9.6.10

IGREJA: ENTRE A MASSA E A MINORIA

Vendo esses dias o blog Genizah, vejo a seguinte notícia: Igreja Mundial Renovada. É a mais nova cisão da Igreja Mundial do Poder de Deus. O braço direito do então Valdemiro Santiago, o senhor Roberto Damásio, fundou a Igreja Mundial Renovada com os mesmos caracteres da sua antiga igreja, a IMPD. Não tenho nenhum interesse em saber quem está traindo quem, quem está abrindo mais uma casa de espetáculo. O que achei interessante na matéria do Genizah é a frase do mais novo pop star do mundo das celebridades bizarras. Ele disse: “A Igreja que fundei e abri é melhor do que a primeira de onde vim! A gloria será minha, a igreja é minha, eu sou o dono dela e ninguém me tira”. Palavras de profunda sabedoria espiritual.

Segundo o sociólogo Ricardo Mariano (mestre e doutor em Ciências Sociais pela USP) no seu livro Neopentecostais, sociologia do novo pentecostalismo no Brasil (Loyola, 1999), o neopentecostalismo é um empreendimento profundamente lucrativo. Abrir igrejas é um negócio como outro qualquer. A clientela é vasta; o produto muda apenas de mão, de bispo para apóstolo; a propaganda é feita pela TV com slogan chamativo. As pretensões é crescer, crescer e crescer.

É interessante a diversidade do Evangelho neste país. Enquanto prego na minha tranquila e abençoada comunidade sobre ser semelhante à Cristo, amar o irmão, dialogar com aquele que discordamos, os membros vê na TV pastor vendendo semente; missionário pedindo para comprar uma tal de “Nossa TV” extorquindo o povo em nome de uma pretensa programação “santa”; outro com seus milagres e unções reivindicando a mão de Deus. Já estou cheio disso e acho que você também.

Lendo um dos teólogos mais importantes da América Latina, Juan Luis Segundo, o seu livro Teologia aberta para o leigo adulto: essa comunidade chamada Igreja (Loyola, 1976), Segundo faz uma observação: a Igreja sempre será minoria. Ele faz uma distinção entre massa e minoria. A Igreja de fato será sempre aquela em que pessoas que seguem de fato a Jesus Cristo, participam do seu projeto chamado Reino de Deus e transmitem aos outros a fé recebida. Segundo coloca que Jesus nunca pretendeu alcançar a massa; Paulo nunca teve intenção de conquistar um império. Para o teólogo uruguaio, Igreja será aquela em que o amor ao próximo seja a primeira e principal doutrina. Igreja será minoria sempre, porque nem todos estão interessados em diminuir para que o outro cresça.

A massa pode ser manipulada (e é). A minoria pode mudar algumas coisas, mas não tem a pretensão de mudar o mundo, mas a sua volta. A Igreja de Cristo é minoria. É a dificuldade de relacionamento dos Doze; é a possibilidade dos fortes carregarem as fraquezas dos fracos; é a mutualidade na compaixão e no amor cristão.

Acho que estou fadado a lidar sempre com a minoria, pois é nela que me identifico como pastor.

4 comentários:

Claudinei Fernandes disse...

Um texto, um desabafo. Me solidarizo com você. O evangelho do reino, de Jesus de Nazaré não é esta industria cultural religiosa. "Convém que Ele cresça e eu diminua".
Abraço

Pr. Alonso Gonçalves disse...

É um texto-desabafo mesmo.
Ainda bem que temos possibilidade de influenciar pessoas com coisas simples do Evangelho. Blindar a comunidade desse estilo de evangelho não é o melhor remédio, é preciso mostrar a deficiência que há hoje nesses evangelhos que rolam por aí.

Obrigado pelo apoio.

Pr.Ezequiel Francisco Nunes disse...

Pr. Ezequiel
Prefiro ser a minoria do que ser massa,Deus não vê multidão Deus vê pessoas quando esta o busca em espirito e verdad(João4.24).Entramos na igreja para adorar, mas saimos com uma grande missão Servir.Precisamos ser para ter,mas as pessoas só querem receber. Que sejamos Uma Igreja Santa (Ef 5.27); Uma Família (Atos 2.47);Um Povo Unido (João 17.21); Uma Igreja Marcada pela Cruz (1Co 1.18). E por fim veremos a diferença daqueles que realmente serve. Um abraço!

Clademilson Paulino disse...

Alonso,

você já leu “Massas e minorias” de Juan Luis Segundo? Caso não leu, leia.

Belo desabafo,
Um abraço,
Clademilson Paulino.