30.4.20

NOTA DE REPUDIO DOS PROFETAS DO ANTIGO TESTAMENTO AO SR. MINISTRO DA JUSTIÇA

Excelentíssimo senhor, agora Ministro da Justiça, André Mendonça, nós, profetas que atuamos fielmente e com compromisso com Deus no Antigo Testamento, viemos, por meio desta nota, REPUDIAR VEEMENTEMENTE o seu uso indevido de nosso título.
No dia 29 de Abril de 2020, em ato que celebrava a sua posse como Ministro da Justiça, o senhor se referiu ao presidente Jair Bolsonaro como “um profeta no combate à criminalidade”. Pois saiba que nunca recebemos maior insulto. E denunciamos porque: 
Nosso irmão mais velho, Samuel, chamou atenção no capítulo 8 do seu primeiro livro, como Deus desaprova o governante que não faz outra coisa senão explorar seu povo, despreza sua vida e tem a cabeça na guerra. Pois nós sabemos que Bolsonaro é um homem que não pensa em outra coisa senão em armas, violência, militarização e elogia torturadores.
Nosso irmão Elias foi ameaçado de morte e perseguido, por denunciar os abusos e a agressividade do governos de Acabe e Jezabel. Nós sabemos como Bolsonaro persegue e agride opositores, principalmente jornalistas. Você vê algum ato profético nisso?
A Covid-19 ultrapassou os cinco mil mortos, e Bolsonaro se limitou a dizer apenas “E daí?”, além de colocar a vida de tantas pessoas em risco com suas exposições e zombando da quarentena e do poder letal do vírus. Lembramos do nosso irmão Jeremias, que diante de um contexto de morte e desamparo, se solidarizou e constrangeu a ponto de publicar um livro só sobre suas lamentações e dor, sua dor e a dor do povo.
Nosso irmão Isaías, no capítulo 5 do seu livro, é poderosamente usado por Deus para denunciar latifundiários, poderosos donos de terras, acumuladores de terras. Bolsonaro é um aliado do latifúndio, de garimpeiros que desrespeitam terras indígenas, de fazendeiros que planejam a morte de camponeses. O jejum é a justiça, é libertar o cativo, é acolher desabrigados e amparar desamparados.
Aliás, através de nosso irmão Isaías, Deus foi taxativo sobre o jejum que lhe agrada, e ele não tem nada a ver com o jejum interesseiro e anti-bíblico que Bolsonaro e Marco Feliciano convocaram.
Por fim, lembramos nosso irmão Amós, e ele estava certo quando disse que “não sabem agir com justiça aqueles que amontoam opressão e violência em seus palácios”. É exatamente isto que Bolsonaro e seus filhos tem feito, com este núcleo que, fica cada vez mais evidente, age como um gabinete do ódio. Um grupo que homenageia homens violentos, torturadores, policiais comprovadamente envolvidos com milícias que assassinam e extorquem os pobres do povo do Deus.
Por tudo isto, nós, PROFETAS DO ANTIGO TESTAMENTO, exigimos que o agora ministro se retrate deste vergonhoso pronunciamento. Declaramos: Bolsonaro não é profeta, ele não tem honra, caráter e compromisso com a justiça de Deus para ser um. Conosco está Martin Luther King, Doroth Stang, Chico Mendes, Abdias do Nascimento, Cornel West, Mãe Beata, Zilda Arns, Oscar Romero, Nelson Mandela, Marielle Franco. Entende a diferença? Para nós, Bolsonaro, seus filhos e os pastores que o seguem são ladrões, víboras e traidores do chamado de Deus à justiça. Assim diz o Senhor. Sem mais.
Assinam: Samuel; Elias; Eliseu; Natan; Isaías; Jeremias; Ezequiel; Daniel; Joel; Amós; Miquéias; Naum; Habacuque; Sofonias; Zacarias; Malaquias.

* Texto escrito por Ronilso Pacheco*
(Disponível: https://www.facebook.com/ronilso.pacheco/posts/2905554896226531

7.4.20

BATEU A SAUDADE DA COMUNIDADE DE FÉ

E aqui estamos, surpreendidos por um vírus altamente contagioso e agressivo que segue nos impedindo de abraçar quem amamos e de estar perto de quem partilhamos a fé em comunidade.

Pois é, agora a comunhão na comunidade de fé está fazendo uma falta danada.

Inúmeros irmãos me escrevem sobre a falta que está sentido da igreja reunida no templo para o louvor e adoração e escuta da Palavra.

Recentemente gravei um vídeo do templo vazio e alguém me escreveu: “Pastor, que tristeza ver esses bancos vazios”. Respondi que em breve estaríamos juntos como comunidade, essa é a nossa expectativa.

Mas esse momento também provoca reflexão.

Estou colhendo testemunhos de pessoas que só agora se deram conta da falta que a comunidade está fazendo na sua vida, mesmo reconhecendo que não é tão assíduo na comunidade e que não participa com certa frequência de encontros com os demais irmãos. Essas pessoas estão revendo seus caminhos.

Mas agora bateu a saudade...

Saudade daquela conversa antes de iniciar os cultos. Aquele momento de bater um papo sobre a semana. E claro, a brincadeira sobre o time do coração, tão presente nas rodas de conversa entre os homens.

Saudade do abraço. Sim, o abraço que faz toda a diferença na semana. Aquele carinhoso e confortante abraço que apenas com esse gesto diz sem dizer: “Como é bom vê-lo/a novamente aqui”.

E a saudade do culto. Essa saudade é que mais aperta o coração. É o momento ímpar de congregar que muitos valorizam como uma atividade imprescindível durante a sua semana. É o momento de congregar como corpo de Cristo e presenciar a ação do Espírito Santo falando à comunidade de fé.

Com a saudade batendo, só se espera estar juntos novamente. E não importa se está frio ou calor, isso não vem ao caso. Não importa se é o pastor ou outro irmão que irá trazer o sermão, o que importa é ouvir. Não importa se está só o violão, ou a banda completa, o que se quer é louvar juntos ao Senhor.

É nesse tempo também que algumas pessoas se pegam pensando: “Quantas vezes tive a oportunidade de estar com os irmãos, mas preferi ficar no sofá de casa vendo minha televisão”. Porque agora o que importa mesmo é a saudade de querer estar, porque sabe que não pode estar.

Por saber que a igreja são as pessoas e não o templo, é que sentimos saudade.
  
Em meio a saudade, nasce a esperança de que logo essa saudade será compensada com a comunidade reunida novamente. Afinal de contas, como bem disse um poeta, “a saudade é o bolso onde a alma guarda aquilo que ela provou e aprovou. Aprovadas foram as experiências que deram alegria”. E como na comunidade que sou pastor há alegria e comunhão, é mais que natural as ovelhas/amigos sentirem saudade. Eu já estou com muita saudade, por isso digo: não vejo a hora de estar com os meus irmãos.

1.4.20

O VÍRUS QUE ATIGE O PLANETA DEU UMA TRÉGUA

É de se lamentar as mortes que o novo coronavírus tem causado com a doença conhecida pelo mundo como COVID-19. Famílias não podem ao menos velar seus mortos. O processo de luto, que é fundamental no momento de dor, não é possível pelo altíssimo grau de transmissibilidade do vírus. Além disso, a sociedade brasileira precisa lidar com a tal “segunda onda”, segundo os especialistas em Economia. Aquela onda gigante que engole empresas, empregos, salários e não respeita classe social, cor da pele ou gênero. Aliás, alguém da OMS lembrou que o coronavírus não tem preferência por pessoas, atinge tanto ricos como pobres. Indubitavelmente os pobres são os que mais sofrem com uma pandemia dessa magnitude.

Ainda que o foco das autoridades de saúde esteja totalmente voltado para a preservação das vidas e setores da economia, por outro lado, esteja fazendo os seus cálculos para saber quanto perde e quanto ganha, tabelando quem paga mais a conta e quem ainda pode lucrar com a tragédia, há algo que não está sendo dito porque também não vem ao caso: o alívio que o planeta Terra vem tendo durante esses meses de isolamento social.

Quem vem suportando há muito tempo um vírus que tem uma capacidade impressionante de letalidade é a Terra. Desde que esse vírus se desenvolveu com seus efeitos predatórios, o planeta não vem tendo tanta oportunidade de respirar como tem tido nesses primeiros meses de 2020. Esse vírus tem tentáculos por todos os lados do planeta e funciona como um parasita que há séculos vem sugando as riquezas naturais como também seus recursos fósseis.

Com o COVID-19, o planeta se viu mais limpo, respirando melhor. Algo que não fazia há muito tempo. O vírus que o atinge está em confinamento e por isso ele se viu mais leve, por enquanto.

Por conta do novo coronavírus, a China fechou suas fábricas e lojas. Com restrições de viagens e o menor descolamento possível, a China viu diminuir drasticamente o consumo de combustíveis fósseis no país. Esse processo produziu uma queda de pelo menos 25% na emissões de dióxido de carbono (CO₂) na China, segundo cálculos de Lauri Myllyvirta, do Centro de Pesquisa em Energia e Ar Limpo, com sede nos Estados Unidos. “A demanda por eletricidade e produção industrial (da China) permanece bem abaixo dos níveis normais, segundo vários indicadores”, disse Myllyvirta em uma análise publicada no portal especializado Carbon Brief, no fim de Fevereiro. “É provável que isso tenha eliminado um quarto ou mais das emissões de CO₂ do país nas duas semanas seguintes ao feriado do Ano Novo chinês”, completa o especialista. O mesmo deve ocorrer agora nos EUA com o isolamento social do país até o final de Abril.

Outro país atingido de maneira violenta pelo COVID-19 foi a Itália. Imagens de satélite que conseguem calcular a incidência de dióxido de nitrogênio, substância formada a partir da combustão, mostram que após um mês de quarentena, os índices de poluição caíram de forma impressionante em toda Itália e, em especial, na região da Lombardia, onde a crise começou.

As ruas estão vazias. Os carros, na sua grande maioria, estão parados. São Paulo não registrou nenhum engarrafamento. Um fato histórico!

O consumo diminuiu e assim diminuiu significativamente o descarte indevido do lixo. Logo, os oceanos e os rios agradecem por não receberem toneladas de plásticos e outros derivados, resultado do alto nível de consumismo. Nos rios de Veneza (Itália), por exemplo, os peixes voltaram a serem vistos. O que não ocorriam há muitos anos porque a poluição da água não permitia visibilidade.

Houve um filósofo que estudou por muito tempo os impactos do capitalismo no mundo (esse vírus propagado pelo bicho “Homem”) e ele dizia que o modo de produção capitalista acabaria destruindo as próprias fontes de sua riqueza: o ser humano e a natureza. O COVID-19 está demonstrando que a humanidade pode ser melhor e o vírus que a infecta há muitos anos, pode ter uma vacina: o cuidado para com o planeta. Caso essa vacina não seja tomada por uma parcela significativa dos seres humanos, o planeta pode querer expulsar a humanidade porque só assim conseguirá expurga esse vírus maléfico. E isso pode acontecer de maneira silenciosa.

27.1.20

CARTA DE GOIÂNIA - CONVENÇÃO BATISTA BRASILEIRA

Nota: Esta carta não foi aprovada pela 100a Assembleia da CBB. A mesma não passou, pela maioria dos votos, voltando para ser analisada e modificada, pois seu teor foi considerado de "esquerda". Que se registre na história dos batistas brasileiros essa face obscura, mas não sem tensão. Isso demonstra o "espírito" do ser batista e a força dos seus Princípios. 

A Convenção Batista Brasileira, reunida em sua 100a. Assembleia na cidade de Goiânia/GO, dirige-se a sociedade brasileira num clamor pela paz, diante dos seguintes desafios:

1) JUSTIÇA:
Reconhece com preocupação que o fosso da desigualdade social tem sido ampliado em todo mundo, inclusive no Brasil, fazendo que poucos tenham muito e muitos tenham pouco; (Jr 22.13)
Lamenta que por conta dessa desigualdade nossos semelhantes sejam expostos às situações de vulnerabilidade, impingindo dor, tristeza e desesperança especialmente às crianças e idosos. Lamentamos também a situação de miséria e injustiça a que são submetidos os refugiados em todo o mundo (Dt. 10.17-18; Dt. 24.17).
Reprova por conta disso toda tentativa de desmonte do aparato social que ainda protege os que não tem vez e voz, (Pv. 19.17, Pv. 14.31),bem como rejeita o impingir ao pobre a responsabilidade pelos mais diferentes desafios brasileiros;
Conclama os batistas brasileiros a buscarmos a paz social, através da diminuição da desigualdade social (Lc 14.12,13; Sl 85.10).
Encorajaa todos os brasileiros a amarem a Justiça, (Is. 61. 8 ), exercerem o compartilhamento e a misericórdia, (1Jo 3.17,18), a investirem seus recursos em iniciativas que apoiem pessoas que nada tem. Estimula ainda todo o combate à corrupção e a sonegação, que são endêmicas nesse país (Mt. 22:21; Rm 13.5-7).

2) VIOLÊNCIA:
Reconhece, com pesar e preocupação, o aumento das notificações de violência contra mulheres (feminicídios) e contra as crianças (Tg. 1.27;).
Reconhece em contrapartida a diminuição dos casos de homicídio.
Lamenta que ainda hoje mulheres e crianças tenham sua integridade emocional e física aviltadas (Jr. 22.3). Não é por outro motivo que lembramos, consternados, que o Brasil entrou na rota dos atentados em escolas, como aconteceu no Rio de Janeiro, Goiânia e Suzano (SP). Lamentamos que diante de tantas tragédias, queiram facilitar a posse e o porte de armas nesse país (Pv. 20.22; Sl 37.11).
Reprova toda e qualquer forma de vilipêndio à dignidade humana, especialmente no tocante às mulheres e as crianças, bem como a toda polarização e hostilidade que venham a ser alimentadas no seio familiar.
Conclama a sociedade brasileira a preservar a vida e dignidade de nossas crianças como investimento, legado no futuro de paz;
Encoraja que sejam amplamentes divulgados todos os programas do Governo e do Terceiro Setor que promovam a vida, a paz e a segurança para as mulheres e crianças.

3) FAMÍLIA:
Reconhece o estrago feito pela polarização política no seio de muitos lares, igrejas, gerando rancor em lugar de congraçamento (Hb 12.14);
Lamenta que tal hostilização impeça o caminhar fraterno e amigo, a vivência da paz nas relações pessoais;
Reprova o uso de informações falsas, mentiras, que buscam disseminar ainda mais a discórdia e a dissensão (Ex. 23.1; Tg. 4.11);
Conclama a sociedade brasileira para que volte a enxergar o lar como um lugar de diálogo, de harmonia, de benquerença mútua e de respeito, como lugar de refúgio e paz;
Encoraja a todos para que nos esforcemos na manutenção da família, tal qual preconizada nas Escrituras Sagradas, (Gn. 2.24; Mc. 10.6-9), na promoção da unidade e da paz sobre todas as relações. (I Pd 3.11).

4) TOLERÂNCIA:
Reconhece com indisfarçável e desconfortável surpresa, o aumento da intolerância.
Lamenta que esse clima de intolerância tenha invadido o campo religioso, contaminado as relações étnicas, polarizado o universo político e tornado impossível, para muitos, a convivência numa mesma comunidade de fé (I Pd. 2.17; Cl. 3.13; At.10.34);
Reprova toda e qualquer ameaça às relações interpessoais e fraternais pelo desrespeito com o diferente, com a alteridade, com o pensamento discrepante, bem como toda e qualquer ilação com os valores ou com o discurso presente nas ideologias extremistas.
Conclama a todos e todas a valorizar os princípios batistas, pilares constitutivos da modernidade, dentre eles a liberdade nas suas três formas: de consciência, de expressão e de culto (religião) (Jo. 8. 31-32; II Co. 3.17; Gl. 5.13),
Encoraja todos e especialmente os batistas brasileiros que prezem pela liberdade, que celebrem a alteridade e que construam na diversidade e até mesmo na dialética, a unidade, a paz, promovendo um clima de tolerância ao diferente.

5) VIDA:
Reconhece o clima perigoso e beligerante no qual o mundo adentrou, com o acirramento das tensões, provocações e incitamento à guerra;
Lamenta que a vida e a paz não esteja ameaçada somente pela guerra iminente, mas sobretudo pelo menosprezo com o meio-ambiente o que pode ser exemplificado com as florestas em chamas, e visualizado na fumaça australiana que deu a volta no globo terrestre.
Reprova toda falta de esforço dos líderes mundiais no cuidado do meio ambiente, bem como toda tentativa de culpabilizar o mais pobre pelos males ambientais;
Conclama os governos deste mundo a promoverem e apoiarem programas marcados pelo compromisso com a sustentabilidade e pela defesa da paz;
Encoraja a sociedade a promover a paz (Mt. 5.9; Rm. 14.9; Sl 122.6-7) e a valorizar a vida, na compreensão de que a preservação desse mundo criado, como ato de mordomia a Deus, é o que cabe a cada um de nós para a nossa existência (Rm 8.19-23).

Goiânia, 26 de janeiro de 2020 

A comissão:
Relator - Guilherme de Amorim Avilla Gimenez (SP)
Klaus Peter Friese (SC)
Nilson Gomes Godoy (FL)
Rosane Andrade Torquato (PR)
Sergio Gonçalves Dusilek (CA)

23.10.19

PREVISÕES QUE SE CONFIRMARAM, MESMO NÃO SENDO VIDENTE

Era um jantar na casa de um amigo. O ano era 2018 e o mês Setembro. Ano eleitoral.

Claro, o nosso assunto foi a política e as eleições para presidente.

Estávamos tendo uma conversa agradável e bem equilibrada, pautada em situações reais e factíveis, ou seja, o meu interlocutor não era partidário de teorias conspiratórias e muito menos entorpecido pela “ameaça comunista” no país. Era uma pessoa instruída, com formação superior e fazia parte de uma igreja.

Chegamos, entre uma garfada aqui e um pouco de vinho ali, no tema “eleição de Jair Bolsonaro”. Até aquele momento o nosso diálogo estava afinado em diversos temas, menos nesse: Bolsonaro presidente do Brasil.

Como acabara de conhecê-lo, até aquele dia não o tinha visto em nenhuma ocasião, procurei ser ponderado e ouvir sua argumentação a favor da eleição de JB.

Para ele, JB tinha qualificações para ser presidente do país, para mim ele não tinha (e continua não tendo) nenhuma qualificação para ser presidente do maior país da América Latina. Ainda assim, procurei entender as suas considerações.

Os seus argumentos a favor de uma eleição de JB foram, em resumo:

(1) Ele é contra o sistema político que está aí, ou seja, ele é a “nova política”;
(2) Ele não irá querer a reeleição, sabe que tem uma missão apenas;
(3) Ele é contra a corrupção, não tem nenhum escândalo que envolve o seu nome;
(4) O país vai voltar a crescer com ele, a classe média o apoia.

Esses foram os principais pontos que uma pessoa instruída, evangélica e de classe média conseguiu formular para dar legitimidade ao seu voto em JB.

No primeiro momento não julguei o seu caráter e muito menos a sua capacidade cognitiva, antes entendi que estava diante de um “cidadão de bem” que gostaria de ver o seu país melhor e, no seu entender, quem iria fazer o país “melhor” seria JB quando chegasse ao poder, uma vez que ele estava fora do establishment do sistema político-econômico, ou seja, alguém de fora que viria “salvar”.

Claro que discordei de todos os seus argumentos e, não querendo ser uma “Mãe Dináh”, disse o que aconteceria.

(1) Ele não é contra o sistema político, pelo contrário, ele é um beneficiário do sistema. Não pode alguém ser contra um sistema político que o permitiu ficar quase 30 anos na Câmara dos Deputados, e ainda eleger todos os filhos no Poder Legislativo. Portanto, a tal “nova política” não cola! Isso é tentar surfar em uma onda contrária ao establishment, mas na realidade quer mesmo é fazer uso do sistema para se beneficiar.

(2) Lembro-me como se fosse hoje. Disse para o meu interlocutor que quando o JB chegasse ao poder a primeira coisa que iria fazer é trabalhar para ser reeleito em 2022. Ele riu. Eu disse: “Você é muito inocente ou não conhece nada de política brasileira”.

(3) Ele não é contra a corrupção, ele apenas não foi envolvido em um grande esquema de corrupção (Mensalão, Petrolão). O meu interlocutor estava pensando no PT e os recorrentes escândalos envolvendo políticos e empresários. Lembrei que o candidato do PSL tinha envolvimento com as milícias do Rio de Janeiro e um dos seus filhos já havia homenageado milicianos na ALERJ.

(4) Neste item disse que o único que tinha proposta, ainda assim muito malvada, para o país no campo econômico era o então futuro ministro da economia num eventual governo Bolsonaro, que atende pelo nome de Paulo Guedes. No mais, JB não tinha nenhum projeto para o país. O seu horizonte não contemplava nenhuma proposta para os menos favorecidos do país.

Ainda na nossa conversa, disse que não tinha dúvida de que JB seria presidente. O meu interlocutor se espantou com essa afirmação depois que procurei rebater seus argumentos. Disse que ele seria presidente porque pessoas como ele (o meu interlocutor) estavam convencidas (com a ajuda das fake news) que ele seria a melhor “opção”, quando havia outras opções para aqueles que não gostariam de ver o PT novamente no poder.

Com isso, as minhas previsões colocadas naquela conversa em Setembro de 2018 se confirmaram, não porque há um dom de previsão, antes porque política no Brasil é assim: muda-se as peças, mas o tabuleiro continua o mesmo. Quem começou a ter interesse em política a partir de 2017-2018, não conseguiu ver as manobras políticas e seus personagens que fazem o jogo ser jogado.

Assim, a tal “nova política” não deu tão certo. Hoje os principais articuladores do governo no Congresso são do MDB, o partido que entra governo e sai governo e continua no governo, independentemente de qualquer governo, direita ou esquerda.

O presidente mais mal avaliado nos últimos anos quer disputar 2022 e não se cansa de dizer que deixará o cargo em 2026. Arrogância misturada com populismo de extrema-direita que conseguiu fatiar 30% do eleitorado brasileiro. Até quando irá manter isso? Não sabemos.

Ainda que o país tenha sérios problemas com a corrupção, o governo de JB, em poucos meses, conseguiu desmontar os principais mecanismos de combate à corrupção como o COAF. O seu filho, Flávio Bolsonaro, senador pelo Rio de Janeiro e envolvido com o caso “Queiroz”, foi beneficiado pelo presidente do STF quando suspendeu investigações envolvendo repasse de dinheiro detectadas por órgãos de controle e investigação. Hoje, até mesmo a OCDE questiona o Brasil quanto às suas ações de combate à corrupção, apontando que o país, com essas e outras medidas, tem afrouxado o combate ao crime organizado. A mesma OCDE que o governo quer fazer parte, mas foi deixado de lado pelo amoroso Donald Trump.

Por fim, e não menos pior, a economia do país patina. A promessa é de que a reforma da Previdência ajude o país a crescer, mas tudo indica que isso não será bem assim. A reforma tira direitos e coloca milhões de brasileiros na informalidade.

Estamos diante de um governo que não sabe governar e ainda quer continuar. Retrógrado. Vingativo. Autoritário. Fanfarrão (crise do PSL). Incompetente.

Gostaria de estar errado em Setembro de 2018.  

8.6.19

PASTOR, DE DIREITA OU DE ESQUERDA? (POR OCASIÃO DO DIA DO PASTOR)

Em tempos de extrema polarização política no país, alguns colegas de ministério compartilham que pessoas os questionam se eles são de “direita” ou de “esquerda”, principalmente depois de um sermão ou uma conversa no salão social da comunidade.

É claro que a grande maioria daqueles que fazem a pergunta, desconhecem o uso político dos termos “esquerda” e “direita”. Quando perguntados o porquê dessa referência aos dois distintos aspectos da política, muitos não sabem responder. Ignoram o uso dos termos que tem a sua origem na Revolução Francesa, de 1789, quando os liberais girondinos e os extremistas jacobinos sentaram-se respectivamente à direita e à esquerda no salão da Assembleia Nacional. Os direitistas pregavam uma revolução liberal, a abolição dos privilégios da nobreza e estabeleceram o direito de igualdade perante a lei. Os esquerdistas também defendiam o fim dos privilégios para a nobreza e o clero, mas eram favoráveis a um regime centralizador (Estado). Daí decorre toda uma discussão política que tem, naturalmente, diferentes intérpretes e os conceitos “direita” e “esquerda” foi sofrendo ênfases distintas.

Ocorre que em relação aos pastores, a pergunta se é de “direita” ou de “esquerda” está associada ao atual momento do país de profunda polarização política. Esse processo foi intensificado quando no impeachment de Dilma Rousseff em 2016, passando pelas Eleições 2018, elegendo assim um candidato considerado de “extrema-direita”. A pergunta, portanto, vem enviesada de outras questões que envolve a defesa ou não de políticos considerados corruptos pelos sistema judiciário ou se, por tabela, apoia de maneira restrita o atual governo. Assim, antes de serem pastores, no seu sentido lato, o posicionamento político, se de “direita” ou de “esquerda”, conta e muito, num primeiro momento, para algumas pessoas em relação aos pastores.

É dentro desse contexto de convulsão quanto aos termos “direita” ou “esquerda”, e a ineficiência quanto ao real sentido político que esses dois aspectos representam, que os pastores estão inseridos. Parece ser um consenso que esses dois termos se transformaram em outra coisa, não mais conceitos restritos ao campo da civilidade do debate político, antes são dois conceitos contaminados pela desinformação e alimentados por inúmeras idiossincrasias, usados para rotular as pessoas e sua conduta ética.

Já ouvi o relato de um pastor que teve o seu sermão interrompido porque falava sobre a caminhada de Jesus com os pobres do seu tempo. Sim, a pessoa se levantou e disse que aquilo que ele estava falando era “coisa da esquerda”. Não apenas isso, já soube de colegas que foram chamados pela liderança da sua igreja porque, em algum momento, no seu sermão, a liderança entendeu que seu posicionamento político não estava muito claro e que ele deveria se posicionar de maneira mais contundente à “direita”. O referido pastor respeitou o púlpito da sua igreja e, ainda assim, foi cobrado pela liderança que entendia que ele deveria tomar uma posição mais clara quanto à tenência política daquela igreja. Soube também de um colega que foi chamado por um líder da sua região para conversar sobre suas postagens em redes sociais que tenderia para a “esquerda”. Por incrível que pareça, já existem igrejas que estão investigando as redes sociais de futuros candidatos ao ministério pastoral da igreja. Dependendo do que o pastor posta no Facebook, Instagram ou no Twitter, o seu nome é considerado ou não. Não se observa tanto a vida do pastor e seu perfil de ministério, sua formação teológica e ética, mas sim o seu posicionamento político, se de “direita” ou de “esquerda”. Nesse sentido então, o pastor não pode nem mesmo expressar a sua opinião como cidadão, ele fica refém de uma igreja em que seus membros julgam que haja um pensamento político-partidário hegemônico e que, portanto, não aceita contrariedade, e quando há alguma, tem algo errado, não com a igreja, mas com o referido pastor.

Em uma Igreja Batista o princípio da liberdade de consciência e opinião é uma marca da gênese da igreja. Assim, o pastor precisa blindar o púlpito da igreja que é pastor quanto ao seu posicionamento político, ou seja, o princípio da liberdade de consciência e opinião não dá a ele o direito de tutelar politicamente a igreja, antes a sua maior preocupação é apresentar o Evangelho de Jesus e a graça redentora de Deus. Infelizmente isso mudou drasticamente nas Eleições de 2018. Ainda assim, a maneira como o pastor apresenta o Evangelho do Nazareno e a graça abundante de Deus, ele é logo enquadrado em um determinado campo político, quer de “direita” ou de “esquerda”. Se ele valoriza sermões em que Deus vence as batalhas, portanto, é um “Deus” da defesa, ele é visto como a favor do armamento da população. Com isso ele está dentro do campo da “direita” politicamente. Caso o pastor foque na caminhada pobre do povo de Israel e de como os profetas combateram e denunciaram os desmandos dos reis, prontamente ele é colocado dentro do campo da “esquerda” politicamente. Parece que não se trata mais de Bíblia, mas como se ler a Bíblia para a comunidade, uma Bíblia de “direita” e outra de “esquerda”.

No Dia do Pastor, os pastores não deveriam ser tabelados como de “direita” ou de “esquerda” no primeiro momento, mas sim como pastores, apenas isso, pastores. Ou seja, pessoas que Deus chamou, vocacionou e preparou para pastorear, cuidar de pessoas.

Nesse dia, destaco dois pastores para reforçar o comprometimento com uma pessoa, Jesus.

Dietrich Bonhoeffer (1906-1945) – foi um pastor luterano, um professor universitário com doutorado em teologia, um pioneiro do movimento ecumênico, um escritor prolífico, um poeta e uma figura central na luta contra o regime nazista. Em 1939, Bonhoeffer se aproximou de um grupo de resistência e conspiração contra Hitler. A sua atividade para ajudar um grupo de judeus a fugir da Alemanha levou à sua prisão em abril de 1943. Depois de uma tentativa fracassada de atentado contra Hitler no dia 20 de julho de 1944, Bonhoeffer foi transferido para a prisão de Berlim, depois para o campo de concentração de Buchenwald e, por fim, para o de Flossenbürg, onde foi enforcado.

Martin Luther King Jr. (1929-1968) – foi um pastor batista que lutou contra a segregação racial nos Estados Unidos, garantindo direitos civis para negros, assim como os brancos já usufruíam. Foi assassinado em abril de 1968 em Memphis (Tennessee). Estava na cidade para apoiar a greve de trabalhadores negros da limpeza urbana. Em 3 de abril, pronunciou um dos seus discursos mais famosos: “Eu estava no topo da montanha”, quase uma profecia, na qual disse que, como Moisés, tinha visto a terra prometida do Monte Nebo, mas nela não tinha podido entrar, talvez ele também não entraria.

Esses pastores são testemunhas de que não há posicionamento político que impeça de tornar o Evangelho de Jesus Cristo a esperança para a sociedade e seus dilemas. Seja em um regime totalitário como foi o nazismo (Bonhoeffer); seja lutando contra a segregação racial (Luther King).

Pastor, ainda que tenha a sua direção política, está comprometido com uma pessoa, Jesus! À ele dedica a sua vida e procura seguir os seus passos por meio de uma espiritualidade do seguimento. As marcas do Reino de Deus que ele deixou, devem ser as mesmas que o pastor precisa perseguir.

No Dia do Pastor, não é o seu posicionamento político de “direita” ou de “esquerda” que deveria defini-lo, mas sim o seu compromisso com aquele que andou pela terra “fazendo o bem e curando a todos” (At 10,38).