9.12.14

A DESORDEM DO NATAL

No Natal comemoramos uma desordem.

Talvez a primeira impressão do leitor seja de espanto e até mesmo de desaprovação.

Tentaremos esclarecer...

Se, como tudo indica, a ordem das coisas está em quem mais tem, mais manda, então temos uma ordem que legitima que alguns mandam e muitos obedecem.

O Natal, nesse sentido, promove uma desordem. Jesus é parte dos muitos que nada tem; que nada manda. Ele nasce entre os que nada têm e tudo devem.

Logo no Magnificat (Lc 1,31-53), Lucas coloca na boca de Maria uma canção subversiva, contestatória, revolucionária. O nascimento de Jesus passa a significar a inversão dos valores, outrora considerados corretos; o nascimento passa a significar a redistribuição dos bens. Para Lucas o nascimento de Jesus é um protesto, da parte de Deus, contra o abuso do necessitado pelo rico; é, ao mesmo tempo, a libertação dos oprimidos e dos fracos.

O “Cântico de Maria”, como também é conhecido, significa a quebra de barreiras e preconceitos contra a mulher e o início da igualdade nas relações de gênero. Ocorre o surgimento de novas relações, não mais baseadas na exploração e no descaso pelo outro, mas na equidade. Se outrora o orgulho, aquele que se considera acima dos outros, detinha o poder, ele é destronado; se outrora os poderosos (ricos) menosprezavam e condenavam o pobre ao descaso, agora ele é esvaziado a partir da sua própria arrogância. Os humildes, aqueles que, no entender de Lucas, não almejam o poder, são exaltados.

Para Lucas, o Natal é desordem. É a contestação da situação de exploração econômica, social e religiosa. O nascimento do menino é um nivelador das relações humanas; é a inversão da ordem; é o desmantelamento de estruturas de poder que oprime e marginaliza pessoas.

Eis a nova ordem. Na cidade de Belém começa a desordem. Lá começa a inversão das coisas.

O Natal é uma provocação. Somos provocad@s a ver a vida de outro jeito; a sonhar outros sonhos. Somos provocad@s a ver o mundo não mais pela lógica do poder que procura preservar uma ordem onde a desumanização é uma das principais características.

Neste Natal olhemos para aquele que nada é. Ele não ousou fazer assistencialismo, mas agiu com solidariedade. O assistencialismo preserva a ordem acentuando a diferença dos que nada têm com os que tudo têm. A solidariedade se dá em se colocar ao lado da outra pessoa e estabelecer a igualdade.

Viva a desordem do Natal.

17.11.14

“AS FORÇAS CONTRÁRIAS À IGREJA”

O preletor toma a palavra e, diante de um auditório diversificado em termos de “conteúdo” teológico, abre a sua fala dizendo: “há duas grandes forças que atrapalham a igreja de hoje, o liberalismo teológico e a pós-modernidade”. O tema da preleção era: “A igreja e o mundo contemporâneo”. Julguei que o preletor, no mínimo, pudesse dominar os conceitos de que estava disposto a falar, mas logo ficou patente de que apenas reproduzia o que outros já falaram, ficando evidente que nem ao menos leu os autores que estava se propondo a criticar.

Quando se coloca que há “forças” contrárias à igreja, fica subtendido que há uma “disputa” por espaços, para usar uma metáfora da física, ou seja, há o atrito que para acontecer é preciso haver um “corpo em repouso” e um “corpo em movimento”. Nesse caso não se sabe se é a igreja que está em repouso (o que pode ser comprovado em alguns temas) ou se é a sociedade que está em movimento e, por consequência, haveria uma espécie de atrito com a igreja e sua tranquilidade celestial.

Uma dessas “forças”, na concepção do palestrante, é o liberalismo teológico. Regra geral para se rotular um liberal é quando alguém não está de concordo com alguma doutrina presente na teologia sistemática de tendência conservadora, assim é “tachado” de liberal. O liberal é alguém que não acredita na Bíblia, dizem... É alguém que não prega expositivamente a Bíblia, é alguém que não “planta” igreja e muito menos investe em missões, porque tudo isso é coisa de “fundamentalista”, liberal apenas deseja desconstruir o que se crer e ajudar outras pessoas a “perder a fé”, como se fé, essa dimensão que faz parte da estrutura antropológica do ser humano, pudesse ser perdida. Quando há uma disputa quanto a interpretação do texto bíblico, como se este fosse unívoco, logo o outro que não concordo com a, em geral, literalidade do texto, é um liberal.

Quando o palestrante traz o nome de Friedrich Schleiermacher (1768-1834) como um dos pioneiros no movimento do liberalismo teológico, percebe-se logo que seus apontamentos não eram fruto de uma leitura do teólogo alemão. Antes de fundamentar os eixos centrais do liberalismo teológico, não foi possível ouvir as reais motivações do movimento, que é concomitante com o liberalismo político (John Locke) e econômico (Adam Smith), ou seja, o liberalismo teológico é filho de uma época, assim como o fundamentalismo nos Estados Unidos. Ambos tomam a modernidade e seus referenciais, principalmente a ciência, como ponto de diálogo. No caso do fundamentalismo com o objetivo de confrontar os pressupostos do liberalismo teológico. Em outra vertente, a neo-ortodoxia (Karl Barth) procurou estabelecer outros pressupostos para o diálogo com a modernidade, diferente do liberalismo teológico e há alguns desavisados que rotulam Barth de liberal

Outra “força” contrária à igreja levantada pelo palestrante foi a pós-modernidade.

Havendo uma gigantesca dificuldade em definir o que seja a “pós-modernidade”, tendo em vista a discussão entre teóricos quanto o status do nosso tempo – onde até mesmo alguns alegam que não há condições de nomear –, há uma consciência de que o termo pós-modernidade não é unânime. Há quem prefira falar em hipermodernidade (Gilles Lipovetsky), hiper-realidade (Jean Baudrillard) e modernidade líquida (Zygmunt Bauman). Algo concreto, entre os teóricos da cultura, é de que pelo menos os últimos 100 anos, e mais acentuadamente o final do século passado, tem sido caracterizado por cosmovisões e comportamentos diferentes do período que se convencionou chamar de modernidade. Seria mais fácil colocar a questão como desdobramentos de uma “Nova Cultura”, um termo que José Comblin faz uso. Quando se assume a pós-modernidade como única chave de leitura da contemporaneidade corre-se o risco de levantar equivocadas concepções, como aconteceu. Uma delas foi à ideia de que hoje a sociedade não quer pensar mais, apenas sentir. Uma falácia, quando se leva em consideração a produção científica e o aumento de estudantes tendo acesso ao ensino superior.

Quando o palestrante alega que a sociedade resiste à igreja contemporânea, ele não levou em consideração os últimos censos do IBGE que apontam o crescimento dos evangélicos no país em mais de 22,2%.

Faltou uma abordagem quanto aos sem-igreja que tem crescido substancialmente e um dos fatores, apontado por pesquisas tem sido o fundamentalismo. Outro ponto, que precisava ser abordado, é a influência da teologia da prosperidade em igrejas históricas. Pessoas não estão buscando saber quem são os teóricos do liberalismo teológico, elas estão vivenciando uma escatologia sem céu. Dizem: “o melhor desta terra é meu”. Um slogan mais que divulgado no movimento evangélico e suas vertentes.

13.11.14

E PEDRO ENTROU NO MEIO...

Uma leitura de João 20,1-18

O Evangelho de João é fascinante. Um texto polissêmico onde a diversidade de origens é patente. A função do redator no texto permite alocar e deslocar estruturas do texto e assim perceber a configuração e os entrelaçamentos de textos em outros textos.

É o caso de João 20,1-18. Uma unidade de texto que contempla duas narrativas e o redator, no versículo 2, faz a abertura dessa “unidade”.

Aqui um exercício a partir desse texto e sua polissemia...

O texto tem material de Maria Madalena, do redator, de Pedro e do discípulo amado.

Segue João 20,1-18, dividido entre os três.

Maria Madalena
Redator
Discípulo amado e Pedro
(1) No primeiro dia da semana, bem cedo, estando ainda escuro, Maria Madalena chegou ao sepulcro e viu que a pedra da entrada tinha sido removida. (11) Maria, porém, ficou à entrada do sepulcro, chorando. Enquanto chorava, curvou-se para olhar dentro do sepulcro (12) e viu dois anjos vestidos de branco, sentados onde estivera o corpo de Jesus, um à cabeceira e o outro aos pés. (13) Eles lhe perguntaram: “Mulher, por que você está chorando?” “Levaram embora o meu Senhor”, respondeu ela, “e não sei onde o puseram”. (14) Nisso ela se voltou e viu Jesus ali, em pé, mas não o reconheceu. (15) Disse ele: “Mulher, por que está chorando? Quem você está procurando?” Pensando que fosse o jardineiro, ela disse: “Se o senhor o levou embora, diga-me onde o colocou, e eu o levarei”. (16) Jesus lhe disse: “Maria!” Então, voltando-se para ele, Maria exclamou em aramaico: “Rabôni!” (que significa Mestre). (17) Jesus disse: “Não me segure, pois ainda não voltei para o Pai. Vá, porém, a meus irmãos e diga-lhes: Estou voltando para meu Pai e Pai de vocês, para meu Deus e Deus de vocês”. (18) Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos: “Eu vi o Senhor!” E contou o que ele lhe dissera.
(2) Então correu ao encontro de Simão Pedro e do outro discípulo, aquele a quem Jesus amava, e disse: “Tiraram o Senhor do sepulcro, e não sabemos onde o colocaram!”

(3) Pedro e o outro discípulo saíram e foram para o sepulcro. (4) Os dois corriam, mas o outro discípulo foi mais rápido que Pedro e chegou primeiro ao sepulcro. (5) Ele se curvou e olhou para dentro, viu as faixas de linho ali, mas não entrou. (6) A seguir Simão Pedro, que vinha atrás dele, chegou, entrou no sepulcro e viu as faixas de linho, (7) bem como o lenço que estivera sobre a cabeça de Jesus. Ele estava dobrado à parte, separado das faixas de linho. (8) Depois o outro discípulo, que chegara primeiro ao sepulcro, também entrou. Ele viu e creu. (9) (Eles ainda não haviam compreendido que, conforme a Escritura, era necessário que Jesus ressuscitasse dos mortos.) (10) Os discípulos voltaram para casa.





A tradição de Maria Madalena nas narrativas da ressurreição é algo indubitável. Nos Evangelhos Sinóticos as mulheres estão presentes e Maria Madalena é uma delas (Mt 28,1; Mc 16,2; Lc 24,10), mas apenas no Evangelho de João Maria Madalena aparece, sem a companhia de outras mulheres, tal o seu protagonismo. Até que houve tentativas em obnubilar a figura dela, mas não foi possível. O cristianismo primitivo teve na sua gênese o testemunho de mulheres quanto ao marco inicial da fé.

O referido texto (Jo 20,1-18) pode ser lido como:

- Uma disputa de liderança, Maria Madalena, o discípulo amado e Pedro. Daí, o redator estaria procurando colocar a todos debaixo do mesmo sol.
- Ou ainda, uma tentativa do redator em conciliar a comunidade joanina com a comunidade petrina (representando aqui a “Grande Igreja”).

É possível haver uma “disputa” entre lideranças, mas é possível haver também o trabalho do redator em agrupar narrativas, independentes, procurando dar coesão e legitimidade à autoridade petrina, sem, contudo, menosprezar a figura de Maria Madalena e do discípulo amado.

Dessa forma, João 20,1-18 não pode ser considerado um texto coerente, no sentido de ser uma mesma unidade. São duas narrativas diferentes: a primeira os versículos 1 e 11-18 e a segundo os versículos 3-10, com o redator fazendo a ligação com o versículo 2.

Houve uma inserção dos versículos de 3 a 10 dentro da perícope de Maria Madalena que originalmente, são os versículos de 1 e 11-18. Essa segunda narrativa apresenta coesão, existindo uma ligação dos fatos com o versículo primeiro. Enquanto que a segunda não tem ligação com a narrativa de Maria Madalena. O versículo 2 foi inserido estrategicamente pelo redator, para fazer a junção entre as duas perícopes.

Uma vez a comunidade joanina, precisando de apoio para sobreviver aos ataques dos cristãos-gnósticos (cisma reconhecido em 1João), foi razoável uma troca de interesses. Essa é a perspectiva do exegeta Raymond E. Brown.

Uma vez se incorporando a “Grande Igreja”, que passava por um processo de institucionalização, tendo Pedro como principal representante, a comunidade joanina passa a adotar a hierarquização da comunidade quando incorporada à “Grande Igreja”. Por outro lado, a “Grande Igreja” adota a cristologia alta (do logos) da comunidade joanina adequando-a a cristologia sinótica. Esse capítulo e, em especial o capítulo 21 do Evangelho de João, nítida interpolação no evangelho, é uma maneira do redator alinhar a comunidade joanina ao representante sênior da “Grande Igreja”, Pedro.

Não por acaso, Pedro é o primeiro a inspecionar e entrar no sepulcro no capítulo 20, mas é o discípulo amando quem vê e crê. Pode haver aqui, representada pela corrida dos discípulos, a ideia de que há uma rivalidade e competição entre as lideranças, como também, a partir das perícopes juntas, a hipótese de um agrupamento em torno de uma liderança hegemônica, Pedro.

Sendo assim, os versículos 3 ao 10, a narrativa de Pedro e do discípulo amado, se configura como uma narrativa inserida, posteriormente, com o propósito de adequação da comunidade joanina ao parâmetros político-eclesiais da “Grande Igreja”.

Se admitida à hipótese de que o autor de 1João seja o mesmo redator do Evangelho de João (opinião de Helmut Koester), há, portanto, fortes indícios de uma adequação da comunidade joanina à “Grande Igreja” sendo o capítulo 20,1-18 um conjunto de narrativas onde, propositalmente, o redator alocou Pedro no meio da narrativa de Maria Madalena quando da redação final do Evangelho de João, reconhecendo a autoridade de Pedro (o que essa figura representa) alinhando assim às igrejas petrinas.

* Uma pesquisa quanto ao papel de Maria Madalena no capítulo 20: Cf. SILVA, Francisca Rosa da. Maria Madalena e as mulheres no cristianismo primitivo. Dissertação de Mestrado (Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo). São Bernardo do Campo: UMESP, 2008.

29.10.14

COMPAIXÃO SOCIAL

Compaixão é a capacidade de sentir a dor do outro. Tod@s os seres humanos tem essa capacidade, pois ela não se dá apenas a partir de valores éticos, mas no processo de cognição humana. É possível ignorar a dor do outro, mas não é possível anular o sentimento de que foi de alguma maneira, tocado com a dor do outro.

Assim como somos capazes de sentir compaixão pelo outro, deveríamos ser capazes de sentir compaixão social.

Em relação à compaixão interpessoal, somos despertados quando vemos noticiário onde há, por exemplo, crianças envolvidas. Sentimos compaixão quando sabemos que alguém foi assaltado e levaram o carro da família. Já a compaixão social não é tão mensurável assim.

Há uma concepção de que não é preciso ter compaixão com quem não tem emprego ou não pode fazer no mínimo três refeições ao dia. Há uma dificuldade em atender as necessidades básicas de uma família onde a miséria faz parte do seu cotidiano.

Por que somos capazes de nutrir compaixão na relação pessoal e, ao mesmo tempo, nem tod@s, é claro, serem insensíveis às necessidades do outro quando o plano da discussão se dá no econômico?

Para Jung Mo Sung – pesquisador que tive a oportunidade de ser aluno –, há pensadores que assumem a defesa do livre mercado propondo uma postura ativa para desenvolver a insensibilidade social frente aos sofrimentos dos menos competitivos, dos os pobres e excluídos do mercado, como um fator necessário para a modernização e o progresso econômico.

A lógica por trás dessa insensibilidade social é simples. O economista, ganhador do Prêmio Nobel em Economia em 1974, Friedrich Hayer, considerado um proeminente articulador do neoliberalismo, entendia as coisas assim: tendo como pressuposto a complexidade do mercado, não é possível conhece-lo perfeitamente. Assim, qualquer tentativa em solucionar problemas sociais é uma intervenção na economia. Como o mercado não pode ser conhecido de modo suficiente, essa intervenção prejudica o mercado que precisa ser livre. Quando o mercado está ineficiente, gera crise econômica e crise econômica, consequentemente, gera crises sociais e mais problemas para os mais pobres. Dessa forma, a causa do aumento da pobreza e dos problemas sociais seria a tentativa de solucionar conscientemente os problemas sociais. O mais sensato é não procurar intervir com Programas Sociais.

Uma vez o mercado tendo uma “mão invisível”, qualquer iniciativa em amenizar ou encurtar a pobreza através do Estado, é prejudicial ao sistema de livre mercado. A sensibilidade social, segundo os neoliberais, que funciona não é aquela que é resultado de planos e ações organizados pela sociedade e o Estado, mas sim aquela produzida pela dinâmica do mercado.

Dentro de um contexto de eleições, foi possível ver a polaridade de dois discursos. Não por parte dos candidatos à Presidência, pelo menos de maneira explícita, mas por parte do eleitorado de segmento e condição socioeconômica distinta.
De um lado um eleitorado sustentando um discurso neoliberal, onde os recursos do Estado não poderia, necessariamente, serem direcionados para Programas Sociais, uma vez que tais programas acomodam pessoas e a atividade econômica não é satisfatória. Quem assim articula, pensa que o Estado está fazendo mais mal do que bem providenciando recursos para os mais pobres. Frases como “é preciso ensinar a pescar e não dá o peixe” são as mais usadas. O eleitorado do Sul e do Sudeste do país advoga, na sua maioria, essa concepção.

Por outro lado, houve um eleitorado que continua contrariando as ideias neoliberais de Hayer. Para esses não é possível deixar que o livre mercado dê conta de famílias que estão empobrecidas. É preciso desenvolver a compaixão social. Enquanto isso, o sistema econômico vigente continua produzindo suas vítimas que são sacrificadas em nome do livre mercado. É preciso ter compaixão social, sentir a dor do outro. Se deixar por conta do sistema econômico com o seu livre mercado, não apenas a mão será invisível (expressão de Adam Smith), como o ser humano também continuará invisível em suas necessidades. Não por acaso que os Programas Sociais vêm sendo intensificados no país. Programa como o Bolsa Família, por exemplo, em dez anos contribuiu para que 12 % dos beneficiários deixassem o programa após renda melhorar, ou seja, com o aumento da renda, quase 1,7 milhão de famílias abriram mão do benefício em uma década (Confira!).

16.9.14

PASTOREIO: DOM OU OFÍCIO?

Decorrente da discussão quanto à aceitação (ou não) do ministério pastoral feminino, está havendo um profícuo e intenso debate sobre o tema em nível denominacional. Mesmo que para alguns esse é um assunto superado, ainda é possível verificar a opinião de pessoas com diferentes enfoques: bíblico-teológico, sociológico e político.

Como a maioria do debate se dá em torno do papel da mulher em relação ao homem, o tema, por vezes, fica restrito entre os igualitaristas (que entende que tanto homem como mulher são iguais, não havendo distinção em termos de funções ou papéis) e os complementaristas (que entende que homem e mulher são distintos e cada um desempenha papéis diferentes). Dentro dessas duas concepções, o texto bíblico é invocado para dar base tanto ao conceito do igualitarismo como do complementarismo. Nesse sentido, os igualitaristas gostam de se utilizar de textos como Gl 3,28, por exemplo. Já os complementaristas se utilizam de textos onde a figura da mulher é colocada em segundo plano, em relação ao homem. Aqui os textos de 1Co 14,33b-36 e 1Tm 2,11-15 são os preferidos. Textos que expressam, de maneira contundente, o comportamento silencioso da mulher no culto.

Em relação aos dois textos usados pelos complementaristas, há um consenso de que ambos têm dificuldades quanto a uma exegese coerente e que, portanto, não podem ser taxativos. Em 1Co 14,33b-36 há uma disputa se a referida passagem é uma glosa ou interpolação ou ainda em que contexto Paulo está se referindo ao silêncio uma vez que em 1Co 11,5 as mulheres estão orando e profetizando. Já em 1Tm 2,11-15 não se pode definir, prontamente, que se trata de todas as mulheres,  podendo ser algo para aquelas que foram seduzidas pelos “falsos ensinos” e se desviaram (1Tm 5,15).

Aqui será dado um outro enfoque, embora os referidos textos e tantos outros que tocam o assunto de maneira direta ou indiretamente, devam ser estudados exegeticamente de maneira coerente e com o maior número de ferramentas disponíveis.

Partindo do pressuposto de que o Novo Testamento (NT) tem a sua diversidade intrínseca, é notável de que a eclesiologia de Paulo será diferente da eclesiologia dos Evangelhos e que será diferente da eclesiologia de Hebreus como também das pastorais. Não é possível ignorar que na eclesiologia paulina o foco está nos dons espirituais e a igreja é composta por profetas. Também não se pode ignorar que as listas de dons espirituais em Paulo não há distinção de gênero.

Sendo assim, é impreterível que se considere as diferentes eclesiologias presentes no NT e como elas se diferem em sua organização. Aqui estabelecemos a diferença entre a eclesiologia paulina e a eclesiologia nas pastorais.

Na eclesiologia paulina (as cartas de Paulo apenas) não é possível falar em ordenação (palavra que nem mesmo aparece no NT), porque os apóstolos não foram ordenados (assim como Paulo não foi), eles possuem autoridade devido aos critérios estabelecidos em Atos 1,21-22 e o próprio Paulo se considera um “fora de tempo”. A eclesiologia paulina não conhece uma designação oficial para o ministério pastoral. O que há são pessoas que possuem dons concedidos pelo Espírito Santo, capacitando pessoas para o serviço na comunidade. No caso de uma mulher ensinar ou profetizar na igreja não dava a ela o papel de liderança na comunidade. Isso pelo fato de que as comunidades paulinas reproduzem o status quo do seu tempo, ou seja, as mulheres não partilhavam dos mesmos direitos que os homens. Paulo por diversas vezes chama pessoas próximas a ele na tarefa missionária de colaboradores e colaboradoras (Rm 16,6 e 12), a sua autoridade apostólica em nenhum momento é diminuída ou esvaecida.

A eclesiologia paulina é uma igreja de profetas. Nas comunidades paulinas o profetismo era o elemento que mantinha a comunidade em torno de pessoas carismáticas e aptas a dirigir a atividade eclesial. A ênfase nos dons espirituais se deve pelo fato de que a comunidade se entendia como iguais em dignidade de todos com todos, por esse motivo a coesão, incluindo aí a pluralidade em manifestações tão recorrentes nos textos de Paulo onde ele lista a diversidade dos dons espirituais; era uma dádiva da manifestação do Espírito Santo. A comunidade é estruturada a partir do Espírito, ele é o doador da liderança carismático-profética que dirige a comunidade por meio da distribuição de dons.

Na eclesiologia das pastorais, a comunidade passa a ser uma instituição e não mais uma comunidade de iguais, a figura do Espírito Santo passa a ser obnubilada, não esquecida. Ele deixa de ser um “agente” propagador dos dons espirituais. O foco agora são os ministérios ordenados. Por isso a ênfase na imposição de mãos (1Tm 5,22; 2Tm 1,6).

Entre essas duas concepções quanto à organização eclesial (dons espirituais – Paulo ou ofício – “pastorais”), fica algumas perguntas: o ministério pastoral pode ser enquadrado como um ofício ou ele ainda depende de alguns dons espirituais para se realizar? Se ele for entendido como um ofício, o dom é intrínseco?

Não é tão simples resolver isso.

Ocorre que há no NT duas eclesiologias (as que foram elencadas aqui), em que os dons espirituais são o elemento condutor da comunidade. Em seguida a institucionalização que confere a uma pessoa a função pastoral.

De qualquer forma, e a que opinião possa ter, não é sensato ignorar essas duas eclesiologias que trazem em seu contexto diferentes maneiras de organização comunitária. 

12.9.14

A ORDEM DAS VIÚVAS

Que as chamadas “cartas pastorais” é objeto de disputa quanto a sua (não) autenticidade paulina é um fato.

Pesquisadores do Novo Testamento se dividem quanto à autoria das “cartas pastorais” que, aliás, levou esse nome a partir do século XVIII. Entre os pesquisadores há, por exemplo, D. A. Carson (Introdução ao Novo Testamento, Vida Nova, 1997) que sustenta a autoria paulina das “pastorais”. Em contraposição, W. G. Kümmel não aceita a autoria paulina das “pastorais” (Introdução ao Novo Testamento, Paulus, 1982). Vale a pena comparar os argumentos desses dois pesquisadores.

Hoje, a autoria paulina das “pastorais” continua sendo debatida, mas há consenso, principalmente na academia, de que as “pastorais” provavelmente seja fruto de discípulos de Paulo, portanto, um cristianismo que está adentrando o segundo século. Biblistas de destaque, tanto europeus, norte-americanos, latino-americanos e brasileiros (protestantes e católicos), vem sinalizando para as “pastorais” um período pós-paulino. Nesse sentido elas seriam pseudoepígrafas, pertencentes ao círculo de discípulos de Paulo que procuram lidar com problemas de ordem doutrinária nas comunidades da região de Éfeso.

As “pastorais” tomam como modelo eclesiológico as instituições do império romano. Nelas, está sendo retratado um período de institucionalização e a liderança reflete isso. Se antes a ênfase estava na liberdade e na profecia, onde tod@s podiam exercer os seus dons (contexto paulino), com as “pastorais” a liderança é centralizada no bispo ou presbítero. A fim de combater os “falsos” ensinos e os “falsos” mestres (1Tm 4,1-3), aparentemente de vertente gnóstica, as “pastorais” validam duas armas para conter os falsos ensinos e seus mestres: o clero (bispo/presbítero) e o credo (a sã doutrina).

É dentro desse contexto que a liderança feminina será deslegitimada. Não somente por adversidades externas (falsos ensinos), mas também dificuldades internas como, por exemplo, o status de ensinador(a) na comunidade que estava em disputa. Por esta razão a intimação de 1Tm 2,9-11 onde é, expressamente, solicitado que a “mulher não ensine”. Bem, se há esse pedido é porque há mulheres ensinando e elas não estão ficando caladas na comunidade. Elas estão exercendo liderança de alguma maneira. A julgar pelo texto, essa liderança não está sendo exercida beneficamente.

Parece que o contexto de 1Tm 2,9-11 está relacionado a uma disputa de poder quanto a liderança comunitária, e nessa disputa algumas mulheres estavam envolvidas. Se o(s) autor(es) está lidando com disputas quanto à liderança, principalmente no ensino, da comunidade, pedidos como “não aceites denúncia contra presbítero” (1Tm 5,19) devem ser considerados, uma vez que há na comunidade pessoas (alguém?) que estão querendo dominar a comunidade se impondo em relação ao presbítero. Uma das ferramentas que essas pessoas estariam utilizando para dominar e se impor seria o dinheiro. Talvez mulheres ricas, com status de poder dentro da comunidade, querem se impor e dominar a comunidade e, principalmente, os homens. Não por acaso que o texto de 1Tm 2,9-11, pede para que mulheres não estejam presentes na comunidade “com ouro, ou pérolas, ou vestuário dispendioso”. Se há essas mulheres no grupo, o ensino proposto é de que haja “contentamento” e não “lucro”, uma vez que o amor ao dinheiro “é a raiz de todos os males” (1Tm 6,6-10).

Se há mulheres querendo dominar a comunidade e a liderança masculina, há também mulheres que se dedicam à comunidade de maneira piedosa. Trata-se da ordem das viúvas que havia inclusive “inscrição” (1Tm 5,9-16).

As viúvas tinham um ministério na comunidade e isso deixa o autor(es) preocupado com esse grupo também, principalmente com as viúvas jovens. Fato é que há uma liderança feminina de viúvas na comunidade e o autor(es) não pode deslegitimar essa liderança como fez com as supostas mulheres ricas.

A lista de qualificações que se pede ao presbítero (bispo) e às viúvas é bem parecida:

1Tm 3,1-7                              1Tm 5,9-16
“esposo de uma só mulher”    “esposa de um só marido”
“irrepreensível”                     “recomendada pelo testemunho”
“criando os filhos”                 “tenha criado filhos”
“hospitaleiro”                        “exercitado hospitalidade”

Ocorre que havia uma ordem e, ao que tudo indica, não havia idade para pertencer a ela, contanto que fosse viúva. Elas exerciam uma liderança na comunidade e é isso que o autor(es) quer delimitar, ou seja, ele(s) está tendo problemas com mulheres ricas e olha a ordem das viúvas com certo cuidado a fim de limitar a atuação delas na comunidade, por isso os critérios que ele(s) procura estabelecer sendo um deles o principal, 60 anos idade mínima. Quanto às viúvas novas, o autor(es) pede que sejam rejeitadas, porque podem querer se casar novamente.

Assim como não há desempenho de funções para com o presbítero (bispo – 1Tm 3,1), apenas qualificações, a ordem das viúvas de igual modo, apenas qualificações morais e espirituais. Sendo assim, há indícios fortes aqui de que havia uma liderança feminina no contexto das “pastorais” que, provavelmente, se dedicavam a fazer visitas às famílias da comunidade bem como orações nas casas. Daí a preocupação do autor(es) quanto a essas visitas, principalmente de mulheres que estavam sendo seduzidas por falsos ensinos. No texto, há uma tentativa de limitar a atuação do ministério feminino estabelecendo uma idade mínima (60 anos), mas não há uma proibição em relação ao que exerciam, pelo contrário, havia certo incentivo para que fossem “mestras” (Tt 2,3).

Sendo assim, uma “ordem dos pastores” não há nas “pastorais”, mas uma ordem das viúvas sim, mesmo a contragosto.

8.9.14

ELAS NÃO CONTAM...

Indubitavelmente a ressurreição é um dos principais temas do Novo Testamento.

Embora o tema da ressurreição seja controverso, ou seja, não há unanimidade entre os pesquisadores quanto ao caráter da ressurreição, tanto entre teólogos católicos quanto protestantes, o tema segue sendo a principal força do cristianismo como religião. Não por acaso, de maneira nenhuma, que teólogos de diferentes posicionamentos, se debruçam no tema para dele fazer hermenêutica, seja a partir da perspectiva bíblica, científica, filosófica ou religiosa. Uma obra recente que procura tratar do tema, do ponto de vista histórico-teológico, é a do teólogo inglês N. T. Wright, A ressurreição do Filho de Deus (Academia Cristã e Paulus).

Ocorre que dentro do Novo Testamento já exista diversidade interpretativa quanto ao tema da ressurreição. A perspectiva neotestamentária acolhe, por exemplo, uma representação do ressuscitado em termos espiritualizante (Paulo), mas também concebe uma representação materializante (João).

Uma vez a ressurreição se configurando como um tema importante para a fé dos discípulos, o ser testemunha de tal “ocorrido” dá ao(s) testemunhador(es) a possibilidade de alimentar a fé de quem já caminhava com o Nazareno, e tinha nele a manifestação de Deus, como também dos futuros discípulos.

O ser testemunha da ressurreição se torna em elemento definidor na vivência comunitária: “a este Jesus Deus ressuscitou, do que todos nós somos testemunhas” (At 2,32).

É dentro desse aspecto, que o testemunho apostólico se tornará fundamental para a comunidade de fé. Uma das tradições mais antigas da ressurreição, 1Co 15,3-8, traz as testemunhas da ressurreição que consta os apóstolos, mais de quinhentos irmãos, Tiago e o próprio Paulo, fora de tempo como ele diz.

Testemunhar a ressurreição é algo que todos gostariam de ter experimentado, sem dúvida, e alguns tiveram essa oportunidade privilegiada. Até porque esse testemunhar será um dos critérios para a composição do grupo apostólico (At 1,21-22).

Bem, ocorre que as narrativas da ressurreição de Jesus (nos evangelhos sinóticos e João), mostram que elas foram às primeiras testemunhas da ressurreição de Jesus (Mt 28,1-8; Mc 16,1-7; Lc 24,1-10; Jo 20,11-18). Todas as narrativas, excetuando Marcos, traz a informação de que foram elas que levaram a notícia aos discípulos, e futuramente apóstolos, da ressurreição.

Se o testemunhar a ressurreição se tornou em um elemento de fé para a nascente comunidade; se o testemunhar a ressurreição, mais a frente, se transforma em critério para exercer a liderança na comunidade, por que as mulheres foram deslegitimadas?

E mesmo Paulo, que foi um “fora de tempo”, que se configura em liderança notável no cristianismo nascente, por que as mulheres que testemunham a ressurreição não foram nem mesmo mencionadas por ele (1Co 15,3-8)? Calvino, comentando esse texto em 1540, é específico: “ele não fornece uma lista completa, pois omite as mulheres. Portanto, quando diz que antes de todos apareceu a Pedro, devemos entender que ele (Pedro) é o primeiro entre os homens, de modo que a afirmação de Marcos (16,9) de que Jesus apareceu primeiro a Maria não é de forma alguma inconsistente”.

Aparentemente é um caso típico de diferentes tradições. Felizmente elas (as tradições), chegaram até nós de maneira paralela. Mesmo assim, essa desconformidade com o mesmo fundamento de fé (a ressurreição), possibilita a pensar de que as mulheres foram sendo gradativamente marginalizadas enquanto protagonistas da ressurreição. Esse processo começa com os critérios para substituir Judas no colégio apostólico e o primeiro deles é: ser homem (At 1,21). É claro que, para as mulheres, o primeiro critério anula os outros dois (ter acompanhado Jesus e terem sido testemunhas da ressurreição).

A tradição de que mulheres viram o ressuscitado se tornou texto em uma época (80-90 d.C.) em que as relações na comunidade de fé passava por um processo androcêntrico. Mesmo assim essas tradições nos deixam claro de que foram as mulheres que viram o sepulcro vazio e o anjo falou com elas, ou seja, uma hierofania, uma manifestação divina. Mais ainda, são elas que recebem de Jesus a incumbência de levar a notícia aos discípulos e futuros apóstolos quando a sua vitória sobre a morte. Mesmo assim elas ainda não contam.

5.7.14

SEGUIMENTO COMO APROXIMAÇÃO AO JESUS HISTÓRICO

Na América Latina quem aprofundou a reflexão em torno do seguimento foi, indubitavelmente, Jon Sobrino.

De alguma maneira Sobrino trata do seguimento e coloca a cristologia latino-americana no cenário teológico com maestria.

Sua cristologia tem, pelo menos, três elementos básicos: (1) compreender quem é Jesus, (2) mostrar o caminho de Jesus e (3) ajudar as pessoas a seguirem a causa de Jesus.

A hermenêutica sobriniana contempla alguns eixos que, para a teologia latino-americana da libertação, significou um aprofundamento na pessoa, mensagem e práxis de Jesus. A obra sobriniana ecoa a cristologia moltmanniana. Um primeiro eixo é a hermenêutica quanto ao Jesus histórico.

A preocupação de Sobrino é com o Jesus histórico e o que isso significa para o seguimento. Ele se apropria da diversidade exegética em torno do debate e faz desse tema uns dos principais eixos hermenêuticos de sua cristologia para a América Latina. Para ele “a pergunta pelo Jesus histórico não é uma questão do passado, mas pertence à essência do cristianismo”. Para o teólogo salvadorenho, fazer o caminho da busca pelo rosto de Jesus, suas pretensões, gestos, palavras, significa também assumir certos compromissos como cristãos. É imprescindível se remeter ao Jesus histórico, porque somente assim será possível fazer uma leitura abrangente da figura de Cristo. O que deve ficar claro, na concepção de Sobrino sobre o Jesus histórico, é que, diferente de outras leituras sobre o tema, principalmente a europeia, que focou as vidas de Jesus, na América Latina não está em discussão à questão biográfica, mas sim “a totalidade da história de Jesus, e a finalidade de [se] começar com o Jesus histórico é que se prossiga a sua história na atualidade”. Sendo assim, para Sobrino, o conceito histórico, não abrange a sua cientificidade como na teologia europeia, mas sim a atividade de Jesus. Completa ele: “por Jesus histórico entendemos a vida de Jesus de Nazaré, suas palavras e atos, sua atividade e sua práxis, suas atitudes e seu espírito, seu destino de cruz [e ressurreição]”.

Sobrino tem no reino de Deus a principal mensagem de Jesus. Na cristologia sobriniana, o reino de Deus é central na vida, gestos e mensagem de Jesus. O reino de Deus proclamado por Jesus é a mensagem de esperança as pessoas, principalmente aos marginalizados. O reino de Deus ganhou tal envergadura na vida de Jesus que o levou à morte. O reino de Deus se dá na construção social, principalmente no desmantelamento do anti-reino, marcado pela injustiça e opressão que assola o povo, transformando-os em vítimas.

O seguimento é a relação que os discípulos têm com Jesus. Essa relação começa quando Jesus chama seus discípulos para segui-lo. A intenção é que eles reproduzam os seus passos, participando, especificamente, do seu projeto, o reino de Deus. O seguimento, portanto, é assumir os passos de Jesus ao ponto de compartilhar, até mesmo, o seu destino, a morte, como foi, por exemplo, o martírio de Dom Oscar Romero. O seguimento para Sobrino não tem a pretensão de imitação. Para ele isso é impossível por questões históricas. O seguimento é a disponibilidade para reproduzir, em outros contextos históricos, o movimento fundamental das ações de Jesus.

Seguimento é a principal identidade cristã, pois o seguidor deve reproduzir a estrutura fundamental da vida de Jesus e ao mesmo tempo tornar possíveis as ações dele de acordo com as exigências do contexto em que se vive.

O Jesus que Sobrino apresenta é alguém que chama seus discípulos para estar perto dele a fim de participarem dos seus anseios e ações. Não é um Cristo distante do povo e transcendente, mas perto ao ponto de pedir ajuda aos seus seguidores para que desçam da cruz de hoje os necessitados e desvalidos. É um Cristo que solicita companhia, pois reconhece que sem a ajuda dos seus discípulos não seria possível levar adiante as marcas do reino de Deus

8.3.14

COMUNIDADE DE ADORADORES

Adoração não se resume a um fim de semana que passamos no templo; adoração também não se dá apenas por meio da música. Essas duas realidades, culto e música, são meios para a adoração. Adoração é o respirar da igreja. Tudo que ela é e o que ela vier a fazer precisa estar inteiramente relacionado com a adoração. Ocorre que às vezes nos esquecemos desse primado da igreja e começamos a colocar aquilo que fazemos como fim em si mesmo e não como meio de adoração. Quando supervalorizamos algumas atividades ou programas já não é adoração, é ativismo religioso apenas.

Quando o Novo Testamento fala da igreja, ensina que um povo foi escolhido para o “louvor da sua glória” (Ef 1,4-6). A existência da igreja é para adoração ao Senhor. Jesus quando resumiu a Lei para os fariseus disse que o primeiro mandamento é “amar a Deus de todo o coração, alma e entendimento” (Mt 22,36-39). Só é possível adorar a Deus quando o amamos, do contrário não é adoração. Adoração é o reconhecimento de que Deus é Senhor e como gratidão, oferecemos o louvor devido em todos os momentos da nossa vida.

Por muito tempo confundimos a principal da missão da igreja com a evangelização. Acreditamos por muito tempo que a evangelização era a primeira missão da igreja. O pastor Isaltino Gomes Coelho Filho falando sobre isso ele diz: “a finalidade maior da igreja é vida com Deus. O alvo da igreja não é o mundo, mas o seu Senhor. Por isso que a missão principal, maior, da igreja não é a evangelização. É a adoração”. Quando li essa frase em um pequeno livro do pastor Isaltino algo me surpreendeu. Disse: - é claro, assim como Israel foi escolhido por Deus para o seu louvor, a igreja não é diferente.  

A igreja não existe em função de organizações sejam elas da denominação ou da igreja local. Ela não pode ser definida a partir de grupos como mulheres, homens, jovens... A igreja é adoração viva diante de um Deus vivo. Se não houver nenhuma organização da igreja e apenas um povo que se reúne para celebrar, é igreja e está em adoração. Isso porque a igreja existe para celebrar ao Senhor. Quando pensamos em igreja a partir de seus programas e atividades, o centro da vida comunitária fica restrito às pessoas aceitarem e participarem dos programas e atividades. Antes de querer que as pessoas se comprometam com os programas da igreja e suas atividades é preciso ensinar-lhes a principal missão da igreja, adoração.

Se me perguntarem: Por que a igreja existe? Ela existe para celebrar ao Senhor, essa é sua razão primeira, maior, principal. Tudo o mais sai dessa concepção, de que estamos aqui para adorar a Deus. Quando assim entendemos, tudo o mais passa a ter um significado como meio de adoração. A música que cantamos; a oração que fazemos; o programa que realizamos...

Vivamos em adoração.

6.2.14

ENTRE O CARISMA E A INSTITUIÇÃO

O processo de institucionalização de qualquer movimento tende a ser o caminho mais rápido. Até agora as previsões de Max Weber continuam sendo válidas. Primeiro se dá o movimento com os seus “carismáticos”, um “profeta” ou “político”. A crença é o principal veículo de condução e apenas ela favorece o andamento do movimento. Quando o movimento está querendo ter uma expressão maior e tem um número considerável de pessoas surge à tradição. Agora o grupo, até então movimento, procura coesão, procura uma identidade – não levando aqui as consequências de se usar esse termo, recomendo a leitura do texto de Stuart Hall, A identidade cultural na pós-modernidade –, e precisa de um conjunto de fatores que lhe dê uma diretriz organizacional e doutrinaria. Aqui, na previsão de Weber, aparece a instituição. Agora se obedece não à crença, mas sim a tradição. Não é mais necessário o “carismático”, aparece à figura do organizador do processo de institucionalização. É ele quem organiza as regras, doutrinas, ritos e determina o que pode ou não pode fazer, agora não mais em cima de uma crença e sim em cima de uma tradição.

Com o Novo Testamento o processo foi parecido e esse é um dos problemas que temos com a leitura e a interpretação do texto.

Guy Bonneau em seu texto Profetismo e instituição no cristianismo primitivo analisa esse processo em que o carisma dá lugar à instituição e algumas mudanças na eclesiologia neotestamentária definem os rumos do que entendemos por igreja hoje e sua liderança.

Num primeiro momento há o profetismo. Nas comunidades paulinas o profetismo era o elemento que mantinha a comunidade em torno de pessoas carismáticas e aptas a dirigir a atividade eclesial. A ênfase nos dons espirituais se deve pelo fato de que a comunidade se entendia como iguais em dignidade de todos com todos, por esse motivo a coesão, incluindo aí a pluralidade em manifestações tão recorrentes nos textos de Paulo em Romanos e 1º Coríntios sobre a diversidade dos dons espirituais, era uma dádiva da manifestação do Espírito Santo, favorecendo os carismas. Esse, os carismas, é um neologismo paulino para indicar um dom do Espírito Santo ofertado a qualquer um na comunidade. A comunidade é estruturada a partir do Espírito, ele é o doador da liderança carismático-profética que dirige a comunidade por meio da distribuição de dons.

Quando a comunidade passa a ser uma instituição e não mais uma comunidade de iguais, a figura do Espírito Santo passa a ser obnubilada, não esquecida. Ele deixa de ser um “agente” propagador dos carismas. O foco passa a ser os ministérios ordenados, uma espécie de hierarquia, onde o Espírito Santo apenas sopra na direção de alguns. A concepção de iguais deixa de ser uma realidade, assim como era nas comunidades paulinas, e passa a ser uma relação de onde alguém, ou um grupo, sustenta uma autoridade sacralizada e precisa proteger algo, a tradição. É aqui em que o Espírito não nivela mais a todos por meio dos dons espirituais.

Esse processo neotestamentário é visível entre as cartas paulinas e as deuteropaulinas.

As chamadas cartas pastorais representam bem o cume desse processo e a disputa ente o profetismo e a instituição.

Recentemente o universo batista brasileiro foi sacudido por conta de uma decisão da Ordem dos Pastores Batistas do Brasil (OPBB) em aceitar no seu grêmio mulheres.

As reações foram diversas. Houve de um tudo. Alguns aplaudiram, sem mesmo saber direito o que isso significava, outros repudiaram prontamente, também sem conhecer com mais acuidade do que se tratava. Outros foram contra por entenderem que a Bíblia estava sendo “rasgada”, expressão de alguns. Os sentimentos estiveram à flor da pele, principalmente no grupo que entende que precisa “proteger” a Bíblia como “palavra de Deus”. Bem isso é uma outra história. O mais interessante é que os extremados estavam propondo, e ainda continuam fazendo tal apologia, uma divisão na OPBB por conta dessa decisão, não respeitando o processo democrático e de direito de um órgão da Convenção Batista Brasileira e sua autonomia.

Bem, essa discussão em torno da ordenação feminina serviu para trazer mais um tema para o debate. O símbolo pastor/a pode ser interpretado apenas como pertencente à instituição ou ele continua sendo um carisma? Pastor/a é uma função ou ainda pode ser considerado um dom do Espírito Santo?

A conta não é tão simples assim. Sendo as comunidades paulinas dirigidas, incialmente, pelos carismáticos – e essa designação não tem nenhuma relação aqui com o movimento pentecostal, apenas uma identificação de pessoas que possuíam os dons espirituais para contribuir com a edificação do corpo de Cristo – e depois, muito tempo depois, por algumas razões que não vem ao caso aqui, serem dirigidas pelos institucionais, é sensato ignorar essa transição em que se deu a questão da liderança neotestamentária na comunidade e fechar a questão em torno do gênero homem e mulher?

7.1.14

A FELICIDADE É SOLIDÁRIA

Por esses dias, todas as vezes que um carrão vem relinchando atrás de minha Kombi, vem piscando desesperadamente pedindo passagem em ruas onde não há saídas, apenas espera, penso na publicitária que foi espancada no trânsito por, justamente, não ter desaparecido da frente de um desses apressados em último grau parido pela modernidade.

Ser gentil, paciente, compreender a realidade alheia, ampliar o campo de visão para além dos domínios do próprio ar-condicionado são fundamentos humanos em franca decadência. Nessa toada, bárbaros que aguardem!

Mais assustador ainda é que a aura de bondade do brasileiro também está se apagando. Ranking mundial de solidariedade entre 135 países colocou o país na rabeira, 91ª posição. Não se doa dinheiro a instituições, não se ajuda o desconhecido e voluntários continuam sendo heróis, e não regra.

Por esses dias, todas as vezes em que vejo um cão mais magrinho dentro de automóvel, imediatamente me lembro da cena do casal que jogou um vira-lata pela janela de seu possante em movimento, em plena avenida que nunca descansa, em São Paulo.

O bicho, terrivelmente inconveniente e incrédulo, rodeava o veículo com desespero tentando entender aquela atitude humana. Não, não dá para acreditar que valores como apego, compaixão e amizade estão sendo mais bem compreendidos por… cachorros?

A conta custa a fechar em minha cachola frenética e inquieta. O brasileiro não está ganhando mais? O desemprego não caiu? Os supermercados não estão vendendo televisores como pão quente?

Mesmo com tudo isso, o brasileiro piora naquilo que enriqueceria o caráter, enobreceria as relações entre os viventes e tornaria o país, talvez, menos Graciliano Ramos e suas “Vidas Secas”, menos Aluísio de Azevedo e seu “O Cortiço”.

Por esses dias, todas as vezes que leio gente fazendo chacota abertamente ou mesmo agredindo a céu aberto grupos e indivíduos que manifestam diferenças no modo de pensar, de agir ou de atuar em sociedade, penso que minha vez pode chegar. Salvem o povão quebrado, por favor!

No balaio de incompletudes desse “serumano” brasileiro do século 21, a tolerância, que tanto se cobrou aqui de norte-americanos em relação aos clandestinos, de franceses em relação aos refugiados da fome africana, tem ficado ausente com médicos de Cuba, com costureiros bolivianos.

O povo que mais celebra o Carnaval no mundo, a festa do “todosjuntos”, está pendurando no pescoço placas de “não se aproxime”. Caso contrário, mata-se, xinga-se, chuta-se, joga-se no lixo e, depois, taca-se no fogo.

Por esses dias, todas as vezes que alguém diz “nossa, como o ano passou rápido, já é Natal!”, imagino que, embora galopante, o tempo sempre permite momentos de calmaria ao pensamento para que se revejam rumos, ações e atitudes.

Como diria minha tia Filinha, “difinitivamente” a felicidade vai habitar o um de maneira completa e em cores. Ela precisa e exige o dois, o dez, os 10 milhões para reverberar, para se multiplicar e se fortalecer. A felicidade é solidária.


Jairo Marques