12.2.11

O QUE BOB HAZLETT NÃO ENTENDE

Quando chega esta época é a mesma coisa de sempre em alguns redutos tidos como “evangélicos” – estou me referindo ao carnaval – pragueja, expulsa demônios territoriais, prega-se contra, demoniza como festa do diabo e da carne, da sensualidade etc. Tudo isso já ouvimos e continuamos a ouvir quando chega nesses meses. As igrejas fazem os seus acampamentos, se afastando completamente do “mundo” e se encastelando como os “separados”. Assim a condição de gueto é assegurada.

No começo desse mês o carnaval do Rio de Janeiro teve uma perda incalculável. Na Cidade do Samba alguns galpões pegaram fogo consumindo anos de trabalho duro de gente de diferentes classes sociais e lugares. Carros alegóricos, fantasias, a logística do evento o fogo consumiu em questão de minutos. Uma pena mesmo!

Particularmente não sou fã do carnaval. Embora fique admirado com a criatividade e com alguns temas escolhidos, mas não me agrada a conjuntura do evento, mas isso sou eu, nem todos, por exemplo, ouvem ou já ouviram Beethoven, Mozart, Chopin ou Bach, é uma questão de estilo musical mesmo. Assim como esses nomes representam a cultura popular da Europa, e principalmente da Alemanha, o carnaval representa a cultura popular brasileira, isso é inquestionável. Também não suporto a importação da festa das bruxas do EUA, onde por lá todos participam independente de religião, é uma festa cultural, não poderia demonizá-la porque não me agrada.

Digo isso porque, em visita ao nosso país, o Pr. Bob Hazlett (EUA) falou essas palavras: “Eu escuto o Senhor dizendo: Eu vou fechar a festa do diabo e Eu terei uma festa nas ruas, porque Eu adorarei durante o carnaval. Eu estarei curando enfermos durante o carnaval. Eu estarei expulsando os demônios durante o carnaval… Minha igreja se levantará para trazer luz durante a festa das trevas”.* Logo após o acontecido no Rio de Janeiro com os galpões do samba, essas palavras se transformaram em “profecia”. O referido pastor ficou famoso por “profetizar dias antes o incêndio nos barracões das Escolas de Samba do Rio”. O sensacionalismo “evangélico” é incrível. Primeiro ele não diz nada, essa que é a verdade. Não diz o que aconteceria; o processo sugestivo funcionou muito bem aqui. Depois diz que irá “fechar a festa do diabo”, o carnaval irá acontecer, e ainda, mais animado, mais empolgante e emocionante por parte de seus participantes, porque para eles realizar o carnaval este ano será uma questão de honra. Depois, como já disse, nessa época sobram “profetas” falando contra o carnaval, ele foi mais um. Apenas coincidiu de ser na mesma semana, apenas isso.

Não dá para demonizar aquilo que não concordamos ou entendemos que esteja errado. O que Bob Hazlett não entende é que no nosso país o carnaval é uma imensa obra de arte coletiva produzida por centenas e até mesmo milhares de artistas. É a ocasião "em que a vida diária cessa de ser operante e, por causa disso, inventa-se esse momento extraordinário" (Roberto DaMatta). É a festa onde o povo desfila, e as cores tomam conta do ambiente. Para citar Jaci Maraschin, “no carnaval, as diferenças de raça, classe, sexo e indivíduo são apagadas. Essa festa confunde tudo. Mistura e tornam iguais tanto os ricos como os pobres, os brancos e os pretos, os empregados e os patrões, a senhora e sua empregada, desmanchando preconceitos e distâncias. Cria certo tipo de miragem onde os feios se tornam bonitos, o dia se transforma em noite, e a noite, em dia”.

Seria bom se todas as nossas festas tivessem um fundamento religioso, como Israel, por exemplo, mas não é assim aqui. No nosso país o carnaval tem diferentes faces, uma espécie de comercialização e banalização sexual em São Paulo e Rio de Janeiro, mas também a obra de arte sendo exposta em carros gigantescos e enredos que cantam a vida; no nordeste o frevo e os bonecos gigantes que marcam as ruas de Olinda e Recife. Em todas essas manifestações a presença do mal é inevitável, aliás, o mal é inevitável até mesmo dentro das igrejas.

Carnaval no Brasil não é a festa das trevas, embora você possa discordar de mim. É a festa daqueles que ainda não encontraram a motivação correta para celebrar a vida, que é Jesus Cristo, mas aí pensar que Deus colocaria fogo em galpões com milhares de pessoas dentro apenas para parar a “festa do diabo” é demais.
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* Disponível em: http://noticias.gospelmais.com.br/video-pastor-profetiza-incendio-escolas-cidade-samba-rio-16309.html
Acesso em: 10 fev. 2011

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