22.4.16

ANTAGONISMO BATISTA - PARTE I

A eclesiologia batista e suas contradições: dons espirituais ou votação de cargos?

Vez ou outra escuto alguém dizer que a Igreja Batista é uma das melhores denominações do Brasil. Esse preciosismo se deve, em grande parte, à formação batista no Brasil que herdou o legado material, teológico e identitário dos missionários que aqui estiveram.

É sabido também que muitas pessoas que hoje pertencem a uma Igreja Batista, desconhecem a história do movimento e muito menos aquilo que baliza suas posturas. Há um desconhecimento quanto aos princípios batistas que são, notadamente, confundidos com doutrinas batistas. Há ainda quem diga que os batistas têm uma ortodoxia e a Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira é uma “regra de fé e prática”.

O que é uma Igreja Batista?

De acordo com a Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira, uma Igreja Batista “é uma congregação local de pessoas regeneradas e batizadas após profissão de fé. É nesse sentido que a palavra ‘igreja’ é empregada no maior número de vezes nos livros do Novo Testamento”. Com essa assertiva, os batistas se entendem como uma igreja neotestamentária e procuram ser fiéis ao que o Novo Testamento ensina sobre igreja. Deste modo, afirmam a autonomia das igrejas, daí não é possível nomear como Igreja Batista, mas sim Igrejas Batistas, por conta da sua pluralidade e sistema congregacional. Como igrejas autônomas e democráticas, elas não possuem um sistema centralizador, ou seja, cada igreja é soberana em suas decisões administrativas, que são tomadas democraticamente e isso é o que caracteriza a forma de governo de uma Igreja Batista. A democracia é sua forte característica e implica em uma participação igualitária dos membros de uma comunidade local, homens e mulheres, nas decisões a serem tomadas quanto aos rumos da comunidade. Isso é o ideal.

Segundo a Declaração Doutrinária da CBB quanto a natureza da igreja, ela é expressa em dizer que se trata de uma igreja nos moldes do Novo Testamento. Será?

Aponto algumas contradições da eclesiologia ideal (Declaração Doutrinária da CBB e Novo Testamento) e a real (com seu modus operandi na realidade das igrejas).

Em uma igreja neotestamentária não havia cargos a serem votados, pelo menos na de tradição paulina. Nem mesmo no caso de Matias foi uma votação, mas sim uma sorte entre dois nomes (At 1,15-26). Logo, votação para assumir cargos e funções na comunidade não havia. O Novo Testamento traz os dons espirituais como condição para o exercício das funções e possíveis cargos. Mesmo que haja uma certa compatibilidade entre votação e dons espirituais, é algo raro nas Igrejas Batistas. Ainda predomina a perspectiva dos cargos e a votação como condição para exercê-los. As disputas entre as pessoas para os respectivos cargos são acirradas e as assembleias se transformam em batalhas para assumir determinada posição, uma vez que ela pode conferir empoderamento. No Novo Testamento, há pelo menos quatro listas sobre os dons espirituais – (Rm 12,3-8; 1Co 12 e 14; Ef 4,11-13; 1Pe 4,10-11) – todas elas tratam de algo outorgado pelo Espírito Santo que dispõe como lhe cabe dentro da comunidade de fé.

Uma vez com os respectivos cargos, as pessoas passam a exercer uma função dentro da comunidade que só cabe a ele ou ela. Assim, outra pessoa não poderia fazer, mesmo que tenha condições para isso, porquê já foi votado quem deve/deveria realizar tal atividade. Aquelas pessoas que no memento da votação se sentiram pressionadas a aceitar algum cargo, assim que possível deixa de exercer tal função.

A igreja ideal, do Novo Testamento, tem nos dons espirituais sua maneira de se organizar, onde cada um servi uns aos outros “conforme o dom que recebeu” (1Pe 4,10). Se recebeu não há necessidade de ser votado. Se a comunidade reconhece os dons de alguém, logo não é preciso votar para que tal pessoa exerça suas funções dentro da comunidade.

Esse antagonismo batista se dá em confundir práticas do Novo Testamento com sistema de governo de uma Igreja Batista. Na prática do Novo Testamento, os dons espirituais são imprescindíveis. No sistema de governo de uma Igreja Batista, a votação é elemento preponderante na condução de uma comunidade. Isso leva/levou ao equívoco de votar em funções que o Espírito Santo já capacitara para tal, mas a igreja, desprovida de um inventário de dons e seus respectivos ministérios, desconhece a dinâmica dos dons e as pessoas que assim possam exercê-los dentro da comunidade e fora dela.

Consulta

Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira. Rio de Janeiro: JUERP, 1986.
Juan Antônio Estrada. Para compreender como surgiu a igreja. São Paulo: Paulinas, 2005.

11.4.16

A DECLARAÇÃO DA CBB NO CASO DA IGREJA BATISTA DO PINHEIRO

Diante da decisão da Igreja Batista do Pinheiro (IBP), que, dentro da sua autonomia, seguiu todas as fases de um processo democrático em uma Igreja Batista, a Convenção Batista Brasileira (CBB) emitiu uma Declaração sobre o tema em quatro páginas onde o principal objetivo foi elencar documentos e preceitos estatutários para tratar o assunto.

Um tema que a IBP demorou quase uma década para pensar, discutir e orar, a Declaração da CBB gastou quatro páginas para afirmar a sua posição diante da decisão da IBP.

O tema é delicado e merece total investimento de diálogo, leituras e considerações, abordando diferentes aspectos do assunto. Por isso, a Declaração da CBB veio desprovida de alguns elementos para uma situação que demorou dez anos para chegar em uma decisão na Assembleia Extraordinária da IBP por maioria absoluta. É sabido que que a liderança pastoral da IBP esteve com a diretoria da CBB e o encontro foi cordial e respeitoso. Por esse fato, a CBB – mesmo diante da pressão de pastores e igrejas para que a mesma emitisse o quanto antes uma Declaração –, poderia elencar os argumentos da IBP sobre o tema e refutá-los a fim de legitimar a sua decisão. Isso não foi possível na Declaração.

Antes da medida político-administrativa que ela, a CBB na sua, também, autonomia possa estar tomando, seria preciso olhar o tema a partir de uma leitura pastoral e humana, uma vez que o tema é complexo e não está apenas no âmbito bíblico-teológico, mas no social, político e psicológico.

Como batistas, é possível discordar fraternalmente, mas é preciso haver o diálogo, uma prerrogativa do ser batista. Com a IBP não se trata apenas de uma hermenêutica dos textos bíblicos, embora ela seja extremamente necessária, mas também compreender as motivações que levaram a igreja a tomar a sua decisão sobre o tema. A Declaração da CBB reconhece a autonomia da Igreja Local em suas decisões, mas faltou colocar o tema dentro de uma conjuntura mais ampla, não apenas institucional. Nesse sentido há uma reação de pastores, líderes e Igrejas Batistas ao teor da Declaração da CBB.

Com a decisão da IBP, os batistas são chamados a refletir sobre o tema no âmbito bíblico-teológico – e não há consenso em relação à exegese quanto a isso, prova maior é a decisão da IBP sobre o tema –, uma vez que os textos bíblicos não tratam da homossexualidade como orientação psicossocial; por alterações comportamentais no âmbito familiar; por violência sexual ou desenvolvida como relacionamento entre adultos conscientes... Nesse sentido, é um debate e ele é premente na realidade denominacional.

6.4.16

MISSÃO E CULTURA: RASCUNHO DE UM DEBATE

As igrejas (católica/protestante), quando da colonização na América Latina, foram promotoras da mentalidade do seu tempo, ou seja, fundiu evangelho com a cultura de origem, gerando um etnocentrismo em relação aos povos conquistados. Obviamente não é possível falar de evangelho sem cultura, o próprio evangelho se dá dentro de uma determinada cultura e a Bíblia é testemunha disso. Mas na América Latina, o evangelho se deu a partir de uma cultura que, indevidamente, procurou suprimir a cultura do outro, assim como em outros lugares em que o modus operandi foi o mesmo. Enrique Dussel, quando discute o colonialismo, faz uma constatação: “o pecado original da modernidade foi ter ignorado no índio, no africano, no asiático, o ‘outro’ sagrado, e o tê-lo coisificado como um instrumento dentro do mundo da dominação norte-atlântica”. Esse processo, que Dussel chama de coisificação do outro, contribuiu na dizimação da cultura do outro.

Quando a relação se dá entre evangelho e cultura na América Latina, não poderia ser diferente a postura. Dentro desse aspecto, há um intenso debate entre Bartolomeu de las Casas e Juan Ginés Sepúlveda em torno da questão indigenista.

Para Leonardo Boff, os missionários não se deixaram evangelizar, ou seja, não se deixaram admirar pelo que estavam vendo. Se isso tivesse acontecido, “o destino do cristianismo latino-americano e das culturas autóctones” seria outro, ou seja, um “cristianismo com traços culturais próprios, distintos daqueles europeus”.

Ainda é um desafio pensar missão na América Latina, principalmente quando o tema é corolário com a cultura. Além disso, a reflexão precisa acolher a relação missão e cultura tendo como contexto a diversidade religiosa latino-americano. Autores que se dedicam a pensar sobre o tema, procuram abrir caminhos que deem conta dessa problemática em diferentes interfaces, teológica, antropológica, social e política. Em comum entre eles, os desafios de alocar a missão, como um conceito extremamente saturado na América Latina em termos de evangelização, e a cultura, que vem sendo refletida a partir de epistemologias como o pós-colonialismo.

Ainda é frequente, na tarefa missionária, desprover o outro, alvo da missão, de elementos revelacionais que são característicos do cristianismo. Dentro dessa perspectiva, cabe a consideração por uma missiologia que contemple elementos de diálogo. Os desafios são enormes, mas a necessidade que o debate impõe é premente.

Consulta

DREHER, Martin N. A igreja latino-americana no contexto mundial. 3ª ed. São Leopoldo: Sinodal, 2007, p. 33-45.

PIEDRA, Arturo. Evangelização protestante na América Latina: análise das razões que justificaram e promoveram a expansão protestante (1830-1960). São Leopoldo: Sinodal, 2006, v. 1, p. 67-113. 

30.3.16

TRANSFORMADOS PELO PODER DO REINO DE DEUS E A SUA JUSTIÇA

Esse foi o tema do Encontro da Ordem dos Pastores Batistas do Brasil – Seção São Paulo no dia 28 de Março de 2016 na Primeira Igreja Batista do Brás (São Paulo).

Um tema profundamente propício para um tempo como o nosso onde perdemos a definição de justiça, ou estamos em busca de uma síntese e não encontramos.

A proposta em atrelar o reino de Deus e a sua justiça faz todo o sentido desde os profetas, como Jeremias, Amós, até Jesus de Nazaré. A justiça está presente na proclamação do reino de Deus.

Na abertura do Evangelho de Mateus, a primeira palavra de Jesus é justiça (3,15).

No Evangelho de Mateus justiça é uma fidelidade nova e radical à vontade de Deus. Isso podemos ver no texto de Mateus 6,33 como em todo o Evangelho de Mateus.

Ocorre que temos sérias dificuldades para compreender o reino de Deus assim como está nos evangelhos. Isso se deve, acredito, pelas concepções escatológicas que cultivamos. Uma dessas razões, foi colocar o tema do reino de Deus na seção “Escatologia” das teologias sistemáticas.

A teologia sistemática olhou para Jesus a partir das doutrinas estabelecidas nos Concílios e não focou na caminhada de Jesus entre o povo. A grande maioria das Teologias Sistemáticas não se preocupam com aspectos do cotidiano de Jesus, mas sim em doutrinas estabelecidas no decorrer da história da igreja. Com isso, deixaram o tema do reino de Deus como sinônimo de milênio. Um equívoco.

Em outro momento, o reino de Deus passou a ser subjetivo – dentro do coração da pessoa.

A exegese bíblica recuperou a concepção de reino de Deus no Novo Testamento e biblistas são unânimes em afirmar: o centro da mensagem de Jesus foi o reino de Deus.

Nos esquecemos disso quando, usamos “a teologia da volta de Cristo como despiste para não se cumprir as exigências do evangelho do reino” (Israel Belo de Azevedo).

A realidade do reino de Deus no Evangelho de Mateus

O reino de Deus é uma realidade divina e humana. Tem origem em Deus e entra no mundo para alcançar o ápice em Deus.

É futuro, e ao mesmo tempo, presente (Lc 17,21-22).

Cresce sozinho, sem lutar contra os inimigos; sem observância meticulosa da Lei.

Requer a colaboração humana (da igreja).

Dissemina-se de modo extraordinário pelo dinamismo e requer uma decisão radical para que se possa instaurá-lo e retê-lo.

Não aponta para uma extensão territorial, mas designa uma força divina – é o próprio Deus enquanto Senhor.

O tempo do reino de Deus se inicia não no cronos, mas no kairós – objeto de confiante expectativa, por isso a oração “venha a nós o teu reino”.

No Evangelho de Mateus há uma estreita relação entre o reino de Deus (céus) e a justiça.

A busca do reino de Deus se concretiza na busca da justiça. É a participação naquilo que Jesus propõe, ou seja, concretizar o reino de Deus. Por isso, seguir Jesus, torna-se para os discípulos, seguir o caminho da justiça (21,32).

Essa justiça precisa ser superior aos dos fariseus (5,20). Os reconhecidos discípulos de Jesus têm fome e sede de justiça (5,6). Por causa sela, eles serão perseguidos (5,10).

Se há a prática da justiça atrelada ao reino de Deus em Mateus, há também a figura do justo.

Quem são os justos?

Os justos são aqueles que praticam a justiça como agentes do reino de Deus; aqueles que procuram agradar a Deus.

Os justos, para Mateus, não ficarão surpresos com o julgamento (25,35-40), pois realizaram obras de justiça sem contabilizarem o que estavam fazendo.

Para Mateus a prática da justiça é realizar o reino de Deus, e os justos são os agentes dessa prática que antecipa o reino de Deus no meio da sociedade.

Conclusão

Os batistas já foram mais comprometidos com a sociedade e a prática da justiça.

Os batistas produziram um documento (Manifesto dos Ministros Batistas do Brasil – 1963) em que o tema da justiça era contemplado.

Nesse documento no item Justiça Social, diz:

Reconhecemos a inadequação da presente estrutura social, política e econômica para a realização plena da justiça social, pelo que insistimos na necessidade de um reexame corajoso, objetivo e despreconcebido da presente realidade brasileira, com vistas à sua estruturação em moldes que possibilitem o atendimento das justas aspirações e necessidades do povo.

Essa necessidade ressalta da constatação da ineficiência dos institutos assistenciais do Estado, que transformam num favor concedido a custo, direitos líquidos dos trabalhadores; da irracional aplicação dos recursos públicos, que deveriam antes de se destinar, mais liberalmente, aos ministérios da Saúde, Educação e Agricultura, para a solução de problemas sociais angustiantes; da sobrevivência de regimes feudais de propriedade e exploração da terra; da generalizada pobreza das populações carentes mesmo do alimento indispensável à sobrevivência; da injustiça na distribuição das riquezas, e da utilização destas para o cerceamento das liberdades essenciais; da inadequada exploração das nossas riquezas naturais, cujo aproveitamento não só deveríamos intensificar, como fazer revestir-se de significação social; do crescente empobrecimento do patrimônio nacional pela remessa para o exterior dos lucros, extraordinários auferidas em nosso país; da corrupção que tem campeado nos pleitos eleitorais, na prática policial (quer preventiva, quer corretiva), na previdência social, no preenchimento de cargos públicos, na aplicação dos recursos sindicais, etc.

São ainda evidências daquela afirmação o tratamento meramente policial dado aos movimentos populares da cidade e do campo, que mereciam ser antes objetiva e carinhosamente estudados, para que viessem a ser orientados construtivamente para o bem geral, através do atendimento das suas justas reivindicações; como também aos movimentos de greve, que, se muitas vezes desvirtuados, se constituem, entretanto, num instrumento legítimo de reivindicação social e de preservação dos direitos dos trabalhadores, e que deveriam, por isso mesmo, ser objeto de uma cuidadosa regulamentação.

Embora afirmemos ser a renovação do homem, mediante a transformação da personalidade, operada por Jesus (visto, o fundamento básico sobre que terá de se alicerçar uma sociedade realmente nova, propugnamos também pela realização de reformas de base na vida nacional, de sorte a possibilitar à criatura a concretização de seus legítimos anseios terrenos).

Por isso, preconizamos a promoção urgente de reformas tais como: a) reforma agrária, que venha atender às reivindicações do homem do campo explorado; b) reforma eleitoral, que venha liquidar as circunstâncias que possibilitam e estimulam os nossos maus costumes políticos; c) reforma administrativa, que ponha termo ao nepotismo, ao filhotismo e à ineficiência tão generalizada quanto onerosa dos serviços públicos; d) reforma da previdência social, que venha pôr em funcionamento as nossas leis sociais com o pleno reconhecimento e o efetivo atendimento dos direitos dos que trabalham.

(O Jornal Batista – 14 de Setembro de 1963)

Hoje presenciamos notas públicas com o intuito de amenizar discussões irrelevantes entre calvinistas e arminianos, enquanto poderíamos ser mais proféticos e promotores da justiça do reino de Deus.

Que Jesus tenha misericórdia de nós e do que estamos fazendo com a sua mensagem: o reino de Deus.

9.3.16

ACEITAR JESUS...

O pregador está finalizando o seu sermão, mas antes que tudo chegue ao fim, ele, como impelido para isso, faz um apelo: você quer “aceitar” Jesus como salvador da sua vida? Levante a sua mão e venha à frente.

Ele insiste. Ele espera. Ele fala novamente.

Quando alguém se dirige à frente, é o ápice da pregação e do culto. Mais uma alma que irá entrar no céu e a igreja tem mais uma pessoa como potencial membro.

Essa foi a principal maneira de tornar pessoas participantes da igreja. E ainda é, dependendo da formação da comunidade e do seu pastor.

Anos anteriores, e sou testemunha desse processo, os membros convidavam as pessoas (quando isso acontecia), e o pastor ficava responsável, no momento do sermão, por tornar aquela pessoa “salva” por meio do apelo.

Se o pastor não fizesse o apelo, o problema estava com ele, e o membro da igreja já tinha feito a sua parte, ou seja, convidar. Se o convidado pelo membro não “aceitasse” Jesus com o apelo do pastor, o problema (na sua grande maioria) era do/o pastor e não do/o membro.

Há casos em que o pastor era procurado depois de um culto sem “conversões” pelo corpo diaconal a fim de cobrar “decisões” ao lado de Cristo (qual deles?), por não estarem acontecendo nos sermões do pastor. Quando as decisões não aconteciam, o maior responsável por isso era, indubitavelmente, o pastor. Não por acaso, que o pregador gastava mais trinta minutos, as vezes bem mais que isso, fazendo o apelo, em alguns casos, com requintes de crueldade onde a ameaça do “inferno” era o mal menor.

A questão aqui é o “aceitar Jesus”.

O que significa isso? Significa aceitar os ensinos de Jesus? Significa entender o que ele quer dizer com “amar os inimigos”?

Rubem Alves, acertadamente, dirá: “ninguém se converte aos ensinos de Cristo, seja o mandamento do amor, a lei áurea, o sermão do monte, a despreocupação ante o futuro, o perdão dos inimigos”.

Nesse caso não tem como “aceitar Jesus”, pelo fato de não o conhecer. Aceitação pressupõe conhecer a fim de entender.

A concepção de conversão no Novo Testamento sempre se dirige aos discípulos. Foi isso que atestou Ronald D. Witherup quando estudou esse tema no NT.

Para Paulo, não se “aceita Jesus”, invoca (chama) o seu senhorio sobre a vida e muda de direção (Rm 10,13).

Não se trata de “aceitar Jesus”, mas sim chamar por ele e conceber a sua graça.

Consulta

Ronald D. Witherup. A conversão no Novo Testamento. São Paulo: Loyola, 1996.

Rubem Alves. Religião e repressão. São Paulo: Teológica/Loyola, 2005.

16.2.16

JOSÉ DO EGITO

Uma leitura a partir dos indícios

Está na Record, José do Egito.

Não por acaso, é possível ouvir vez ou outra alguém mencionar as narrativas sobre José. Ainda mais com a telenovela trazendo um herói impoluto, capaz de atravessar as mais difíceis situações e não se “corromper” diante das tentações da vida como dinheiro e sexo. Não por acaso, esse exímio administrador sofre com calúnias e tramas e mesmo assim continua inabalável.

Quando ouvimos as narrativas sobre José apresentada em Gênesis a partir do capítulo 37, impressiona a trajetória do jovem predileto do pai e odiado pelos irmãos.

Um jovem que tem sonhos um tanto prepotentes, como os feixes de seus irmãos se inclinarem para o seu feixe. Quando a interpretação do sonho representa domínio de José sobre os irmãos, a revolta destes é ainda maior em cima de um rapaz promissor e dotado de tantos talentos e habilidades.

Toda a leitura de um texto abre possibilidades. Nenhuma leitura é ausente de pré-conceitos (uma linguagem gadameriana). A hermenêutica está aí para demonstrar caminhos para a compreensão do texto e esta se dá a partir do sujeito leitor que agrega ao texto sentido, mesmo que o próprio texto seja compreensível o bastante para ter um sentido unívoco (o que é difícil, na maioria das vezes).

A leitura das narrativas de José é lida a partir do herói. Um jovem que se tornou escravo; um escravo que se tornou administrador; um administrador injustiçado; um injustiçado preso; um preso que não é lembrado; um sonhador que tem seu sonho interpretado; um intérprete que vira governador; um governador que “salva” o Egito da destruição fatal; um benevolente que ajuda os irmãos com fome. Esse é o enredo aplaudido.

Olhando o texto a partir dos indícios, é possível perceber que a narrativa não está tão isenta de problemas e pretensões.

Se a hipótese de que a narrativa de José foi construída na época do rei Salomão for viável, estamos diante de uma narrativa Javista. É possível que o Javista tenha como contexto os últimos anos da monarquia de Davi ou o começo do reinado de Salomão (século X a.C.). Se assim for, há uma grande possibilidade de estar se fazendo uma comparação entre o sistema faraônico e salomônico. Este último seria o alvo das críticas.

José seria o personagem que, distante da sua saga como herói, mas agora como governador do Egito, apresenta Salomão. Quando José sonha que seu feixe está sendo reverenciado pelos feixes dos irmãos, não há uma pretensão de ser rei sobre eles? Quando os irmãos planejam matá-lo, não está dizendo que as tribos rejeitam o sistema monárquico? Quando Jacó e sua família decidem ir para o Egito, não representaria a passagem do sistema tribal para um sistema tributário? São perguntas a serem consideradas se o ponto de partida for o período salomônico.

O sistema tributário (Gn 47,13-26) do Egito é atribuído a José.

Primeiro todo o dinheiro do povo para as mãos do Faraó; depois todos os rebanhos são recolhidos para o Faraó; em sequência, as terras são recolhidas para o Faraó; por fim todos os homens se tornam escravos do Faraó. Apenas os sacerdotes ficam isentos de todas essas medidas.

Como se tudo isso não fosse ruim, o texto apresenta o povo agradecendo a José (tu nos salvaste a vida, Gn 47,25).

José protagoniza a maior falência do povo egípcio e depois dos hebreus. Não por acaso que José se casa com a filha do sacerdote.

O trigo no período das “vacas magras” não é dado, mas vendido. Não há fraternidade nisso. O povo perde tudo, dinheiro, animais, terras e a liberdade.

Lendo as narrativas a partir de outros indícios, é possível ver um José orgulhoso diante dos irmãos. Provavelmente não era uma pessoa tão humilde assim, foi quando escravo. Quando se viu na liderança da casa de Potifar, a mulher deste o acertou na sua autoestima. Ele tinha dado a “volta por cima”. Alguém que tem cargo de chefia na casa do chefe e ainda uma mulher linda e poderosa (as mulheres tinham direitos civis avançados no Egito) dando indícios de que o queria, foi a grande reviravolta na sua vida. Do poço para a “glória”. A cena de José fugindo e deixando suas roupas, demonstra uma tensão entre os dois. Algo que chegou muito perto, pois não se tratava de uma capa, mas sim a roupa do corpo.

A narrativa de José pode ter alguns enfoques. O mais notório é a saga do herói.

José criou o sistema tributário no Egito e tornou tudo e todos escravos do Faraó, assim como ele foi um dia, quando vendido pelos seus irmãos. Casou-se com a filha do sacerdote, aquele que alimentava a ideologia do Estado e o status da religião egípcia. Mesmo que a história tenha seu final feliz, os indícios mostram que as coisas não foram tão bem como muitos costumam imaginar, principalmente o José da Record.

Consulta

J. Shreiner (Ed.). Palavra e mensagem do Antigo Testamento. 2ª ed. São Paulo: Teológica/Paulus, 2004 (p. 134-135).

Lília Dias Marianno. Relacionamentos complicados da Bíblia: estudos para grupos familiares. Rio de Janeiro: Eagle Book, 2015 (p. 80-81).

Sandro Gallazzi. Por uma terra sem mar, sem templo, sem lágrimas: introdução a uma leitura militante da Bíblia. Petrópolis: Vozes, 1998 (p. 29-32). 

Valmor da Silva. Deus ouve o clamor do povo: teologia do êxodo. São Paulo: Paulinas, 2004 (p. 14-15).

3.2.16

“OS TEMPOS MUDAM, E NÓS MUDAMOS COM ELE”

(frase de Ovídio)

Saiu no O Jornal Batista de 31 de Janeiro de 2016 um texto que fala de saudade.

O autor, um pastor batista, procura fazer uma comparação entre o que foi vivenciado em anos anteriores no universo eclesial (batista, mais precisamente) e o que hoje é possível ver no atual cenário das igrejas que passam (passaram) por mudanças em termos culturais e sociais.

O que chama atenção no referido texto, foi o “tom” saudosista de uma reflexão que não levou em consideração as mutações da cultura e que, inevitavelmente, respinga na realidade das igrejas. Além disso, é perfeitamente coerente apontar o que era (que não necessariamente leva o título de “melhor”) com o que é hoje. Mas também será possível apontar o que poderia (ou deveria) acontecer para modificar o atual cenário?

Qualquer avaliação do “antes” e do “depois”, se tratando de realidade eclesial, precisaria levar em consideração alguns temas:

- Impacto da mídia: a relação que o indivíduo tem com a mídia forma a sua personalidade, escolhas e decisões. Os neopentecostais souberam aproveitar bem isso;

- Cultura da imagem: um tempo em que uma imagem ficou valendo mesmo mais que mil palavras. Aparelhos celulares foram substituídos por pessoas; o parecer “bem” com a própria imagem é uma questão de sobrevivência nas redes sociais;

- Aceleração da história: em épocas passadas a história era contada, compartilhada, passada de uma geração à outra. Há uma aceleração da história, ou seja, as coisas acontecem apressadamente e não há “tempo” para absorver, refletir e apurar. Daí o conflito de gerações que são visíveis nas comunidades de fé;

- Consumismo como referencial de valor: há uma vida para o consumo como bem avalia o sociólogo polonês Zygmunt Bauman. As pessoas vivem para consumir e não vivem com o que consomem. O “comprar” e o “ter” são duas categorias existenciais, infelizmente;

- Rejeição do autoritarismo: qualquer tentativa de cercear a “liberdade” é reprimida. Há uma tendência em curso de desconsiderar qualquer figura que transmita “autoridade”. Nesse sentido está o professor, os pais, o policial e o pastor (para ficar com alguns exemplos);

- Urbanização: as cidades estão cada vez mais aceleradas e as pessoas preferem elas (desde o êxodo rural no país) ao campo. A urbanização traz mobilidade, mas também desumaniza as pessoas.

Quando o autor do artigo no O Jornal Batista intitula seu texto com um provocativo Dá saudades!, ele está fazendo um exercício de comparação, ou seja, o que era bom (por isso a saudade) e o que hoje não é tão bom assim (por isso a reminiscência). Saudade é a ausência daquilo que não se pode ter ou ver mais, porque foi um momento, uma fase, um tempo. Isso é perfeitamente válido, quando a concepção é apenas subjetiva. Quando é uma leitura abrangente, é preciso tratar causalidades, pelo menos.

Em todos os comparativos que o autor usou, esse chamou atenção:

- “Dá saudades de quando falávamos para uma pessoa procurar uma igreja próxima de sua casa, e hoje temos que dizer que a pessoa procure uma igreja mais próxima da Bíblia”.

De que Bíblia se trata? Ou seria de doutrinas? Há muito tempo a Bíblia deixou de ser um texto básico para as igrejas. Ela foi substituída por Declarações Doutrinárias e quando se estuda com a Bíblia se trata na verdade de revistas de EBD onde o autor repassa as suas percepções e lições. Está cada vez mais difícil procurar uma igreja mais próxima da Bíblia. Ela (a Bíblia) assusta, desconstrói sistemas, muda perspectivas e ninguém, históricos, pentecostais ou neopentecostais, querem olhar para a Bíblia com lupa, ela contraria práticas, ela destrona poderes, ela promove o empoderamento do pobre e marginalizado.

O texto tem como característica um anacronismo cultural e social. Além de não indicar (ou mesmo sonhar) com outras possibilidades, sejam elas de "tom" pessimista, otimista ou de esperança. Qualquer avaliação que procura abranger comportamentos e pessoas, não pode deixar de fora o movimento da história e a mutante cultura na qual todos nós estamos inseridos.