19.11.13

DE QUE SEREMOS JULGADOS? O CRITÉRIO DO EVANGELHO DE MATEUS

É claro que na Bíblia, mais especificamente no Novo Testamento, há diferentes perspectivas quanto ao Juízo Final. Paulo, por exemplo, formula a concepção de Juízo Final em 2Co 5,1-10 a partir da parúsia (Παρουσία), ou seja, a expectativa da segunda volta de Cristo. O julgamento, nesse caso, se dá na esperança de estar com Cristo e, sendo essa união ainda impossibilitada, ela orienta a conduta cristã tornando essa realidade (no caso o julgamento) presente na vida do cristão.

No caso do evangelho de Mateus é interessante. Estou olhando aqui a porção do capítulo 25 versos 31-46. Aliás, os capítulos 24 e 25 é uma preciosidade do evangelho de Mateus. Usando uma linguagem apocalíptica, o texto descreve a vida da comunidade de fé fazendo uso de imagens e figuras do mundo judaico. Sucintamente, as “dez virgens” trata da vigilância da comunidade; os “talentos” da produtividade dos membros da comunidade. Aqui irei olhar o último tópico do capítulo 25, o julgamento.

Trata-se de uma parábola, ou seja, não é algo a ser visto como literal. Quer passar uma mensagem. Qual? O amor demonstrado aos pequeninos de Jesus será o critério do julgamento. Na realidade não está se descrevendo algo para o futuro, está se alertando para algo do presente, ou seja, do cotidiano da comunidade de fé. As imagens de pastor com suas ovelhas e cabritos sugere a vivência da comunidade. Tanto um (ovelhas) quanto o outro (cabritos), o critério será a fé vivida (vs. 34-40).

Aqui há uma linguagem de amor, de carinho, de cuidado, de solidariedade para com o próximo.

O mais incrível, é que os justos (ovelhas) não se deram conta de que estavam servindo a Jesus por meio dos pequeninos.

Sede, fome, nudez, enfermidade, prisão e ser estrangeiro. São questões prementes no tempo de Jesus. Hoje temos essas e mais algumas também. E quem não passa por crises na vida? Quem não fica doente? Quem não passa por necessidades básicas como comer, beber e se vestir? Não se trata de ajudar assistencialmente aqui, se trata de respeito e dignidade para com o ser humano. A questão é o modo, a maneira de tratamento entre os irmãos que não querem ser grandes.

No evangelho de Mateus, àqueles que conheceram Jesus não irão estranhar o critério de julgamento do homem de Nazaré. É presumível de que saibam a maneira como Jesus requer o tratamento dos seus irmãos.

A questão do julgamento não poderia servir de elemento de terror entre os irmãos. Não se trata de culpa e medo para o “último dia”. Antes, trata-se de vivência entre irmãos. A parábola quer acentuar mais uma vez: a relação com Deus (=vida) passa pelo outro. O evangelho de Mateus é o evangelho da alteridade. O processo de se colocar no lugar do outro nos torna mais humano. Aqui o visitar alguém em sua necessidade vale mais que frequentar o culto um ano inteiro. Não é por acaso que Tiago será categórico: “a religião que Deus, o nosso Pai, aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades” (1,27).

9.11.13

HERRAR É UMANO

Certa vez, uma pessoa afirmou: Os pastores não podem ficar chateados quando questionados, quando discordam de sua opinião ou quando são contra aquilo que ele está dizendo, pois ele (o pastor) precisa entender que é humano, passivo de erro e por isso tem que ser questionado.

Fiquei pensando na relação que as pessoas têm com o pastor e comparei isso a outros ofícios na sociedade.

Na nossa cidade temos várias oficinas mecânicas, só no nosso bairro muitas delas. Cada pessoa escolhe quem é o seu mecânico e ao menor sinal de barulho no carro elas correm pra lá. O mecânico então dá uma volta com o carro, escuta o motor, abre o capô e dá o seu diagnóstico. É o coxim do motor! Pode trocá-lo e seu problema estará resolvido. Nessa hora o que você faz? Questiona seu mecânico, afinal de contas ele é humano e passivo de erro não é mesmo? NÃO!

Você troca a peça sem pesquisar em outro lugar por vários motivos:

1 - Ele é o seu mecânico, você confia nele, acredita que ele sabe o que faz.

2 - Ele estudou pra isso e você não. Pode ser que ele tenha estudado informalmente, aprendendo de outro mecânico, ou ter feito um curso, não importa, você nunca viu o diploma dele, nunca pediu seu currículo, mas sabe que ele estudou de alguma forma.

3 - Ele tem experiência nisso. Enquanto você trabalha, cuida da casa, produz na empresa, ele está consertando carro. Você não vai questionar alguém experiente como ele.

Embora seu mecânico seja humano provavelmente você não irá questioná-lo. Não são poucas as vezes que temos que trocar mais peças por que não era (só) aquela, ainda sim ele é o nosso mecânico.

Outra profissão em outro extremo do status social é o médico. Nos livros de convênios temos centenas e centenas deles e embora o Brasil esteja carecendo de médicos, vivemos numa região privilegiada com muitos hospitais, postos de saúde, UPAs, etc.

Quando você sente uma dor logo vai ao seu médico. Quando não tem nenhum aceita recomendações de quem você confia e vai até a consulta.

O médico examina, pergunta, afere sua pressão, dá um diagnóstico e diz o que você terá que fazer. Receita um remédio, uma injeção, exercícios físicos, etc.

Nessa hora o que você faz? Questiona seu médico, afinal de contas ele é humano e passivo de erros não é mesmo? NÃO! Você provavelmente não irá a outro médico, apenas seguirá suas orientações, sabe por quê?

1 - Ele é o seu médico, você confia nele, foi muito bem recomendado.

2 - Ele estudou pra isso, fez curso de medicina. Você estudou outra coisa (se é que estudou). Como você poderia questionar um médico?

3 - Ele tem experiência nisso, enquanto você está atendendo clientes, vendendo coisas, projetando peças ele está atendendo pacientes, analisando enfermidades e consultando pessoas. Claro que você não irá questioná-lo.

Voltemos ao pastor. Surge um problema em sua vida ou na igreja. Problemas precisam ser resolvidos e então logo as pessoas começam a se mobilizar e falar a respeito do que devemos fazer para resolver da melhor maneira possível e principalmente dentro da vontade de Deus. Então, o pastor, líder da congregação, escolhido e empoçado pelo povo e acima de tudo escolhido por Deus, dá a sua opinião a respeito do que deveria ser feito. O que você faz? Você irá obedecê-lo pelas seguintes razões:

1 - Ele é o seu pastor, você confia nele, existem várias igrejas na cidade, mas você decidiu estar ali, ser parte daquele corpo, ser pastoreado por aquele pastor. Ninguém o obriga a isso, você escolheu isso, você confia nele.

2 - Ele estudou pra isso. Enquanto você fez, administração, música, pedagogia, enfermagem, medicina ou engenharia mecânica ele decidiu fazer teologia. Ficou quatro anos estudando a bíblia para poder pastoreá-lo. Ele não só estudou pra isso, mas estuda pra isso. Continua a participar de congressos, palestras, ler livros, preparar mensagens, etc. Como você poderia questioná-lo?

3 - Ele tem experiência nisso. Enquanto você está trabalhando, produzindo, pagando contas, pesquisando e vendendo, ele está na igreja. Orando, se preparando, visitando, pensando em como treinar mais líderes, pensando no aniversário da igreja, nos grupos que se reúnem nas casas. O seu final de semana é o dia a dia dele. Você pode até ter 30 anos de igreja, mas quantos anos você já pastoreou? Provavelmente nenhum. A experiência do mais jovem pastor, nesse caso, excede a do mais velho membro da igreja. Ainda tem outros motivos pelos quais você irá obedecê-lo que nem seu médico e nem seu mecânico tem.

4 - A Bíblia manda você obedecê-lo.

Obedeçam aos seus líderes e submetam-se à autoridade deles. Eles cuidam de vocês como quem deve prestar contas. Obedeçam-lhes, para que o trabalho deles seja uma alegria e não um peso, pois isso não seria proveitoso para vocês (Hb 13,17).

A Bíblia não manda você obedecer ao mecânico ou ao médico, mas manda você obedecer aos seus líderes. Além dos argumentos humanos, o argumento bíblico nos fará obedecer.

5- Um último motivo pelo qual, com certeza, vamos dar ouvidos ao pastor, é porque cremos que Deus capacita seus líderes para abençoar seu povo. Gideão não era tão inteligente para armar uma estratégia capaz de vencer milhares e milhares de soldados com apenas 300 homens, mas Deus o capacitou. Davi não era tão forte para vencer um gigante, mas Deus o capacitou. Cremos que mesmo não sendo tão forte, tão esperto ou tão inteligente, Deus escolheu o pastor e irá capacitá-lo. Quando quero ver alguma mudança nos jovens eu falo com o líder de jovens, quando quero ver alguma mudança no louvor eu falo com o líder do louvor. Creio que quando Deus deseja uma mudança na igreja Ele também fala e coloca o desejo no coração do pastor. Se não fosse o poder sobrenatural de Deus na vida dos pastores, com certeza o ministério não seria possível. Acreditamos que antes de escolhermos um pastor Deus já o escolheu.

Dar-vos-ei pastores segundo o meu coração, que vos apascentem com conhecimento e com inteligência (Jr 3,15).

Depois de todos estes argumentos, claro, quando o pastor falar o que você irá fazer? Irá obedecê-lo. NÃO! Você irá questioná-lo, afinal de contas o pastor é humano e passivo de erro.

Não deixaria a minha missão de pastorear para ser mecânico ou médico. Como Paulo diz a Timóteo, acredito que escolhi a mais nobre função que alguém poderia escolher. Sei que sou humano e passivo de erro e por isso não quero mandar em tudo e em todos e nem quero uma submissão cega. Só gostaria de ter um pouco daquilo que as ovelhas dão sem reservas a médicos e mecânicos, mas que às vezes esquece-se de dar ao pastor: RESPEITO!

Nei Nascimento
Amigo pessoal e pastor da Igreja Batista Bom Retiro – Sumaré/SP

1.11.13

E POR FALAR EM REVELAÇÃO

Revelar é mostrar, ou apontar, para um aquém. Pelo menos é assim que a palavra (conceito) desde Heródoto veio a significar, ou seja, desvendar, manifestar.

A linguagem é meio indispensável para a comunicação e as palavras servem para nomear, narrar, conceituar experiências que vivenciamos. Sem a linguagem não haveria a organização do nosso “mundo”, ela define o que somos e o que pensamos. O filósofo Wittgenstein, estudioso da linguagem, vai dizer que no jogo de linguagem é o aprendiz que dá nome aos objetos (coisas). Ainda lidamos com a dialética no pensamento ocidental, por culpa dos gregos, e sempre estamos tentando decifrar a coisa, ou seja, o objeto visto, experienciável. Rubem Alves, leitor de Wittgenstein, irá acentuar de que as “linguagens são construções da realidade”, sendo assim, a linguagem exerce um domínio, uma força que, de alguma maneira, nos aprisiona, e, ainda com o mineiro que é campineiro, ela nos enfeitiça. Em suma, toda a reflexão, seja que nome possa dar, é fruto de uma linguagem que exprime nossos palpites sobre o “mundo” ou acerca dele.

A palavra revelação, e sua tradução, sendo uma herança dos gregos também, é uma linguagem que procura expressar aquilo que estava encoberto e veio à tona, o que estava oculto e foi possível desocultar. A palavra revelação ficou tão restrita ao campo religioso, no caso aqui ao cristianismo desde o primeiro século, que a filosofia prefere o termo desvendamento por conta da ambiguidade etimológica da palavra.

O Novo Testamento (NT) é linguagem e o grego está na sua construção. Sendo assim, o NT é fruto de uma linguagem e, portanto, procura decifrar experiências que pessoas tiveram com o Deus de Israel e, posteriormente, com Jesus de Nazaré. Nesse sentido a linguagem expressa, ou, de alguma maneira, procura decifrar aquilo que essas pessoas vivenciaram.

Tendo isso como pressuposto, a Bíblia (o texto) em si não seria a revelação. Essa afirmativa pode chocar alguns por achar que ela, a Bíblia, é a Palavra de Deus enquanto letra. Está aí mais uma tremenda confusão, pelo menos para mim. Palavra de Deus não pode ser texto, ou seja, linguagem, esta, a linguagem, expressa àquilo que se vivenciou e não pode ser um instrumento em si puramente, mas um apontar para. Neste sentido a Palavra de Deus é uma pessoa e não um texto. O texto só foi possível porque houve uma pessoa e não ao contrário. A carta aos Hebreus (1,1-2), por exemplo, deixa isso bem claro: “nestes últimos dias nos falou pelo Filho”. Em Colossenses (1,15) temos a seguinte afirmativa: “ele (Jesus) é a imagem do Deus invisível”. Os exemplos bíblicos podem ser multiplicados facilmente e o exemplo mais cabal disso é a questão de Filipe com Jesus: mostra-nos o Pai (Jo 14,8-9).

A revelação não é a linguagem do texto, mas uma pessoa. A linguagem é usada para expressar aquilo que está diante dos olhos e mesmo assim ela ainda não dá conta: “o que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos próprios olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam, com respeito ao verbo (palavra = logos) da vida” (1Jo 1,1).

A revelação de Deus só é possível em uma pessoa, Jesus. E este, não ensinou sobre a onipotência, onisciência e a onipresença de Deus, aliás, uma linguagem adotada a partir de conceitos gregos, linguagem essa que o NT não usou e muito menos Jesus para falar do Deus Pai.  

11.10.13

PAI, NOS LIVRE DE SERMOS GRANDES

O capítulo 18 do Evangelho de Mateus é conhecido como o “Sermão Comunitário”. É um capítulo magnífico do ponto de vista da comunidade que se reúne em torno de Jesus, mas que tem os seus problemas, conflitos, alegrias e confrarias.

O texto abre com uma pergunta dos discípulos de Jesus: “quem é o maior no reino dos Céus?”. Em outras palavras, quem poderia ser o melhor, ou exercer poder entre nós?

A comunidade de Jesus estava ganhando notoriedade e, como algo consequente da interação humana, a disputa por poder dentro da comunidade estava sendo o foco.

Um estudioso do tema, poder, é o francês Michel Foucault, alguém que estudou a relação de poder e seus desdobramentos na construção social, produzindo dois textos sobre o assunto: Vigiar e punir e Microfísica do poder. Para ele o poder se dá na relação entre saber e poder. O seu esquema, naturalmente, é pensando a partir da construção da sociedade contemporânea, mas Foucault deixa bem claro que essa relação envolve todos os aspectos da atividade humana. Voltando para o nosso texto mateano, a pergunta quem é o maior no reino dos Céus remete a uma relação de proximidade e conhecimento de alguns discípulos com Jesus. Quem está mais próximo de Jesus, neste caso, pode chegar a se considerar que sabe mais que os outros que não estão tão próximos assim, desta forma os primeiros tem prerrogativas, que consideram naturais, para exercer certo controle sobre os outros.

Essa lógica de poder que domina uns aos outros e procura controlar a dinâmica da ekklesia, não cabe na comunidade que Jesus é o Senhor. A comunidade é pensada a partir dos pequeninos, é pensada a partir das crianças. O que ressalta aqui é a condição metafórica da criança. Crianças são dependentes; elas não têm pretensão de poder e dominação. Apenas sendo criança que se entra no reino dos Céus. Esse é o caminho, tornar-se como crianças. Não é se tornar santos, heróis, fiéis praticantes da Lei e do culto, mas crianças.

Na igreja temos o Altar e o Livro (Bíblia), elementos que são facilmente manipulados por àqueles que querem exercer o poder, controlar de alguma forma a dinâmica da comunidade ou, até mesmo, não permitir que a comunidade tenha fluidez do Espírito. Daí quem acha que administra o Altar ou quem lê o Livro, pode achar que, por essa proximidade, tem mais conhecimento, sabe mais, ter a pretensão em querer dominar os demais. É uma pena.

É preciso ser criança, se rebaixar mesmo, ser um baixinho na comunidade. Aliás, os adultos deveriam aprender com as crianças, principalmente na sua sinceridade, quando crescemos aprendemos a mascarar sentimentos nos tornando-nos pessoas que perdem o lúdico na caminhada da vida, infelizmente.

No texto de Mateus, Jesus nos pede para nos rebaixar, nos colocar na mesma altura da criança, para poder olhar nos olhos dela, para poder deixar bem claro que ela não precisa ser “grande”. E ser “grande” é uma preocupação dos adultos e eles transferem essa obsessão às crianças principalmente quando perguntam: “o que você vai ser quando for grande?”, uma pergunta um tanto inútil. É hora de ser criança e os adultos aprenderem com elas, pois somente assim entraremos no reino dos Céus quando ficarmos tranquilos no colo do Pai.

Nesta semana das crianças, compartilho minha oração com você: Pai, me livre ser grande.

5.10.13

O EVANGELHO DA “VITÓRIA”

O evangelho da “vitória” está ganhando cada vez mais adeptos. Igrejas pequenas e grandes adotam o discurso da “vitória” para vencer o páreo: quem cresce mais.

Depois do sucesso editorial da “Bíblia de Estudo – Batalha Espiritual e Vitória Financeira” (Central Gospel), surgiram outras bíblias de estudo para cada situação e com temas mais variados possíveis. Agora no mercado gospel a “Bíblia da Mulher Vitoriosa” (Central Gospel).

O evangelho da “vitória” foca, principalmente, a questão financeira. “Crente” vitorioso é àquele que tem sucesso financeiro, seguindo conquistando “bênçãos” em todas as áreas da vida, principalmente patrimonial.

A “Bíblia de Estudo – Batalha Espiritual e Vitória Financeira”, do televisivo Silas Malafaia, custou num primeiro momento R$ 900,00. Morris Cerullo é o principal articulador nas notas da tal Bíblia e uma das ênfases é de que pobreza é o mesmo que escravidão. Confira:

Pobreza é escravidão! Ela amarra as pessoas, impedindo-as de terem as coisas que necessitam. A pobreza leva à depressão e ao medo. Não é a vontade de Deus que você viva na escravidão da pobreza. É hora de Deus acabar com a escravidão das dívidas e da pobreza no meio do seu povo! É chegado o momento da liberação de uma unção financeira especial, que quebrará as cadeias da escassez e o capacitará a colher com abundância! (Bíblia de Estudo – Batalha Espiritual e Vitória Financeira)

É incrível, mas houve um retrocesso teológico inimaginável. Outrora deixamos de ser escravos do pecado (como diz Paulo) e passamos a ser escravos da pobreza (como diz Cerullo).

O evangelho da “vitória” ignora algo na trajetória de Jesus Cristo que é fundamental: ele foi um judeu pobre de uma Galileia pobre! Por mais que o senhor Abílio Santana diga que Jesus tinha “casa na praia” e era riquíssimo, os evangelhos dizem outra coisa: as raposas têm seus covis e as aves do céu, ninhos; mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça (Lc 9,58).

Cristo foi vitorioso, mas não financeiramente. Ele venceu a morte e garantiu de que ela não vencerá outra vez:

Onde está, ó morte,
a sua vitória?
Onde está, ó morte,
o seu aguilhão?
1Co 15,55

O evangelho da “vitória” já perdeu há muito tempo a mensagem de Jesus. Não é por acaso que as principais igrejas neopentecostais pregam em cima do Antigo Testamento (Primeiro Testamento). Se elas pregassem em cima dos evangelhos com certeza teriam dificuldades para manter o evangelho da “vitória”. Nos evangelhos Jesus viveu como pobre e morreu como pobre – nem mesmo túmulo tinha para ser enterrado, precisou do rico José de Arimatéia –, e ainda dependia financeiramente das mulheres para manter seu ministério itinerante. Sendo assim, fica difícil manter um evangelho da “vitória” quando o seu principal personagem, Jesus Cristo, era pobre e venceu na vida, ou seja, a morte. 

12.8.13

E SE FOSSE ASSIM...

“Gastamos todo o tempo em que estamos juntos passando a ferro as inúmeras e pequenas questões que dizem respeito à perpetuação da instituição (igreja)” – Paulo Brabo.[1]

Quando li essa frase de Brabo pensei: e se fosse diferente?

Hoje as pessoas na igreja (como instituição), gastam um tempo enorme discutindo questões triviais e supérfluas em torno de temas que, na sua grande maioria, não tem nada a ver com o Reino de Deus, com o fazer discípulas e discípulos de Jesus. É gente que adora ficar em reuniões intermináveis querendo saber se a cor do templo será azul ou amarelo; é gente que gosta de discutir se o programa X irá mesmo ocorrer e se ele não acontece alguém é o culpado, geralmente o pastor, para não fugir a regra; é gente que se preocupa muito mais com o horário do culto do que propriamente com o culto; é gente que gosta de cobrar a presença de pessoas nos encontros de estudos bíblicos, nossa famosa EBD, mas não consegue vivenciar no dia a dia a tolerância, o amor fraternal e o perdão.

É por essas e outras razões que levou Paulo Brabo a dizer: “o lugar (templo) em que o cristão está servindo passa a significar mais do que o modo (a exemplo de Jesus) como ele está servindo”. O templo, o ajuntamento, não é visto como um lugar de festa, mas sim de obrigações. Quando se entende que igreja é mais um lugar de obrigações do que de ajuntamento, o legalismo e o tradicionalismo tem assento permanente.

E se fosse assim...

 - Um lugar onde as pessoas ficassem chateadas, aborrecidas e, até mesmo magoadas, se não ocorresse aquele abraço no momento do culto;
 - Um lugar onde todos reclamassem em alto e bom som se a reflexão bíblica não tentasse imprimir na vida o agir de Jesus e sua maneira de enxergar o Reino de Deus;
 - Um lugar onde as pessoas observassem bem os participantes da celebração e quando notassem que aquele irmão ou irmã não estava presente, quando em casa a primeira coisa que fariam era pegar o telefone e ligar para saber se estava tudo bem e se precisa de algo;
 - Um lugar onde as pessoas pudessem se amar ao ponto de se importar menos com as regras e mais com o ser humano.

Esse lugar existe e o Novo Testamento chama de IGREJA.

Igreja existe para adorar a Deus e procurar vivenciar o mais próximo possível a caminhada de Jesus. Ele, Jesus, mantinha a agenda livre porque estava disponível às pessoas. A igreja de hoje mantém-se ocupada, mas tão ocupada com os seus programas e reuniões importantes que não pode estar disponível nem mesmo para os próprios irmãos. Essa, com certeza, não é a igreja que Jesus pretendia ter.

O livro do teólogo alemão Gerhard Lohfink[2] tem um título interessante: Como Jesus queria as comunidades? Ele diz que as comunidades de Jesus, por terem o seu Espírito, seriam comunidades de seguidoras e seguidores de Jesus. Comunidades em que o principal objetivo é amar, incondicionalmente, amar.

Ah se fosse assim...
             

[1] BRABO, Paulo. Instituições, disciplinas e a geografia da devoção. In. GOUVÊA, Ricardo Quadros (Org.). O que eles estão falando da igreja. São Paulo: Fonte Editorial, 2011, p. 61-70.    
[2] LOHFINK, Gerhard. Como Jesus queria as comunidades?: a dimensão social da fé cristã. São Paulo: Paulinas, 1986. 

1.8.13

APONTAMENTOS EM TORNO DO CONGRESSO DE ECLESIOLOGIA 2013 DA CBESP

A Convenção Batista do Estado de São Paulo (CBESP) vem se notabilizando com uma iniciativa interessante, repensar conceitos eclesiológicos a partir da teologia, história e cultura, ou seja, a iniciativa é refletir sobre o papel da igreja em uma cultura mutante e uma religiosidade plural.

O Congrego de Eclesiologia 2013 teve como participantes/preletores Josué Melo Salgado e meu amigo Jorge Pinheiro. No primeiro Congresso (em 2012) tive o prazer de ser parte da Comissão de Parecer. Neste Congresso teve, atendendo ao pedido da Comissão do primeiro Congresso, apenas dois palestrantes para um maior tempo de reflexão e debate. Neste foram abordados temas que no primeiro já haviam sido ventilados: pastorado feminino, representatividade batista, teologia salvacionista, modelos eclesiológicos e afins. Confesso que esperava algo mais apurado neste último Congresso, até porque tinha como palestrante Jorge Pinheiro, um dos teólogos batistas que, juntamente com Alessandro Rocha (do Rio de Janeiro), vem se destacando pela profícua produção teológica e intelectual no protestantismo brasileiro e no meio batista.

Em relação ao Congresso 2013, algumas questões ficaram mais evidentes. É bem-vinda a orientação quanto ao recebimento de pessoas que querem ser batizadas e a legalização do casamento impede. Quantas pessoas não se tornaram membros de uma igreja porque o cônjuge não quer oficializar o casamento e essa pessoa, na maioria mulheres, não pode participar da comunhão (ceia) porque ainda não foi batizada. O Documento do Congresso traz:

Batismo de pessoas não casadas civilmente - O batismo é uma ordenança bíblica que a igreja deve cumprir e todos aqueles que decidem se tornar discípulos de Cristo devem ser batizados (como ordenança não cumpri-la é pecado). O casamento é instituição divina antes do estabelecimento das culturas, da igreja e do Estado. Cada cultura e período da história (embora com suas próprias variações) demonstraram reconhecimento social do casamento formal, como compromisso de companheirismo para toda a vida. A igreja deve reafirmar o casamento e a família como instituição divina e como ideal divino para o bem estar da pessoa e da sociedade. Deve também ministrar o batismo para todo aquele que professa sua fé em Cristo e apresenta sinais de novo nascimento através de um novo modo de pensar e agir em conformidade com a vontade de Deus. Não deve, entretanto, descumprir esta ordenança, deixando de batizar aqueles que, não estando casados civilmente também estejam impossibilitados de resolver sua situação (como nos casos em que o cônjuge não crente resiste à formalização do compromisso). Neste sentido, cada caso deve ser avaliado com cuidado pela igreja.

Esse é um passo importante. Apesar de saber que algumas igrejas já vêm procedendo desta forma, o Congresso (lê-se CBESP), apenas contribuiu para disseminar algo que muitas igrejas do Estado de São Paulo vêm realizando, ou seja, dá a oportunidade de pessoas que entregaram as suas vidas à Cristo, passaram a frequentar a comunidade de fé, a contribuir e participar de atividades e eventos na igreja, mas não podiam participar daquilo que nos define e nos torna igreja, a Ceia do Senhor, ou seja, a Celebração da Comunhão. O que impedia? Um casamento consolidado há anos, mas não formalizado, mas que o Estado entende como União Estável.

Excetuando isso, a eclesiologia que se mostrou no Documento do Congresso ainda toca em assuntos que são comuns a um grupo fechado com uma linguagem hermética que apenas os iniciados dominam.

Infelizmente ainda existem discussões em torno da “unção com óleo”, algo tão irrisório para o contexto atual do mundo e da igreja. Outra tolice sem precedentes é a questão de novos “apóstolos” e “bispos” no ambiente batista. Isso é baixo. Chega a ser ridículo. Já não basta às bizarrices do neopentecostalismo mais tacanha que há no país com sua vertente midiática protagonizando uma disputa de poder pelo campo religioso e agora ter que ver em ambiente batista alguns que se acham portadores de uma “espiritualidade” que chega a ser gnóstica se chamando de “apóstolo” ou “bispo”! Francamente isso demonstra ainda mais a ausência de uma agenda que realmente importa para a sociedade e o Evangelho.

Infelizmente o Congresso vem demostrar que questões miúdas ainda ocupam púlpitos e mentes de pastores e líderes que não estão nutrindo uma teologia holística, mas sim uma microfísica do poder (Michel Foucault) dentro de seus guetos eclesiásticos.


É uma pena que assuntos como “unção com óleo” e “clube apostólico” com sede nos Estados Unidos (e nem mesmo em Jerusalém é) tenha ocupado o tempo e a reflexão de gente que deveria estar contribuindo ainda mais para uma leitura contemporânea do Evangelho de Cristo na nossa cultura. Enquanto isso, continuamos cultivando uma igreja fechada em si mesma travando disputas de poder (“unção com óleo” e “apóstolos”), enquanto Cristo deixou o exemplo: quem quiser ser “grande”, seja escravo.