21.3.18

APOIO À CANDIDATOS POR PASTORES BATISTAS

Estamos todos mergulhados em uma profunda crise que assola o país. Essa crise passa por diversos setores da vida nacional e, pelo que conste, nada passa despercebido. Uma das mais profundas é, indubitavelmente, a crise política. O país acompanhou (e continua acompanhando), diversos políticos de diferentes legendas sendo conduzidos para depoimentos, julgamentos e não poucos encarcerados por diferentes crimes envolvendo a administração pública.

Somando a esse quadro de crise política – que parece ser complexo e qualquer observação sem a máxima apuração corre-se o risco de imprecisões –, há uma intensa polarização político-ideológica na grande maioria da população. As pessoas estão tomando partido de A ou B, baseadas em suas convicções religiosas, morais e políticas. Há, inclusive, alguns que até então, confessadamente, não tinham qualquer interesse na política, mas, nos últimos anos, vem se envolvendo com questões partidárias de maneira acirrada, se colocando como de “Direita” ou de “Esquerda”, mesmo que esses “rótulos” (direita ou esquerda) não tenham a devida lucidez para a maioria que assim se definem.

Não é de hoje que as redes sociais se transformaram em “campo de batalha” entre pessoas de diferentes posições políticas. Há pesquisadores que arriscam em dizer que as eleições de 2018 serão decididas na internet e, mais especificamente, nas redes sociais. Não sem razão que há grupos criminosos que ganham dinheiro produzindo e espalhando nas redes sociais “Fake News” (notícias falsas). A proliferação de fake news é muito maior do que mesmo uma notícia verdadeira, constatam os especialistas em internet.

Com esse tenebroso cenário, perguntamos: um pastor batista deveria apoiar candidatos nessas eleições de 2018? Ele deveria dizer, divulgar, seja de púlpito ou em redes sociais, conteúdos envolvendo o candidato A ou B?

Antes de qualquer coisa, é preciso frisar o “pastor batista”, ou seja, não está se falando de um cidadão com seus direitos e deveres, antes uma pessoa que exerce liderança em uma comunidade de fé e professa uma identidade denominacional, portanto, tem uma função pública-social. Diante disso, daremos algumas razões porque um pastor batista não deveria expressar sua adesão/apoio à candidatos à cargos eletivos.

Separação entre Igreja-Estado

Notadamente, os batistas têm na separação Igreja-Estado um dos seus principais princípios. Ocorre que a defesa da separação Igreja-Estado nunca significou omissão e desinteresse pela política. Professar este princípio não significa deixar a política de lado, alegando que o interesse da Igreja é tão somente espiritual. Quando o batista norte-americano Walter B. Shurden, comenta sobre este tema, diz: “A legitimidade do Estado deve ser reconhecida pelo cristão, embora lhe seja permitido se opor ao Estado quando este contraria os princípios que caracterizam os ensinamentos da Palavra de Deus”. Foi nesse espírito, que Martin Luther King Jr., sem nunca ser candidato ou apoiar qualquer que fosse o presidente dos EUA, disse: “É preciso lembrar a Igreja que ela não é senhora nem serva do Estado, mas, sim, a consciência dele. A Igreja tem o dever de o criticar e o orientar, sem nunca se tornar para ele num instrumento”. Separação entre Igreja-Estado não significa omissão política, antes a vigilância com espírito profético. Já dizia João Falcão Sobrinho, destacado pastor batista no Rio de Janeiro: “O cristão, como cidadão da pátria terrena, tem dever para com o seu país, mas sempre que entrar em conflito o seu dever cívico com os seus deveres para com Deus, deve permanecer fiel ao seu Redentor”. Por prezar pelo princípio da separação Igreja-Estado, o pastor batista, quando se isenta de apoiar candidato A ou B, tem condições de refletir a partir de algo maior, qual seja, as pessoas e o seu bem-estar. Esse deveria ser o principal foco de todos os cristãos batistas, mas principalmente do pastor batista. No item ORDEM SOCIAL (Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira), traz algo fundamental quanto ao papel de todos os cristãos: “Como sal da terra e luz do mundo, o cristão tem o dever de participar em todo o esforço que tende ao bem comum da sociedade em que vive”. É sabido que uma dessas formas de buscar o bem comum de uma sociedade que tem um sistema de governo republicano, se dá com a tarefa política. Por isso, mais uma razão para não se envolver com legendas partidárias de maneira estrita. Essa adesão, no nosso entender, prejudicaria um olhar holístico sobre as demandas de uma sociedade. Quando há comprometimento partidário, há descomprometimento social na sua inteireza.

Histórico negativo

Além desse fator (separação entre Igreja-Estado), que consideramos decisivo para não se apoiar, de maneira aberta e pública, candidatos à cargos eletivos, há também um outro fator: pesa contra nós, batistas, um histórico negativo quando se optou por um determinado segmento político no país. Antes de 1964, portanto antes do golpe civil-militar, os batistas tinham no seu horizonte de reflexão e ação uma agenda que contemplava as mazelas de um povo que sofria, por conta de políticas insatisfatórias em décadas anteriores. O êxodo rural e a ineficiência de políticas públicas, mergulharam o país em uma profunda e sistêmica desigualdade social. São os batistas, que em 1963, irão produzir o mais audacioso Manifesto reconhecido até hoje. No conhecido documento “Manifesto dos Ministros Batistas do Brasil”, há um espírito profético e combativo diante dos problemas prementes da sociedade brasileira. Nesse Manifesto, está presente um senso de justiça social que, mesmo respeitando a separação entre Igreja-Estado, não se omite diante dos dilemas do povo brasileiro à época. Destacamos algumas das suas preocupações e denúncias: “Reconhecemos a inadequação da presente estrutura social, política e econômica para a realização plena da justiça social, pelo que insistimos na necessidade de um reexame corajoso, objetivo e despreconcebido da presente realidade brasileira, com vistas à sua estruturação em moldes que possibilitem o atendimento das justas aspirações e necessidades do povo. Essa necessidade ressalta da constatação da ineficiência dos institutos assistenciais do Estado, que transformam num favor concedido a custo, direitos líquidos dos trabalhadores; da irracional aplicação dos recursos públicos, que deveriam antes de se destinar, mais liberalmente, aos ministérios da Saúde, Educação e Agricultura, para a solução de problemas sociais angustiantes; da sobrevivência de regimes feudais de propriedade e exploração da terra; da generalizada pobreza das populações carentes mesmo do alimento indispensável à sobrevivência; da injustiça na distribuição das riquezas, e da utilização destas para o cerceamento das liberdades essenciais; da inadequada exploração das nossas riquezas naturais, cujo aproveitamento não só deveríamos intensificar, como fazer revestir-se de significação social; da corrupção que tem campeado nos pleitos eleitorais, na prática policial (quer preventiva, quer corretiva), na previdência social, no preenchimento de cargos públicos...” (1). Depois de 1964, os batistas se alinharam ao regime militar por razões conhecidas e pesquisadas (2). Com isso, notamos que todo e qualquer alinhamento político-ideológico leva, inevitavelmente, a uma forma de alienação das reais condições de vida de uma população. Por essa razão, ao nosso ver, um pastor batista não deveria dizer em que candidato deve ou não votar. Antes, a sua voz deveria ser apartidária, uma vez que optando por um partido, já se está optando por qual linha política irá seguir. É oportunidade de aprender com os pastores batistas que passaram pela década de 1960.

Código de Ética dos Pastores Batistas do Brasil

A Ordem dos Pastores Batistas do Brasil está para reformar o seu Código de Ética. No atual Código, há um item dedicado aos “Deveres do Pastor para com a Sociedade”. Antes de qualquer coisa, um pastor batista não deveria ser candidato a cargo político. Isso, per si, se constitui um desvio grave da sua vocação e tarefa ministerial. Mesmo o pastor batista não concorrendo a um cargo político, o Código não faculta a ele a omissão diante dos problemas sociais. Nesse sentido é dito: “Participar da vida da comunidade [...] identificando-se com sua causa e solidarizando-se com os anseios de seus moradores, procurando apoiá-los quanto possível nos esforços para satisfação deles”. É dito que a voz do pastor não é emudecida diante dos problemas, pelo contrário, ele deve se envolver nas questões que atingem a todos e, a partir da sua participação, oferecer soluções. Em outro momento do Código, é dito que o pastor deve “praticar a cidadania cristã responsável, sem engajar-se em partidos políticos”. Essa observação faz todo o sentido. Primeiro que um pastor batista, em hipótese alguma, deveria dizer para a sua Igreja Local em qual candidato os membros devem ou não votar. Isso feriria a liberdade de consciência e opinião (um dos caros princípios batistas); num segundo momento, essa recomendação se dá porque uma vez o pastor sendo do partido A ou B, ele fica comprometido com a agenda desse partido ou candidato, mesmo que concorde com algumas das questões e discorde de outras. Não obstante a isso, o Código completa: “Dar apoio à moralidade pública [...], por meio de testemunho profético responsável e de ação social”. Só essa tarefa que o Código recomenda já é, por demais, árdua. 

Um pastor batista deve, com todos esses rótulos e ódio explícito que acompanha a política brasileira nos últimos três anos e, principalmente, nas redes sociais, continuar perseguindo os exemplos de homens que lutaram contra um sistema político que marginalizava e oprimia as pessoas. Nesse sentido, os profetas do Antigo Testamento estão aí: Jeremias, Amós, Isaías e tantos outros. Em comum em todos eles há uma mensagem profética de repúdio as práticas desumanas e parciais dos reis! João Batista, no Novo Testamento, não ficou calado diante da corrupção e imoralidade de Herodes, perdeu a cabeça por conta disso. O próprio Jesus, contrário aos interesses dos sacerdotes, expulsou os ladrões que abusavam da boa fé do povo no templo de Jerusalém, e isso selou a sua execução incentivada pelo sistema sacerdotal.

Cabe ao pastor batista ser voz ativa na propagação dos valores do Reino de Deus. Quando o Reino de Deus está em primeiro lugar, há comprometimento com a justiça (Evangelho de Mateus).

Notas

(1). Publicado no “O Jornal Batista” – 14.09.1963.
(2). Confere o trabalho de Leandro Seawright Alonso, uma tese de doutorado em História Social pela USP – Ritos de oralidade: a tradição messiânica de protestantes no regime militar brasileiro (Jundiaí: Paco Editorial, 2016). 

25.2.18

A TRADIÇÃO ECUMÊNICA BATISTA

Os batistas não surgem nos Estados Unidos. Apenas para deixar bem claro.

Os batistas aparecem na Inglaterra do século XVII tendo como contexto os separatistas ingleses e, portanto, “os batistas fazem parte da gênese do pensamento liberal inglês” (1) que eclodia na época. 

Nesse sentido, os postulados do liberalismo inglês serão os mesmos dos primeiros batistas como liberdade individual e separação entre Igreja e Estado.

Os batistas ingleses aparecem na história do cristianismo como um grupo que luta por liberdade religiosa e isso custa a vida de um de seus líderes, Thomas Helwys que se manifestou com o livro Uma breve declaração do mistério da iniquidade em 1612, “em que defendeu liberdade religiosa para todos, incluindo os católicos romanos” (2). 

Os batistas ingleses têm na sua gênese a diversidade que gera, naturalmente, divergências, mas mesmo assim convergiam em temas comuns e buscavam o diálogo, honrando assim o início do movimento batista. Aqui podem ser citados os batistas gerais e os batistas particulares, como exemplos. “Apesar da diferença quanto à teologia arminiana e calvinista, adotaram princípios e práticas semelhantes e se desenvolveram separadamente, até que em 1891 se uniram através da União Batista da Grã-Bretanha e Irlanda” (3).

A fim de sobreviver, os batistas buscam liberdade religiosa para todos e isso, concomitantemente, incluía as demais manifestações religiosas. Como consequência, os batistas procuram a unidade dos cristãos a fim de testemunhar o Cristo. É neste sentido que John Smyth se expressa em um texto produzido em 1612: “Estando profundamente contristados porque nós que seguimos uma fé, e um espírito, um Senhor, e um Deus, um corpo e um batismo, estamos divididos em tantas seitas e cismas: e isto apenas por assuntos de menor importância” (4).

Não por acaso que os batistas ingleses vêm “participando ativamente em várias organizações do movimento ecumênico” (5). Assim que o Conselho Mundial de Igrejas (CMI) foi organizado em 1948, os batistas ingleses têm sua participação tendo, inclusive, um batista como presidente do CMI, Ernest Payne (6).

Ainda em território inglês, ocorre o primeiro grande encontro dos batistas (1905) em Londres sobre os auspícios do batista inglês Howard Shakespeare. Desse congresso surge a Aliança Batista Mundial (sigla em inglês BWA) tendo como primeiro presidente o pastor londrino John Clifford (7).

A Aliança Batista Mundial vem procurando abrir diálogo com diferentes representações religiosas, não apenas o cristianismo, mas inclusive com este, principalmente com a Igreja Católica.

Em 2012 Timothy George (autor do livro muito conhecido por aqui, Teologia dos reformadores. São Paulo: Vida Nova, 2017), como presidente da Comissão de Doutrina e União Cristã da Aliança Batista Mundial, participou de um sínodo no Vaticano, e foi recebido pelo Papa Bento XVI.

Na recepção à delegação da BWA, Bento XVI se dirige aos batistas da seguinte maneira: “Dou-vos minhas cordiais boas-vindas, membros da comissão internacional patrocinada pela Aliança Batista Mundial e pelo Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos. Agrada-me que tenhais escolhido como lugar para vosso encontro esta cidade de Roma, onde os apóstolos Pedro e Paulo proclamaram o Evangelho e coroaram seu testemunho do Senhor ressuscitado derramando seu sangue. Espero que vossas conversas tragam abundantes frutos para o progresso do diálogo e o crescimento do entendimento e da cooperação entre católicos e batistas” (8).

A BWA tem protagonizado encontros e diálogos fraternos com os católicos, unindo esforços em questões comuns. A Aliança Batista Mundial congrega diferentes ramificações dos batistas e isso favorece o diálogo.

A Convenção Batista Brasileira (CBB) integra a BWA.

NOTAS
(1) AZEVEDO, Israel Belo de. A celebração do indivíduo: a formação do pensamento batista brasileiro. São Paulo: Vida Nova, 2004, p. 12. 
(2) OLIVEIRA, Zaqueu Moreira de. Um povo chamado batista: história e princípios. Recife: Kairós Editora, 2010, p. 56.
(3) OLIVEIRA, 2010, p. 58-59.
(4) OLIVEIRA, Zaqueu Moreira de. Liberdade e exclusivismo: ensaios sobre os batistas ingleses. Rio de Janeiro/Recife: Horizonal/STBNB, 1997, p. 129.
(5) OLIVEIRA, 1997, p. 154.
(6) OLIVEIRA, 1997, p. 155.
(7) OLIVEIRA, 1997, p. 139.
(8) DISCURSO DO PAPA BENTO XVI AOS MEMBROS DE UMA DELEGAÇÃO DA ALIANÇA BATISTA MUNDIAL. Disponível em: <https://w2.vatican.va/content/bened...>.

FOTOS
1 - Este ano o Conselho Mundial de Igrejas (CMI) completa 70 anos.
2 - Rev. Martin Luther King no CMI em 1967. Ele pregaria na Assembleia do CMI no ano seguinte, se não tivesse sido assassinado em 1968.
3 - Rev. Timothy George e o Papa Bento XVI no Vaticano. 
4 - Rev. Billy Graham e o Papa João Paulo II no Vaticano (1981).

22.2.18

BILLY GRAHAM: HOMEM DE DEUS, MAS TAMBÉM DA WHITE HOUSE

O universo evangélico recebeu a notícia do falecimento de Billy Graham (1918-2018) com um certo ufanismo e regozijo. Afinal de contas, ele já estava com 99 anos e havia quem esperasse que pudesse completar 100 anos, um século de vida. Uma marca indelével para um ser humano, com certeza. A mídia, quando noticiou a sua morte, fez questão de citar que ele atraiu multidões em seus sermões e esteve bem próximo dos presidentes norte-americanos, sendo, inclusive, por décadas, conselheiro de vários deles. 

Sem dúvida, Billy Graham, um pastor batista que ganhou status de celebridade religiosa em uma cruzada em 1949 na cidade de Los Angeles, se tornou um dos homens mais conhecidos do mundo. Há quem diga que ele logrou êxito e maior notoriedade na proclamação do Evangelho ao ponto de superar o Apóstolo Paulo, com as devidas proporções, obviamente. O sucesso das suas cruzadas só foi possível porque houve um apoio maciço da mídia, alcançando os meios de comunicação convencionais da época como rádio, televisão e jornais. Tudo isso graças aos empresários que viu no jovem loiro, alto e de olhos azuis o símbolo de uma América do Norte em exportação. Com esse sucesso, a sua proximidade com o poder político foi uma mera consequência conveniente. Assim, Billy Graham se configurou como um “homem de Deus”, alguém que, com a mensagem de Cristo, poderia entrar e sair de países comunistas, como fez, por exemplo, na então URSS e depois na Coréia do Norte.

Com uma oratória cativante e eloquente, Graham não apenas se destacou no cenário nacional, mas também mundial. Na guerra da Coréia, ele foi uma das principais figuras que ficou responsável pela implantação do conhecido american way of life no sul da península. Na Guerra Fria, o evangelista se tornou uma figura central para o governo norte-americano, principalmente na América Latina.

Qual o legado de Billy Graham para o protestantismo latino-americano?

Billy não era apenas um homem de Deus, como bem o conheciam e o chamavam, mas também um exímio observador e influenciador dos assuntos de governo da Casa Branca, portanto, um homem também da White House. Mesmo admitindo que o governo político não transformava o mundo, por conta da sua escatologia fatalista – ou seja, somente a iminente segunda vinda de Cristo poderia pôr fim às misérias e conflitos no mundo –, ainda assim Graham exerceu uma enorme influência nas políticas de Estado em países latino-americanos no auge da Guerra Fria, falando abertamente contra o comunismo num tempo em que o mundo se dividia em dois blocos.

Por meio da Associação Evangelística Billy Graham (AEBG), houve maciço apoio às igrejas que apoiavam governos militares na América Latina. Nos momentos cruciais dos regimes militares, que tinham como vocação purgar o temível “espírito comunista” na América Latina, não se importando se havia ou não Diretos Humanos, Graham estava lá com suas conferências de teor apenas evangelístico e não, necessariamente, político. Mesmo que isso fosse um fato, apenas a sua presença em um país sob o regime militar só conotava apoio norte-americano ao que estava em curso.

A América Latina estava entre os continentes que mais chamavam a atenção de Graham. Quando há uma convocação para o primeiro congresso mundial sobre evangelização em Berlim (1966), sob os auspícios da AEBG e a revista fundada por Graham, Christianity Today, houve uma resolução no congresso cujo teor era a implantação de congressos de evangelização na América Latina (1). Algo que foi recebido prontamente por lideranças do protestantismo latino-americano, por conta da herança e do histórico laço com o protestantismo estadunidense. Há, portanto, uma clara relação entre as campanhas evangelísticas e os governos militares na América Latina. Não por acaso que a Associação de Graham não levará adiante os ideais do Pacto de Lausanne, havendo um claro antagonismo de direção e teologia. Enquanto o Pacto impulsionou o que ficou conhecido na América Latina como Teologia da Missão Integral, Graham se moveu deliberadamente para esvaziar o discurso e a práxis de Lausanne. Principalmente quando ainda em Lausanne, René Padilla fez duras críticas ao imperialismo norte-americano.

No Brasil, os batistas “apoiam” o golpe civil-militar e orientam as igrejas por meio do “O Jornal Batista” – “Os acontecimentos políticos militares de 31 de Março e 1º de Abril que culminaram com o afastamento do presidente da República vieram, inegavelmente, desafogar a nação. Porque estávamos vivendo num clima pesado de provocações, de ameaças, de agitações, que nos roubavam o mínimo de tranquilidade necessária para poder trabalhar e progredir. Necessária inclusive para a pregação do Evangelho. Agora as coisas mudaram. Era tempo” (2). É nesse contexto que Graham aparece no Estádio do Maracanã em 1960 (Aliança Batista Mundial), no Pacaembu em 1962 e, novamente no Maracanã, em 1974. Em 1974 o Brasil estava sob o comando de um general de tradição luterana, Ernesto Geisel. A presença de Billy Graham acentua ainda mais o apoio norte-americano aos anos de repressão e as Igrejas Batistas se dedicam a campanha de evangelização “Jesus Cristo é a Única Esperança”.

A influência de Billy Graham na formação missionária e pastoral da América Latina protestante é inegável. Fruto de seu tempo e portador de uma teologia salvacionista (ganhar almas) e imbuído do “destino manifesto” – ou seja, a ideia de que os EUA é a nação que colocará o mundo em ordem –, Graham deixou um legado marcado por uma escatologia pré-milenista e fatalista; uma antropologia pessimista; uma visão política que emudece a voz profética.

Notas
(1) NETO, LONGUINI, Luiz. O novo rosto da missão: os movimentos ecumênico e evangelical no protestantismo latino-americano. Viçosa: Ultimato, 2002, p. 155-156.
(2) REILY, Ducan Alexander. História documental do protestantismo no Brasil. 3. ed. São Paulo: ASTE, p. 315 e 322.

14.2.18

SOMOS TODOS IRMÃOS...

Campanha da Fraternidade 2018 – Fraternidade e Superação da Violência

Nos últimos anos o país conheceu a brutalidade das facções que operam nas penitenciárias. Nas ruas a violência está gratuita e sistêmica e a mídia tem todos os dias notícias que relatam casos de famílias atingidas por ela, vitimando, cruelmente, crianças. Como se tudo isso não bastasse, nossa gente convive com a violência da corrupção do sistema político, o tipo de crime que mata silenciosamente quando priva crianças da merenda escolar e de melhores escolas; quando as pessoas convivem com o medo e a falta de segurança pública, onde seus agentes (policiais), não recebem adequadamente seus salários; quando os doentes precisam de hospitais, remédios e exames emergenciais e não há equipamentos disponíveis.

“Somos todos irmãos”, trecho do Evangelho de Mateus 23,8. Com esse texto, a Campanha frisa que a violência é sempre contra um semelhante, ou seja, é sempre contra o outro que é igual diante de Deus. Nessa busca por dirimir a violência, as igrejas podem contribuir e muito, uma vez que são portadoras da mensagem de esperança e paz. Nesse sentido, as igrejas não poderiam coadunar com qualquer justificativa de violência, quer de pessoas que nutrem um discurso assim, quer do Estado e seu aparato policial.

Importa refletir sobre a paz e meios para buscá-la na permanente tentativa de aplacar a violência.

Um caminho de paz abre um caminho para a justiça. Na tradição bíblica, a justiça está na pregação profética, onde há um Deus de justiça. É Paul Tillich quem aponta a justiça como um dos critérios para se julgar as expressões religiosas, principalmente o cristianismo. No cristianismo, Tillich nos lembra, que os homens são aceitos pela justiça praticada, e não necessariamente pela religião confessada (Mateus 25,31-45).

As igrejas, por tradição, nutrem uma força ética para promover/provocar mudanças que favoreçam uma cultura de paz. O Estado, há muito comprometido com o mercado, ignora a grande maioria das pessoas que lutam pela sobrevivência. As igrejas podem e devem contribuir, principalmente sendo a consciência do Estado, como alertara Martin Luther King – “A igreja... não é a senhora ou a serva do Estado, mas, antes, a sua consciência. Ela deve ser a orientadora e a crítica do Estado. E nunca sua ferramenta!”.

As igrejas não podem abrir mão da participação e atuação no atual contexto brasileiro. Estamos em um momento em que se conhece o drama da imigração de venezuelanos e haitianos; um tempo de intolerância religiosa, principalmente em relação às religiões afro-brasileiras; a brutalidade contra pessoas homoafetivas; a luta por igualdade de direitos da população negra. Diante de todos esses dilemas, é pueril pensar que o Estado tenha como principal meta encontrar soluções equitativas para esses dramas, até porque a justiça, na sua plena expressão, nunca foi o ponto forte do Estado. Em uma sociedade onde se dependa, exclusivamente, da justiça legal, acentua-se muito mais a sua desumanidade, principalmente quando há um sistema penitenciário onde a terceira maior população carcerária do mundo vive em condições sub-humanas. 

Não obstante a isso, a situação está ficando mais delicada ainda com um governo à serviço do capital neoliberal. Um governo que trabalhou, incansavelmente, para diminuir direitos dos trabalhadores com a sua Reforma Trabalhista. Isso não sendo suficiente, o atual governo quer continuar na sua missão de distanciar ainda mais aqueles que têm dinheiro daqueles que nada têm com uma Reforma da Previdência que atinge, em cheio, os menos favorecidos economicamente do país. Uma violência praticada por um Estado que não consegue fechar suas contas públicas por irresponsabilidade administrativa.

Diante disso, é preciso lembrar que o Deus bíblico se dá na prática da justiça e onde há injustiça, a sua ação é libertadora – “Deus também já está presente lá onde acontece a injustiça. Fazendo justiça aos que sofrem violência. O que é feito aos pobres e indefesos indiretamente é também feito a ele”, já dizia Jürgen Moltmann. Os profetas reivindicam justiça diante dos desmandos do Estado. Há uma luta intensa pelo direito dos despossuídos, desfavorecidos e marginalizados da sociedade. A justiça – como bem nos lembra Moltmann –, na perspectiva bíblica, se dá no direito, ou seja, “a justiça de Deus é, ao mesmo tempo, aquela que cria o direito, mas também traz justiça à vida injustiçada. Desta forma, é uma justiça criativa. Deus faz justiça a quem sofre violência e põe em ordem quem comete o mal”. Essa é a nossa esperança que nos impulsiona para uma práxis libertadora.

Caminhos de paz se faz por meio da justiça e justiça se estabelece na prática do direito equitativo. Que a Campanha da Fraternidade 2018 venha nos lembrar de que somos todos irmãos, portanto, devemos dar as mãos e enfrentar a violência sistêmica com amor e voz profética. 

8.12.17

NÃO FOI NO PALÁCIO DE HERODES

O evangelho de Mateus coloca na narrativa do Natal a figura do asqueroso político Herodes em diálogo com os viajantes do Oriente e os chefes dos sacerdotes.

O capítulo 2 de Mateus, usa como construção literária um recurso conhecido como midraxe – é a explicação de um texto bíblico feita livremente com alegorias, imagens, comparações e até mesmo fantasias. Mateus quer equiparar Jesus à Moisés e para isso ele, habilidosamente, constrói um texto em que Jesus e Moisés são semelhantes. Assim como o Faraó procurou matar crianças no Egito e Moisés é poupado milagrosamente, Herodes faz o mesmo; assim como Moisés vai para o Egito, Jesus tem o mesmo caminho; assim como Moisés sobe ao Monte Sinai e recebe os Dez Mandamentos, Jesus profere as dez (contando com o versículo 12) bem-aventuranças no monte.

No início do capítulo 2, Mateus coloca, propositadamente, a figura de Herodes, o Grande, em contraste com o menino rei Jesus – “nos dias do rei Herodes”. Há um conflito aqui entre dois reis que são distantes em propósito e diferentes em condições.

Herodes – este vivia os meandros da política. Estava acostumado com o jogo de poder. A sua busca era expandir sua riqueza e influência na conturbada região. Gabava-se de ser “amigo” do imperador romano e todos que eram contra ou representava alguma ameaça ao seu domínio ele procurava eliminar. Por conta disso matou os três filhos e a esposa. Herodes governava a partir de construções e embelezamento de cidades, inclusive foi financiador da reforma do templo de Jerusalém. Isso lhe rendeu adeptos e o colocou como protagonista diante da classe sacerdotal.

Herodes representa a inveja, o interesse próprio, o poder simplesmente por ter. Ele é o ícone da nossa sociedade em que as relações são estabelecidas pelo interesse, onde a troca é um elemento chave de relacionamento, desde o casamento até os presentes de fim de ano.

Quando os “magos” procuram um rei que não seja ele, prontamente ele quer encontrar o menino a fim de matá-lo. Mateus faz uma criança suplantar o notório e poderoso Herodes; ele faz uma flor parar um canhão; ele faz uma luz, ainda tão pequena, dissipar as densas trevas. A opulência do castelo de Herodes não foi suficiente diante da manjedoura. Há outro rei, exclama os “magos”, e este não é Herodes e mais, os presentes são para ele e não para o temível rei. 

A manjedoura quer dizer “Deus conosco”. Um Deus que veio nos mostrar que a ordem das coisas pode mudar. A manjedoura é sinal de simplicidade, amor, acolhimento, visitação. O palácio gélido de Herodes é sinal de poder, sem graça, de força, sem autoridade, de ostentação de uma sociedade que busca nas relações de poder e na riqueza o seu bem-estar.

O que significa o menino não nascer em um palácio?

Significa que não se pode coadunar com quem explora o seu povo com impostos abusivos; significa que não se deve aplaudir medidas governamentais que beneficiam os mais ricos; significa ainda, que o Deus menino preferiu um lugar qualquer, rodeado de gente considerada ralé, para dizer que é assim que Deus é! Como? Uma criança.

Ele não está no palácio de Herodes, muito menos no templo de Jerusalém. Do templo vieram quem sabia onde iria acontecer o milagre da vida: “É em Belém da Judéia, pois é isto que foi escrito pelo profeta”. Só souberam dizer isso, porque ver o menino não foi possível. Ele não está disponível para um sistema religioso que faz conluio com o poder estatal para vilipendiar ainda mais a fé do povo. Sacerdotes sabem dizer o que é para fazer e como fazer. Mais ainda, sacerdotes sabem muito bem aplicar a pena quando não se faz ou se faz errado. No templo? Nesse, com certeza, o menino não nasceria. Está maculado pelo espúrio. Ele abriga um feudo familiar que se perpetua no poder. Lá, tem um banco que cobra muito caro para fazer o câmbio de uma moeda romana. Nem palácio, nem templo. Manjedoura. Sem luxo, sem dinheiro, mas com amigos (“magos") e colo (Maria e José). Natal é isso. É Deus dizendo: acolham o menino. 

6.12.17

(IN)GOVERNABILIDADE DE DEUS

Imaginemos a crença em um deus que conduz bem a trajetória das pessoas.

Ele é, pois, o grande responsável por cuidar de todas as pessoas porque as amam. Depreende-se desse raciocínio que o cuidado decorre do amor desse deus que, não obstante ter criado tudo e todos, cuida, vigia e conduz a tudo e a todos. Para tanto, é dotado de onisciência (sabe tudo), de onipresença (está em todos os lugares), de onipotência (pode todas as coisas); agora, imaginemos, ainda, que na ordem do curso da vida existam catástrofes de grande impacto ou episódios nefastos e que as pessoas comumente atribuam à harmatiologia (ao pecado e à pecaminosidade tais situações), as consequências deletérias do problema do mal. Ora, nesse caso ou deus não resolveu o problema do pecado porque não pôde (então, sua onipotência é colocada em questão) ou não o resolveu porque não quis (e a sua amorosidade estaria em questão).

Por outro ângulo, decorrente dessa catástrofe hipotética, alguns crédulos oram assim: "deus, obrigado porque tu me livraste [...]" e outros lamentam: "ah, deus... por que tu não me livraste?". Tem-se, então, uma aporia (uma questão de difícil resolução na ordem e no estado de coisas de uma teologia incômoda), posto que se deus interfere na história (teoria da providência anterior ao século XVIII), se deus é bom e amoroso (representações do deus monoteísta ou não), e, ao mesmo tempo, não interferiu nas minhas questões vitais sabendo de todas elas - que mexem com destino de crianças, idosos, dependentes, entre outros, coloca-se em xeque ou é colocado em xeque por seus seguidores. Eis o grande dano da doutrina da "soberania de deus".

Do ponto de vista da teologia de Calvino, engendra-se um problema moral para deus (que deus não se atribui a si próprio): ele é soberano e governa a história - além de ser "predestinista" e escolhe pessoas para morar no que idealmente chama-se céu. Portanto está comprometido com os destinos e os cursos dos acontecimentos e, ao invés de julgar, é julgado por aqueles que sofrem o tempo: que emitem ações sobre suas ações ou omissões.


Não é possível, porém, acreditar em um deus assim - sensível na governabilidade e entronizado para desentronizar pessoas. Porque existe uma outra estética e certa autonomia de vida, o centro da história é o ser humano e é ele quem toma decisões segundo a imprevisibilidade de suas ações: se entra em um avião com problemas nas turbinas, as suas limitações e os seus desconhecimentos poderão matá-lo sem que se envolva um deus soberano sentado no trono que a tudo sabe. Deus não se interessaria por turbinas de aviões. 

Se deus é a "projeção das angústias humanas", ele não existe de outra forma: está existencialmente relacionado ao sistema de angústias de seres humanos indecisos, inquietos, mortais, finitos. Quem faz a história, conduz a história e comanda a história são os seres humanos tais que - regidos por relações de poder - se apresentam a ela segundo o curso da ordem, dos acontecimentos, das ocorrências. 

Nesse sentido, orar, rezar e espiritualizar são artefatos ou urdiduras oralizadas ou não que mexem, que abalam, que moldam, que perfazem os caminhos da subjetividade do próprio crédulo. Só.

Mas, isso resulta em uma dimensão ético-afetiva dos caminhos de deus e do comportamento do ser humano diante da Estética que ilumina a vida. Eis o porquê do sentimento religioso e de sua historicidade.

- Leandro Seawright (Doutor em História Social pela USP)

31.10.17

ERASMO E LUTERO, OU DE COMO AS COISAS SAÍRAM DO CONTROLE

Num primeiro momento, Lutero questiona o domicílio da verdade na Igreja. Isso ele faz quando escreve o Manifesto à nobreza alemã e A igreja no cativeiro da Babilônia. Nesses textos, Lutero passa de um crítico da Igreja para um questionador da regra de fé da Igreja, ou seja, ele estabelece um novo critério religioso que, agora, não passa mais pela Igreja e seus concílios que, segundo Lutero, continham erros, porque eram feitos por homens. É nesse momento que o monge agostiniano passa de questionador para um líder reformador. Não por acaso que Johann Eck fica escandalizado com Lutero quando este nega a autoridade do Papa e da Igreja em assuntos religiosos. Dar-se um rompimento em torno do que se concebia como verdade quando Lutero muda o eixo, da Igreja para o crente: “Todos os cristãos têm a capacidade de discernir e de julgar o que é certo ou errado em questões de fé”. Agora são as Escrituras o critério de verdade, superando o Papa em sua autoridade.

Para Lutero a liberdade está condicionada à consciência, sendo a consciência condicionada às Escrituras. Eis o novo critério de verdade. Como bem pontua Richard Popkin, “a caixa de Pandora aberta por Lutero em Leipzig viria a ter consequências extremamente amplas não só na teologia, mas em todos os domínios intelectuais do ser humano”. Uma vez aberta a possibilidade de lidar com o novo, ou seja, haver outros critérios para a verdade, busca-se o verdadeiro critério. Se por um lado a Igreja acusava a consciência de não ser confiável, portanto haveria de ter um elemento discernidor, nesse caso a Igreja, para dar orientação; por outro lado Lutero insistia que o elemento discernidor não seria (não poderia) ser a Igreja, mas o crente. Não sem razão, que “um dos argumentos apresentados pelos católicos ao longo de toda a Reforma foi que o critério de Lutero levaria à anarquia religiosa” (Richard Popkin). A mudança de critério para a verdade levou à pluralidade, principalmente quando “qualquer um poderia recorrer à sua própria consciência e manter que o que lhe parecia a verdade era verdade”. Lutero chegou a ver o surgimento da pluralidade quando, por exemplo, os Anabatistas acirram ainda mais os postulados da Reforma. A mudança de critério, ocasionou uma diversidade religiosa na Europa, levando reformistas a condenar como heréticos aqueles que, no uso de suas consciências, promoveram movimentos a partir de outros critérios de verdade, como o acesso à terra, como foi o caso dos camponeses liderados por Thomas Müntzer, por exemplo.

Para Lutero o critério de verdade se dá na Bíblia. Como fonte da verdade e critério último, até porque era preciso apresentar um, a Bíblia é o único recurso de Lutero diante da Igreja. A premissa era: “Tudo o que nós sabemos de Deus e da relação homem-Deus nos é dito pelo próprio Deus na Escritura. Esta, portanto, deve ser entendida com rigor absoluto, sem interferência de raciocínios e glosas metafísico-teológicas”. Colocar na Bíblia o critério de verdade abre a possibilidade de interpretações. Essas interpretações, dentro da própria Bíblia, se constitui plural.

Quando Lutero se viu diante dessa pluralidade de perspectivas e interpretações com o, agora, único critério de verdade, “pouco a pouco foi se tornando dogmático e intransigente, pretendendo, em certo sentido, estar dotado daquela ‘infalibilidade’ que contestara o Papa”. Lutero viu a pluralidade e não gostou do que viu. Erasmo tinha alertado Lutero quanto a obscuridade de trechos das Escrituras, e que por isso, era preciso contar com a sabedoria da Igreja (tradição) para orientar. Já Lutero, insistia de que “para encontrar as verdades basta consultar as Escrituras”. O livre exame, do qual Foucault atribuiu o surgimento do pensamento crítico, não funcionou do jeito que Lutero poderia ter imaginado, principalmente quando o meio para se conhecer a verdade contida nas Escrituras foi colocado sob responsabilidade do Espírito Santo. Ingenuidade ou não, para Lutero o Espírito Santo não permitiria a dúvida e a incerteza. A terceira pessoa da Trindade não colocaria “em nossos corações opiniões incertas, mas sim afirmações da maior firmeza” (Lutero).

Ao que parece, Lutero não confiou tanto assim na figura do Espírito Santo quando viu que um dos principais postulados da Reforma, a liberdade da fé, se tornou em algo que ele não pôde controlar. Seria por essa razão que Lutero induziu os Príncipes que controlassem a vida religiosa do povo, “chegando até a exortá-los a ameaçar e punir todos aqueles que desleixavam as práticas religiosas”? Para quem proclamou uma emancipação diante de um sistema opressor que instrumentalizava as indulgências como discurso político castrador da autonomia do humano, Lutero não foi diferente quando passou aos Príncipes a tutela espiritual do povo como patrimônio político destes, surgindo, então, a união entre Igreja e Estado na Alemanha.

Como um pêndulo, Lutero poderia não ter se dado conta (ou se deu e foi tarde demais para revogar) que os principais pressupostos da Reforma abriria outros pressupostos e desses não se teria mais o controle, mesmo que tentasse. Mas Erasmo o alertou...

Referências
POPKIN, Richard. História do ceticismo: de Erasmo a Spinoza. Rio de Janeiro: Francisco
Alves, 2000, p. 26-33.
REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia: do humanismo a Descartes. 2. ed. São Paulo: Paulus, 2005, v. 3, p. 69-74.
ROUANET, Sergio Paulo. As razões do Iluminismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 284-285.