21.6.11

POR QUE NÃO SOU EVANGÉLICO?

Confesso que a cada dia que passa, tenho resistência em dizer que sou evangélico. Não qualifico mais a minha comunidade como evangélica, por entender que a nomenclatura, no atual contexto brasileiro, não condiz mais com a origem do termo na história do Cristianismo.

Num primeiro momento acho que Igreja Evangélica Brasileira não existe! Isso se dá pelo simples fato de que no segmento religioso brasileiro conhecido, popularmente, como evangélico há uma verdadeira babel doutrinária, litúrgica, teológica e ética. Não podemos nos misturar, infelizmente, porque há mais o que nos separam do quê o que nos unem. É claro que isso é resultado de um longo processo histórico desse segmento cristão (abaixo sintetizarei) que tem como característica a divisão. Isso não ocorre, por exemplo, com a Igreja Católica que tem no Papa e no Magistério a sua força de coesão. Quanto aos denominados evangélicos não há coesão, há exclusivismo, aglutinação de igrejas com seus nomes mais diversos possíveis, contendo aí uma diversidade teológica e de ênfase incrível. Quando digo que não existe uma Igreja Evangélica Brasileira, é porque há diversos blocos denominacionais que impedem a convergência e a fraternidade, é claro que há exceções, principalmente no ramo Protestante. O termo evangélico aparece na Reforma Protestante no século XVI, onde os principais personagens o usavam para qualificar um retorno às crenças e às práticas bíblicas em contraponto ao catolicismo da Idade Média. Hoje o seu sentido nem passa perto disso.

É possível sintetizar essas transformações. Num primeiro momento há Cristianismo, com os apóstolos, a igreja perseguida pelo Império Romano, os escritos do Novo Testamento, a mensagem de Jesus proclamada. Depois há a Cristandade, a partir do imperador Constantino no século IV quando torna o Cristianismo religião do Império. É a partir desse momento que as coisas começam a se complicar. Há uma bifurcação entre política e religião; uma dominação religiosa que envolve templo e clero. É aqui que as divisões não param. Os Concílios Ecumênicos que se sucederam depois desse alinhamento prova isso, marcados por divergências filosóficas, teológicas e bíblicas em torno de temas como divindade de Jesus e Trindade. Depois da Cristandade surge o Protestantismo como movimento de protesto aos desmandos da Igreja Católica como, por exemplo, as indulgências, além de enfatizar a autoridade das Escrituras; é com o Protestantismo que aparece o Denominacionalismo, irmão gêmeo do Institucionalismo, com uma estrutura organizacional que compreende várias congregações locais “unidas” com base num mesmo princípio doutrinário, teológico e litúrgico. A diversidade é uma marca perceptível das denominações, onde cada uma quer ser a máxima representante do Cristianismo com sua ética, regras, comportamentos, doutrinas. Cada uma formula o seu dogma, sua fé, causando uma multifacetação do Protestantismo. O Pentecostalismo é derivado disso, colocando a ênfase na doutrina do Espírito Santo e nos dons espirituais.

No Brasil há pelo menos três blocos denominados de evangélicos, ou que são qualificados como tal. São eles: o protestantismo histórico (Batistas, Metodistas, Presbiterianos); o pentecostalismo clássico (Assembleia de Deus, Congregação Cristã, Evangelho Quadrangular); neopentecostalismo (Universal, Internacional, Renascer, Sara Nossa Terra, Mundial). Ocorre que neste momento o terceiro bloco, o neopentecostalismo, está na mídia dizendo o que é ser evangélico hoje. Quando a sociedade olha para a igreja não católica, são os neopentecostais que ela enxerga sendo os evangélicos. Para a sociedade em geral a matriz do cristão evangélico é a igreja eletrônica com seus bispos, apóstolos, “homens de Deus”. A fonte são eles hoje, infelizmente. A sociedade e a imprensa brasileira não qualificam quem é Protestante histórico, quem é Pentecostal e quem são Neopentecostais. Certa ocasião, por exemplo, o Jornal Nacional (Rede Globo) fez uma série de reportagens sobre os Protestantes, quando falou sobre os Batistas o ancora do JN qualificou como Pentecostais. Prontamente surgiram dezenas de e-mails solicitando que o erro fosse reparado, na edição do dia seguinte o JN corrigiu o mal-entendido.

Se o termo evangélico voltasse a ser designado como uma posição teológica na autoridade das Escrituras e uma experiência pessoal de fé em Cristo, com certeza usaríamos a nomenclatura com prazer. Mas enquanto o termo evangélico for associado a um punhado de gente que se diz apóstolo, bispo, Grande Homem de Deus que faz da chantagem emocional o veículo para extorsão não cabe aqui ser identificado como evangélico. Não gostaria de ser associado a um grupo que tem como meio de bênção apetrechos como sabão ungido ou sal grosso como mecanismo para se alcançar a prosperidade; não quero ser confundido com pregadores que ludibriam pessoas com mensagens sensacionalistas a partir de uma hermenêutica pobre; não quero fazer parte de um grupo que tem no Espírito Santo o maior causador de divisões no ambiente pentecostal. Se for para ser evangélico nessas condições prefiro ser identificado como cristão, assim como os irmãos de Antioquia (At. 11,26) que, por si só, implica numa série de prerrogativas, sendo a principal delas, a identidade com Cristo. Isso já basta.

2 comentários:

Flávio Sobreiro disse...

Parabéns pelo artigo e pela clareza das idéias. Creio que precisamos sim resgatar a essência cristã. Na busca por uma definição acabamos colocando todos na mesma panela. A realidade eclesial é bem diferente do que a mídia tenta impor aos telespectadores. Azul não é verde. Aglomerados de pessoas que interpretam as Sagradas Escrituras segundo suas carências pessoais e monetárias não é sinônimo de cristão.


Abraço fraterno!

Alonso Gonçalves disse...

Seja bem-vindo Flávio.
Obrigado pela participação.