5.5.11

UM CRISTIANISMO SEM RELIGIÃO

Apontamentos em torno de um movimento

Não é novidade o questionamento da religião como instituição reguladora da espiritualidade e moralidade. O expoente mais proeminente desse tipo de questionamento foi D. Bonhoeffer, mártir e pastor alemão. O luterano advogava um Cristianismo não religioso, uma espiritualidade que não tivesse a tutela da igreja/instituição. A Europa foi abalada pela 2ª Guerra Mundial, e teólogos como P. Tillich, por exemplo, formularam uma teologia da vida, algo destituído da religião institucionalizada. A igreja/instituição deixou de ter a sua preponderância após guerra.

Hoje estamos vivenciando um movimento dos “sem-igreja”. São pessoas que se cansaram do sistema regulador que a igreja com suas regras, preceitos e rituais impõe. Este movimento começa nos EUA, como tudo em matéria de religião. Lá livros como o de Wayne Jacobsen e Dave Coleman – POR QUE VOCÊ NÃO QUER IR MAIS À IGREJA? (Editora Sextante), estão fazendo sucesso. É um texto que procura encontrar a dimensão originaria do Cristianismo e questiona a estrutura eclesiástica como forma de ensinar a espiritualidade. Outro texto é do pastor Brian McLaren – UMA ORTODOXIA GENEROSA (Editora Palavra), em que propõe uma revisão no que a igreja chama de dogmas, doutrinas. Um livro instigante. Aqui no Brasil um autor que ganha destaque pela sua maneira despojada e, até mesmo às vezes, debochada de escrever é Paulo Brabo com o seu blog que virou livro, A BACIA DAS ALMAS (Editora Mundo Cristão). Com textos provocantes e contextualizados, Brabo questiona a maneira equivocada da igreja/instituição entendeu/entende a mensagem de Jesus. Ele pontua de que é possível separar Jesus da Bíblia e da Igreja. Um Cristianismo sem nenhum contato com as regras e a batuta da igreja/instituição.

Hoje estou lendo um texto de David N. Elkins, ALÉM DA RELIGIÃO (Editora Pensamento). O autor é um decepcionado com o sistema religioso herdado dos pais. Como pastor experimentou algumas frustrações, a nível espiritual e teológico. A temática do livro é a separação entre Espiritualidade e Religião. Para Elkins, o desenvolvimento espiritual não tem qualquer relação com práticas, ritos e costumes de uma religião, mas com o milagre da vida. Um erro que o autor aponta, e que é tão comum em nossas comunidades, é associar a vida espiritual/espiritualidade com o ir à igreja/templo. Como é corriqueiro ouvirmos de alguém de que a sua vida cristã depende de quantas vezes ora durante o dia, ler o texto bíblico ou vai ao templo.

Um dado interessante que D. Elkins coloca no seu texto é que o movimento da espiritualidade sem a mediação da igreja/instituição não começou agora. O movimento da New Age é totalmente destituído de confissão religiosa. Esse movimento produziu palestras, vídeos, livros e muitos deles traduzidos no Brasil, com um discurso espiritualizado a partir de ramificações variadas.

Alguns estudiosos do tema estão apontando a crescente diminuição das religiões institucionais. No Brasil ainda não sentimos isso de um modo acentuado porque aqui ainda reina um imaginário religioso muito forte. Embora o IBGE/2010 apontou o crescimento significativo dos “sem-religião” no país. Hoje há um grande trânsito religioso, um verdadeiro supermercado, por conta também das denominações neopentecostais. Dentro disso tudo há um fato interessante. Na cidade de São Paulo o crescimento do Budismo é espantoso, há cada vez mais pessoas aderindo às filosofias e seitas orientais em busca de sentido para as suas vidas.

Onde ficamos nisso? Enquanto não tivermos uma visão globalizada dos dilemas da nossa sociedade e não soubermos ler os “sinais dos tempos”, nossas igrejas estarão preocupadas com assuntos triviais e supérfluos. Um moralismo farisaico e sadomasoquista que alguns chamam de espiritualidade não terá mais oportunidade em uma sociedade que tem na tecnologia a sua maneira de ver o mundo e se expressar. É preciso contrariar F. Nietzsche quando diz que “a igreja é justamente aquilo que Jesus pregou contra e ensinou os seus discípulos a lutar”. É preciso mudar, do contrário poderemos ser uma religião sem Cristianismo.

3 comentários:

Luiz Carlos disse...

Muito bom artigo. Todos vivemos esta realidade, só não sabemos ainda como resolvê-la. Pois todos estes que dizem ter resolvido este problema vão descubrir mais tarde que formaram uma nova religião, "os sem igreja".

Alonso Gonçalves disse...

Olá Luiz,

Fico contente com o seu comentário.

Concordo com vc, este problema precisa ser encarado com os que estão dentro de nossas igrejas. É preciso transformar nossas igrejas em verdadeiras comunidades.

Um forte abraço.

Marildo D. R. disse...

Tenho certeza de que os filhos de Deus estão vindo a luz, estamos passando um momento de transição, onde estamos saindo de um mover superficial para um mover profundo, de um amor uns pelos outros superficial, vago para um amor verdadeiro, estamos saindo de uma adoração ritualística, para que nossas vidas seja a própria adoração a Deus.
Este é um momento da manifestação dos filhos de Deus, aqueles que são participante da natureza Divina, que são revestido do Senhor Jesus Cristo, que priorizam o relacionamento a convivência uns com os outros.
Que tem por mais precioso a prática da palavra, o exercício do amor uns pelos outros.
Estamos deixando a superficialidade, uma comunhão religioso uns com os outros, para entram em uma comunhão
sólida profunda, uma comunhão de relacionamento, de intimidades, de amor uns com os outros.
O amor vem de Deus, e todo o que ama é nascido de Deus e conhece a Deus.
Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor.
Porque a todo aquele que tem será dado, e terá em abundância; mas daquele que não tem, até o que tem será tirado.