8.3.14

COMUNIDADE DE ADORADORES

Adoração não se resume a um fim de semana que passamos no templo; adoração também não se dá apenas por meio da música. Essas duas realidades, culto e música, são meios para a adoração. Adoração é o respirar da igreja. Tudo que ela é e o que ela vier a fazer precisa estar inteiramente relacionado com a adoração. Ocorre que às vezes nos esquecemos desse primado da igreja e começamos a colocar aquilo que fazemos como fim em si mesmo e não como meio de adoração. Quando supervalorizamos algumas atividades ou programas já não é adoração, é ativismo religioso apenas.

Quando o Novo Testamento fala da igreja, ensina que um povo foi escolhido para o “louvor da sua glória” (Ef 1,4-6). A existência da igreja é para adoração ao Senhor. Jesus quando resumiu a Lei para os fariseus disse que o primeiro mandamento é “amar a Deus de todo o coração, alma e entendimento” (Mt 22,36-39). Só é possível adorar a Deus quando o amamos, do contrário não é adoração. Adoração é o reconhecimento de que Deus é Senhor e como gratidão, oferecemos o louvor devido em todos os momentos da nossa vida.

Por muito tempo confundimos a principal da missão da igreja com a evangelização. Acreditamos por muito tempo que a evangelização era a primeira missão da igreja. O pastor Isaltino Gomes Coelho Filho falando sobre isso ele diz: “a finalidade maior da igreja é vida com Deus. O alvo da igreja não é o mundo, mas o seu Senhor. Por isso que a missão principal, maior, da igreja não é a evangelização. É a adoração”. Quando li essa frase em um pequeno livro do pastor Isaltino algo me surpreendeu. Disse: - é claro, assim como Israel foi escolhido por Deus para o seu louvor, a igreja não é diferente.  

A igreja não existe em função de organizações sejam elas da denominação ou da igreja local. Ela não pode ser definida a partir de grupos como mulheres, homens, jovens... A igreja é adoração viva diante de um Deus vivo. Se não houver nenhuma organização da igreja e apenas um povo que se reúne para celebrar, é igreja e está em adoração. Isso porque a igreja existe para celebrar ao Senhor. Quando pensamos em igreja a partir de seus programas e atividades, o centro da vida comunitária fica restrito às pessoas aceitarem e participarem dos programas e atividades. Antes de querer que as pessoas se comprometam com os programas da igreja e suas atividades é preciso ensinar-lhes a principal missão da igreja, adoração.

Se me perguntarem: Por que a igreja existe? Ela existe para celebrar ao Senhor, essa é sua razão primeira, maior, principal. Tudo o mais sai dessa concepção, de que estamos aqui para adorar a Deus. Quando assim entendemos, tudo o mais passa a ter um significado como meio de adoração. A música que cantamos; a oração que fazemos; o programa que realizamos...

Vivamos em adoração.

6.2.14

ENTRE O CARISMA E A INSTITUIÇÃO

O processo de institucionalização de qualquer movimento tende a ser o caminho mais rápido. Até agora as previsões de Max Weber continuam sendo válidas. Primeiro se dá o movimento com os seus “carismáticos”, um “profeta” ou “político”. A crença é o principal veículo de condução e apenas ela favorece o andamento do movimento. Quando o movimento está querendo ter uma expressão maior e tem um número considerável de pessoas surge à tradição. Agora o grupo, até então movimento, procura coesão, procura uma identidade – não levando aqui as consequências de se usar esse termo, recomendo a leitura do texto de Stuart Hall, A identidade cultural na pós-modernidade –, e precisa de um conjunto de fatores que lhe dê uma diretriz organizacional e doutrinaria. Aqui, na previsão de Weber, aparece a instituição. Agora se obedece não à crença, mas sim a tradição. Não é mais necessário o “carismático”, aparece à figura do organizador do processo de institucionalização. É ele quem organiza as regras, doutrinas, ritos e determina o que pode ou não pode fazer, agora não mais em cima de uma crença e sim em cima de uma tradição.

Com o Novo Testamento o processo foi parecido e esse é um dos problemas que temos com a leitura e a interpretação do texto.

Guy Bonneau em seu texto Profetismo e instituição no cristianismo primitivo analisa esse processo em que o carisma dá lugar à instituição e algumas mudanças na eclesiologia neotestamentária definem os rumos do que entendemos por igreja hoje e sua liderança.

Num primeiro momento há o profetismo. Nas comunidades paulinas o profetismo era o elemento que mantinha a comunidade em torno de pessoas carismáticas e aptas a dirigir a atividade eclesial. A ênfase nos dons espirituais se deve pelo fato de que a comunidade se entendia como iguais em dignidade de todos com todos, por esse motivo a coesão, incluindo aí a pluralidade em manifestações tão recorrentes nos textos de Paulo em Romanos e 1º Coríntios sobre a diversidade dos dons espirituais, era uma dádiva da manifestação do Espírito Santo, favorecendo os carismas. Esse, os carismas, é um neologismo paulino para indicar um dom do Espírito Santo ofertado a qualquer um na comunidade. A comunidade é estruturada a partir do Espírito, ele é o doador da liderança carismático-profética que dirige a comunidade por meio da distribuição de dons.

Quando a comunidade passa a ser uma instituição e não mais uma comunidade de iguais, a figura do Espírito Santo passa a ser obnubilada, não esquecida. Ele deixa de ser um “agente” propagador dos carismas. O foco passa a ser os ministérios ordenados, uma espécie de hierarquia, onde o Espírito Santo apenas sopra na direção de alguns. A concepção de iguais deixa de ser uma realidade, assim como era nas comunidades paulinas, e passa a ser uma relação de onde alguém, ou um grupo, sustenta uma autoridade sacralizada e precisa proteger algo, a tradição. É aqui em que o Espírito não nivela mais a todos por meio dos dons espirituais.

Esse processo neotestamentário é visível entre as cartas paulinas e as deuteropaulinas.

As chamadas cartas pastorais representam bem o cume desse processo e a disputa ente o profetismo e a instituição.

Recentemente o universo batista brasileiro foi sacudido por conta de uma decisão da Ordem dos Pastores Batistas do Brasil (OPBB) em aceitar no seu grêmio mulheres.

As reações foram diversas. Houve de um tudo. Alguns aplaudiram, sem mesmo saber direito o que isso significava, outros repudiaram prontamente, também sem conhecer com mais acuidade do que se tratava. Outros foram contra por entenderem que a Bíblia estava sendo “rasgada”, expressão de alguns. Os sentimentos estiveram à flor da pele, principalmente no grupo que entende que precisa “proteger” a Bíblia como “palavra de Deus”. Bem isso é uma outra história. O mais interessante é que os extremados estavam propondo, e ainda continuam fazendo tal apologia, uma divisão na OPBB por conta dessa decisão, não respeitando o processo democrático e de direito de um órgão da Convenção Batista Brasileira e sua autonomia.

Bem, essa discussão em torno da ordenação feminina serviu para trazer mais um tema para o debate. O símbolo pastor/a pode ser interpretado apenas como pertencente à instituição ou ele continua sendo um carisma? Pastor/a é uma função ou ainda pode ser considerado um dom do Espírito Santo?

A conta não é tão simples assim. Sendo as comunidades paulinas dirigidas, incialmente, pelos carismáticos – e essa designação não tem nenhuma relação aqui com o movimento pentecostal, apenas uma identificação de pessoas que possuíam os dons espirituais para contribuir com a edificação do corpo de Cristo – e depois, muito tempo depois, por algumas razões que não vem ao caso aqui, serem dirigidas pelos institucionais, é sensato ignorar essa transição em que se deu a questão da liderança neotestamentária na comunidade e fechar a questão em torno do gênero homem e mulher?

7.1.14

A FELICIDADE É SOLIDÁRIA

Por esses dias, todas as vezes que um carrão vem relinchando atrás de minha Kombi, vem piscando desesperadamente pedindo passagem em ruas onde não há saídas, apenas espera, penso na publicitária que foi espancada no trânsito por, justamente, não ter desaparecido da frente de um desses apressados em último grau parido pela modernidade.

Ser gentil, paciente, compreender a realidade alheia, ampliar o campo de visão para além dos domínios do próprio ar-condicionado são fundamentos humanos em franca decadência. Nessa toada, bárbaros que aguardem!

Mais assustador ainda é que a aura de bondade do brasileiro também está se apagando. Ranking mundial de solidariedade entre 135 países colocou o país na rabeira, 91ª posição. Não se doa dinheiro a instituições, não se ajuda o desconhecido e voluntários continuam sendo heróis, e não regra.

Por esses dias, todas as vezes em que vejo um cão mais magrinho dentro de automóvel, imediatamente me lembro da cena do casal que jogou um vira-lata pela janela de seu possante em movimento, em plena avenida que nunca descansa, em São Paulo.

O bicho, terrivelmente inconveniente e incrédulo, rodeava o veículo com desespero tentando entender aquela atitude humana. Não, não dá para acreditar que valores como apego, compaixão e amizade estão sendo mais bem compreendidos por… cachorros?

A conta custa a fechar em minha cachola frenética e inquieta. O brasileiro não está ganhando mais? O desemprego não caiu? Os supermercados não estão vendendo televisores como pão quente?

Mesmo com tudo isso, o brasileiro piora naquilo que enriqueceria o caráter, enobreceria as relações entre os viventes e tornaria o país, talvez, menos Graciliano Ramos e suas “Vidas Secas”, menos Aluísio de Azevedo e seu “O Cortiço”.

Por esses dias, todas as vezes que leio gente fazendo chacota abertamente ou mesmo agredindo a céu aberto grupos e indivíduos que manifestam diferenças no modo de pensar, de agir ou de atuar em sociedade, penso que minha vez pode chegar. Salvem o povão quebrado, por favor!

No balaio de incompletudes desse “serumano” brasileiro do século 21, a tolerância, que tanto se cobrou aqui de norte-americanos em relação aos clandestinos, de franceses em relação aos refugiados da fome africana, tem ficado ausente com médicos de Cuba, com costureiros bolivianos.

O povo que mais celebra o Carnaval no mundo, a festa do “todosjuntos”, está pendurando no pescoço placas de “não se aproxime”. Caso contrário, mata-se, xinga-se, chuta-se, joga-se no lixo e, depois, taca-se no fogo.

Por esses dias, todas as vezes que alguém diz “nossa, como o ano passou rápido, já é Natal!”, imagino que, embora galopante, o tempo sempre permite momentos de calmaria ao pensamento para que se revejam rumos, ações e atitudes.

Como diria minha tia Filinha, “difinitivamente” a felicidade vai habitar o um de maneira completa e em cores. Ela precisa e exige o dois, o dez, os 10 milhões para reverberar, para se multiplicar e se fortalecer. A felicidade é solidária.


Jairo Marques

20.12.13

COISAS DE SACERDOTES

É bom que se diga: sacerdote no Antigo Testamento não é vocação e sim uma função, ou seja, diferente do rei e do profeta que havia uma espécie de escolha divina, o mesmo não ocorre com o sacerdote. É claro que a “classe sacerdotal” começa com a tribo de Levi para o serviço do santuário, mas não significa, em nenhum momento, um carisma especial para o exercício do sacerdócio.  Por essa razão que o rei poderia destituir sacerdotes e colocar outros no lugar.

A classe sacerdotal se estabelece em Israel e se alinha, inevitavelmente, ao rei, porque dele depende. Ligado ao santuário, o sacerdote vive para o tempo sagrado e é responsável por dirigir o culto à Javé. Dentro do culto, havia, naturalmente, a função de mediação entre o povo e Javé tendo nos sacrifícios o elemento de maior importância dentro da liturgia.

A classe sacerdotal terá a sua supremacia conquistada no transcorrer das invasões e sucessão de impérios. No tempo de Jesus é uma classe que detém o discurso religioso e o “poder” de dispensar a bondade de “Deus” e decidir quem pode ou não ser digno das misericórdias de “Deus”.  O acesso ao sagrado passa pelo sacerdote inevitavelmente. A crise de Jesus é com esse sistema religioso estabelecido e legitimado pelo poder romano na Palestina.

Interessante que depois da Reforma Protestante preconizou um dos principais princípios do protestantismo, o sacerdócio universal de todos os crentes. Parece que isso não foi levado tão a sério. Digo isso, porque sofremos as influencias sacerdotais até hoje em diversos sentidos.  Cito alguns exemplos.

Os pastores são vistos como gente mais próxima de Deus, aquele que tem de alguma forma, um “acesso especial” com Deus e aí daquele que se levanta contra um “ungido” do Senhor. A oração do pastor-sacerdote tem mais “poder”, pois ele tem alguma “intimidade” com Deus que outros, pobres mortais, não têm. Àqueles que promovem essa concepção exagera na sua condição de “semidivino” manipulando o povo com o seu “poder sacerdotal”.

Ainda sobre o pastor-sacerdote, cabe a ele, com muito prazer, “zelar pela doutrina” – lê-se sistema religioso que sustenta o seu próprio papel de mediador do sagrado – ele detém o discurso que salva, ainda mais se ele citar grego e hebraico do púlpito, as línguas tidas como sacras. Sem “doutrina” o povo perece dirá alguns. Nesse caso o livre exame das Escrituras, outro princípio protestante, não é levado a sério, o que vale mesmo é a doutrina, um código de leis que não podem ser violadas, do contrário a punição de “Deus” será imediata, mesmo que ele dependa da atuação política de cerceamento da liberdade de consciência.

Outra coisa de sacerdote que impregnou é a concepção de culto. Ele precisa ser sério. As regras indumentárias e litúrgicas precisam ser intocáveis, do contrário não é culto, é outra coisa, precisa ser no templo e ele já é por si só, sacro. Isso sem falar na classe sacerdotal que precisa se reunir antes do culto, juntamente com os chamados erroneamente de levitas, para orar antes do culto. Sem àquela oração não sai nada certo, parece que há uma classe mais que especial porque está diante da comunidade cantando ou pregando. Essa classe precisa se preparar “espiritualmente” como se as demais pessoas que estão ali para a celebração não estivessem espiritualmente capacitadas para o ato de culto. Há uma confusão entre habilidade musical ou qualquer outra coisa com a “direção de Deus” para o culto. Isso sem falar que quem mais precisa de culto são as pessoas e não, necessariamente, Deus. Mais deixa isso pra lá.

Assim como os sacerdotes deixavam bem claro que a punição era algo divino, há um patrulhamento em torno de pessoas que erram dentro da comunidade porque o “pecado” precisa ser expiado de alguma maneira, assim como no Antigo Testamento. Tomando aqui as intuições de René Girard, é preciso sacrificar alguém, do contrário coloca-se em risco a existência da comunidade atingindo todos os seus membros e a legitimação da ordem fica comprometida, ou seja, é o sistema religioso que pune e absolve não na mesma proporção, mais pune que absolve. 

Outra coisa de sacerdote é a ideia de que Deus, mesmo depois da Graça, se agrada mesmo é da lei, das regras. No fim o que define mesmo é se obedeceu ou não a lei. Aí nesse caso não importa muito o que Jesus ensinou sobre perdão e amar as pessoas e se o sábado foi feito para o ser humano e não ao contrário.

Viva a classe sacerdotal que está nos púlpitos e na televisão, eles continuam obnubilando a mensagem do Reino de Deus tão enfatizada por Jesus.

17.12.13

UM “DEUS” GEOGRÁFICO

A relação de Deus (com suas variantes de nomes como El, Yahweh e muitos outros) com o povo que, muito tempo depois, nós ficamos sabendo que era Israel, têm no seu desenvolvimento religioso certos episódios quanto à experiência com o “Deus de Israel”, ou seja, nunca houve, num primeiro momento e depois também, uma noção unívoca sobre Deus. O relacionamento com Javé sempre passou pelo povo, naturalmente, depois pelo templo e, de forma imprescindível em todos os momentos, pela terra (território).

A relação de Israel com Deus foi pautada em termos humanos. Daí a uma linguagem para falar com Deus a partir do ser humano e sua estrutura antropológica. Sendo assim, Deus também tem ouvidos e braços por exemplo. Além disso, há uma atribuição a Deus de sentimentos típicos do ser humano como raiva e, porque não, ciúmes. A indicação de não ter “outros deuses fora de mim” (Ex 20,3) é uma relação de fidelidade com Javé. Por outro lado quando há a possibilidade de escolher não ter “outros deuses fora de mim” é porque, em algum momento, há outros deuses que podem ser adorados também.

A religião de Israel demorou em compreender certo monoteísmo (ideia de que há um único Deus). Há quem diga, e eu não sou nenhum especialista em Antigo Testamento, apenas um curioso e apaixonado pela Bíblia, de que sempre houve uma monolatria, ou seja, o envolvimento com um Deus, sem, necessariamente, negar a existência de outros deuses. Exemplo: pois todas as nações andam, cada uma em nome dos seus deuses, mas nós andaremos em nome do Senhor, o nosso Deus, para todo o sempre – Miquéias 4,5.

A crença na existência de outros deuses se deve, possivelmente, ao fato de que deuses eram territoriais, ou seja, geográficos mesmo.  Por essa razão as guerras no Antigo Testamento eram religiosas e quando um povo se sobressaia sobre o outro os elementos de culto ou ritos eram destruídos, houve uma vitória de um deus sobre outro.

Quando Davi é forçado por Saul a deixar o território de Canaã, ele alega que me expulsaram hoje para que eu não tenha parte na herança do Senhor, como que dizendo: vai, serve a outros deuses – 1Sm 26,19. Um Deus geográfico que atuava nas fronteiras do povo de Israel e fora dessas fronteiras havia a possibilidade de estar adorando outros deuses.

A concepção de que Deus possa ser único será um trabalho para o período do cativeiro babilônico, ou seja, o exílio, e mesmo assim ainda é possível haver diversas construções.

Mas vamos ao ponto que gostaria de chegar.

Está havendo hoje uma espécie de Deus geográfico que só age em alguns lugares e só vê determinado tipo de pessoas, geralmente àquelas que são encontradas “fiéis” em doar, fazer “prova de Deus” e que, de alguma maneira, provocou a bênção de Deus e ele se viu na obrigação de abençoar com um carro novo ou com uma casa que o indivíduo nunca teve dinheiro para comprar.

É incrível como a Teologia da Prosperidade vem mascarada em algumas igrejas que promovem campanhas para determinar milagre uma vez que milagre não pode ser determinado ele acontece de maneira inesperada e inusitada e não tem hora marcada e nem local para acontecer, do contrário não seria milagre – isso porque há muita divergência em torno desse tema, milagre. Enfim, a Teologia da Prosperidade quer fazer crer que “Deus” age em determinados locais, na Igreja X ou na Comunidade Y e essa ação de “Deus” é marketing para atrair mais pessoas para a Igreja X ou a Comunidade Y. Parece que fora das fronteiras de determinadas igrejas as “bênçãos” de Deus não acontecem. Que pena de você, o seu lugar é aqui! Não é por mero acaso que há um “apóstolo” que, recentemente, descobriu que tinha uma “quadrilha de pastores” desviando o dinheiro de seus fiéis, faz uso do seguinte slogan: “a mão de Deus está aqui Brasil”. Só ali. Assim como no Antigo Testamento que nos seus primórdios em conhecer a Deus como Javé o concebeu como um Deus territorial.

Só que temos um problema quando nos encontramos com o Deus de Jesus. Ele diz que Deus faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e vir chuvas sobre justos e injustos – Mt 5,45. Em outro lugar ele proíbe pedir bens materiais e diz para buscar em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, que em Mateus tem conotação social, e as demais coisas vão sendo acrescentadas.

Uma coisa ou outra. Ou o Deus geográfico dos teólogos da prosperidade voltou novamente ou o Deus de Jesus está totalmente equivocado. Aí é uma questão de escolha.

4.12.13

A ALEGRIA DO EVANGELHO, OU COMO VOLTAR AO EVANGELHO

A igreja Católica tem uma longa história como instituição religiosa e sua estrutura é extremamente burocrática e hierarquizada.

Ocorre que ao longo de sua trajetória a igreja procurou se reformar para tentar dialogar com o mundo. É claro que há um passado que a coloca em situações delicadas como o episódio de Galileu Galilei (1564-1642) que depois de mais de trezentos anos teve sua reabilitação à igreja conduzida por João Paulo II em 1992.

Não obstante a isso, a maior expressão de diálogo que a igreja procurou fazer ocorreu com o Concílio Vaticano II. A principal tarefa do Concílio foi renovar a igreja. Estava diante de todos a possibilidade de resgatar alguns pontos fundantes da igreja: a noção de ser ela evangélica e sua dimensão missionária.

Embora houvesse contrários ao resultado do Concílio – Bento XVI, por exemplo, quando cardeal J. Ratzinger procurou minimizar as consequências do Concílio principalmente em sua dimensão eclesiológica como “povo de Deus” – o Concílio Vaticano II possibilitou o florescimento da Teologia Latino-americana da Libertação, por exemplo, e contribuiu para avanços significativos em todas as áreas da igreja.

Ao contrário do seu antecessor, o papa Francisco quer ver o Concílio Vaticano II ser concretizado em diferentes direções, a começar pela sua eclesiologia que priorizou uma igreja aberta, ou seja, não uma igreja para si mesma.

Com sua primeira exortação apostólica – um documento com peso menor que de uma encíclica – Francisco a intitula de Evangelli Gaudium – a alegria do evangelho. Nesse texto Francisco pontua algumas questões para a igreja e procura delinear suas colocações a partir do Concílio Vaticano II. Alguns pontos me chamaram atenção porque podem ser aplicados não apenas à igreja Católica, mas a toda a Igreja.

- A igreja deve sair da sua comodidade: uma igreja aberta às pessoas que necessitam e que mais precisam da presença e da luz do Evangelho é uma chamada sempre atual. Uma igreja enclausurada em si mesma não pode desenvolver sua vocação missionária.

- Reformar as estruturas: uma igreja que se estabelece de cima para baixo e que desde Gregório VII, com a chamada reforma gregoriana, passou a ser mais monárquica contraindo as características do Império e transformando preceitos das Escrituras em conceitos jurídicos e legais, é um grande desafio para Francisco que procura encurtar a distância entre clero e fiéis. Tal medida está prevista no Concílio Vaticano II, mas a hierarquia ainda causará dificuldades para que essa igreja seja cada vez mais dos pobres como quer o papa.

Algumas coisas que Francisco me ensina: (1) a chamada para uma igreja em missão é um desafio constante; (2) uma igreja centrada em si mesma é um equivoco em relação ao chamado de Jesus Cristo para sermos seus discípulos e discípulas; (3) procurar pensar e reformar a estrutura da igreja para que ela seja um meio de atuação e não um fim em si mesma é mexer com o sistema que procura se perpetuar para continuar garantindo posições de poder.


Nesse sentido, para se ter a alegria do Evangelho é preciso voltar ao Evangelho e olhar para Jesus como pastor.

19.11.13

DE QUE SEREMOS JULGADOS? O CRITÉRIO DO EVANGELHO DE MATEUS

É claro que na Bíblia, mais especificamente no Novo Testamento, há diferentes perspectivas quanto ao Juízo Final. Paulo, por exemplo, formula a concepção de Juízo Final em 2Co 5,1-10 a partir da parúsia (Παρουσία), ou seja, a expectativa da segunda volta de Cristo. O julgamento, nesse caso, se dá na esperança de estar com Cristo e, sendo essa união ainda impossibilitada, ela orienta a conduta cristã tornando essa realidade (no caso o julgamento) presente na vida do cristão.

No caso do evangelho de Mateus é interessante. Estou olhando aqui a porção do capítulo 25 versos 31-46. Aliás, os capítulos 24 e 25 é uma preciosidade do evangelho de Mateus. Usando uma linguagem apocalíptica, o texto descreve a vida da comunidade de fé fazendo uso de imagens e figuras do mundo judaico. Sucintamente, as “dez virgens” trata da vigilância da comunidade; os “talentos” da produtividade dos membros da comunidade. Aqui irei olhar o último tópico do capítulo 25, o julgamento.

Trata-se de uma parábola, ou seja, não é algo a ser visto como literal. Quer passar uma mensagem. Qual? O amor demonstrado aos pequeninos de Jesus será o critério do julgamento. Na realidade não está se descrevendo algo para o futuro, está se alertando para algo do presente, ou seja, do cotidiano da comunidade de fé. As imagens de pastor com suas ovelhas e cabritos sugere a vivência da comunidade. Tanto um (ovelhas) quanto o outro (cabritos), o critério será a fé vivida (vs. 34-40).

Aqui há uma linguagem de amor, de carinho, de cuidado, de solidariedade para com o próximo.

O mais incrível, é que os justos (ovelhas) não se deram conta de que estavam servindo a Jesus por meio dos pequeninos.

Sede, fome, nudez, enfermidade, prisão e ser estrangeiro. São questões prementes no tempo de Jesus. Hoje temos essas e mais algumas também. E quem não passa por crises na vida? Quem não fica doente? Quem não passa por necessidades básicas como comer, beber e se vestir? Não se trata de ajudar assistencialmente aqui, se trata de respeito e dignidade para com o ser humano. A questão é o modo, a maneira de tratamento entre os irmãos que não querem ser grandes.

No evangelho de Mateus, àqueles que conheceram Jesus não irão estranhar o critério de julgamento do homem de Nazaré. É presumível de que saibam a maneira como Jesus requer o tratamento dos seus irmãos.

A questão do julgamento não poderia servir de elemento de terror entre os irmãos. Não se trata de culpa e medo para o “último dia”. Antes, trata-se de vivência entre irmãos. A parábola quer acentuar mais uma vez: a relação com Deus (=vida) passa pelo outro. O evangelho de Mateus é o evangelho da alteridade. O processo de se colocar no lugar do outro nos torna mais humano. Aqui o visitar alguém em sua necessidade vale mais que frequentar o culto um ano inteiro. Não é por acaso que Tiago será categórico: “a religião que Deus, o nosso Pai, aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades” (1,27).