8.3.10

A MULTIPLICAÇÃO DE IGREJAS EM IPORANGA

Em cidades como São Paulo a proliferação de igrejas é incrível. A todo o momento esta surgindo outra “igreja” com um nome bizarro, o mais criativo possível. Num bairro onde tenho parentes, há alguns anos atrás havia pouquíssimas igrejas, hoje em uma mesma rua há nove, isso mesmo nove, todas se dizendo pentecostal.

Parece que este surto esta acontecendo aqui na nossa cidade. Está surgindo igrejas de todo o tipo: do tipo divisão de uma e depois divisão de novo. Só há este dois tipos de igrejas aqui, a Primeira Igreja Divisionista e a Segunda Igreja Divisionista, ambas reivindicando o poder do Espírito Santo. Até agora não vi nenhuma igreja que tenha começado com um trabalho missionário coerente com o Evangelho, um trabalho de evangelismo mesmo de pessoas que não conhecem uma igreja, mas apenas igrejinhas surgindo em cima de igrejinhas. Pergunto em que essas novas igrejas estão contribuindo para o Evangelho na cidade? Como as pessoas irão entrar em uma dessas igrejas em que os que estão lá dentro não se dão bem e por questão de vaidade, poder ou qualquer outra coisa saem abrindo outras igrejinhas à imagem e semelhança de seus líderes? Parece que a quantidade de novas igrejas na cidade não esta abençoando em nada as pessoas, pelo contrário, as pessoas estão fazendo chacota, e o Evangelho está perdendo a credibilidade com isso. Ainda bem que neste miolo as pessoas sabem identificar quem é quem, e os batistas continuam sendo identificados como BATISTAS, como protestantes.

Historicamente a igreja que mais se divide é a Assembleia de Deus. É só olhar ao redor para ver a quantidade de assembleias de Deus que há por aí. Aqui mesmo na cidade temos duas igrejas de divisão histórica, a Assembleia de Deus Ministério do Belém (uma divisão da Primeira Igreja Batista em Belém, Pará) e a Assembleia de Deus Ministério Madureira, uma divisão que ocorreu no bairro Madureira no Rio de Janeiro. Uma do lado da outra. Recentemente chegou à cidade mais uma Assembleia de Deus, Ministério Vale do Ribeira, uma divisão da Assembleia de Deus Ministério Santos, que bagunça, dá até para confundir a cabeça. O detalhe é que essas igrejas têm o mesmo discurso: a posse do Espírito Santo. Alguns se acham donos do Espírito Santo e por isso criticam e até mesmo não conversam com cristãos batistas porque acham que os batistas não têm o Espírito Santo, e quem decidi quebrar esta regra por lá é taxado de frio, de crente geladeira, de amigo dos batistas.

Por não ter um aprofundamento bíblico sobre o Espírito Santo, nossos irmãos pentecostais acham que pular, gritar e falar a tal “língua dos anjos” é estar com o Espírito Santo. Ocorre que a Bíblia ensina que o Espírito Santo promove a paz; ensina que o seu fruto é amor, longanimidade; ensina que é ele quem proporciona a unidade da Igreja; é ele quem capacita com os dons espirituais para a edificação da Igreja e não para vaidade pessoal; a Bíblia ensina que o Espírito Santo não é de confusão, mas de harmonia; o Espírito Santo é o responsável por nos apontar para Cristo, portanto o centro do culto não deve ser necessariamente o Espírito Santo, mas Cristo.

Hoje na cidade de Iporanga ninguém pode alegar que nunca ouviu falar de Jesus Cristo. Já ouviram e agora estão vendo a bagunça religiosa que se formou aqui. O testemunho é pessoal, é de vida, é de caráter, é de identidade mesmo. Só conseguiremos falar para alguém sobre Cristo quando elas virem em nós o caráter de Cristo.

4.3.10

CRISTÃOS ANÔNIMOS

No último texto publicado neste blog, o Pr. Natanael Gabriel da Silva (doutor em Ciências da Religião pela UMESP), postou com muita propriedade um comentário em que fala do teólogo católico Karl Rahner, aliás, autor pesquisado em sua dissertação de mestrado e tese doutoral, acerca do “cristianismo anônimo”. Com isso ele coloca a questão do Cristianismo em outras dimensões, não somente aquela institucional e dogmática. Uma expressão que chamou minha atenção foi a “teologia da afetividade”, no sentido de que hoje, inevitavelmente, é preciso olhar com afeto e nem tanto com regras. Como deixei claro no comentário subsequente, o próximo texto que estaria indo ao ar seria sobre o teólogo alemão, que aprendi a ler com o próprio Natanael. Sua ideia seria analisada justamente porque, sendo um teólogo confessional, Rahner ultrapassa os limites da Igreja colocando Cristo em cada pessoa que seguisse o seu projeto humano-espiritual. Ocorre também que juntamente com alguns colegas do Vale do Ribeira estar-se pensando nos desafios que a cultura hodierna coloca diante da religião e da denominação enquanto instituição. Não somente nós, mas outros autores batistas, dentre eles Lourenço Stelio Rega em artigo publicado no O Jornal Batista com o título: “O bonde atrapalha o trânsito”, em que abre uma discussão sobre o real papel das instituições denominacionais como a CBB que corre um sério risco de cair no obsoletismo. Ainda em cima desse assunto, no dia 20/Fev realizamos a 1ª Mesa Redonda entre Pastores em Jacupiranga cujo tema foi as dificuldades dialógicas dos batistas com os paradigmas da pós-modernidade.

O sentimento religioso não vai deixar de existir, mas a religião institucionalizada deve passar por transformações, por mudanças que gerem vida. Como colocar diante da nova cultura uma postura mais afetiva, solidaria e companheira? Na expressão do Pr. Natanael isso é possível apenas quando pensarmos a teologia a partir da afetividade, do afeto mesmo, do amor; com a mudança da velha maneira de ler o mundo e nossa relação com ele.

Por mais que a comunidade seja o melhor lugar para se esta, a Igreja não é detentora da salvação. Há uma revelação de Deus que não passa pelo dogma, ritos ou declarações doutrinárias. No entender de Karl Rahner essa revelação seria um conhecimento de Deus atemático, ou seja, sem ainda sistematizar em que se vai crer. Essa dimensão no ser humano, segundo Rahner, é fruto da sua natureza transcendental. A antropologia teológica do teólogo alemão é transcendental. A experiência transcendente orienta para o mistério de Deus, portanto é um conhecimento atemático e anônimo de Deus. Com isso, segundo Rahner, todo aquele que vive valores humanos e religiosos relacionado ao projeto salvífico de Deus em Cristo Jesus é um “cristão anônimo”, sem a necessidade de conhecer tal relação entre Jesus e seus valores.

Acontece que nossa soteriologia é de gueto. Só é “salvo”, neste sentido, aquele que levanta sua mão num apelo no culto de domingo à noite. A própria postura das juntas missionárias trabalha com critérios de “conquistas” ou “ganhar” almas para Cristo!

Não esta se negando a atividade missionária da Igreja, mas os critérios adotados para se levar o Evangelho. Não se leva em consideração a revelação atemática de Deus; trabalha-se com a dialética nós/eles, como se fossemos os portadores auto-suficientes da mensagem de Cristo; ignora-se ainda que aqueles que não seguem o mesmo rito ou orientação de fé são considerados “não-convertidos”. Isso é tão real que há quem questione a vivência cristã de Zilda Arns!

Esse dualismo estabelecido em nossa postura de profano/sagrado, Igreja/mundo, obscureceu a nossa maneira de enxergar o mundo e suas possibilidades de ver Deus. Parece que estamos agindo como os discípulos que proibiram certo homem agir em nome de Jesus porque não andavam com eles.

26.2.10

REPENSANDO O CONCEITO DE RELIGIÃO

É interessante ver que o conceito religião sofreu alterações no decorrer da história. Um termo tipicamente romano religio, dentro do universo político romano, era basicamente um sistema de comportamentos que o cidadão romano deveria ter diante da república. Com Agostino e Tomás de Aquino o conceito religare passa a ser vertical, uma relação homem-Deus e não mais uma relação cidadão-república. Apenas um adendo.

Tenho lido alguns autores que pontuam o fim da religião institucional numa era tecnológica, global onde o multiculturalismo e a urgência de diálogo se fazem necessária, tornou-se imprescindível o repensar o lugar da religião neste contexto.

Até pouco tempo atrás a religião tinha um status de soberana sobre a vida humana. Valendo-se do apoio metafísico, o discurso religioso era construído em torno da ontologia, a busca pelo Ser. Na modernidade a filosofia irá se preocupar não com a ontologia, o sentido do Ser, mas com a subjetividade, a consciência. Daí a centralidade da razão com I. Kant, onde a pretensão de conhecimento da metafísica será questionada, transitando agora pelo campo da experiência, da razão prática.

Com a secularização e a globalização, a religião se vê num dilema: antes era possível uma religião burocrática, fixada em suas posições doutrinárias e dogmáticas, agora uma realidade de fraqueza e impotência em relação ao Homem pós-moderno. A secularização relativiza a religião; o fim da metafísica leva a repensar a transcendência. Se antes a religião era centralizadora, hoje se faz desnecessária num contexto de sociedades flutuantes e dinâmicas, pelo menos no Ocidente.

Como tentar recuperar o conceito religião neste atual contexto? Este processo foi o mesmo que F. Nietzsche trilhou. Quando em seu texto Assim falou Zaratustra o filósofo alemão proclama a “a morte de Deus” não é uma posição atéia, mas uma revolta contra um sistema religioso que não tinha mais nada a acrescentar às pessoas. Por um lado a religião estava em crise do ponto de vista institucional, por outro lado F. Nietzsche compreendia que na religião havia ainda a posse da espiritualidade, do Sagrado, do sentido para o Homem contemporâneo. A “morte de Deus” era a morte do Deus metafísico.

Assim como religião não pertence mais a lugares específicos de produção simbólica, o conceito de Sagrado esta ganhando outras proporções também. O indivíduo molda sua crença em torno da disponibilidade religiosa que encontra. Neste sentido se antes religião significava códigos definidos, ritos, normas morais e discurso institucional, agora carrega em seu campo semântico a ideia de busca pela transcendência, o ato de transcender, a busca pelo bem-estar espiritual. O lado negativo disso é que os neopentecostais, inconscientes ou conscientes, levam milhares de pessoas em seus templos em cima desta nova temática de religião.

Eis o problema. De um lado a religião institucionalizada não é mais atrativa; por outro lado ainda chama atenção a espiritualidade e os valores pregados pela religião. Caso típico disso é os católicos que admiram e seguem os preceitos de Dalai Lama.

A questão é abrir caminhos para dialogar com este tempo em que o místico substituiu o doutrinário, o afetivo superou o ritual e o experiencial suplantou o institucional. Seremos capazes de ler este tempo?

19.2.10

ESPIRITUALIDADE SECULARIZADA

Considerações de Marià Corbí Quiñonero

Um dos principais pesquisadores no tema cultura e religião, Marià Corbí Quiñonero, teólogo espanhol, no texto intitulado La gran crisis de las religiones y el auge de los integrismos expõe a crise que passa as religiões neste processo de globalização e aponta projeções para as vivências religiosas, entre elas o que ele chama de espiritualidade secularizada.

Partindo sobre os pressupostos de que o mundo passa/ou por transformações e mudanças culturais, Marià Corbí entende que vivemos um grande trânsito cultural, não há mais condições para um etnocentrismo ou o fundamentalismo coexistir com esta dinâmica, ainda que haja em países e culturas esta mentalidade, mas, segundo ele, será inevitável a superação dessas formas de vê o mundo pela globalização e a secularização.

Entendendo que as religiões foram desenvolvidas em uma época pré-industrial, e, que portanto, as crenças e a maneira de ver o mundo passa pelo mito, pelos símbolos, pelas narrações sagradas, Corbí acredita que esta maneira de ver o mundo foi superada ocorrendo a primeira secularização. Esta se deu quando o cristianismo travou sangrentas guerras em nome de Deus, de forma inevitável, a secularização abarcou o Estado e a vida pública das pessoas, deixando a opção religiosa sob a escolha de cada um. Este processo teve como impulsionador o Iluminismo, a Revolução Francesa e para fechar mesmo a Revolução Americana e sua Constituição com a liberdade religiosa. Com isso Corbí entende que as religiões entraram numa crise de sentido por não saber dialogar ou se inserir neste processo, surgindo então dois caminhos: postura conciliatória de diálogo e compreensão dos novos tempos ou fundamentalismo, o que ele chama de integrismo, se fechando para o mundo e suas transformações. Mas isso não é tudo nesta crise religiosa, o espanhol entende que a segunda secularização é pior que a primeira. Na primeira é dado ao indivíduo escolher, ainda uma religião institucional, a segunda secularização passa pela espiritualidade, ou seja, é quando o indivíduo entende que não precisa da mediação institucional ou ortodoxa para vivenciar a sua espiritualidade. Desse modo religião e espiritualidade não são mais inseparáveis, são dicotômicas de fato.

Em nenhum momento cogita-se a perda da dimensão do Sagrado. Ocorre que esta independência religiosa ou espiritual segundo Corbí foi gestada aos poucos. Ele aponta quatro momentos para isso: o desaparecimento das sociedades pré-industriais, onde há economia o sentimento religioso é adormecido; a constante mudança no mundo como globalização, inovações, maneiras de organizar-se e pensar, desconsiderando os costumes e as tradições religiosas; a compreensão de que a história esta nas mãos das pessoas e não em divindade; e por último e o mais importante, as diferentes religiões alegando o exclusivismo e a verdade absoluta levando ao raciocínio de que quando todas as religiões promovem o exclusivismo significa que todas não têm exclusividade, portanto são todas bem vindas.

Este texto foi escrito para o contexto europeu, mas segundo Corbí é uma tendência mundial a chamada espiritualidade secularizada. Estamos começando a vivenciar isso por aqui quando um IBGE diz que mais de 6% da população brasileira não professa nenhuma religião, mas acreditam em Deus.

15.2.10

O DESAFIO DO MULTICULTURALISMO

Com uma raiz religiosa diversificada, o Brasil abarca um amálgama de rituais, religiões e sincretismo incrível. É interessante como tudo aqui se pega. Antes dos portugueses os índios vivenciavam a sua religião. O processo de colonização expropriou os índios de suas terras e exterminou quase por completo a sua cultura. Junto com a invasão veio a religião cristã, especificamente a Igreja Católica. Não sabendo lidar com a cultura indígena, tratando-a como inferior, os missionários identificaram parte de sua religiosidade como sendo demoníaca, forçando os índios, por meio das armas, a uma pretensa conversão àquele cristianismo que não tinha nada a ver com Cristo. Dentro do afã por conquista e desbravamento do chamado “novo mundo”, os exploradores trouxeram os escravos. Outro povo que vivenciava a sua religião, animista é claro, mas fruto de uma cultura. Assim como os índios, os negros sofreram perseguição religiosa e foram forçadamente catequizados, e para não sofrer mais ainda, deram nomes de santos às entidades do candomblé, daí o sincretismo na Bahia que a Igreja Católica faz vista grossa.

No século XIX chegou os protestantes e com eles o ideal de mudanças na política, educação, tecnologia e, é claro, na religião. O estilo branco de ser dos protestantes fez a mesma coisa que os colonizadores portugueses, discriminaram e amaldiçoaram a cultura local, com uma clara pretensão de estabelecer a cultura norte-americana. Com isso, negros e índios não tiveram espaço no itinerário missionário. Só para constar, o primeiro missionário batista no Brasil foi Thomas Jefferson Bowen, chegou ao Rio de Janeiro em 1860, antes tinha sido missionário na Nigéria, África, e dominava o idioma, o ioruba. No Brasil Bowen começou a conversar com os negros, resultado: foi preso. Não foi bem visto conversando com negros.

O fato é que no Brasil há uma diversidade cultural. O multiculturalismo dá sentido a este país. Infelizmente os protestantes não souberam trabalhar com isso, avançando em outras frentes, mas não na cultural e isso acarretou em distanciamento do povo. Hoje a conversão ainda se dá em ruptura completa com a cultura popular, não há um trabalho de inserção na cultura, mas um esfriamento e uma clara reprodução de padrões que não fazem parte da construção cultural do país. Ignora-se a afrobrasilidade; não há um indicativo de aproximação com a tradição católica, até porque no processo de assentamento protestante as disputas foram com os católicos, mas isso não tem mais razão de ser.

A sociedade de hoje é global e a religião ainda não encontrou seu lugar neste processo. A pluralidade religiosa na sociedade tida como pós-moderna é um fato. A tecnologia, a ciência não conseguiu extirpar do homem o sentimento religioso. Mais do que nunca se faz necessário diálogo, entender o outro, procurar no outro pontos em comum que aproxima e não pontos que distancia. O fundamentalismo religioso ou político já provou que não leva a lugar nenhum! Um George Bush passou pela história norte-americana como se não tivesse existido, o seu fundamentalismo político-religioso só fez aumentar mais ainda o ódio. O que ele deixou? Duas guerras catastróficas para o Obama. O fundamentalismo islâmico, católico ou protestante não promoverá a paz entre as religiões, pelo contrário, se for assim ainda será possível ver uma guerra religiosa com a anuência de Deus.

A nossa brasilidade é um tremendo desafio às igrejas históricas. Ainda é possível ouvir discussões tolas de que bateria não pode ficar dentro do templo, logo aqui no país do carnaval. É preciso enfrentar a cultura brasileira e fazer um esforço para dialogar com ela, do contrário continuaremos sendo inoperantes.

1.2.10

DESAFIOS À IDENTIDADE BATISTA

A Convenção Batista do Estado de São Paulo (CBESP) criou o Grupo Pró Visão Estratégica para estudar e apontar perspectivas no campo da unidade denominacional, identidade batista e história dos batistas. Neste intento, a CBESP denominou o dia sete de março para celebrar a unidade batista no Estado de São Paulo. Como batista achei a ideia e a iniciativa ótima, como pastor batista vou levar a comunidade que pastoreio a realizar isso, pois acho que sofremos de um déficit de memória muito grande. Uma gente que não sabe de onde os batistas vieram, os princípios defendidos, os homens e mulheres que deram suas vidas pela causa batista. De mais a mais, os protestantes sempre se preocuparam com a questão da identidade, até os pentecostais denominados clássicos estão se preocupando com sua história marcada por divisionismo, porque um grupo como os batistas não se preocuparia com isso? Aliás, é alarmante o número de cristãos batistas que não conhecem a história da denominação, isso precisa mudar e este projeto da CBESP veio em momento oportuno.

Não quero apenas apontar o mérito da iniciativa do celebrando a unidade, quero pensar em que sentido nossa denominação poderia contribuir; quais assuntos/temas merecem a nossa atenção; como dialogar com esta sociedade marcada pelo paradigma da pós-modernidade. Percebo que há no Estado de São Paulo muitos preocupados com isso. Ordens dos Pastores Batistas regionais estão elaborando estudos e grupos de reflexão sobre esta temática, sinal de que o assunto esta em voga.

Continuo batendo na tecla de que precisamos pensar o pluralismo teológico. Há uma escassez de abordagens em torno de outras vertentes teológicas; uma completa ignorância quanto à teologia latino-americana, ainda há uma produção de conteúdos importados da matriz, os EUA. O pluralismo teológico é um fato, é preciso abrir diálogo com outros segmentos do Cristianismo e contribuir com a herança batista. Ainda há poucos teólogos batistas na Academia pensando e produzindo teologia com qualidade, porque desde sempre a preocupação da educação teológica foi treinar pastores apenas.

Há necessidade de uma leitura dos tempos. Velhas respostas não satisfazem mais o homem pós-moderno. Sem prejudicar a identidade, é preciso ter um discurso que englobe os anseios da pós-modernidade e tenha o que dizer sobre: células-tronco; aborto; homossexualismo; corrupção na política; mídia; vida. Mas parece que a preocupação com esses e outros temas ainda não chegou à cúpula da denominação, a julgar pelo departamento editorial (JUERP) e sua grade curricular de periódicos para a Escola Bíblica Dominical onde os assuntos para os jovens/adultos, até 2016, abordam apenas temas bíblicos, e nenhum tema contemporâneo.

Espero que não apenas a unidade batista seja o ponto de discussão, mas também outros temas que exigem a nossa atenção.

1.12.09

A IMPREVISIBILIDADE DA VIDA E A FÉ EM DEUS

Estou trabalhando com a Igreja no Livro de Salmos. Considerando que os salmos são uns dos únicos textos do Antigo Testamento em que as palavras são dos homens para Deus, diferente do restante do AT em que as palavras são de Deus para os homens. Um livro de poesia, música, orações. São textos que revelam as aflições daquele que tem em Deus seu amigo, companheiro, alvo da sua adoração. Por isso os textos estão repletos de louvor, contrição, emoção, raiva, medo, clamor, lamentação, desespero, esperança, reivindicação, em suma os salmos é humano demais.

No último domingo de novembro coloquei diante da comunidade o Salmo 73. Um texto difícil para uma comunidade em que a maioria das pessoas tem extrema dificuldade em conciliar a fé com as contingências da vida. Muitos têm medo de questionar a sua fé em um mundo de desgraças e tragédias; um mundo em que pessoas boas morrem e pessoas más se dão bem em seus negócios escusos e fraudulentos. Essa é a questão do salmista: “quanto a mim, os meus pés quase tropeçaram; por pouco não escorreguei. Pois tive inveja dos arrogantes quando vi a prosperidade desses ímpios”. O autor é corajoso quando levanta a questão: aqueles que não estão nem aí para o Senhor se dão bem, e aqueles que temem a Deus nem tanto!

É preciso entender o salmo dentro do contexto teológico da época, a chamada teologia da retribuição. Como no AT ainda não havia nenhuma doutrina de pós-morte, pois entendiam que depois da morte tudo se acabava (Sl 115,17), acreditava-se que as bênçãos do Senhor eram para a vida presente. Quem fazia o bem recebia coisas boas, quem fazia o mal recebia coisas más. O autor do 73 irá comprovar empiricamente que esta lógica teológica não estava de acordo, pois isso não acontecia com ele, é a partir disso que ele começa a processar sua fé em cima dessas questões e chega a conclusões interessantes que foge e muito do conceito triunfalista do evangelho que vemos hoje.

Tentei mostrar à comunidade que é possível crer em Deus apesar do mal. Os cristãos hoje estão acostumados a entender que aqueles que têm fé em Deus nada de ruim os acontecem, estão isentas de problemas; neste sentido fazer a “vontade de Deus” é sinônimo de ausência de problemas na vida. A ideia de que o mal não atinge os crentes, como se Deus tivesse uma bolha protetora, não corresponde com a vida cotidiana; outros interpretam tudo que acontece no mundo pela perspectiva de Deus alegando que tudo tem um propósito, com esta maneira calvinista de entender, a guerra tem um propósito, a menina estuprada tem um propósito. Com essas duas concepções, as pessoas são levadas a não assumir a vida com suas mazelas e dilemas, com suas contingências e imprevisibilidade. O mal faz parte da vida. Se o evangelho fosse triunfalismo o profeta Isaías não teria sido cortado ao meio, as mães de Samaria não comeriam seus filhos para matar a fome, João Batista não teria sua cabeça cortada e Jesus, vítima da maldade humana, não teria sido crucificado! Crer em Deus apesar do mal é conviver com as incoerências da vida, com os absurdos, mas ter a certeza de que “Deus é a força do coração” (v.26).

Outra postura frente a imprevisibilidade da vida é a maturidade da fé no ato de crer em Deus como ato de amor. As pessoas se decepcionam com Deus quando são frustradas em seus desejos e vontades, porque a relação com Deus é baseada na posse: ele é um deus consumido. A questão é: se Deus não pode me proteger e a todos a minha volta, para que ele serve? Como se Deus fosse máquina para funcionar de acordo com alguns comandos.

A conclusão do salmista não é reivindicar riquezas, saúde como os outros que ele estava vendo. Apesar dos problemas da vida ele reafirma o seu amor a Deus, simplesmente porque Deus faz parte da vida. Por isso, apesar do mal e das ilógicas da vida ele conclui que “bom é estar perto de Deus”.