16.8.21

GOSPEL BEAUTIFUL

O gospel beautiful é altamente rentável.

Segundo Magali Cunha, uma referência nesse tema, o que temos é uma “cultura gospel”. Isso foi possível porque houve uma ocupação cada vez maior do espaço público com mídias, redes sociais, mas, principalmente, o mercado fonográfico. Isso mesmo. Vender músicas alimenta o mercado gospel como também produz teologia para quem consome o gospel beautiful.

O gospel beautiful é lindo, belo, cheiroso, gostoso, afável, apaixonante. O gospel beautiful leva para as nuvens, tira os pés do chão da realidade e transporta para um estado de espírito onde ocorre o encontro com o self. Quem vive sua vida religiosa a partir do gospel beautiful só precisa ter uma preocupação: deixar a casa para ele entrar e curtir o momento.

Essas bandas que seguiram nas pegadas do sucesso do grupo musical australiano Hillsong, além da mesma postura de palco, luzes e estilo copiado, também procuraram transportar as letras. Quando o repertório acabou, passaram a criar suas próprias letras (óbvio que a qualidade não é a mesma nem aqui e nem na Austrália).

O que temos hoje com essas bandas do gospel beautiful é uma espécie de antropopatia versão 2.0. Fala-se de Deus e, principalmente de Jesus, como se fosse um “namorado”. Por isso ele é lindo, lindo, lindo e mais lindo. E por essa razão é possível estar “apaixonado” por ele perdidamente.

Dentre vários grupos do gospel beautiful, o destaque é a Casa Worship. Sim, essa que tem uma letra em que diz que “deixou a casa” para Jesus, como se houvesse uma para deixar. A letra cantada por Julliany Souza exemplifica muito bem esse gospel beautiful.

Diz a letra:

Te chamam de Deus e de Senhor 

Te chamam de Rei e Salvador

Mas eu me atrevo a te chamar de meu amor

Sim, todas as outras qualificadoras teológicas para Jesus não seriam suficientes, mas agora há um “atrevimento” ao chamá-lo de “meu amor”. A situação muda e tudo fica mais claro e, de maneira indescritível, lindo, porque se trata do gospel beautiful.

E não poderia faltar na letra da Casa Worship o refrão: “Yeshua tu és tão lindo que eu nem sei expressar” (Ainda bem que tenho todas as músicas do amigo Daniel Souza - “Fruto do Espírito”).

E assim temos uma teologia forjada a partir do gospel beautiful, que procura desvencilhar o Jesus de Nazaré da sua missão e a consequente exigência para que os seus discípulos assumam o compromisso de continuarem as suas pegadas. Enquanto isso, uma multidão segue sendo anestesiada com o gospel beautiful. E vai dizer que Jesus não é lindo para essa galera, é bem provável que chamem você de “comunista”.

27.2.21

O TERCEIRO EXCLUÍDO E O VOTO DOS EVANGÉLICOS EM 2022

Dentre as contribuições de Aristóteles para a Filosofia e o pensamento ocidental, está a sua sistematização lógica. A lógica aristotélica possibilitou pensar a verdade a partir de proposições. Assim, os princípios da lógica se tornaram conhecidos como sendo três, de maneira bem específica: o princípio da identidade, da não contradição e do terceiro excluído.

Funciona assim: se um enunciado é verdadeiro, logo ele é idêntico à realidade demonstrável. Esse é o princípio da identidade. Em outras palavras, tudo que seja idêntico a si mesmo se dá no princípio da identidade. Já no princípio da não contradição, a lógica entende que, no caso de dois enunciados, não é possível haver verdade em ambos. Quando digo que “algumas pessoas não são boas” e depois digo que “todas as pessoas são boas”, o princípio da não contradição diz que ambas as afirmações não podem ser verdadeiras.

Quanto ao princípio do terceiro excluído, é visto como uma forma de eliminar, excluir, aquilo que não cabe dentro do princípio da identidade, ou seja, uma coisa é ou não é, não pode ser outra coisa. Diante de duas possibilidades aparentemente contraditórias, não há a possibilidade de ter uma terceira opção dentro da lógica, ficando, portanto, excluída. Dessa forma, a lógica aristotélica não encontra um meio termo e advoga a exclusão de algo que possa gerar um meio entre os opostos. Dito de outro modo, o princípio do terceiro excluído é a não contradição das ideias, ou seja, é a lógica que diz que não pode haver uma terceira via, apenas uma dentre duas, A ou B e C é praticamente descartável porque, aparentemente, não está plenamente demonstrável.

A lógica aristotélica do terceiro excluído, ajuda a entender o mosaico dos evangélicos e a fala de alguns líderes midiáticos que se veem como os representantes dos evangélicos quando o tema é eleições e o voto dos evangélicos em 2022.

A jornalista Anna Virginia Balloussier (Folha de S. Paulo), fez uma reportagem sobre os evangélicos e a política brasileira e os propensos apoios ao atual presidente nas eleições de 2022 por parte dos evangélicos e escutou os principais líderes midiáticos (1). Segundo a jornalista, um pastor chegou a admitir que “o presidente atingiu imunidade de rebanho no eleitorado evangélico”. Segundo esse pastor, ele (o presidente) “estaria protegido, assim, contra o ‘vírus de esquerda’ por contar com a ampla maioria de uma fatia que representa cerca de 30% dos brasileiros”. Para esse pastor, partindo da lógica aristotélica, os evangélicos têm um “princípio de identidade” com o atual presidente e isso deve continuar na disputa de 2022. Para muitos pastores, os evangélicos elegem Bolsonaro em 2022 porque há um princípio de identidade entre ambos, ou seja, o presidente fala e faz aquilo que os evangélicos querem ouvir e ver. Seguindo a lógica do princípio da não contradição, na outra ponta estaria o espectro político da esquerda que não teria qualquer possibilidade de “conquistar” votos desse eleitorado, uma vez que o discurso é contraditório entre ambos, Bolsonaro e esquerda. 

Dentro dessa lógica, como apurou a jornalista Anna, para os principais líderes evangélicos midiáticos do país, e que juntos detém um monopólio de fiéis e mídia, “a possibilidade de a esquerda voltar a abocanhar votos evangélicos em massa é vista com descrença, o que se estende a outros atores do campo, como Ciro Gomes (PDT) e Guilherme Boulos (PSOL)”. De acordo com a reportagem, esses líderes entendem que “o fogo maior é contra o petismo”. Para esses líderes, a ideia de que Bolsonaro atingiu imunidade de rebanho (uma clara alusão ao novo coronavírus e as medidas contestáveis do presidente em relação à pandemia), leva em consideração a agenda conservadora do presidente e os assuntos morais que tocam a grande maioria dos evangélicos com temas já conhecidos e que sempre voltam com maior intensidade nas eleições presidenciais. A pauta dos evangélicos se dá a partir dos costumes e abarca o campo da moralidade evangélica, envolvendo a defesa da família e rejeitando os temas identitários, geralmente encampados pela esquerda.

Ocorre que assim como Aristóteles não conseguiu acoplar o terceiro excluído, ou seja, na lógica aristotélica não há possibilidade de haver duas proposições verdadeiras, sendo que haverá uma terceira que sempre estará fora, a lógica dos coronéis da fé não leva em conta o terceiro excluído que representa a grande massa dos evangélicos que vivem nas periferias das grandes cidades do país.

Pastores entrevistados pela jornalista Anna Balloussier como Silas Malafaia e César Augusto (Igreja Fonte da Vida), são reconhecidos pela sua teologia da prosperidade e o lobby evangélico que praticam no espaço público. São pastores que movimentam quantias exorbitantes de dinheiro e possuem seus jatinhos particulares. A força midiática ajuda na disseminação de suas ideias e reforçam a percepção de que “falam por todos os evangélicos”. Ocorre que há um terceiro excluído que está fora desse universo evangélico midiático e que não nutre, necessariamente, um princípio de identidade com o atual presidente, mas também não enxerga na esquerda qualificada, que até recentemente ignorava essa gente e, em alguns casos, tratava-os com uma certa deficiência cognitiva na política, a melhor opção para resolver os problemas prementes e os anseios sociais da grande maioria do eleitorado evangélico.  

O pesquisador Juliano Spyer, fazendo um trabalho de campo entre os evangélicos, faz uma constatação que já sabíamos, mas ele reforçou em sua pesquisa, qual seja: “A relação entre evangélicos e o Brasil popular aparece no cenário de muitas e variadas igrejas presentes em bairros periféricos, entre negros e pardos com menos escolaridade e salários menores do que os da média da população” (2). Ainda que o discurso moral seja um atrativo considerável entre os evangélicos, a grande maioria sofre com a pobreza, com a falta de saneamento básico, com a renda pequena, com a violência, com o racismo e, agora com a pandemia, viu agravar consideravelmente a desigualdade social. A igreja evangélica na periferia, se constitui uma rede de solidariedade, amizade e generosidade. A igreja que ajuda uma família a colocar a comida na mesa, é a mesma que faz orações para que Deus proteja os filhos da violência e pede para que Deus “abra uma porta de emprego”.

Essa gente é o terceiro excluído na lógica política dos evangélicos midiáticos. Esses líderes não têm muito o que dizer para essa parcela significativa dos evangélicos, porque encabeçaram um projeto de governo e de poder que, pelo princípio da não contradição, não podem falar da fome, do desemprego, da falta do auxílio emergencial. Caso falem sobre esses temas, podem ser enquadrados dentro do espectro político à esquerda. Mas não falam sobre isso por conta desse julgamento, não falam porque esses temas não estão, em definitivo, dentro das suas aspirações como cristãos e cidadãos. Eles não têm como contradizer a política neoliberal do governo; eles não podem falar sobre a falta de investimento na saúde, na educação e cobrar uma política de distribuição de renda. Essas pautas não constam nesse governo que deu, desde o início, sinais claros de que a massa pobre do país não é e nunca será a prioridade. Antes, a prioridade do ministério da Economia é alavancar sua agenda neoliberal e retirar, se possível, todos os benefícios que foram conquistados. Assim, trabalham para alterar leis trabalhistas, dificultar aposentadorias e achatar os salários que já estão defasados em relação à inflação.

Essa gente, o terceiro excluído, está fora dos grandes eventos do mundo gospel. Essa gente tem em Deus a única fonte de esperança, mas também já perceberam que a política é a oportunidade de debater e lutar por melhorias. Por essa razão, muitos pastores e irmãos da periferia estão dispostos a conversar sobre os problemas e dificuldades sociais do dia a dia que afetam a todos, indiscriminadamente.

O terceiro excluído é composto por gente que está acompanhando essa polarização Bolsonaro versus Esquerda, mas ainda não tornaram essa polarização a razão maior para a definição de seus votos, pelo contrário, o que definirá seus votos serão as demandas sociais e a vida que fica cada dia mais difícil para quem pega o ônibus lotado e vai trabalhar às cinco horas da manhã. 

Um projeto político-econômico que discuta as principais questões e aponte melhorias, não apenas para os evangélicos e suas demandas sociais, será oportunizado. Nesse sentido, o líder midiático, que voa de jatinho, pode até falar e se fazer ouvir como se fosse a “voz dos evangélicos”, mas não terá alcance satisfatório com essa gente que compõe o terceiro excluído que são, com certeza, mais do que 30%.

Notas: (1) https://www1.folha.uol.com.br/poder/2021/02/apoio-evangelico-em-2022-indica-bolsonaro-na-ponta-e-entraves-a-doria-huck-e-pt.shtml (2) Juliano Spyer. Povo de Deus: quem são os evangélicos e porque eles importam. São Paulo: Geração Editorial, 2020, p. 85.  

28.1.21

A NOVIDADE DA CONVENÇÃO BATISTA BRASILEIRA, SER “APOLÍTICA”

A mídia noticiou um Pedido de Impeachment assinado por mais de 380 lideranças religiosas, incluindo católicos e protestantes, e foi entregue à Câmara dos Deputados no dia 26 de janeiro 2021. O pedido está baseado nos “supostos” crimes que o presidente da República cometeu em relação a sua má condução na maior crise sanitária que o país já passou, a pandemia da COVID-19.

Bastou a mídia divulgar que dentre as lideranças religiosas que assinaram o Pedido estavam os batistas, que a Convenção Batista Brasileira (CBB) e a Ordem dos Pastores Batistas do Brasil (OPBB) emitissem um Pronunciamento para deixar claro (como se houvesse necessidade) de que essas instituições, representativas das igrejas Batistas e dos pastores batistas, não tinham qualquer participação no Pedido. Fazendo coro com a Igreja Presbiteriana do Brasil, que conta com ministros e auxiliares no alto escalão do governo federal, portanto, não há nenhuma dúvida de que a cúpula da IPB está envolvida até as vísceras com a gestão Bolsonaro, a CBB não precisava vir à público para dizer que não se envolveu com o Pedido. Até porque, o nome da CBB não aparece em nenhum lugar do documento. Quem assina são pastores de igrejas Batistas vinculados à CBB como também à Aliança de Batistas do Brasil, que é uma agremiação de pastores e igrejas Batistas de tendência ecumênica. O Pronunciamento da CBB foi um equívoco e completamente desnecessário, a partir desse ponto. Mas quando a CBB vem à público, por pressão da sua ala mais conservadora que segue comprometida com a agenda do governo federal, ela está tomando partido por omissão, uma vez que em diversas ocasiões foi solicitada a sua manifestação e o silêncio foi ensurdecedor. Nesse sentido, o ditado é verdadeiro: “Quem cala consente”.

No Pronunciamento do dia 27 de janeiro de 2021, a CBB frisa que em nome da sua fidelidade aos seus princípios se considera na posição de “apolítica”. Em outras palavras, a CBB está dizendo que não se envolve em política (no sentido partidário, faltou deixar isso claro, uma vez que a condição de apolítico não é possível em uma sociedade politizada). Quando recorre aos seus princípios, nos vem à mente os Princípios Batistas e dentre eles a Separação entre Igreja e Estado. Ocorre que já tem um tempo que pastores batistas e igrejas Batistas, no cenário político nacional, ignoraram os Princípios Batistas para apoiar o governo que entenderam ser o melhor de “Deus” para o país.

Um breve exercício de memória nos ajudaria a verificar que a CBB não se comportou de maneira “apolítica” em diversas ocasiões. Vejamos alguns episódios.

Os batistas têm um inequívoco laço com o regime que se instalou no Brasil a partir de 1964. Jorge Pinheiro é taxativo nesse sentido: “A partir do golpe militar de 1964, os batistas brasileiros construíram um profícuo relacionamento com o bonapartismo militar”. Depois de 1964, os batistas não são “apolíticos” de jeito nenhum. O Jornal Batista nesse período funcionou como propaganda política para os governos militares e depois disso foi um caminho sem volta, jogaram na lata do lixo o ethos histórico-político-teológico dos batistas. Antes de 1964, os batistas conheceram o Manifesto dos Ministros Batistas do Brasil, que denunciou situações gritantes na condução da política social e econômica do país. Mas não fiquemos nesse período nefasto apenas.

O corte decisivo se deu em 2010 quando Paschoal Piragine Jr. exibiu um vídeo propaganda no púlpito da igreja da qual é pastor titular desde 1988, a Primeira Igreja Batista em Curitiba/PR, para assim emitir a sua opinião contrária à eleição da então candidata Dilma Rousseff à presidência da República. Piragine Jr., pela primeira vez em 30 anos, toma partido e diz em quem os seus membros não deveriam votar nas eleições gerais de 2010. Assim, quando Piragine Jr. se posicionou politicamente, o seu discurso político-religioso foi chancelado quando se tornou presidente da CBB em 2011. Com essa votação, a CBB estava dizendo que tinha partido, uma vez que foi pedido, inúmeras vezes, que viesse à público e se posicionasse em relação à fala de Piragine Jr., mas ao invés disso deu a ele a presidência da CBB. Aqui não houve “posição apolítica”.

Quando Deltan Dellagnol estava à frente do Ministério Público Federal em Curitiba conduzindo a “Operação Lava Jato”, o seu pastor, L. Roberto Silvado, deu a ele todo o apoio, uma vez que o procurador era membro da Igreja Batista do Bacacheri (Curitiba/PR). Quando Silvado se tornou o presidente da CBB em 2013, Dellagnol passou a frequentar seminários, igrejas e encontros de pastores para falar de política e corrupção. A CBB estava de portas abertas para esse tema. O ponto mais emblemático, se deu no caso da votação no STF sobre a prisão ou não em segunda instância, e Deltan disse que “jejuaria pela prisão de Lula”. O seu discurso político-religioso foi endossado por L. Roberto Silvado, então presidente da CBB, que fez um pronunciamento aos batistas brasileiros em canal oficial da CBB, pedindo oração e jejum para que o Supremo Tribunal Federal julgasse de maneira correta quanto à prisão em segunda instância, pedindo oração e jejum à todos os batistas brasileiros para que os ministros do STF fossem iluminados pelo Espírito Santo quanto a permanência de um entendimento do Supremo à favor da prisão em segunda instância mesmo que o processo não tenha sido ainda transitado e julgado em todas as instâncias superiores. Houve reação à fala do presidente da CBB para que a mesma se posicionasse em relação ao ocorrido, mas o que se ouviu foi um silêncio e a tal “posição apolítica” não se confirmou nesse caso.

No dia 19 de agosto de 2018, na Igreja Batista Atitude Central da Barra, no Rio de Janeiro/RJ, o pastor Josué Valandro Jr. chamou à frente o então candidato do PSL à presidência da República, o deputado federal Jair Messias Bolsonaro. Sua intenção era orar pelo candidato, uma vez que a esposa do candidato fazia parte da membresia da igreja. Fazendo isso, Valandro Jr. se comprometeu com o candidato e suas propostas. Na oração do pastor da Atitude, ele deixa bem claro o que ele gostaria que acontecesse: “Se for a vontade de Deus que você seja no dia 1º de janeiro presidente do Brasil”. Além da oração, Valandro Jr. deixa o candidato falar, algo inimaginável em outros tempos para os batistas. Mesmo com inúmeros protestos para que a CBB se pronunciasse em relação ao ocorrido, o silêncio foi a sua melhor resposta.

Um último e penoso fato, se deu em 2019. A Juventude Batista Brasileira da CBB, no seu congresso anual “Despertar”, organizou mesas de debates e falas sobre diferentes assuntos. Dentre essas mesas estava uma em especial: “Descolonizando o olhar: o racismo atinge a igreja?”. Os convidados foram Fabíola Oliveira e o pastor batista Marco Davi Oliveira. Após o movimento contrário de um determinado grupo ultraconservador que alegou “desvio doutrinário” na formação da mesa, manifestando que eram desfavoráveis quanto a presença de Fabíola e Marco no congresso da JBB, a direção da JBB decidiu desconvidá-los. Decisão que contou com a participação da Diretoria da CBB. Nas Assembleias subsequentes ao ocorrido, o que se viu foi o silêncio e as manobras da cúpula da CBB para abafar o caso.

Esses episódios somados deixam bem claro que a CBB não tem posição “apolítica” quanto aos temas da política nacional. Quando se silencia, está tomando partido. E quando emite um Pronunciamento para dizer que não tem qualquer relação com um Pedido de Impeachment onde pastores batistas assinaram, está, mais uma vez, tomando partido. Como parece que esse é o caso, bastava a CBB vir à público e dizer que aprova o atual governo e a sua agenda que, no mínimo, contraria os anseios do Evangelho. Mas isso a instituição não faz, porque se considera “apolítica” quando lhe é conveniente.

31.10.20

INTERPRETAR A BÍBLIA: A HERMENÊUTICA DOS BATISTAS

É senso comum dizer que os batistas têm na Bíblia o seu principal princípio: “A Bíblia como regra de fé e prática”. Esse famoso adágio é o lema de muitos que, diante de algumas situações, afirma: “A Bíblia é a nossa única regra de fé e prática”. Mas este não é o ponto aqui. O ponto do texto é: quem na Bíblia é critério para se aplicar a “regra de fé e prática”?

Quando se estabelece que a “Bíblia é regra de fé e prática”, abre-se uma discussão quanto à interpretação das Escrituras. Reconhecendo que a interpretação não se dá de maneira unívoca, ou seja, com mais de 2000 anos de história da Igreja, já conhecemos o suficiente as disputas bíblico-teológicas e o consenso em termos de interpretação bíblica. Mas os batistas, ao longo da sua trajetória, sempre colocaram em segundo plano declarações de fé e doutrinas estabelecidas em Concílios. É aí que reside o ponto fulcral para os batistas quando procuram delimitar o critério para a “regra de fé e prática”, ou seja, colocar um ponto hermenêutico para que a interpretação aconteça. Essa delimitação está na Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira (CBB) e que alguns querem alterar, talvez porque cause um certo desconforto em lidar com a pluralidade.

Vamos ao ponto.

Por um lado, a Declaração Doutrinária da CBB reafirma um princípio caro aos batistas: a liberdade de consciência. Com isso, a Declaração Doutrinária da CBB quer ser instrumento de síntese para a boa compreensão das Escrituras e o faz dando um parâmetro para isso. O professor Jerry Stanley Key, que atuou por longos anos no Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, entendia que a “Convenção não apenas tem o direito, mas a responsabilidade de dar a orientação a respeito desta e de outras doutrinas básicas e fundamentais às entidades que cooperam com ela e, por extensão, às igrejas a ela afiliadas”. Dessa forma, para Key, é uma prerrogativa da CBB dar orientações quanto a temas bíblico-teológicos, ainda que essas orientações não sejam impositivas, mas indicativas. Dito isso, é bom pontuar algumas orientações que a Declaração Doutrinária da CBB dá quanto à hermenêutica batista das Escrituras.

Para a Declaração Doutrinária da CBB, as Escrituras Sagradas “é a Palavra de Deus em linguagem humana”. Ela não é a revelação, mas sim “o registro da revelação que Deus fez de si mesmo aos homens”. Mesmo que a Convenção por meio de sua Declaração Doutrinária advoga legitimidade na orientação para as igrejas afiliadas, a Bíblia continuará sendo “a autoridade única em matéria de religião, fiel padrão pelo qual devem ser aferidas a doutrina e a conduta dos homens”. Uma igreja Batista não pode abrir mão das Escrituras, pois ela é a bússola da comunidade e o critério de decisões e práticas da igreja. Uma igreja local precisa ter uma interpretação coerente das Escrituras, somente assim ela terá condições de viver a sua fé e prática. E qual seria o método hermenêutico que auxiliaria a igreja nas suas questões de fé e prática? Não é complicado, ao contrário, muito simples. 

Para a Declaração Doutrinária da CBB há um método para se fazer uma boa e saudável hermenêutica das Escrituras, qual seja: “Ela deve ser interpretada sempre à luz da pessoa e dos ensinos de Jesus Cristo”. Este é o único critério! Jesus, sua pessoa e ensinos, se constitui a chave para uma boa hermenêutica das Escrituras. O principal método hermenêutico é uma pessoa e seus ensinos e não declarações de fé, ainda que elas tenham o seu lugar na história e na tradição da Igreja. Portanto, o centro de uma boa interpretação das Escrituras para a Declaração Doutrinária da CBB está baseado em uma pessoa como ponto inicial e final. Ao que tudo indica, essa questão é crucial no entendimento da Declaração Doutrinária da CBB. Uma igreja Batista, a fim de manter a sua coerência, precisa ater-se aos ensinos de Jesus e sua caminhada. Ela precisa olhar para os evangelhos e enxergar as ações, gestos, palavras e ensinos de Jesus, com o intuito de imprimir na comunidade de fé esses gestos, ações, palavras e ensinos. A coerência da igreja local se dá, de acordo com a Declaração Doutrinária da CBB, quando a mesma segue o Cristo e procura colocá-lo, o máximo possível, em contato com seus membros.

Ainda que a Declaração Doutrinária da CBB estabeleça um único critério de interpretação das Escrituras (Jesus Cristo), é sabido da competência da igreja local em aferir suas questões a partir de suas conclusões hermenêuticas, uma vez que a interpretação não se dá em seu caráter unívoco. É nesse sentido que a advertência de Landers é oportuna: “Em caso de diferença de interpretação bíblica, cada igreja batista tem que ler e interpretar a Bíblia para si mesma. De acordo com este princípio, cada igreja define sua própria maneira de proceder em questões duvidosas”. Uma sentença como essa precisa ser desdobrada. John Landers, foi professor no Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil e autor do livro Teologia dos princípios batistas, está afirmando que a interpretação bíblica, tendo Jesus como guia hermenêutico, é de competência exclusiva da igreja local, ou seja, a ela cabe a definição de como proceder em questões “duvidosas”. É claramente dado à igreja local essa capacidade, do contrário estaria negando a atuação do Espírito Santo sobre ela. Mesmo que a Declaração Doutrinária da CBB coloque como critério Jesus Cristo, é sabido que há várias questões que o próprio Jesus não definiu, por não ser alvo no seu tempo ou por ser questões morais e culturais do Ocidente. Nesse sentido, a igreja interpretante e tendo Jesus como hermeneuta, precisa ler o seu contexto a partir da orientação do Espírito Santo, e assim proceder em questões que não há consenso, ou, como diria Landers, temas “duvidosos”. Com isso, a igreja local se entende como continuadora da vontade de Cristo quando decide suas questões sob a orientação do Espírito Santo.

Existe a possibilidade de uma igreja local não ter a atuação do Espírito Santo? Para John Landers isso é praticamente impossível. Segundo ele, a igreja “é uma associação formada pela ação do Espírito Santo”. Com isso, caso seja possível ignorar a ação do Espírito Santo na vida de uma igreja local, seria o mesmo que admitir que tal comunidade não é igreja, o que soaria muito estranho de acordo com o Novo Testamento. Uma igreja local, tanto na Declaração Doutrinária da CBB quanto na compreensão de Landers, se dá por intermédio do Espírito Santo. Isso é tão evidente na eclesiologia batista, que Landers chega a se perguntar qual deveria ser a base para afirmar quando uma igreja deixa de ser igreja. A resposta que ele encontra é essa: “É impossível responder a esta pergunta com segurança. Basta cada igreja se esforçar para aproximar-se cada vez mais dos ideais de Cristo”.

Ao que parece, há uma certa resistência a esses critérios teológicos e alguns não veem com bons olhos uma eclesiologia com embasamento teológico que faculta uma plena autonomia para a igreja local. Há quem queira tutelar, dizer o que pode e o que não pode e, se possível, usar o aparato político-teológico da CBB para monitorar e policiar possíveis desvios que um determinado grupo julgue fora de um padrão ortodoxo. Mas antes disso, é preciso lidar com um dado já consolidado: a igreja local tem legitimidade para agir, pensar, refletir, julgar e orientar seus membros a partir da pessoa e ensinos de Jesus, sendo ele o único critério hermenêutico, sob a orientação do Espírito Santo. Sendo Jesus o único critério hermenêutico, a igreja, então, procura balizar sua conduta e reflexão a partir das ações, gestos, palavras e ensinos de Jesus Cristo. Agora fica a pergunta: o que Jesus falaria e faria hoje diante de dilemas éticos, mazelas sociais e temas controversos?

22.9.20

FUNDAMENTALISTAS E CONSERVADORES: HÁ DISTINÇÃO?

Pode até parecer redundância, mas não é. Embora fundamentalistas e conservadores tenham a mesma percepção quanto à “defesa” da doutrina, há modos diferentes de entender como essa postura apologética é conduzida. Com os primeiros (fundamentalistas), o diálogo é quase nulo; com os segundos (conservadores), é possível dialogar porque estes já se deram conta há algum tempo que as coisas mudaram e o mundo não é mais como antigamente.

O caro leitor/a deve saber que o conceito “fundamentalismo” é um termo que surgiu no contexto religioso protestante nos EUA, mas que já ultrapassou o âmbito protestante estadunidense há muito tempo, principalmente depois dos ataques de 11 de setembro de 2001. O termo ficou popularizado e hoje pode ser visto sendo empregado não apenas no contexto religioso.

Regra geral, o movimento fundamentalista funcionou como uma reação, num primeiro momento, à modernidade e as mudanças que esta provocou em diversas áreas do comportamento humano, mas principalmente no campo teológico. No aspecto teológico, o fundamentalismo foi uma reação ao que ficou conhecido como “liberalismo teológico”, causando enormes conflitos em denominações, seminários teológicos e universidades lideradas por respectivas alas, fundamentalista e/ou liberal. Mas o ponto aqui não é essa história, mas sim como os conservadores passaram a se desvincular dos fundamentalistas por entender que a reflexão precisava acontecer e o recrudescimento a partir de posturas ferrenhamente antagônicas não contribuía para o debate com os liberais e, como consequência, com a sociedade. O que demonstra, que os conservadores procuraram o diálogo enquanto os fundamentalistas continuaram a se verem como os “únicos” detentores de uma verdade que não abria para questionamentos.

Os fundamentalistas tem uma característica evidente: “A convicção de que possuem o conhecimento absoluto da verdade, da qual se tornaram guardiões divinamente ordenados” (Lloyd Geering). Por se entenderem como guardiões absolutos da verdade, julgam que essa verdade está na Bíblia – não necessariamente em Deus, uma vez que entendem ser a Bíblia a única forma que Deus falou, daí toda a discussão quanto à inerrância do texto bíblico. Ainda que essa crença no texto bíblico não tenha qualquer dificuldade, o problema reside na interpretação do texto bíblico. O que significa dizer que, “as Escrituras Sagradas são a forma mais tangível da verdade para os fundamentalistas, que não aceitam quaisquer interpretações modernas dos textos sagrados, e nem mesmo que estes sejam, eles mesmos, interpretações” (Sandra Duarte). É por essa razão, que teólogos conservadores como Alister McGrath irá afirmar que o movimento fundamentalista prejudicou a teologia acadêmica e o consequente debate com os liberais. Para ele, “o surgimento do fundamentalismo causou impacto sobre o compromisso evangélico com a erudição em geral”. Dito de outro modo, McGrath está afirmando que os fundamentalistas, no seu afã de se identificarem como detentores da verdade e paladinos da defesa do cristianismo, prejudicaram a integralização entre evangélicos e universidades. Logo, a grosso modo, os fundamentalistas têm dificuldades em lidar com o conhecimento acadêmico e, a partir dele, propor debates coerentes.

Quando os embates entre fundamentalistas e liberais estava no auge nos EUA, houve quem visse nesse termo, fundamentalistas, um adágio e não uma insígnia. Um deles foi John Gresham Machen. Este preferia dizer “cristianismo conservador”, ou, simplesmente, “cristianismo”. Segundo ele, não havia a necessidade de acrescentar mais um “ismo” dentre muitos que já havia. Mas o destacado teólogo Edward John Carnell foi mais além. Ele procurou corrigir os erros dos fundamentalistas e passou a interagir com a teologia ortodoxa de maneira inteligente. Assim, estudou teologia no Seminário de Westminster, reconhecido centro do fundamentalismo, mas fez o seu doutorado em teologia na Universidade de Harvard, estudando a teologia de Reinhold Niebuhr. Este, professor no Union Theological Seminary, um dos mais progressistas nos EUA. Além disso, Niebuhr era abertamente socialista, mas não comunista. Carnell era um teólogo conservador, mas não mais fundamentalista.

Um dos principais pontos que diferem fundamentalistas de conservadores está na interpretação da Bíblia. Os primeiros “identificam ontologicamente a palavra escrita na Bíblia com a Palavra divina, suspendendo, assim, a historicidade do texto e reivindicando para os textos bíblicos, o caráter de autoridade final da Escritura, graças à sua inerrância e expressão da verdade divina absoluta (acima do contexto). O objetivo da hermenêutica bíblica, no fundamentalismo, é a escuta direta da Palavra de Deus que irá confirmar, ao final, as verdades doutrinárias e morais componentes do ideário fundamentalista” (Júlio Zabatiero). Nesse sentido, o texto bíblico é alçado à ídolo. Já para os conservadores, há uma certa distinção na hermenêutica. Não afirma, de maneira peremptória, “a inerrância, mas a infalibilidade das Escrituras em questões de doutrina e fé” (Júlio Zabatiero). Para teólogos conservadores, há uma resistência quanto “à tentação de identificar o próprio texto da Escritura com a revelação” (Alister McGrath). Assim, temos, portanto, pastores e teólogos que são conservadores, mas não são fundamentalistas. Billy Graham, por exemplo, que desbravou o mundo com suas campanhas evangelísticas era conservador, mas não fundamentalista. Ele recebeu apoio financeiro de instituições ecumênicas, transcendendo as fronteiras do conservadorismo. John Stott, era conservador, mas não fundamentalista. Foi respeitado por conservadores e progressistas porque soube dialogar com ambos a partir das suas ideias e convicções.

O cenário Batista está vendo surgir quem se auto intitula de “conservadores”, mas são, de fato, “fundamentalistas”, não aceitando a diversidade do modo de ser Batista. Advogam possuírem o único modo de ser Batista, julgando que os demais precisam se submeter às suas interpretações, do contrário o expurgo é a solução. Parecem desconhecer o éthos dos Batistas e de como a diversidade é inerente ao seu sistema denominacional.

Conservadores sabem o que significa ser Batista; fundamentalistas julgam ter a única interpretação para os Batistas. Na história dos Batistas sempre houve conservadores e progressistas. Ambos, não obstante as tensões e conflitos, se trataram com certo respeito porque sabiam o significa do ser Batista. Assim, Isaltino Gomes Coelho Filho era conservador, mas não fundamentalista; David Malta era progressista para o seu tempo e foi reitor do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil por longos anos; Ebenézer Soares Ferreira é conservador, mas não fundamentalista; Irland Pereira de Azevedo é conservador, mas não fundamentalista. A lista poderia continuar.

1.8.20

EVANGÉLICOS: VISIBILIDADE, PODER POLÍTICO E INTOLERÂNCIA

Uma reação ao texto da jornalista Madeleine Lacsko

A jornalista Madeleine Lacsko é colunista do jornal Gazeta do Povo (jornal que pretende ser a voz da direita pensante no Brasil com seus colunistas identificados com o conservadorismo). No dia 29 de Julho, a jornalista conhecida por seu trabalho em diferentes empresas de comunicação como a Jovem Pan, por exemplo, publicou um texto com o seguinte título: “Cristãos brasileiros não querem mais invisibilidade nem levar desaforo para casa” (ler o texto). O seu texto está permeado por uma reivindicação, qual seja, de que “a patrulha progressista vai ter de calçar as sandálias da humildade e tratar evangélicos como seres humanos”. A partir disso, Lacsko coloca o que considera uma violação dos Direitos Humanos (tema frequente entre os progressistas que se identificam com a esquerda) quando afirma que a discriminação e o preconceito para com os evangélicos configura, também, violação grave dos Direitos Humanos quando esse segmento numeroso da sociedade brasileira passa por situações vexatórias por serem evangélicos. O ambiente escolhido pela jornalista para balizar essa denúncia é o acadêmico.

Segundo Lacsko, em poucos lugares do ambiente acadêmico no Brasil o evangélico é respeitado como tal como na “Labô da PUC-SP” – grupo de pesquisa liderado pelo filósofo Luiz Felipe Pondé que reúne estudantes identificados com o espectro político à direita, e se propõe a divulgar o conservadorismo no seu aspecto político-filosófico. Fora desse espaço, segundo a jornalista, não é possível ver um ambiente de respeito e aceitação dos evangélicos na academia. A USP, segundo ela, é um dos ambientes mais hostis para os evangélicos: “Já experimentou entrar num Centro Acadêmico da USP ou mesmo num encontro de ativistas de Direitos Humanos e dizer que é crente? Boa sorte”. Nesse sentido, os evangélicos quando estudantes são taxados de retrógados, imbecis e alvos de todo o tipo de deboche no contexto acadêmico.

(Caso o leitor/a tenha chegado até aqui, é importante que tenha lido o texto da jornalista, do contrário a reação a seguir não terá o seu devido contexto).

Como evangélica que é, Madeleine Lacsko sabe que o campo evangélico é complexo no Brasil. Os dados mostram que a quantidade de evangélicos no país pode ultrapassar os católicos daqui alguns anos. Com o crescimento, também cresce a demanda por entender esse segmento da sociedade brasileira que é plural, dinâmico e, até mesmo, confuso doutrinaria e liturgicamente para os desavisados quanto ao seu fracionamento. Sendo assim, qualquer texto generalista sobre os evangélicos não alcança o seu alvo estabelecido pelo autor/a. Quando Lacsko diz que os evangélicos precisam “calar sobre sua religiosidade se quiser ter chances de ser levad[o] a sério na universidade e na profissão”, a pergunta que se faz é: quais evangélicos? Seria os evangélicos da periferia da cidade de São Paulo que enfrenta ônibus lotado para trabalhar todos os dias e nem mesmo tem acesso a uma educação de qualidade que favoreça uma possível classificação no vestibular da FUVEST? Ou seria os evangélicos que frequentam uma igreja de bairro de classe média alta e que a maioria dos membros é funcionário público, empresários e alguns CEOs de empresas importantes no país? Ou ainda os evangélicos de igrejas históricas em que os filhos cresceram estudando em um bom colégio confessional recebendo o devido preparo para entrar em uma boa universidade ou até mesmo ingressar em um curso na universidade vinculada à igreja? Quais evangélicos? O que tem acesso a universidade e sai para curtir balada gospel com os amigos ou o evangélico que enfrenta a desigualdade social na periferia? Além disso, sabemos por pesquisa recente que uma parcela de jovens evangélicos que entram em uma universidade abandona suas igrejas, porque não conseguem conciliar o ensino acadêmico com a orientação doutrinária da comunidade de fé. Esse dado não foi considerado pela jornalista.

O universo evangélico não pode ser classificado por um nicho e dele concluir que há um padrão de tratamento quando duas das melhores universidade do país são de confissão evangélica, Mackenzie e UMESP (sem mencionar as PUCs). Assim, não é possível tornar uma experiência pontual e colocar como se fosse um comportamento corriqueiro. Até porque, a face evangélica que a maioria das pessoas veem são a dos televisivos e midiáticos, os tais “televangelistas” que contribuíram para fomentar a opinião da maioria das pessoas de que todo pastor é ladrão e de que todo crente é um trouxa por cair nos golpes dos estelionatários da fé. No mais, um professor universitário bem informado sabe distinguir os evangélicos em seus fracionamentos.

Outro ponto no texto de Lacsko é a passagem da vitimização para a intimidação. A vitimização se dá na universidade, segundo a jornalista, e a intimidação (não levar desaforo para casa) se dá com a tomada do poder por um número considerável de evangélicos quando integrados à política nacional. Para Lacsko, os cristãos (leia-se evangélicos em todo o texto) podem agora reivindicar maior respeito porque chegaram ao poder pela via da direita. Assim, segundo a jornalista, “há muitos evangélicos na direita porque esta vertente política foi a que primeiro considerou a hipótese de evangélicos também serem humanos e abriu espaço para uma pauta de costumes em comum”. É bom lembrar que antes de 1964 havia uma disputa político-filosófica entre os evangélicos (esquerda e direita) de forma mais civilizada. Isso mudou e muito depois de 1964 e uma ala dos evangélicos passaram a se identificar com a direita porque esta, a direita dos generais, comungava dos mesmos ideias: Deus, família e pátria. Essa ala dos evangélicos se viram no espelho da política e se reconheceram alinhados com a direita que tomou o poder em 1964. As pautas morais e o combate ao comunismo (contexto de Guerra Fria) sob a influência dos evangélicos norte-americanos, funcionou como discurso retórico para perseguir irmãos, colocá-los no exílio e invocar as bênçãos de Deus sobre um regime autoritário que torturou e fez desaparecer dezenas de pessoas. Não, definitivamente a direita não “foi a primeira que considerou a hipótese de evangélicos também serem humanos”. Madeleine Lacsko talvez não saiba que os evangélicos tidos como “progressistas” foram os primeiros a elaborar uma teologia que enxergou o sofrimento humano causado pela ausência de políticas públicas. Sim, foram os evangélicos da Confederação Evangélica do Brasil, por exemplo, que apontou e denunciou a desigualdade social e as dificuldades para que seres humanos tivessem uma vida digna.

Agora os evangélicos estão no poder. No atual governo há seis ministros evangélicos, alguns deles em postos chaves como da Justiça e Educação. Conforme Lacsko, “com o crescimento da população evangélica e a chegada de vários evangélicos a postos de poder, os cristãos já têm força para dizer que estão cansados de ouvir deboche e serem tratados como piada”. Como os evangélicos já desvirtuaram e muito a mensagem do evangelho, é possível fazer o que a jornalista propõe: exercer a força política para se afirmar como grupo hegemônico e assim não levar mais desaforo para casa. A bancada evangélica já está fazendo isso. Não apenas transformaram uma sala da Câmara dos Deputados em templo e sessões em culto, como também procura a todo o custo se beneficiar do poder para continuar fazendo lobby tendo a “massa cristã” como potencial “beneficiária”, praticando, deste modo, uma política fisiológica nos corredores do poder.

Assim como os progressistas precisam calçar as sandálias da humildade e reconhecer que não entendem muito bem o complexo universo evangélico, os conservadores também. Julgar que todos os evangélicos são conservadores e de direita é um equívoco. Como diria Ronaldo de Almeida, “nem todos os conservadores são evangélicos; nem todos os evangélicos são conservadores”.

Madeleine Lacsko, com o seu texto, contribuiu para o debate.

Alonso Gonçalves & Martin Barcala

"CRISTÃOS BRASILEIROS NÃO QUEREM MAIS INVISIBILIDADE NEM LEVAR DESAFORO PARA CASA"

A patrulha progressista vai ter de calçar as sandálias da humildade e tratar evangélicos como seres humanos

Por Madeleine Lacsko

Texto publicado no jornal Gazeta do Povo (29 de Julho de 2020)

"Não me venha com isso de psicanálise que, para mim, é igreja de rico." A frase de Manoel Fernandes, dono da Bites, uma das mais respeitadas consultorias de Big Data do Brasil, arrancou risadas da plateia forrada de intelectuais em uma palestra na PUC. As pessoas talvez tenham gargalhado pelo inusitado, pelo saboroso sotaque nordestino do palestrante e pela reação debochada de Luiz Felipe Pondé à provocação. O fato é que na maioria dos ambientes intelectualizados do Brasil, você pode acreditar em psicanálise e até em astrologia, tarô, runas, ler borra de café na xícara mas, se for evangélico, é imbecil. (Diga-se de passagem, não no Labô da PUC, um dos poucos locais em que evangélicos têm sua intelectualidade respeitada na academia brasileira).

O fenômeno de julgar inteligente ou mesmo aceitável a ideia de resumir a natureza humana à racionalidade é recente. A própria Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, estabelece em seu artigo 18 que a religião é parte da dignidade humana. Proibir alguém de ter religião ou de manifestar sua religiosidade em privado ou em público é violação de Direitos Humanos. Essa proibição não é só colocar uma arma na cabeça, mas constranger, difamar, ridicularizar ou gerar consequências nefastas para quem o faz. Já experimentou entrar num Centro Acadêmico da USP ou mesmo num encontro de ativistas de Direitos Humanos e dizer que é crente? Boa sorte.

"Toda a pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião; este direito implica a liberdade de mudar de religião ou de convicção, assim como a liberdade de manifestar a religião ou convicção, sozinho ou em comum, tanto em público como em privado, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pelos ritos", diz o artigo 18 da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Vemos ateus reclamando, muitas vezes até com razão, da discriminação por não acreditarem em Deus - o que, afinal, é direito deles. Esquecem, no entanto, que batem como leões e apanham como gatinhos. A massa cristã brasileira sabe que precisa calar sobre sua religiosidade se quiser ter chances de ser levada a sério na universidade e na profissão. Entre os intelectuais existe a predominância do pensamento de que evangélicos são todos estúpidos. Não que esse pessoal conheça evangélicos, estude o assunto ou já tenha pisado numa igreja. Provavelmente eles viram alguns televangelistas e misturaram no poço de arrogância e preconceito que cultivam na alma.

Com a chegada de muitos evangélicos ao poder, a fé cristã passou a ser associada a uma vertente política, como se fosse possível submeter o mais sublime da alma humana - que é a experiência individual da fé - a qualquer coisa do mundo racional. Há muitos evangélicos na direita porque esta vertente política foi a que primeiro considerou a hipótese de evangélicos também serem humanos e abriu espaço para uma pauta de costumes em comum. E desse movimento vêm duas distorções. A primeira é a ideia de que cristianismo tem a ver com a direita. A segunda, bem mais divertida, é a "conversão" recente de vários ateus com sede de poder. Amo perguntar onde congregam e ouvir de volta: "como assim, congrega?". Gente que nunca pisou numa igreja agora se diz cristã para se aproximar de poderosos.

Mas o fato é que a esmagadora maioria da população brasileira é cristã. E, com o crescimento da população evangélica e a chegada de vários evangélicos a postos de poder, os cristãos já tem força para dizer que estão cansados de ouvir deboche e serem tratados como piada.

Há cristãos em todos os segmentos da sociedade brasileira, mas há respeito apenas em nichos muito específicos. O mais respeitado por intelectuais e progressistas é o dos não-praticantes que só não se dizem ateus por causa do preconceito da família. O outro bem aceito é o que frequenta a paróquia mais chique da cidade, no caso da minha São Paulo, a Nossa Senhora do Brasil. O cristão cujo líder religioso faz declarações políticas lacradoras também é respeitado na semana em que essa declaração é feita. Fora isso, todos imbecis, principalmente se for pobre, aí é necessariamente explorado, um coitado. Astrólogo, tarólogo, coach e terapeuta holístico não exploram ninguém, só pastor.

A forma como a ministra Damares Alves é tratada pela imprensa talvez seja o exemplo mais vivo desse preconceito religioso que, aliás, é crime pendurado na Lei do Racismo junto com a homofobia. Ninguém lê o que ela propõe, não se ouve o que ela fala, se confunde pregação antiga da igreja com política, experiências transcendentais de fé são ridicularizadas e está tudo bem. Isso é muito diferente de discordar. Tome-se por exemplo a questão da sexualidade na adolescência e o início da vida sexual. Quantos noticiaram o que está nos documentos e quantos noticiaram o que se imagina que pensem os crentes a respeito do assunto?

Todo evangélico que não nasceu rico já teve de engolir seco alguém falando os maiores absurdos sobre cristianismo, Bíblia e evangélicos para não perder oportunidade profissional ou de estudar. Isso é uma violação de direitos contra a qual muitos não puderam gritar e agora estão gritando, inclusive na esquerda.

Foi extremamente importante a manifestação do rapper Emicida no último Roda Viva, comandado pela jornalista Vera Magalhães. "Rapazeada, primeiro barato, a igreja é coisa que salva vida pra caramba em volta da vida das pessoas de quebrada, não dá para você entrar de sola desse jeito e ir achando que todo irmão que está com a Bíblia embaixo do braço, que conseguiu sair da droga, sair da cadeia, largar o crime, arrumar uma esposa, arrumar o dente, parar de bater na mulher, etc, todas essas coisas, não dá para colocar todas essas pessoas como se elas fossem o Edir Macedo ou o Silas Malafaia", relatou o músico sobre o que disse num grupo de whatsapp de apoio a Marcelo Freixo no Rio de Janeiro em que os integrantes subestimavam a capacidade de raciocínio dos evangélicos.

Há, na elite econômica, cultural e intelectual brasileira a mania do tratamento condescentente, que é um jeito de maltratar de forma velada. Trata o outro como coitadinho por se considerar superior e o faz unicamente por arrogância. Por que os progressistas julgam saber tanto sobre evangélicos se não os conhecem, não estudam o tema e não se interessam por descobrir? Porque se julgam intelectualmente acima deles, capazes de decidir apenas pela racionalidade. É cada vez maior o número de jovens lideranças que se rebela contra esse tipo de injustiça.

Tem chamado a atenção nos últimos dias na internet um vídeo do estudante conhecido "Chavoso da USP", Thiago Torres. Ele tem 19 anos e estuda ciências sociais na FFLCH, nasceu na Brasilândia, periferia de São Paulo. É um ser tão raro na realidade uspiana que virou até matéria no prestigioso "Jornal do Campus", onde publiquei minha primeira reportagem na vida. Ele é dedicado, inteligente e competente e fez, para os amigos progressistas, um longo compilado de textos e pesquisas da própria esquerda sobre a importância da religião.

Ele já começa com uma estocada na turma que gosta de dizer que é do bem mas debocha de evangélico: a matemática. Mostra a conta em que 90% dos brasileiros se dizem cristãos e conclui que é uma sociedade cristã e, na linguagem da esquerda, toda uma "classe trabalhadora" cristã. Liberdade de expressão, segundo a Declaração Universal dos Direitos Humanos, é a de "não ser inquietado" por suas opiniões. Assim funciona também para a religião. Se muita gente pisoteou evangélicos porque eles não tinham força de fazer cumprir seus direitos fundamentais, parece que esta era começa a terminar. Tomara".