Reflexão compartilhada no encontro de pastores (30/06)
Olhando para o pastor de tradição reformada (batista, em especial), vemos algumas dificuldades em compreender o conceito de pastoreio que não seja centralizado no indivíduo. Um exemplo disso é a quantidade de livros que há sobre o Ministério Pastoral que foca inteiramente o ser do pastor, sua santidade, oração, vida piedosa, claro com exceções.
Apenas para fazer uma comparação e elucidar o que estou querendo colocar, uso um quadro comparativo do teólogo/pastor metodista uruguaio Júlio de Santa Ana, em que coloca as diferenças entre o entendimento católico e protestante sobre a pastoral. Enquanto no universo católico a atividade pastoral é a ação coletiva do povo de Deus na igreja, centralizando essa tarefa na comunidade, no protestantismo a tarefa pastoral é apenas de um indivíduo, o pastor – centralizando apenas em um sujeito. É claro que essa maneira de ser pastor no universo protestante é fruto dos reformadores que entendiam a pastoral apenas para um indivíduo e não como missão pastoral da igreja. Isso se deve porque no Protestantismo o pastor detém o discurso do Sagrado e é preparado para isso nos seminários/faculdades confessionais.
Em outros segmentos, como o neopentecostalismo, o pastor/líder deve demonstrar sobrenaturalidade, ser um mágico; no caso pentecostal o pastor/líder a sua imagem de “homem de Deus” e credibilidade ao controle do poder do Espírito Santo. No caso do pastor batista, com exceções, há uma série de mecanismo de controle e detenção do discurso a fim de legitimar o controle do rebanho – por exemplo – o domínio do texto sagrado principalmente quando se usa os recursos dos originais para assegurar a interpretação correta do texto, daí sua palavra não pode ser questionada assumindo uma postura de sobrenaturalidade principalmente, antes do sermão, com a oração para que o pregador/pastor não fale dele mesmo, mas do Espírito Santo. Muitos se valem desse argumento para massacrar, fazer valer a sua vontade na comunidade, afinal de contas ele fala em nome de Deus. Outra ferramenta de controle que o pastor batista, repito com exceções, é a postura de juiz quando julga o que é certo/errado, centralizando nele a manipulação da consciência do rebanho, além de estabelecer uma relação por meio da hierarquia, pastor é pastor, ovelha é ovelha.
O pastor no Novo Testamento (NT) não é, num primeiro momento, uma figura oficializada como temos hoje. É uma maneira de agir, não uma pessoa, é uma postura diante do povo, não um indivíduo, um sujeito. A figura do pastor remete ao cuidado, bem-estar do rebanho. Por isso o pastor não é o pregador em 1Co 14,3, sim o profeta, responsável por edificar, encorajar e consolar a igreja. A figura centralizadora do pastor irá aparecer no NT por conta das ameaças heréticas como o gnosticismo. Daí a necessidade de se ter uma liderança estável, especializada, de autoridade para defender a comunidade de ameaças externas. Isso é muito claro nas Pastorais, por exemplo, 1Tm 3,1-2. A partir daqui o profeta desaparece e o pastor assume a tarefa de pregador, administrador, doutrinador. Daí nosso jeito de ser pastor todo proveniente das Pastorais.
O pastoreio pelo cuidado é expresso em Jo 10, 11-15, o Bom Pastor. Um pastoreio pelo cuidado, pelo estar junto, pelo monitoramento saudável. O pastoreio pelo cuidado ajuda a pessoa a se tornar gente, humaniza as relações, onde o cuidador cresce junto com quem recebe o cuidado; cuidado dispensa a relação de poder; o pastoreio pelo cuidado é uma maneira de tratar as pessoas com suas histórias e singularidades, perdendo aquela visão hierárquica nos relacionamentos.
"Escrever é construir, através do texto, um modelo específico de leitor" (Humberto Eco)
30.6.11
21.6.11
POR QUE NÃO SOU EVANGÉLICO?
Confesso que a cada dia que passa, tenho resistência em dizer que sou evangélico. Não qualifico mais a minha comunidade como evangélica, por entender que a nomenclatura, no atual contexto brasileiro, não condiz mais com a origem do termo na história do Cristianismo.
Num primeiro momento acho que Igreja Evangélica Brasileira não existe! Isso se dá pelo simples fato de que no segmento religioso brasileiro conhecido, popularmente, como evangélico há uma verdadeira babel doutrinária, litúrgica, teológica e ética. Não podemos nos misturar, infelizmente, porque há mais o que nos separam do quê o que nos unem. É claro que isso é resultado de um longo processo histórico desse segmento cristão (abaixo sintetizarei) que tem como característica a divisão. Isso não ocorre, por exemplo, com a Igreja Católica que tem no Papa e no Magistério a sua força de coesão. Quanto aos denominados evangélicos não há coesão, há exclusivismo, aglutinação de igrejas com seus nomes mais diversos possíveis, contendo aí uma diversidade teológica e de ênfase incrível. Quando digo que não existe uma Igreja Evangélica Brasileira, é porque há diversos blocos denominacionais que impedem a convergência e a fraternidade, é claro que há exceções, principalmente no ramo Protestante. O termo evangélico aparece na Reforma Protestante no século XVI, onde os principais personagens o usavam para qualificar um retorno às crenças e às práticas bíblicas em contraponto ao catolicismo da Idade Média. Hoje o seu sentido nem passa perto disso.
É possível sintetizar essas transformações. Num primeiro momento há Cristianismo, com os apóstolos, a igreja perseguida pelo Império Romano, os escritos do Novo Testamento, a mensagem de Jesus proclamada. Depois há a Cristandade, a partir do imperador Constantino no século IV quando torna o Cristianismo religião do Império. É a partir desse momento que as coisas começam a se complicar. Há uma bifurcação entre política e religião; uma dominação religiosa que envolve templo e clero. É aqui que as divisões não param. Os Concílios Ecumênicos que se sucederam depois desse alinhamento prova isso, marcados por divergências filosóficas, teológicas e bíblicas em torno de temas como divindade de Jesus e Trindade. Depois da Cristandade surge o Protestantismo como movimento de protesto aos desmandos da Igreja Católica como, por exemplo, as indulgências, além de enfatizar a autoridade das Escrituras; é com o Protestantismo que aparece o Denominacionalismo, irmão gêmeo do Institucionalismo, com uma estrutura organizacional que compreende várias congregações locais “unidas” com base num mesmo princípio doutrinário, teológico e litúrgico. A diversidade é uma marca perceptível das denominações, onde cada uma quer ser a máxima representante do Cristianismo com sua ética, regras, comportamentos, doutrinas. Cada uma formula o seu dogma, sua fé, causando uma multifacetação do Protestantismo. O Pentecostalismo é derivado disso, colocando a ênfase na doutrina do Espírito Santo e nos dons espirituais.
No Brasil há pelo menos três blocos denominados de evangélicos, ou que são qualificados como tal. São eles: o protestantismo histórico (Batistas, Metodistas, Presbiterianos); o pentecostalismo clássico (Assembleia de Deus, Congregação Cristã, Evangelho Quadrangular); neopentecostalismo (Universal, Internacional, Renascer, Sara Nossa Terra, Mundial). Ocorre que neste momento o terceiro bloco, o neopentecostalismo, está na mídia dizendo o que é ser evangélico hoje. Quando a sociedade olha para a igreja não católica, são os neopentecostais que ela enxerga sendo os evangélicos. Para a sociedade em geral a matriz do cristão evangélico é a igreja eletrônica com seus bispos, apóstolos, “homens de Deus”. A fonte são eles hoje, infelizmente. A sociedade e a imprensa brasileira não qualificam quem é Protestante histórico, quem é Pentecostal e quem são Neopentecostais. Certa ocasião, por exemplo, o Jornal Nacional (Rede Globo) fez uma série de reportagens sobre os Protestantes, quando falou sobre os Batistas o ancora do JN qualificou como Pentecostais. Prontamente surgiram dezenas de e-mails solicitando que o erro fosse reparado, na edição do dia seguinte o JN corrigiu o mal-entendido.
Se o termo evangélico voltasse a ser designado como uma posição teológica na autoridade das Escrituras e uma experiência pessoal de fé em Cristo, com certeza usaríamos a nomenclatura com prazer. Mas enquanto o termo evangélico for associado a um punhado de gente que se diz apóstolo, bispo, Grande Homem de Deus que faz da chantagem emocional o veículo para extorsão não cabe aqui ser identificado como evangélico. Não gostaria de ser associado a um grupo que tem como meio de bênção apetrechos como sabão ungido ou sal grosso como mecanismo para se alcançar a prosperidade; não quero ser confundido com pregadores que ludibriam pessoas com mensagens sensacionalistas a partir de uma hermenêutica pobre; não quero fazer parte de um grupo que tem no Espírito Santo o maior causador de divisões no ambiente pentecostal. Se for para ser evangélico nessas condições prefiro ser identificado como cristão, assim como os irmãos de Antioquia (At. 11,26) que, por si só, implica numa série de prerrogativas, sendo a principal delas, a identidade com Cristo. Isso já basta.
Num primeiro momento acho que Igreja Evangélica Brasileira não existe! Isso se dá pelo simples fato de que no segmento religioso brasileiro conhecido, popularmente, como evangélico há uma verdadeira babel doutrinária, litúrgica, teológica e ética. Não podemos nos misturar, infelizmente, porque há mais o que nos separam do quê o que nos unem. É claro que isso é resultado de um longo processo histórico desse segmento cristão (abaixo sintetizarei) que tem como característica a divisão. Isso não ocorre, por exemplo, com a Igreja Católica que tem no Papa e no Magistério a sua força de coesão. Quanto aos denominados evangélicos não há coesão, há exclusivismo, aglutinação de igrejas com seus nomes mais diversos possíveis, contendo aí uma diversidade teológica e de ênfase incrível. Quando digo que não existe uma Igreja Evangélica Brasileira, é porque há diversos blocos denominacionais que impedem a convergência e a fraternidade, é claro que há exceções, principalmente no ramo Protestante. O termo evangélico aparece na Reforma Protestante no século XVI, onde os principais personagens o usavam para qualificar um retorno às crenças e às práticas bíblicas em contraponto ao catolicismo da Idade Média. Hoje o seu sentido nem passa perto disso.
É possível sintetizar essas transformações. Num primeiro momento há Cristianismo, com os apóstolos, a igreja perseguida pelo Império Romano, os escritos do Novo Testamento, a mensagem de Jesus proclamada. Depois há a Cristandade, a partir do imperador Constantino no século IV quando torna o Cristianismo religião do Império. É a partir desse momento que as coisas começam a se complicar. Há uma bifurcação entre política e religião; uma dominação religiosa que envolve templo e clero. É aqui que as divisões não param. Os Concílios Ecumênicos que se sucederam depois desse alinhamento prova isso, marcados por divergências filosóficas, teológicas e bíblicas em torno de temas como divindade de Jesus e Trindade. Depois da Cristandade surge o Protestantismo como movimento de protesto aos desmandos da Igreja Católica como, por exemplo, as indulgências, além de enfatizar a autoridade das Escrituras; é com o Protestantismo que aparece o Denominacionalismo, irmão gêmeo do Institucionalismo, com uma estrutura organizacional que compreende várias congregações locais “unidas” com base num mesmo princípio doutrinário, teológico e litúrgico. A diversidade é uma marca perceptível das denominações, onde cada uma quer ser a máxima representante do Cristianismo com sua ética, regras, comportamentos, doutrinas. Cada uma formula o seu dogma, sua fé, causando uma multifacetação do Protestantismo. O Pentecostalismo é derivado disso, colocando a ênfase na doutrina do Espírito Santo e nos dons espirituais.
No Brasil há pelo menos três blocos denominados de evangélicos, ou que são qualificados como tal. São eles: o protestantismo histórico (Batistas, Metodistas, Presbiterianos); o pentecostalismo clássico (Assembleia de Deus, Congregação Cristã, Evangelho Quadrangular); neopentecostalismo (Universal, Internacional, Renascer, Sara Nossa Terra, Mundial). Ocorre que neste momento o terceiro bloco, o neopentecostalismo, está na mídia dizendo o que é ser evangélico hoje. Quando a sociedade olha para a igreja não católica, são os neopentecostais que ela enxerga sendo os evangélicos. Para a sociedade em geral a matriz do cristão evangélico é a igreja eletrônica com seus bispos, apóstolos, “homens de Deus”. A fonte são eles hoje, infelizmente. A sociedade e a imprensa brasileira não qualificam quem é Protestante histórico, quem é Pentecostal e quem são Neopentecostais. Certa ocasião, por exemplo, o Jornal Nacional (Rede Globo) fez uma série de reportagens sobre os Protestantes, quando falou sobre os Batistas o ancora do JN qualificou como Pentecostais. Prontamente surgiram dezenas de e-mails solicitando que o erro fosse reparado, na edição do dia seguinte o JN corrigiu o mal-entendido.
Se o termo evangélico voltasse a ser designado como uma posição teológica na autoridade das Escrituras e uma experiência pessoal de fé em Cristo, com certeza usaríamos a nomenclatura com prazer. Mas enquanto o termo evangélico for associado a um punhado de gente que se diz apóstolo, bispo, Grande Homem de Deus que faz da chantagem emocional o veículo para extorsão não cabe aqui ser identificado como evangélico. Não gostaria de ser associado a um grupo que tem como meio de bênção apetrechos como sabão ungido ou sal grosso como mecanismo para se alcançar a prosperidade; não quero ser confundido com pregadores que ludibriam pessoas com mensagens sensacionalistas a partir de uma hermenêutica pobre; não quero fazer parte de um grupo que tem no Espírito Santo o maior causador de divisões no ambiente pentecostal. Se for para ser evangélico nessas condições prefiro ser identificado como cristão, assim como os irmãos de Antioquia (At. 11,26) que, por si só, implica numa série de prerrogativas, sendo a principal delas, a identidade com Cristo. Isso já basta.
11.6.11
CENTENÁRIO DA ASSEMBLEIA DE DEUS – O OUTRO LADO DA HISTÓRIA
Uma das maiores denominações pentecostais está comemorando cem anos no Brasil. No último senso IBGE (2000) a Assembleia de Deus contava com 47,47% de adeptos, um número razoável e até mesmo surpreendente. Mas a denominação que tem na CGADB (Convenção Geral das Assembleias de Deus do Brasil) a sua maior expressão, também é responsável pela constante divisão eclesiástica no segmento pentecostal. É uma denominação que tem um sistema de governo episcopal, embora não seja declarado, onde uma igreja-sede comanda outras e administra os “pastores/líderes” removendo-os dos diversos “campos”. Por conta disso, é a denominação que mais divide igrejas no país, sendo um dos principais motivos questões politicas e de poder.
Essa denominação que contribui e muito para o Evangelho no Brasil, comemora o seu primeiro centenário em Junho. Como é característica desse segmento a divisão, até mesmo nas comemorações há um racha sustentado pelos próprios líderes. De um lado a CGADB está organizando uma comemoração com vários pastores presentes, menos o líder da igreja de Belém do Pará. Por outro lado, a igreja em Belém também está organizando e fazendo uma pesada campanha para a sua festividade, sem contar com o apoio da CGADB. O motivo disso, segundo alguns, é a disputa pela presidência da CGADB que sempre são tumultuadas.
O fato, e há quem discorde, principalmente os integrantes dessa denominação, é que a própria denominação começou com uma divisão, na Primeira Igreja Batista em Belém (PIBB), Pará. Isso tem sido ignorado completamente pelos líderes que estão fazendo a propaganda para as comemorações do centenário. O maior exemplo disso é a síntese do movimento pentecostal no Brasil no site da igreja em Belém:
Dois jovens missionários suecos residentes nos Estados Unidos, Daniel Berg e Gunnar Vingren, receberam como missão pregar o evangelho em uma terra distante e desconhecida, chamada Pará. Foi então que partiram rumo a Belém, onde desembarcaram no dia 19 de novembro de 1910.
Inicialmente, se integraram à Primeira Igreja Batista do Pará, localizada na Rua João Balbi. Porém, sentiram a necessidade de tomar um novo rumo.
Não foi um novo rumo que eles tomaram, mas dividiram a PIBB. Embora historiadores da Assembleia de Deus digam que:
O propósito dos missionários, Gunnar Vingren e Daniel Berg não era dividir ou fundar igrejas. Com seus corações ardendo pela chama pentecostal que varria os EUA e outras nações, os missionários foram enviados por Deus para compartilhar essa mensagem aos brasileiros. Sendo membros da Igreja Batista desde tenra idade e, no caso de Vingren, pastor em atividade, agiram como idôneos e honrados servos de Deus. Procuraram a sua igreja. Não se infiltraram. Desde o encontro com o pastor metodista Justus Nelson, falaram abertamente com líderes brasileiros sobre suas convicções.
No porão da PIBB eles começaram a fazer reuniões paralelas aos cultos da igreja e arrebanhar outros irmãos para a doutrina pentecostal. Se desde o início os missionários suecos radicados nos EUA tivesse falado abertamente o que pretendiam, a PIBB não teria desligado treze membros e os dois missionários por entender que a doutrina pentecostal era inconsistente com a identidade Batista.
A intenção não é causar constrangimento quanto aos motivos reais da missão de Vingren e Berg. Até porque, o pentecostalismo sempre dividiu o Cristianismo, a começar com os membros da igreja de Corinto que achavam que tinham o Espírito Santo mais que os outros, um problema que Paulo busca resolver no capítulo 14. Montano, no ano de 150, também dividiu a cristandade com o seu pentecostalismo. Nos EUA, o movimento pentecostal dividiu a Igreja Metodista; no Brasil foram os missionários suecos na PIBB; na década de 1960 as denominações históricas foram abaladas pela onda carismática, ocasionando uma série de desligamentos de igrejas Batistas, Presbiterianas e Metodistas. Logo o tema do Espírito Santo, o responsável por preservar a unidade do corpo de Cristo, é motivo de tantas cisões e problemas.
Fica aqui a minha forma de dizer que a história do surgimento do pentecostalismo no Brasil não foi ordeira e de bom senso, mas começou com uma divisão dentro de uma igreja estabelecida na cidade de Belém. Embora reconheça os feitos e a contribuição dessa denominação, reitero que a história também é contada por aqueles que permaneceram na PIBB, acentuando a sua identidade como batistas que eram.
Essa denominação que contribui e muito para o Evangelho no Brasil, comemora o seu primeiro centenário em Junho. Como é característica desse segmento a divisão, até mesmo nas comemorações há um racha sustentado pelos próprios líderes. De um lado a CGADB está organizando uma comemoração com vários pastores presentes, menos o líder da igreja de Belém do Pará. Por outro lado, a igreja em Belém também está organizando e fazendo uma pesada campanha para a sua festividade, sem contar com o apoio da CGADB. O motivo disso, segundo alguns, é a disputa pela presidência da CGADB que sempre são tumultuadas.
O fato, e há quem discorde, principalmente os integrantes dessa denominação, é que a própria denominação começou com uma divisão, na Primeira Igreja Batista em Belém (PIBB), Pará. Isso tem sido ignorado completamente pelos líderes que estão fazendo a propaganda para as comemorações do centenário. O maior exemplo disso é a síntese do movimento pentecostal no Brasil no site da igreja em Belém:
Dois jovens missionários suecos residentes nos Estados Unidos, Daniel Berg e Gunnar Vingren, receberam como missão pregar o evangelho em uma terra distante e desconhecida, chamada Pará. Foi então que partiram rumo a Belém, onde desembarcaram no dia 19 de novembro de 1910.
Inicialmente, se integraram à Primeira Igreja Batista do Pará, localizada na Rua João Balbi. Porém, sentiram a necessidade de tomar um novo rumo.
Não foi um novo rumo que eles tomaram, mas dividiram a PIBB. Embora historiadores da Assembleia de Deus digam que:
O propósito dos missionários, Gunnar Vingren e Daniel Berg não era dividir ou fundar igrejas. Com seus corações ardendo pela chama pentecostal que varria os EUA e outras nações, os missionários foram enviados por Deus para compartilhar essa mensagem aos brasileiros. Sendo membros da Igreja Batista desde tenra idade e, no caso de Vingren, pastor em atividade, agiram como idôneos e honrados servos de Deus. Procuraram a sua igreja. Não se infiltraram. Desde o encontro com o pastor metodista Justus Nelson, falaram abertamente com líderes brasileiros sobre suas convicções.
No porão da PIBB eles começaram a fazer reuniões paralelas aos cultos da igreja e arrebanhar outros irmãos para a doutrina pentecostal. Se desde o início os missionários suecos radicados nos EUA tivesse falado abertamente o que pretendiam, a PIBB não teria desligado treze membros e os dois missionários por entender que a doutrina pentecostal era inconsistente com a identidade Batista.
A intenção não é causar constrangimento quanto aos motivos reais da missão de Vingren e Berg. Até porque, o pentecostalismo sempre dividiu o Cristianismo, a começar com os membros da igreja de Corinto que achavam que tinham o Espírito Santo mais que os outros, um problema que Paulo busca resolver no capítulo 14. Montano, no ano de 150, também dividiu a cristandade com o seu pentecostalismo. Nos EUA, o movimento pentecostal dividiu a Igreja Metodista; no Brasil foram os missionários suecos na PIBB; na década de 1960 as denominações históricas foram abaladas pela onda carismática, ocasionando uma série de desligamentos de igrejas Batistas, Presbiterianas e Metodistas. Logo o tema do Espírito Santo, o responsável por preservar a unidade do corpo de Cristo, é motivo de tantas cisões e problemas.
Fica aqui a minha forma de dizer que a história do surgimento do pentecostalismo no Brasil não foi ordeira e de bom senso, mas começou com uma divisão dentro de uma igreja estabelecida na cidade de Belém. Embora reconheça os feitos e a contribuição dessa denominação, reitero que a história também é contada por aqueles que permaneceram na PIBB, acentuando a sua identidade como batistas que eram.
30.5.11
UMA MINORIA PRIVILEGIADA?
Apontamentos em torno da homofobia
Com o discurso de que procura promover a cidadania, combater a discriminação e estimular a construção de uma sociedade mais justa e igualitária, a Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), desenvolveram o Projeto de Lei 5003/2001, que mais tarde veio se tornar o Projeto de Lei da Câmara (PLC) 122/2006, que propõe a criminalização da homofobia.
Em resumo o que significa é isso: o projeto de lei torna crime à discriminação por orientação sexual e identidade de gênero, equiparando esta situação à discriminação de raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, sexo e gênero que já está contemplada na Lei 7.716/89 que prevê punição para toda a forma de preconceito, violência e discriminação. A ABGLT quer punição com multa e reclusão para os autores de crimes homofóbicos. Com isso, o PL 122/2006 quer tornar crime todo e qualquer cidadão ou cidadã que sofrer discriminação por causa de sua orientação sexual e identidade de gênero podendo prestar queixa formal na delegacia. O mais interessante no projeto de lei é o que caracteriza a homofobia: discriminação no interior de estabelecimentos comerciais, os proprietários estão sujeitos à reclusão e suspensão do funcionamento do local em um período de até três meses; também será considerado crime proibir a livre expressão e manifestação de afetividade de cidadãos homossexuais, bissexuais, travestis e transexuais ou ser preterido em vagas/funções de trabalho. Esses são só alguns casos de potenciais crimes homofóbicos.
Não está em discussão a formação da orientação sexual e identidade de gênero, até porque essas duas características da sexualidade humana são construídas tendo os pais um importante papel no desenvolvimento sexual da criança. Não há estudos científicos que comprovem um terceiro sexo. A identidade sexual só é possível de duas formas: homem ou mulher, não cabendo aí um terceiro sexo. Agora a identidade de gênero é a convicção de que o sexo psicológico e o anatômico estão de acordo, ela pode sofrer alterações em fases distintas da vida porque a ciência até agora desconhece como se dá o desenvolvimento da identidade de gênero e as causas de suas alterações, mas a família continua sendo uma referência primordial para o desenvolvimento da identidade sexual.
É preciso ficar claro que qualquer forma de violência já é crime! Não importando quem é vítima seja homem, mulher, negro, índio, homossexual, criança ou idoso. Por quaisquer razões, embora nenhuma violência tenha alguma razão sensata, ou quaisquer motivos à violência é crime. Para qualquer espécie de crime há punições previstas em lei.
O que se espera do PL 122/2006 é dar privilégios a uma minoria em detrimento da maioria. É impor, por força de punição, a uma sociedade, que tem na religião uma das suas principais matrizes culturais, algo que a maioria discorda. Num estado de direito onde é garantida por lei a liberdade de expressão e consciência, o PL 122/2006 torna-se inconstitucional quando obriga um cidadão/ã a aceitar algo que a sua consciência não aprova!
O mais grave de todos é que países que aprovaram a união ou casamento de pessoas do mesmo sexo como, por exemplo, Holanda (2002), Suíça (2005), Alemanha (2001), esses com uma forte tradição protestante, e a vizinha Argentina (2003), não aprovaram a criminalização da homofobia. No Brasil, além de conseguirem recentemente a anuência do Supremo Tribunal Federal (STF) pela união estável de homossexuais, a ABGLT considera que o PL 122/2006 será questão de meses para ser aprovado pelo Congresso Nacional. Isso é inaceitável!
A ABGLT fez campanha promovendo o “kit anti-homofobia” nas escolas públicas. A presidente Dilma Rousseff vetou a sua distribuição por entender que um dos vídeos faz apologia a uma opção sexual. A sociedade brasileira está sendo obrigada a digerir a força algo que, comprovadamente, a maioria é contra.
Todos os movimentos sociais no país sofrem ou sofreram algum tipo de discriminação e preconceito. O negro sofre preconceito e é discriminado desde que esse país é Brasil em diversos setores da sociedade quer educacional ou econômico. Não precisa ser homossexual para ser vítima da violência, basta ser uma empregada doméstica no ponto de ônibus no Rio de Janeiro e jovens desocupados julgarem que se trata de uma prostituta e agredi-la. O caso é que qualquer violência é crime. Mas aí privilegiar um segmento da sociedade com uma lei é infringir um princípio inalienável da Constituição Federal, de que todos tem o direito de expressar a sua opinião e julgar se algo é correto ou não de acordo com sua consciência.
Com o discurso de que procura promover a cidadania, combater a discriminação e estimular a construção de uma sociedade mais justa e igualitária, a Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), desenvolveram o Projeto de Lei 5003/2001, que mais tarde veio se tornar o Projeto de Lei da Câmara (PLC) 122/2006, que propõe a criminalização da homofobia.
Em resumo o que significa é isso: o projeto de lei torna crime à discriminação por orientação sexual e identidade de gênero, equiparando esta situação à discriminação de raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, sexo e gênero que já está contemplada na Lei 7.716/89 que prevê punição para toda a forma de preconceito, violência e discriminação. A ABGLT quer punição com multa e reclusão para os autores de crimes homofóbicos. Com isso, o PL 122/2006 quer tornar crime todo e qualquer cidadão ou cidadã que sofrer discriminação por causa de sua orientação sexual e identidade de gênero podendo prestar queixa formal na delegacia. O mais interessante no projeto de lei é o que caracteriza a homofobia: discriminação no interior de estabelecimentos comerciais, os proprietários estão sujeitos à reclusão e suspensão do funcionamento do local em um período de até três meses; também será considerado crime proibir a livre expressão e manifestação de afetividade de cidadãos homossexuais, bissexuais, travestis e transexuais ou ser preterido em vagas/funções de trabalho. Esses são só alguns casos de potenciais crimes homofóbicos.
Não está em discussão a formação da orientação sexual e identidade de gênero, até porque essas duas características da sexualidade humana são construídas tendo os pais um importante papel no desenvolvimento sexual da criança. Não há estudos científicos que comprovem um terceiro sexo. A identidade sexual só é possível de duas formas: homem ou mulher, não cabendo aí um terceiro sexo. Agora a identidade de gênero é a convicção de que o sexo psicológico e o anatômico estão de acordo, ela pode sofrer alterações em fases distintas da vida porque a ciência até agora desconhece como se dá o desenvolvimento da identidade de gênero e as causas de suas alterações, mas a família continua sendo uma referência primordial para o desenvolvimento da identidade sexual.
É preciso ficar claro que qualquer forma de violência já é crime! Não importando quem é vítima seja homem, mulher, negro, índio, homossexual, criança ou idoso. Por quaisquer razões, embora nenhuma violência tenha alguma razão sensata, ou quaisquer motivos à violência é crime. Para qualquer espécie de crime há punições previstas em lei.
O que se espera do PL 122/2006 é dar privilégios a uma minoria em detrimento da maioria. É impor, por força de punição, a uma sociedade, que tem na religião uma das suas principais matrizes culturais, algo que a maioria discorda. Num estado de direito onde é garantida por lei a liberdade de expressão e consciência, o PL 122/2006 torna-se inconstitucional quando obriga um cidadão/ã a aceitar algo que a sua consciência não aprova!
O mais grave de todos é que países que aprovaram a união ou casamento de pessoas do mesmo sexo como, por exemplo, Holanda (2002), Suíça (2005), Alemanha (2001), esses com uma forte tradição protestante, e a vizinha Argentina (2003), não aprovaram a criminalização da homofobia. No Brasil, além de conseguirem recentemente a anuência do Supremo Tribunal Federal (STF) pela união estável de homossexuais, a ABGLT considera que o PL 122/2006 será questão de meses para ser aprovado pelo Congresso Nacional. Isso é inaceitável!
A ABGLT fez campanha promovendo o “kit anti-homofobia” nas escolas públicas. A presidente Dilma Rousseff vetou a sua distribuição por entender que um dos vídeos faz apologia a uma opção sexual. A sociedade brasileira está sendo obrigada a digerir a força algo que, comprovadamente, a maioria é contra.
Todos os movimentos sociais no país sofrem ou sofreram algum tipo de discriminação e preconceito. O negro sofre preconceito e é discriminado desde que esse país é Brasil em diversos setores da sociedade quer educacional ou econômico. Não precisa ser homossexual para ser vítima da violência, basta ser uma empregada doméstica no ponto de ônibus no Rio de Janeiro e jovens desocupados julgarem que se trata de uma prostituta e agredi-la. O caso é que qualquer violência é crime. Mas aí privilegiar um segmento da sociedade com uma lei é infringir um princípio inalienável da Constituição Federal, de que todos tem o direito de expressar a sua opinião e julgar se algo é correto ou não de acordo com sua consciência.
5.5.11
UM CRISTIANISMO SEM RELIGIÃO
Apontamentos em torno de um movimento
Não é novidade o questionamento da religião como instituição reguladora da espiritualidade e moralidade. O expoente mais proeminente desse tipo de questionamento foi D. Bonhoeffer, mártir e pastor alemão. O luterano advogava um Cristianismo não religioso, uma espiritualidade que não tivesse a tutela da igreja/instituição. A Europa foi abalada pela 2ª Guerra Mundial, e teólogos como P. Tillich, por exemplo, formularam uma teologia da vida, algo destituído da religião institucionalizada. A igreja/instituição deixou de ter a sua preponderância após guerra.
Hoje estamos vivenciando um movimento dos “sem-igreja”. São pessoas que se cansaram do sistema regulador que a igreja com suas regras, preceitos e rituais impõe. Este movimento começa nos EUA, como tudo em matéria de religião. Lá livros como o de Wayne Jacobsen e Dave Coleman – POR QUE VOCÊ NÃO QUER IR MAIS À IGREJA? (Editora Sextante), estão fazendo sucesso. É um texto que procura encontrar a dimensão originaria do Cristianismo e questiona a estrutura eclesiástica como forma de ensinar a espiritualidade. Outro texto é do pastor Brian McLaren – UMA ORTODOXIA GENEROSA (Editora Palavra), em que propõe uma revisão no que a igreja chama de dogmas, doutrinas. Um livro instigante. Aqui no Brasil um autor que ganha destaque pela sua maneira despojada e, até mesmo às vezes, debochada de escrever é Paulo Brabo com o seu blog que virou livro, A BACIA DAS ALMAS (Editora Mundo Cristão). Com textos provocantes e contextualizados, Brabo questiona a maneira equivocada da igreja/instituição entendeu/entende a mensagem de Jesus. Ele pontua de que é possível separar Jesus da Bíblia e da Igreja. Um Cristianismo sem nenhum contato com as regras e a batuta da igreja/instituição.
Hoje estou lendo um texto de David N. Elkins, ALÉM DA RELIGIÃO (Editora Pensamento). O autor é um decepcionado com o sistema religioso herdado dos pais. Como pastor experimentou algumas frustrações, a nível espiritual e teológico. A temática do livro é a separação entre Espiritualidade e Religião. Para Elkins, o desenvolvimento espiritual não tem qualquer relação com práticas, ritos e costumes de uma religião, mas com o milagre da vida. Um erro que o autor aponta, e que é tão comum em nossas comunidades, é associar a vida espiritual/espiritualidade com o ir à igreja/templo. Como é corriqueiro ouvirmos de alguém de que a sua vida cristã depende de quantas vezes ora durante o dia, ler o texto bíblico ou vai ao templo.
Um dado interessante que D. Elkins coloca no seu texto é que o movimento da espiritualidade sem a mediação da igreja/instituição não começou agora. O movimento da New Age é totalmente destituído de confissão religiosa. Esse movimento produziu palestras, vídeos, livros e muitos deles traduzidos no Brasil, com um discurso espiritualizado a partir de ramificações variadas.
Alguns estudiosos do tema estão apontando a crescente diminuição das religiões institucionais. No Brasil ainda não sentimos isso de um modo acentuado porque aqui ainda reina um imaginário religioso muito forte. Embora o IBGE/2010 apontou o crescimento significativo dos “sem-religião” no país. Hoje há um grande trânsito religioso, um verdadeiro supermercado, por conta também das denominações neopentecostais. Dentro disso tudo há um fato interessante. Na cidade de São Paulo o crescimento do Budismo é espantoso, há cada vez mais pessoas aderindo às filosofias e seitas orientais em busca de sentido para as suas vidas.
Onde ficamos nisso? Enquanto não tivermos uma visão globalizada dos dilemas da nossa sociedade e não soubermos ler os “sinais dos tempos”, nossas igrejas estarão preocupadas com assuntos triviais e supérfluos. Um moralismo farisaico e sadomasoquista que alguns chamam de espiritualidade não terá mais oportunidade em uma sociedade que tem na tecnologia a sua maneira de ver o mundo e se expressar. É preciso contrariar F. Nietzsche quando diz que “a igreja é justamente aquilo que Jesus pregou contra e ensinou os seus discípulos a lutar”. É preciso mudar, do contrário poderemos ser uma religião sem Cristianismo.
Não é novidade o questionamento da religião como instituição reguladora da espiritualidade e moralidade. O expoente mais proeminente desse tipo de questionamento foi D. Bonhoeffer, mártir e pastor alemão. O luterano advogava um Cristianismo não religioso, uma espiritualidade que não tivesse a tutela da igreja/instituição. A Europa foi abalada pela 2ª Guerra Mundial, e teólogos como P. Tillich, por exemplo, formularam uma teologia da vida, algo destituído da religião institucionalizada. A igreja/instituição deixou de ter a sua preponderância após guerra.
Hoje estamos vivenciando um movimento dos “sem-igreja”. São pessoas que se cansaram do sistema regulador que a igreja com suas regras, preceitos e rituais impõe. Este movimento começa nos EUA, como tudo em matéria de religião. Lá livros como o de Wayne Jacobsen e Dave Coleman – POR QUE VOCÊ NÃO QUER IR MAIS À IGREJA? (Editora Sextante), estão fazendo sucesso. É um texto que procura encontrar a dimensão originaria do Cristianismo e questiona a estrutura eclesiástica como forma de ensinar a espiritualidade. Outro texto é do pastor Brian McLaren – UMA ORTODOXIA GENEROSA (Editora Palavra), em que propõe uma revisão no que a igreja chama de dogmas, doutrinas. Um livro instigante. Aqui no Brasil um autor que ganha destaque pela sua maneira despojada e, até mesmo às vezes, debochada de escrever é Paulo Brabo com o seu blog que virou livro, A BACIA DAS ALMAS (Editora Mundo Cristão). Com textos provocantes e contextualizados, Brabo questiona a maneira equivocada da igreja/instituição entendeu/entende a mensagem de Jesus. Ele pontua de que é possível separar Jesus da Bíblia e da Igreja. Um Cristianismo sem nenhum contato com as regras e a batuta da igreja/instituição.
Hoje estou lendo um texto de David N. Elkins, ALÉM DA RELIGIÃO (Editora Pensamento). O autor é um decepcionado com o sistema religioso herdado dos pais. Como pastor experimentou algumas frustrações, a nível espiritual e teológico. A temática do livro é a separação entre Espiritualidade e Religião. Para Elkins, o desenvolvimento espiritual não tem qualquer relação com práticas, ritos e costumes de uma religião, mas com o milagre da vida. Um erro que o autor aponta, e que é tão comum em nossas comunidades, é associar a vida espiritual/espiritualidade com o ir à igreja/templo. Como é corriqueiro ouvirmos de alguém de que a sua vida cristã depende de quantas vezes ora durante o dia, ler o texto bíblico ou vai ao templo.
Um dado interessante que D. Elkins coloca no seu texto é que o movimento da espiritualidade sem a mediação da igreja/instituição não começou agora. O movimento da New Age é totalmente destituído de confissão religiosa. Esse movimento produziu palestras, vídeos, livros e muitos deles traduzidos no Brasil, com um discurso espiritualizado a partir de ramificações variadas.
Alguns estudiosos do tema estão apontando a crescente diminuição das religiões institucionais. No Brasil ainda não sentimos isso de um modo acentuado porque aqui ainda reina um imaginário religioso muito forte. Embora o IBGE/2010 apontou o crescimento significativo dos “sem-religião” no país. Hoje há um grande trânsito religioso, um verdadeiro supermercado, por conta também das denominações neopentecostais. Dentro disso tudo há um fato interessante. Na cidade de São Paulo o crescimento do Budismo é espantoso, há cada vez mais pessoas aderindo às filosofias e seitas orientais em busca de sentido para as suas vidas.
Onde ficamos nisso? Enquanto não tivermos uma visão globalizada dos dilemas da nossa sociedade e não soubermos ler os “sinais dos tempos”, nossas igrejas estarão preocupadas com assuntos triviais e supérfluos. Um moralismo farisaico e sadomasoquista que alguns chamam de espiritualidade não terá mais oportunidade em uma sociedade que tem na tecnologia a sua maneira de ver o mundo e se expressar. É preciso contrariar F. Nietzsche quando diz que “a igreja é justamente aquilo que Jesus pregou contra e ensinou os seus discípulos a lutar”. É preciso mudar, do contrário poderemos ser uma religião sem Cristianismo.
12.4.11
DEUS NAS TRAGÉDIAS
Em solidariedade às crianças de Realengo, Rio de Janeiro
Tragédias como a que acabamos de ver em Realengo, no Rio de Janeiro, além de nos deixar profundamente chateados com a vida e consternados com o fato, levanta, inevitavelmente, questionamentos sobre Deus e sua atuação no mundo. Em momentos como esse se faz teologia a partir de um fato, colocando na conta de Deus mais uma fatalidade, e como a religiosidade do brasileiro tem uma imagem de Deus a partir da sua soberania, do conceito de Todo-poderoso, se coloca a possibilidade de ter ou não “permitido” a tragédia. Quando não é aqui a catástrofe, mas em outro lugar como a que ocorreu no Japão recentemente, se atribui ao fato do país/povo não ser cristão, uma ideia que não corresponde com uma imagem saudável de Deus.
Não é de hoje que o problema do mal assola a humanidade. O filósofo grego Epicuro já alertava para o grande dilema: “ou Deus quer tirar o mal do mundo, mas não pode; ou pode, mas não quer tirá-lo; ou não pode nem quer; ou pode e quer. Se quer e não pode, é impotente; se pode e não quer, não nos ama; se não quer nem pode, não é o Deus bom, e, além do mais, é impotente; se pode e quer – e esta é a única alternativa que, como Deus, lhe diz respeito – de onde vem, então, o mal real e por que não o elimina de uma vez por todas?” A convivência com o mal e suas consequências sempre trouxeram dificuldades com relação a Deus. Ora se entende como sendo sua permissão, como se ele fosse um ser sádico que sentisse prazer no sofrimento; ora como parte dos seus infinitos e insondáveis planos, como que quisesse nos ensinar algo lá na frente, não importando muito com perdas de vidas; outros ainda concebem como castigo mesmo.
No triste caso do Rio de Janeiro, vi uma avó desesperada questionando Deus: “por que meu Deus, minha neta, saiu para vir à escola?” Uma cena triste que eu, particularmente, chorei. Mas o que dizer para essa avó? Deus deixou o assassino atirar em todos por que ele quis? Se ele é Todo-poderoso (compreensão que não se encontra na Bíblia) por que permitiu?
É difícil digerir isso, mas o fato é que o mal se dá na própria finitude do ser humano. A finitude implica imperfeição, e o que sofre de imperfeição é passível do mal porque está em processo de construção. Em qualquer realidade finita e limitada o mal é uma possibilidade. Neste sentido o mal não está em Deus, mas sim na limitação e finitude do mundo e do ser humano. Além do mais, o ser humano já provou que quem conduz a sua história é ele mesmo, e em importantes momentos dela, ele deixou Deus de fora.
As pessoas que questionam Deus diante das tragédias, não podem esquecer que o próprio Deus já presenciou e participou de algumas. Dois exemplos marcantes: 1). Israel no exílio: quando da invasão do exército de Nabucodonosor (2Rs 24-25), destruiu a cidade de Jerusalém e o Templo, centro de referência para a presença de Deus no meio do povo, as pessoas perderam suas terras, religião, família e sentimento de nação e foram habitar em terras estranhas (Sl. 137). Deus padece com o seu povo, sofre com suas dores. Diante da tragédia do exílio, profetas como o Segundo-Isaías irá transportar as histórias de Deus com o povo de Israel para o futuro (Is. 40) e delas tirar esperança de dias melhores; 2). O Calvário: outra tragédia que Deus participa e sofre junto é a cruz, expressão máxima de seu amor, mas também confirmação de que a humanidade pode construir a sua própria história sem se ater a sua vontade. No Gólgota, transparece a impotência divina sendo sucumbida pelo mal. Deus não planeja, muito menos permite, mas suporta a morte como algo inevitável por amor. Ele sofre com Jesus na cruz. É por isso que ele sabe muito bem o que é passar por tragédias.
Diante da tragédia do Rio de Janeiro, não questiono Deus se permitiu ou não. Penso que ele padece juntamente com aquelas pessoas que perderam seus filhos numa idade que se constrói o futuro e se planeja a vida. O fato é que vamos conviver com o mal enquanto aqui estivermos porque ele faz parte da nossa condição de criaturas finitas e limitadas. Mas é importante salientar, temos Jesus que nos ensinou a compreender a vida.
Tragédias como a que acabamos de ver em Realengo, no Rio de Janeiro, além de nos deixar profundamente chateados com a vida e consternados com o fato, levanta, inevitavelmente, questionamentos sobre Deus e sua atuação no mundo. Em momentos como esse se faz teologia a partir de um fato, colocando na conta de Deus mais uma fatalidade, e como a religiosidade do brasileiro tem uma imagem de Deus a partir da sua soberania, do conceito de Todo-poderoso, se coloca a possibilidade de ter ou não “permitido” a tragédia. Quando não é aqui a catástrofe, mas em outro lugar como a que ocorreu no Japão recentemente, se atribui ao fato do país/povo não ser cristão, uma ideia que não corresponde com uma imagem saudável de Deus.
Não é de hoje que o problema do mal assola a humanidade. O filósofo grego Epicuro já alertava para o grande dilema: “ou Deus quer tirar o mal do mundo, mas não pode; ou pode, mas não quer tirá-lo; ou não pode nem quer; ou pode e quer. Se quer e não pode, é impotente; se pode e não quer, não nos ama; se não quer nem pode, não é o Deus bom, e, além do mais, é impotente; se pode e quer – e esta é a única alternativa que, como Deus, lhe diz respeito – de onde vem, então, o mal real e por que não o elimina de uma vez por todas?” A convivência com o mal e suas consequências sempre trouxeram dificuldades com relação a Deus. Ora se entende como sendo sua permissão, como se ele fosse um ser sádico que sentisse prazer no sofrimento; ora como parte dos seus infinitos e insondáveis planos, como que quisesse nos ensinar algo lá na frente, não importando muito com perdas de vidas; outros ainda concebem como castigo mesmo.
No triste caso do Rio de Janeiro, vi uma avó desesperada questionando Deus: “por que meu Deus, minha neta, saiu para vir à escola?” Uma cena triste que eu, particularmente, chorei. Mas o que dizer para essa avó? Deus deixou o assassino atirar em todos por que ele quis? Se ele é Todo-poderoso (compreensão que não se encontra na Bíblia) por que permitiu?
É difícil digerir isso, mas o fato é que o mal se dá na própria finitude do ser humano. A finitude implica imperfeição, e o que sofre de imperfeição é passível do mal porque está em processo de construção. Em qualquer realidade finita e limitada o mal é uma possibilidade. Neste sentido o mal não está em Deus, mas sim na limitação e finitude do mundo e do ser humano. Além do mais, o ser humano já provou que quem conduz a sua história é ele mesmo, e em importantes momentos dela, ele deixou Deus de fora.
As pessoas que questionam Deus diante das tragédias, não podem esquecer que o próprio Deus já presenciou e participou de algumas. Dois exemplos marcantes: 1). Israel no exílio: quando da invasão do exército de Nabucodonosor (2Rs 24-25), destruiu a cidade de Jerusalém e o Templo, centro de referência para a presença de Deus no meio do povo, as pessoas perderam suas terras, religião, família e sentimento de nação e foram habitar em terras estranhas (Sl. 137). Deus padece com o seu povo, sofre com suas dores. Diante da tragédia do exílio, profetas como o Segundo-Isaías irá transportar as histórias de Deus com o povo de Israel para o futuro (Is. 40) e delas tirar esperança de dias melhores; 2). O Calvário: outra tragédia que Deus participa e sofre junto é a cruz, expressão máxima de seu amor, mas também confirmação de que a humanidade pode construir a sua própria história sem se ater a sua vontade. No Gólgota, transparece a impotência divina sendo sucumbida pelo mal. Deus não planeja, muito menos permite, mas suporta a morte como algo inevitável por amor. Ele sofre com Jesus na cruz. É por isso que ele sabe muito bem o que é passar por tragédias.
Diante da tragédia do Rio de Janeiro, não questiono Deus se permitiu ou não. Penso que ele padece juntamente com aquelas pessoas que perderam seus filhos numa idade que se constrói o futuro e se planeja a vida. O fato é que vamos conviver com o mal enquanto aqui estivermos porque ele faz parte da nossa condição de criaturas finitas e limitadas. Mas é importante salientar, temos Jesus que nos ensinou a compreender a vida.
5.4.11
IMPRESSÕES DE UMA AULA
Pela primeira vez em anos eu estava em Campinas por ocasião do nascimento do André no dia 12 de Março. Aproveitei a oportunidade de estar em Campinas numa data que não fosse férias para visitar a Faculdade Teológica Batista de Campinas, que, aliás, não tem mais este nome, chama-se agora, por razões legais, Seminário Batista de Campinas, um retrocesso em questões educacionais sem parâmetros, logo na cidade tida como universitária, mas este não é o caso.
Uma segunda-feira. Olhei o quadro de horários e vi as possibilidades de assistir uma aula: exegese do NT, o professor, em conversas já havia adiantado o assunto, é Crítica Textual. Pensei em ver exegese do AT. Não pretendo diminuir em nada a figura do professor, apenas quero fazer uma avaliação de prioridades na educação teológica. É claro que eu não esperava que o professor pegasse um texto e esmiuçasse mostrando algo novo dentro da teologia do autor/texto, procurando em seu contexto correspondências relevantes que clarificasse ainda mais o texto bíblico. Bobagem minha esperar que fosse encontrar isso. Mas lá estou na sala de aula. O professor está ensinado seus alunos a falar hebraico, a ler alguns textos em hebraico, o trecho em questão é o Salmo 1º. Os alunos foram inquiridos a ler e decorar a fonética do texto. Eu os vi tremendo, rindo, alguns chorando de ri e outros saindo da sala de aula. Ler em hebraico o Salmo 1º? Para alguns era demais, para mim também, mas era visitante e suportei bem aquele massacre.
O aprendizado dos originas, hebraico para o AT e grego para o NT, foi uma preocupação puramente protestante. Quando se afirma que a Bíblia é a Palavra de Deus levanta-se questionamentos como: o que é a Bíblia afinal? Diante desse fato, se procurou ler os originais com o intuito de entender o que realmente “Deus” estava dizendo. A língua vernácula não expressa de fato as “palavras de Deus”, os originais sim. É claro que as nossas traduções precisam ter credibilidade textuais, quanto a isso aqui no Brasil tem muita gente competente para isso. O problema é uso indiscriminado do literalismo como instrumento de hermenêutica. Isso apagou a diversidade de formas e estilos literários da Bíblia, ignorando os autores/comunidades, circunstâncias e contextos. Para se entender o texto bíblico se convencionou olhar os originais, pois somente assim é possível entender a Bíblia e seu real significado.
Isso é tão prejudicial para a comunidade que fica refém do pastor/pregador que subtende que conhece melhor a Bíblia porque fala, de púlpito, algumas palavras em hebraico ou grego, dizendo implicitamente que a comunidade não detém um dos principais valores da Reforma, o livre-exame da Bíblia. Aprender hebraico e grego é extremamente importante, falar não vejo tanta necessidade, agora usar o conhecimento, embora rudimentar, dos originais para fazer valer a supremacia do pastor/pregador sobre os seus ouvintes, é lamentável.
Bem, sobre a Faculdade, quer dizer Seminário Batista de Campinas, uma coisa é certa: os meus anos ali foram os melhores dentro dessa instituição teológica, por tudo mesmo, inclusive pelas aulas de exegese tanto do AT como do NT em que, se me lembro bem, não precisei recitar nenhum versículo em hebraico ou grego. Bons tempos. Uma coisa serviu em visitar a antiga Faculdade Teológica Batista de Campinas, passei pelos mesmos lugares e pude recordar as conversas entre amigos, amizades que preservo até hoje; as salas de aulas onde os professores e alunos travavam um constante debate fraterno e respeitoso sobre a diversidade de ideias. Valeu a pena ter ido.
Uma segunda-feira. Olhei o quadro de horários e vi as possibilidades de assistir uma aula: exegese do NT, o professor, em conversas já havia adiantado o assunto, é Crítica Textual. Pensei em ver exegese do AT. Não pretendo diminuir em nada a figura do professor, apenas quero fazer uma avaliação de prioridades na educação teológica. É claro que eu não esperava que o professor pegasse um texto e esmiuçasse mostrando algo novo dentro da teologia do autor/texto, procurando em seu contexto correspondências relevantes que clarificasse ainda mais o texto bíblico. Bobagem minha esperar que fosse encontrar isso. Mas lá estou na sala de aula. O professor está ensinado seus alunos a falar hebraico, a ler alguns textos em hebraico, o trecho em questão é o Salmo 1º. Os alunos foram inquiridos a ler e decorar a fonética do texto. Eu os vi tremendo, rindo, alguns chorando de ri e outros saindo da sala de aula. Ler em hebraico o Salmo 1º? Para alguns era demais, para mim também, mas era visitante e suportei bem aquele massacre.
O aprendizado dos originas, hebraico para o AT e grego para o NT, foi uma preocupação puramente protestante. Quando se afirma que a Bíblia é a Palavra de Deus levanta-se questionamentos como: o que é a Bíblia afinal? Diante desse fato, se procurou ler os originais com o intuito de entender o que realmente “Deus” estava dizendo. A língua vernácula não expressa de fato as “palavras de Deus”, os originais sim. É claro que as nossas traduções precisam ter credibilidade textuais, quanto a isso aqui no Brasil tem muita gente competente para isso. O problema é uso indiscriminado do literalismo como instrumento de hermenêutica. Isso apagou a diversidade de formas e estilos literários da Bíblia, ignorando os autores/comunidades, circunstâncias e contextos. Para se entender o texto bíblico se convencionou olhar os originais, pois somente assim é possível entender a Bíblia e seu real significado.
Isso é tão prejudicial para a comunidade que fica refém do pastor/pregador que subtende que conhece melhor a Bíblia porque fala, de púlpito, algumas palavras em hebraico ou grego, dizendo implicitamente que a comunidade não detém um dos principais valores da Reforma, o livre-exame da Bíblia. Aprender hebraico e grego é extremamente importante, falar não vejo tanta necessidade, agora usar o conhecimento, embora rudimentar, dos originais para fazer valer a supremacia do pastor/pregador sobre os seus ouvintes, é lamentável.
Bem, sobre a Faculdade, quer dizer Seminário Batista de Campinas, uma coisa é certa: os meus anos ali foram os melhores dentro dessa instituição teológica, por tudo mesmo, inclusive pelas aulas de exegese tanto do AT como do NT em que, se me lembro bem, não precisei recitar nenhum versículo em hebraico ou grego. Bons tempos. Uma coisa serviu em visitar a antiga Faculdade Teológica Batista de Campinas, passei pelos mesmos lugares e pude recordar as conversas entre amigos, amizades que preservo até hoje; as salas de aulas onde os professores e alunos travavam um constante debate fraterno e respeitoso sobre a diversidade de ideias. Valeu a pena ter ido.
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