15.2.10

O DESAFIO DO MULTICULTURALISMO

Com uma raiz religiosa diversificada, o Brasil abarca um amálgama de rituais, religiões e sincretismo incrível. É interessante como tudo aqui se pega. Antes dos portugueses os índios vivenciavam a sua religião. O processo de colonização expropriou os índios de suas terras e exterminou quase por completo a sua cultura. Junto com a invasão veio a religião cristã, especificamente a Igreja Católica. Não sabendo lidar com a cultura indígena, tratando-a como inferior, os missionários identificaram parte de sua religiosidade como sendo demoníaca, forçando os índios, por meio das armas, a uma pretensa conversão àquele cristianismo que não tinha nada a ver com Cristo. Dentro do afã por conquista e desbravamento do chamado “novo mundo”, os exploradores trouxeram os escravos. Outro povo que vivenciava a sua religião, animista é claro, mas fruto de uma cultura. Assim como os índios, os negros sofreram perseguição religiosa e foram forçadamente catequizados, e para não sofrer mais ainda, deram nomes de santos às entidades do candomblé, daí o sincretismo na Bahia que a Igreja Católica faz vista grossa.

No século XIX chegou os protestantes e com eles o ideal de mudanças na política, educação, tecnologia e, é claro, na religião. O estilo branco de ser dos protestantes fez a mesma coisa que os colonizadores portugueses, discriminaram e amaldiçoaram a cultura local, com uma clara pretensão de estabelecer a cultura norte-americana. Com isso, negros e índios não tiveram espaço no itinerário missionário. Só para constar, o primeiro missionário batista no Brasil foi Thomas Jefferson Bowen, chegou ao Rio de Janeiro em 1860, antes tinha sido missionário na Nigéria, África, e dominava o idioma, o ioruba. No Brasil Bowen começou a conversar com os negros, resultado: foi preso. Não foi bem visto conversando com negros.

O fato é que no Brasil há uma diversidade cultural. O multiculturalismo dá sentido a este país. Infelizmente os protestantes não souberam trabalhar com isso, avançando em outras frentes, mas não na cultural e isso acarretou em distanciamento do povo. Hoje a conversão ainda se dá em ruptura completa com a cultura popular, não há um trabalho de inserção na cultura, mas um esfriamento e uma clara reprodução de padrões que não fazem parte da construção cultural do país. Ignora-se a afrobrasilidade; não há um indicativo de aproximação com a tradição católica, até porque no processo de assentamento protestante as disputas foram com os católicos, mas isso não tem mais razão de ser.

A sociedade de hoje é global e a religião ainda não encontrou seu lugar neste processo. A pluralidade religiosa na sociedade tida como pós-moderna é um fato. A tecnologia, a ciência não conseguiu extirpar do homem o sentimento religioso. Mais do que nunca se faz necessário diálogo, entender o outro, procurar no outro pontos em comum que aproxima e não pontos que distancia. O fundamentalismo religioso ou político já provou que não leva a lugar nenhum! Um George Bush passou pela história norte-americana como se não tivesse existido, o seu fundamentalismo político-religioso só fez aumentar mais ainda o ódio. O que ele deixou? Duas guerras catastróficas para o Obama. O fundamentalismo islâmico, católico ou protestante não promoverá a paz entre as religiões, pelo contrário, se for assim ainda será possível ver uma guerra religiosa com a anuência de Deus.

A nossa brasilidade é um tremendo desafio às igrejas históricas. Ainda é possível ouvir discussões tolas de que bateria não pode ficar dentro do templo, logo aqui no país do carnaval. É preciso enfrentar a cultura brasileira e fazer um esforço para dialogar com ela, do contrário continuaremos sendo inoperantes.

6 comentários:

Claudinei Fernandes disse...

Seu tema não poderia ser melhor: "O desafio do multiculturalismo." É realmente um desafio. Acredito que para o protestantismo histórico de raiz fundamentalista seja muito mais que um desafio, talvez uma questão de sobrevivência ou não no futuro. Como, por exemplo, pensar em unidade sem pensar no multi, no plural? Uma teologia que não transita na cultura seria capaz de afetar as esferas da vida do povo brasileiro?
Excelente texto.

Pr. Alonso Gonçalves disse...

Acho que se nós não atentarmos para as mudanças de paradigmas que estão ocorrendo, temo que ficaremos na praia. É incrivél como ainda não foi percebido que o diálogo é extremamente necessário e fundametal neste nosso tempo. Valeu pela participação.

Rodrigo disse...

Num sei cara, acho muito tênue a linha que separa o cultural do bíblico. É preciso discernimento nesta área e trabalhar a cultura em prol do evangelho e neste sentido nenhum problema em nos "aculturarmos"...
Abração!

Pr. Alonso Gonçalves disse...

É preciso lembrar que a construção literária do AT ou do NT esta envolvido numa cultura. A religião é extremamente cultural, com um diferencial, acrescente aí a noção do Sagrado, apenas isso. A polêmica criada por Esdras depois da volta do cativeiro usando a vontade divina para que judeus abandonasse suas mulheres; no NT o processo de aculturação em que o apóstolo Paulo foi o pivo das discussões e brigas com os de Jerusalém. Ou seja, não há como tirar a cultura da religião. A nossa tradição mesmo é toda ela cultura anglo-saxão, no nosso Cantor Cristão cantamos melodia do hino oficial da Inglaterra.
Concordo que deve haver discernimento, mas engessar uma forma de ver as coisas não ajudará muito.

Valeu pela participação, vc enriquece o debate.

jeriel.brito disse...

O mundo global está sob a influência do pensamento pluralista. Concordo com você na busca por um cristianismo que não seja engessado por uma cultura. O cristianismo transcende as culturas, por isso a dimensão do evangelho na cultura vai além de apenas denunciar ou catologar expressões culturais como profanas ou demoníacas.
Parabéns pelo texto!

Pr. Alonso Gonçalves disse...

É isso mesmo! Você pegou legal a ideia. Não há como pensar o mundo de hoje sem a questão da pluralidade, este tema precisa esta em debate no nosso meio.