8.7.15

LIBERTAS, OMNIUM: OS BATISTAS E A LIBERDADE RELIGIOSA

O Jornal Batista (CBB) de 05.07.2015 foi histórico.

Diante de um acontecimento desagradável com a menina Kaillane (11 anos) que sofreu agressão por estar saindo de uma cerimônia religiosa do candomblé, irmãos e pastores batistas fizeram uma manifestação contra a intolerância religiosa, repudiando não apenas o ato agressivo contra a menina Kaillane, como também qualquer discriminação e preconceito a religiosidade do outro. A manifestação ocorreu no Rio de Janeiro, cidade da Kaillane, e, além de outros pastores presentes, o Pr. João Luiz Sá Melo (pastor na Primeira Igreja Batista em Vila da Penha, bairro da menina Kaillane), marcou a sua presença nesse ato em prol a liberdade religiosa. O Jornal Batista dedicou uma edição para não só tratar desse tema, liberdade de crença, como também questões ligadas ao movimento LGBT, Ensino Religioso e Racismo. Definitivamente uma edição que representa a trajetória dos batistas e a defesa de seus princípios, entre eles a liberdade religiosa, para todos.

Os batistas, historicamente, surgem na Inglaterra do século XVII. Em meio à efervescência de movimentos emancipatórios que tem na filosofia de John Locke, por exemplo, um discurso libertário, os batistas têm traços constituídos por princípios, sendo que, em meio a princípios teológicos, os principais princípios são político-filosóficos.

Somos filhos do liberalismo inglês.

O liberalismo é uma reação ao absolutismo.

Um dos principais expoentes do liberalismo político foi, indubitavelmente, John Locke.

Na Inglaterra o apogeu do absolutismo se deu com o rei Henrique VIII, que com o apoio do Parlamento inglês, que na sua maioria eram burgueses, concentrou o poder nas mãos do rei.

Nesse cenário político, Locke foi um ferrenho defensor da liberdade civil e religiosa. Para ele “os homens são todos, por natureza, livres, iguais e independentes, e ninguém pode ser despossuído de seus bens nem submetido ao poder político sem seu consentimento”.

Os batistas são herdeiros desse pensamento e, como tal, em seus princípios a liberdade religiosa (para si mesmo, num primeiro momento como recurso de sobrevivência) e a separação entre Igreja e Estado se tornam duas lutas que custaram vidas, entre elas a de Thomas Helwys. Arguto para o seu tempo, Helwys foi um defensor da liberdade religiosa e, por isso, enfrentou o rei.

Isso nos mostra de como os batistas não podem abrir mão de sua gênese, daquilo que fizeram os ancestrais enfrentar a prisão e a morte. O autor de Uma breve declaração do mistério da iniquidade endereçou seu texto ao rei Tiago I e por isso a prisão foi sua última “casa”. Razão para isso? Em um regime absolutista nenhum rei gostaria de ver alguém propagando ideias como essas: “o rei é um homem mortal, e não Deus [...] não tem poder sobre as almas imortais dos seus súditos”.

Helwys defendeu até o último momento de sua vida a liberdade religiosa para todos: “que sejam heréticos, turcos, judeus ou o que quer que sejam, não compete a qualquer poder terreno puni-los na menor medida que seja”. Helwys morre em uma prisão em 1616.

Não podemos ser apenas tolerantes com a religião do outro. Há uma diferença entre liberdade religiosa e tolerância religiosa. É Walter B. Shurden quem esclarece isso: “a tolerância religiosa é apenas uma concessão; a liberdade religiosa é um direito”.

A manifestação envolvendo batistas no Rio de Janeiro está perfeitamente dentro do movimento batista em prol da liberdade religiosa na história.

É preciso, honestamente, reconhecer e lutar para que cada um tenha o seu direito garantido de viver a sua fé e religiosidade. Não é possível, principalmente entre os batistas que priorizam os seus princípios, respeitar e fazer respeitar a religião do outro.

Com isso não se afirma que nenhuma religião está fora da crítica ética e teológica, nem mesmo a nossa. Mas não é concebível a partir de uma perspectiva de liberdade religiosa o falar mal da outra religião por ser religião, insultando seus pressupostos. Dentro de um Estado democrático e republicano, cabe à crítica, a avaliação argumentativa, a pesquisa das estruturas religiosas, mas não cabe a dicotomia religiosa onde um acha que a sua religião é melhor do que a do outro.  

Como batistas que tem uma tradição em defesa da liberdade do indivíduo e religiosa, poderíamos ser protagonistas não apenas em situações como da menina Kaillane, mas em um Estado democrático de direito levantar essa bandeira o mais alto que puder. 

15.6.15

ENSINO RELIGIOSO: IMPLICAÇÕES A PARTIR DA PLURALIDADE RELIGIOSA

O Supremo Tribunal Federal (STF) realizou uma Audiência Pública hoje (15.06.2015) para tratar da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) de n.º 4439, ajuizada pela Procuradoria Geral da República (PGR), e que questiona o Ensino Religioso (ER) confessional – aquele vinculado a uma religião específica nas escolas da rede oficial de ensino do país. A PGR defende que o ensino religioso deve ser ministrado de forma laica, sob um contexto histórico e abordando a perspectiva das várias religiões. Há quem seja contrário a presença do ER nas escolas por entender que a religião está presente nas diferentes esferas do espaço público.

De fato um tema controverso e dinâmico.

Afinal, é possível ensinar religião? Como lidar com a diversidade de religiosidades existentes na sala de aula? São questões válidas quando um tema tão polissêmico como é a religião é proposto em sala de aula. Mesmo os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) indicando o que se pretende com o ER em sala de aula – culturas e religiões, escrituras sagradas, teologias, ritos e ethos –, não é consenso quanto ao conteúdo do ER nas escolas públicas. Quando os PCNs traz o conceito de religião, ele está se referindo às tradições religiosas ou/e grupos religiosos?  

O termo religião nos PCNs abarca aquilo que corresponde à história das religiões: símbolos, costumes, crenças, doutrinas, presença no mundo. Esse tratamento da religião que os PCNs propõem pode ser trabalhado pelo professor(a) do ER com um olhar objetivo, lógico e verificador? É uma exigência isonômica que ultrapassa as condições teóricas e epistemológicas do professor(a). O fato de pretender apresentar o modus operandi das religiões, suas diferenças, suas teologias, suas expressões e seus elementos peculiares, na tentativa de ensinar religião mais próxima da neutralidade (se é que isso seja possível), traz o desafio de conhecer todas as religiões que irá ensinar o que, representa por si só, já se dá em um grande obstáculo.

Isso acarreta uma extrema dificuldade por serem as religiões entre si e internamente, contraditórias. Elas trazem propostas diferentes e a neutralidade não seria obtida como pretende os PCNs. É nesse sentido que Iuri Andréas Reblin chama atenção: 

É impossível somar todas as religiões e engarrafá-las num mesmo recipiente, pois elas têm propostas diferentes, às vezes, propostas que ‘conflitam’ diretamente umas com as outras. Não é possível dizer que Jesus é igual a Buda que é igual a Alá, pois não são. Há em jogo aqui a questão da identidade, da alteridade, da diversidade e, sobretudo, da relação que se estabelece entre esses elementos. Além disso, existem as vertentes ortodoxas dentro das religiões que brigam pela ‘ortopodia’ (ou o ‘caminho correto’) de se conduzir o percurso de fé.

Outra dificuldade se dá em relação ao diálogo inter-religioso e ao ecumenismo. Como o professor(a) poderá trabalhar as religiões e o diálogo entre elas em sala de aula se nem mesmo as próprias religiões resolveram essa dificuldade do diálogo inter-religioso? Entre as igrejas cristãs, o ecumenismo ainda é um tema que suscita diálogo e sofre retrocessos em diferentes denominações cristãs.

Em relação aos alun@s, como trabalhar a diversidade de expressões religiosas e suas identidades marcadas pelo ambiente familiar e, em muitos casos, pela comunidade religiosa que o alun@ é oriundo? É uma relação imbricada, multifacetada e que demanda traquejo pedagógico. “Não é possível ensinar o conteúdo das religiões como se fossem ‘caixinhas’ separadas umas das outras, porque os conteúdos dessas religiões se inter-relacionam no dia a dia das pessoas” (REBLIN). Aliada a essa dificuldade mensurável, há que se considerar que é vedado, pela Constituição e pela LDB, o proselitismo. Assim, como ensinar sobre religião visto que não é possível (e nem permitido) ensinar a vivência da fé?

Eis um tema com diferentes enfoques e que favorece a diversidade epistemológica e política. 

30.5.15

UMA IGREJA “TRADICIONALMENTE” BATISTA. SERÁ?

Saiu no jornal denominacional do Estado de São Paulo. O título da reportagem: “uma igreja tradicionalmente batista”.

Na referida reportagem a igreja se “orgulha” em ser tradicionalmente “batista” por entender algumas questões que, na sua visão, as igrejas batistas não fazem ou não são mais do jeito que essa igreja é. Daí a ênfase no “tradicionalmente”, por entender que há outras igrejas coirmãs que não são “tradicionalmente” batistas. Por isso a necessidade de serem distinguidos, diferenciados em relação às igrejas que são batistas, mas não são tradicionalmente batistas.

O que define o “ser” batista? O que uma igreja batista deveria ter e fazer? Há um parâmetro para uma Igreja ser de fato Batista? Existe uma norma, um código doutrinário que a define como Batista? Sim existe, mas isso não é uma régua eliminatória que exclui outras comunidades que não entende e não veja da mesma forma.

Para a igreja da reportagem, que se define como uma igreja tradicionalmente batista, ser batista é:

Permanecer ao longo do tempo como uma igreja realmente batista, na pregação bíblica, na preservação e busca da música sacra com excelência na letra e melodia, [...] a escola (leia-se EBD) funciona sem inovações, seguindo a agenda tradicional, que é muito eficiente, com a abertura tradicional de antigamente, em que são recitados o tema e o texto básico, e os aniversariantes são chamados à frente. São utilizadas as revistas da denominação.

Para essa igreja que se proclama tradicionalmente batista a sua definição do ser batista passa, exclusivamente, pelo modus operandi da estrutura eclesiástica.

Não apenas essa igreja, mas igrejas e pastores tem reivindicado o “tradicionalmente” para dizer que não é igual às outras igrejas. Como um sinal de identidade, igrejas como essas da reportagem buscam uma definição identitária e, se for possível (e é), desqualificar outras comunidades que não prezem pelos mesmos valores e comportamentos defendidos por uma igreja “tradicionalmente” batista.

Se o que seja “antigo” funciona como sinal de vitalidade e coerência, os batistas ingleses são os tradicionais, pois o movimento batista surge na Holanda/Inglaterra tendo sua gênese no movimento liberal inglês, eles participam dos anseios e perspectivas de sua época, ou seja, liberdade religiosa e separação entre Igreja e Estado. Esse ímpeto por liberdade levou o filósofo inglês John Locke a dizer que “os batistas foram os primeiros proponentes de uma liberdade absoluta, justa e verdadeira liberdade, liberdade igual e imparcial”. Esse intenso debate em torno da liberdade notabilizou os batistas como um grupo que lutou – a priori para a sua própria sobrevivência – contra absolutismos e posturas dogmáticas. E isso teve consequências para a sua eclesiologia, entendendo que esta deveria ser congregacional, ou seja, igrejas livres e autônomas sem vínculo com a igreja oficial. Os batistas ingleses são partidários desses ideais. Assim, seguindo uma lógica de que o antigo é o tradicional, uma igreja tradicionalmente batista deveria lutar pela liberdade em todas as esferas, política, social e teológica. Não poderia haver nenhuma tutela em termos de controle eclesiológico, político ou teológico que determinasse a dinâmica de uma comunidade.

Se a igreja da referida reportagem quer ter (e continua tendo) uma seleção musical que agrade a sua membresia; uma “escola” que siga a “agenda tradicional”, uma agenda que apenas a igreja entende, não há problema algum.

A questão é colocar a igreja como uma autêntica representante da denominação e trazer para si a marca de uma igreja que seja realmente batista por fazer e entender coisas do cotidiano de uma comunidade e seu comportamento cúltico e ético.

Sendo assim, não há nenhuma igreja que seja tradicionalmente batista.

Os batistas são fruto do seu tempo e são chamados a serem relevantes para esse tempo, assim como foram os batistas ingleses e os norte-americanos e tantos outros batistas espalhados pelo mundo. Reivindicar uma “continuidade” com o movimento batista tendo como critério maneiras de ver o culto, a liturgia e a maneira de aplicar o ensino religioso, não dá legitimidade para dizer que seja uma igreja diferentemente de outras por entender e fazer as coisas dessa ou de outra forma.

A grande marca do ser batista é a liberdade. 

17.5.15

ERA PARA SER ASSIM...

No Evangelho de Mateus há um convite para que outros possam seguir Jesus e o ápice desse convite é o capítulo 28 e seus versículos finais.

Logo no capítulo 9, 35-38, o Jesus mateano dá o tom:

Jesus ia passando por todas as cidades e povoados, ensinando nas sinagogas, pregando as boas novas do Reino e curando todas as enfermidades e doenças.

Ao ver as multidões, teve compaixão delas, porque estavam aflitas e desamparadas, como ovelhas sem pastor.

Então disse aos seus discípulos: “A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos. Peçam, pois, ao Senhor da seara que envie trabalhadores para a sua seara”.

Jesus na sua caminhada preferiu a companhia dos mal cheirosos; das mulheres marginalizadas conhecidas como “pecadoras”; ele se sentava com gente que outro teria dificuldade de comer junto, cobradores de impostos e gente que ninguém gostaria de cumprimentar na rua. Esse era Jesus...

Ele pede para que outras pessoas (discípulos e discípulas) se juntem a ele, porque a “seara é grande”.

O seu principal foco era:

- Ensinar: ele ensinava sobre Deus, qual deveria ser a relação com ele, diferente dos fariseus e saduceus; ele ensinava sobre os relacionamentos interpessoais, de como deveria ser uns com os outros; ele ensinava sobre o perdão, condição imprescindível para a vida, e o amor como elemento norteador da vida.

- Anunciar: o reino de Deus, porque as relações com o reino de Deus era diferente de tudo aquilo que aquele povo compreendia. Se eles eram ensinados que havia um que era maior que o outro, no reino de Deus isso não acontecia. Se a eles eram ensinados que há privilégios para uns e outros não, no reino de Deus isso não existia. Ele focou sua caminhada em anunciar o reino de Deus.

- Libertar: a cura é sinal de libertação, de trazer as pessoas à vida; de dar condições para que vivam novamente e para isso era preciso haver saúde, alimentação, convívio.

Para essa tarefa, para essa missão, Jesus chama os seus discípulos no capítulo 10,1a:

         Chamando seus doze discípulos, deu-lhes autoridade

Ele chama esses homens (e mulheres) para acompanha-lo, para prosseguir na mesma missão que ele tem.

Ao chamar, Jesus não dita normas a serem seguidas; ele não estabelece um código doutrinário; ele não faz promessas. Ele faz questão de deixar claro que o seguimento significa ter uma relação profunda e pessoal com ele.

Ele chama para que essas pessoas continuassem o que ele começou, por isso ele os “envia” (10,5); diz para não ficar presos a estruturas financeiras (10,9-13); pedem para que eles se parecessem com ele (10,24-25).

Era para ser assim...

Quando chega o capítulo 28,18-20, há uma continuação da missão de Jesus, agora para todos.


Então, Jesus aproximou-se deles e disse: “Foi-me dada toda a autoridade no céu e na terra. Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei. E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos”.


Jesus tem autoridade – que no evangelho de Mateus significa algo outorgado por Deus (9,6). Essa autoridade ele dá aos seus primeiros discípulos (10,1a).

Agora, ele dá essa autoridade a todos que se tornaram (e vierem a ser) discípulos dele, ou seja, que irão continuar a missão que ele começou e agora ele espera que os que se tornarão discípulos e discípulas continuem a fazer:

- Indo (e não ide), enquanto caminha, na vida do dia a dia, façam discípulos;
- Coloquem esses discípulos em comunhão (batismo);
- Ensine esses discípulos àquilo que vocês ouviram, aprenderam e vivenciaram.

Era para ser assim...

O que Jesus queria e o que fizemos do que ele queria?

Jesus                                       Nós
Indo (todos)                           Só missionários que vão
Fazer discípulos                     Fazer membros de igreja
Comunhão (batismo)              Batismo é assumir a estrutura da igreja
Ensinar                                   Doutrinar (classe de doutrina)

Não era para ser assim...

Em que momento deixamos (ou será que ainda não aprendemos?) de ser discípulos de Jesus?

28.4.15

PREDESTINAÇÃO E SALVAÇÃO

Em Cristo, Paulo centraliza todo o processo salvífico.

Embora surjam textos como desde a fundação do mundo, o fato é que o aparecimento de Cristo na história fez com que a comunidade olhasse para trás e concluíssem que de fato Deus estava no conduzindo. Mas isso não significaria nada se ele não estivesse atuando no tempo. A comunidade compreende que foi na ação histórica de Deus que se deu a sua eleição.

E essa eleição não determinou o seu curso nem suprimiu a história, mas dá à comunidade o fundamento de sua experiência no tempo como algo prioritário para Deus, quer dizer, sua eleição/predestinação, pois ela tem a sua origem na vontade salvífica de Deus — “nos salvou e nos chamou com santa vocação; não segundo as nossas obras, mas conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos, e manifestada agora pelo aparecimento de nosso salvador Cristo Jesus” (2Tm 1,9-10).
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Mas é no tempo que ela se concretiza, porque foi agora que se manifestou a justiça de Deus, testemunhada pela lei e pelos profetas. É no agora que se recebe a reconciliação através de Cristo. A história estava caminhando para um alvo divino, e neste alvo os gentios estavam incluídos.

É aqui que entra o conceito de justificação e reconciliação de Paulo. A justificação e a reconciliação seriam algo individual ou coletivo?

Os dois conceitos estão extremamente ligados. Porque um diz respeito à absolvição de todo o pecado; outro à restauração de um relacionamento com Deus. São dois conceitos teológicos que se dão no passado.

Para o apóstolo, é uma dádiva de Deus em Cristo que foi comunicada a todos (judeus e gentios). Porque o alvo não seria o indivíduo, mas uma nova humanidade.

O pecado não é mais barreira de divisão entre Deus e o ser humano, porque “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo” (2Co 5,19). A reconciliação é um ato histórico, em Cristo, e coletivo. Sendo assim, Deus não quis reaver os pecados cometidos antes do aparecimento de Cristo na história, mas agora, com ele e sua obra, há a possibilidade de decisão (At 17,30).

Uma vez que a reconciliação e a justificação são iniciativas de Deus no aspecto coletivo, seria a predestinação algo individual?

Uma vez que a justificação e a reconciliação são bênçãos proporcionadas por Deus em Cristo de caráter coletivo e histórico, a predestinação do mesmo modo é algo dado num momento histórico com um fim exclusivamente soteriológico.

Neste sentido, a salvação é uma proposta divina à humanidade, é o sim de Deus em Cristo (2Co 1,19-20). Uma vez sendo essa resposta afirmativa à sua proposta, todas as bênçãos espirituais são realizadas plenamente. E o propósito da predestinação é concluído (Rm 8,29-30; Ef 1,4-5).

Assim como a eleição no Antigo Testamento (Bíblia Hebraica) visou o povo de Israel (Dt 7,7; 14,2), a predestinação no Novo Testamento nunca é individual, mas coletiva — a Igreja, a comunidade dos santos. Não é por acaso que a Igreja primitiva tinha ideia de constituir a raça eleita, um povo santo (1Pd 2,9).

A predestinação não poderia ser algo puramente determinista e selecionista. 

21.4.15

JESUS, UM "LESTAI"

ASLAN, Reza. Zelota: a vida e a época de Jesus de Nazaré. Tradução de Marlene Suano. Rio de Janeiro: Zahar, 2013, 304p.

Reza Aslan é um pesquisador de temas religiosos que vem se destacando nos estudos quanto às origens do cristianismo primitivo.

De origem iraniana, Aslan teve contato com o cristianismo na adolescência e trilhou o caminho da pesquisa religiosa por se aproximar da Bíblia e encontrar algumas dificuldades com aquilo que aprendera e que agora estava se aprofundando, encontrando assim discrepâncias e situações diversas quanto aos postulados da sua então fé.

Ainda assim, Aslan confessa que “duas décadas de pesquisa rigorosa sobre as origens do cristianismo fizeram [dele] um discípulo de Jesus de Nazaré mais genuinamente comprometido” (p. 13).

Um estilo cativante e criativo ao escrever, Aslan proporciona no texto uma narrativa de fôlego abrindo caminhos na construção de um Jesus de Nazaré a partir do seu contexto social e, principalmente, político.  Um Jesus que vive em um país subjugado pelo Império Romano e pelo Templo.

O livro se divise em três partes com capítulos curtos que fazem a conexão com o próximo, contribuindo assim para uma leitura agradável.

O tema central do texto de Aslan é a figura de Jesus de Nazaré, ou seja, ele persegue o Jesus histórico.

O Jesus que interessa para Aslan não é o “Cristo da fé” proclamado pelos dogmas e pregado pela Igreja. Interessa o Jesus de Nazaré, o homem que viveu na Galileia, andou pela Palestina do primeiro século; teve companheiros (discípulos) e se colocou como um divulgador do Reino de Deus.

O foco histórico do livro de Aslan é um Jesus que procurou estabelecer o Reino de Deus e, como outros que vieram antes dele e depois dele, com pretensões messiânicas.

Aslan apresenta muito bem o que significa “Reino de Deus” e “messias” no seu texto, fazendo uma abrangente discussão em torno desses temas, tornando eles indispensáveis para a sua narrativa.

O ponto mais importante que Aslan apresenta de Jesus de Nazaré, e que define a sua caminhada para a cruz, é a discussão proposta nos evangelhos sinóticos – esses sendo uma das principais fontes de Aslan para acessar o Jesus histórico –, onde é perguntado sobre a legitimidade de pagar o imposto para Roma. Esse é o foco do livro de Aslan como também a entrada de Jesus no templo e sua revolta com o comércio aliado ao sistema sacerdotal.

Aslan discute o tema do zelo em Jesus de Nazaré e considera que a acusação de “Rei dos Judeus” é perfeitamente plausível para Jesus, uma vez que Roma o considera como um lestai, ou seja, um agitador; alguém que deveria ser condenado por sedição.

Embora o livro de Aslan seja bem escrito e academicamente preparado – ele está familiarizado com as recentes pesquisas quanto ao Jesus histórico, fazendo eco a pesquisadores como Richard A. Horsley, por exemplo, um dos mais competentes estudiosos do cristianismo primitivo –, ele, dentre todos os temas da vida de Jesus de Nazaré (nascimento, caminhada, discípulos, morte e ressurreição), não trata da Páscoa celebrada por Jesus e seus discípulos. Em nenhum momento do seu texto Aslan deixa claro porque omite a narrativa da “ceia” presente nos evangelhos sinóticos.

13.3.15

O CRISTO CARDÍACO (OU SOBRE O SEGUIMENTO)

A mensagem que os missionários trouxeram para a “evangelização” do país foi marcada pelo puritanismo anglo-saxônico dos Estados Unidos. O puritanismo é um movimento oriundo da Inglaterra que teve seu irmão gêmeo na Alemanha, mas lá ficou com outro nome, pietismo.

O puritanismo irá influenciar a formação teológica (há boa literatura que cobre esse dado), assim como pregadores itinerantes e não poucos pastores.

O olhar puritano sobre Cristo foi escasso, uma vez que o movimento olhou para a “Bíblia” e não para Cristo. Uma das principais ênfases do movimento foi na “salvação pessoal”, esta vinda inteiramente por Deus, em Cristo.

Aqui que Cristo passa a ser um mediador de um processo de salvação onde o interesse nele passa a ser apenas salvífico. Não por acaso, que o seguimento de Jesus é ignorado no puritanismo. Importando apenas o seu aspecto redentor.

É Sören Kierkegaard quem irá criticar Lutero por esse ter primado um Cristo como dom e graça e não como caminho e modelo.

Entendendo assim, que Kierkegaard sentencia: “não se trata de seguidores de uma doutrina, mas imitadores de uma vida”.

O seguimento é a relação que os discípulos têm com Jesus. Essa relação começa quando Jesus chama seus discípulos para segui-lo. A intenção é que eles reproduzam os seus passos, participando, especificamente, do seu projeto, o reino de Deus. O seguimento, portanto, é assumir os passos de Jesus ao ponto de compartilhar, até mesmo, o seu destino, a morte.

O seguimento é a disponibilidade para reproduzir, em outros contextos históricos, o movimento fundamental das ações de Jesus. Seguimento é a principal identidade cristã, pois o seguidor deve reproduzir a estrutura fundamental da vida de Jesus e ao mesmo tempo tornar possíveis as ações dele de acordo com as exigências do contexto em que se vive.

Quem se dedica a esse tema, é o teólogo Jon Sobrino.

Para Sobrino, Jesus é alguém que chama seus discípulos para estar perto dele a fim de participarem dos seus anseios e ações. Não é um Cristo distante do povo e transcendente, mas perto ao ponto de pedir ajuda aos seus seguidores para que desçam da cruz de hoje os necessitados e desvalidos.

É um Cristo que solicita companhia, pois reconhece que sem a ajuda dos seus discípulos não seria possível levar adiante as marcas do reino de Deus.