28.4.15

PREDESTINAÇÃO E SALVAÇÃO

Em Cristo, Paulo centraliza todo o processo salvífico.

Embora surjam textos como desde a fundação do mundo, o fato é que o aparecimento de Cristo na história fez com que a comunidade olhasse para trás e concluíssem que de fato Deus estava no conduzindo. Mas isso não significaria nada se ele não estivesse atuando no tempo. A comunidade compreende que foi na ação histórica de Deus que se deu a sua eleição.

E essa eleição não determinou o seu curso nem suprimiu a história, mas dá à comunidade o fundamento de sua experiência no tempo como algo prioritário para Deus, quer dizer, sua eleição/predestinação, pois ela tem a sua origem na vontade salvífica de Deus — “nos salvou e nos chamou com santa vocação; não segundo as nossas obras, mas conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos, e manifestada agora pelo aparecimento de nosso salvador Cristo Jesus” (2Tm 1,9-10).
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Mas é no tempo que ela se concretiza, porque foi agora que se manifestou a justiça de Deus, testemunhada pela lei e pelos profetas. É no agora que se recebe a reconciliação através de Cristo. A história estava caminhando para um alvo divino, e neste alvo os gentios estavam incluídos.

É aqui que entra o conceito de justificação e reconciliação de Paulo. A justificação e a reconciliação seriam algo individual ou coletivo?

Os dois conceitos estão extremamente ligados. Porque um diz respeito à absolvição de todo o pecado; outro à restauração de um relacionamento com Deus. São dois conceitos teológicos que se dão no passado.

Para o apóstolo, é uma dádiva de Deus em Cristo que foi comunicada a todos (judeus e gentios). Porque o alvo não seria o indivíduo, mas uma nova humanidade.

O pecado não é mais barreira de divisão entre Deus e o ser humano, porque “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo” (2Co 5,19). A reconciliação é um ato histórico, em Cristo, e coletivo. Sendo assim, Deus não quis reaver os pecados cometidos antes do aparecimento de Cristo na história, mas agora, com ele e sua obra, há a possibilidade de decisão (At 17,30).

Uma vez que a reconciliação e a justificação são iniciativas de Deus no aspecto coletivo, seria a predestinação algo individual?

Uma vez que a justificação e a reconciliação são bênçãos proporcionadas por Deus em Cristo de caráter coletivo e histórico, a predestinação do mesmo modo é algo dado num momento histórico com um fim exclusivamente soteriológico.

Neste sentido, a salvação é uma proposta divina à humanidade, é o sim de Deus em Cristo (2Co 1,19-20). Uma vez sendo essa resposta afirmativa à sua proposta, todas as bênçãos espirituais são realizadas plenamente. E o propósito da predestinação é concluído (Rm 8,29-30; Ef 1,4-5).

Assim como a eleição no Antigo Testamento (Bíblia Hebraica) visou o povo de Israel (Dt 7,7; 14,2), a predestinação no Novo Testamento nunca é individual, mas coletiva — a Igreja, a comunidade dos santos. Não é por acaso que a Igreja primitiva tinha ideia de constituir a raça eleita, um povo santo (1Pd 2,9).

A predestinação não poderia ser algo puramente determinista e selecionista. 

21.4.15

JESUS, UM "LESTAI"

ASLAN, Reza. Zelota: a vida e a época de Jesus de Nazaré. Tradução de Marlene Suano. Rio de Janeiro: Zahar, 2013, 304p.

Reza Aslan é um pesquisador de temas religiosos que vem se destacando nos estudos quanto às origens do cristianismo primitivo.

De origem iraniana, Aslan teve contato com o cristianismo na adolescência e trilhou o caminho da pesquisa religiosa por se aproximar da Bíblia e encontrar algumas dificuldades com aquilo que aprendera e que agora estava se aprofundando, encontrando assim discrepâncias e situações diversas quanto aos postulados da sua então fé.

Ainda assim, Aslan confessa que “duas décadas de pesquisa rigorosa sobre as origens do cristianismo fizeram [dele] um discípulo de Jesus de Nazaré mais genuinamente comprometido” (p. 13).

Um estilo cativante e criativo ao escrever, Aslan proporciona no texto uma narrativa de fôlego abrindo caminhos na construção de um Jesus de Nazaré a partir do seu contexto social e, principalmente, político.  Um Jesus que vive em um país subjugado pelo Império Romano e pelo Templo.

O livro se divise em três partes com capítulos curtos que fazem a conexão com o próximo, contribuindo assim para uma leitura agradável.

O tema central do texto de Aslan é a figura de Jesus de Nazaré, ou seja, ele persegue o Jesus histórico.

O Jesus que interessa para Aslan não é o “Cristo da fé” proclamado pelos dogmas e pregado pela Igreja. Interessa o Jesus de Nazaré, o homem que viveu na Galileia, andou pela Palestina do primeiro século; teve companheiros (discípulos) e se colocou como um divulgador do Reino de Deus.

O foco histórico do livro de Aslan é um Jesus que procurou estabelecer o Reino de Deus e, como outros que vieram antes dele e depois dele, com pretensões messiânicas.

Aslan apresenta muito bem o que significa “Reino de Deus” e “messias” no seu texto, fazendo uma abrangente discussão em torno desses temas, tornando eles indispensáveis para a sua narrativa.

O ponto mais importante que Aslan apresenta de Jesus de Nazaré, e que define a sua caminhada para a cruz, é a discussão proposta nos evangelhos sinóticos – esses sendo uma das principais fontes de Aslan para acessar o Jesus histórico –, onde é perguntado sobre a legitimidade de pagar o imposto para Roma. Esse é o foco do livro de Aslan como também a entrada de Jesus no templo e sua revolta com o comércio aliado ao sistema sacerdotal.

Aslan discute o tema do zelo em Jesus de Nazaré e considera que a acusação de “Rei dos Judeus” é perfeitamente plausível para Jesus, uma vez que Roma o considera como um lestai, ou seja, um agitador; alguém que deveria ser condenado por sedição.

Embora o livro de Aslan seja bem escrito e academicamente preparado – ele está familiarizado com as recentes pesquisas quanto ao Jesus histórico, fazendo eco a pesquisadores como Richard A. Horsley, por exemplo, um dos mais competentes estudiosos do cristianismo primitivo –, ele, dentre todos os temas da vida de Jesus de Nazaré (nascimento, caminhada, discípulos, morte e ressurreição), não trata da Páscoa celebrada por Jesus e seus discípulos. Em nenhum momento do seu texto Aslan deixa claro porque omite a narrativa da “ceia” presente nos evangelhos sinóticos.

13.3.15

O CRISTO CARDÍACO (OU SOBRE O SEGUIMENTO)

A mensagem que os missionários trouxeram para a “evangelização” do país foi marcada pelo puritanismo anglo-saxônico dos Estados Unidos. O puritanismo é um movimento oriundo da Inglaterra que teve seu irmão gêmeo na Alemanha, mas lá ficou com outro nome, pietismo.

O puritanismo irá influenciar a formação teológica (há boa literatura que cobre esse dado), assim como pregadores itinerantes e não poucos pastores.

O olhar puritano sobre Cristo foi escasso, uma vez que o movimento olhou para a “Bíblia” e não para Cristo. Uma das principais ênfases do movimento foi na “salvação pessoal”, esta vinda inteiramente por Deus, em Cristo.

Aqui que Cristo passa a ser um mediador de um processo de salvação onde o interesse nele passa a ser apenas salvífico. Não por acaso, que o seguimento de Jesus é ignorado no puritanismo. Importando apenas o seu aspecto redentor.

É Sören Kierkegaard quem irá criticar Lutero por esse ter primado um Cristo como dom e graça e não como caminho e modelo.

Entendendo assim, que Kierkegaard sentencia: “não se trata de seguidores de uma doutrina, mas imitadores de uma vida”.

O seguimento é a relação que os discípulos têm com Jesus. Essa relação começa quando Jesus chama seus discípulos para segui-lo. A intenção é que eles reproduzam os seus passos, participando, especificamente, do seu projeto, o reino de Deus. O seguimento, portanto, é assumir os passos de Jesus ao ponto de compartilhar, até mesmo, o seu destino, a morte.

O seguimento é a disponibilidade para reproduzir, em outros contextos históricos, o movimento fundamental das ações de Jesus. Seguimento é a principal identidade cristã, pois o seguidor deve reproduzir a estrutura fundamental da vida de Jesus e ao mesmo tempo tornar possíveis as ações dele de acordo com as exigências do contexto em que se vive.

Quem se dedica a esse tema, é o teólogo Jon Sobrino.

Para Sobrino, Jesus é alguém que chama seus discípulos para estar perto dele a fim de participarem dos seus anseios e ações. Não é um Cristo distante do povo e transcendente, mas perto ao ponto de pedir ajuda aos seus seguidores para que desçam da cruz de hoje os necessitados e desvalidos.

É um Cristo que solicita companhia, pois reconhece que sem a ajuda dos seus discípulos não seria possível levar adiante as marcas do reino de Deus. 

25.2.15

“SOMOS O POVO DA CRUZ...” AQUI TAMBÉM?

O mundo vem se surpreendendo cada vez mais com a capacidade de crueldade e desprezo pela vida do chamado “Estado Islâmico” (EI).

O último ato de barbárie do EI foi a morte de vinte e um cristãos coptas do Egito, pelo modo mais medieval possível, a decapitação. 

Os cristãos coptas no Egito remontam ao século I. Segundo a tradição eles tiveram contato com o cristianismo por meio do “apóstolo Marcos”.

Hoje, 90% dos cristãos coptas pertencem à Igreja Ortodoxa Copta de Alexandria, que nasceu no próprio Egito.

A Igreja Ortodoxa Copta de Alexandria é independente e não está em comunhão nem com a Igreja Ortodoxa nem com a Igreja Católica. A separação aconteceu após o Concílio de Calcedônia, no ano de 451. Embora haja igrejas coptas de tradição católica e protestante.

O último dia 15 de Fevereiro, o mundo conheceu o martírio dos vinte e um cristãos coptas na Líbia. O que chamou a atenção do Ocidente foi o “recado” deixado pelos jihadistas: “uma mensagem assinada com sangue para a nação da cruz”.

Por mais que a cristandade tenha suas diferenças, assim como no islã também, todos ficaram extremamente estarrecidos com o ocorrido.

É claro que o fundamentalismo, palavra cunhada nos EUA no século XIX, está presente tanto no catolicismo, protestantismo e islamismo. Cada qual com seus métodos e maneiras de lidar com o outro, na tentativa de desqualificá-lo religiosamente por não pertencer ao seu segmento religioso.

Com o EI, o fundamentalismo ganha contornos de violência extrema, por não aceitar outra religião no seu espaço de atuação.

Mas olhemos para cá, o Brasil.

Com o martírio dos cristãos coptas, foi possível ver diversas manifestações de solidariedade nas redes sociais. Frases como “eu também sou do povo da cruz” foi a mais vista. Mas o que significa isso?

Bem, aqui nada!

Lá, os coptas são pobres e vão para a Líbia procurando trabalho.

Lá, a situação de perseguição no país, de maioria mulçumana, foi intensificada contra os coptas, principalmente depois que o ditador Hosni Mubarak foi deposto, em 2011. Lá ser cristão não significa viver bem, significa ser perseguido e, como aconteceu e vem acontecendo, morrer.

Cá, é diferente. É gente procurando o “apóstolo” ou o “bispo” tal, porque ele irá resolver os problemas financeiros ou de saúde.

Cá não tem martírio, ninguém é exposto com a sua fé, até porque está na “moda” ser gospel.

O cantor sertanejo tem a sua imagem arranhada por inúmeras situações com bebida. Da noite para o dia, decide que é cantor gospel. Alguém aí levanta a questão: “mas ele se converteu!”. Ah sim, deve ter se convertido... Está cada vez mais difícil nesse universo gospel a conversão ser desprovida de interesse financeiro.

Outro caso, a moça tem uma experiência “traumática” com o corpo, porque ela é filha desse tempo em que a futilidade é marca preponderante. Ela vai parar no hospital e quando sai se torna “bispa” e irá ter um programa na TV de uma igreja que não faz outra coisa a não ser construir um império em nome da “fé”.

Por aqui “o povo da cruz” precisava descer da cruz os crucificados (uma expressão de Jon Sobrino) que são martirizados por um sistema econômico que segrega os menos desprovidos de capital.

Por aqui “o povo da cruz” precisava ser unido no sentido de cobrar da classe política do país responsabilidade com os gastos públicos. Um “povo da cruz” não se conformaria com a precarização do Sistema Único de Saúde (SUS).

Se lá ser cristão significa morrer, aqui ser cristão significa nutrir uma espiritualidade marcada pelo consumo onde se busca a “bênção” de Deus.

Todos ficamos chocados com o ato desumano do EI com aqueles irmãos. Eles morreram orando...

Não tenho condições de pegar “carona” nesse episódio trágico e produzir frases de efeito quando estou distante geográfica e espiritualmente da realidade desses irmãos.

9.12.14

A DESORDEM DO NATAL

No Natal comemoramos uma desordem.

Talvez a primeira impressão do leitor seja de espanto e até mesmo de desaprovação.

Tentaremos esclarecer...

Se, como tudo indica, a ordem das coisas está em quem mais tem, mais manda, então temos uma ordem que legitima que alguns mandam e muitos obedecem.

O Natal, nesse sentido, promove uma desordem. Jesus é parte dos muitos que nada tem; que nada manda. Ele nasce entre os que nada têm e tudo devem.

Logo no Magnificat (Lc 1,31-53), Lucas coloca na boca de Maria uma canção subversiva, contestatória, revolucionária. O nascimento de Jesus passa a significar a inversão dos valores, outrora considerados corretos; o nascimento passa a significar a redistribuição dos bens. Para Lucas o nascimento de Jesus é um protesto, da parte de Deus, contra o abuso do necessitado pelo rico; é, ao mesmo tempo, a libertação dos oprimidos e dos fracos.

O “Cântico de Maria”, como também é conhecido, significa a quebra de barreiras e preconceitos contra a mulher e o início da igualdade nas relações de gênero. Ocorre o surgimento de novas relações, não mais baseadas na exploração e no descaso pelo outro, mas na equidade. Se outrora o orgulho, aquele que se considera acima dos outros, detinha o poder, ele é destronado; se outrora os poderosos (ricos) menosprezavam e condenavam o pobre ao descaso, agora ele é esvaziado a partir da sua própria arrogância. Os humildes, aqueles que, no entender de Lucas, não almejam o poder, são exaltados.

Para Lucas, o Natal é desordem. É a contestação da situação de exploração econômica, social e religiosa. O nascimento do menino é um nivelador das relações humanas; é a inversão da ordem; é o desmantelamento de estruturas de poder que oprime e marginaliza pessoas.

Eis a nova ordem. Na cidade de Belém começa a desordem. Lá começa a inversão das coisas.

O Natal é uma provocação. Somos provocad@s a ver a vida de outro jeito; a sonhar outros sonhos. Somos provocad@s a ver o mundo não mais pela lógica do poder que procura preservar uma ordem onde a desumanização é uma das principais características.

Neste Natal olhemos para aquele que nada é. Ele não ousou fazer assistencialismo, mas agiu com solidariedade. O assistencialismo preserva a ordem acentuando a diferença dos que nada têm com os que tudo têm. A solidariedade se dá em se colocar ao lado da outra pessoa e estabelecer a igualdade.

Viva a desordem do Natal.

17.11.14

“AS FORÇAS CONTRÁRIAS À IGREJA”

O preletor toma a palavra e, diante de um auditório diversificado em termos de “conteúdo” teológico, abre a sua fala dizendo: “há duas grandes forças que atrapalham a igreja de hoje, o liberalismo teológico e a pós-modernidade”. O tema da preleção era: “A igreja e o mundo contemporâneo”. Julguei que o preletor, no mínimo, pudesse dominar os conceitos de que estava disposto a falar, mas logo ficou patente de que apenas reproduzia o que outros já falaram, ficando evidente que nem ao menos leu os autores que estava se propondo a criticar.

Quando se coloca que há “forças” contrárias à igreja, fica subtendido que há uma “disputa” por espaços, para usar uma metáfora da física, ou seja, há o atrito que para acontecer é preciso haver um “corpo em repouso” e um “corpo em movimento”. Nesse caso não se sabe se é a igreja que está em repouso (o que pode ser comprovado em alguns temas) ou se é a sociedade que está em movimento e, por consequência, haveria uma espécie de atrito com a igreja e sua tranquilidade celestial.

Uma dessas “forças”, na concepção do palestrante, é o liberalismo teológico. Regra geral para se rotular um liberal é quando alguém não está de concordo com alguma doutrina presente na teologia sistemática de tendência conservadora, assim é “tachado” de liberal. O liberal é alguém que não acredita na Bíblia, dizem... É alguém que não prega expositivamente a Bíblia, é alguém que não “planta” igreja e muito menos investe em missões, porque tudo isso é coisa de “fundamentalista”, liberal apenas deseja desconstruir o que se crer e ajudar outras pessoas a “perder a fé”, como se fé, essa dimensão que faz parte da estrutura antropológica do ser humano, pudesse ser perdida. Quando há uma disputa quanto a interpretação do texto bíblico, como se este fosse unívoco, logo o outro que não concordo com a, em geral, literalidade do texto, é um liberal.

Quando o palestrante traz o nome de Friedrich Schleiermacher (1768-1834) como um dos pioneiros no movimento do liberalismo teológico, percebe-se logo que seus apontamentos não eram fruto de uma leitura do teólogo alemão. Antes de fundamentar os eixos centrais do liberalismo teológico, não foi possível ouvir as reais motivações do movimento, que é concomitante com o liberalismo político (John Locke) e econômico (Adam Smith), ou seja, o liberalismo teológico é filho de uma época, assim como o fundamentalismo nos Estados Unidos. Ambos tomam a modernidade e seus referenciais, principalmente a ciência, como ponto de diálogo. No caso do fundamentalismo com o objetivo de confrontar os pressupostos do liberalismo teológico. Em outra vertente, a neo-ortodoxia (Karl Barth) procurou estabelecer outros pressupostos para o diálogo com a modernidade, diferente do liberalismo teológico e há alguns desavisados que rotulam Barth de liberal

Outra “força” contrária à igreja levantada pelo palestrante foi a pós-modernidade.

Havendo uma gigantesca dificuldade em definir o que seja a “pós-modernidade”, tendo em vista a discussão entre teóricos quanto o status do nosso tempo – onde até mesmo alguns alegam que não há condições de nomear –, há uma consciência de que o termo pós-modernidade não é unânime. Há quem prefira falar em hipermodernidade (Gilles Lipovetsky), hiper-realidade (Jean Baudrillard) e modernidade líquida (Zygmunt Bauman). Algo concreto, entre os teóricos da cultura, é de que pelo menos os últimos 100 anos, e mais acentuadamente o final do século passado, tem sido caracterizado por cosmovisões e comportamentos diferentes do período que se convencionou chamar de modernidade. Seria mais fácil colocar a questão como desdobramentos de uma “Nova Cultura”, um termo que José Comblin faz uso. Quando se assume a pós-modernidade como única chave de leitura da contemporaneidade corre-se o risco de levantar equivocadas concepções, como aconteceu. Uma delas foi à ideia de que hoje a sociedade não quer pensar mais, apenas sentir. Uma falácia, quando se leva em consideração a produção científica e o aumento de estudantes tendo acesso ao ensino superior.

Quando o palestrante alega que a sociedade resiste à igreja contemporânea, ele não levou em consideração os últimos censos do IBGE que apontam o crescimento dos evangélicos no país em mais de 22,2%.

Faltou uma abordagem quanto aos sem-igreja que tem crescido substancialmente e um dos fatores, apontado por pesquisas tem sido o fundamentalismo. Outro ponto, que precisava ser abordado, é a influência da teologia da prosperidade em igrejas históricas. Pessoas não estão buscando saber quem são os teóricos do liberalismo teológico, elas estão vivenciando uma escatologia sem céu. Dizem: “o melhor desta terra é meu”. Um slogan mais que divulgado no movimento evangélico e suas vertentes.

13.11.14

E PEDRO ENTROU NO MEIO...

Uma leitura de João 20,1-18

O Evangelho de João é fascinante. Um texto polissêmico onde a diversidade de origens é patente. A função do redator no texto permite alocar e deslocar estruturas do texto e assim perceber a configuração e os entrelaçamentos de textos em outros textos.

É o caso de João 20,1-18. Uma unidade de texto que contempla duas narrativas e o redator, no versículo 2, faz a abertura dessa “unidade”.

Aqui um exercício a partir desse texto e sua polissemia...

O texto tem material de Maria Madalena, do redator, de Pedro e do discípulo amado.

Segue João 20,1-18, dividido entre os três.

Maria Madalena
Redator
Discípulo amado e Pedro
(1) No primeiro dia da semana, bem cedo, estando ainda escuro, Maria Madalena chegou ao sepulcro e viu que a pedra da entrada tinha sido removida. (11) Maria, porém, ficou à entrada do sepulcro, chorando. Enquanto chorava, curvou-se para olhar dentro do sepulcro (12) e viu dois anjos vestidos de branco, sentados onde estivera o corpo de Jesus, um à cabeceira e o outro aos pés. (13) Eles lhe perguntaram: “Mulher, por que você está chorando?” “Levaram embora o meu Senhor”, respondeu ela, “e não sei onde o puseram”. (14) Nisso ela se voltou e viu Jesus ali, em pé, mas não o reconheceu. (15) Disse ele: “Mulher, por que está chorando? Quem você está procurando?” Pensando que fosse o jardineiro, ela disse: “Se o senhor o levou embora, diga-me onde o colocou, e eu o levarei”. (16) Jesus lhe disse: “Maria!” Então, voltando-se para ele, Maria exclamou em aramaico: “Rabôni!” (que significa Mestre). (17) Jesus disse: “Não me segure, pois ainda não voltei para o Pai. Vá, porém, a meus irmãos e diga-lhes: Estou voltando para meu Pai e Pai de vocês, para meu Deus e Deus de vocês”. (18) Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos: “Eu vi o Senhor!” E contou o que ele lhe dissera.
(2) Então correu ao encontro de Simão Pedro e do outro discípulo, aquele a quem Jesus amava, e disse: “Tiraram o Senhor do sepulcro, e não sabemos onde o colocaram!”

(3) Pedro e o outro discípulo saíram e foram para o sepulcro. (4) Os dois corriam, mas o outro discípulo foi mais rápido que Pedro e chegou primeiro ao sepulcro. (5) Ele se curvou e olhou para dentro, viu as faixas de linho ali, mas não entrou. (6) A seguir Simão Pedro, que vinha atrás dele, chegou, entrou no sepulcro e viu as faixas de linho, (7) bem como o lenço que estivera sobre a cabeça de Jesus. Ele estava dobrado à parte, separado das faixas de linho. (8) Depois o outro discípulo, que chegara primeiro ao sepulcro, também entrou. Ele viu e creu. (9) (Eles ainda não haviam compreendido que, conforme a Escritura, era necessário que Jesus ressuscitasse dos mortos.) (10) Os discípulos voltaram para casa.





A tradição de Maria Madalena nas narrativas da ressurreição é algo indubitável. Nos Evangelhos Sinóticos as mulheres estão presentes e Maria Madalena é uma delas (Mt 28,1; Mc 16,2; Lc 24,10), mas apenas no Evangelho de João Maria Madalena aparece, sem a companhia de outras mulheres, tal o seu protagonismo. Até que houve tentativas em obnubilar a figura dela, mas não foi possível. O cristianismo primitivo teve na sua gênese o testemunho de mulheres quanto ao marco inicial da fé.

O referido texto (Jo 20,1-18) pode ser lido como:

- Uma disputa de liderança, Maria Madalena, o discípulo amado e Pedro. Daí, o redator estaria procurando colocar a todos debaixo do mesmo sol.
- Ou ainda, uma tentativa do redator em conciliar a comunidade joanina com a comunidade petrina (representando aqui a “Grande Igreja”).

É possível haver uma “disputa” entre lideranças, mas é possível haver também o trabalho do redator em agrupar narrativas, independentes, procurando dar coesão e legitimidade à autoridade petrina, sem, contudo, menosprezar a figura de Maria Madalena e do discípulo amado.

Dessa forma, João 20,1-18 não pode ser considerado um texto coerente, no sentido de ser uma mesma unidade. São duas narrativas diferentes: a primeira os versículos 1 e 11-18 e a segundo os versículos 3-10, com o redator fazendo a ligação com o versículo 2.

Houve uma inserção dos versículos de 3 a 10 dentro da perícope de Maria Madalena que originalmente, são os versículos de 1 e 11-18. Essa segunda narrativa apresenta coesão, existindo uma ligação dos fatos com o versículo primeiro. Enquanto que a segunda não tem ligação com a narrativa de Maria Madalena. O versículo 2 foi inserido estrategicamente pelo redator, para fazer a junção entre as duas perícopes.

Uma vez a comunidade joanina, precisando de apoio para sobreviver aos ataques dos cristãos-gnósticos (cisma reconhecido em 1João), foi razoável uma troca de interesses. Essa é a perspectiva do exegeta Raymond E. Brown.

Uma vez se incorporando a “Grande Igreja”, que passava por um processo de institucionalização, tendo Pedro como principal representante, a comunidade joanina passa a adotar a hierarquização da comunidade quando incorporada à “Grande Igreja”. Por outro lado, a “Grande Igreja” adota a cristologia alta (do logos) da comunidade joanina adequando-a a cristologia sinótica. Esse capítulo e, em especial o capítulo 21 do Evangelho de João, nítida interpolação no evangelho, é uma maneira do redator alinhar a comunidade joanina ao representante sênior da “Grande Igreja”, Pedro.

Não por acaso, Pedro é o primeiro a inspecionar e entrar no sepulcro no capítulo 20, mas é o discípulo amando quem vê e crê. Pode haver aqui, representada pela corrida dos discípulos, a ideia de que há uma rivalidade e competição entre as lideranças, como também, a partir das perícopes juntas, a hipótese de um agrupamento em torno de uma liderança hegemônica, Pedro.

Sendo assim, os versículos 3 ao 10, a narrativa de Pedro e do discípulo amado, se configura como uma narrativa inserida, posteriormente, com o propósito de adequação da comunidade joanina ao parâmetros político-eclesiais da “Grande Igreja”.

Se admitida à hipótese de que o autor de 1João seja o mesmo redator do Evangelho de João (opinião de Helmut Koester), há, portanto, fortes indícios de uma adequação da comunidade joanina à “Grande Igreja” sendo o capítulo 20,1-18 um conjunto de narrativas onde, propositalmente, o redator alocou Pedro no meio da narrativa de Maria Madalena quando da redação final do Evangelho de João, reconhecendo a autoridade de Pedro (o que essa figura representa) alinhando assim às igrejas petrinas.

* Uma pesquisa quanto ao papel de Maria Madalena no capítulo 20: Cf. SILVA, Francisca Rosa da. Maria Madalena e as mulheres no cristianismo primitivo. Dissertação de Mestrado (Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo). São Bernardo do Campo: UMESP, 2008.