6.11.09

INQUIETAÇÕES DA VIDA

Assumindo a vida com suas ambiguidades

Há no entendimento de muitos o ateísmo de Friedrich Nietzsche, alguém que por defender a morte de Deus postulava um ateísmo cruel contra o Cristianismo.

Como entender a morte de Deus para Nietzsche? A sua afirmação, Deus está morto, significa dizer que nega a realidade do Sagrado? Parece que não.

Seu tempo é marcado por uma religião autoritária, contraditória, inimiga da vida. Um Deus à imagem e semelhança dos dominadores. Um Deus que estava fora do sistema político-social, mas que apregoava uma ética elitista, puritana, e ao mesmo tempo, se mostrava inacessível ao humano, a não ser pelo dogma. Uma religião que escravizava e tirava a alegria, a nobreza da vida humana, quando colocava toda a realidade da vida nas costas desse “Deus”, impedindo de ver a vida como ela é de fato, ou seja, projeção, construção, incertezas. Com essa assertiva, Deus está morto, Nietzsche não elimina a existência do numinoso, do Sagrado, mas somente o “deus moral” que sufoca a vida.

No seu mais conhecido livro Assim falou Zaratustra, Nietzsche expõe três transformações que representa a passagem para encarar a vida de outra maneira: camelo – corre carregado do peso existencial insuportável, trata-se da solidão, da angústia no deserto; leão – a força, o desejo da liberdade do sentido, o tomar a vida pelas mãos; menino – metáfora da liberdade e da reconstrução, inocência, um começo, um brinquedo. Na metáfora do menino nasce um novo ser, em que a justiça, o amor, a vida, o lúdico estão presentes. Com a figura do menino, Nietzsche quer a realização de uma vida sem rancor pela vida, sem ciúme, é o dizer sim à vida e suas contingências, é amar a sua realidade em todas as suas manifestações. Ao contrário da imagem do menino, a religião e o Cristianismo em especial, com seus recursos além-morte, contradiz a vida. Com isso não se nega o Transcendente, mas a dogmatização do Sagrado.

Apesar da sua dura crítica ao Cristianismo e sua força coerciva da natureza humana, Nietzsche é cativado pela figura de Cristo, que, aliás, para ele, foi o único cristão. Na cruz há o símbolo mais sublime que já existiu, ele foi um espírito livre. Mas há que separar Cristo do Cristianismo, pois este pregou contra o que escravizava o povo. O Cristianismo inventou os dogmas e por meio deles escraviza o povo.

Nietzsche apostou no niilismo para chegar a real condição do humano, a negação de todos os valores e conceitos científicos, religiosos e moral. Um crítico ferrenho da cultura Ocidental, mas ainda alguém que via no amor o sim para a vida, um amor que aceitasse a vida como ela é de fato, inclusive com a sua crueldade; aceitasse o mundo e suas ambiguidades e amá-lo por isso. O seu niilismo o levou a produzir uma concepção de Deus de forma límpida, não como interventor, dominador, usurpador da vida, mas um Deus que soubesse dançar.

Colocar em Deus os acontecimentos pessoais e mundiais é a negação da vida, foi o que Calvino fez! É tirar do ser humano a sua mais básica condição, a humanidade. Nisso Nietzsche contribui, e não é por acaso que ele foi e continua sendo um dos filósofos mais lidos. Nunca iremos aprender a lidar com o sofrimento, mas ele é, inexoravelmente, parte da vida.

5 comentários:

Claudinei Fernandes disse...

Acredito que a grande contribuição de Nietszche é realmente sua crítica ao cristianismo platonizado e puritano (protestante). A meu o cristianismo ocidental é platônico demais e não consegue lidar com o real. Calvino e os demais reformadores na verdade são reflexos do agostinianismo. O puritanismo do Séc.XVII, XVIII, por exemplo, têm uma compreensão de santidade distante da vida. Deus parece exigir algo que Ele sabe que é impossível viver. É claro que um entendimento assim é fora da realidade! Deus é o Deus da vida, do real, esse Deus é vivo, mas o Deus da crítica de Niesztche realmente é dificil de engolir... Talvez para alguns seria interessante pensar em uma pergunta: " Será que existe cristianismo além de Agostinho/Platão?" rss.
Parabéns pelo texto. Um abraço.

Pr. Alonso Gonçalves disse...

Nietzsche foi um eterno peregrino do sentido da vida; alguém que ousou desqualificar o então cristianismo como insuficiente para a leitura correta da vida. A exemplo de Jesus que via no sistema religioso de sua época a opressão, o comércio do Sagrado, as regras acima do humano, Nietzsche concebeu uma vida em plenitude, assumido seus desafios, prazeres e pesares. É uma pena a nossa tradição cristã ainda beber no platonimo e no agostinianismo, quem sabe um dia superaremos isso.
Valeu pela participação, suas ideias enriquece o diálogo.

jeriel.brito disse...

Faz bem pensarmos nestas críticas de Nietszche. Sair da teologia sistematizada por dogmas e ter uma teologia que pensa mais na vida real que esta ao nosso alcance. Com o objetivo de vivermos um evangelho que seja prático e visível.
Parabéns!
Um abraço

Rodrigo Walicoski Carvalho disse...

Prof.

Sou um estudioso de filosofia e de Nietszche, mas sinceramente nunca li que ele admirava Jesus Cristo. Pode me apontar em qual obra ele faz esses elogios???

Anônimo disse...

Olá. O texto é o "Anticristo". Se não estou enganado.
Alonso S. Gonçalves