15.5.12

A GRAÇA AMEAÇADA – OBSERVAÇÕES QUANTO AO CHAVÃO “INIMIGO DAS NOSSAS ALMAS”

O chavão é conhecido.

Já ouvi de pregadores; já li; já presenciei apelos sensacionalistas; já vi o ministro de música (no conhecido “momento de louvor” – nomenclatura infeliz) nos cânticos fazer terrorismo com a comunidade. É o famoso chavão do “inimigo das nossas almas”.

Sem dúvida a realidade do Mal é um fato. Mas no imaginário religioso brasileiro a concepção do demoníaco é uma herança do catolicismo português que cultivou em terras tupiniquins a compreensão de que o Mal, personificado pelo diabo, pode causar danos. Daí as fitinhas do Bom Jesus da Lapa no braço para o fechamento do corpo contra os espíritos maus; santinhos colados nos vidros dos carros ou dentro da carteira para proteção e outras coisas parecidas com isso.

Como herança disso o chavão – “inimigo das nossas almas” – pegou no protestantismo por conta da acentuada dicotomia do corpo versus alma que é tão presente na Teologia Católica (contribuição de Santo Agostinho que faz uma leitura da filosofia de Platão e Aristóteles onde a alma é superior ao corpo e cristianiza o conceito).

Sendo assim, a frase tem lugar garantido no tal vocabulário evangeliquês. E não somente ela, mas outras como “o diabo quer lhe destruir” ou “vamos quebrar as setas inimigas” ou ainda “quando o crente ora, deve esperar retaliação do diabo”.[1]

Embora haja tantos outros chavões, crendices e idiossincrasias que deveriam ser abolidas do contexto “evangélico”, penso que está frase poderia muito bem cair no esquecimento. Ficaria grato se não pudesse ouvir na igreja ou ler em algum lugar novamente.

Externo meus motivos.

1. Não há nenhum texto bíblico com essa frase. Isso se deve porque a Teologia Bíblica não separa a alma do corpo. Tanto no Primeiro Testamento (AT) quanto no Segundo Testamento (NT), alma (tradução da Septuaginta de nêfesh em hebraico) é o ser humano em sua inteireza, não dicotômico, mas unitário.

2. A Bíblia não trata de corpo sem alma ou alma sem corpo. A Bíblia trata de ressurreição e não da alma, mas da pessoa. Não é uma imortalidade, mas sim um estar com Deus. Não há antecedência de uma alma (concepção grega e não bíblica).

3. Conceber que exista algo ou alguém que pode “roubar” ou até mesmo ter o “poder” de se intrometer no plano salvífico é colocar a graça de Deus e a obra de Cristo em um plano menor, quase obsoleto. Desde quando a graça de Deus pode ser ameaçada quanto à sua operosidade? Não foi Paulo quem disse que nada, digo nada, poderá nos separar do amor de Deus? (cf. Rm 8,33-39).

4. Aceitar a legitimidade desse chavão, agora no âmbito Batista, é desconsiderar um dos principais princípios dos Batistas de que uma vez salvo, sempre salvo. É claro que esse adágio dos Batistas não quer dizer que o cristão nunca comete pecado ou ainda de que o Mal não o possa atingir. Antes significa que a salvação mediante a graça de Deus, o dom do Espírito Santo e a participação no corpo de Cristo (a igreja) não poderia ter nenhum tipo de inimigo possível para invalidar essas realidades espirituais.

Concluo que contra a graça de Deus não poderia ter nenhum inimigo; que alma é coisa de grego e que, portanto, não seria possível alguém ser inimigo dela, pelo menos biblicamente, porque somo pessoa diante de Deus e não fantasmas.

Um comentário:

Claudinei Fernandes disse...

Belo texto! Infelizmente a falta de uma teologia bíblica mais aprofundada, capaz de discernir entre o que é realmente Bíblia, o que é pensamento grego e o que é senso comum evangélico, tem gerado um superficialismo muito grande. A graça é o que nos sustenta. Cristo nos é suficiente. Sua reflexão é uma realidade.