11.10.13

PAI, NOS LIVRE DE SERMOS GRANDES

O capítulo 18 do Evangelho de Mateus é conhecido como o “Sermão Comunitário”. É um capítulo magnífico do ponto de vista da comunidade que se reúne em torno de Jesus, mas que tem os seus problemas, conflitos, alegrias e confrarias.

O texto abre com uma pergunta dos discípulos de Jesus: “quem é o maior no reino dos Céus?”. Em outras palavras, quem poderia ser o melhor, ou exercer poder entre nós?

A comunidade de Jesus estava ganhando notoriedade e, como algo consequente da interação humana, a disputa por poder dentro da comunidade estava sendo o foco.

Um estudioso do tema, poder, é o francês Michel Foucault, alguém que estudou a relação de poder e seus desdobramentos na construção social, produzindo dois textos sobre o assunto: Vigiar e punir e Microfísica do poder. Para ele o poder se dá na relação entre saber e poder. O seu esquema, naturalmente, é pensando a partir da construção da sociedade contemporânea, mas Foucault deixa bem claro que essa relação envolve todos os aspectos da atividade humana. Voltando para o nosso texto mateano, a pergunta quem é o maior no reino dos Céus remete a uma relação de proximidade e conhecimento de alguns discípulos com Jesus. Quem está mais próximo de Jesus, neste caso, pode chegar a se considerar que sabe mais que os outros que não estão tão próximos assim, desta forma os primeiros tem prerrogativas, que consideram naturais, para exercer certo controle sobre os outros.

Essa lógica de poder que domina uns aos outros e procura controlar a dinâmica da ekklesia, não cabe na comunidade que Jesus é o Senhor. A comunidade é pensada a partir dos pequeninos, é pensada a partir das crianças. O que ressalta aqui é a condição metafórica da criança. Crianças são dependentes; elas não têm pretensão de poder e dominação. Apenas sendo criança que se entra no reino dos Céus. Esse é o caminho, tornar-se como crianças. Não é se tornar santos, heróis, fiéis praticantes da Lei e do culto, mas crianças.

Na igreja temos o Altar e o Livro (Bíblia), elementos que são facilmente manipulados por àqueles que querem exercer o poder, controlar de alguma forma a dinâmica da comunidade ou, até mesmo, não permitir que a comunidade tenha fluidez do Espírito. Daí quem acha que administra o Altar ou quem lê o Livro, pode achar que, por essa proximidade, tem mais conhecimento, sabe mais, ter a pretensão em querer dominar os demais. É uma pena.

É preciso ser criança, se rebaixar mesmo, ser um baixinho na comunidade. Aliás, os adultos deveriam aprender com as crianças, principalmente na sua sinceridade, quando crescemos aprendemos a mascarar sentimentos nos tornando-nos pessoas que perdem o lúdico na caminhada da vida, infelizmente.

No texto de Mateus, Jesus nos pede para nos rebaixar, nos colocar na mesma altura da criança, para poder olhar nos olhos dela, para poder deixar bem claro que ela não precisa ser “grande”. E ser “grande” é uma preocupação dos adultos e eles transferem essa obsessão às crianças principalmente quando perguntam: “o que você vai ser quando for grande?”, uma pergunta um tanto inútil. É hora de ser criança e os adultos aprenderem com elas, pois somente assim entraremos no reino dos Céus quando ficarmos tranquilos no colo do Pai.

Nesta semana das crianças, compartilho minha oração com você: Pai, me livre ser grande.

5.10.13

O EVANGELHO DA “VITÓRIA”

O evangelho da “vitória” está ganhando cada vez mais adeptos. Igrejas pequenas e grandes adotam o discurso da “vitória” para vencer o páreo: quem cresce mais.

Depois do sucesso editorial da “Bíblia de Estudo – Batalha Espiritual e Vitória Financeira” (Central Gospel), surgiram outras bíblias de estudo para cada situação e com temas mais variados possíveis. Agora no mercado gospel a “Bíblia da Mulher Vitoriosa” (Central Gospel).

O evangelho da “vitória” foca, principalmente, a questão financeira. “Crente” vitorioso é àquele que tem sucesso financeiro, seguindo conquistando “bênçãos” em todas as áreas da vida, principalmente patrimonial.

A “Bíblia de Estudo – Batalha Espiritual e Vitória Financeira”, do televisivo Silas Malafaia, custou num primeiro momento R$ 900,00. Morris Cerullo é o principal articulador nas notas da tal Bíblia e uma das ênfases é de que pobreza é o mesmo que escravidão. Confira:

Pobreza é escravidão! Ela amarra as pessoas, impedindo-as de terem as coisas que necessitam. A pobreza leva à depressão e ao medo. Não é a vontade de Deus que você viva na escravidão da pobreza. É hora de Deus acabar com a escravidão das dívidas e da pobreza no meio do seu povo! É chegado o momento da liberação de uma unção financeira especial, que quebrará as cadeias da escassez e o capacitará a colher com abundância! (Bíblia de Estudo – Batalha Espiritual e Vitória Financeira)

É incrível, mas houve um retrocesso teológico inimaginável. Outrora deixamos de ser escravos do pecado (como diz Paulo) e passamos a ser escravos da pobreza (como diz Cerullo).

O evangelho da “vitória” ignora algo na trajetória de Jesus Cristo que é fundamental: ele foi um judeu pobre de uma Galileia pobre! Por mais que o senhor Abílio Santana diga que Jesus tinha “casa na praia” e era riquíssimo, os evangelhos dizem outra coisa: as raposas têm seus covis e as aves do céu, ninhos; mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça (Lc 9,58).

Cristo foi vitorioso, mas não financeiramente. Ele venceu a morte e garantiu de que ela não vencerá outra vez:

Onde está, ó morte,
a sua vitória?
Onde está, ó morte,
o seu aguilhão?
1Co 15,55

O evangelho da “vitória” já perdeu há muito tempo a mensagem de Jesus. Não é por acaso que as principais igrejas neopentecostais pregam em cima do Antigo Testamento (Primeiro Testamento). Se elas pregassem em cima dos evangelhos com certeza teriam dificuldades para manter o evangelho da “vitória”. Nos evangelhos Jesus viveu como pobre e morreu como pobre – nem mesmo túmulo tinha para ser enterrado, precisou do rico José de Arimatéia –, e ainda dependia financeiramente das mulheres para manter seu ministério itinerante. Sendo assim, fica difícil manter um evangelho da “vitória” quando o seu principal personagem, Jesus Cristo, era pobre e venceu na vida, ou seja, a morte. 

12.8.13

E SE FOSSE ASSIM...

“Gastamos todo o tempo em que estamos juntos passando a ferro as inúmeras e pequenas questões que dizem respeito à perpetuação da instituição (igreja)” – Paulo Brabo.[1]

Quando li essa frase de Brabo pensei: e se fosse diferente?

Hoje as pessoas na igreja (como instituição), gastam um tempo enorme discutindo questões triviais e supérfluas em torno de temas que, na sua grande maioria, não tem nada a ver com o Reino de Deus, com o fazer discípulas e discípulos de Jesus. É gente que adora ficar em reuniões intermináveis querendo saber se a cor do templo será azul ou amarelo; é gente que gosta de discutir se o programa X irá mesmo ocorrer e se ele não acontece alguém é o culpado, geralmente o pastor, para não fugir a regra; é gente que se preocupa muito mais com o horário do culto do que propriamente com o culto; é gente que gosta de cobrar a presença de pessoas nos encontros de estudos bíblicos, nossa famosa EBD, mas não consegue vivenciar no dia a dia a tolerância, o amor fraternal e o perdão.

É por essas e outras razões que levou Paulo Brabo a dizer: “o lugar (templo) em que o cristão está servindo passa a significar mais do que o modo (a exemplo de Jesus) como ele está servindo”. O templo, o ajuntamento, não é visto como um lugar de festa, mas sim de obrigações. Quando se entende que igreja é mais um lugar de obrigações do que de ajuntamento, o legalismo e o tradicionalismo tem assento permanente.

E se fosse assim...

 - Um lugar onde as pessoas ficassem chateadas, aborrecidas e, até mesmo magoadas, se não ocorresse aquele abraço no momento do culto;
 - Um lugar onde todos reclamassem em alto e bom som se a reflexão bíblica não tentasse imprimir na vida o agir de Jesus e sua maneira de enxergar o Reino de Deus;
 - Um lugar onde as pessoas observassem bem os participantes da celebração e quando notassem que aquele irmão ou irmã não estava presente, quando em casa a primeira coisa que fariam era pegar o telefone e ligar para saber se estava tudo bem e se precisa de algo;
 - Um lugar onde as pessoas pudessem se amar ao ponto de se importar menos com as regras e mais com o ser humano.

Esse lugar existe e o Novo Testamento chama de IGREJA.

Igreja existe para adorar a Deus e procurar vivenciar o mais próximo possível a caminhada de Jesus. Ele, Jesus, mantinha a agenda livre porque estava disponível às pessoas. A igreja de hoje mantém-se ocupada, mas tão ocupada com os seus programas e reuniões importantes que não pode estar disponível nem mesmo para os próprios irmãos. Essa, com certeza, não é a igreja que Jesus pretendia ter.

O livro do teólogo alemão Gerhard Lohfink[2] tem um título interessante: Como Jesus queria as comunidades? Ele diz que as comunidades de Jesus, por terem o seu Espírito, seriam comunidades de seguidoras e seguidores de Jesus. Comunidades em que o principal objetivo é amar, incondicionalmente, amar.

Ah se fosse assim...
             

[1] BRABO, Paulo. Instituições, disciplinas e a geografia da devoção. In. GOUVÊA, Ricardo Quadros (Org.). O que eles estão falando da igreja. São Paulo: Fonte Editorial, 2011, p. 61-70.    
[2] LOHFINK, Gerhard. Como Jesus queria as comunidades?: a dimensão social da fé cristã. São Paulo: Paulinas, 1986. 

1.8.13

APONTAMENTOS EM TORNO DO CONGRESSO DE ECLESIOLOGIA 2013 DA CBESP

A Convenção Batista do Estado de São Paulo (CBESP) vem se notabilizando com uma iniciativa interessante, repensar conceitos eclesiológicos a partir da teologia, história e cultura, ou seja, a iniciativa é refletir sobre o papel da igreja em uma cultura mutante e uma religiosidade plural.

O Congrego de Eclesiologia 2013 teve como participantes/preletores Josué Melo Salgado e meu amigo Jorge Pinheiro. No primeiro Congresso (em 2012) tive o prazer de ser parte da Comissão de Parecer. Neste Congresso teve, atendendo ao pedido da Comissão do primeiro Congresso, apenas dois palestrantes para um maior tempo de reflexão e debate. Neste foram abordados temas que no primeiro já haviam sido ventilados: pastorado feminino, representatividade batista, teologia salvacionista, modelos eclesiológicos e afins. Confesso que esperava algo mais apurado neste último Congresso, até porque tinha como palestrante Jorge Pinheiro, um dos teólogos batistas que, juntamente com Alessandro Rocha (do Rio de Janeiro), vem se destacando pela profícua produção teológica e intelectual no protestantismo brasileiro e no meio batista.

Em relação ao Congresso 2013, algumas questões ficaram mais evidentes. É bem-vinda a orientação quanto ao recebimento de pessoas que querem ser batizadas e a legalização do casamento impede. Quantas pessoas não se tornaram membros de uma igreja porque o cônjuge não quer oficializar o casamento e essa pessoa, na maioria mulheres, não pode participar da comunhão (ceia) porque ainda não foi batizada. O Documento do Congresso traz:

Batismo de pessoas não casadas civilmente - O batismo é uma ordenança bíblica que a igreja deve cumprir e todos aqueles que decidem se tornar discípulos de Cristo devem ser batizados (como ordenança não cumpri-la é pecado). O casamento é instituição divina antes do estabelecimento das culturas, da igreja e do Estado. Cada cultura e período da história (embora com suas próprias variações) demonstraram reconhecimento social do casamento formal, como compromisso de companheirismo para toda a vida. A igreja deve reafirmar o casamento e a família como instituição divina e como ideal divino para o bem estar da pessoa e da sociedade. Deve também ministrar o batismo para todo aquele que professa sua fé em Cristo e apresenta sinais de novo nascimento através de um novo modo de pensar e agir em conformidade com a vontade de Deus. Não deve, entretanto, descumprir esta ordenança, deixando de batizar aqueles que, não estando casados civilmente também estejam impossibilitados de resolver sua situação (como nos casos em que o cônjuge não crente resiste à formalização do compromisso). Neste sentido, cada caso deve ser avaliado com cuidado pela igreja.

Esse é um passo importante. Apesar de saber que algumas igrejas já vêm procedendo desta forma, o Congresso (lê-se CBESP), apenas contribuiu para disseminar algo que muitas igrejas do Estado de São Paulo vêm realizando, ou seja, dá a oportunidade de pessoas que entregaram as suas vidas à Cristo, passaram a frequentar a comunidade de fé, a contribuir e participar de atividades e eventos na igreja, mas não podiam participar daquilo que nos define e nos torna igreja, a Ceia do Senhor, ou seja, a Celebração da Comunhão. O que impedia? Um casamento consolidado há anos, mas não formalizado, mas que o Estado entende como União Estável.

Excetuando isso, a eclesiologia que se mostrou no Documento do Congresso ainda toca em assuntos que são comuns a um grupo fechado com uma linguagem hermética que apenas os iniciados dominam.

Infelizmente ainda existem discussões em torno da “unção com óleo”, algo tão irrisório para o contexto atual do mundo e da igreja. Outra tolice sem precedentes é a questão de novos “apóstolos” e “bispos” no ambiente batista. Isso é baixo. Chega a ser ridículo. Já não basta às bizarrices do neopentecostalismo mais tacanha que há no país com sua vertente midiática protagonizando uma disputa de poder pelo campo religioso e agora ter que ver em ambiente batista alguns que se acham portadores de uma “espiritualidade” que chega a ser gnóstica se chamando de “apóstolo” ou “bispo”! Francamente isso demonstra ainda mais a ausência de uma agenda que realmente importa para a sociedade e o Evangelho.

Infelizmente o Congresso vem demostrar que questões miúdas ainda ocupam púlpitos e mentes de pastores e líderes que não estão nutrindo uma teologia holística, mas sim uma microfísica do poder (Michel Foucault) dentro de seus guetos eclesiásticos.


É uma pena que assuntos como “unção com óleo” e “clube apostólico” com sede nos Estados Unidos (e nem mesmo em Jerusalém é) tenha ocupado o tempo e a reflexão de gente que deveria estar contribuindo ainda mais para uma leitura contemporânea do Evangelho de Cristo na nossa cultura. Enquanto isso, continuamos cultivando uma igreja fechada em si mesma travando disputas de poder (“unção com óleo” e “apóstolos”), enquanto Cristo deixou o exemplo: quem quiser ser “grande”, seja escravo. 

2.6.13

UMA EBD PARA ALÉM DO DOMINGO

Encontro de Capacitação e Comunhão – AIBAVAR – Igreja Batista em Iguape, 01 de Junho de 2013

Introdução
A Reforma Protestante colocou na Bíblia a responsabilidade de dirigir a vida da igreja e das pessoas. Sendo ela importante para a comunidade de fé, era preciso ler a Bíblia, mas para ler era preciso ser alfabetizado. Ocorre que na Europa de então, século 16 e 17, boa parte da população era analfabeta. Diante disso, a ênfase dos reformadores, principalmente Lutero e Calvino, se deu na educação formal. Calvino, por exemplo, fundou, em 1559, a Universidade de Genebra, Suíça.

Pensando sobre a Escola Bíblica Dominical (EBD), é preciso entender de onde ela surgiu e por que, para que, depois, pudéssemos sugerir algumas propostas para uma EBD que vá além dos domingos de manhã.

Por que temos uma EBD? Aspectos históricos
Há princípio a EBD começa com Robert Raikes, um inglês redator e produtor do Gloucester Journal. Incomodado com a situação de delinquência infantil que assolava a Inglaterra, sobretudo sua vizinhança, decidiu em 1780 sair às ruas e convidar crianças pobres para que aos domingos fosse à sua casa aprender aritmética, princípios morais e cívicos, gramática e leitura utilizando a Bíblia. A origem da EBD, como seria chamada posteriormente, se dá em função dos menos favorecidos, sobretudo crianças pobres e iletradas, e que a utilização da Bíblia no ensino se deu não com o intuito de ensinar a Bíblia em seu caráter doutrinário ou como um fim em si mesmo. Ao contrário, a EBD de Raikes fazia do ensino através da Bíblia um meio de libertação da condição indigna, de fortalecimento da cidadania e da humanização das crianças carentes de Gloucester e consequentemente de toda aquela comunidade.

William Fox, rico diácono batista, negociante por ofício, mesmo desconhecendo o projeto de Raikes, iniciou também em outra parte da Inglaterra o ensino essencialmente bíblico a crianças durante a semana. Juntamente com o apoio de leigos batistas, Fox fundou em 1785 a Sociedade de Escolas Dominicais com o propósito de divulgar a ideia em todo o território inglês.

O movimento repercutiu de tal forma que John Wesley logo adotou a Escola Dominical na igreja que viria a ser a Igreja Metodista, além de a própria rainha da Inglaterra ter convidado Raikes para conhecer e apoiar o desenvolvimento da “nova cruzada”, como ela entendia. Mais tarde as desconfianças foram dissipadas, os resultados positivos surgiram e o governo inglês assumiu a responsabilidade de educar as crianças. A escola pública inglesa, portanto, surgiu da Escola Dominical de Raikes.

Nos EUA ocorreram resistências à nova ideia de ensino, principalmente por ser entendida como profanação ao domingo. Entretanto, a Escola Dominical se instalou em território norte-americano, mais de um século depois da Inglaterra. Em 1891, foi organizada a Junta de Escolas Dominicais dos Batistas do Sul dos EUA que por muitos anos foi a maior agência de divulgação e publicação de literatura religiosa do mundo.

A Escola Dominical brasileira (há disputas quanto a isso) começou em 19 de Agosto de 1855, em Petrópolis (RJ), sob a direção dos missionários escoceses, Pr. Robert Kalley e sua esposa Sara (Igreja Evangélica Fluminense, Rio de Janeiro). Naquele domingo, cinco crianças foram à aula e, com o crescimento das atividades, as classes passaram a ser em português, alemão e inglês.

A EBD que os missionários norte-americanos implantaram no Brasil – diferentemente da Inglaterra, exceção do casal Kalley onde o foco foi às crianças –, se tornou um instrumento de evangelização e doutrinamento. Além disso, o sistema de ensino e organização da EBD copiou o sistema educacional secular norte-americano. Deste modo, a EBD que se configurou aqui teve como marcas: a burocracia, a ênfase no professor e no conteúdo e uma estrutura dividida em cargos e funções (diretor, secretário). Essa EBD apregoou o cálculo como meio para medir a eficiência, daí os relatórios no final da EBD para saber quantas bíblias, quem leu a lição... Isso para medir o número de faltosos e assim poder calcular o “aprendizado” sobre Deus.

A EBD que temos hoje, seu conteúdo é sistematicamente repetitivo; o peso da “aula” recai sobre o professor, que precisa dominar o conteúdo, inclusive ter noções de hebraico, grego e latim; o foco é ensinar doutrinas, como se apenas isso fosse o suficiente para que as pessoas se tornem discípulas e discípulos de Jesus; o “professor” é um mero transmissor de conhecimento; o conteúdo, geralmente, é dissociado da vida cotidiana.

Esse sistema de ensino se assemelha ao que Paulo Freire, educador brasileiro de renome internacional, chamou de educação bancária. Concepção de que os alunos são meramente depositários do “saber” do professor – recebem, memorizam e repetem. Educação bancária se dá nisso: o aluno recebe os depósitos, guarda-os e arquiva. Nesse sistema não há criatividade, transformação.

Propostas pedagógicas

“Ouço, e esqueço; vejo, e guardo na memória; faço, e compreendo” – provérbio chinês.

Uma EBD para além dos domingos de manhã precisa ter um conteúdo contextualizado, ou seja, um conteúdo que leve a sério as novas tecnologias na formulação do discurso; um conteúdo que saiba ler os “sinais dos tempos”, que tenha percepção do que está acontecendo e de como a igreja, comunidade de fé, pode refletir, questionar, sugerir; um conteúdo que enxergue as situações do cotidiano de cada localidade, ou seja, que seja acessível, que fale a língua de quem está ouvindo.

Em uma EBD que não fique apenas nos domingos, o professor seria um facilitador. Ele não teria a primazia no processo de reflexão; não haveria um monólogo, mas sim um diálogo.

E por fim, uma EBD mais humana que olhasse a integralidade do ser humano, ou seja, a sua condição física, biológica, psicológica e social. Não é apenas uma questão doutrinária, mas um conjunto de fatores que fazem parte do ser humano. Uma EBD holística viabiliza temáticas que insira a igreja na sociedade, para que a prática do que foi refletido seja uma possibilidade. Em uma EBD integral a estrutura física será menos importante, as pessoas que serão.

Para que essas propostas seja uma possibilidade, a escolha da literatura é importante. Essa literatura precisa acompanhar esses desafios e se, por algum motivo, ela não consegue contemplar essas iniciativas, deve se buscar outras que assim faça. Isso, somado à didática do amor, será possível pensar uma EBD para além dos domingos de manhã.

2.5.13

A PROPÓSITO DA NOTA DE ESCLARECIMENTO DA ORDEM DOS PASTORES BATISTAS DO BRASIL SEÇÃO SP

Não é novidade nenhuma que na Ordem dos Pastores Batistas do Brasil, Seção SP, da qual faço parte, há, em sua grande maioria, pastores e líderes denominacionais que recusam veementemente a ordenação feminina. Mediante diversos fóruns de debate, a OPBB-SP estabeleceu um posicionamento muito claro sobre esse assunto, ou seja, contrária ao ministério pastoral feminino. Além disso, a OPBB-SP considera o assunto superado, não cabendo mais discussão em âmbito nacional e estadual. Legítimo! Esse é o posicionamento da maioria.

Agora, é sabido também que pastores filiados à OPBB-SP são favoráveis à ordenação feminina e procuram externar suas opiniões de diversas maneiras. Esses pastores, assim como os contrários, também têm suas razões para serem favoráveis, tendo, igualmente, o legítimo direito de divergir do posicionamento da OPBB-SP. Esse é o espírito dos batistas.

Sendo assim, mesmo sendo a OPBB-SP uma instituição que representa os pastores e tem todo o direito de emitir sua opinião diante de assuntos e temas discutidos previamente, ela não tem o direito e nem pode tutelar a opinião e posicionamento de filiados que não concordam com suas definições! A OPBB-SP não tem a tarefa de eliminar opiniões que a maioria não aprova.

Falo isso, porque a OPBB-SP emitiu uma NOTA DE ESCLARECIMENTO, veiculada na Internet como no Jornal Comunhão, sobre a indicação da Pra. Diana Flávia à diretoria da Ordem dos Pastores Batistas do Brasil em Aracaju/SE por um filiado da OPBB-SP. Transcrevo parte da nota:

Filiação de Pastoras
Nota de Esclarecimento da OPBB-SP
 A SEÇÃO SÃO PAULO DA OPBB, através de sua Diretoria 2012/2013 também vem a publico esclarecer que:
Causou estranheza aos membros da Diretoria da Seção São Paulo 2012-2013, presentes na Assembleia Anual da OPBB em Aracaju/SE, a indicação do nome da Pra Diana Flávia para concorrer a Secretaria da Diretoria da OPBB, especialmente, por um filiado na Seção São Paulo, uma vez que a Seção já realizou fóruns no qual a maioria dos pastores rejeitou a filiação de pastoras, entende esta atitude como inconveniente.

São Paulo, 1º de Fevereiro de 2013
Diretoria da OPBB-SP 2012/2013

Retirado do Site http://www.opbb-sp.org.br

O que me causa estranheza é a OPBB-SP querer cercear o direito de alguém emitir sua opinião em uma Assembleia Anual da OPBB porque a Seção SP já realizou fóruns no qual a maioria dos pastores rejeitou a filiação de pastoras. A OPBB-SP, por meio de seus fóruns, rejeitar a filiação de pastoras é completamente coerente; agora, impor suas reflexões e conclusões aos pastores filiados e ainda inibir a livre opinião da divergência, é outra coisa totalmente diferente! Isso sim é estranho.

21.4.13

O ESPÍRITO SANTO: ATUALIZADOR DA PRÁXIS DE JESUS

José Comblin é, indubitavelmente, um dos mais conhecidos teólogos na América Latina e no mundo. Sua vasta produção bibliográfica o colocou na lista dos teólogos mais importantes da teologia latino-americana da libertação. Falecido em Março de 2011, Comblin deixou uma profícua reflexão em torno do tema da pneumatologia. A sua última obra, editada postumamente, leva o seguinte título: O Espírito Santo e a tradição de Jesus. São Bernardo do Campo: Nhanduti, 2012. O livro é um ajuntamento de vários textos que Comblin vinha trabalho sobre o Espírito Santo e sua relação com Jesus e, como consequência, com os discípulos de Jesus, ou seja, com a igreja de Jesus.

Uma frase chamou-me atenção no livro de Comblin: “pois Jesus foi a revelação do Pai, mas essa revelação somente pode ser entendida pelo Espírito Santo. Somente podemos entender Jesus agindo como ele”. Nesta frase há alguns enfoques seminais sobre a pneumatologia que passo a destacar brevemente.

O Novo Testamento sempre deixou muito claro que Jesus é a revelação de Deus. Por mais que alguns queiram colocar a Bíblia como revelação de Deus, o Novo Testamento parte do pressuposto de que Jesus revelou a Deus Pai planamente: Jo 14,9 – quem me vê a mim, vê o Pai. A revelação, portanto, não é um texto, é uma pessoa – Jesus de Nazaré. Como Jesus revelou o Pai? Agindo, curando, ensinando, se relacionando, comendo junto, bebendo junto, participando de festas, andando com os marginalizados e etc. Tudo isso e muito mais é Jesus! A novidade teológica de Comblin é que essa revelação só pode ser entendida pelo Espírito Santo. A questão é como se dá esse entendimento. Há princípio não é um entendimento intelectual de aprender lendo apenas. Também não é um entendimento meramente racional, ou seja, é preciso ir além da mera letra, é preciso agir como Jesus. Para que a revelação de Jesus sobre o Pai seja entendida por nós – seus discípulos hoje –, se dá por meio do Espírito Santo, mas se não for possível compreender como o Espírito Santo atualiza a prática de Jesus, a revelação que Jesus faz do Pai não será entendida.

Jesus – enquanto portador da mensagem do Reino de Deus – buscou estar aberto ao outro em suas necessidades e problemas. A missão de seus discípulos foi em seguir os passos do Mestre, reproduzindo sua práxis em situações históricas diante de outros contextos e circunstâncias. Aos discípulos de hoje só é possível entender Jesus por meio do Espírito Santo, e para isso é preciso entender como o Espírito Santo age nos discípulos de Jesus. Se Jesus foi abertura incondicional ao outro, ou seja, ao próximo, o Espírito Santo é essa força (δυναμις = Dunamis) que possibilita ao discípulo a abertura para o outro, porque a tendência geral do ser humano é o fechamento em si mesmo no egoísmo. No entendimento da revelação e no agir como Jesus é que se dá a atuação do Espírito Santo.

Diante disso, a ideia de que as pessoas precisam aprender doutrinas porque assim elas entenderão Jesus é apenas menos da metade. Doutrina, não necessariamente, ajuda a entender o agir de Jesus. O entendimento racional sobre Jesus é possível, mas a sua práxis é que é fundamental. Sem a práxis de Jesus não é possível entender Jesus plenamente. A atualização da práxis de Jesus é o Espírito Santo que realiza com sua força que impulsiona o discípulo a agir como ele.