10.1.19

NO TOCANTE AO SOCIALISMO...

No discurso de posse do novo Presidente da República, o senhor Jair Messias, uma frase apareceu: “O Brasil começou a se libertar do socialismo”.

Uma análise bem rápida da frase é possível constatar que o senhor Jair afirmou que, a partir de agora, o país passa a se ver livre do socialismo. Até aquele momento o país estava cativo desse nefasto sistema político-econômico, o socialismo.

Que socialismo o senhor Jair se refere? Quando foi que o país passou a viver sob o socialismo e que, agora, precisa ser liberto? Ou seria mais uma frase de “efeito”, um bordão ou chavão, como aqueles que o senhor Jair colocou no seu Twitter no período eleitoral? Parece que não!

Mesmo depois de eleito, o senhor Jair já disparou no seu Twitter, dizendo que irá “combater o lixo marxista que se instalou nas instituições de ensino”. Os marxistas que há muito estão nas escolas não fizeram um bom trabalho, Marx ficaria decepcionado. A grande maioria dos estudantes estão preocupados em curtir e não fazer “revolução”.

No tocante à frase: “O Brasil começou a se libertar do socialismo” (...).

Será que o senhor Jair formulou uma outra concepção de socialismo, diferente do conceito que conhecemos?

Seria uma tese acadêmica de peso, se isso acontecesse.

Por definição (e não confunda com marxismo) a base do socialismo, com múltiplas variantes, pode ser assim identificado: “Um ordenamento jurídico e econômico fundado na propriedade privada dos meios de produção e troca, numa organização social na qual: a) o direito de propriedade seja fortemente limitado; b) os principais recursos econômicos estejam sob o controle das classes trabalhadoras; c) a sua gestão tenha por objetivo promover a igualdade social (e não somente jurídica ou política), através da intervenção dos poderes públicos” (1). Ao que parece esse cenário nunca (nunca!) foi visto no país, nem ao menos tentado.

Interessante que o socialismo que surge na Europa do século XIX, tinha como base a expropriação de bens daqueles que tinham bens e a democracia, o voto. Os liberais, como bem lembra o prof. Daniel Aarão Reis (Doutor em História Social pela USP e professor titular de História Contemporânea na UFF), “defendiam que apenas os ricos poderiam votar” (2). Seguindo a síntese do prof. Daniel Reis, os partidos da social democracia, quando chegaram ao poder, tomaram o caminho de reformas, procurando regular o capitalismo e não combatê-lo.

No Brasil do senhor Jair, o socialismo nunca foi implementado. Nunca foi, nem se quer, testado!

Mais alguém ali grita: “Mas o PT é um partido socialista, de esquerda”. O PT é tão “socialista” quanto o PSDB.

Os governos petistas funcionaram como gestores da agenda capitalista no país, com acenos mais que evidentes para o neoliberalismo. É bom lembrar que o presidente do Banco Central do governo Lula foi o senhor Henrique Meirelles e o ministro da Fazenda da senhora Dilma foi o atual presidente do BNDS, Joaquim Levy. O governos petistas, não obstante a redução na miséria do país, principalmente no primeiro mandato de Lula, não anulou a desigualdade social, apenas amenizou. Em contrapartida, os bancos continuaram tendo seus lucros batendo recordes! Assim como estão hoje.

Mas no tocante ao socialismo do senhor Jair, é possível que ele esteja fazendo referência aos governos petistas que se alinharam aos países denominados “comunistas” como Cuba e Venezuela. Talvez seja essa a sua ideia quando diz que “irá tirar o viés ideológico das relações internacionais”. Se for isso, não se trata, senhor Presidente, de libertar o país do socialismo, mas de trocar um “viés ideológico” por outro, no caso o “viés ideológico” da América de Donald Trump.

Talvez a questão seja comportamental ou “moral”, mas não socialista. Ao que tudo indica, o senhor Jair coloca na conta do socialismo a discussão de gênero (ideologia nas escolas) e direitos homoafetivos. Em Cuba, um país que se pretende ser socialista mas sua população não tem direito ao voto, os homossexuais foram perseguidos e, pelo que consta, ainda não são aceitos na ilha. Na China, comunista no governo e neoliberal na economia (uma façanha), os homossexuais são duramente reprimidos, optando por fazerem casamentos de “fachadas” para não serem recriminados.

Por isso, ao que parece, o senhor Jair julga que a questão comportamental (algo que os conservadores priorizam) seja algo ligado ao socialismo. Essa associação é um grande e tremendo equívoco cognitivo. As lutas por liberdades, sexuais e gênero, estão ligadas aos anos de 1960. A França foi palco de inúmeras manifestações e bandeiras libertárias. No Movimento de Maio de 1968, um dos lemas era: “É proibido proibir”.

Ao que parece, a sobrevivência política do senhor Jair depende da sua luta contra algo que ele elegeu como maior prioridade, a sua própria definição de socialismo.

Seria bom se no seu governo a questão eleita como prioridade não fosse o socialismo, mas sim a escravidão que ainda teima em fazer parte da paisagem do Brasil. Seria bom demais se entre as questões mais eminentes da sua agenda fosse a renda e a população menos favorecida, e não o comunismo. Como sabemos, entra governo e sai governo e nada, absolutamente nada, é feito para barrar as isenções fiscais de bilionários; a sonegação de impostos na casa dos trilhões de reais. A maior parte do bolo do país, continua indo para pagar juros aos banqueiros, aumentando, cada vez mais, drasticamente suas margens de lucro (3). Esse seria um dos maiores enfrentamentos da nossa história. 

Por enquanto, no tocante ao “socialismo”, é preciso solicitar aos acadêmicos pesquisas em torno de uma nova modalidade de socialismo testado no Brasil nos últimos anos. Fonte? O novo presidente.

Notas
(1) “Socialismo”. In: Dicionário de política. 12. ed. Brasília: UNB, 2004, p. 1196-1197.
(3) Jessé Souza. Subcidadania brasileira. Rio de Janeiro: LeYa, 2018, p. 22.

14.10.18

ORAÇÃO DE UM ELEITOR ARREPENDIDO

Senhor, agradeço pelo dom da vida!

Tenho algumas confissões a fazer e, por isso, gostaria de pedir perdão...

Perdão, porque nesse período de eleições me deixei envolver de tal maneira com as questões políticas que nem mesmo percebi o quanto isso envenenou a minha alma.

Perdão, porque perdi amigos de longa data porque, em algum momento, eles não concordaram com o meu posicionamento político e o diálogo, que era tão bom entre nós, foi rompido de maneira abrupta.

Perdão Senhor, porque não fiz a menor questão de manter amizades apenas porque essas pessoas não estavam do mesmo lado que eu nessas eleições.

Peço-te perdão, porque passei a olhar as pessoas da minha igreja contrárias ao meu candidato com desprezo, com rancor, desconsiderando o que aprendi e ouvi durante toda essa minha trajetória como cristão.

Ah Senhor, como gostaria de confessar que não me importei em disseminar notícias falsas pelo meu WhatsApp para amigos e parentes. Julguei que para conquistar eleitores para o meu candidato, valia qualquer coisa, inclusive mentir. Perdão meu Deus!

Senhor, me perdoe porque nas redes sociais fui ríspido em comentários com pessoas que não conheço e sei que elas, sabendo que sou um cristão, não viram em mim a sua luz.

Quero pedir perdão Senhor, porque me dediquei horas postando temas relacionado ao meu candidato no Facebook e não tenho o mesmo empenho para estar diante de ti em oração.

Peço-te perdão, porque li todas as matérias, blogs e reportagens dos candidatos que são oposição ao meu com muita atenção, mas a Bíblia, aquela que toca o coração e alimenta a alma, não a leio há meses.

Por fim, quero pedir perdão ao Senhor, Jesus Cristo.

Por não imprimir nas minhas posturas os seus ensinos.

Por não ter o mesmo compromisso e tempo de anunciar o seu Reino, como fiz com o meu candidato em conversas e redes sociais.

Por não olhar as pessoas, que não tinham o mesmo posicionamento político que o meu, com misericórdia e compaixão.

Perdoe-me, porque me arrependo de não ter sido um instrumento de amor e perdão, quando vi o ódio e a falta de amor.

Perdoe-me, porque me arrependo de não ter ouvido a sua voz lúcida e tranquila quando me disse, por meio do seu Espírito, que aquilo que estava dizendo e fazendo, não correspondia ao seu caminho que é verdade e vida.

Obrigado pelo seu amor e perdão.

29.8.18

OS BATISTAS DO ESTADO DE SÃO PAULO APOIAM CANDIDATO?

Não é de hoje que os evangélicos no Brasil abandonaram aquela velha concepção de separação igreja-mundo, ou seja, a igreja é o lugar do bem, do povo santo e achado por Deus; o mundo é o lugar do mal, do povo perdido. Logo, quem está na igreja (lugar mesmo, templo), está protegido e guardado por Deus e quem está no “mundo”, está abandonado por Deus, perdido mesmo. Além disso, a concepção moral se dava na esfera individual, ou seja, pensava-se nas “coisas do céu”, e as “coisas terrenas” não interessavam muito. Quando “Jesus voltar”, tudo isso vai acabar e nós, os salvos e protegidos pela igreja, seremos levados e tudo isso de ruim vai ter um julgamento fulminante de Deus. A escatologia era extremamente pessimista e vingativa, da parte de Deus, é claro. Essa escatologia mudou. Hoje, o melhor “dessa terra é meu” e quem antes pregava contra a famigerada “teologia da prosperidade”, já editou Bíblia “Batalha Espiritual e Vitória Financeira”.

Há vários estudos dando conta da mudança desse comportamento nas últimas duas décadas no universo evangélico. Mudanças impulsionadas pelos (termo inapropriado e ambíguo) “neo-pentecostais” que aliou igreja e partido político de maneira pragmática e midiática. Ricardo Mariano, por exemplo, estudou esse processo muito bem no seu texto Neo-pentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. Outro pesquisador, Paul Freston, demonstrou como o voto dos evangélicos sofreu mutações ao longo do processo democrático do país e como as mentiras ditas por evangélicos ajuda ganhar votos em eleições majoritárias.

Hoje, a mensagem da igreja da “salvação da alma”, embora ainda esteja no jargão evangélico como um discurso de atração e abandono de uma vida pregressa para uma vida santa, não corresponde à realidade no seu âmbito político. Se antes uma das principais proibições se dava com o famoso “crente não se mete em política”, agora essa máxima virou fumaça. Crente se mete em política e, além de tudo, voto em crente. É dessa maneira que a bancada evangélica na Câmara Federal não diminui, só aumenta. A discussão quanto ao espaço público e sua disputa com outras expressões religiosas, não é nosso tema aqui. Quanto à isso há estudos muito bem documentados e trabalhados jornalisticamente. Interessados, indico o texto de Magali Cunha: Do púlpito às mídias sociais: evangélicos na política e ativismo digital (Curitiba: Primas, 2017).

Dentro desse quadro maior, os batistas, notadamente da Convenção Batista Brasileira, a CBB, parece que resolveram apoiar candidatos formalmente. No plano majoritário, Presidente da República e Governador do Estado, não há uma expressão maior por parte de lideranças da denominação, embora os apoios sejam velados. No contexto regional, isso ficou mais visível, principalmente depois de 2010, no Estado de São Paulo, quando a Convenção Batista do Estado de São Paulo tentou impulsionar a candidatura do pastor José Vieira Rocha, do Partido Social Cristão (PSC), quando este tentou ocupar uma cadeira na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. O pastor não obteve êxito.

Parece que nessas eleições 2018, para o legislativo do Estado de São Paulo, lideranças batistas do Estado querem reeleger Marcos Damásio (PR). Como pastor, já tive a oportunidade de estar com o deputado em um encontro de pastores. Na ocasião, ele conversou com os pastores, mas não pediu apoio formalmente na sua fala, mas nos bastidores do encontro, isso foi ventilado.

Os batistas se notabilizam por não fazer campanha para o candidato “A” ou “B”. Não é possível uma Igreja Batista, que entenda os Princípios, induzir os membros a votarem em candidatos que a liderança pastoral considera o mais viável, na sua opinião. Recentemente, um pastor batista no Rio de Janeiro chamou à frente da igreja um candidato à Presidente. Depois da repercussão negativa, ele veio à público procurar amenizar sua atitude.

Diante de um quadro político que inspira cuidados e atenção, onde a polarização ganha expressão raivosa nas redes sociais, o comprometimento de uma igreja local (Batista) ou uma denominação, ainda que seja na sua fração estadual, é de extrema responsabilidade. Com o apoio aberto, se acontecer, compromete-se com as pautas do candidato em questão. Uma Igreja Batista, ainda que isso seja possível, não deveria atrelar a sua trajetória a nenhum candidato, uma vez que cada igreja é autônoma e o pastor da igreja não tem nenhum direito de exigir isso dos membros da comunidade. Se acontecer algo assim em uma igreja local, isso já seria agravante no sentido de violar, pelo menos, dois princípios dos Batistas, separação entre Igreja e Estado e Liberdade de Consciência e Opinião. Uma denominação, na sua fração estadual, torna ainda mais inadmissível algo assim. Isso acontecendo, o candidato está dizendo que, de alguma maneira, está com os “batistas do Estado de São Paulo” e que eles, os batistas, estão acompanhando o candidato e concordando com ele, o que se constituí inverossímil, até mesmo pela própria estrutura e sistema denominacional. Seria apenas uma maneira de chamar a atenção do eleitor “evangélico” para a condição de um candidato que recebe ou que está junto a um dos poucos segmentos da Igreja Brasileira que, ainda, usufruiu de alguma respeitabilidade no cenário evangélico brasileiro? Talvez...

Em tempos como esses, é bom lembrar um pastor batista que tem a sua memória preservada pela admirável maneira como lidou com as questões da denominação, mesmo quando discordava dela. Estou me referindo à Isaltino Gomes Coelho Filho. Ele dizia: “Não imponho candidato às minhas ovelhas. Tenho percepção política, e minhas convicções são claras. Mas são minhas. Não as imponho. Meu rebanho não é minha propriedade”.

20.8.18

O MESSIANISMO EVANGÉLICO E A ORAÇÃO DE JOSUÉ VALANDRO JR.

Não é novidade que há pastores de Igrejas Batistas – uma Igreja Batista funciona como uma igreja local e autônoma; com um regime (para o bem ou para o mal) democrático na condução da vida eclesial, portanto, cada Igreja Batista responde por si mesma –, que estão envolvidos com figuras ilustres do processo político-jurídico nacional desde 2014 de forma acintosa.

Um dos notáveis procuradores da “Operação Lava Jato”, é membro de uma Igreja Batista. O senhor Deltan Dellagnol é blindado e colocado em lugares altos dentro da denominação, principalmente pelo seu pastor, L. Roberto Silvado, pastor da Igreja Batista de Bacacheri, em Curitiba/PR, da qual o procurador é membro e seu pastor, hoje, presidente da Convenção Batista Brasileira, a maior representação denominacional dos batistas no Brasil. No caso da votação no STF sobre a prisão ou não em segunda instância, Roberto Silvado fez um pronunciamento aos batistas brasileiros, pedindo oração e jejum para que o Supremo julgasse de maneira correta, ou seja, para que os ministros votassem à favor da prisão em segunda instância, visando tão somente a prisão do ex-presidente Lula.

Nas eleições de 2010, Paschoal Piragine Jr., da Primeira Igreja Batista em Curitiba, também emitiu sua opinião no púlpito de sua igreja contra a candidatura de Dilma Rousseff, apregoando nela a representante maior da corrupção no país, bem como os problemas morais.

Esses e outros fatos, demonstram que algumas lideranças batistas estão apoiando, abertamente, políticos e tomando parte em suas propostas político-partidárias e, assim como os irmãos pentecostais costumam fazer, está se configurando, cada vez mais, o tal “voto de cajado”; influenciando os membros a tomarem partido e escolhendo seus candidatos a partir da indicação ou voz “profética” do seu pastor.

No dia 19 de agosto de 2018, na Igreja Batista Atitude Central da Barra, no Rio de Janeiro/RJ, o pastor Josué Valandro Jr., presidente da igreja, chamou à frente o candidato do PSL à presidência da República, o deputado federal Jair Messias Bolsonaro. Sua intenção era orar pelo candidato, uma vez que a esposa do candidato é membro da referida igreja e, segundo o pastor, atuante na comunidade. Fazendo isso, Valandro Jr. sabe que irá se comprometer com o candidato e suas propostas. No seu discurso, divulgado em vídeo (veja aqui), é possível ver a tática do pastor em relação ao candidato. A porta de entrada para tal atitude, é chancelada pela chave “buscar a vontade de Deus”. Com essa chave hermenêutica, o pastor quer dizer que as eleições de 2018 estão abertas, ou seja, a nação está esperando que a “vontade de Deus” seja manifestada no mês de outubro. A partir disso, diz o pastor: “Deputado, eu não sei qual a vontade de Deus para a sua vida, mas uma coisa eu queria te falar: essa igreja vai orar pela sua vida”. Ainda que essa seja a suposta chave hermenêutica para chamar o candidato à frente, fazer a oração e depois dar a ele trinta segundos para falar, o pastor deixa muito claro quem é o seu candidato e quem ele espera (aí não é mais a “vontade de Deus”) que suba a rampa do Planalto no dia primeiro de janeiro de 2019: “Eu não vi coragem e credibilidade no olhar dos outros [candidatos] que eu ouvi, minha opinião”.

Além de emitir a sua opinião a favor do candidato, a vontade de Deus que ainda está para se manifestar, segundo o pastor, pelo menos num primeiro momento, já está manifestada para ele: “Se for a vontade de Deus que você seja no dia 1º de janeiro presidente do Brasil”. E assim completa: "Porque nós precisamos de alguém justo, correto”. Mesmo que o pastor diga que na igreja não há “voto de cabresto”, ele nega, pelo menos, dois princípios dos batistas. Um deles é a separação entre Igreja e Estado. Por esse princípio, o candidato do PSL não deveria estar à frente da igreja, a não ser que este fosse o Presidente do país. O segundo princípio, é a liberdade de consciência e opinião, que faculta a todos o direito inalienável de decidir suas questões morais, éticas, políticas e religiosas. Mas quando o candidato sobe ao púlpito da igreja ele é aplaudido, confirmando assim, que a Igreja Batista Atitude, ou boa parte dela, aprovou a atitude do seu pastor. Não é possível dizer que todos concordaram com o pastor, seu gesto e fala.

É recorrente nas eleições majoritárias do país, o discurso evangélico girar em torno de um certo messianismo. É preciso ter um “inimigo” a ser batido, do contrário não há uma luta entre o “bem” e o “mal”. Assim, no messianismo evangélico, é preciso ter personagens messiânicos, para que esses possam combater o reino das trevas e estabelecer o "reino de Deus". Nesse sentido, então, o candidato do PSL não tem apenas no seu sobrenome o “Messias”, ele é a figuração de um messias e tem qualidades para isso, segundo o pastor Valandro Jr.: “coragem e transparência”.

Na sua oração, com os seus demais pastores, Valandro Jr. vaticina a condição messiânica do candidato e pede, inclusive, que Deus o “blinde de uma gripe”.

Além de tornar o candidato o preferido dele e, por influência sua, da igreja também, Valandro Jr., na sua oração, faz o jogo do candidato quanto este coloca em suspeição o processo democrático do país e sua principal ferramenta, o voto. A convicção do pastor é tão evidente de que a vontade de Deus, que já é a sua a essa altura, é tornar o candidato presidente, que chega ao ponto de colocar em suspeição a credibilidade do processo eleitoral quando diz: “Que nem os hackers consigam mudar aqueles votos da urna. Que ninguém consiga, de alguma maneira, desfazer o propósito melhor [o seu candidato] para a nossa nação”.

A espera do pastor é que “no dia 1º de janeiro, esse homem possa subir a rampa do Planalto, para começar uma nova história desse Brasil”. Assim acontecendo, o pastor já diz o que não deveria acontecer, por saber qual é a opinião e os posicionamentos violentos do candidato: “Não de caça às bruxas, por que não estamos aqui para machucar ninguém”. É como se ele dissesse: vai devagar meu candidato.

Na oração do pastor Valandro Jr., a parte mais falaciosa da sua fala é essa: “Como ele tem falado, unindo pobres e ricos, negros e brancos, índios, sulistas, nortistas”. Parece que o pastor desconsiderou as falas do candidato em que este diz abertamente que, se for eleito, “não vai ter um centímetro demarcado para reserva indígena ou para quilombola”. Em uma de suas falas, considerada de teor racista, a PGR apresentou denúncia contra o candidato.

Mesmo admitindo que o candidato não é “evangélico” e “não é membro da igreja”, Valandro Jr. insiste que ele tem “valores cristãos” e é um “amigo da igreja evangélica”, e, mais ainda, “um amigo da ética”. Mesmo tendo mantido uma funcionária fantasma por muitos anos na região de Angra dos Reis/RJ, quando esta deveria estar em Brasília.

Por fim, espero que Deus não escute a oração de Valandro Jr., assim como não escutou a oração de Jonas quando este queria que Deus destruísse a cidade de Nínive, mesmo sabendo que Javé era um “Deus misericordioso e compassivo, muito paciente, cheio de amor e que prometes castigar mas depois te arrependes” (Jn 4,2).

24.7.18

“OLHO POR OLHO, DENTE POR DENTE”

As eleições de 2018 já despontam como uma das mais críticas, em virtude do atual momento político, econômico, jurídico e social do país. Entre as candidaturas para assumir o Planalto, a mais emblemática é a do deputado federal Jair Bolsonaro (PSL-Rio). O deputado, ganhou notoriedade nas redes sociais, tendo inúmeros seguidores, ajudado, obviamente, pelos famosos “robozinhos” que habitam o espaço digital. Além disso, o candidato ganhou um certo destaque pelo seu tom jocoso ao tratar de assuntos delicados como feminicídio e homossexualidade. Somando a isso, o candidato vem colecionando declarações polêmicas, com o seu habitual destempero em entrevistas quando questionado com mais contundência.

Até o momento, o candidato do PSL não apresentou um plano de governo, até porque, segundo ele, ninguém ainda tem plano de governo. Mesmo assim, a sua principal agenda segue sendo o acesso às armas; a demarcação de terras para indígenas e quilombolas; a diminuição do Estado e da máquina pública, logo ele que tem todos os seus filhos na esfera político-partidária fazendo carreira, assim como o próprio que já está há vinte e oito (28) anos ininterruptos como Deputado Federal.

Com um português sofrível e jargões do universo militar, o deputado que pretende ser presidente do maior país da América Latina e da quinta economia do mundo, não consegue desenvolver uma argumentação lógica, coerente e plausível. O seu maior receio, declarado, é enfrentar um debate aberto com os demais candidatos à presidência.

Mesmo com o despreparo latente e a desqualificação visível para ser um presidente da República, o candidato segue sendo uma opção para uma porcentagem da população.

Ocorre que a sua principal plataforma política tem sido o “ódio”. Em uma questão o candidato e sua assessoria tem acertado: o ódio é uma arma poderosa em tempos de crise institucional. Depois dos crescentes escândalos envolvendo partidos políticos e grandes empresários, o candidato apareceu como um catalisador de frustrações, mas também de protestos de uma parte do eleitorado brasileiro. Assim, as suas colocações não causam nenhum espanto para quem já decidiu dar a ele o voto no primeiro turno.

A proposta do ódio e da vingança (toma lá dá cá), tem ganhado as redes sociais e a figura do “homem” violento tem sido personificada nessa figura boçal. À quem quer vê-lo presidente, porque só assim terá uma chance de colocar uma arma de fogo na cintura, por entender que dessa forma terá oportunidade de se defender da criminalidade, mas isso só será possível para o “cidadão de bem”.  Como lembra o historiador Leandro Karnal, “Somos um país violento. Violentos ao dirigir, violentos nas ruas, violentos nos comentários e nas fofocas, violentos ao torcer por nosso time, violentos ao votar. Como pensar é árduo, odiar é mais fácil”. Se o país já está tão polarizado e as discussões estão cada vez mais permeadas pela violência, não havendo, nem mesmo, em alguns casos, uma base mínima civilizatória de diálogo, um presidente como esse não aprofundaria ainda mais esse fosso?

Recentemente o candidato, com uma criança nos braços, a ensinou fazer o “sinal” de uma arma, algo já recorrente. Ainda que houve inúmeras reações contrárias ao ocorrido, assessores do deputado, quando questionados sobre o fato de estar ensinado uma criança de quatro anos a imitar uma arma com os dedos, disse que poderia ser interpretado como um “gesto cristão” de bravura.

Infelizmente, há cristãos que apoiam o candidato e fazem “vistas grossas” com um fato como esse, julgando se tratar de uma “montagem” quando os principais jornais do país noticiaram o ocorrido.

Ao que parece, esses cristãos estão embarcando na lei do talião, o tal “olho por olho, dente por dente”. Algo típico da herança fundamentalista no país. Nem mesmo uma criança escapa da propaganda gratuita da violência. Logo as crianças que são as preferidas por Jesus. O Nazareno as colocou no colo e disse que o Reino de Deus pertence àqueles que, como crianças, se tornarem. Foi ele quem condenou qualquer tipo de escândalo contra as crianças de uma maneira veemente (Mt 18).

Ao que tudo indica, a candidatura do deputado amante das armas seguirá. Resta saber quem mais seguirá, juntamente com ele, disseminando o ódio e pregando mais violência como uma possível solução para os problemas do país.

16.7.18

31º Congresso Internacional SOTER (Carta-Manifesto)








SOTER – Sociedade de Teologia e Ciências da Religião

CARTA-MANIFESTO


Belo Horizonte, 13 de julho de 2018.

“Será que Deus se enganou ao criar-nos assim, negros, como somos?”
Paulina Chiziane
Cidadãs e cidadãos brasileiros:
Sob o impacto das conferências que ouvimos no 31º Congresso Internacional da
SOTER, realizado em Belo Horizonte, de 10 a 13 de julho de 2018, a partir do tema “Religião,
Ética e Política”, do testemunho profético da escritora moçambicana Paulina Chiziane, e dos debates entre os mais de 550 participantes do evento, tomamos a liberdade de nos manifestar à sociedade brasileira porque o momento vivido no país é da maior gravidade. Como intelectuais e estudiosos das mais diversas expressões religiosas e dos dramas vividos por nosso povo, não podemos nos calar, muito menos como pessoas de fé que pautam suas vidas pela coerência na luta pela justiça, pela democracia e pela dignidade humana. 
Como observadores atentos da conjuntura atual brasileira, denunciamos o processo iníquo de desconstrução da frágil democracia que vimos construindo duramente depois de mais de 20 anos de ditadura civil-militar. Percebemos que há um claro intento, em curso, de quebra do Estado Democrático de Direito, com a não garantia plena dos direitos e garantias fundamentais contidas na Constituição Federal de 1988, a relativização desses direitos em nome da racionalidade do mercado, que não está mais sob o controle do Estado Democrático de Direito. Constatamos a precarização das conquistas sociais e dos direitos da classe trabalhadora; o recrudescimento de distintas formas de violência que atingem particularmente os mais pobres e vulneráveis, os povos indígenas, os quilombolas e as populações tradicionais, além da violência crescente contra movimentos sociais e suas lideranças. Assistimos, indignados, ao aumento do feminicídio e da impunidade, ao desrespeito aos direitos humanos, à onda de intolerância religiosa e à disseminação do ódio social nas mídias abertas e redes sociais, situação que vem chegando às raias do crime contra a pessoa em número inédito neste país. Parece-nos, igualmente, um equívoco a militarização do combate ao crime organizado e a imposição da ordem social pela força em detrimento da liberdade de ir e vir e de um plano de segurança debatido amplamente pela sociedade.
Diante deste quadro dramático, como Sociedade de Teologia e Ciências da Religião, reivindicamos publicamente as seguintes medidas que podem ajudar o país a retomar o caminho da democracia e da paz social:
1.        Resgate da Democracia, do Estado Democrático de Direito e da Soberania Nacional;
2.        Recuperação dos serviços públicos de saúde para toda a população, com a sustentação prioritária do SUS;
3.        Revogação das leis antipopulares como a Reforma Trabalhista e a Lei do engessamento do Orçamento Nacional por 20 anos;
4.        Recuperação da Educação pública, gratuita e universal em todos os níveis e a garantia da continuidade da pesquisa nacional autônoma;
5.        Demarcação dos territórios indígenas, das terras quilombolas, das terras dos povos originários, sobretudo na Amazônia;
6.        Reforma Agrária com apoio creditício e técnico à agricultura familiar, à agroecologia e à agricultura orgânica; retomada do PAA – Programa de Aquisição de Alimentos pelo governo federal e instituições públicas de ensino; a redução do uso de agrotóxicos;
7.        Combate à impunidade e ao feminicídio, com garantia da vida de mulheres ameaçadas;
8.        Garantia de liberdade de culto para todas as expressões religiosas sem interferência do Estado;
9.        Garantia plena do direito de opinião, de exercício do pensamento crítico e do debate público nas escolas em todos os níveis;
10.    Resgate da ética na política com participação popular, garantia plena do voto popular e do direito às candidaturas de todas as pessoas;
11.    Resgate do direito pleno à presunção de inocência, cf. o artigo 5º da CF 1988;
12.    Resgate da dignidade de isenção do Poder Judiciário;
13.    Democratização das mídias abertas e controle dos monopólios da informação;
14.    Defesa irrestrita da vida das pessoas, do meio ambiente e resgate do instituto da precaução, sobretudo na agricultura de exportação e da monocultura;
15.    Promoção da dignidade de todas as pessoas e dos direitos humanos conforme os Planos Nacionais de Direitos Humanos.
No momento em que o pais vive talvez sua mais grave crise social, política, econômica, ambiental e moral, a SOTER, seus membros e participantes deste Congresso Internacional conclamam publicamente o povo, as instituições científicas, as comunidades de fé, os movimentos sociais, as igrejas, os sindicatos, as entidades civis, as associações e as cooperativas a levantarem sua voz em defesa dos direitos e garantias fundamentais, e a buscar com organização e criatividade caminhos para o resgate da Democracia participativa e transformadora, única forma de evitar o caos social, o abuso do poder estabelecido e a violência sem tréguas.
Inspirados pelo Espírito da Vida que sopra dos quatro ventos da terra, afirmamos nossa esperança de novos céus e nova terra, com cidadania, justiça e paz.
            A Diretoria 
            Cesar Kuzma – Presidente da SOTER
            Maria Clara L. Bingemer
            Paulo Fernando C. de Andrade
            Solange Maria do Carmo
            Alex Villas Boas Mariano

Participantes do 31º Congresso Internacional da SOTER 2018