores choram. Os jornalistas a serviço da mídia hegemônica silenciam. Ninguém fica indiferente a uma instituição desse tamanho. Lula sabe perfeitamente que está sendo observado, conhece muito bem o tamanho que tem e explora com extrema habilidade sua capacidade de fabricar símbolos.

Aqui neste ensaio, trato de uma parte muito pequena da biografia de Lula, mas que talvez seja, na perspectiva simbólica, a mais importante. Talvez seja até mais importante que os oito anos de seu governo.

Falo das 34 horas em que Lula esteve no sindicato dos metalúrgicos, sob os olhares do mundo, construindo a narrativa de seu próprio martírio. Não falo em “resistência”, pois desde a condenação no TRF-4, em 24 de Janeiro, que o destino de Lula já estava selado. Os advogados cumpriram sua função, recorrendo a todas as instâncias e tentando um habeas corpus, mas todos já sabiam que Lula seria preso. Por isso, seria ingênuo dizer que o que aconteceu em São Bernardo do Campo foi um ato de resistência. Lula é um político experiente demais para resistir em causa perdida.

Alguns companheiros e companheiras, no auge da emoção, tentaram usar a força. Lula fugiu da custódia dos trabalhadores e se entregou à Polícia Federal, pois sabe que contra o braço armado do Estado ninguém pode. Lula sabe que aqueles que ali estavam eram trabalhadores e trabalhadoras, pais e mães de família. Não eram soldados. Não eram guerrilheiros. A resistência não era possível.

Lula sabe que seria impossível sustentar aquela mobilização durante muito tempo e por isso não resistiu. Mas daí a se entregar resignado como boi manso para o abate a distância é grande, muito grande.

Penso mesmo que Lula fez mais que resistir, já que a resistência seria quixotesca, irresponsável. Lula pautou a própria prisão, saiu da posição de simples condenado pela Justiça para se tornar o dono da narrativa. Lula foi sujeito do próprio encarceramento, deu um nó nas forças do golpe neoliberal.

Muitos achavam que Lula deveria ter fugido para uma embaixada amiga e de lá partido para o exílio no exterior. Confesso que também pensei assim. Mas Lula é muito mais inteligente que todos nós juntos.

Lula sabe que já viveu muito, sabe que não lhe sobra muito tempo de vida. O que resta agora é a consolidação da biografia, o retorno às origens, seu renascimento como ícone da esquerda brasileira, imagem que ficou um tanto maculada pelos oito anos em que governou o Brasil.

É que no capitalismo não existem governos de esquerda. Governo de esquerda só com revolução e Lula nunca foi revolucionário, nunca prometeu uma revolução. Todo governo legitimado pelas instituições burguesas será sempre burguês. No máximo, no melhor dos cenários, será um governo de centro sensível às demandas populares. O lulismo foi exatamente isso: uma prática de governo de centro sensível às necessidades dos mais pobres. O lulismo transformou o Brasil para melhor, com todos os seus limites, com todas as suas contradições.

Mas para encerrar a vida em grande estilo carece de algo mais. Era necessária a canonização política. E só a esquerda canoniza líderes políticos. A direita é dura, cinza, sem poesia.

O golpe neoliberal conseguiu reconciliar Lula com as esquerdas, o que há poucos anos parecia algo impossível de acontecer.

É que para ser canonizado pelas esquerdas nada melhor que ser perseguido pelo Poder Judiciário, habitat histórico das elites da terra. Basta lançar no Google os sobrenomes da maioria dos nossos juízes, procuradores e desembargadores e veremos os berços de jacarandá que embalaram os primeiros sonhos dos nossos magistrados.

É claro que Lula não planejou a perseguição. É óbvio que ele não queria ser perseguido. Se pudesse escolher, estaria tendo um final de vida mais tranquilo, talvez afastado da política doméstica e atuando nas Nações Unidas. Mas já que a vida deu o limão, por que não espremer, misturar com açúcar, cachaça, mexer bem e mandar para dentro? Lula fez exatamente isso: uma caipirinha com os limões azedos que seus adversários togados lhe deram.

Primeiro, ele fez questão de esgotar todos os mecanismos legais. A sentença de Moro, os votos dos desembargadores, os votos dos ministros da Suprema Corte não são palavras ao vento. São “peças”, para falar em bom juridiquês, que ficarão arquivadas e disponíveis para a consulta, para análise. Imaginem só, leitor e leitora, os historiadores que no futuro, afastados da histeria e das disputas que hoje turvam nossos sentidos, examinarão a sentença de Sérgio Moro, verão que o juiz não foi capaz de determinar em quais “atos de ofício” Lula teria beneficiado a OAS para fazer por merecer o tal Tríplex do Guarujá. É como se Moro estivesse falando: “Não sei como fez, mas que fez, ah, fez”. E o voto dos desembargadores do TRF-4, atravessados de juízos de valor, quase sem relar no mérito da sentença? E o voto de Rosa Weber? Por Deus, o que foi aquele voto de Rosa Weber? “Sei que estou votando errado, mas vou continuar votando errado só porque a maioria votou errado. Uma maioria que só vai votar porque eu vou votar errado também”. Lula, ao se negar a fugir, obrigou cada um desses togados a deixar impressos na história os rastros da própria infâmia.

Uma vez decretada a prisão, o que fez Lula? Deu um tiro no peito? Se entregou em São Paulo? Foi para Curitiba? Fugiu? Não! Lula se aquartelou no sindicado mais simbólico da redemocratização brasileira, o sindicado que representa as expectativas que nos anos 1980 apontavam para um Brasil mais justo, mais solidário. No apogeu da crise que significa o colapso do regime político fundado na redemocratização, Lula decidiu encenar o seu martírio onde tudo começou. Naquele que talvez seja o último grande ato de sua vida pública, Lula voltou às origens. Protegido pela massa de trabalhadores, Lula não cumpriu o cronograma estipulado por Sérgio Moro. Cercado por uma multidão, o Presidente operário transformou o sindicato dos metalúrgicos numa embaixada trabalhista.

A Polícia Federal, o braço armado do governo golpista, disse que não usaria a força. A Polícia Federal sabia que o povo resistiria, que sem negociação não tiraria Lula do sindicado sem deixar uma trilha de sangue. Lula negociou e, nos limites dados por sua posição de condenado pela Justiça, venceu e humilhou as instituições ocupadas pelo golpe neoliberal.

Lula não estava foragido. O mundo inteiro sabia onde ele estava e mesmo assim o Estado brasileiro não foi capaz de prendê-lo no prazo determinado pela Justiça golpista. Durante um pouco mais de 30 horas, Lula foi um exilado dentro do Brasil, como se São Bernardo do Campo fosse um República independente, a “República Popular dos Trabalhadores”.

Lula fez de uma missa em homenagem a Dona Marisa Letícia um ato político e aqui temos mais um lance simbólico do Presidente operário: restabeleceu as pontes entre a esquerda brasileira e a Igreja Católica, aliança que tão importante nos anos 1970, quando sob as bênçãos da Teologia da Libertação foi fundado o Partido dos Trabalhadores.

No palanque, junto com o padre, estavam Lula e as futuras lideranças da esquerda brasileira. Lula dividiu seu espólio em vida, tomou para si esse ato mórbido ao abençoar Boulos, Manuela e Fernando Haddad. Lula unificou em vida a esquerda brasileira. Não só unificou, mas pautou, apresentou o programa, cantou o caminho das pedras. Lula deixou claro que o povo mais pobre precisa comer melhor, precisa consumir, viajar de avião, estudar na universidade. Lula, o operário que durante a vida inteira foi humilhado por não ter diploma de ensino superior, foi o professor de milhões de brasileiros que sonham com um país melhor. É como se Lula estivesse dizendo: “Num país como o Brasil, a obrigação mais urgente da esquerda é transformar o Estado burguês em agente provedor de direitos sociais”.

Lula discursou durante uma hora em rede nacional, se defendeu das acusações. Não foi uma defesa para a Justiça, mas sim para o tribunal moral da nação. Não foi um discurso para o presente. Foi um discurso para a história.

Não, meus amigos, acuado pelas forças do atraso, Lula não deu um tiro no próprio peito.

Lula mandou trazer cerveja e carne e fez um churrasco com seus companheiros e companheiras. Foi carregado pelos seus iguais, foi tocado, beijado. Saliva, suor, pele. Lula não deu um tiro no próprio peito.

Getúlio é gigante, sem dúvida, mas também era herdeiro das oligarquias. Lula é o único trabalhador que, vindo da base da sociedade, conseguiu governar e transformar o Brasil. Lula já é maior que Getúlio. Diferente de Getúlio, Lula entrou para a história sem precisar sair da vida.

(Rodrigo Perez Oliveira - professor de Teoria da História na UFBA)