22.7.17

VAMOS BEBER!

Estavam atentos ao tema abordado. O assunto? Bem, falávamos de como os evangelhos apresentam um Jesus que tem a missão de subverter, de desdizer o que era dito, de suplantar a prédica estabelecida e inverter lógicas de poder e subalternidade.

Por ser um grupo que se prepara para o símbolo do batismo, a abordagem dos textos não são exegeticamente precisas, até porquê esse não é o objetivo. O viés político e ideológico do texto, bem, esse não tem como ignorar.

Bom, na conversa chegamos ao texto de João 2,1-11. Jesus no casamento de Caná.

Chega uma hora que a palavra “metáfora” surge para falar dos temas que o texto aborda.

Na conversa sobre o texto, a pergunta aparece:

- Quando usamos a palavra “metáfora” quer dizer que o texto tem mais do que está aí? É isso?

Com certeza! (Imagine a minha alegria quando alguém consegue enxergar no texto o que não está patente, mas nas entrelinhas, como um tear que entrelaça as linhas e os fios, mas no fim o tecido está ali).

“Na linguagem usamos metáforas para uma relação de semelhança entre dois termos. Quando fazemos um caminho de transposição de sentidos”. (Lembrei-me de Ricoeur e o seu texto Metáfora viva).

Assim, o evangelho de João é uma construção textual em que os “milagres” são sinais e esses sinais (metáforas) querem dizer algo mais do que está sendo dito (texto) ali. O sinal indica o ponto de vista humano no qual a atenção está voltada não tanto para o milagre em si, mas para aquilo que é revelado para quem consegue enxergar mais longe.

O evangelho de João surge em meio às dificuldades de uma gente que quer vivenciar o amor; que tem uma liderança que prioriza a fraternidade; as relações de poder são diminuídas, surgindo o serviço ao outro como demonstração de cuidado.

A narrativa do casamento é o primeiro sinal. É uma narrativa que procura construir uma comunidade solidária e sensível às pessoas.

O casamento era representativo para o povo de Deus (Israel). Era um sinal entre o povo e Deus.

Quando em um casamento falta o vinho, era como um aniversário faltar o bolo.

A falta do vinho (ter acabado), pode ser uma referência à falta de amor; a incapacidade de realizar a partilha e a solidariedade.

Faltar o vinho é dizer que o sistema, baseado na Lei, deixou de ter a sua alegria; não cumpre mais aquilo que Deus deseja.

O amor (vinho) foi substituído pela Lei. “Eles” tornaram a relação com Deus em outra coisa que não combina com a alegria e a celebração. Algo que dizia apenas às regras e o velho e rotineiro jeito de fazer as coisas.

Vamos beber!

As talhas, coloquem água.

- Jesus, as talhas servem para a purificação!

Coloquem água nelas...

No lugar da purificação vem o vinho (amor). E do melhor ainda!

Se mais alguém chegar na festa, antes de procurar se purificar – por estar na rua e ser um lugar impuro – irá beber o melhor vinho da festa.

O nosso texto ganhou sentido naquela noite. A poesia superou a prosa. Não é o literalismo do texto, é para além dele...

Uma noite boa, em volta do evangelho e um sentido de comunidade surgindo e sendo maturado.

A vida em comunidade deveria ser assim. Quando se chega não há talhas para a purificação, há vinho para a celebração.

Não são as regras e a Lei que garantem o relacionamento amoroso com Deus, é o amor e a alegria.

11.7.17

O "CRISTÃO FAKE"

Ah sim. Agora é “moda”.

Já ouvi, inclusive, em discursos acadêmicos. Mas ela é bem usada nas Redes Sociais.

A palavra fake (inglês) significa falso ou falsificação. E pode ser colocada para uma pessoa, um objeto ou qualquer ato que não seja autêntico.

Nas Redes Sociais, a palavra é muito utilizada para dizer que alguém (supostamente), está usando um perfil fake, ou seja, algo “falso” ou, prefiro essa definição, “inautêntico”. Em outras palavras, o fake se dá quando alguém quer ocultar sua “verdadeira” identidade – não sei se isso é possível na Internet, a identidade, principalmente quando se leva em consideração que o ambiente virtual é híbrido. De qualquer forma, há diversos perfis fakes espalhados pela Rede, principalmente em fóruns de debate e Redes Sociais.

A palavra, sendo polissêmica, saiu das Redes Sociais e ganhou o “universo gospel”, para usar outra palavra fake. Assim, se fala agora em “púlpito fake”, ou seja, quando o pregador faz um Ctrl+C mais um Ctrl+V e coloca diante da comunidade um “sermão fake”.

A questão é que não há apenas o “púlpito fake” ou o “sermão fake”, há também o “irmão fake”. Quando na sua comunidade ele é fake. Não no sentido falso quando se contrapõe ao verdadeiro (também), mas no sentido de autenticidade e inautenticidade. Não é autêntico enquanto cristão e as consequências desse compromisso de fé.

No Novo Testamento o Evangelho de Mateus (capítulo 7), irá dizer que pelos frutos se conhece a árvore, sendo improvável que árvore má dê fruto bom. Em Tito (1,16), há um texto mais claro sobre os fakes na caminhada cristã – “professam conhecer a Deus, mas negam-no pelas suas obras”. É gente que diz uma coisa, mas faz outra, ou melhor, não faz.

O tal do “cristão fake” é engraçado até...

Ele geralmente vê defeitos naquilo que os outros fazem e quando tem oportunidade não deixa de dizer o que é preciso fazer. É incrível, mas os “cristãos fakes” não costumam atender aos desafios colocados pela comunidade. É gente de corpo presente, quando está presente, mas não são autênticos enquanto seguidores do Nazareno. É como o texto de Tito 1,16 diz, é gente que sabe falar de Deus, da Bíblia, citar versículo bíblico, canta bonito, mas negam o que Deus deseja com suas vidas e obras.

Não quero generalizar, mas é bem provável que toda a comunidade de fé tenha mais de uma dúzia de “cristãos fakes”.

A possibilidade de identificar suas “identidades” não é muito difícil...

Eles estão por aí, se vestem como os outros, sem nenhuma dificuldade. Falam a mesma linguagem e professam os mesmos nomes. Mas suas ações dizem bem quem são. Não são, geralmente, pessoas ruins, claro que não. São gente boa (alguns deles). Mas não espere contar com um “cristão fake”, ele, provavelmente, o deixará na mão.

Já ia esquecendo de dizer...

Se o leitor/a entender que esse texto foi direcionado propositalmente, é porque, provavelmente, o leitor/a possa ser um “cristão fake”. Mas se for e achar que não tem nada a ver o que leu, desconsidere, principalmente se não houver mais alguém com você lendo esse texto. No mais, continue assim, sendo fake, está na moda...

15.5.17

O MODELO MISSIONÁRIO DA CBESP

Os batistas se notabilizaram no país, dentre outras características, pelas suas campanhas missionárias. Quer em nível mundial (JMM), nacional (JMN) ou estadual, os batistas asseguram que a necessidade de evangelização é uma prioridade da igreja, logo, das organizações denominacionais.

Ocorre que há modelos que são colocados para as igrejas e aos agentes missionários das organizações. No caso da JMM, por exemplo, de maneira bem sintética, o principal modelo se dá em projetos que a JMM desenvolve em alguns países, procurando alinhar as necessidades prementes de um lugar ou região com o trabalho da equipe missionária. Nesse sentido, o modelo foca o aspecto social e religioso. A mensagem não é, primeiramente, falada, mas demonstrada e praticada com ações que promovem o testemunho do Evangelho. Por aqui, a JMN tem demonstrado que as Cristolândias é uma prioridade de recursos e equipes. A notoriedade midiática da Cristolândia, favoreceu o mote da JMN, que é servir de instrumento de reabilitação e integração social de adictos, tendo o Evangelho como primeira ferramenta para isso.
 
A Convenção Batista do Estado de São Paulo (CBESP), vem demonstrando a sua estratégia missionária depois de alguns problemas de ordem financeira, como também de logística. Ocorre que o modelo que a CBESP vem construindo difere das organizações missionárias mencionadas acima, ou seja, o foco principal tem sido disputar espaço no campo religioso estadual com outros segmentos, principalmente com o setor católico. Algo que não víamos já algum tempo.

Antes, é preciso recordar que, a grosso modo, o protestantismo de missão chegou no país com a missão de converter católicos. Reconheciam no catolicismo, dentre outras razões, o atraso do país. É sabido que esse encontro gerou conflitos para ambos os lados, sendo o protestantismo, por ser minoritário, o mais penalizado. Por outro lado, o discurso exclusivista do protestantismo e a postura apologética causou inúmeros problemas, inclusive entre os próprios protestantes. É dessa conjuntura, que emerge a identidade protestante e sua base missiológica, tendo, principalmente, os católicos como principal alvo concorrente.

Agora, temos a impressão de que estamos presenciando o mesmo modelo missionário do século XIX entre os batistas do Estado de São Paulo. A proposta da CBESP, parece evocar um modelo missionário de caráter bélico, onde luz e trevas estão em conflito, sendo que as “trevas” são locais que ainda não há um templo (presença) batista. Ao que parece, estamos diante de uma conhecida ideia medieval, a de que identificava a presença física da igreja (templo) com o reino de Deus.

Postura como essa, reforçam uma visão de mundo que esteve atrelada ao maniqueísmo, quando se colocava em constante dicotomia o mundo e o reino de Deus, ou seja, a igreja. Uma vez associando “trevas” ao um segmento do cristianismo, mesmo que não concordando com suas doutrinas e ritos, não está se priorizando um modelo missionário pautado na caminhada do Nazareno que procurou mediar as diferenças por meio de gestos e ações que privilegiava o humano, antes de qualquer sistema religioso. Não por acaso, os empates com os fariseus e saduceus nos evangelhos se deram a partir disso. Não é o sábado que vem primeiro, mas sim gente.

Quando comemoramos 500 anos da Reforma Protestante, parece que os principais elementos da Reforma são obnubilados por outras motivações. A Reforma, se constituiu em momento ímpar para o mundo ocidental por demarcar um tempo de liberdade, sendo os batistas, depois, dentre outros, a lutar para que ela, a liberdade, não fosse apenas um discurso, mas também uma ação. O modelo missionário da Reforma se mostrou viável e desafiador, porque colocou na liberdade o seu início; na graça de Deus a salvação; a fé como condição salvífica; na teimosia profética a denúncia como elemento imprescindível do ser protestante. Esses elementos formaram o ser protestante e desses elementos somos, queira ou não, herdeiros.

Entendemos que um modelo missionário que tem como primeira marca o embate a partir do campo religioso brasileiro, sendo esse embate promovido pela logística denominacional com publicações e promoção de personagens que transitaram entre segmentos da religiosidade brasileira, não atende as reais necessidades prementes que temos no momento. Pensar que o principal problema de evangelização no Estado de São Paulo se dá, apenas ou principalmente, a partir da religiosidade, é suprimir um gigantesco universo de problemas de ordem espiritual, social, política e moral. Na leitura do mundo, não é mais possível reducionismos que privilegiam uma relação dicotômica ou dualista.

O primeiro e principal modelo missionário continua sendo o de Jesus. Em Mateus 11,28-30, Jesus coloca, em oração, o seu modelo missionário e este modelo se constitui em mansidão, leveza, descanso e alívio. Fica claro que o que dá consistência ao modelo missionário de Jesus é a sua pessoalidade. O modelo de Jesus encontra resistência com as estruturas denominacionais, porque não foca no sistema, mas sim nas pessoas.

É a partir do modelo missionário de Jesus que somos chamados a testemunhar o que seja o Evangelho. Não por acaso que em Atos 1,8 a primeira incumbência dos discípulos é: “E sereis minhas testemunhas”. 

22.4.17

QUANDO HOLLYWOOD FAZ TEOLOGIA...

A cada filme hollywoodiano que tenha como enredo um tema bíblico-teológico aparece, os comentários nas redes sociais, blogs e vídeos se multiplicam. Bastou surgir nos cinemas filmes em que o roteiro tem conexões com a Bíblia, para que pessoas ligadas às comunidades de fé e teólogos da web, principalmente conservadores, tecerem suas impressões sobre os filmes.

Em 2014 Hollywood lançou dois filmes épicos tendo a Bíblia como roteiro. Um filme do diretor e roteirista Darren Aronofsky, “Noé” causou estranheza porque o público “evangélico” julgou tratar de um filme “bíblico”, ou seja, um filme que “retrataria o que está escrito na Bíblia” (ouvi isso de um colega). Quem viu, logo percebeu que não se tratava disso, e o diretor procurou marcar a trama de uma outra forma, apenas usando a narrativa bíblica como ponto de partida. No mesmo ano, conhecemos “Êxodo: deuses e reis”, de Ridley Scott. No longa, “Moisés” não é visto romanticamente como um pastor, mas como um general que defende, num primeiro momento, os interesses do Egito. É alguém preparado para batalhas. O que chamou mais atenção nem mesmo foi essa imagem que o filme rompe (Moisés, como um pastor), mas sim a representação de “Deus” como um menino, uma criança até que invocada e que apenas Môche via. Saindo do cinema, ouvimos algumas pessoas (presumivelmente de igreja), o comentário: “como pode, colocar ‘Deus’ como uma criança”. O espanto foi duplo. No mesmo filme Moisés deixa de ser o “bonzinho” de Deus e Javé é feito menino. Um Deus-menino no filme de Scott, não foi muito legal, mas no Natal... Bem, aí já é outra coisa. 

É recente o filme (2017) “A cabana” do diretor Stuart Hazeldine. Como nos filmes anteriores, os comentários nas redes sociais e textos em blogs procuraram dar uma opinião favorável ou contrária ao enredo do filme. Os comentários, vindo principalmente de pessoas com pertença religiosa de segmento “evangélico”, mesclaram entre elogio e depreciação.

É possível ver comentários nas redes sociais e vídeos no YouTube de pessoas com alguma relação com igreja, quer sejam frequentadores ou membros de comunidades, ou sem nenhuma filiação institucional, colocando suas impressões sobre o filme. Algumas dessas pessoas, em seus depoimentos, revelaram ter “descoberto” Deus no filme, ou seja, o filme funcionou como um gatilho para impulsionar a fé delas e abrir suas percepções teológicas sobre Deus, o que demonstra que a igreja, per si, não tem mais o controle sobre isso para algumas pessoas. Para esses, o filme é “maravilhoso”, porque retrata Deus de uma “maneira diferente”. Outros ainda, viram no filme o combustível para “heresias”, porque coloca Deus (e a trindade) de maneira inadequada e isso fere o que a igreja entende sobre “Deus” e sobre a “trindade”.

Os diversos comentários em redes sociais, blogs e vídeos sobre o filme girou em torno da representação de Deus feita pela atriz conceituada Octavia Spencer, ou seja, por ser mulher e afro-americana. Isso bastou para que reações surgissem vindas do universo eclesiástico conservador. O filme foi associado à propagada feminista, por colocar “Deus” como uma mulher, recusando assim a figura paterna de Deus-Pai. As feministas querem livrar a sociedade de uma imagem masculina de Deus e, filmes como “A cabana”, favorece o discurso das teólogas feministas. Não gostaríamos de discutir esse tema aqui, até porque o objetivo do texto é outro, mas negar que a imagem de um Deus masculinizado e ocidental tenha contribuído para uma concepção distorcida de Deus na história, causando inúmeros equívocos nas interpretações bíblicas e alimentado posturas sexistas e misóginas, não é mais possível ignorar.

Quando há um entendimento de que Hollywood comete erros ao retratar temas bíblicos em suas superproduções, reivindicando, assim, ter a primazia de uma interpretação “correta” sobre os mesmos temas apenas nos bancos das igrejas, esse entendimento não atentou para as principais mudanças que o mundo passa/ou e que envolve, dentre outros meios de disseminação cultural, o cinema.

A luta de setores conservadores das igrejas é legítima, porque a contemporaneidade e suas transformações favorece isso. Os conservadores procuram lutar contra um pluralismo de princípio. A ideia de que o monopólio da religião não está mais dado às igrejas e suas instituições de controle do sagrado, assusta... A assim denominada globalização, favoreceu o rompimento de fronteiras antes mais definidas, tornando o mundo uma aldeia global. O contemporâneo é marcado por entre-lugares, ou seja, não há mais fronteiras fixas e tudo e todos estão lançados ao que vem, ao que está-aí e, concomitantemente, ao que não-está, caracterizando um tempo em que a busca por sentido se encontra em um templo como também em um shopping-center. Assim, as reações de conservadores são legítimas nesse contexto, porque há uma constatação “de que existem maneiras de viver e crer diferentes daquelas que são correntes [até então] e comuns a determinados grupos que partilham o mesmo conjunto de crenças” (Eliane Moura da Silva). Essa constatação paradoxal é perceptível inclusive em Hollywood, que vem fazendo teologia com seus longas. Essa tensão entre diversidade (pluralismo) e conservadorismo (exclusivismo), está presente nas telas de maneira secularizada. Nesse sentido, houve quem vibrasse com os filmes “Deus não está morto” e “Você acredita?”, do mesmo modo houve quem demonizasse “O código Da Vinci” e, agora, “A cabana”.

Acontece que Hollywood está fazendo o papel das igrejas na sua função de doutrinar. O problema é que as salas de cinema ficam mais cheias que as salas da EBD e isso, querendo ou não, incomoda bastante setores conservadores. A quantidade de pessoas que vão aos cinemas ver filmes como “A cabana”, não é a mesma que comparece aos cultos e encontros doutrinários. Isso ocorre por que o cinema é mais atrativo? Não necessariamente. Ocorre porque não é de hoje que há um crescente deslocamento do religioso, onde as igrejas, como instituições do depósito simbólico de bens religiosos, não tem mais a prioridade. Com isso, como bem esclarece Clifford Geertz, “a religião se tornou cada vez mais um objeto flutuante, desprovido de toda ancoragem social [...] em instituições estabelecidas. Em lugar e em vez da comunidade solidária agregada por representações coletivas (o sonho de Durkheim), surgiu uma rede à maneira de Georg Simmel, difusa e desprovida de centro, conectada por afiliações genéricas, multidirecional e abstrata. A religião não se enfraqueceu como força social. Pelo contrário: parece se ter reforçado no período recente. Mas mudou – e muda cada vez mais – de forma”. Com esse esclarecimento pontual de Geertz, esperamos outros filmes hollywoodianos em que o elemento religioso esteja presente. Mas isso não significa concorrência com segmentos religiosos (igreja, por exemplo), antes se dá porque as ofertas de bens religiosos está cada vez mais plural, o que significa que as instituições religiosas são uma, dentre outras, opções. Dentre essas opções, “A cabana” é uma delas...

25.2.17

EVANGELHO E ÉTICA SOCIAL: UMA CONTA QUE NÃO FECHA COM OS EVANGÉLICOS NO BRASIL

Quando tomamos conhecimento da morte de inúmeros presos no sistema penitenciário de cidades do Norte do país, presenciamos falas, não somente nas redes sociais, mas também de integrantes desse governo postiço, de que a tragédia estava anunciada e o seu desfecho era algo esperado, portanto, algo que apenas entrava para as estatísticas como números com o fim de gerenciar valores para um sistema que, há muito tempo, vem se mostrando ineficiente. Os “evangélicos”, principalmente esses que escutam e se identificam com os pastores televisivos que, ora estão em Brasília defendendo uma agenda intolerante, ora estão visitando a sede da PF, também foram às redes sociais para expressar suas opiniões. Com isso, demonstraram o que, de fato, vai na “alma” dos evangélicos, ou, pelo menos, em uma parcela deles. 

Não apenas o fatídico episódio envolvendo presos no Norte do país deixou a sociedade brasileira atônita, mas também no Sudeste (Vitória/ES), vimos o caos nas ruas de uma bela cidade por conta da greve de policiais militares. Com a ausência de policiamento, pessoas saquearam o comércio varejista, além dos inúmeros delitos cometidos. Nesse ato, dos saques, há relatos, inclusive com fotos nas redes sociais, de pessoas consideradas de “bem”, carregando eletrodomésticos pelas ruas. Dentre essas pessoas, se comprovou que “evangélicos” estavam envolvidos e, depois de apuradas as imagens dos estabelecimentos comerciais, muitos começaram a devolver o que tinham levado.

Com esses dois incidentes, foi possível perceber, não que isso seja recente, que há um antagonismo entre o discurso e a prática dos “evangélicos”. O discurso, a priori, toma (ou deveria tomar) como ponto de partida a mensagem do evangelho. Nessa mensagem, pelos menos nos Evangelhos que narram a caminhada de Jesus de Nazaré, há elementos de compaixão, de amor, de perdão, de alteridade. A mensagem central de Jesus, o reino de Deus, acolhe o que mais precisa, levanta o desvalido, socorre o doente, visita o preso e alimenta o que tem fome. Em Mateus 25,31-46, por exemplo, os presos são visitados e isso caracteriza o fazer aos pequeninos de Jesus.

Que a relação entre discurso e prática envolvendo a ética do “evangélico” é dicotômica, não é novidade. Há estudos disponíveis que demonstram isso em escala histórica. A ética no “universo evangélico” se concentra em aspectos individuais, dependendo de qual grupo está se referindo. Nesse sentido, há diferentes perspectivas de moralidade em alguns setores do “universo evangélico” que pode ser a negação de certas roupas o ponto central, como também a abstinência de bebida alcoólica, o tabagismo e o sexo antes do matrimônio e a homossexualidade. Essas são as principais bandeiras morais que caracterizam o comprometimento com um certo cristo. Com isso, o discurso ético se dá em perspectiva individual, e o nome disso é ética cristã. A relação com o contexto social é desprovida de uma ética solidária e comprometida. Nesse contexto, é possível uma manifestação de que a justiça divina foi feita em relação aos presos assassinados no Norte do país, demonstrando completa insensibilidade, fruto de uma leitura superficial da realidade social e sua complexidade. Assim, houve “crentes” que entenderam como julgamento escatológico a morte dos presos. Isso demonstra, com tristeza, que o evangelho de Jesus está equidistante de uma leitura de compaixão e justiça, pois muitos entendem que o chavão “bandido bom, é bandido morto” está correto. É claro que os problemas sociais do país são enormes, mas aqui estamos focando em atitudes, principalmente aquelas que foram veiculadas nas redes sociais, de pessoas que se identificam como “evangélicas”. Essas pessoas que assim se expressam, também são as mesmas que entram em lojas para pegar o que não lhe pertence porque, naquele momento, não há “lei”.

Há uma diferença qualitativa entre presença e visibilidade dos “evangélicos” no Brasil. A visibilidade dos “evangélicos” é um fato há algum tempo na sociedade brasileira. A mídia favoreceu o estar visível e as grandes concentrações em estádios e avenidas, fortaleceu a ideia de que os “evangélicos” estão conquistando espaço. Assim, o domínio de alguns setores da economia e da política, são dedicados aos “evangélicos”. 

Quanto à presença dos “evangélicos” no país, no sentido de tornar tangível posturas tolerantes carregadas de misericórdia e justiça, que tenha na alteridade o principal elemento de ação e leitura social, ainda se constitui em processo. 

29.12.16

QUANDO A FÉ SE CONVERTE EM DOUTRINA

Uma mera abordagem da fé em Calvino e Paulo

Quando Calvino fala sobre nas Institutas, essa é umas das principais definições: “Um conhecimento firme e certo da benevolência de Deus para conosco, fundada na verdade da promessa dada gratuitamente em Cristo, revelada a nossas mentes e selada em nossos corações pelo Espírito Santo”. Nessa definição, é tratada como um conhecimento, mais ainda firme e certo. Conhece à Deus por meio dessa que, mediante o Espírito Santo, é revelada na mente e selada no coração. Para Calvino, portanto, a não é uma capacidade humana, ela é obra e realização do Espírito Santo, ou seja, é um dom sobrenatural do Espírito Santo. Não é algo inato ao ser humano. Antes pode ser uma resposta humana genuína pela qual os eleitos ingressam na sua nova vida em Cristo.

Ainda nas Institutas, Calvino afirma: “Nós só somos levados a Cristo e seu reino, em genuína e verdadeira fé, em virtude do Espírito do Senhor”. Isto significa que, além de objeto da fé, Deus é também aquele que nos conduz à mesma. É impossível, de acordo com o pensamento de Calvino, que alguém tenha genuína fé em Deus, mediante seu Filho, sem que tenha sido conduzido ao mesmo por Deus, mediante seu Espírito. Nesse sentido não há nenhuma mediação humana para a graça, obviamente. Se houvesse algo assim, o sistema de Calvino teria dificuldades, quando admitisse que a é algo que oriunda do ser humano e que, portanto, é algo inato a qualquer ser humano. É claro que ele precisa dizer que a que tem como alvo Deus, é o mesmo Deus que a suscita no coração e na mente daquele que, uma vez predestinado, foi eleito para ser salvo.

Os intérpretes de Calvino, quando colocados diante da perspectiva de em Paulo, gostam de utilizar a expressão “Espírito da fé”. Assim, no sistema de Calvino, a é dada por Deus a quem ele deseja. Isto é, ela tem origem não no homem, mas no Criador. A fé, na perspectiva calvinista, não é fruto do esforço humano, não deriva das capacidades inatas do homem em crer piamente em algo. Tampouco decorre de alguma habilidade adquirida e desenvolvida ao longo da vida de quem quer que seja. Para Calvino, a verdadeira só existe quando decorre de Deus, que além de ser seu autor, é o seu objeto maior.

Está claro que para Calvino e seus intérpretes, a não pode, em hipótese alguma, ser algo do ser humano. É Deus que espera nele e, ele mesmo, concede essa para que o eleito creia nele. O ciclo é fechado em Deus e não há possibilidade de abertura. Nesse sistema é sinônimo de eleição, não há uma sem a outra. Para o sistema de Calvino, isso é perfeito. Não há problema algum.

Quando olhamos a pela perspectiva paulina, encontramos dificuldades com o sistema calvinista. Primeiramente a que Paulo trata está ligada dialeticamente à Lei. Os seus maiores embates em torno do tema () foi em relação à Lei e, como decorrência disso, a salvação não pela Lei, mas pela graça. Por essa razão, o uso de Abraão por Paulo em Romanos. Em Gálatas o maior problema de Paulo será com a Lei versus em Cristo. Outra questão, a , em Paulo, está ligada à Cristo e não, necessariamente, à Deus (Rm 3,22-25). Isso está tão claro em Romanos, que Paulo liga a à graça (4,16).

Quando trata da e o Espírito Santo, ponto que Calvino acentua, Paulo pergunta em Gálatas: “Será em virtude da prática da lei que recebestes o Espírito, ou por terdes escutado a mensagem da fé?”. A é pré-requisito para a presença do Espírito Santo e não o contrário (Gl 3,13-14). Se o Espírito é recebido pela , onde será que fica a ? Obviamente a não é algo meritório pela qual o Espírito Santo é recebido, mas também não é nula da participação humana. Por essa razão que a não é algo imutável, antes ela (a ) precisa crescer, desenvolver.

É claro que Calvino e seu sistema doutrinário tem a necessidade, como todo e qualquer sistema que tem na doutrina o seu ponto de início e fim, de fechar a questão. Os sistemas doutrinários estão aí para dizer o que é Deus e o que ele não é. Nesse sentido, a não é outra coisa senão um ponto dentro de um sistema que emudece a voz e a consciência.

Continuar a leitura...

MORRIS, Leon. “Fé”. In: HAWTHORNE, Gerald F. et. al. (Orgs.). Dicionário de Paulo e suas cartas. São Paulo: Vida Nova/Paulus/Loyola, 2008, p. 536-543.

BARTH, Karl. “A eleição de Deus em graça”. In: BARTH, Karl. Dádiva e louvor. 3ª ed. São Leopoldo: Sinodal, 2006, p. 237-255.

9.12.16

ESSA TAL AUTONOMIA...

Uma reação ao artigo de Lourenço Stelio Rega

Vez ou outra o assunto surge nos meios de comunicação da Denominação, especialmente no “O Jornal Batista – CBB”. A autonomia da Igreja Local e sua relação com a Denominação. Essa relação, defendida por uma grande maioria, se dá a partir da cooperação denominacional. Há quem não goste muito dessa “tal autonomia” e propaga uma espécie de “intervenção” denominacional na Igreja Local quando julga necessária, com ou sem consentimento. Como o sistema batista se fundamenta em alguns Princípios, isso não seria possível, mesmo com manobras estatutárias, dando uma impressão de que a Denominação dispõe de certos mecanismos de ingerência na Igreja Local.

Bom, dessa vez o pastor Lourenço Stelio Rega (Doutor em Ciência da Religião pela PUC-SP e Diretor Geral da Faculdade Teológica Batista de São Paulo), na sua coluna semanal no “O Jornal Batista – CBB”, traz o assunto quanto a autonomia da Igreja Local e sua interdependência (11.12.2016 – Estudos sobre a igreja (15): a igreja como comunidade autônoma e interdependente). É sempre bom tocar nesse assunto, principalmente porque há uma necessidade de se compreender os fundamentos da tradição batista quanto ao seu modo de subsistência.

Com o intuito de ampliar o debate, porque esse deve ser um dos principais anseios de um autor, algumas questões chamam atenção no texto de Rega:

- O autor fundamenta a autonomia da Igreja Local a partir do Novo Testamento e para isso dá inúmeras referências, principalmente no livro de Atos dos Apóstolos;
- Chama atenção para a tarefa cooperativa, presente na realidade das igrejas primitivas neotestamentária, sendo uma necessidade premente para a continuação de projetos comuns às igrejas hoje;
- Procura dissuadir da ideia de que “autonomia” é sinônimo de “independência”. Para isso, lembra do trabalho de Edgar Morin como um dos principais teóricos da Teoria da Complexidade. Trazendo o filósofo francês, o autor quer dar balizamento filosófico ao que está propondo, ou seja, dizendo que no atual contexto o isolamento traz malefícios e não benefícios ao todo.

A partir disso, o autor traz a figura da Convenção, dando a entender que não se trata apenas da Convenção Batista Brasileira (nível nacional), mas também da Convenção Estadual (nível regional), quanto a relação autonomia e interdependência (lê-se autonomia da Igreja Local e interdependência com a Convenção).

Com isso, o autor explicita: “A Convenção é a solução que as nossas Igrejas Batistas têm para a realização das nossas aspirações comunitárias”. Será mesmo? Se pensarmos no aspecto missionário nas esferas mundial e nacional, isso pode se configurar uma realidade, uma vez que a atividade missionária no contexto batista tem um forte apelo. Mas quando o autor traz “aspirações comunitárias” ele não pode estar falando apenas no aspecto da Igreja Local, uma vez que a Convenção não se projeta para dentro dos muros de uma Igreja Local, mas sim para além dos seus muros. Se for assim, essa afirmação de que ela (a Convenção) é “realização das nossas aspirações comunitárias” não se sustenta. É sabido que há igrejas com uma autonomia financeira e logística que realizam trabalhos voltados para o seu contexto imediato (bairro, cidade e estado e, até mesmo, países) que, em nada, dependem de recursos da Convenção. O contrário é perceptível: são essas igrejas que, cooperantes, sendo que algumas não são, sustentam projetos denominacionais financeiramente. Além disso, não é novidade alguma, que a administração das convenções, como também da CBB, enfrenta dificuldades financeiras por, entre outros fatores, má gestão e decisões equivocadas em conselhos e reuniões deliberativas que formam um painel de discussões sem objetivos claros e previamente definidos.

O autor não menciona, em relação as igrejas do Novo Testamento, de que a cooperação acontecia entre igrejas. Portanto, não havia um controle exercido por algum centro homogêneo como quer ser as instituições. Não por acaso que as igrejas neotestamentárias enfrentaram conflitos quanto a gerência eclesiástica. Por essa razão, os batistas não dispõem de um órgão centralizador hierárquico que detém o poder de decisão monocrático.

Infelizmente a Convenção insiste em ser “Igreja”, não sendo. Ela se constitui em uma organização para-eclesiástica. A rigor ela não deveria possuir nem mesmo uma Declaração Doutrinária, mesmo com o discurso de que expressa a “vontade” da maioria dos batistas brasileiros. Como bem frisa o autor, “não podemos aplicar à Convenção e a toda sua estrutura princípios eclesiológicos que, por sua própria origem e natureza, só podem ser aplicados à Igreja Local”. Mas na prática não é isso que se verifica. Ela funciona como uma “Grande Igreja” que detém o controle do discurso correto seja ele doutrinário, moral ou político, entendendo que cabe a ela (a Convenção) decidir quem fica e quem sai. Mesmo a Filosofia da CBB dizendo qual é a sua real finalidade, ou seja, a “Convenção Batista Brasileira resulta da reflexão que os batistas brasileiros fazem sobre os princípios bíblicos que sustentam a existência, a natureza e os objetivos da Convenção, como entidade que: (a) Promove o inter-relacionamento fraterno e cooperativo das igrejas a ela associadas; (b) Apoia o fortalecimento e a multiplicação das igrejas; (c) Se interessa pelo progresso e crescimento espiritual e social dos membros das igrejas; (d) Respeita a autonomia das igrejas cooperantes; (e) Administra zelosamente as entidades e instituições que cria, às quais atribui a execução de seus objetivos, programas e determinações; (f) Obedece aos padrões bíblicos de relacionamento com a sociedade, o Estado e outras igrejas”. Essas deveriam ser suas exclusivas razões. É importante salientar de que a Declaração Doutrinária não está elencada na abertura do texto-base da “Filosofia da CBB”.

O autor, que vem se especializando em “Planejamento Estratégico” em relação à Convenção, aliás, tema que trabalha desde a década de 1990, é enfático em afirmar que “os princípios que temos que aplicar a esta estrutura, portanto, localizam-se no campo da gestão estratégica e não no campo eclesiológico, mesmo porque os Batistas não têm uma hierarquia eclesiástica”. Seria salutar se isso fosse comprobatório! Se a Convenção quer ser a mobilização das igrejas com estratégias definidas, ela não pode insistir em ser “Igreja”. Se o alcance da Convenção não chega ao “campo eclesiológico”, a sua função não contempla a pretensão de “fiscalizar” e “punir” igrejas que não estejam dentro da sua idealização de “Igreja”, cabendo outros fóruns e espaço para isso, sempre tendo a reflexão bíblica e os Princípios Batistas como mecanismo legitimador de diálogo e cooperação.