16.10.10

VENHA A NÓS O TEU REINO

A reflexão em torno do reino de Deus sempre foi motivo de disputa. No protestantismo o tema foi desvirtuado para o Milênio. As chamadas teologias sistemáticas colocaram o reino de Deus na seção Escatologia sempre vinculando com o amilenismo, pós-milenismo ou pré-milenismo. Na seção de Cristologia, o tema, quando não totalmente omitido, é suprimido pelos ofícios de Jesus, pela questão da hipostasia (termo grego que não tem nada haver com Bíblia) para falar das duas “naturezas” de Jesus. Por conta dessa verdadeira avalanche de teologias sistemáticas, diga se de passagem oriundas, na sua maioria, dos EUA, a teologia latino-americana foi suplantada quase por completo dos seminários e faculdades teológicas protestantes. Se aprendeu, se ensinou, se pregou que o reino de Deus será concretizado no Milênio, com isso se adormeceu, se omitiu, se conformou com o contexto social e suas mazelas na confiança de que Deus irá estabelecer o seu reino quando na consumação do mundo.

Como esta ideia foi disseminada por aqui. Há seminários que são completamente confessionais quando se trata do pré-milenismo; bíblias de estudo totalmente imparciais no estudo no assunto; teólogos que perdem amigos por não concordar com a sua posição sobre o Milênio. Quem perde com isso é a igreja que se acostumou a olhar o mundo, a sociedade, os acontecimentos pela perspectiva do futuro reino de Deus que se dará no Milênio. Influenciados pela teologia estadunidense, nossos seminários e faculdades ainda reproduzem essa visão maniqueísta e dualista da fé cristã, uma fé desvinculada da realidade social, desvinculada das questões que afetam a todos.

Para dar um exemplo. Recentemente recebi um texto de um amigo do pastor presbiteriano John MacArthur Jr. Ele escreveu o livro A sós com Deus; o poder e a paixão pela oração (Ed. Palavra). No capítulo “Venha o teu reino” MacArthur Jr. trata dos problemas morais e sociais dos EUA e dá a sua posição como teólogo sobre o reino de Deus. Segue:

A igreja tem uma única missão neste mundo: levar pessoas destinadas a passar a eternidade no inferno ao conhecimento salvador de Jesus Cristo e à eternidade no céu. Se as pessoas morrerem em um governo comunista ou em uma democracia, sob um ditador tirano ou benevolente, acreditando que a homossexualidade é certa ou errada, ou acreditando que o aborto é direito fundamental de escolha da mulher ou simplesmente um homicídio em massa, nada disso tem relação com onde elas passarão a eternidade. Se elas nunca conheceram Cristo e nunca o receberam como Senhor e Salvador, passarão a eternidade no inferno.

Em outro trecho ele completa:

Um dia o Senhor voltará para estabelecer o seu próprio reino perfeito. Então finalmente perceberemos o que temos esperado com tanta ansiedade - e o que os discípulos de Cristo do primeiro século desejavam ver - Cristo governar na terra e os povos do mundo prostrados de joelhos perante Ele.

É uma pena que ainda muitos tenham esta mentalidade ufanista e triunfalista da igreja - os escolhidos e separados do mundo vivendo num gueto que está a caminho do céu. Resumir a tarefa da igreja a céu ou inferno é um reducionismo que não tem cabimento na atual circunstância que o mundo passa. A igreja é agente do reino de Deus, ela é a mediadora desse reino. O “venha a nós o teu reino” se dá, primeiramente, na terra.

Um comentário:

Paulo disse...

O que se aborda nesse texto, contribuí ainda mais para a "minha grande crise" em relação a igreja de hoje. É dificil ver e participar de uma Religião ( no meu caso Batista ) ou sendo mais específico de uma comunidade local e não se encontrar dentro de uma realidade bíblica tão nítida e específica no que se diz respeito ao papel fundamental da Igreja. E quando ousamos questionar somos não mais surpreendidos com a frase: ta incomodado? faça sua parte. Se não fosse tão trágico ver lideres espirituais com tal mentalidade sobre Igreja, renderia algumas gargalhadas por carregar um certo teor cômico. Excelente Post.