15.5.17

O MODELO MISSIONÁRIO DA CBESP

Os batistas se notabilizaram no país, dentre outras características, pelas suas campanhas missionárias. Quer em nível mundial (JMM), nacional (JMN) ou estadual, os batistas asseguram que a necessidade de evangelização é uma prioridade da igreja, logo, das organizações denominacionais.

Ocorre que há modelos que são colocados para as igrejas e aos agentes missionários das organizações. No caso da JMM, por exemplo, de maneira bem sintética, o principal modelo se dá em projetos que a JMM desenvolve em alguns países, procurando alinhar as necessidades prementes de um lugar ou região com o trabalho da equipe missionária. Nesse sentido, o modelo foca o aspecto social e religioso. A mensagem não é, primeiramente, falada, mas demonstrada e praticada com ações que promovem o testemunho do Evangelho. Por aqui, a JMN tem demonstrado que as Cristolândias é uma prioridade de recursos e equipes. A notoriedade midiática da Cristolândia, favoreceu o mote da JMN, que é servir de instrumento de reabilitação e integração social de adictos, tendo o Evangelho como primeira ferramenta para isso.
 
A Convenção Batista do Estado de São Paulo (CBESP), vem demonstrando a sua estratégia missionária depois de alguns problemas de ordem financeira, como também de logística. Ocorre que o modelo que a CBESP vem construindo difere das organizações missionárias mencionadas acima, ou seja, o foco principal tem sido disputar espaço no campo religioso estadual com outros segmentos, principalmente com o setor católico. Algo que não víamos já algum tempo.

Antes, é preciso recordar que, a grosso modo, o protestantismo de missão chegou no país com a missão de converter católicos. Reconheciam no catolicismo, dentre outras razões, o atraso do país. É sabido que esse encontro gerou conflitos para ambos os lados, sendo o protestantismo, por ser minoritário, o mais penalizado. Por outro lado, o discurso exclusivista do protestantismo e a postura apologética causou inúmeros problemas, inclusive entre os próprios protestantes. É dessa conjuntura, que emerge a identidade protestante e sua base missiológica, tendo, principalmente, os católicos como principal alvo concorrente.

Agora, temos a impressão de que estamos presenciando o mesmo modelo missionário do século XIX entre os batistas do Estado de São Paulo. A proposta da CBESP, parece evocar um modelo missionário de caráter bélico, onde luz e trevas estão em conflito, sendo que as “trevas” são locais que ainda não há um templo (presença) batista. Ao que parece, estamos diante de uma conhecida ideia medieval, a de que identificava a presença física da igreja (templo) com o reino de Deus.

Postura como essa, reforçam uma visão de mundo que esteve atrelada ao maniqueísmo, quando se colocava em constante dicotomia o mundo e o reino de Deus, ou seja, a igreja. Uma vez associando “trevas” ao um segmento do cristianismo, mesmo que não concordando com suas doutrinas e ritos, não está se priorizando um modelo missionário pautado na caminhada do Nazareno que procurou mediar as diferenças por meio de gestos e ações que privilegiava o humano, antes de qualquer sistema religioso. Não por acaso, os empates com os fariseus e saduceus nos evangelhos se deram a partir disso. Não é o sábado que vem primeiro, mas sim gente.

Quando comemoramos 500 anos da Reforma Protestante, parece que os principais elementos da Reforma são obnubilados por outras motivações. A Reforma, se constituiu em momento ímpar para o mundo ocidental por demarcar um tempo de liberdade, sendo os batistas, depois, dentre outros, a lutar para que ela, a liberdade, não fosse apenas um discurso, mas também uma ação. O modelo missionário da Reforma se mostrou viável e desafiador, porque colocou na liberdade o seu início; na graça de Deus a salvação; a fé como condição salvífica; na teimosia profética a denúncia como elemento imprescindível do ser protestante. Esses elementos formaram o ser protestante e desses elementos somos, queira ou não, herdeiros.

Entendemos que um modelo missionário que tem como primeira marca o embate a partir do campo religioso brasileiro, sendo esse embate promovido pela logística denominacional com publicações e promoção de personagens que transitaram entre segmentos da religiosidade brasileira, não atende as reais necessidades prementes que temos no momento. Pensar que o principal problema de evangelização no Estado de São Paulo se dá, apenas ou principalmente, a partir da religiosidade, é suprimir um gigantesco universo de problemas de ordem espiritual, social, política e moral. Na leitura do mundo, não é mais possível reducionismos que privilegiam uma relação dicotômica ou dualista.

O primeiro e principal modelo missionário continua sendo o de Jesus. Em Mateus 11,28-30, Jesus coloca, em oração, o seu modelo missionário e este modelo se constitui em mansidão, leveza, descanso e alívio. Fica claro que o que dá consistência ao modelo missionário de Jesus é a sua pessoalidade. O modelo de Jesus encontra resistência com as estruturas denominacionais, porque não foca no sistema, mas sim nas pessoas.

É a partir do modelo missionário de Jesus que somos chamados a testemunhar o que seja o Evangelho. Não por acaso que em Atos 1,8 a primeira incumbência dos discípulos é: “E sereis minhas testemunhas”. 

22.4.17

QUANDO HOLLYWOOD FAZ TEOLOGIA...

A cada filme hollywoodiano que tenha como enredo um tema bíblico-teológico aparece, os comentários nas redes sociais, blogs e vídeos se multiplicam. Bastou surgir nos cinemas filmes em que o roteiro tem conexões com a Bíblia, para que pessoas ligadas às comunidades de fé e teólogos da web, principalmente conservadores, tecerem suas impressões sobre os filmes.

Em 2014 Hollywood lançou dois filmes épicos tendo a Bíblia como roteiro. Um filme do diretor e roteirista Darren Aronofsky, “Noé” causou estranheza porque o público “evangélico” julgou tratar de um filme “bíblico”, ou seja, um filme que “retrataria o que está escrito na Bíblia” (ouvi isso de um colega). Quem viu, logo percebeu que não se tratava disso, e o diretor procurou marcar a trama de uma outra forma, apenas usando a narrativa bíblica como ponto de partida. No mesmo ano, conhecemos “Êxodo: deuses e reis”, de Ridley Scott. No longa, “Moisés” não é visto romanticamente como um pastor, mas como um general que defende, num primeiro momento, os interesses do Egito. É alguém preparado para batalhas. O que chamou mais atenção nem mesmo foi essa imagem que o filme rompe (Moisés, como um pastor), mas sim a representação de “Deus” como um menino, uma criança até que invocada e que apenas Môche via. Saindo do cinema, ouvimos algumas pessoas (presumivelmente de igreja), o comentário: “como pode, colocar ‘Deus’ como uma criança”. O espanto foi duplo. No mesmo filme Moisés deixa de ser o “bonzinho” de Deus e Javé é feito menino. Um Deus-menino no filme de Scott, não foi muito legal, mas no Natal... Bem, aí já é outra coisa. 

É recente o filme (2017) “A cabana” do diretor Stuart Hazeldine. Como nos filmes anteriores, os comentários nas redes sociais e textos em blogs procuraram dar uma opinião favorável ou contrária ao enredo do filme. Os comentários, vindo principalmente de pessoas com pertença religiosa de segmento “evangélico”, mesclaram entre elogio e depreciação.

É possível ver comentários nas redes sociais e vídeos no YouTube de pessoas com alguma relação com igreja, quer sejam frequentadores ou membros de comunidades, ou sem nenhuma filiação institucional, colocando suas impressões sobre o filme. Algumas dessas pessoas, em seus depoimentos, revelaram ter “descoberto” Deus no filme, ou seja, o filme funcionou como um gatilho para impulsionar a fé delas e abrir suas percepções teológicas sobre Deus, o que demonstra que a igreja, per si, não tem mais o controle sobre isso para algumas pessoas. Para esses, o filme é “maravilhoso”, porque retrata Deus de uma “maneira diferente”. Outros ainda, viram no filme o combustível para “heresias”, porque coloca Deus (e a trindade) de maneira inadequada e isso fere o que a igreja entende sobre “Deus” e sobre a “trindade”.

Os diversos comentários em redes sociais, blogs e vídeos sobre o filme girou em torno da representação de Deus feita pela atriz conceituada Octavia Spencer, ou seja, por ser mulher e afro-americana. Isso bastou para que reações surgissem vindas do universo eclesiástico conservador. O filme foi associado à propagada feminista, por colocar “Deus” como uma mulher, recusando assim a figura paterna de Deus-Pai. As feministas querem livrar a sociedade de uma imagem masculina de Deus e, filmes como “A cabana”, favorece o discurso das teólogas feministas. Não gostaríamos de discutir esse tema aqui, até porque o objetivo do texto é outro, mas negar que a imagem de um Deus masculinizado e ocidental tenha contribuído para uma concepção distorcida de Deus na história, causando inúmeros equívocos nas interpretações bíblicas e alimentado posturas sexistas e misóginas, não é mais possível ignorar.

Quando há um entendimento de que Hollywood comete erros ao retratar temas bíblicos em suas superproduções, reivindicando, assim, ter a primazia de uma interpretação “correta” sobre os mesmos temas apenas nos bancos das igrejas, esse entendimento não atentou para as principais mudanças que o mundo passa/ou e que envolve, dentre outros meios de disseminação cultural, o cinema.

A luta de setores conservadores das igrejas é legítima, porque a contemporaneidade e suas transformações favorece isso. Os conservadores procuram lutar contra um pluralismo de princípio. A ideia de que o monopólio da religião não está mais dado às igrejas e suas instituições de controle do sagrado, assusta... A assim denominada globalização, favoreceu o rompimento de fronteiras antes mais definidas, tornando o mundo uma aldeia global. O contemporâneo é marcado por entre-lugares, ou seja, não há mais fronteiras fixas e tudo e todos estão lançados ao que vem, ao que está-aí e, concomitantemente, ao que não-está, caracterizando um tempo em que a busca por sentido se encontra em um templo como também em um shopping-center. Assim, as reações de conservadores são legítimas nesse contexto, porque há uma constatação “de que existem maneiras de viver e crer diferentes daquelas que são correntes [até então] e comuns a determinados grupos que partilham o mesmo conjunto de crenças” (Eliane Moura da Silva). Essa constatação paradoxal é perceptível inclusive em Hollywood, que vem fazendo teologia com seus longas. Essa tensão entre diversidade (pluralismo) e conservadorismo (exclusivismo), está presente nas telas de maneira secularizada. Nesse sentido, houve quem vibrasse com os filmes “Deus não está morto” e “Você acredita?”, do mesmo modo houve quem demonizasse “O código Da Vinci” e, agora, “A cabana”.

Acontece que Hollywood está fazendo o papel das igrejas na sua função de doutrinar. O problema é que as salas de cinema ficam mais cheias que as salas da EBD e isso, querendo ou não, incomoda bastante setores conservadores. A quantidade de pessoas que vão aos cinemas ver filmes como “A cabana”, não é a mesma que comparece aos cultos e encontros doutrinários. Isso ocorre por que o cinema é mais atrativo? Não necessariamente. Ocorre porque não é de hoje que há um crescente deslocamento do religioso, onde as igrejas, como instituições do depósito simbólico de bens religiosos, não tem mais a prioridade. Com isso, como bem esclarece Clifford Geertz, “a religião se tornou cada vez mais um objeto flutuante, desprovido de toda ancoragem social [...] em instituições estabelecidas. Em lugar e em vez da comunidade solidária agregada por representações coletivas (o sonho de Durkheim), surgiu uma rede à maneira de Georg Simmel, difusa e desprovida de centro, conectada por afiliações genéricas, multidirecional e abstrata. A religião não se enfraqueceu como força social. Pelo contrário: parece se ter reforçado no período recente. Mas mudou – e muda cada vez mais – de forma”. Com esse esclarecimento pontual de Geertz, esperamos outros filmes hollywoodianos em que o elemento religioso esteja presente. Mas isso não significa concorrência com segmentos religiosos (igreja, por exemplo), antes se dá porque as ofertas de bens religiosos está cada vez mais plural, o que significa que as instituições religiosas são uma, dentre outras, opções. Dentre essas opções, “A cabana” é uma delas...

25.2.17

EVANGELHO E ÉTICA SOCIAL: UMA CONTA QUE NÃO FECHA COM OS EVANGÉLICOS NO BRASIL

Quando tomamos conhecimento da morte de inúmeros presos no sistema penitenciário de cidades do Norte do país, presenciamos falas, não somente nas redes sociais, mas também de integrantes desse governo postiço, de que a tragédia estava anunciada e o seu desfecho era algo esperado, portanto, algo que apenas entrava para as estatísticas como números com o fim de gerenciar valores para um sistema que, há muito tempo, vem se mostrando ineficiente. Os “evangélicos”, principalmente esses que escutam e se identificam com os pastores televisivos que, ora estão em Brasília defendendo uma agenda intolerante, ora estão visitando a sede da PF, também foram às redes sociais para expressar suas opiniões. Com isso, demonstraram o que, de fato, vai na “alma” dos evangélicos, ou, pelo menos, em uma parcela deles. 

Não apenas o fatídico episódio envolvendo presos no Norte do país deixou a sociedade brasileira atônita, mas também no Sudeste (Vitória/ES), vimos o caos nas ruas de uma bela cidade por conta da greve de policiais militares. Com a ausência de policiamento, pessoas saquearam o comércio varejista, além dos inúmeros delitos cometidos. Nesse ato, dos saques, há relatos, inclusive com fotos nas redes sociais, de pessoas consideradas de “bem”, carregando eletrodomésticos pelas ruas. Dentre essas pessoas, se comprovou que “evangélicos” estavam envolvidos e, depois de apuradas as imagens dos estabelecimentos comerciais, muitos começaram a devolver o que tinham levado.

Com esses dois incidentes, foi possível perceber, não que isso seja recente, que há um antagonismo entre o discurso e a prática dos “evangélicos”. O discurso, a priori, toma (ou deveria tomar) como ponto de partida a mensagem do evangelho. Nessa mensagem, pelos menos nos Evangelhos que narram a caminhada de Jesus de Nazaré, há elementos de compaixão, de amor, de perdão, de alteridade. A mensagem central de Jesus, o reino de Deus, acolhe o que mais precisa, levanta o desvalido, socorre o doente, visita o preso e alimenta o que tem fome. Em Mateus 25,31-46, por exemplo, os presos são visitados e isso caracteriza o fazer aos pequeninos de Jesus.

Que a relação entre discurso e prática envolvendo a ética do “evangélico” é dicotômica, não é novidade. Há estudos disponíveis que demonstram isso em escala histórica. A ética no “universo evangélico” se concentra em aspectos individuais, dependendo de qual grupo está se referindo. Nesse sentido, há diferentes perspectivas de moralidade em alguns setores do “universo evangélico” que pode ser a negação de certas roupas o ponto central, como também a abstinência de bebida alcoólica, o tabagismo e o sexo antes do matrimônio e a homossexualidade. Essas são as principais bandeiras morais que caracterizam o comprometimento com um certo cristo. Com isso, o discurso ético se dá em perspectiva individual, e o nome disso é ética cristã. A relação com o contexto social é desprovida de uma ética solidária e comprometida. Nesse contexto, é possível uma manifestação de que a justiça divina foi feita em relação aos presos assassinados no Norte do país, demonstrando completa insensibilidade, fruto de uma leitura superficial da realidade social e sua complexidade. Assim, houve “crentes” que entenderam como julgamento escatológico a morte dos presos. Isso demonstra, com tristeza, que o evangelho de Jesus está equidistante de uma leitura de compaixão e justiça, pois muitos entendem que o chavão “bandido bom, é bandido morto” está correto. É claro que os problemas sociais do país são enormes, mas aqui estamos focando em atitudes, principalmente aquelas que foram veiculadas nas redes sociais, de pessoas que se identificam como “evangélicas”. Essas pessoas que assim se expressam, também são as mesmas que entram em lojas para pegar o que não lhe pertence porque, naquele momento, não há “lei”.

Há uma diferença qualitativa entre presença e visibilidade dos “evangélicos” no Brasil. A visibilidade dos “evangélicos” é um fato há algum tempo na sociedade brasileira. A mídia favoreceu o estar visível e as grandes concentrações em estádios e avenidas, fortaleceu a ideia de que os “evangélicos” estão conquistando espaço. Assim, o domínio de alguns setores da economia e da política, são dedicados aos “evangélicos”. 

Quanto à presença dos “evangélicos” no país, no sentido de tornar tangível posturas tolerantes carregadas de misericórdia e justiça, que tenha na alteridade o principal elemento de ação e leitura social, ainda se constitui em processo. 

29.12.16

QUANDO A FÉ SE CONVERTE EM DOUTRINA

Uma mera abordagem da fé em Calvino e Paulo

Quando Calvino fala sobre nas Institutas, essa é umas das principais definições: “Um conhecimento firme e certo da benevolência de Deus para conosco, fundada na verdade da promessa dada gratuitamente em Cristo, revelada a nossas mentes e selada em nossos corações pelo Espírito Santo”. Nessa definição, é tratada como um conhecimento, mais ainda firme e certo. Conhece à Deus por meio dessa que, mediante o Espírito Santo, é revelada na mente e selada no coração. Para Calvino, portanto, a não é uma capacidade humana, ela é obra e realização do Espírito Santo, ou seja, é um dom sobrenatural do Espírito Santo. Não é algo inato ao ser humano. Antes pode ser uma resposta humana genuína pela qual os eleitos ingressam na sua nova vida em Cristo.

Ainda nas Institutas, Calvino afirma: “Nós só somos levados a Cristo e seu reino, em genuína e verdadeira fé, em virtude do Espírito do Senhor”. Isto significa que, além de objeto da fé, Deus é também aquele que nos conduz à mesma. É impossível, de acordo com o pensamento de Calvino, que alguém tenha genuína fé em Deus, mediante seu Filho, sem que tenha sido conduzido ao mesmo por Deus, mediante seu Espírito. Nesse sentido não há nenhuma mediação humana para a graça, obviamente. Se houvesse algo assim, o sistema de Calvino teria dificuldades, quando admitisse que a é algo que oriunda do ser humano e que, portanto, é algo inato a qualquer ser humano. É claro que ele precisa dizer que a que tem como alvo Deus, é o mesmo Deus que a suscita no coração e na mente daquele que, uma vez predestinado, foi eleito para ser salvo.

Os intérpretes de Calvino, quando colocados diante da perspectiva de em Paulo, gostam de utilizar a expressão “Espírito da fé”. Assim, no sistema de Calvino, a é dada por Deus a quem ele deseja. Isto é, ela tem origem não no homem, mas no Criador. A fé, na perspectiva calvinista, não é fruto do esforço humano, não deriva das capacidades inatas do homem em crer piamente em algo. Tampouco decorre de alguma habilidade adquirida e desenvolvida ao longo da vida de quem quer que seja. Para Calvino, a verdadeira só existe quando decorre de Deus, que além de ser seu autor, é o seu objeto maior.

Está claro que para Calvino e seus intérpretes, a não pode, em hipótese alguma, ser algo do ser humano. É Deus que espera nele e, ele mesmo, concede essa para que o eleito creia nele. O ciclo é fechado em Deus e não há possibilidade de abertura. Nesse sistema é sinônimo de eleição, não há uma sem a outra. Para o sistema de Calvino, isso é perfeito. Não há problema algum.

Quando olhamos a pela perspectiva paulina, encontramos dificuldades com o sistema calvinista. Primeiramente a que Paulo trata está ligada dialeticamente à Lei. Os seus maiores embates em torno do tema () foi em relação à Lei e, como decorrência disso, a salvação não pela Lei, mas pela graça. Por essa razão, o uso de Abraão por Paulo em Romanos. Em Gálatas o maior problema de Paulo será com a Lei versus em Cristo. Outra questão, a , em Paulo, está ligada à Cristo e não, necessariamente, à Deus (Rm 3,22-25). Isso está tão claro em Romanos, que Paulo liga a à graça (4,16).

Quando trata da e o Espírito Santo, ponto que Calvino acentua, Paulo pergunta em Gálatas: “Será em virtude da prática da lei que recebestes o Espírito, ou por terdes escutado a mensagem da fé?”. A é pré-requisito para a presença do Espírito Santo e não o contrário (Gl 3,13-14). Se o Espírito é recebido pela , onde será que fica a ? Obviamente a não é algo meritório pela qual o Espírito Santo é recebido, mas também não é nula da participação humana. Por essa razão que a não é algo imutável, antes ela (a ) precisa crescer, desenvolver.

É claro que Calvino e seu sistema doutrinário tem a necessidade, como todo e qualquer sistema que tem na doutrina o seu ponto de início e fim, de fechar a questão. Os sistemas doutrinários estão aí para dizer o que é Deus e o que ele não é. Nesse sentido, a não é outra coisa senão um ponto dentro de um sistema que emudece a voz e a consciência.

Continuar a leitura...

MORRIS, Leon. “Fé”. In: HAWTHORNE, Gerald F. et. al. (Orgs.). Dicionário de Paulo e suas cartas. São Paulo: Vida Nova/Paulus/Loyola, 2008, p. 536-543.

BARTH, Karl. “A eleição de Deus em graça”. In: BARTH, Karl. Dádiva e louvor. 3ª ed. São Leopoldo: Sinodal, 2006, p. 237-255.

9.12.16

ESSA TAL AUTONOMIA...

Uma reação ao artigo de Lourenço Stelio Rega

Vez ou outra o assunto surge nos meios de comunicação da Denominação, especialmente no “O Jornal Batista – CBB”. A autonomia da Igreja Local e sua relação com a Denominação. Essa relação, defendida por uma grande maioria, se dá a partir da cooperação denominacional. Há quem não goste muito dessa “tal autonomia” e propaga uma espécie de “intervenção” denominacional na Igreja Local quando julga necessária, com ou sem consentimento. Como o sistema batista se fundamenta em alguns Princípios, isso não seria possível, mesmo com manobras estatutárias, dando uma impressão de que a Denominação dispõe de certos mecanismos de ingerência na Igreja Local.

Bom, dessa vez o pastor Lourenço Stelio Rega (Doutor em Ciência da Religião pela PUC-SP e Diretor Geral da Faculdade Teológica Batista de São Paulo), na sua coluna semanal no “O Jornal Batista – CBB”, traz o assunto quanto a autonomia da Igreja Local e sua interdependência (11.12.2016 – Estudos sobre a igreja (15): a igreja como comunidade autônoma e interdependente). É sempre bom tocar nesse assunto, principalmente porque há uma necessidade de se compreender os fundamentos da tradição batista quanto ao seu modo de subsistência.

Com o intuito de ampliar o debate, porque esse deve ser um dos principais anseios de um autor, algumas questões chamam atenção no texto de Rega:

- O autor fundamenta a autonomia da Igreja Local a partir do Novo Testamento e para isso dá inúmeras referências, principalmente no livro de Atos dos Apóstolos;
- Chama atenção para a tarefa cooperativa, presente na realidade das igrejas primitivas neotestamentária, sendo uma necessidade premente para a continuação de projetos comuns às igrejas hoje;
- Procura dissuadir da ideia de que “autonomia” é sinônimo de “independência”. Para isso, lembra do trabalho de Edgar Morin como um dos principais teóricos da Teoria da Complexidade. Trazendo o filósofo francês, o autor quer dar balizamento filosófico ao que está propondo, ou seja, dizendo que no atual contexto o isolamento traz malefícios e não benefícios ao todo.

A partir disso, o autor traz a figura da Convenção, dando a entender que não se trata apenas da Convenção Batista Brasileira (nível nacional), mas também da Convenção Estadual (nível regional), quanto a relação autonomia e interdependência (lê-se autonomia da Igreja Local e interdependência com a Convenção).

Com isso, o autor explicita: “A Convenção é a solução que as nossas Igrejas Batistas têm para a realização das nossas aspirações comunitárias”. Será mesmo? Se pensarmos no aspecto missionário nas esferas mundial e nacional, isso pode se configurar uma realidade, uma vez que a atividade missionária no contexto batista tem um forte apelo. Mas quando o autor traz “aspirações comunitárias” ele não pode estar falando apenas no aspecto da Igreja Local, uma vez que a Convenção não se projeta para dentro dos muros de uma Igreja Local, mas sim para além dos seus muros. Se for assim, essa afirmação de que ela (a Convenção) é “realização das nossas aspirações comunitárias” não se sustenta. É sabido que há igrejas com uma autonomia financeira e logística que realizam trabalhos voltados para o seu contexto imediato (bairro, cidade e estado e, até mesmo, países) que, em nada, dependem de recursos da Convenção. O contrário é perceptível: são essas igrejas que, cooperantes, sendo que algumas não são, sustentam projetos denominacionais financeiramente. Além disso, não é novidade alguma, que a administração das convenções, como também da CBB, enfrenta dificuldades financeiras por, entre outros fatores, má gestão e decisões equivocadas em conselhos e reuniões deliberativas que formam um painel de discussões sem objetivos claros e previamente definidos.

O autor não menciona, em relação as igrejas do Novo Testamento, de que a cooperação acontecia entre igrejas. Portanto, não havia um controle exercido por algum centro homogêneo como quer ser as instituições. Não por acaso que as igrejas neotestamentárias enfrentaram conflitos quanto a gerência eclesiástica. Por essa razão, os batistas não dispõem de um órgão centralizador hierárquico que detém o poder de decisão monocrático.

Infelizmente a Convenção insiste em ser “Igreja”, não sendo. Ela se constitui em uma organização para-eclesiástica. A rigor ela não deveria possuir nem mesmo uma Declaração Doutrinária, mesmo com o discurso de que expressa a “vontade” da maioria dos batistas brasileiros. Como bem frisa o autor, “não podemos aplicar à Convenção e a toda sua estrutura princípios eclesiológicos que, por sua própria origem e natureza, só podem ser aplicados à Igreja Local”. Mas na prática não é isso que se verifica. Ela funciona como uma “Grande Igreja” que detém o controle do discurso correto seja ele doutrinário, moral ou político, entendendo que cabe a ela (a Convenção) decidir quem fica e quem sai. Mesmo a Filosofia da CBB dizendo qual é a sua real finalidade, ou seja, a “Convenção Batista Brasileira resulta da reflexão que os batistas brasileiros fazem sobre os princípios bíblicos que sustentam a existência, a natureza e os objetivos da Convenção, como entidade que: (a) Promove o inter-relacionamento fraterno e cooperativo das igrejas a ela associadas; (b) Apoia o fortalecimento e a multiplicação das igrejas; (c) Se interessa pelo progresso e crescimento espiritual e social dos membros das igrejas; (d) Respeita a autonomia das igrejas cooperantes; (e) Administra zelosamente as entidades e instituições que cria, às quais atribui a execução de seus objetivos, programas e determinações; (f) Obedece aos padrões bíblicos de relacionamento com a sociedade, o Estado e outras igrejas”. Essas deveriam ser suas exclusivas razões. É importante salientar de que a Declaração Doutrinária não está elencada na abertura do texto-base da “Filosofia da CBB”.

O autor, que vem se especializando em “Planejamento Estratégico” em relação à Convenção, aliás, tema que trabalha desde a década de 1990, é enfático em afirmar que “os princípios que temos que aplicar a esta estrutura, portanto, localizam-se no campo da gestão estratégica e não no campo eclesiológico, mesmo porque os Batistas não têm uma hierarquia eclesiástica”. Seria salutar se isso fosse comprobatório! Se a Convenção quer ser a mobilização das igrejas com estratégias definidas, ela não pode insistir em ser “Igreja”. Se o alcance da Convenção não chega ao “campo eclesiológico”, a sua função não contempla a pretensão de “fiscalizar” e “punir” igrejas que não estejam dentro da sua idealização de “Igreja”, cabendo outros fóruns e espaço para isso, sempre tendo a reflexão bíblica e os Princípios Batistas como mecanismo legitimador de diálogo e cooperação.

30.9.16

PUREZA DOUTRINÁRIA: A VOCAÇÃO DA CBB?

A Convenção Batista Brasileira (CBB) está promovendo uma revisão na sua Declaração Doutrinária de 1986. A fim de ter a participação de membros de Igrejas Batistas filiadas à CBB, a mesma está solicitando sugestões para o texto doutrinário. É claro que a palavra final será dada por uma comissão que tem o poder do veto, fazendo uma análise sistematizadora com o intuito de avaliar a possibilidade, ou não, de agregar ao texto doutrinário a sugestão enviada.

A Declaração Doutrinária da CBB de 1986 surgiu depois que os batistas brasileiros se viram diante do fenômeno do movimento carismático da década de 1960-1980. Diante disso, se apressaram na formulação de uma Declaração Doutrinária que protegesse o grupo de possíveis desvios, como foi o caso da “doutrina do Espírito Santo”. Até então, estava em vigor “A Confissão de Fé dos Batistas Brasileiros”, toda baseada na “Confissão de Fé de New Hampshire”, adotada pela CBB em 1916 por influência de Zacarias Taylor que colocara a Confissão de New Hampshire como norma doutrinária para a sua igreja local, apenas.

À época, a CBB entendeu que alterando o texto doutrinário era o mesmo que se proteger de problemas futuros. Não se tratava de uma preocupação comunitária, mas doutrinária-ideológica com o claro objetivo de preservar o grupo maior, dando a ele um aspecto de pureza teológica.

Essa nova proposta da CBB em alterar o texto doutrinário (Declaração Doutrinária da CBB de 1986), se dá no mesmo modus operandi das décadas de 1960-1980, ou seja, se proteger dos novos desvios que surgiram nos últimos anos entre os batistas como, por exemplo, o aparecimento de apóstolos como um título supremo de autoridade conferido por um colégio “apostólico” externo à denominação; ameaças de caráter legislativo quanto à configuração da família nuclear; a ordenação de mulheres ao ministério pastoral; a discussão quanto ao recebimento ou não de homossexuais como membros. Apenas para mencionar alguns temas, embora tenha suspeitas de que este último seja o principal motivo para tal revisão, uma vez que a CBB percebeu que a sua decisão excludente no caso da Igreja Batista do Pinheiro (Maceió/AL), não encontra legitimidade teológica e política diante da atual Declaração Doutrinária.

Para aqueles que conhecem a tradição batista, não é necessário lembrar de que os batistas, na sua gênese, tiveram dificuldades em produzir tratados de fé. Alberto Yamabuchi, quando olha para a origem dos batistas, é contundente em afirmar que “os batistas tendem a desprezar até mesmo a formulação oficial de credos, confissões ou declarações de fé” (1). Mesmo com essa característica, os batistas produziram declarações doutrinárias a fim de estabelecer certa coesão na tentativa de preservar a identidade denominacional (2). Assim, a pluralidade é contestada por um discurso teológico com pretensões hegemônicas, reivindicando uma narrativa sem aberturas para o contraditório, é o caso, novamente, do que agora está se chamando de revisão da atual Declaração Doutrinária.

A pluralidade é uma marca do movimento batista. Mesmo os missionários norte-americanos tendo o domínio da narrativa de fundação, os batistas brasileiros não se submeteram, em sua minoria, ao discurso colonizador produzido e sustentado pelos missionários. Pelo contrário, “a diversidade e as divergências se constituíram o centro dessa denominação” (3).

Antes de ser uma reflexão bíblica e teológica que responda aos anseios da comunidade (embora não tenha conhecimento de que alguma Declaração ou Confissão tenha essa dimensão), a Declaração Doutrinária da CBB pretende ser um mecanismo institucional, a fim de ser o principal instrumento demarcatório de posições entre os batistas brasileiros. Mesmo que essa atual sofra alterações, como de fato irá acontecer, a Declaração Doutrinária da CBB não detém o controle da pluralidade entre os batistas brasileiros, mesmo havendo vozes que falam pela instituição, afirmando que a Declaração Doutrinária da CBB é “o documento que expõe o que os batistas brasileiros creem” (4). Afirmações como essa, ferem o princípio da liberdade entre os batistas, onde nem todos se veem contemplados em suas posições teológicas no documento. A Declaração Doutrinária da CBB, não funciona, precisamente, como um mecanismo de uniformidade doutrinária. Antes os princípios são cotados como fundamentais para o modo de ser batista e não o sistema doutrinário, uma vez que os batistas não têm, na sua história, “nenhum credo ou confissão que possa ser considerado como definitivo para a maioria dos batistas” (5).

A existência da CBB se expressa na sua “Filosofia”, quando diz: “Convenção Batista Brasileira resulta da reflexão que os batistas brasileiros fazem sobre os princípios bíblicos que sustentam a existência, a natureza e os objetivos da Convenção, como entidade que: (a) Promove o inter-relacionamento fraterno e cooperativo das igrejas a ela associadas; (b) Apoia o fortalecimento e a multiplicação das igrejas; (c) Se interessa pelo progresso e crescimento espiritual e social dos membros das igrejas; (d) Respeita a autonomia das igrejas cooperantes; (e) Administra zelosamente as entidades e instituições que cria, às quais atribui a execução de seus objetivos, programas e determinações; (f) Obedece aos padrões bíblicos de relacionamento com a sociedade, o Estado e outras igrejas”. Essas deveriam ser suas exclusivas razões. É importante salientar de que a Declaração Doutrinária não está elencada na abertura da “Filosofia da CBB”.

Quando a CBB propõe alterar/revisar o texto doutrinário, levando em consideração os últimos acontecimentos em que se envolveu, outra tentativa não é, senão, se municiar contra possíveis imprevistos que decorrem da natureza do sistema batista, ou seja, a liberdade (com todas as ambiguidades e implicações que a palavra, naturalmente, abriga). Assim, outra coisa não seria do que reafirmar o discurso de pureza, com o intuito de demarcar fronteira ad intra, delimitar abordagens, configurar enrijecimentos para um futuro que, inevitavelmente, indica dois caminhos: abertura ou fechamento diante do real e suas dimensões comunitárias.

Por trás dessa revisão no texto doutrinário, está, mais uma vez, a tentativa de marcar uma postura de pureza doutrinária. É Zygmunt Bauman que sintetiza as reais intenções de um discurso que reivindica a pureza como elemento de confronto: “A pureza é uma visão das coisas colocadas em lugares diferentes dos que elas ocupariam, se não fossem levadas a se mudar para outro, impulsionadas, arrastadas ou incitadas; é uma visão da ordem – isto é, de uma situação em que cada coisa se acha em seu justo lugar e em nenhum outro” (6).

Seria otimismo ingênuo esperar que a CBB, em sua revisão do texto doutrinário, não ignore a conjuntura social e seus desafios comunitários, políticos, teológicos e sociais que tem mais a ver com vida do que, propriamente, com texto doutrinário? O futuro dirá...

Notas

(1) YAMABUCHI, Alberto Kenji. O debate sobre a história das origens do trabalho batista no Brasil: uma análise das relações e dos conflitos de gênero e poder na Convenção Batista Brasileira dos anos 1960-1980. Tese de Doutorado. (Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo). São Bernardo do Campo: UMESP, 2009, p. 106.
(2) SILVA, Roberto do Amaral. Princípios e doutrinas dos batistas: os marcos de nossa fé. 2ª ed. Rio de Janeiro: JUERP, 2007, p. 26.
(3) ARAÚJO, João Pedro Gonçalves. Batistas: dominação e dependência. São Paulo: Fonte Editorial, 2015, 109.
(4) FERREIRA, Ebenézer Soares. Explicações sobre a declaração doutrinária da CBB. In: FERREIRA, Ebenézer Soares (Org.). Comentários à declaração doutrinária da Convenção Batista Brasileira. Rio de Janeiro: Tempo de Colheita, 2009, p. 9.
(5) HEWITT, Martin D. Raízes da tradição batista. São Leopoldo: IEPG, 1993, p. 11.
(6) BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 14. 

16.9.16

A DOUTRINA DA ELEIÇÃO: CALVINISMO, ARMINIANISMO E O EQUILÍBRIO DA DOUTRINA BATISTA

Jorge Pinheiro dos Santos
Pastor auxiliar na Igreja Batista em Perdizes (SP); Professor na Faculdade Teológica Batista de São Paulo

A teologia da eleição

Há teologias, como a calvinista, que olham esta questão difícil da eleição a partir do infinito, de cima, exclusivamente. E há outras teologias, como a arminiana, que olham esta questão difícil da eleição apenas a partir do finito, de baixo.

Mas há uma outra maneira de olhar a questão da eleição, a partir da humildade do reconhecimento que estamos diante de um cruzamento do divino com o humano, do infinito com o finito, daquilo que está em cima com aquilo que está em baixo. E é exatamente esta perspectiva, humilde, bíblica e, por isso, doutrinária que orienta o pensamento batista nesta difícil questão.

A teologia da eleição segundo Lutero

Para entendermos a teologia da eleição no calvinismo e no arminianismo temos que começar a partir da visão de Lutero. A compreensão de Lutero tem por base a sua leitura da Carta de Paulo aos Romanos, e a partir daí de sua teologia da cruz. Segundo Walther von Loewenich, um especialista na vida e obra do reformador alemão, “a teologia da cruz é o princípio de toda a teologia de Lutero. Ela não pode ser limitada a um período particular de sua teologia”. (1) Nessa teologia, Deus vem até aqui embaixo e a expiação acontece quando Deus chega até o ser humano, que vive sob a ira da lei. Deus é satisfeito, aplacado, quando o movimento divino em direção ao humano resulta em fé. Ocorre, então, uma “alegre troca”: Jesus toma a natureza pecaminosa e entrega ao ser humano sua vida justa e imortal. E nessa teologia da cruz de Lutero está embutida a primeira compreensão que a Reforma fez da eleição de Deus.

Dessa maneira, para o reformador, o caminho cristão começa com o ato de ouvir o Evangelho, com o reconhecimento de nosso pecado, mas também da graça de Deus, em Cristo, derramado sobre nós. Continua no correr de nossa vida com a luta contra o pecado e, finalmente, quando debaixo da sombra da cruz e do sofrimento, é a providência de Deus, manifesta na eternidade, através da eleição, que garante a esperança e nos dá conforto.

A teologia da eleição segundo Calvino

Calvino partiu dos mesmos textos de Lutero, principalmente da Carta de Paulo aos Romanos, mas inverteu a maneira de ver de Lutero. Se para Lutero, o ser humano não tem como discutir e mergulhar na compreensão da soberania de Deus e teologizar sobre ela e, por isso, a eleição deve ser vista como garantia de nossa esperança, principalmente nos momentos de dificuldades e sofrimentos, para Calvino a base da vida cristã é a escolha eterna de Deus. Assim, na teologia, não seria fim, mas começo e centralidade.

Tanto em seu Comentário sobre a Carta aos Romanos, como nas Instituições da Igreja Cristã, Calvino constrói uma teologia da eleição que tem por base a soberania de Deus. E olha a eleição sempre do “ponto de vista” de Deus, de cima, descartando uma leitura a partir da imago Dei e a possibilidade de escolha humana.

Segundo o teólogo batista Timothy George, (2) a doutrina da predestinação em Calvino pode ser definida em três palavras: absoluta, particular e dupla. É absoluta já que não está condicionada a nenhuma contingência finita, é particular no sentido que pertence a indivíduos e não a grupos. E, por fim, é dupla: Deus, para o louvor de sua misericórdia, elegeu uns para a vida eterna, e, para o louvor de sua justiça, outros para a perdição eterna.

A posição de Calvino, quando relaciona eleição e salvação, pode ser traduzida no seguinte silogismo: (1) A certeza da salvação depende do decreto eterno de Deus; (2) aqueles que creem foram escolhidos por Deus desde a eternidade; (3) se eu creio, logo serei salvo, porque fui escolhido.

A historiografia dos séculos 16 e 17 mostra que a doutrina da predestinação absoluta defendida por Calvino enfrentou séria oposição não somente nos meios teológicos, mas de pastores e crentes. Entre esses opositores podemos citar Erasmus, o movimento anabatista e dois fundadores do pensamento batista na Inglaterra: John Smyth e Guilherme Dell. Mas, historicamente, seu opositor mais conhecido foi Jacobus Arminius.

A teologia da eleição segundo Arminius

Já a doutrina da predestinação defendida por Jacobus Arminius (1560-1609) parte de uma perspectiva diferente: o papel da graça diante da depravação humana, a eleição condicional, a graça resistível, a expiação não limitada – Cristo morreu por todos – e a possibilidade de perda da salvação. Assim, para o arminianismo a eleição é condicionada pela fé.

Segundo Arminius, Deus em seu decreto escolheu seu Filho como Salvador para mediar a favor daqueles pecadores que se arrependem e creem em Cristo, e para administrar os meios eficientes e eficazes para a fé de cada um deles. Assim, para ele, Deus decreta a salvação e a perdição de pessoas em particular com base na onisciência divina da fé e perseverança de cada indivíduo.

A doutrina batista sobre eleição

A partir do que vimos, podemos dizer que existem três tendências no pensamento teológico em relação à doutrina da eleição, em especial à tensão existente entre a soberania de Deus e a liberdade de consciência e ação e ao uso pleno da razão por parte do ser humano.

A tendência chamada minimalista, que olha a questão de cima, a partir da soberania de Deus, e nega toda a possibilidade da liberdade humana, de consciência livre e escolha. A tendência chamada maximalista, que olha a questão de baixo, a partir de nossa humanidade, e não vê limitação à possibilidade do ser humano responder de forma livre ao chamado de seu Criador.

Mas há uma superação dialética dessa contradição, que defende que o ser humano pode e deve apoiar sua resposta à eleição e ao chamado de Deus em sua liberdade de ação e consciência, assim como no uso da razão, embora tal processo deva ter como ponto de partida a revelação. Vamos analisar, então, o pensamento doutrinário batista:

Eleição é a escolha feita por Deus, em Cristo, desde a eternidade, de pessoas para a vida eterna, não por qualquer mérito, mas segundo a riqueza da sua graça. Antes da criação do mundo, Deus, no exercício de sua soberania divina e à luz de sua presciência de todas as coisas, elegeu, chamou, predestinou, justificou e glorificou aqueles que, no correr dos tempos, aceitariam livremente o dom da salvação. Ainda que baseada na soberania de Deus, essa eleição está em perfeita consonância com o livre-arbítrio de cada um e de todos os seres humanos. A salvação do crente é eterna. Os salvos perseveram em Cristo e estão guardados pelo poder de Deus. Nenhuma força ou circunstância tem poder para separar o crente do amor de Deus em Cristo Jesus. O novo nascimento, o perdão, a justificação, a adoção como filhos de Deus, a eleição e o dom do Espírito Santo asseguram aos salvos a permanência na graça da salvação”. (3)

Reconhecemos que existe uma tensão entre infinito e finito, entre o que está em cima e o que está embaixo. Mas, para nós batistas, a doutrina da eleição é uma síntese, que equilibra a tensão. Dessa maneira, segundo Sua graça imerecida, Deus opera a salvação em e através de Cristo, de pessoas eleitas desde a eternidade, chamadas, predestinadas, justificadas e glorificadas à luz de Sua presciência e de acordo com o livre arbítrio de cada um e de todos [Veja os seguintes textos: 1Pe 1.2; Rm 9.22-24; 1Ts 1.4; Rm 8.28-30; Ef 1.3-14].

E assim a doutrina batista apresenta seus quatro pontos: (1) Todos são eleitos; (2) Deus opera a salvação em e através de Cristo pelo favor imerecido de sua graça; (3) Deus é pré-ciente; (4) De acordo com o livre-arbítrio, desde a eternidade, Deus elege, chama, predestina, justifica e glorifica.

Nós batistas entendemos que salvação implica em regeneração, que é ato inicial em que Deus faz nascer de novo o pecador perdido. É obra do Espírito Santo, quando o pecador recebe o perdão, a justificação, a adoção de filho de Deus, a vida eterna e o dom do Espírito Santo. Neste ato de regeneração, o novo crente é batizado com o Espírito Santo e é por ele selado para o dia da redenção final, liberto do castigo eterno de seus pecados.

Assim, a partir da consistência ontológica do ser humano, somos levados à necessidade de uma análise antropológica para a teologia. Quando descartamos a reflexão sobre o ser humano a quem Deus fala, temos um discurso meramente ideológico, distanciado do homem e da mulher verdadeiros e da realidade em que vivem e transformam. Temos, então, um ser humano-mito, onde os fatos natural e histórico transformam-se em alegoria.

O pressuposto fundamental dessa reflexão antropológica para a teologia é a imago Dei, que traduz a verdade de que a compreensão de Deus, através de seu Cristo, leva à compreensão do ser humano e de sua razão de existir.

Nesse sentido, por mais decaído que esteja o ser humano, ainda lhe resta a liberdade de consciência necessária para aceitar ou não esse diálogo proposto pelo Criador.

Por isso, nós batistas consideramos que a missão do povo de Deus é a evangelização do mundo, visando a reconciliação do ser humano com Deus. É dever de todo discípulo de Jesus Cristo e das igrejas proclamarem, pelo exemplo e pelas palavras, a realidade do evangelho, fazendo novos discípulos de Jesus Cristo em todas as nações.

Notas

(1) Walther von Loewenich. A teologia da cruz de Lutero. São Leopoldo: Sinodal, 1988, p. 11-12.
(2) Timothy George. Teologia dos reformadores. São Paulo: Vida Nova, 1994, p. 232.
(3) Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira. “Eleição”. In: Rumo e Prumo, Ordem dos Pastores Batistas do Brasil, Seção São Paulo, dez. 2004, p. 26.