Dentre as contribuições de Aristóteles para a
Filosofia e o pensamento ocidental, está a sua sistematização lógica. A lógica aristotélica
possibilitou pensar a verdade a partir de proposições. Assim, os princípios da
lógica se tornaram conhecidos como sendo três, de maneira bem específica: o
princípio da identidade, da não contradição e do terceiro excluído.
Funciona assim: se um enunciado é verdadeiro,
logo ele é idêntico à realidade demonstrável. Esse é o princípio da identidade.
Em outras palavras, tudo que seja idêntico a si mesmo se dá no princípio da
identidade. Já no princípio da não contradição, a lógica entende que, no caso
de dois enunciados, não é possível haver verdade em ambos. Quando digo que “algumas
pessoas não são boas” e depois digo que “todas as pessoas são boas”, o princípio
da não contradição diz que ambas as afirmações não podem ser verdadeiras.
Quanto ao princípio do terceiro excluído, é
visto como uma forma de eliminar, excluir, aquilo que não cabe dentro do
princípio da identidade, ou seja, uma coisa é ou não é, não pode ser outra coisa. Diante de duas
possibilidades aparentemente contraditórias, não há a possibilidade de ter uma
terceira opção dentro da lógica, ficando, portanto, excluída. Dessa forma, a lógica
aristotélica não encontra um meio termo e advoga a exclusão de algo que possa
gerar um meio entre os opostos. Dito de outro modo, o princípio do terceiro excluído é
a não contradição das ideias, ou seja, é a lógica que diz que não pode haver
uma terceira via, apenas uma dentre duas, A ou B e C é praticamente descartável
porque, aparentemente, não está plenamente demonstrável.
A lógica aristotélica do terceiro excluído, ajuda
a entender o mosaico dos evangélicos e a fala de alguns líderes midiáticos que se veem como os representantes dos evangélicos quando o tema é eleições e o voto dos evangélicos em 2022.
A jornalista Anna Virginia Balloussier (Folha
de S. Paulo), fez uma reportagem sobre os evangélicos e a política brasileira e
os propensos apoios ao atual presidente nas eleições de 2022 por parte dos evangélicos
e escutou os principais líderes midiáticos (1). Segundo a jornalista, um pastor
chegou a admitir que “o presidente atingiu imunidade de rebanho no eleitorado evangélico”.
Segundo esse pastor, ele (o presidente) “estaria protegido, assim, contra o ‘vírus
de esquerda’ por contar com a ampla maioria de uma fatia que representa cerca de
30% dos brasileiros”. Para esse pastor, partindo da lógica aristotélica, os
evangélicos têm um “princípio de identidade” com o atual presidente e isso deve
continuar na disputa de 2022. Para muitos pastores, os
evangélicos elegem Bolsonaro em 2022 porque há um princípio de identidade entre
ambos, ou seja, o presidente fala e faz aquilo que os evangélicos querem ouvir
e ver. Seguindo a lógica do princípio da não contradição, na outra ponta estaria o espectro político da esquerda
que não teria qualquer possibilidade de “conquistar” votos desse eleitorado,
uma vez que o discurso é contraditório entre ambos, Bolsonaro e esquerda.
Dentro dessa lógica, como apurou a jornalista Anna, para os principais líderes
evangélicos midiáticos do país, e que juntos detém um monopólio de fiéis e
mídia, “a possibilidade de a esquerda voltar a abocanhar votos evangélicos em
massa é vista com descrença, o que se estende a outros atores do campo, como
Ciro Gomes (PDT) e Guilherme Boulos (PSOL)”. De acordo com a reportagem, esses
líderes entendem que “o fogo maior é contra o petismo”. Para esses líderes, a
ideia de que Bolsonaro atingiu imunidade de rebanho (uma clara alusão ao novo
coronavírus e as medidas contestáveis do presidente em relação à pandemia), leva
em consideração a agenda conservadora do presidente e os assuntos morais que
tocam a grande maioria dos evangélicos com temas já conhecidos e que sempre
voltam com maior intensidade nas eleições presidenciais. A pauta dos evangélicos se dá a partir dos costumes e abarca o campo da moralidade evangélica, envolvendo a defesa da família e rejeitando os temas identitários, geralmente encampados pela esquerda.
Ocorre que assim como Aristóteles não
conseguiu acoplar o terceiro excluído, ou seja, na lógica aristotélica não há
possibilidade de haver duas proposições verdadeiras, sendo que haverá uma terceira
que sempre estará fora, a lógica dos coronéis da fé não leva em conta o terceiro
excluído que representa a grande massa dos evangélicos que vivem nas periferias
das grandes cidades do país.

Pastores entrevistados pela jornalista Anna Balloussier
como Silas Malafaia e César Augusto (Igreja Fonte da Vida), são reconhecidos
pela sua teologia da prosperidade e o lobby evangélico que praticam no
espaço público. São pastores que movimentam quantias exorbitantes de dinheiro e
possuem seus jatinhos particulares. A força midiática ajuda na disseminação de
suas ideias e reforçam a percepção de que “falam por todos os evangélicos”. Ocorre
que há um terceiro excluído que está fora desse universo evangélico midiático e
que não nutre, necessariamente, um princípio de identidade com o atual presidente,
mas também não enxerga na esquerda qualificada, que até recentemente ignorava
essa gente e, em alguns casos, tratava-os com uma certa deficiência cognitiva
na política, a melhor opção para resolver os problemas prementes e os anseios sociais da grande maioria
do eleitorado evangélico.
O pesquisador Juliano Spyer, fazendo um
trabalho de campo entre os evangélicos, faz uma constatação que já sabíamos,
mas ele reforçou em sua pesquisa, qual seja: “A relação entre evangélicos e o
Brasil popular aparece no cenário de muitas e variadas igrejas presentes em
bairros periféricos, entre negros e pardos com menos escolaridade e salários
menores do que os da média da população” (2). Ainda que o discurso moral seja
um atrativo considerável entre os evangélicos, a grande maioria sofre com a
pobreza, com a falta de saneamento básico, com a renda pequena, com a violência,
com o racismo e, agora com a pandemia, viu agravar consideravelmente a
desigualdade social. A igreja evangélica na periferia, se constitui uma rede de
solidariedade, amizade e generosidade. A igreja que ajuda uma família a colocar
a comida na mesa, é a mesma que faz orações para que Deus proteja os filhos da violência
e pede para que Deus “abra uma porta de emprego”.
Essa gente é o terceiro excluído na lógica política
dos evangélicos midiáticos. Esses líderes não têm muito o que dizer para essa parcela
significativa dos evangélicos, porque encabeçaram um projeto de governo e de
poder que, pelo princípio da não contradição, não podem falar da fome, do
desemprego, da falta do auxílio emergencial. Caso falem sobre esses temas,
podem ser enquadrados dentro do espectro político à esquerda. Mas não falam sobre
isso por conta desse julgamento, não falam porque esses temas não estão, em definitivo,
dentro das suas aspirações como cristãos e cidadãos. Eles não têm como
contradizer a política neoliberal do governo; eles não podem falar sobre a falta
de investimento na saúde, na educação e cobrar uma política de distribuição de
renda. Essas pautas não constam nesse governo que deu, desde o início, sinais
claros de que a massa pobre do país não é e nunca será a prioridade. Antes, a
prioridade do ministério da Economia é alavancar sua agenda neoliberal e retirar,
se possível, todos os benefícios que foram conquistados. Assim, trabalham para
alterar leis trabalhistas, dificultar aposentadorias e achatar os salários que
já estão defasados em relação à inflação.
Essa gente, o terceiro excluído, está fora dos
grandes eventos do mundo gospel. Essa gente tem em Deus a única fonte de
esperança, mas também já perceberam que a política é a oportunidade de debater e lutar
por melhorias. Por essa razão, muitos pastores e irmãos da periferia estão
dispostos a conversar sobre os problemas e dificuldades sociais do dia a dia
que afetam a todos, indiscriminadamente.
O terceiro excluído é composto por gente que
está acompanhando essa polarização Bolsonaro versus Esquerda, mas ainda não
tornaram essa polarização a razão maior para a definição de seus votos, pelo
contrário, o que definirá seus votos serão as demandas sociais e a vida que
fica cada dia mais difícil para quem pega o ônibus lotado e vai trabalhar às cinco
horas da manhã.
Um projeto político-econômico que discuta as principais questões
e aponte melhorias, não apenas para os evangélicos e suas demandas sociais,
será oportunizado. Nesse sentido, o líder midiático, que voa de jatinho, pode
até falar e se fazer ouvir como se fosse a “voz dos evangélicos”, mas não terá
alcance satisfatório com essa gente que compõe o terceiro excluído que são, com
certeza, mais do que 30%.
Notas: (1) https://www1.folha.uol.com.br/poder/2021/02/apoio-evangelico-em-2022-indica-bolsonaro-na-ponta-e-entraves-a-doria-huck-e-pt.shtml (2) Juliano Spyer. Povo de Deus: quem
são os evangélicos e porque eles importam. São Paulo: Geração Editorial, 2020,
p. 85.