25.10.11

APOLOGÉTICA E TEOLOGIA PÚBLICA: A CONSTATAÇÃO DE DUAS VERTENTES TEOLÓGICAS NO CONTEXTO BRASILEIRO

É fato que a cultura teológica no País é produzida de fora para dentro. Desde que este continente foi alvo da evangelização dos missionários, a reflexão teológica foi gestada por outros centros teológicos como o europeu e, principalmente, o norte-americano. É claro que a teologia e sua reflexão é dinâmica e sempre estamos aprendendo e refletindo com outros saberes quer para fundamentar a reflexão teológica, quer para criticar outros segmento de conhecimento, quer para coadunar com a teologia. Por isso, vertentes teológicas de outros países surgem e contribuem para o aprofundamento da reflexão e isso, de um modo geral, não é ruim.

Ocorre que no Brasil a produção literária não acompanha as perspectivas do contexto latino-americano e brasileiro, com algumas exceções é claro. Um exemplo do que estou tentando dizer é o fato de estar havendo uma crescente publicação de livros sobre apologética (ramo da teologia que pretende “defender a fé”). São congressos, palestras e livros que seguem está linha, sendo na sua grande maioria de palestrantes, preletores e autores estrangeiros.

Apenas em nível de constatação segue uma tabela dos principais livros de apologética publicados em duas importantes editoras no âmbito protestante que ostentam produzir livros teológicos para o País.


A veracidade da Fé Cristã: uma apologética contemporânea
William Lane Craig (Vida Nova)
Há uma batalha intelectual travada nas universidades, nas publicações especializadas e na mídia como um todo. No calor dessa batalha, nossa próxima geração de líderes tem absorvido uma perspectiva evidentemente anticristã.

Apologética cristã cultura cristã
Cornelius Van Til (Cultura Cristã)
O objetivo de Van Til é mostrar que a cosmovisão cristã é a única racional e objetivamente válida. Sem ela, nada faz sentido. Além disso, como tudo no mundo fala de Deus como criador, o apologista cristão pode iniciar uma discussão virtualmente de qualquer ponto da experiência humana e demonstrar como ela expressa a verdade.

Apologética para a glória de Deus
John Frame (Cultura Cristã)
Para pessoas aptas para leitura de material acadêmico de nível universitário que estejam seriamente dispostas a resolver questões que apresentam certo grau de dificuldade.

Apologética para questões difíceis da vida
William Lane Craig (Vida Nova)
O objetivo é que este livro possa ajudá-lo em sua busca de compreender o plano divino, afinal, com diz em 1Pe 3.15, é tarefa de todo cristão estar sempre preparado para responder a todo aquele que lhe pedir a razão da sua esperança.

Compêndio de Teologia Apologética (3 vols.)
François Turretini (Cultura Cristã)
O autor teve como objetivo contrastar a Escritura com perspectivas teológicas conflitantes, particularmente o Catolicismo Romano, o Arminianismo.

Criação ou evolução
John MacArthur, Jr. (Cultura Cristã)
Um desafio a todos os cristãos que fazem ressalvas ao relato bíblico da criação e cortejam os falsos ensinamentos dos naturalistas, que negam o Criador, ensinando que o universo é obra do acaso, e não de Deus. Você entende aquilo em que acredita a respeito da criação? Você poderia defender seus pontos de vista diante daqueles que negam o relato de Gênesis? Neste livro, você encontrará respostas para questões difíceis. Aprenda o que a Bíblia diz sobre como nosso universo começou.


A principal ênfase desses livros é dialogar com a universidade e a sociedade sobre questões de Deus, a existência do Mal, Jesus Cristo. Não sei bem se a palavra seria diálogo uma vez que a apologética reivindica a posse da verdade sobre os temas tratados por ela.

Parece que as editoras ainda não percebeu que o positivismo (o discurso de confrontar com a verdade e provar por meios lógicos de que está certo) não é nem mesmo tratado como prioritário na agenda científica acadêmica brasileira e a cultura do País não é a mesma que da Europa e norte-americana que precisa comprovar fatos verificáveis para se crer. Aqui a religião está no cotidiano; na alegria das procissões; nas celebrações dos cultos; no som dos atabaques.

Já a Teologia Pública, discussão recente no ambiente acadêmico brasileiro, procura fazer outro caminho.

Não é a linguagem do ataque, da comprovação de que se estar com a verdade. É uma leitura que procura pautar a ética social, a justiça social, os direitos humanos, a democracia, a política e a economia. É uma maneira de falar de Deus e sua vontade (Reino de Deus) que seja condizente e intelectualmente possível no emaranhado de ideias, conceitos e comportamentos da atual conjuntura global e social.

É indubitável de que no caso brasileiro a Teologia Pública tenha sérias dificuldades. Primeiro, é sendo comum de que teologia é algo restrito às confissões, sejam elas católicas ou protestantes, sendo assim, a tarefa teológica é reduzida aos seminários e faculdades que formam seus clérigos/pastores. Sendo assim, Teologia é compreendida como um discurso para a igreja e não, propriamente, para a sociedade. É tão real isso, que nos currículos de faculdades e seminários confessionais não há disciplinas sobre a Cultura Brasileira, a formação do povo brasileiro, apenas questões concernentes à tarefa teológica-pastoral, o que é uma pena. Segundo, transportar as confissões, elemento chave nas denominações cristãs. É claro que não é possível fazer Teologia sem confissão, mas para que haja diálogo é preciso romper a barreira confessional para dialogar com outros setores da sociedade e, sinceramente, não será a apologética que fará esse trabalho.

19.10.11

CRISTOLOGIA PROTESTANTE NA AMÉRICA LATINA



Há tempos ouvimos que o Brasil necessita conceber sua própria reflexão teológica em vez de importá-la de olhos fechados. A leitura europeia e a norte-americana de textos teológicos muitas vezes é feita com lentes que não enxergam o contexto latino-americano e acabam por orientar-nos a um caminho inexistente em nosso continente.



Diante disso, é muito bem-vinda a Cristologia Protestante na América Latina – uma nova perspectiva para a reflexão e o diálogo sobre Jesus, de Alonso S. Gonçalves, que nos dá um texto rico, sólido e muito bem fundamentado e em diálogo com pensadores regionais que estão a mais tempo no mesmo labor. Sua cristologia é produzida com “olhos e coração aberto à possibilidade de o próprio Cristo chamar-nos a segui-lo a partir da nossa cultura e de nosso ambiente social, em favor do nosso povo com suas demandas, a fim de que todos, pobres e ricos no continente, possam ter acesso e identificar-se com um Cristo mais amplo, completo, o Emanuel, o Cristo entre nós, do qual a própria Escritura dá testemunho”.

“A cruz foi, portanto, o resultado de um processo dos posicionamentos político e religioso de Jesus ao longo de sua vida – diferentemente das interpretações sacrificialistas que surgiram ao longo da história da igreja. Tornou-se um escândalo crucial, sem o qual a vida cristã não teria sentido. [...] Por essas e outras razões, podemos dizer que a leitura deste livro fortalecerá a nossa fé e abrirá novos horizontes para as igrejas em seu testemunho no mundo.”

Claudio de Oliveira Ribeiro
Doutor em Teologia. Pastor Metodista e professor de Teologia e Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo.

11.10.11

O DEUS DE JOSÉ SARAMAGO

O falecido escritor português José Saramago sempre demonstrou interesse pela religião e o cristianismo especificamente em seus romances. O mais emblemático deles é o Evangelho segundo Jesus Cristo.

Não é novidade nenhuma de que José Saramago foi ateu, ou pelo menos deixou isso claro em suas entrevistas e textos. Mesmo assim, o ganhador do Nobel de Literatura (1998) nunca deixou o tema sobre Deus, religião e cristianismo de fora de suas aventuras literárias. No Evangelho segundo Jesus Cristo, o português faz duras críticas ao “Deus” sanguinário e prepotente a partir de seu humanismo, fazendo uma clara distinção entre esse “Deus” e Jesus Cristo.

Há vários momentos no texto que merecesse a devida atenção, mas um momento é interessante, quando o diabo quer o perdão de “Deus”. Segue:

A proposta do diabo a “Deus”?
“Que tornes a receber-me no teu céu, perdoado dos males passados pelos que no futuro não terei de cometer, que aceites e guardes a minha obediência, como nos tempos felizes em que fui um dos teus anjos prediletos, Lúcifer me chamavas, o que a luz levava”.

Com muita arrogância, “Deus” pergunta por que razão deveria perdoar ao diabo? Ele responde:
“Porque se o fizeres, se usares comigo, agora, daquele mesmo perdão que no futuro prometerás tão facilmente à esquerda e à direita, então acaba-se aqui hoje o Mal, teu filho não precisará morrer, o teu reino será, não apenas esta terra de hebreus, mas o mundo inteiro, conhecido e por conhecer, e mais do que o mundo, o universo, por toda a parte o Bem governará, e eu cantarei, na última e humilde fila dos anjos que te permaneceram fiéis, mais fiel então do que todos, porque arrependido, eu cantarei os teus louvores, tudo terminará como se não tivesse sido, tudo começará a ser como se dessa maneira devesse ser sempre”.

Depois que o diabo apresenta sua proposta a “Deus”, há um silêncio tenso, uma expectativa.

Pois bem, qual a resposta?
“Não te aceito, não te perdoo, quero-te como és, e, se possível, ainda pior do que és agora”.

A leitura bíblica de José Saramago é pessimista; a imagem que ele tem de “Deus” é cínica. Acentua ele: “o Senhor dos Exércitos falava a linguagem do relâmpago e do trovão. Gostava de aparecer numa nuvem de fogo, isso nos momentos de bom humor, quando se divertia jogando praga e mais praga sobre o faraó apavorado. Não levava desaforo para o céu. Sodoma, não quis nem saber, fulminou”.

Para José Saramago Deus é inimigo do ser humano, mas ao mesmo tempo ele tem em Jesus Cristo o retorno a um humanismo solidário: “então Jesus compreendeu que viera trazido ao engano como se leva o cordeiro ao sacrifício, que a sua vida fora traçada para morrer assim desde o princípio dos princípios, e, subindo-lhe à lembrança o rio de sangue e de sofrimento que do seu lado irá nascer e alagar toda a terra, clamou para o céu aberto onde Deus sorria, Homens, perdoai-lhe, porque Ele não sabe o que fez”.

Pena que José Saramago não tenha conhecido o Deus Abbá de Jesus; pena que a sua crítica continua válida para muitos cristãos que compreende uma imagem tão fatalista de Deus.

3.10.11

A SUBCULTURA EVANGÉLICA

A sociologia define subcultura como um grupo de pessoas com características distintas de comportamentos que os diferenciam de uma cultura mais ampla da qual elas fazem parte. Neste caso as tribos que compõem a estratificação da juventude na cidade de São Paulo é uma subcultura, onde os partidários do punk, do hip-hop e dos góticos vivem um comportamento diferente do restante da sociedade. O que os diferenciam são: a linguagem, a roupa e suas atitudes.

No universo “evangélico” há uma subcultura que confronta a cultura dominante. De um modo geral, o protestantismo sempre teve problema com a cultura. Principalmente porque uma das matrizes culturais do País é o catolicismo, e o protestantismo, para acentuar a sua identidade, fez questão de se opor ao catolicismo. Com isso houve um distanciamento da cultura brasileira. O prejuízo desse distanciamento foi à completa separação da igreja com a cultura do lugar, uma vez que “conversão” se compreendeu como separação do indivíduo com o seu ambiente vivencial. Por conta disso até hoje o pastor é procurado para ser juiz em determinadas situações que ultrapassam os muros do templo. Os questionamentos são: os adolescentes podem ou não participar de festa junina na escola; podem fazer tatuagem e usar piercing; podem ir ao “baile” da cidade. É pecado ou não? A dança, por exemplo, é colocada como pecado e anormal para cristãos, ignorando o fato de haver inúmeras celebrações no AT e NT onde a dança é um tema comum na cultura israelita. Até pouco tempo atrás o cinema era demonizado em muitas denominações e ainda há resquícios disso hoje.

Sobre o carnaval, lembro-me de que uma Igreja Batista do Estado de São Paulo saiu em carro alegórico. As críticas foram aterrorizantes! Particularmente não sou fã do carnaval, embora fique admirado com a criatividade e com alguns temas escolhidos, mas não me agrada a conjuntura do evento, mas isso sou eu, nem todos, por exemplo, ouvem ou já ouviram Beethoven, Mozart, Chopin ou Bach, é uma questão de estilo musical. Mas daí demonizar, é outra história. O carnaval não deixa de ser um evento cultural.

Quando o assembleiano considerado “herege” no meio pentecostal Ricardo Gondim escreveu o texto É proibido: o que a Bíblia permite e a igreja proíbe (Mundo Cristão, 1998), ele destacou as inúmeras proibições que a sua denominação, mais especificamente, pregava no povo. Coisas como cortar cabelo, jogar bola, pintar as unhas e outras idiotices. De pensar que alguns anos atrás os assembleianos demonizavam a política e a TV, e hoje não vivem sem os dois. Perceba como os conceitos mudam. TV era o Baal eletrônico e política era coisa do diabo, e hoje?

Ocorre que essa ênfase exagerada se deve também porque se enfatizou demasiadamente a regeneração e a santificação, não como transformação de vida, mas como comportamento. O comportamento nesse caso se tornou a chave hermenêutica para a fé e para dizer se fulano é cristão ou não. Sendo assim o não fumar, por exemplo, não é porque faz mal a saúde, mas porque é pecado.

Um dos prejuízos dessa subcultura evangélica é a falta da poesia, da boa música popular brasileira, da literatura de qualidade que não são apreciadas no universo evangélico. Infelizmente.

4.9.11

A INDEPENDÊNCIA DA DEPENDÊNCIA

Há 189 anos um burguês, D. Pedro, declara a independência do Brasil de Portugal. Vale dizer, não foi uma independência onde o povo participou; não houve guerra, como em outros países latino-americanos que lutaram pelo mesmo direito, ser livres. Por aqui não houve participação popular. A independência ficou restrita aos palácios e bastidores do poder político e econômico de então.

O Brasil de 1822 continuou sendo o mesmo em 1823. Ou seja, não mudou nada significativamente. Apenas mudou o regime, de colônia portuguesa para império brasileiro.

A independência, é bom que se diga, foi motivada não por melhorias para o povo como um todo. Aliás, quem era o povo? Os escravos? Não, esses não. Esses continuaram sendo escravos no dia 08 de Setembro de 1822 até 1888. Continuaram a produzir a riqueza do país debaixo da chibata de seus senhores. Povo mesmo era a classe burguesa que queria ver ampliada as suas fronteiras econômicas, sendo a medieval Portugal um entrave para isso.

Não foi uma independência política, como se dissesse: “agora seremos livres da exploração portuguesa”. Foi uma independência econômica que teve como consequência a política. Foi uma troca de senhores: em vez de Portugal passou para a Inglaterra, nação que implanta e sustenta o sistema econômico vigente na época. Tudo isso com as bênçãos de D. Pedro.

Por conta disso, a independência não produziu transformações sociais, políticas e econômicas.

É claro que D. Pedro não é nenhum Simón Bolívar, herói da independência de tantos países latino-americanos entre eles e, principalmente, a Venezuela. Por aqui a mentalidade não foi formar um país, como Simón Bolívar, foi explorar a terra, a sua gente, os seus recursos naturais.

Não sou fatalista para com a história do meu país. Só lamento que um Tiradentes, esse sim mártir da independência, não estava às margens do Ipiranga. Na sua voz as palavras “independência ou morte” teria mais sentido e significado. Mas coube à D. Pedro está tarefa por vários motivos e caprichos da história.

Hoje, carecemos de uma independência, pois ainda somos dependentes:
- De um sistema político que favorece quem tem dinheiro;
- De políticos que não tem escrúpulos para administrar a coisa pública, vendo a política como uma maneira de ganhar dinheiro e não como um serviço à população no atendimento de suas necessidades básicas;
- De um sistema capitalista que escraviza o trabalhador que pega o ônibus 5hs da manhã todos os dias.

Mas tenho fé no meu país. Sim, sou patriota e não apenas quando a seleção canarinho está em campo. Meu patriotismo se dá porque vivo num “gigante pela própria natureza”. O sentimento de nacionalismo se deve porque aqui vive um povo que trabalha; que luta; que sofre; que não tem tanta sorte com os seus representantes; mas que está junto, que é solidário com o próximo e sabe se alegrar com as pequenas coisas da vida. Essa é a “brava gente brasileira”.

Neste dia, expresso meu sentimento pelo Brasil nas palavras do poeta Olavo Bilac:
“Ama com fé e orgulho a terra em que nasceste.
Criança! Jamais verás país nenhum como este.
Olha o céu, que mar, que floresta! A natureza aqui perpetuamente em festa. É um seio de mãe a transbordar carinhos. [...]
Imita na grandeza a terra em que nasceste”.

23.8.11

OS EVANGÉLICOS “GENÉRICOS”

Recentemente, dia 15 de Agosto, a Folha de S. Paulo divulgou uma pesquisa feita pela POF – Pesquisa de Orçamento Familiar – sobre o declínio acelerado de uma denominação neopentecostal. No período de 2003 a 2009 ela perdeu 24% do total de seus fiéis.

Os fatores são muitos, mas os principais são: o surgimento de dissidências religiosas, entre os próprios neopentecostais, além do fortalecimento das já existentes; o aumento do número de “evangélicos genéricos”. A antropóloga Regina Novaes disse que esses “evangélicos genéricos” assemelham-se aos católicos não praticantes. “Eles usufruem de rituais de serviços religiosos, mas se sentem livres para ir e vir (de uma igreja para outra)”, disse ela à Folha de S. Paulo.

Os "genéricos" são crentes que não se sentem presos a nenhuma igreja e podem frequentar ao mesmo tempo duas ou mais denominações.

No mesmo período, de acordo com a POF, esses evangélicos aumentaram de 4% para 14%, atingindo quase todas as denominações. Em 6 anos, 5 milhões de evangélicos deixaram de ter vínculo com igreja.

Esse fenômeno esta tomando proporções agora no Brasil. Em países da Europa e nos EUA, o movimento dos “sem-igreja” já é um fato mais que concreto. É só olhar os títulos de livros publicados aqui que tratam desse tema por lá como, por exemplo, o de Wayne Jacobsen e Dave Coleman – Por que você não quer ir mais à igreja? (Editora Sextante). É um texto que procura encontrar a dimensão originaria do cristianismo e questiona a estrutura eclesiástica como forma de ensinar a espiritualidade. Outro é de Brian McLaren – Uma ortodoxia generosa (Editora Palavra), onde ele propõe uma revisão no que a igreja chama de dogmas, doutrinas. David N. Elkins com o seu Além da religião (Editora Pensamento), é um decepcionado com o sistema religioso herdado dos pais. Como pastor experimentou algumas frustrações. A temática do livro dele é a separação entre Espiritualidade e Religião. Para Elkins, o desenvolvimento espiritual não tem qualquer relação com práticas, ritos e costumes de uma religião, mas com o milagre da vida. Um erro que o autor aponta, e que é tão comum em nossas comunidades, é associar a vida espiritual/espiritualidade com o ir à “igreja”.

No mesmo caminho esta o livro do brasileiro Paulo Brabo com o seu A bacia das almas (Editora Mundo Cristão). Com textos provocantes e contextualizados, Brabo questiona a maneira equivocada da igreja/instituição entender/entendeu a mensagem de Jesus. Ele pontua de que é possível separar Jesus da Bíblia e da igreja. Um cristianismo sem nenhum contato com as regras e a batuta da igreja/instituição.

A pesquisa do POF demonstra aquilo que já sabíamos: as pessoas hoje aderem a uma religião, seita ou movimento não mais por sua doutrina, aliás, isso foi há muito tempo, mas por seu preenchimento existencial. Dado interessante é que cresce o número de evangélicos “genéricos” e, ao mesmo tempo na cidade de São Paulo, por exemplo, o Budismo tem tido um crescimento significativo, principalmente entre a classe média. No Brasil, a hegemonia cultural religiosa já deixou de ser católica há décadas, mas há outras vertentes religiosas que estão conquistando espaço, inclusive o islamismo. Enquanto isso o protestantismo está discutindo assuntos totalmente irrelevantes para o atual contexto religioso no país. Parece que não estamos preparados para discutir o que chamo de “democratização religiosa”. Alguns ainda não se deram conta de que não há mais espaço para o proselitismo baseado no medo e na dor (embora esse imaginário ainda reine no interior do país).

As igrejas neopentecostais estão favorecendo a proliferação dos evangélicos “genéricos”, principalmente quando transformam o templo religioso em uma “agência” de cura divina e banco financeiro espiritual. Hoje há um grande trânsito religioso, um verdadeiro supermercado, por conta dessas denominações. Pessoas tem uma agenda semanal para participar de eventos dos mais esdrúxulos possíveis. Por outro lado, o protestantismo favorece quando nossas preocupações são triviais e supérfluas e quando pregamos uma espiritualidade baseada no fazer e não no ser, na moralidade e não nos princípios. O evangélico “genérico” não suporta mais um moralismo farisaico e sadomasoquista que alguns chamam de vida cristã. Eles preferem transitar a ficarem presos em uma denominação específica.

2.8.11

SERÁ QUE SOU PESSIMISTA?

Antes de começar os meus devaneios, é bom que se diga que não sou partidário do segmento filosófico conhecido como pessimismo tendo nomes importantes como A. Schopenhauer e F. Nietzsche. O pessimismo, que se opõe ao otimismo (ideia de que a realidade é boa, o bem sempre prevalece sobre o mal), é uma visão negativa das coisas, esperando sempre que o pior aconteça. É uma atitude de espírito que acredita ser impossível mudar as coisas para melhor. Contrariando um livro do filósofo Luiz Felipe Pondé, Contra um mundo melhor (São Paulo: Leya, 2010) onde ele destila todo o seu pessimismo, eu preciso torcer, contribuir, não com o mundo, mas com essa sociedade aqui por melhores condições de vida, mas isso por conta de Cristo e os valores do reino de Deus. Do contrário se olharmos para as coisas que se sucedem é para deixar qualquer um pessimista mesmo, e é sobre isso que quero falar.

Observo apenas algumas coisas, sem a pretensão de ser exaustivo na análise, mas lacônico mesmo. Com certeza não sou o único que se sente irritado, enojado, com o conteúdo televisivo por exemplo. É uma verdadeira era da babaquice, do culto a vulgaridade. Quem suporta ver um punhado de “artistas/celebridades” que precisam ser notadas novamente porque a grande mídia esqueceu o seu nome, num programa de TV onde as conversas não tem nenhum conteúdo útil! Fico com o escritor Nelson Rodrigues aqui: nossa época está dominada de idiotas e eles são a maioria, infelizmente. Na verdade a TV está sendo cada vez mais democratizada, é até bonito de dizer isso, por conta disso é que vemos com mais intensidade algumas coisas que ofendem, agridem a nossa inteligência. As novelas, na sua maioria, servem de anestésico para a massa se esquecer de que os políticos, que nem mesmo muitos se recordam o nome, estão arruinando o que já está ruim, é o caso do Ministério dos Transportes superfaturando obras e enquanto isso as estradas em péssimas condições continuam tirando vidas. A grande mídia está a todo o momento dizendo em que devemos acreditar; o que devemos sentir; o que devemos comprar; quem devemos amar.

Num retrato da nossa sociedade, o filosofo francês J. Baudrillard coloca o consumo como um dos principais fatores para o aprisionamento do ser humano num universo de significações simbólicas relacionadas ao poder de compra onde a pessoa passa a viver em uma sociedade marcada pela insensatez. Isso ocorre porque o universo que dá sentido é o comprar e comprar. Antes, com a modernidade, era “penso, logo existo”, hoje é “compro, logo existo”. Diz se não é insensata a ideia de que dinheiro e felicidade são sinônimos? Não seria insensatez afirmar que o processo de globalização ajudou as pessoas a viver melhor? Há maior insensatez do que esta: ganhar dinheiro maltratando a natureza?

Não sei se estou sendo fatalista demais. Mas custo a acreditar que a educação pode dar jeito em alguma coisa, principalmente quando ela é pensada no seu estágio final, a universidade, e não nas primeiras séries do ensino fundamental. Isso porque, em sala de aula, apenas alguns alunos valem a pena; a globalização continua empobrecendo a muitos; as pessoas já não esperam dignidade dos políticos; na TV nem mesmo os programas tidos como “evangélicos” não disfarçam a vinculação religião-mercado; as pessoas querem ganhar dinheiro a qualquer custo e para isso superfaturam obras, vendem habeas corpus; numa sociedade em que a novela, o carnaval e o futebol são a trilogia perfeita para domesticar a população, sinceramente não vejo mudanças nesse cenário.

Não sei se sou pessimista, mas não vejo motivo para ficar otimista também (é claro, a partir de uma leitura generalizante, porque não há dúvidas de que haja motivos para ser otimista com a vida de algumas pessoas). Conforme J-F. Lyotard (filosofo francês), este é um tempo marcado pela ausência de crenças, onde os fundamentos simbólicos que dão certo sentido à história são estabelecidos pelo progresso tecnológico e cientifico e as novidades cibernéticas modificam a vida das pessoas.

Esperanças? Há muitas, mas não para nós (Franz Kafka).