24.10.12

A DURA TAREFA DE QUEBRAR CASTANHAS

Lembro-me quando li pela primeira vez o livro do pastor Ed René Kivitz – Quebrando paradigmas. Foi um livro “chocante”. Cursava teologia na Faculdade Teológica Batista de Campinas quando me deparei com um texto instigante e que desconstruía toda minha maneira de “ver” igreja e sua estrutura. Kivitz desconstrói o lugar do templo, do domingo e do clero.

Confesso que suas ideias me deixaram perturbado por um tempo, aliás, no seminário não existe matéria que não deixe o aluno perturbado... Bem, seu texto produziu em mim uma necessidade de conferir aquilo que acabara de ler em um texto de apenas 105 páginas. Percebi que a estrutura de uma igreja Batista tradicional desconsiderava as exigências do Novo Testamento e, mais ainda, que durante todo aquele tempo, antes do texto de Kivitz, eu havia admirado uma estrutura que não tinha muita coisa a ver com a vivência da igreja primitiva. Suas duras críticas ao templo, ao domingo e ao clero, deixou em mim uma sensação de que, ao longo do tempo, foi arquitetado ao na igreja que seguiu um modelo de funcionamento que não tinha muito a ver com o Novo Testamento. Exemplifico:
           
                                    HOJE                                     NOVO TESTAMENTO

                                    Templo                                  Casa

                                    Cargos                                   Dons espirituais

                                    Funções                                 Serviços

                                    Domingo                               Semana toda

                                    Pastor                                    Todos são ministros

                                    Departamentos                      Ministérios
 
Percebi que não seria fácil desenvolver isso em uma comunidade, até porque eu mesmo estava envolvido naquela estrutura de cargos, departamentos, comissões, assembleias e coisas do tipo. Percebi também que se quisesse seguir pelo menos algumas indicações do Novo Testamento quanto ao funcionamento da igreja precisa aprender a arte de quebrar castanhas. Tirar castanha do ouriço não é tarefa fácil. Exige paciência, traquejo e força ao mesmo tempo.

Uma igreja que não olhe o templo como lugar sagrado; uma comunidade que não veja o domingo como o único dia de estar junto aos irmãos; uma igreja que não veja no pastor o único responsável pelo desenvolvimento do corpo de Cristo. Para surgir uma igreja assim, ou seja, dinâmica e vibrante, a designação de “membro ativo” não pode ser meramente daquele que contribui e frequenta os cultos. Tem que ter algo a mais.

É preciso desenvolver os dons espirituais como único meio para edificação do corpo de Cristo; é preciso desenvolver a comunhão como elemento chave de agregação e unidade; é necessário apresentar Jesus e sua pessoalidade como exemplo de pastoreio.

3.10.12

FALTA POUCO

Estou contando os dias até 07 de Outubro.

Não aguento mais ver candidatos na TV falando tudo àquilo que o povo já sabe de cor – o que? – de que a vida nos grandes centros urbanos é desfavorável para os mais carentes. Para essas pessoas os hospitais estão superlotados; para essas pessoas a segurança é precária; para essas pessoas as condições de moradia são pobríssimas. Com um discurso demagogo e que só ludibria os incautos, os candidatos ao Poder Executivo usam e abusam de metas, estatísticas, números para mostrar o que o outro não vez e que dessa vez, se eleito, irá fazer. “Isso é uma vergonha” – para concordar com o Datena.

Falta pouco! Não vou precisar ver mais àqueles que ostentam o título de pastor fazendo campanha e usando o nome de Deus para legitimar o seu apadrinhado político ou a si mesmo. Pessoas que confundiram ou nunca entenderam a primazia da vocação pastoral acima de qualquer coisa. Falta pouco! Só em pensar de que não vou ouvir mais àquele velho discurso “irmão vota em irmão” já será bom demais.

Falta pouco. Os carros de som irão parar de poluir a cidade com as músicas mais esdrúxulas que já escutei – sem contar que é de extremo mau gosto muitas delas. Só em saber que isso irá acabar eu não vejo a hora de chegar 7 de Outubro.

Falta pouco para acabar com aqueles apertos de mão que você só se vê neste período. É nessa época que candidatos entram nas casas de gente simples, toma café amargo, faz carinho no cachorro, pega a criança no colo, dá tapinhas nas costas. Falta pouco para acabar com isso.

Falta pouco para que pessoas continuem lucrando com o voto vendido. Essas pessoas são a vergonha do País e nunca entenderam de fato o processo democrático, que, diga-se de passagem, custou muito de muita gente – dar ao povo brasileiro a prática da cidadania. Infelizmente há os corruptos passivos e ativos, e nesse caso não sei quem pode ser pior.

Falta pouco para não ver mais igrejas sendo usadas como curral eleitoral de líderes que suplantam a dignidade do processo eleitoral fazendo barganha com candidatos em troca de pouca coisa.

Falta pouco e não vejo a hora de chegar.

28.9.12

AS AGRURAS DO PASTOREIO

Seria muito bom se pudesse chegar a uma comunidade e vermos as coisas prontas. Como isso seria incrível. Mas isso nunca será possível. É assim porque em uma comunidade a matéria-prima são as pessoas, e gente sempre demanda cuidado e tempo.

O pastoreio lida diretamente com as pessoas. E as pessoas são assim: tem potencialidades, frustrações, alegrias, tristezas, qualidades e defeitos. Equacionar tudo isso não é tarefa muito fácil.

Eu invejo àqueles pastores e líderes que gastam a maior parte do seu tempo com cimento e tijolos e medem a frutificação do seu ministério a partir de obras. Seria muito bom se isso fosse possível no meu entender. Eu gostaria mesmo de medir o meu ministério a partir da receita da igreja, bastava cobrar, cobrar e cobrar a igreja; ah como eu gostaria de medir o pastoreio a partir da frequência dos irmãos nos cultos e principalmente nos Encontros Bíblicos de Domingo (EBD). Mas isso não é possível. Seria mais fácil, porque sempre é mais cômodo chamar atenção, prender e soltar, criar regras e estabelecer legalismo como ferramenta de pastoreio, mas isto não tem nada a ver com Jesus.

O pastoreio tem as suas agruras. Jesus teve as suas quando teve que lidar com a rejeição de parte de seus ouvintes porque não entendiam o que ele queria de fato – nada mais do que o senhorio do Reino de Deus; ele teve que trabalhar os seus discípulos porque a maioria deles alimentava apenas o lado político e messiânico do seu ministério; ele teve que lidar com uma Jerusalém, que assim como os profetas do Primeiro Testamento (AT), recusaram o seu pastoreio e ele não pode pastorear àquela gente, cuidar daquele povo, mostrar a eles o rosto materno de Deus assim como a galinha faz com os seus pintinhos. Se eu fosse citar os inúmeros dissabores que Paulo padeceu no seu ministério o texto perderia o seu objetivo. Fico apenas com Jesus.

Lidando com pessoas sempre haverá agruras. E está aí a dinâmica do pastoreio.

Jesus teve uma grande maioria que ouviram os seus discursos, mas poucos se envolveram com a sua pessoa. No ministério pastoral funciona da mesma maneira. Sempre haverá uma porção da comunidade que se liga ao pastor mais profundamente do que outros. Isso é um fato. Assim como Jesus, o pastor deve entender que nem todos gostarão da sua postura; nem todos irão assimilar o seu discurso; nem todos estão propensos a seguir a sua liderança. Mas assim como Jesus também, o pastor não deve concentrar suas forças e energia na direção dos detratores. Isso é gastar um tempo precioso que poderia ser empregado na direção daqueles que querem caminhar junto.

Já faz algum tempo que conversava com um amigo e colega de ministério e ele dizia que gostaria de estar indo para outro lugar a fim de estar tratando dos mesmos problemas, mas com pessoas diferentes. É a pura verdade. Os problemas podem até ser parecidos, mas as pessoas são únicas e essa é a graça do pastoreio – marcar pessoas tendo como ferramentas a pessoalidade, o caráter e o amor, mesmo com as agruras.

10.8.12

O PASTOREIO A PARTIR DE JESUS E PAULO – OBSERVAÇÕES QUANTO AO MODELO PASTORAL E AS CRISES DO MINISTÉRIO

1º Conclave Pastoral 
Ordem dos Pastores Batistas do Brasil, Subsecção – Vale do Ribeira 
4 de Agosto de 2012 – Hotel Estoril, Registro/SP

Um dia de sol; um lugar acolhedor; uma comida boa; os amigos, os colegas e irmãos de diferentes denominações. Este foi o cenário do 1º Conclave Pastoral. Um dia para refletir e ponderar algumas questões quanto aos desafios e os dilemas do ministério pastoral.

O nosso convidado foi o Pr. Natanael Gabriel da Silva (Igreja Batista Central – Sorocaba/SP). Alguém com trinta (30) anos de ministério pastoral.

Quem pensou que iria ouvir teorias sobre o crescimento de igreja ou modelos importados de crescimento, ou ainda, sete passos para ser bem sucedido no ministério e etc., ficou frustrado, apesar de ter a impressão de que o grupo lá presente esperava aquilo mesmo, ou seja, nada do mesmo. O Pr. Natanael abordou a figura do pastor em suas diferentes perspectivas, mas priorizou o texto bíblico e o modelo de Jesus e de Paulo no pastoreio.

Com uma hermenêutica centrada na construção teológica e comunitária do evangelho de Mateus, o expositor passou a identificar as características do ministério de Jesus e seu momento introspectivo, ou seja, o momento em que ele – Jesus – avalia o seu ministério a partir das circunstâncias.

O modelo pastoral de Jesus se dá na contramão de duas tendências bem nítidas no seu tempo: o modelo sacerdotal e o modelo profético. No primeiro, Jesus não se assimila de modo nenhum com o modelo sacerdotal, pelo contrário, esse modelo é identificado como opressor na figura dos sacerdotes do Templo de Jerusalém. No segundo modelo – profético – no qual Jesus faz parte, mas não nos moldes que o profeta era associado no seu tempo – como foi João Batista. A diferença entre os dois, Jesus e João, se dá no teor da mensagem e na maneira de proclamá-la. Enquanto João era duro com suas palavras e pregava o fim eminente de todas as coisas, Jesus, por outro lado, pregava o Reino de Deus e sua construção a partir de uma mensagem que confronta a consciência e provoca uma reação.

O capítulo onze (11) de Mateus foi alvo da exposição do Pr. Natanael. Neste capítulo, fazendo uma exegese a partir da compreensão de que todo o evangelho de Mateus é uma construção literária e teológica da história de Israel, Jesus tem um diálogo com os discípulos de João Batista que o questiona ser ele o Messias ou não. A resposta de Jesus é dada por meio do que está acontecendo. Ao final do capítulo onde é senso comum interpretar os versos 28 a 30 como sendo um texto “evangelístico”, ou seja, um texto para evangelizar pessoas que ainda não pertencem à Igreja, há um processo de reavaliação do ministério de Jesus. Nestes versos, Jesus fala com Deus-Pai sobre si mesmo. Aqui é Jesus colocando o seu modelo pastoral: mansidão, leveza, descanso, alivio. Diferente de João, Jesus tem a preocupação de pastorear com prerrogativas pouco convencionais tanto para os seus discípulos quanto para o imaginário profético do seu tempo. Mas é esse o modelo que ele deixa e procura imprimir em seus discípulos.

Não será os milagres a base do pastoreio; não será o texto-retórica que dará funcionalidade à pastoral. O que realmente dá suporte ao ministério pastoral é a pessoalidade. A pessoalidade de Jesus que dá a ele todos os ingredientes necessários para ser manso e humilde e oferecer descanso e leveza.

Diante desse modelo, ignorado é verdade, somos chamados a retomar a prática do pastoreio a partir das premissas de Jesus. Mas essa não é uma tarefa fácil. Há diante de nós os estigmas da institucionalidade que preserva as estruturas em detrimento de pessoas; existe a tal “concorrência” no segmento “evangélico” em que cada movimento ou denominação quer ter seu espaço sendo a mídia a grande aliada de modelos pastorais que se assemelham muito mais ao modelo sacerdotal que ao modelo pastoral de Jesus. Ainda pesa sobre nós a velha e inadequada concepção de que pessoas são números (quantidade de membros) e ministério pastoral é apenas mais uma profissão, e bem lucrativa, diriam alguns.

Jesus nos convida para pastorear com pessoalidade. Sem subterfúgios, apenas pastorear.

No período da tarde somos agraciados com uma leitura de Paulo a partir das duas Cartas aos Coríntios.

Depois de uma breve exposição quanto ao contexto de Corinto e sua diversidade de problemas como as religiões gregas, a moralidade e as questões de ordem pastoral na igreja com sua divisão entre grupos, inclusive um de Paulo, e a inconstância doutrinaria da igreja, Paulo na segunda Carta expõe toda uma problemática com a igreja e faz transparecer a face de um pastor que, pelas circunstâncias, mostra as debilidades do pastoreio e a difícil equação entre o procedimento político e pastoreio.

Depois de apontar os diversos desvios (pecados) da igreja em Corinto – noticias essas trazidas por Cloe (possivelmente sendo um grupo partidário de Paulo) daí a sua fala a partir das informações recebidas – na segunda Carta Paulo no segundo momento faz a sua defesa e por fim ele se faz de vítima.

Os capítulos onde (11) e doze (12) de 2Co é a mostra de alguém que procura ser respeitado, lembrado por aquilo que fez, mas não gostaria de dizer que fez e, que por isso, deveria ser respeitado por isso. Na verdade Paulo tem uma crise no seu pastoreio com a igreja de Corinto por se tratar de uma igreja que demandava certo trato político e ao mesmo tempo habilidade pastoral para lidar com as questões que ela passava.

Paulo estava em busca de reconhecimento e o que encontrou foram frustrações. A crise de Paulo é semelhante à de muitos pastores: pastorear por meio do amor ou desejar ser valorizado pela igreja-instituição. Paulo não soube lidar com esse dilema e no final do capítulo doze (12) ele fala como um “insensato”, ou seja, alguém que está reivindicando algo que na verdade não deveria por se tratar da natureza do ministério pastoral.

A ferramenta principal de Paulo era o pastoreio por meio da espiritualidade. Mas se tratando das questões de Corinto, Paulo não soube pastorear àquela comunidade e isso não foi bom para a sua vida e ministério.

Com Jesus temos o modelo de pastoreio (Mt 11,28-30). Com Paulo temos o exemplo de como não cometer erros quanto ao trato de uma igreja tão problemática como foi à comunidade de Corinto. Paulo deixa o modelo de como não incorrer em erros que frequentemente o pastor se vê envolvido dentro de uma distancia tão mínima que é entre a igreja-instituição e o pastoreio.

O pastoreio em tempos pós-modernos não necessita ter critérios de números de membros; o alvo do ministério não pode ser medido quantitativamente. Ele é muito mais que isso. Ele é doação do coração do pastor às ovelhas que necessitam do seu cuidado. Se for possível um pastoreio assim, não cometeremos o erro de achar que, pela função, devemos ser reconhecidos como tal.

1.8.12

ENTRE DISCÍPULOS E MULTIDÃO: A DIALÉTICA “EVANGÉLICA” HOJE

É típica nos evangelhos sinóticos a distinção entre multidão e discípulos. Por um lado há discípulos que seguem Jesus, e por outro há a multidão que vai atrás.

As semelhanças entre multidão e discípulos são evidentes. Tanto a multidão quanto os discípulos estão ouvido às palavras de Jesus em diversas ocasiões nos evangelhos. A multidão é amigável; ela fica maravilhada com os ensinamentos de Jesus (Mt 7,28). As diferenças entre esses dois segmentos também são claros. A multidão não tem rosto; ela é anônima; a multidão é mutante, em um momento busca Jesus em outro momento prefere Barrabás; na multidão não há uma constância; a multidão quer estar junto de Jesus, mas não quer se comprometer com ele; a multidão vai atrás de Jesus não pelos seus ensinamentos, mas pelo milagre dos pães (Jo 6). Os discípulos seguem Jesus. Mesmo não entendendo muita coisa da caminhada de Jesus e sua mensagem sobre o Reino de Deus, estão lá; mesmo dormindo no Monte das Oliveiras, mas estão lá.

Essa dialética – multidão e discípulos – me fez lembrar um livro do teólogo jesuíta uruguaio Juan Luis Segundo – Massas e minorias: na dialética divina da libertação (São Paulo: Loyola, 1975). Nesse texto Segundo trata da dimensão minoritária e massificante do Cristianismo colocando de que, originalmente, Jesus visou uma minoria – os discípulos, por exemplo – e não estava atrás da massa e nem mesmo se deixa se encantar por ela. Um livro que vale a pena ser lido por ser tão atual para os nossos dias.

Essa relação multidão-discípulos e massa-minoria são patentes no segmento denominado de “evangélico”. Parece que há uma sensação de que quando a massa está aderindo ao movimento (dados do IBGE apontou os “evangélicos” em 22,2% da população brasileira) é sinônimo de crescimento do Reino de Deus. Os pastores, bispos e apóstolos midiáticos quando atraem multidões é sinal de que Deus está “salvando” pessoas. Seria bom que fosse! A mensagem de Jesus sobre gratuidade, amor, perdão, diálogo, ou seja, os valores inegociáveis do Reino de Deus, não são vinculados nas grandes reuniões de milagres e vitória financeira. É a formação de multidão que corre atrás do milagre, da cura, não, propriamente de Jesus. Quando Jesus quis ensinar a multidão ela se dispersou, ouvir Jesus e seus ensinos não era relevante.

O segmento “evangélico” de massa está abarrotando os bolsos de pessoas que estão lucrando com a fé. Há verdadeiros impérios financeiros construídos a partir da boa vontade de pessoas que, sem arrependimento, não encontraram Jesus, mas sim Mamom (Mt 6,24).

Essa síndrome da massa tem, infelizmente, prejudicado a noção de comunidade. Geralmente a pergunta entre os pastores quando se conhecem é: “quantos membros tem a sua igreja?”. Pelo que me consta o evangelho de Cristo tem a ver com doação ao próximo; com a nossa maneira de ler a realidade; com a transformação da vida a partir do Reino de Deus. Portanto, não aceito um “evangelho” que ignora a premissa máxima da mensagem de Cristo – “buscar em primeiro lugar o Reino de Deus” (Mt 6,33).

14.7.12

TEOLOGIA(S) PARA ESTE TEMPO – DUAS PERSPECTIVAS EM DEBATE

Observações quanto ao debate entre Jung Mo Sung e Franklin Ferreira

Com o advento da chamada pós-modernidade as mudanças passou a serem frequentes. A efemeridade das coisas, dos conceitos e ideologias se tornou um fato. A dinâmica das mudanças não dá conta nem mesmo para o processo de habituação. Com a globalização – fenômeno que norteia não apenas a economia – as questões religiosas foram colocadas na pauta das discussões. Nas observações de João Batista Libânio, somos chamados, falando como teólogos, a pensar essa realidade com relevância e honestidade. Na sua vasta bibliografia, Libânio aborda as implicações dos fenômenos globalização e secularização (este último mais presente na Europa e EUA, mas já perceptível na América Latina – e no Brasil, segundo dados do IBGE os “sem-religião” saltou entre 2000 a 2010 de 4,7% para 8%) procurando apontar prospectivas coerentes para este tempo. No caso dele, um teólogo católico-romano, a dificuldade é alinhar mudanças de paradigmas com a Tradição da Igreja. Suas análises são pertinentes principalmente para enxergar onde a demanda teológica precisa ser mais contundente. As conclusões de Libânio e outros pesquisadores do tema Teologia e Sociedade concluem que a base antropológica da nova (um termo de José Comblin) cultura é pluridimensional, ou seja, é um ser humano que tem na sua subjetividade um valor em si. Daí a razão não ser mais o único caminho para a felicidade (como na Modernidade), mas ser, dentre outras, mais uma possibilidade de leitura do mundo.

Quando entramos no segmento protestante vemos que persiste o mesmo problema – lidar com as mudanças deste tempo em suas diferentes áreas. Tanto católico-romanos quanto protestantes estão discutindo as linguagens da nova cultura que é dinâmica. Quanto aos católico-romanos há uma clara distinção entre progressistas e conservadores sendo patente em reuniões (como foi na Conferência de Aparecida) e publicações. Já no universo protestante – onde a unidade nunca foi o ponto central, é fragmentado por natureza – as questões hodiernas têm sido tema de livros, palestras e debates. Duas tendências estão evidentes – conservadores (identificados, por alguns, como fundamentalistas) e não conservadores (identificados, por alguns, como liberais).

Essas duas vertentes se dá, principalmente, nas publicações. A ala conservadora tem deixado bem claro que não há diálogo com a nova cultura, mas confronto. Daí o aumento de livros sendo traduzidos que tratam da apologética numa clara mensagem de que a nova cultura precisa ser combatida – aliás, um dos livros (Em guarda, Vida Nova) do apologeta mais traduzido no Brasil, William Lane Craig, tem na capa um homem segurando uma espada – é a dimensão da defesa e do ataque. Neste mesmo intento as teologias sistemáticas estão dando a sua contribuição, reafirmando doutrinas e práticas tendo como referenciais teóricos e metodológicos teólogos norte-americanos. As teologias sistemáticas sempre funcionaram como formadora da educação teológica no País em seminários e faculdades das denominações protestantes.

Tanto a apologética quanto as teologias sistemáticas procuram estabelecer fronteiras para se pensar os rumos da cultura e seus desdobramentos em diversas áreas. A reivindicação de ambas é a posse da verdade, como discurso legitimador da fé e sua prática.

Dentro desse tema, educação teológica e a concepção sobre verdade, uma discussão me chamou atenção há algumas semanas. Ela se deu a partir de dois textos. O primeiro é de Jung Mo Sung, docente na UMESP na área de Ciências da Religião – Educação teológica e missão – um texto que foi publicado no livro Missão e educação teológica (ASTE, São Paulo). O outro texto é uma reação ao texto de Sung do consultor acadêmico de Edições Vida Nova Franklin Ferreira – Educação teológica e missão: uma resposta ao artigo de Jung Mo Sung. O texto de Sung provocou a reação de Ferreira devido o uso da Teologia Sistemática que este último escreveu com Alan Myatt. Os pormenores aqui não são de interesse pelo espaço, mas o que chamou a atenção é a clara distinção de ideias e posturas frente aos desafios da nova cultura. Enquanto Sung procura trabalhar a partir da subjetividade – um paradigma pós-moderno –, Ferreira advoga o conceito de revelação e verdade a partir de uma leitura bíblica e agostiniana. Enquanto um (Sung) defende uma educação teológica inclinada para uma nova linguagem tendo como ponto a experiência, o outro (Ferreira) pontua a relação Bíblia, revelação e Jesus Cristo como sendo unívocas.

É uma discussão interessante. As duas perspectivas são antagônicas, enquanto uma (Sung) delineia uma postura de adequação e diálogo com uma realidade plural, a outra (Ferreira) se dá a partir da igreja alegando que “quando a igreja é reformada, a sociedade é modificada”.

Diante desse acalorado debate fica evidente de que há duas perspectivas quando se trata de dialogar Igreja e Sociedade. Venho propondo uma via, a Teologia Pública, como uma alternativa a este cenário.

3.7.12

“CRESCEI E MULTIPLICAI-VOS”: OBSERVAÇÕES QUANTO AO AUMENTO DOS “EVANGÉLICOS” NO PAÍS

O IBGE divulgou dados do último censo e nele os denominados evangélicos saltou de 15,4% da população brasileira em 2000 para 22,2% em 2010. Isso é bom! Que ótimo! Isso significa que os “evangélicos” logo serão maioria – comemoraram alguns.

Em outro texto, neste blog, justifiquei – antes mesmo de Ricardo Gondim – o meu distanciamento da nomenclatura evangélico por entender que ele não cabe mais como mediador de sentido.

Mas diante dos novos dados do IBGE, gostaria de tecer algumas considerações quanto às implicações do crescimento dos evangélicos no país. Embora saiba que há pouquíssimos leitores deste blog (nem todo mundo gosta de ler bobagens – risos) aponto algumas coisas que considero pertinentes para o debate.

- A igreja evangélica cresce sem maturidade espiritual. Não há uma preocupação com um crescimento significativo na vivência cristã e seus desdobramentos em cidadania. São poucos os evangélicos, por exemplo, que esmeram em conhecer a Bíblia. Há uma hermenêutica sendo produzida na televisão, onde pessoas acatam o que o pastor, bispo ou apóstolo televisivo falou como se fosse um fato inquestionável. A falta de maturidade levam pessoas a contribuir com seus bens para que um império, erguido em nome da fé, seja cada vez mais abastecido e possa continuar na concorrência com outras denominações. Essa prática é bem mais visível no segmento neopentecostal e ainda bem que o próprio IBGE já faz a diferença entre os segmentos dividindo católicos, protestantes (históricos), pentecostais e neopentecostais.

- Não há um entendimento de que a igreja tenha um papel missionário holístico para a sociedade brasileira. As denominações não entram em acordo quanto a isso. Enquanto um está preocupado em como arrebanhar empresários para as suas reuniões, outras estão em busca de promoção própria. Não há missão, sim competição; não há uma clara concepção missionária no sentido de evidenciar os valores do Reino de Deus na sociedade, há proselitismo.

- Esses números, infelizmente, irá abastecer o marketing de alguns personagens do cenário evangélico. Os números servirão para que a Rede Globo coloque mais personagens evangélicos em suas novelas e contrate o maior número possível de artísticas do mundo gospel para a sua gravadora, a Som Livre. Isso porque o Jesus gospel está em alta. Há um comércio altamente lucrativo usando a marca Jesus. É um Jesus de vitrine, onde as pessoas se relacionam com ele através dos produtos. O Jesus gospel é badalado; ele é aclamado; pula-se nos estádios por ele; compram-se inúmeros produtos dele; há marcas de roupa, cosméticos e até mesmo celulares dele. Não é discipulado. Não é seguimento do Reino. É um Jesus para curtir.

O número de evangélicos pode até ser superior em 2050, mas tenho as minhas dúvidas se teremos uma igreja nos moldes do Segundo Testamento (NT).