28.1.21

A NOVIDADE DA CONVENÇÃO BATISTA BRASILEIRA, SER “APOLÍTICA”

A mídia noticiou um Pedido de Impeachment assinado por mais de 380 lideranças religiosas, incluindo católicos e protestantes, e foi entregue à Câmara dos Deputados no dia 26 de janeiro 2021. O pedido está baseado nos “supostos” crimes que o presidente da República cometeu em relação a sua má condução na maior crise sanitária que o país já passou, a pandemia da COVID-19.

Bastou a mídia divulgar que dentre as lideranças religiosas que assinaram o Pedido estavam os batistas, que a Convenção Batista Brasileira (CBB) e a Ordem dos Pastores Batistas do Brasil (OPBB) emitissem um Pronunciamento para deixar claro (como se houvesse necessidade) de que essas instituições, representativas das igrejas Batistas e dos pastores batistas, não tinham qualquer participação no Pedido. Fazendo coro com a Igreja Presbiteriana do Brasil, que conta com ministros e auxiliares no alto escalão do governo federal, portanto, não há nenhuma dúvida de que a cúpula da IPB está envolvida até as vísceras com a gestão Bolsonaro, a CBB não precisava vir à público para dizer que não se envolveu com o Pedido. Até porque, o nome da CBB não aparece em nenhum lugar do documento. Quem assina são pastores de igrejas Batistas vinculados à CBB como também à Aliança de Batistas do Brasil, que é uma agremiação de pastores e igrejas Batistas de tendência ecumênica. O Pronunciamento da CBB foi um equívoco e completamente desnecessário, a partir desse ponto. Mas quando a CBB vem à público, por pressão da sua ala mais conservadora que segue comprometida com a agenda do governo federal, ela está tomando partido por omissão, uma vez que em diversas ocasiões foi solicitada a sua manifestação e o silêncio foi ensurdecedor. Nesse sentido, o ditado é verdadeiro: “Quem cala consente”.

No Pronunciamento do dia 27 de janeiro de 2021, a CBB frisa que em nome da sua fidelidade aos seus princípios se considera na posição de “apolítica”. Em outras palavras, a CBB está dizendo que não se envolve em política (no sentido partidário, faltou deixar isso claro, uma vez que a condição de apolítico não é possível em uma sociedade politizada). Quando recorre aos seus princípios, nos vem à mente os Princípios Batistas e dentre eles a Separação entre Igreja e Estado. Ocorre que já tem um tempo que pastores batistas e igrejas Batistas, no cenário político nacional, ignoraram os Princípios Batistas para apoiar o governo que entenderam ser o melhor de “Deus” para o país.

Um breve exercício de memória nos ajudaria a verificar que a CBB não se comportou de maneira “apolítica” em diversas ocasiões. Vejamos alguns episódios.

Os batistas têm um inequívoco laço com o regime que se instalou no Brasil a partir de 1964. Jorge Pinheiro é taxativo nesse sentido: “A partir do golpe militar de 1964, os batistas brasileiros construíram um profícuo relacionamento com o bonapartismo militar”. Depois de 1964, os batistas não são “apolíticos” de jeito nenhum. O Jornal Batista nesse período funcionou como propaganda política para os governos militares e depois disso foi um caminho sem volta, jogaram na lata do lixo o ethos histórico-político-teológico dos batistas. Antes de 1964, os batistas conheceram o Manifesto dos Ministros Batistas do Brasil, que denunciou situações gritantes na condução da política social e econômica do país. Mas não fiquemos nesse período nefasto apenas.

O corte decisivo se deu em 2010 quando Paschoal Piragine Jr. exibiu um vídeo propaganda no púlpito da igreja da qual é pastor titular desde 1988, a Primeira Igreja Batista em Curitiba/PR, para assim emitir a sua opinião contrária à eleição da então candidata Dilma Rousseff à presidência da República. Piragine Jr., pela primeira vez em 30 anos, toma partido e diz em quem os seus membros não deveriam votar nas eleições gerais de 2010. Assim, quando Piragine Jr. se posicionou politicamente, o seu discurso político-religioso foi chancelado quando se tornou presidente da CBB em 2011. Com essa votação, a CBB estava dizendo que tinha partido, uma vez que foi pedido, inúmeras vezes, que viesse à público e se posicionasse em relação à fala de Piragine Jr., mas ao invés disso deu a ele a presidência da CBB. Aqui não houve “posição apolítica”.

Quando Deltan Dellagnol estava à frente do Ministério Público Federal em Curitiba conduzindo a “Operação Lava Jato”, o seu pastor, L. Roberto Silvado, deu a ele todo o apoio, uma vez que o procurador era membro da Igreja Batista do Bacacheri (Curitiba/PR). Quando Silvado se tornou o presidente da CBB em 2013, Dellagnol passou a frequentar seminários, igrejas e encontros de pastores para falar de política e corrupção. A CBB estava de portas abertas para esse tema. O ponto mais emblemático, se deu no caso da votação no STF sobre a prisão ou não em segunda instância, e Deltan disse que “jejuaria pela prisão de Lula”. O seu discurso político-religioso foi endossado por L. Roberto Silvado, então presidente da CBB, que fez um pronunciamento aos batistas brasileiros em canal oficial da CBB, pedindo oração e jejum para que o Supremo Tribunal Federal julgasse de maneira correta quanto à prisão em segunda instância, pedindo oração e jejum à todos os batistas brasileiros para que os ministros do STF fossem iluminados pelo Espírito Santo quanto a permanência de um entendimento do Supremo à favor da prisão em segunda instância mesmo que o processo não tenha sido ainda transitado e julgado em todas as instâncias superiores. Houve reação à fala do presidente da CBB para que a mesma se posicionasse em relação ao ocorrido, mas o que se ouviu foi um silêncio e a tal “posição apolítica” não se confirmou nesse caso.

No dia 19 de agosto de 2018, na Igreja Batista Atitude Central da Barra, no Rio de Janeiro/RJ, o pastor Josué Valandro Jr. chamou à frente o então candidato do PSL à presidência da República, o deputado federal Jair Messias Bolsonaro. Sua intenção era orar pelo candidato, uma vez que a esposa do candidato fazia parte da membresia da igreja. Fazendo isso, Valandro Jr. se comprometeu com o candidato e suas propostas. Na oração do pastor da Atitude, ele deixa bem claro o que ele gostaria que acontecesse: “Se for a vontade de Deus que você seja no dia 1º de janeiro presidente do Brasil”. Além da oração, Valandro Jr. deixa o candidato falar, algo inimaginável em outros tempos para os batistas. Mesmo com inúmeros protestos para que a CBB se pronunciasse em relação ao ocorrido, o silêncio foi a sua melhor resposta.

Um último e penoso fato, se deu em 2019. A Juventude Batista Brasileira da CBB, no seu congresso anual “Despertar”, organizou mesas de debates e falas sobre diferentes assuntos. Dentre essas mesas estava uma em especial: “Descolonizando o olhar: o racismo atinge a igreja?”. Os convidados foram Fabíola Oliveira e o pastor batista Marco Davi Oliveira. Após o movimento contrário de um determinado grupo ultraconservador que alegou “desvio doutrinário” na formação da mesa, manifestando que eram desfavoráveis quanto a presença de Fabíola e Marco no congresso da JBB, a direção da JBB decidiu desconvidá-los. Decisão que contou com a participação da Diretoria da CBB. Nas Assembleias subsequentes ao ocorrido, o que se viu foi o silêncio e as manobras da cúpula da CBB para abafar o caso.

Esses episódios somados deixam bem claro que a CBB não tem posição “apolítica” quanto aos temas da política nacional. Quando se silencia, está tomando partido. E quando emite um Pronunciamento para dizer que não tem qualquer relação com um Pedido de Impeachment onde pastores batistas assinaram, está, mais uma vez, tomando partido. Como parece que esse é o caso, bastava a CBB vir à público e dizer que aprova o atual governo e a sua agenda que, no mínimo, contraria os anseios do Evangelho. Mas isso a instituição não faz, porque se considera “apolítica” quando lhe é conveniente.

31.10.20

INTERPRETAR A BÍBLIA: A HERMENÊUTICA DOS BATISTAS

É senso comum dizer que os batistas têm na Bíblia o seu principal princípio: “A Bíblia como regra de fé e prática”. Esse famoso adágio é o lema de muitos que, diante de algumas situações, afirma: “A Bíblia é a nossa única regra de fé e prática”. Mas este não é o ponto aqui. O ponto do texto é: quem na Bíblia é critério para se aplicar a “regra de fé e prática”?

Quando se estabelece que a “Bíblia é regra de fé e prática”, abre-se uma discussão quanto à interpretação das Escrituras. Reconhecendo que a interpretação não se dá de maneira unívoca, ou seja, com mais de 2000 anos de história da Igreja, já conhecemos o suficiente as disputas bíblico-teológicas e o consenso em termos de interpretação bíblica. Mas os batistas, ao longo da sua trajetória, sempre colocaram em segundo plano declarações de fé e doutrinas estabelecidas em Concílios. É aí que reside o ponto fulcral para os batistas quando procuram delimitar o critério para a “regra de fé e prática”, ou seja, colocar um ponto hermenêutico para que a interpretação aconteça. Essa delimitação está na Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira (CBB) e que alguns querem alterar, talvez porque cause um certo desconforto em lidar com a pluralidade.

Vamos ao ponto.

Por um lado, a Declaração Doutrinária da CBB reafirma um princípio caro aos batistas: a liberdade de consciência. Com isso, a Declaração Doutrinária da CBB quer ser instrumento de síntese para a boa compreensão das Escrituras e o faz dando um parâmetro para isso. O professor Jerry Stanley Key, que atuou por longos anos no Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, entendia que a “Convenção não apenas tem o direito, mas a responsabilidade de dar a orientação a respeito desta e de outras doutrinas básicas e fundamentais às entidades que cooperam com ela e, por extensão, às igrejas a ela afiliadas”. Dessa forma, para Key, é uma prerrogativa da CBB dar orientações quanto a temas bíblico-teológicos, ainda que essas orientações não sejam impositivas, mas indicativas. Dito isso, é bom pontuar algumas orientações que a Declaração Doutrinária da CBB dá quanto à hermenêutica batista das Escrituras.

Para a Declaração Doutrinária da CBB, as Escrituras Sagradas “é a Palavra de Deus em linguagem humana”. Ela não é a revelação, mas sim “o registro da revelação que Deus fez de si mesmo aos homens”. Mesmo que a Convenção por meio de sua Declaração Doutrinária advoga legitimidade na orientação para as igrejas afiliadas, a Bíblia continuará sendo “a autoridade única em matéria de religião, fiel padrão pelo qual devem ser aferidas a doutrina e a conduta dos homens”. Uma igreja Batista não pode abrir mão das Escrituras, pois ela é a bússola da comunidade e o critério de decisões e práticas da igreja. Uma igreja local precisa ter uma interpretação coerente das Escrituras, somente assim ela terá condições de viver a sua fé e prática. E qual seria o método hermenêutico que auxiliaria a igreja nas suas questões de fé e prática? Não é complicado, ao contrário, muito simples. 

Para a Declaração Doutrinária da CBB há um método para se fazer uma boa e saudável hermenêutica das Escrituras, qual seja: “Ela deve ser interpretada sempre à luz da pessoa e dos ensinos de Jesus Cristo”. Este é o único critério! Jesus, sua pessoa e ensinos, se constitui a chave para uma boa hermenêutica das Escrituras. O principal método hermenêutico é uma pessoa e seus ensinos e não declarações de fé, ainda que elas tenham o seu lugar na história e na tradição da Igreja. Portanto, o centro de uma boa interpretação das Escrituras para a Declaração Doutrinária da CBB está baseado em uma pessoa como ponto inicial e final. Ao que tudo indica, essa questão é crucial no entendimento da Declaração Doutrinária da CBB. Uma igreja Batista, a fim de manter a sua coerência, precisa ater-se aos ensinos de Jesus e sua caminhada. Ela precisa olhar para os evangelhos e enxergar as ações, gestos, palavras e ensinos de Jesus, com o intuito de imprimir na comunidade de fé esses gestos, ações, palavras e ensinos. A coerência da igreja local se dá, de acordo com a Declaração Doutrinária da CBB, quando a mesma segue o Cristo e procura colocá-lo, o máximo possível, em contato com seus membros.

Ainda que a Declaração Doutrinária da CBB estabeleça um único critério de interpretação das Escrituras (Jesus Cristo), é sabido da competência da igreja local em aferir suas questões a partir de suas conclusões hermenêuticas, uma vez que a interpretação não se dá em seu caráter unívoco. É nesse sentido que a advertência de Landers é oportuna: “Em caso de diferença de interpretação bíblica, cada igreja batista tem que ler e interpretar a Bíblia para si mesma. De acordo com este princípio, cada igreja define sua própria maneira de proceder em questões duvidosas”. Uma sentença como essa precisa ser desdobrada. John Landers, foi professor no Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil e autor do livro Teologia dos princípios batistas, está afirmando que a interpretação bíblica, tendo Jesus como guia hermenêutico, é de competência exclusiva da igreja local, ou seja, a ela cabe a definição de como proceder em questões “duvidosas”. É claramente dado à igreja local essa capacidade, do contrário estaria negando a atuação do Espírito Santo sobre ela. Mesmo que a Declaração Doutrinária da CBB coloque como critério Jesus Cristo, é sabido que há várias questões que o próprio Jesus não definiu, por não ser alvo no seu tempo ou por ser questões morais e culturais do Ocidente. Nesse sentido, a igreja interpretante e tendo Jesus como hermeneuta, precisa ler o seu contexto a partir da orientação do Espírito Santo, e assim proceder em questões que não há consenso, ou, como diria Landers, temas “duvidosos”. Com isso, a igreja local se entende como continuadora da vontade de Cristo quando decide suas questões sob a orientação do Espírito Santo.

Existe a possibilidade de uma igreja local não ter a atuação do Espírito Santo? Para John Landers isso é praticamente impossível. Segundo ele, a igreja “é uma associação formada pela ação do Espírito Santo”. Com isso, caso seja possível ignorar a ação do Espírito Santo na vida de uma igreja local, seria o mesmo que admitir que tal comunidade não é igreja, o que soaria muito estranho de acordo com o Novo Testamento. Uma igreja local, tanto na Declaração Doutrinária da CBB quanto na compreensão de Landers, se dá por intermédio do Espírito Santo. Isso é tão evidente na eclesiologia batista, que Landers chega a se perguntar qual deveria ser a base para afirmar quando uma igreja deixa de ser igreja. A resposta que ele encontra é essa: “É impossível responder a esta pergunta com segurança. Basta cada igreja se esforçar para aproximar-se cada vez mais dos ideais de Cristo”.

Ao que parece, há uma certa resistência a esses critérios teológicos e alguns não veem com bons olhos uma eclesiologia com embasamento teológico que faculta uma plena autonomia para a igreja local. Há quem queira tutelar, dizer o que pode e o que não pode e, se possível, usar o aparato político-teológico da CBB para monitorar e policiar possíveis desvios que um determinado grupo julgue fora de um padrão ortodoxo. Mas antes disso, é preciso lidar com um dado já consolidado: a igreja local tem legitimidade para agir, pensar, refletir, julgar e orientar seus membros a partir da pessoa e ensinos de Jesus, sendo ele o único critério hermenêutico, sob a orientação do Espírito Santo. Sendo Jesus o único critério hermenêutico, a igreja, então, procura balizar sua conduta e reflexão a partir das ações, gestos, palavras e ensinos de Jesus Cristo. Agora fica a pergunta: o que Jesus falaria e faria hoje diante de dilemas éticos, mazelas sociais e temas controversos?

22.9.20

FUNDAMENTALISTAS E CONSERVADORES: HÁ DISTINÇÃO?

Pode até parecer redundância, mas não é. Embora fundamentalistas e conservadores tenham a mesma percepção quanto à “defesa” da doutrina, há modos diferentes de entender como essa postura apologética é conduzida. Com os primeiros (fundamentalistas), o diálogo é quase nulo; com os segundos (conservadores), é possível dialogar porque estes já se deram conta há algum tempo que as coisas mudaram e o mundo não é mais como antigamente.

O caro leitor/a deve saber que o conceito “fundamentalismo” é um termo que surgiu no contexto religioso protestante nos EUA, mas que já ultrapassou o âmbito protestante estadunidense há muito tempo, principalmente depois dos ataques de 11 de setembro de 2001. O termo ficou popularizado e hoje pode ser visto sendo empregado não apenas no contexto religioso.

Regra geral, o movimento fundamentalista funcionou como uma reação, num primeiro momento, à modernidade e as mudanças que esta provocou em diversas áreas do comportamento humano, mas principalmente no campo teológico. No aspecto teológico, o fundamentalismo foi uma reação ao que ficou conhecido como “liberalismo teológico”, causando enormes conflitos em denominações, seminários teológicos e universidades lideradas por respectivas alas, fundamentalista e/ou liberal. Mas o ponto aqui não é essa história, mas sim como os conservadores passaram a se desvincular dos fundamentalistas por entender que a reflexão precisava acontecer e o recrudescimento a partir de posturas ferrenhamente antagônicas não contribuía para o debate com os liberais e, como consequência, com a sociedade. O que demonstra, que os conservadores procuraram o diálogo enquanto os fundamentalistas continuaram a se verem como os “únicos” detentores de uma verdade que não abria para questionamentos.

Os fundamentalistas tem uma característica evidente: “A convicção de que possuem o conhecimento absoluto da verdade, da qual se tornaram guardiões divinamente ordenados” (Lloyd Geering). Por se entenderem como guardiões absolutos da verdade, julgam que essa verdade está na Bíblia – não necessariamente em Deus, uma vez que entendem ser a Bíblia a única forma que Deus falou, daí toda a discussão quanto à inerrância do texto bíblico. Ainda que essa crença no texto bíblico não tenha qualquer dificuldade, o problema reside na interpretação do texto bíblico. O que significa dizer que, “as Escrituras Sagradas são a forma mais tangível da verdade para os fundamentalistas, que não aceitam quaisquer interpretações modernas dos textos sagrados, e nem mesmo que estes sejam, eles mesmos, interpretações” (Sandra Duarte). É por essa razão, que teólogos conservadores como Alister McGrath irá afirmar que o movimento fundamentalista prejudicou a teologia acadêmica e o consequente debate com os liberais. Para ele, “o surgimento do fundamentalismo causou impacto sobre o compromisso evangélico com a erudição em geral”. Dito de outro modo, McGrath está afirmando que os fundamentalistas, no seu afã de se identificarem como detentores da verdade e paladinos da defesa do cristianismo, prejudicaram a integralização entre evangélicos e universidades. Logo, a grosso modo, os fundamentalistas têm dificuldades em lidar com o conhecimento acadêmico e, a partir dele, propor debates coerentes.

Quando os embates entre fundamentalistas e liberais estava no auge nos EUA, houve quem visse nesse termo, fundamentalistas, um adágio e não uma insígnia. Um deles foi John Gresham Machen. Este preferia dizer “cristianismo conservador”, ou, simplesmente, “cristianismo”. Segundo ele, não havia a necessidade de acrescentar mais um “ismo” dentre muitos que já havia. Mas o destacado teólogo Edward John Carnell foi mais além. Ele procurou corrigir os erros dos fundamentalistas e passou a interagir com a teologia ortodoxa de maneira inteligente. Assim, estudou teologia no Seminário de Westminster, reconhecido centro do fundamentalismo, mas fez o seu doutorado em teologia na Universidade de Harvard, estudando a teologia de Reinhold Niebuhr. Este, professor no Union Theological Seminary, um dos mais progressistas nos EUA. Além disso, Niebuhr era abertamente socialista, mas não comunista. Carnell era um teólogo conservador, mas não mais fundamentalista.

Um dos principais pontos que diferem fundamentalistas de conservadores está na interpretação da Bíblia. Os primeiros “identificam ontologicamente a palavra escrita na Bíblia com a Palavra divina, suspendendo, assim, a historicidade do texto e reivindicando para os textos bíblicos, o caráter de autoridade final da Escritura, graças à sua inerrância e expressão da verdade divina absoluta (acima do contexto). O objetivo da hermenêutica bíblica, no fundamentalismo, é a escuta direta da Palavra de Deus que irá confirmar, ao final, as verdades doutrinárias e morais componentes do ideário fundamentalista” (Júlio Zabatiero). Nesse sentido, o texto bíblico é alçado à ídolo. Já para os conservadores, há uma certa distinção na hermenêutica. Não afirma, de maneira peremptória, “a inerrância, mas a infalibilidade das Escrituras em questões de doutrina e fé” (Júlio Zabatiero). Para teólogos conservadores, há uma resistência quanto “à tentação de identificar o próprio texto da Escritura com a revelação” (Alister McGrath). Assim, temos, portanto, pastores e teólogos que são conservadores, mas não são fundamentalistas. Billy Graham, por exemplo, que desbravou o mundo com suas campanhas evangelísticas era conservador, mas não fundamentalista. Ele recebeu apoio financeiro de instituições ecumênicas, transcendendo as fronteiras do conservadorismo. John Stott, era conservador, mas não fundamentalista. Foi respeitado por conservadores e progressistas porque soube dialogar com ambos a partir das suas ideias e convicções.

O cenário Batista está vendo surgir quem se auto intitula de “conservadores”, mas são, de fato, “fundamentalistas”, não aceitando a diversidade do modo de ser Batista. Advogam possuírem o único modo de ser Batista, julgando que os demais precisam se submeter às suas interpretações, do contrário o expurgo é a solução. Parecem desconhecer o éthos dos Batistas e de como a diversidade é inerente ao seu sistema denominacional.

Conservadores sabem o que significa ser Batista; fundamentalistas julgam ter a única interpretação para os Batistas. Na história dos Batistas sempre houve conservadores e progressistas. Ambos, não obstante as tensões e conflitos, se trataram com certo respeito porque sabiam o significa do ser Batista. Assim, Isaltino Gomes Coelho Filho era conservador, mas não fundamentalista; David Malta era progressista para o seu tempo e foi reitor do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil por longos anos; Ebenézer Soares Ferreira é conservador, mas não fundamentalista; Irland Pereira de Azevedo é conservador, mas não fundamentalista. A lista poderia continuar.

1.8.20

EVANGÉLICOS: VISIBILIDADE, PODER POLÍTICO E INTOLERÂNCIA

Uma reação ao texto da jornalista Madeleine Lacsko

A jornalista Madeleine Lacsko é colunista do jornal Gazeta do Povo (jornal que pretende ser a voz da direita pensante no Brasil com seus colunistas identificados com o conservadorismo). No dia 29 de Julho, a jornalista conhecida por seu trabalho em diferentes empresas de comunicação como a Jovem Pan, por exemplo, publicou um texto com o seguinte título: “Cristãos brasileiros não querem mais invisibilidade nem levar desaforo para casa” (ler o texto). O seu texto está permeado por uma reivindicação, qual seja, de que “a patrulha progressista vai ter de calçar as sandálias da humildade e tratar evangélicos como seres humanos”. A partir disso, Lacsko coloca o que considera uma violação dos Direitos Humanos (tema frequente entre os progressistas que se identificam com a esquerda) quando afirma que a discriminação e o preconceito para com os evangélicos configura, também, violação grave dos Direitos Humanos quando esse segmento numeroso da sociedade brasileira passa por situações vexatórias por serem evangélicos. O ambiente escolhido pela jornalista para balizar essa denúncia é o acadêmico.

Segundo Lacsko, em poucos lugares do ambiente acadêmico no Brasil o evangélico é respeitado como tal como na “Labô da PUC-SP” – grupo de pesquisa liderado pelo filósofo Luiz Felipe Pondé que reúne estudantes identificados com o espectro político à direita, e se propõe a divulgar o conservadorismo no seu aspecto político-filosófico. Fora desse espaço, segundo a jornalista, não é possível ver um ambiente de respeito e aceitação dos evangélicos na academia. A USP, segundo ela, é um dos ambientes mais hostis para os evangélicos: “Já experimentou entrar num Centro Acadêmico da USP ou mesmo num encontro de ativistas de Direitos Humanos e dizer que é crente? Boa sorte”. Nesse sentido, os evangélicos quando estudantes são taxados de retrógados, imbecis e alvos de todo o tipo de deboche no contexto acadêmico.

(Caso o leitor/a tenha chegado até aqui, é importante que tenha lido o texto da jornalista, do contrário a reação a seguir não terá o seu devido contexto).

Como evangélica que é, Madeleine Lacsko sabe que o campo evangélico é complexo no Brasil. Os dados mostram que a quantidade de evangélicos no país pode ultrapassar os católicos daqui alguns anos. Com o crescimento, também cresce a demanda por entender esse segmento da sociedade brasileira que é plural, dinâmico e, até mesmo, confuso doutrinaria e liturgicamente para os desavisados quanto ao seu fracionamento. Sendo assim, qualquer texto generalista sobre os evangélicos não alcança o seu alvo estabelecido pelo autor/a. Quando Lacsko diz que os evangélicos precisam “calar sobre sua religiosidade se quiser ter chances de ser levad[o] a sério na universidade e na profissão”, a pergunta que se faz é: quais evangélicos? Seria os evangélicos da periferia da cidade de São Paulo que enfrenta ônibus lotado para trabalhar todos os dias e nem mesmo tem acesso a uma educação de qualidade que favoreça uma possível classificação no vestibular da FUVEST? Ou seria os evangélicos que frequentam uma igreja de bairro de classe média alta e que a maioria dos membros é funcionário público, empresários e alguns CEOs de empresas importantes no país? Ou ainda os evangélicos de igrejas históricas em que os filhos cresceram estudando em um bom colégio confessional recebendo o devido preparo para entrar em uma boa universidade ou até mesmo ingressar em um curso na universidade vinculada à igreja? Quais evangélicos? O que tem acesso a universidade e sai para curtir balada gospel com os amigos ou o evangélico que enfrenta a desigualdade social na periferia? Além disso, sabemos por pesquisa recente que uma parcela de jovens evangélicos que entram em uma universidade abandona suas igrejas, porque não conseguem conciliar o ensino acadêmico com a orientação doutrinária da comunidade de fé. Esse dado não foi considerado pela jornalista.

O universo evangélico não pode ser classificado por um nicho e dele concluir que há um padrão de tratamento quando duas das melhores universidade do país são de confissão evangélica, Mackenzie e UMESP (sem mencionar as PUCs). Assim, não é possível tornar uma experiência pontual e colocar como se fosse um comportamento corriqueiro. Até porque, a face evangélica que a maioria das pessoas veem são a dos televisivos e midiáticos, os tais “televangelistas” que contribuíram para fomentar a opinião da maioria das pessoas de que todo pastor é ladrão e de que todo crente é um trouxa por cair nos golpes dos estelionatários da fé. No mais, um professor universitário bem informado sabe distinguir os evangélicos em seus fracionamentos.

Outro ponto no texto de Lacsko é a passagem da vitimização para a intimidação. A vitimização se dá na universidade, segundo a jornalista, e a intimidação (não levar desaforo para casa) se dá com a tomada do poder por um número considerável de evangélicos quando integrados à política nacional. Para Lacsko, os cristãos (leia-se evangélicos em todo o texto) podem agora reivindicar maior respeito porque chegaram ao poder pela via da direita. Assim, segundo a jornalista, “há muitos evangélicos na direita porque esta vertente política foi a que primeiro considerou a hipótese de evangélicos também serem humanos e abriu espaço para uma pauta de costumes em comum”. É bom lembrar que antes de 1964 havia uma disputa político-filosófica entre os evangélicos (esquerda e direita) de forma mais civilizada. Isso mudou e muito depois de 1964 e uma ala dos evangélicos passaram a se identificar com a direita porque esta, a direita dos generais, comungava dos mesmos ideias: Deus, família e pátria. Essa ala dos evangélicos se viram no espelho da política e se reconheceram alinhados com a direita que tomou o poder em 1964. As pautas morais e o combate ao comunismo (contexto de Guerra Fria) sob a influência dos evangélicos norte-americanos, funcionou como discurso retórico para perseguir irmãos, colocá-los no exílio e invocar as bênçãos de Deus sobre um regime autoritário que torturou e fez desaparecer dezenas de pessoas. Não, definitivamente a direita não “foi a primeira que considerou a hipótese de evangélicos também serem humanos”. Madeleine Lacsko talvez não saiba que os evangélicos tidos como “progressistas” foram os primeiros a elaborar uma teologia que enxergou o sofrimento humano causado pela ausência de políticas públicas. Sim, foram os evangélicos da Confederação Evangélica do Brasil, por exemplo, que apontou e denunciou a desigualdade social e as dificuldades para que seres humanos tivessem uma vida digna.

Agora os evangélicos estão no poder. No atual governo há seis ministros evangélicos, alguns deles em postos chaves como da Justiça e Educação. Conforme Lacsko, “com o crescimento da população evangélica e a chegada de vários evangélicos a postos de poder, os cristãos já têm força para dizer que estão cansados de ouvir deboche e serem tratados como piada”. Como os evangélicos já desvirtuaram e muito a mensagem do evangelho, é possível fazer o que a jornalista propõe: exercer a força política para se afirmar como grupo hegemônico e assim não levar mais desaforo para casa. A bancada evangélica já está fazendo isso. Não apenas transformaram uma sala da Câmara dos Deputados em templo e sessões em culto, como também procura a todo o custo se beneficiar do poder para continuar fazendo lobby tendo a “massa cristã” como potencial “beneficiária”, praticando, deste modo, uma política fisiológica nos corredores do poder.

Assim como os progressistas precisam calçar as sandálias da humildade e reconhecer que não entendem muito bem o complexo universo evangélico, os conservadores também. Julgar que todos os evangélicos são conservadores e de direita é um equívoco. Como diria Ronaldo de Almeida, “nem todos os conservadores são evangélicos; nem todos os evangélicos são conservadores”.

Madeleine Lacsko, com o seu texto, contribuiu para o debate.

Alonso Gonçalves & Martin Barcala

"CRISTÃOS BRASILEIROS NÃO QUEREM MAIS INVISIBILIDADE NEM LEVAR DESAFORO PARA CASA"

A patrulha progressista vai ter de calçar as sandálias da humildade e tratar evangélicos como seres humanos

Por Madeleine Lacsko

Texto publicado no jornal Gazeta do Povo (29 de Julho de 2020)

"Não me venha com isso de psicanálise que, para mim, é igreja de rico." A frase de Manoel Fernandes, dono da Bites, uma das mais respeitadas consultorias de Big Data do Brasil, arrancou risadas da plateia forrada de intelectuais em uma palestra na PUC. As pessoas talvez tenham gargalhado pelo inusitado, pelo saboroso sotaque nordestino do palestrante e pela reação debochada de Luiz Felipe Pondé à provocação. O fato é que na maioria dos ambientes intelectualizados do Brasil, você pode acreditar em psicanálise e até em astrologia, tarô, runas, ler borra de café na xícara mas, se for evangélico, é imbecil. (Diga-se de passagem, não no Labô da PUC, um dos poucos locais em que evangélicos têm sua intelectualidade respeitada na academia brasileira).

O fenômeno de julgar inteligente ou mesmo aceitável a ideia de resumir a natureza humana à racionalidade é recente. A própria Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, estabelece em seu artigo 18 que a religião é parte da dignidade humana. Proibir alguém de ter religião ou de manifestar sua religiosidade em privado ou em público é violação de Direitos Humanos. Essa proibição não é só colocar uma arma na cabeça, mas constranger, difamar, ridicularizar ou gerar consequências nefastas para quem o faz. Já experimentou entrar num Centro Acadêmico da USP ou mesmo num encontro de ativistas de Direitos Humanos e dizer que é crente? Boa sorte.

"Toda a pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião; este direito implica a liberdade de mudar de religião ou de convicção, assim como a liberdade de manifestar a religião ou convicção, sozinho ou em comum, tanto em público como em privado, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pelos ritos", diz o artigo 18 da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Vemos ateus reclamando, muitas vezes até com razão, da discriminação por não acreditarem em Deus - o que, afinal, é direito deles. Esquecem, no entanto, que batem como leões e apanham como gatinhos. A massa cristã brasileira sabe que precisa calar sobre sua religiosidade se quiser ter chances de ser levada a sério na universidade e na profissão. Entre os intelectuais existe a predominância do pensamento de que evangélicos são todos estúpidos. Não que esse pessoal conheça evangélicos, estude o assunto ou já tenha pisado numa igreja. Provavelmente eles viram alguns televangelistas e misturaram no poço de arrogância e preconceito que cultivam na alma.

Com a chegada de muitos evangélicos ao poder, a fé cristã passou a ser associada a uma vertente política, como se fosse possível submeter o mais sublime da alma humana - que é a experiência individual da fé - a qualquer coisa do mundo racional. Há muitos evangélicos na direita porque esta vertente política foi a que primeiro considerou a hipótese de evangélicos também serem humanos e abriu espaço para uma pauta de costumes em comum. E desse movimento vêm duas distorções. A primeira é a ideia de que cristianismo tem a ver com a direita. A segunda, bem mais divertida, é a "conversão" recente de vários ateus com sede de poder. Amo perguntar onde congregam e ouvir de volta: "como assim, congrega?". Gente que nunca pisou numa igreja agora se diz cristã para se aproximar de poderosos.

Mas o fato é que a esmagadora maioria da população brasileira é cristã. E, com o crescimento da população evangélica e a chegada de vários evangélicos a postos de poder, os cristãos já tem força para dizer que estão cansados de ouvir deboche e serem tratados como piada.

Há cristãos em todos os segmentos da sociedade brasileira, mas há respeito apenas em nichos muito específicos. O mais respeitado por intelectuais e progressistas é o dos não-praticantes que só não se dizem ateus por causa do preconceito da família. O outro bem aceito é o que frequenta a paróquia mais chique da cidade, no caso da minha São Paulo, a Nossa Senhora do Brasil. O cristão cujo líder religioso faz declarações políticas lacradoras também é respeitado na semana em que essa declaração é feita. Fora isso, todos imbecis, principalmente se for pobre, aí é necessariamente explorado, um coitado. Astrólogo, tarólogo, coach e terapeuta holístico não exploram ninguém, só pastor.

A forma como a ministra Damares Alves é tratada pela imprensa talvez seja o exemplo mais vivo desse preconceito religioso que, aliás, é crime pendurado na Lei do Racismo junto com a homofobia. Ninguém lê o que ela propõe, não se ouve o que ela fala, se confunde pregação antiga da igreja com política, experiências transcendentais de fé são ridicularizadas e está tudo bem. Isso é muito diferente de discordar. Tome-se por exemplo a questão da sexualidade na adolescência e o início da vida sexual. Quantos noticiaram o que está nos documentos e quantos noticiaram o que se imagina que pensem os crentes a respeito do assunto?

Todo evangélico que não nasceu rico já teve de engolir seco alguém falando os maiores absurdos sobre cristianismo, Bíblia e evangélicos para não perder oportunidade profissional ou de estudar. Isso é uma violação de direitos contra a qual muitos não puderam gritar e agora estão gritando, inclusive na esquerda.

Foi extremamente importante a manifestação do rapper Emicida no último Roda Viva, comandado pela jornalista Vera Magalhães. "Rapazeada, primeiro barato, a igreja é coisa que salva vida pra caramba em volta da vida das pessoas de quebrada, não dá para você entrar de sola desse jeito e ir achando que todo irmão que está com a Bíblia embaixo do braço, que conseguiu sair da droga, sair da cadeia, largar o crime, arrumar uma esposa, arrumar o dente, parar de bater na mulher, etc, todas essas coisas, não dá para colocar todas essas pessoas como se elas fossem o Edir Macedo ou o Silas Malafaia", relatou o músico sobre o que disse num grupo de whatsapp de apoio a Marcelo Freixo no Rio de Janeiro em que os integrantes subestimavam a capacidade de raciocínio dos evangélicos.

Há, na elite econômica, cultural e intelectual brasileira a mania do tratamento condescentente, que é um jeito de maltratar de forma velada. Trata o outro como coitadinho por se considerar superior e o faz unicamente por arrogância. Por que os progressistas julgam saber tanto sobre evangélicos se não os conhecem, não estudam o tema e não se interessam por descobrir? Porque se julgam intelectualmente acima deles, capazes de decidir apenas pela racionalidade. É cada vez maior o número de jovens lideranças que se rebela contra esse tipo de injustiça.

Tem chamado a atenção nos últimos dias na internet um vídeo do estudante conhecido "Chavoso da USP", Thiago Torres. Ele tem 19 anos e estuda ciências sociais na FFLCH, nasceu na Brasilândia, periferia de São Paulo. É um ser tão raro na realidade uspiana que virou até matéria no prestigioso "Jornal do Campus", onde publiquei minha primeira reportagem na vida. Ele é dedicado, inteligente e competente e fez, para os amigos progressistas, um longo compilado de textos e pesquisas da própria esquerda sobre a importância da religião.

Ele já começa com uma estocada na turma que gosta de dizer que é do bem mas debocha de evangélico: a matemática. Mostra a conta em que 90% dos brasileiros se dizem cristãos e conclui que é uma sociedade cristã e, na linguagem da esquerda, toda uma "classe trabalhadora" cristã. Liberdade de expressão, segundo a Declaração Universal dos Direitos Humanos, é a de "não ser inquietado" por suas opiniões. Assim funciona também para a religião. Se muita gente pisoteou evangélicos porque eles não tinham força de fazer cumprir seus direitos fundamentais, parece que esta era começa a terminar. Tomara".

30.6.20

CEIA ONLINE EM TEMPOS DE REMOTE COMMUNION

Com o “culto online” pastores passaram a disputar espaço na rede, na tentativa de atrair audiência virtual para suas lives durante a pandemia. A remote communion (comunhão a distância) das igrejas ganhou incrementos para tentar segurar os irmãos diante da tela. Assim, houve quem foi além e realizou até batismo remotamente. A partir disso surgiram alguns debates quanto a realização do “culto online” e a possibilidade de “celebrar” a ceia. É possível realizar a ceia remotamente também? Há algum impedimento bíblico para tal ato? Com isso, alguns pastores prontamente se recusaram a fazer algo assim, enquanto outros assumiram o desafio de “celebrar” a Ceia do Senhor virtualmente alegando que assim ajudariam os membros da igreja a terem comunhão com Cristo e com os demais irmãos que estavam fazendo o mesmo naquele exato momento. Antes de prosseguir com o assunto, adianto que o texto não tem a intenção de dissuadir quem realiza a ceia de maneira remota e considera o ato legítimo e necessário. Esse texto surge a partir de questionamentos recebidos, procurando dialogar quanto à legitimidade teológica de tal ação.

Num primeiro momento, a realização da Ceia do Senhor em uma Igreja Batista (meu lugar de fala) não tem a dimensão sacramental como em outras comunidades de fé. Por isso, os batistas não se referem à comunhão da mesa de “Santa Ceia”, mas sim de Ceia do Senhor ou (melhor expressão na minha percepção) Celebração da Comunhão. Em uma Igreja Batista a Ceia do Senhor é tida como uma ordenança e não como um sacramento. A partir disso, não é possível dizer que os participantes da comunhão (Ceia do Senhor) recebem algum tipo de graça quando participam dCeia do Senhor, porque ela, a Ceia do Senhor, não proporciona por si mesma um meio para assim receber. Nesse sentido, os batistas ingleses (pioneiros) reconheceram o Batismo e a Ceia do Senhor como ordenanças. E mesmo os batistas londrinos que aderiram alguns trechos da Confissão de Fé de Westminster (presbiteriana), substituíram a palavra “sacramento” por “ordenanças”.

Uma diferença importante entre sacramento e ordenança está na oficialização. Enquanto o sacramento só é possível ser oficializado quando há um membro do clero reconhecido para assim fazer, a ordenança não necessita de um membro ordenado do clero para realizar o ato. Por que? Porque quando há um entendimento de que a ceia é uma ordenança, assume-se que pode ser cumprida independentemente do tempo-espaço, uma vez que é uma ordem de Jesus Cristo dada para todos, não somente para os pastores ordenados. Esse é um ponto que deixa muitos pastores ressabiados. Alguns acreditam piamente que somente eles, porque estudaram Teologia, passaram pelo Concílio Examinatório e foram ordenados, podem celebrar a Ceia do Senhor e realizar o Batismo. Assumem um certo sacramentalismo nesses atos, o que não é possível a partir da tradição Batista. Nesse sentido, John Landers é taxativo: “As ordenanças de Jesus Cristo são ordenanças de sua igreja. Elas estão presentes onde cristãos se organizam segundo o padrão neotestamentário”. Nessa sentença, Landers deixa duas coisas muito claras: (i) as ordenanças pertence à igreja, portanto, não pertence ao pastor ordenado; (ii) essas ordenanças estão presentes quando cristãos (todos) se organizam a partir daquilo que o Novo Testamento ensina sobre a reunião e ajuntamento da comunidade de fé. Aí vem um outro ponto: como a igreja no Novo Testamento se organizava? Em casas! O templo é algo que está fora das páginas do Novo Testamento. Até mesmo em Atos dos Apóstolos quando ainda há uma relação com o templo, é dito que os cristãos estavam de casa em casa partindo o pão (Ceia do Senhor na teologia lucana).

O principal espaço de organização das igrejas no NT se deu nas casas. Vincent Branick, estudioso das igrejas domésticas no Novo Testamento, afirma que “as residências particulares garantiam privacidade, intimidade e estabilidade para os cristãos primitivos”. Os irmãos se reuniam em suas casas, mas também com os demais irmãos em um determinado momento para uma celebração maior. Por isso que em Paulo, por exemplo, aparece a expressão hole te ekklesia – “igreja toda” (1Co 14,23; Rm 16,23), mas também a expressão ekklesia kat´oikon – igreja doméstica. Quando havia a celebração da comunhão (ceia), Paulo deixa claro que os cristãos se reuniam no mesmo lugar para celebrar a Ceia do Senhor (1Co 11,20), mas isso não significa que os cristãos não celebravam a ceia na sua ekklesia kat´oikon.

Ainda que a ciberceia possa ser uma modalidade que surge em tempos de pandemia e a sua realização se faz a partir da necessidade de favorecer o ajuntamento entre os irmãos, incorre em algumas questões que podem ser levantas a partir do exposto até aqui: (i) Uma vez que o NT ensina que onde estiverem dois ou três reunidos a partir do nome de Jesus ele estaria presente (Mt 18,20); (ii) Sendo a Ceia do Senhor uma ordenança e não um sacramento na realidade eclesial de uma Igreja Batista, portanto é tarefa de todos e não apenas de um o seu cumprimento; (iii) Com isso, o pastor não precisa ser, necessariamente, o realizador da Ceia do Senhor quando não é possível, o que significa que ele, o pastor, não precisa estar presente para que uma das ordenanças seja cumprida.

A partir disso, é possível intuir que a ciberceia não tem uma certa legitimidade teológica para acontecer - ainda que a proposta e o ato da ciberceia possa ser benéfico e haja testemunho do seu aspecto espiritual quando o pastor diz do outro lado da tela o que cada um precisa fazer e o momento para se fazer. Dentro da perspectiva Batista e a partir do entendimento quanto à Ceia do Senhor enquanto ordenança e o sacerdócio universal de todos os crentes, não há nada que impeça que uma família que pertence a igreja e que se comprometeu em cultuar ao Senhor na sua casa, e sentindo a necessidade de celebrarem a comunhão com Cristo, realizar a Ceia do Senhor. Desse modo, a família está reafirmando a presença de Jesus através da sua memória, ressignificando os seus passos na caminhada da vida e reafirmando a esperança em Cristo.

Referências

BRANICK, Vincent. A igreja doméstica nos escritos de Paulo. São Paulo: Paulus, 1994.

LANDERS, John. Teologia dos princípios batistas. 2. ed. Rio de Janeiro: JUERP, 1986.

17.6.20

IGREJA BATISTA E RACISMO

Os batistas surgiram no Brasil a partir de missionários estadunidenses que deixaram o seu país de origem por conta da Guerra da Secessão. Um dos principais pontos da guerra foi a questão da abolição da escravidão. Algo que o Sul jamais tolerou foi a possibilidade de se ver livre da mão de obra escrava nas suas fazendas de algodão.  Os missionários racistas deram origem a uma das maiores denominações do Brasil, ramo do protestantismo de missão com maior capilaridade na sociedade brasileira depois dos pentecostais. Ainda assim, o racismo que trouxeram na bagagem foi patente no relacionamento dos missionários com os chamados “nativos” brasileiros. Sobre o racismo dos missionários estadunidenses, o pesquisador Dr. João B. Chaves publicará um livro onde recolhe documentos e correspondências dos missionários com a Junta de Richmond. No livro, Chaves demonstra a maneira como os missionários tratavam a questão dos negros no país e o racismo explícito de muitos deles. O livro está para ser lançado com o seguinte título “O racismo na história batista brasileira: uma memória inconveniente do legado missionário” (Brasília: Novos Diálogos, 2020, no prelo). 

O racismo faz parte da estrutura social brasileira. Isso quer dizer que não está meramente nas piadas com pretos, antes domina as relações sociais e determina as condições que favorece a desigualdade em termos políticos, sociais e econômicos. As falas racistas e o comportamento preconceituoso que corriqueiramente ganha notoriedade na impressa e redes sociais, é mais uma mera manifestação de um fenômeno que é sistêmico e se faz presente em todas as facetas do país, sendo que a violência policial e a quantidade de presos pretos no sistema penitenciário brasileiro é a face mais visível desse racismo sistêmico.

O caso dos protestantismos no Brasil, não obstante apenas os batistas, infelizmente reforçou o racismo sistêmico, sendo, portanto, um dos pilares da estrutura racista que permeia o Estado brasileiro. O protestantismo de cunho étnico tinha um claro objetivo: o branqueamento da raça. O protestantismo se configurou no país a partir da “guerra cultural”, demonizando as religiões de matriz africana. Por essa razão, que o “samba, originalmente, era música do morro, de negro e pobre, e foi rejeitada pelas igrejas protestantes, muito mais por racismo que por razões teológicas” (ALENCAR, 2007, p. 79).

A Igreja Batista, em específico, é resistente quanto ao enfrentamento do racismo como tema inevitável quando da origem e formação da denominação no país. Sempre foi um tema escamoteado e negligenciado por lideranças denominacionais e pastores de igrejas locais. Um tema comumente ausente dos púlpitos das igrejas e inexistente na literatura das conhecidas “Escolas Bíblicas Dominicais”. Por conta disso, sabemos da dificuldade que há quando o assunto surge em igrejas Batistas. Algum tempo atrás, um colega de ministério testemunhou da sua dificuldade quando em Assembleia Geral a igreja elegeu membros negros para cargos da Diretoria Administrativa da igreja. Houve séria resistência quanto a esse ocorrido, mas o pastor permaneceu firme no seu propósito de integrar essas pessoas na liderança da comunidade.

Em 2019, ocorreu algo ainda mais grave enquanto denominação Batista no Brasil. A Juventude Batista Brasileira da CBB, no seu congresso anual “Despertar”, organizou mesas de debates e falas sobre diferentes assuntos. Dentre essas mesas estava uma em especial: “Descolonizando o olhar: o racismo atinge a igreja?”. Os convidados foram Fabíola Oliveira e o pastor batista Marco Davi Oliveira. Após o movimento contrário de um determinado grupo ultraconservador que alegou “desvio doutrinário” na formação da mesa, manifestando que eram desfavoráveis quanto a presença de Fabíola e Marco no congresso da JBB, a direção da JBB decidiu desconvidá-los. Decisão que contou com a participação da Diretoria da CBB. O caso ganhou repercussão e a Igreja Batista passou a ser qualificada como “racista”. Um episódio lamentável e inconcebível quando se trata do ethos dos Batistas e seu apreço pela democracia e o lugar de fala dos seus membros.

Essa semana mais um episódio execrável envolvendo uma live do senhor Rodrigo Santos e sua esposa Jéssica Maciel e a citação de uma Igreja Batista.

Na referida live, Rodrigo (que se apresenta como pastor) narra como conheceu a sua esposa, Jéssica (também pastora) na cidade de Toledo/PR quando ambos frequentavam a Igreja Batista do Calvário. Ele pontua que a igreja estava no lado pobre da cidade e afirma que ficou surpreso em encontrar Jéssica ali. O que vem depois disso é repugnante e demonstra mais uma vez o racismo estrutural e desumano que permeia a sociedade brasileira e a igreja segue sendo um recorte disso. Rodrigo diz que na igreja a maioria dos irmãos eram “encardidos”, “mais moreninho” e “meio sujo” e que sua esposa, por ser loira, causou um certo destaque, além de ser ela da “Zona Norte, zona mais nobre da cidade”.

A Igreja Batista do Calvário reagiu e divulgou uma Nota de Esclarecimento pela fala do então Pr. Rodrigo Santos. Segue:

A Primeira Igreja Batista do Calvário em Toledo, tem uma história de quase quatro décadas desenvolvendo suas atividades religiosas e sociais em Toledo, localizada sua Sede na Grande Pioneira.

Por meio desta nota manifestamos publicamente que não compartilhamos de forma alguma com quaisquer atitudes preconceituosas, manifestação de racismo, desrespeito a individualidade ou manifestações de ódio.

À luz da Lei 7.716/1989 e do Estatuto da Igualdade Racial (Lei 12.288/2010) definem o Racismo como crime inafiançável, inaceitável e indefensável.

A igreja, diante das repercussões geradas pela “live do pastor Rodrigo dos Santos”, reafirma seu compromisso institucional com a promoção da igualdade étnico-racial, sexual, religiosa, repudiando toda e qualquer manifestação de preconceito, contra quem quer que seja. Sendo que reconhecemos que todas as pessoas são iguais perante a Lei e o Criador.

Também informamos que o Sr. Rodrigo dos Santos, foi membro de nossa igreja há tempos atrás, mas que atualmente (8 anos) reside fora do país e congrega em outro ministério onde atua como pastor.

A nota de retratação foi postada em nossa página em função de nossa igreja ter sido citada na live.


O racismo estrutural precisa ser combatido e denunciado.


O racismo é pecado e mata! Ainda estamos todos consternados por um João Pedro, morto pela polícia na sua casa em Niterói; por um George Floyd asfixiado por um policial branco em Minneapolis (EUA); e Miguel, menino negro, que caiu do nono andar de um prédio em Pernambuco porque a patroa da sua mãe permitiu que a criança de cinco anos de idade entrasse sozinho no elevador e subisse para a morte. Por essa razão que quando se levanta o grito de que “VIDAS NEGRAS IMPORTAM” não é apenas um discurso retórico. É a constatação de que algumas vidas não importam tanto e que qualquer tentativa de querer igualar as classes sociais como se as mesmas fossem homogêneas é falaciosa.

 

As igrejas Batistas precisam enfrentar esse dilema social com honestidade e a partir de uma perspectiva bíblico-teológica, denunciando o racismo como pecado! A atitude da Igreja Batista do Calvário em Toledo com sua Nota de Esclarecimento é louvável, porque reafirma a luta constante contra o racismo. É de se lamentar que o senhor Rodrigo passou pela comunidade e não encontrou a glória de Deus no rosto daqueles irmãos. A igreja segue seguindo Jesus de Nazaré que se sentou à mesa e andou com pessoas que não eram bem vistas dentro de uma sociedade classista e preconceituosa, muito parecida com a nossa. E foi para essas pessoas que ele disse: “Bem aventurados vocês, os pobres [e pretos], pois a vocês pertence o Reino de Deus” (Lc 6,20).

Referência
ALENCAR, Gedeon. Protestantismo tupiniquim: hipóteses sobre a (não) contribuição evangélica à cultura brasileira. 2. ed. São Paulo: Arte Editorial, 2007.