18.2.12

ORGULHO DE (NÃO) SER EVANGÉLICO

Em solidariedade a Ricardo Gondim

Eis um universo em que mídia e religião se dão as mãos. Este é o universo dos galácticos do mundo neopentecostal. O interesse na massa e fé como instrumento de barganha com Deus; o culto a personalidade; as conquistas financeiras como sinais da “bênção de Deus”. É por esses e outros motivos que não me considero “evangélico” há muito tempo. Já escrevi neste blog alguns devaneios neste sentido, o mais significativo foi “por que não sou mais evangélico”.

Nesta postagem quero ser solidário ao pastor que foi Católico Romano, presbiteriano de dormir com as Institutas de Calvino e se orgulhar disso, que foi para a Assembleia de Deus e vivenciou o farisaísmo de uma denominação que postula a “posse” do Espírito Santo que deixou de ser assembleiano e organizou a Betesda, agora afirma que está deixando o que ele chama de “Movimento Evangélico”.

Outrora Gondim escreveu em 2000, pela Editora Ultimato, Viçosa/MG, “Orgulho de ser evangélico”, se fosse possível hoje ele mudaria o título daquele livro. Hoje ele tem orgulho de não ser evangélico.

Em seu texto que se despede do “Movimento Evangélico” intitulado Tempo de partir (disponível em: < http://www.ricardogondim.com.br/estudos/tempo-de-partir/>), o pastor pentecostal faz algumas assertivas que merecem ser pontuadas aqui. Ele diz:

 - Vejo-me incapaz de tolerar que o evangelho se transforme em negócio e o nome de Deus vire marca que vende bem. Não posso aceitar, passivamente, que tentem converter os cristãos em consumidores e a igreja, em balcão de serviços religiosos. Entendo que o movimento evangélico nacional se apequenou. Não consegue vencer a tentação de lucrar como empresa. Recuso-me a continuar esmurrando as pontas de facas de uma religião que se molda à Babilônia.

Não desejo me sentir parte de uma igreja que perde credibilidade por priorizar a mensagem que promete prosperidade. Como conviver com uma religião que busca especializar-se na mecânica das “preces poderosas”? O que dizer de homens e mulheres que ensinam a virtude como degrau para o sucesso? Não suporto conviver em ambientes onde se geram culpa e paranoia como pretexto de ajudar as pessoas a reconhecerem a necessidade de Deus.

Posso ainda não saber para onde vou, mas estou certo dos caminhos por onde não devo seguir -

Gondim está certo. Não dá mais para se identificar como “evangélico” nesse país. Está muito deturpado esse conceito. Ele não tem nada haver com o conceito que surgiu na Reforma Protestante. Portanto, acho imprescindível fazer uma ruptura com esse evangelho mercadológico que tanto tem desvirtuado os valores do Reino de Deus.

3.2.12

ESPIRITUALIDADE AFETIVA

Enquanto alguns apontavam o desmantelamento da religião como organizadora de sentido, outros continuaram dando a ela o crédito de ser mediadora, com algumas baixas é claro, da existência humana.

A desconstrução de um Deus gestado a partir da metafísica começa a ter voz com F. Nietzsche com o seu famoso enunciado “Deus está morto”. O filósofo alemão marca uma ruptura entre Sagrado e religião institucional.

Com a pós-modernidade se delineou um novo modo de se pensar e viver religião. Outrora o conceito de Deus/Religião produzido no Ocidente a partir da filosofia grega e a escolástica, não se torna mais possível em uma cultura onde a existência e o sentido das coisas são profundamente revisto pelos mestres da suspeita – K. Marx, S. Freud e F. Nietzsche.

Indubitavelmente a secularização e a globalização, a religião se vê num dilema: antes era possível uma religião burocrática, fixada em suas posições doutrinárias e dogmáticas, agora uma realidade de fraqueza e impotência em relação ao ser humano pós-moderno. A secularização relativiza a religião; o fim da metafísica leva a repensar a transcendência. Se antes a religião era centralizadora, hoje se faz desnecessária num contexto de sociedades flutuantes e dinâmicas, pelo menos no Ocidente.

Assim como religião não pertence mais a lugares específicos de produção simbólica, o conceito de Sagrado esta ganhando outras proporções também. O indivíduo molda sua crença em torno da disponibilidade religiosa que encontra. Neste sentido se antes religião significava códigos definidos, ritos, normas morais e discurso institucional, agora carrega em seu campo semântico a ideia de busca pela transcendência, o ato de transcender, a busca pelo bem-estar espiritual.

Eis o problema. De um lado a religião institucionalizada não é mais atrativa; por outro lado ainda chama atenção à espiritualidade e os valores pregados pela religião. A questão é abrir caminhos para dialogar com este tempo em que o místico substituiu o doutrinário, o afetivo superou o ritual e o experiencial suplantou o institucional.

No Brasil o fenômeno dos “sem-religião” cresceu como apontou o último senso IBGE. Em seis anos foi de 0,7% para 2,9%, ou seja, são quatro milhões de brasileiros que não tem vínculo nenhum com uma religião institucionalizada. Mas isso não significa que não nutrem ou cultivem alguma espécie de espiritualidade.

Tendo este cenário religioso como contexto, a espiritualidade em diferentes formas borbulha. Daí a sua dimensão pública, pois não necessita estar vinculada a nenhuma religião para vivenciar a sua dimensão espiritual. A religião que outrora era produtora de sentido e mediadora de bens simbólicos do imaginário religioso se depara agora com indivíduos que fazem as suas bricolagens espirituais e escolhas próprias, sedimentando, costurando suas próprias combinatórias simbólicas.

O cientista da religião Alberto da Silva Moreira constata outro viés da espiritualidade dentro desse novo contexto:

É preciso perceber que a satisfação de grande parte das necessidades espirituais das pessoas não depende da compreensão ou da inserção em grandes sistemas religiosos, como uma opção consciente e clara, que implicaria numa fidelidade duradoura. Grande parte das pessoas se contenta com fragmentos que fazem sentido para elas naquele momento, com partes desconexas, com imagens e rituais desacoplados, sem longas fundamentações teológicas e com memória histórica bastante curta. O que orienta a decisão às vezes é a lógica do custo-benefício, a satisfação subjetiva, a confirmação da instância interior.

Está dada a concepção de uma espiritualidade afetiva.

Se antes a concepção de fé cristã era mais um exercício mental – aprender, recitar, decorar e expor apologeticamente – neste cenário não cabe mais essas prerrogativas, mas as experienciais.

A igreja sempre priorizou doutrinas, dogmas, ter certezas sobre a eternidade e deixou de vivenciar uma espiritualidade que focasse o ser humano como mediador de santidade (é o tema da carta de 1Jo).

Uma espiritualidade afetiva lê a Bíblia sem procurar nela verdades inquestionáveis sobre a vida, antes lê a Bíblia com afeto e assim seguem Jesus.

21.12.11

A GLOBALIZAÇÃO GOSPEL ­– O CASO DO “FESTIVAL PROMESSAS” DA REDE GLOBO

Globalização é a palavra do momento na conjuntura mundial. Nas palavras de Renato Ortiz (sociólogo brasileiro), globalização significa “produção, distribuição e consumo de bens e serviços”. Este processo se estende para aspectos políticos, econômicos – uma das principais vertentes – e culturais. Mas o mais impressionante na esfera da globalização é o segmento midiático. A capacidade de influenciar e gerar comportamentos a partir da mídia. Em resumo, a globalização midiática proporcionou o surgimento de uma sociedade que valoriza o espetáculo, o show. O consumismo é patrocinado pela mídia e são duas forças que operam juntamente. Uma não vive sem a outra.
No dia 18 de Dezembro foi ao ar o “Festival Promessas” da Rede Globo. Para alguns foi o ápice do “evangelho” no Brasil; para outros não houve “evangelho”; alguns entenderam como “providencia divina” o fato da “poderosa” Rede Globo mostrar pela primeira vez um show tido como “evangélico”, logo ela (Globo) que sempre marginalizou qualquer notícia veiculada pelos “evangélicos”. Foi de Deus, exclamariam alguns. É Deus usando ímpios para levar adiante o evangelho, diriam outros.

É fato que a religiosidade tida como “evangélica” tende a espiritualizar tudo, não poderia ser diferente com isso, daí a explicação mais razoável: o que aconteceu foi a “mão de Deus” agindo. Não quero fazer aqui está leitura, não sou tão otimista assim.

A globalização é isso. Ninguém detém um monopólio por muito tempo. A globalização não está interessada em dogmas, doutrinas, denominações, isso não gera lucro. O interesse é de mercado mesmo. Acontece que a Rede Globo está atenta aos últimos dados do IBGE e viu que na sociedade brasileira um segmento cristão não católico está tendo um crescimento expressivo nas últimas décadas. Assim como refrigerante, cerveja e celular, religião também vende, dá lucro, e como dá. E não vale aqui o espantado com isso porque os neopentecostais ensinaram muito bem como funciona o marketing desse produto chamado indevidamente de “evangelho”.

Ocorre que é sempre um problema quando uma linguagem tida como secreta – as dos evangélicos não midiáticos, ou seja, os que não detêm uma rede de televisão ou programas de TV – veem seu discurso ser transformado em linguagem coloquial como “entra na minha casa, entra na minha vida”. Antes com um discurso hermético que somente os iniciados na religião aprendiam como “Deus de vitória” e coisas assim, vê-se agora transformado em algo comum, onde todos podem ter acesso sem precisar frequentar alguma igreja! Esfumaçou a distancia do sacro santo ambiente igrejeiro do profano e perdido mundo “jaz no maligno”. Isso deve ser um incomodo e tanto. Antes a emissora do BBB e das novelas que faz campanha abertamente a favor da cidadania homossexual é a agora a TV “usada por Deus para propagar o evangelho”. Antes o televiso Silas Malafaia “descia o cassete” – no seu próprio linguajar – na Rede Globo. Agora, ambos, estão de olho no crescente “mercado gospel”. Como as coisas mudam. Incrível.

Não estou nem um pouco interessado se é o homem dos R$ 900,00 e da “unção financeira” ou a Rede Globo que querem abocanhar a porcentagem de “evangélicos” no Brasil. Isso é simplesmente negócio, apenas isso. É venda. É lucro. É mercado. E quem faz com que isso seja assim são as pessoas que pensam que comprando o CD, o DVD ou o livro do fulano estarão mais próximas de Deus!

Não é Deus que “abriu” as portas para o “louvor e adoração” na Rede Globo. É apenas dinheiro.

Não sei, mas acho que se Jesus estivesse aqui ele faria o mesmo com tudo isso como fez no templo de Jerusalém quando expulsou os cambistas que exploravam o povo com a venda de oferendas. Infelizmente isso não será possível. Enquanto isso viva a globalização gospel.

20.12.11

DO PALÁCIO DE HERODES À MANJEDOURA DE JESUS – UMA METÁFORA DO NATAL

Nessa época do ano ficamos mais sensíveis às coisas. Parece que olhamos para a nossa condição humana e percebemos que as coisas poderiam ser melhores. Pena que isso só ocorre neste período.

Esse sentimento é o espírito de Natal. Embora a data não seja essa, e há quem acredite piamente que Jesus nasceu no dia 25 de Dezembro, a tradição cristã comemora um dia, mas não é o dia, como algo exato, mas a lembrança do menino Jesus.

As narrativas do Natal nos evangelhos de Mateus (Mt) e Lucas (Lc) quer sempre nos ensinar algo. Não é apenas o relato de um nascimento, mas algo a mais. É fato que as duas narrativas (Mt e Lc) não são idênticas. Se alguém estiver procurando nelas fatos históricos, no sentido cartesiano de pensar, está equivocado. Os textos não querem ser prova de nada, pelo contrário, querem evocar uma celebração – a graça de Deus se manifestou a todos e começou inofensivamente num menino, Jesus. Portanto, nas narrativas, os autores teologizaram em torno do nascimento cada um com um enfoque teológico diferente. Enquanto Mt olha para José, Lc vê Maria; enquanto em Mt José e Maria moram em Belém, em Lc eles vão para Belém; enquanto Mt coloca Jesus a caminho do Egito – por uma questão comparativa que o autor faz entre Moisés e Jesus –, Lc Jesus volta para Nazaré. Em Mt são os “magos”; em Lc são os “pastores”.

Interessante notar que ambos, Mt e Lc, colocam um fundo político na narrativa. Em Lc vemos a sua preocupação com os desfavorecidos, com os marginalizados, com os oprimidos pelo sistema político (representado pelos romanos), social (a divisão de classes entre os judeus) e religioso (o templo de Jerusalém como dominador do imaginário religioso). Ele tem um olhar todo especial para as mulheres, é por isso que logo no início de seu texto, Lc coloca como protagonistas Maria e Isabel. Numa cultura em que mulher não tinha nenhum valor, quer político, social, econômico ou religioso, Lc dá proeminência às mulheres. Não é por acaso que o texto de Lc 1, 31-53 está o que ficou conhecido como o “Cântico de Maria” ou o Magnificat. O anúncio do nascimento de Jesus, na teologia de Lc, provocou uma renovação de esperanças e forças; era a concretização dos sonhos do povo de Israel. Lc coloca na boca de Maria uma canção subversiva, contestatória, revolucionária. O nascimento de Jesus passa a significar a inversão dos valores, outrora considerados corretos; o nascimento passa a significar a redistribuição dos bens. Para Lc o nascimento de Jesus é um protesto, da parte de Deus, contra o abuso do necessitado pelo rico; é, ao mesmo tempo, a libertação dos oprimidos e dos fracos. O “Cântico de Maria” significa a quebra de barreiras e preconceitos contra a mulher e o início da igualdade nas relações de gênero. Ocorre o surgimento de novas relações, não mais baseadas na exploração e no descaso pelo outro, mas na equidade. Se outrora o orgulho, aquele que se considera acima dos outros, detinha o poder, ele é destronado; se outrora os poderosos/ricos menosprezavam e condenavam o pobre ao descaso, agora ele é esvaziado de sua arrogância. Os humildes, aqueles que, no entender de Lc, não almejam o poder, são exaltados. É uma leitura politizada.

No caso de Mt a figura política é Herodes. O capítulo 2 Mt usa como construção literária um recurso conhecido como midraxe – é a explicação de um texto bíblico feita livremente com alegorias, imagens, comparações e até mesmo fantasias. Mt quer equiparar Jesus à Moisés e para isso ele, habilidosamente, constrói um texto em que Jesus e Moisés são semelhantes. Assim como o Faraó procurou matar crianças no Egito e Moisés é poupado milagrosamente, Herodes faz o mesmo; assim como Moisés vai para o Egito, Jesus tem o mesmo caminho; assim como Moisés sobe ao Monte Sinai e recebe os Dez Mandamentos, Jesus profere as dez (contando com o versículo 12) bem-aventuranças no monte.

No capítulo 2, Mt está colocando propositadamente a figura de Herodes, o Grande, em contraste com o menino rei Jesus – “nos dias do rei Herodes”. Há um conflito aqui entre dois reis que são distantes em propósito e diferentes em condições.

Herodes – este vivia os meandros da política. Estava acostumado com o jogo de poder. A sua busca era expandir sua riqueza e influência na conturbada região. Gabava-se de ser “amigo” do imperador romano e todos que eram contra ou representava alguma ameaça ao seu domínio ele procurava eliminar. Por conta disso matou os três filhos e a esposa. Herodes governava a partir de construções e embelezamento de cidades, inclusive foi financiador da reforma do templo de Jerusalém.

Herodes representa a inveja, o interesse próprio, o poder simplesmente por ter. Ele é o ícone da nossa sociedade em que as relações são estabelecidas pelo interesse.

Quando os “magos” procuram um rei que não seja ele, prontamente ele quer encontrar o menino a fim de mata-lo. Mt faz uma criança suplantar o notório e poderoso Herodes; ele faz uma flor parar um canhão; ele faz uma luz, ainda tão pequena, dissipar as densas trevas. A opulência do castelo de Herodes não foi suficiente diante da manjedoura. Há outro rei, exclama os “magos”, e este não é Herodes e mais, os presentes são para ele.

A manjedoura quer dizer Deus conosco. Um Deus que veio nos mostrar que a ordem das coisas pode mudar. A manjedoura é sinal de simplicidade, amor, acolhimento, visitação. O palácio gélido de Herodes é sinal de poder, sem graça, de força, sem autoridade, de ostentação de uma sociedade que busca nas relações de poder e na riqueza se encontrar.

A pergunta dos “magos” continua válida para a nossa sociedade: onde está o recém-nascido nisso tudo?

19.12.11

A SALVAÇÃO É MESMO PELA GRAÇA?

Estou conversando com a comunidade sobre a graça de Deus. Inevitavelmente um dos assuntos que envolvem a graça é a Salvação.

A graça que foi tema central na Reforma Protestante parece que virou apenas retórica na igreja e sua prática foi reprimida pelo farisaísmo que vemos presente em tantas pessoas que frequentam igreja.

A pergunta, a salvação é mesmo pela graça, é válida, uma vez que boa parte das pessoas que frequentam a igreja tem uma concepção equivocada da salvação.

O texto de Efésios 2,4-9 é clássico: “salvação é pela graça e não por obras, para que ninguém se glorie”. Infelizmente para algumas pessoas o que antecede a salvação não é a graça, mas o comportamento. Jesus diz: “venha como estás”, a igreja diz: “nem tanto, conserte-se primeiro”.

Outro equivoco é a ideia de que a salvação é individual. Sempre ouvi dizer que a salvação é algo individual. Essa afirmação só serviu para acentuar a individualidade das pessoas no quesito santificação. Elas dizem: “deixa o fulano, a salvação é individual mesmo”. Que tolice. Não há um só versículo bíblico que afirme esse conceito singular de salvação.

A salvação é desenvolvida na história, e sempre envolveu um povo e não indivíduos. Deus chama o povo de Israel e não Moisés especificamente. Deus elegeu o povo de Israel não pele seu mérito, pois não tinha nenhum (Dt 7,7-8). Com a igreja Deus predestina[1] para o “louvor da sua gloriosa graça”. A oferta da salvação é sempre coletiva – “porque a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens” (Tt 2,11) – a aceitação do ser humano que é individual, pois envolve fé.

Aquele terrorismo que se faz com a salvação que pode ser e deixar de ser salvo a qualquer momento é descabido. Salvação envolve uma comunidade – “Cristo é o cabeça da igreja, que é o seu corpo, do qual ele é o Salvador” (Ef 5,23) –, portanto não há como ser cristão individual. Não se vive cristianismo isolado. Isso porque o cristianismo não se resume em ter comunhão apenas com Deus, mas ter comunhão com Deus e com o próximo. É salvo quem faz parte de um povo salvo, quem está ligado ao corpo de Cristo.

A salvação pela graça de Deus tem como consequência a ruptura com o pecado, o pecado do qual fala Paulo, aquele que escraviza o gênero humano e submete a Criação a dores. É uma salvação da culpa e um canto de liberdade. É uma salvação de si mesmo, do egoísmo, do medo.

Não é uma batalha diária em que se autocondena por quaisquer falhas. Salvação é a certeza do amor de Deus agindo em nós; envolve esperança, vida e paz. Aqueles que vão à igreja (templo) para serem salvos estão enganados. A igreja (gente) é o encontro dos salvos.



[1] Para mais detalhes sobre a História da Salvação a partir da predestinação, ver meu artigo: Predestinação como parte da História da Salvação. Disponível em: http://ciberteologia.paulinas.org.br/ciberteologia/wp-content/uploads/2009/06/01Predestinacao.pdf

5.12.11

A GRATUIDADE DA GRAÇA NA COMUNIDADE: UMA EXPOSIÇÃO DE MATEUS 18

Na Memorial em Iporanga estamos refletindo sobre a graça de Deus. Gostaria de compartilhar uma dessas mensagens a partir do evangelho de Mt capítulo 18 (leia o texto).

Se apropriando do evangelho de Mateus, que juntamente com Tiago são explicitamente judaico-cristãos, mais especificamente o capítulo 18 (cap. 18), faço uma leitura do texto olhando para a comunidade mateana que reflete a fé em Jesus como o Messias e procura resolver seus problemas internos.

É uma comunidade que enfrenta problemas externos (os fariseus, principalmente) e internos (a própria comunidade). Quando o autor quer falar a sua comunidade ele mesmo nos dá uma chave de leitura, utilizando a palavra irmãos (gr. adelfoz). O cap. 18 é conhecido como o “discurso comunitário”, o centro da experiência eclesial no evangelho de Mt. O ponto central do discurso é a graça de Deus fechando o capítulo com os versículos 21ss.

Na comunidade que vivência a graça de Deus não há maior ou menor. Daí a pergunta dos discípulos não serem condizentes com o real sentido de ser comunidade: “quem é o maior no reino dos céus?” A criança é metaforicamente utilizada para dizer: na comunidade da graça de Deus não deve haver reivindicação de prioridade, de superioridade, de posição. Antes deve haver humildade, franqueza, respeito, consideração.

Mais a frente o autor de Mt utiliza a palavra pequeninos. Quem são os pequeninos? São os fracos da comunidade; são os que necessitam de atenção. Traduzindo para uma linguagem coloquial, são os irmãos que tem dificuldades em frequentar os encontros da comunidade; dificuldades em fazer uma leitura atenta da Bíblia; são aqueles que possuem debilidades em sua fé, e quem não as tem? São aqueles em que não se pode contar muito. Para com esses pequeninos o cuidado deve ser dobrado. É melhor morrer do que fazer um desses tropeçar no caminho do discipulado.

O autor do evangelho de Mt usa até mesmo uma linguagem apocalíptica para defender os pequeninos da comunidade. Utiliza-se de fogo, inferno. Quando ele fala de mão, pé, olho é uma linguagem simbólica para exemplificar as ações dentro da comunidade (vs. 8-10). Sem dúvida a questão do imaginário infernal como julgamento definitivo está presente no evangelho de Mt, mas aqui no cap. 18 está se dirigindo à comunidade. Aqui é configurada uma situação em que o membro da comunidade se afastou do seu maior objetivo, a própria comunidade. Para Mt é o falso irmão, e o “fogo” (símbolo tão controverso no Novo Testamento) é a frustração angustiante de que está afastado do que Deus deseja para a comunidade. Nesse caso, o texto não está falando de gente que não conhece a Cristo, mas sim de pessoas que dizem ter tido uma experiência com ele. Esse é o mesmo caso no cap. 25 versos 41-42, o julgamento final levará em conta a atuação ao próximo, e aqueles que não corresponderam quanto a essa prática, o destino será o inferno. Ele encerra a questão dos pequeninos contado a parábola da ovelha perdida, ou seja, deixa a noventa e nove no aprisco e sai a procura daquele que se perdeu. Tudo isso para dizer: não deixem que suas pequenas coisas afastem ou façam perecer os pequeninos da comunidade.

E quanto aos erros que toda comunidade tem? Mt irá regulamentar isso a partir do vs 15: “se teu irmão pecar contra ti...”. O roteiro é apresentado: primeiro entre as partes envolvidas, depois se não houver solução duas pessoas, persistindo, a igreja, recusando ouvir a igreja, tratar como alguém que nunca teve ou perdeu o senso de comunidade (gentio/publicano). Mas o foco maior mesmo está na boca de Pedro: “até quantas vezes devo perdoar, sete vezes?” O perdão na comunidade não é uma questão de contabilidade. Assim como Deus que nos libera perdão numa rotação máxima, deve ser a comunidade para com os erros do próximo. Mais uma vez Mt encerra contando a parábola conhecida como “credor incompassivo”. Uma grande dívida foi perdoada (o Pai e sua infinita graça) e mesmo assim aquele homem decidiu cobrar uma ínfima quantia de outro.

A graça na comunidade é assim: ela nos nivela, não existindo maior ou menor, todos como crianças; a graça exige cuidado para com os pequeninos (fracos) da comunidade e perdão para os erros que com certeza aparecem na comunidade. Essa é a graça de ser dependente da graça de Deus e de ser comunidade. 

28.11.11

TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO E TEOLOGIA DA PROSPERIDADE: CAMINHOS ANTAGÔNICOS

Recentemente saiu no Jornal Batista uma série de reflexões intitulada “O pastor do século 21 – uma reflexão na área da teologia” do querido pastor Isaltino Gomes Coelho Filho. O texto no Jornal Batista saiu fragmentado em diferentes edições, mas na internet é possível ler o texto na íntegra (http://www.isaltino.com.br/2011/09/o-pastor-do-seculo-21-uma-reflexao-na-area-da-teologia/).

Na terceira parte do texto, a necessidade de uma soteriologia correta, o Pr. Isaltino faz algumas considerações sobre a Teologia da Libertação e sua relação com a Cristologia Latino-americana. Ele diz:

A soteriologia da falecida teologia da libertação é de fundo econômico, mas ingenuamente alguns de seus propugnadores criam que Jesus era um modelo que os homens poderiam seguir e que assim seriam socialmente transformados. Sendo o homem intrinsecamente bom, as pessoas precisavam ver o “modelo Jesus”, e se disporiam a imitá-lo. Outros teólogos desta linha, como boa parte dos seus comentários bíblicos mostra, falam de tal de “projeto de Jesus”, que nunca entendi qual seja. Um desses comentários, em cada página trazia o tal “projeto de Jesus”. Parece-me que era de um levantamento das massas contra as famosas “elites”, de quem todos falam, mas nunca identificam. Mas a soteriologia sempre se liga à libertação da pobreza material.
Ideologicamente, a teologia da prosperidade é irmã gêmea da teologia da libertação, pois sua soteriologia também se liga à libertação da pobreza material. Só que seu viés é pelo exorcismo, e não pela política.

Quero tecer algumas considerações ao texto e faço aqui de forma bem simplória e pormenorizada.

Começo pela chamada Teologia da Prosperidade.

Esta surge nos EUA e seu principal expoente é Kenneth Hagin dentre outros. Como toda teologia é fruto de uma cultura, a Teologia da Prosperidade não poderia ser diferente. Os EUA é a potência responsável pela estabilização econômica do mundo, e por meio das armas e ideologia pressionar nações se comportando há muito tempo como a “polícia do mundo” e conseguiu, por meio de sua moeda e filmes, impregnar o Ocidente com a sua cultura e modo operacional econômico. Pragmáticos, donos da verdade absoluta, fundamentalistas em quase todos os assuntos, os EUA passa uma imagem de opulência financeira e defensores do capitalismo selvagem neoliberal. Diante desse quadro, só poderia mesmo vir de lá a Teologia da Prosperidade. 

No Brasil a febre pega lá pelos anos 70. Com a igreja brasileira sofrendo profundas mudanças, os líderes pentecostais importam o produto; assimila a sociedade de consumo; adéqua a mensagem ao mercado empresarial e formula um discurso triunfalista, repleto de prescrições como andar no sal grosso, passar pela “porta”, a campanha dos 318 pastores etc. Seus partidários são: R. R. Soares, Edir Macedo, Valnice Milhomens dentre outros.

Tudo isso eu tenho certeza que Isaltino já sabe.

Para quem nunca leu o livro de Eduardo Galeano, As veias abertas da América Latina, posso até entender que não reconheça neste continente a opressão econômica e ideológica vindas do norte durante décadas. Por conta disso o segmento evangélico na América Latina formulou a Missão Integral que teve no Congresso Mundial de Evangelização em Lausanne (1974), dando origem ao Pacto de Lausanne, cujo relator foi John Stott, o combustível para que teólogos latino-americanos como Orlando Costas, Samuel Escobar e René Padilla formulassem uma teologia holística para as necessidades do continente. Portanto não foi apenas a Teologia da Libertação que procurou confrontar as condições espirituais e econômicas do continente.

A Teologia da Libertação, da qual sou um partidário, surge na América Latina com uma proposta de restauração não apenas espiritual, mas integral do ser humano. A teologia importada do “american way of life” já não cabia mais no continente. Daí o surgimento de uma nova maneira de ver a vida comunitária e a teologia que ora foi acusada pelo Vaticano de ter como matéria-prima o marxismo, o que por si só é um reducionismo visto que na América Latina há diversos teólogos fazendo Teologia da Libertação a partir de diferentes perspectivas!

Assim, é um equivoco afirmar que a Teologia da Libertação é irmã gêmea da Teologia da Prosperidade. Enquanto a primeira se dá em Comunidades Eclesiais de Base com gente da terra, pobre que vê no evangelho o espelho da vida, a segunda afirma que o sofrimento é coisa do diabo; a fé serve para conquistar bênçãos; todo o crente deve reivindicar prosperidade, a ausência dela significa falta de fé; a enfermidade é sinal de pecado; o mundo e tudo que nele há esta aí para ser conquistado. Isso não é semelhança, é disparidade que não dá nem mesmo para comparar qualquer coisa! Quando iremos comparar um Kenneth Hagin com um Leonardo Boff; um R. R. Soares com um Juan Luis Segundo; um Edir Macedo com um Jon Sobrino. Nunca!

Quanto ao “tal Projeto de Jesus” é necessário dizer. Isaltino lê os evangelhos a partir da dogmática, daí sua soteriologia correta. Por este fato ele não consegue “entender” o “tal Projeto de Jesus”. Para a cristologia latino-americana o centro da mensagem e vida de Jesus foi o Reino de Deus. O projeto de Jesus, termo que a cristologia latino-americana emprega, é entender o Reino de Deus, e para compreendê-lo é preciso ir a Jesus, para conhecer Jesus é preciso ir ao Reino de Deus e este caminho se faz pelo seguimento de Jesus. Seguimento este que se dá na prática de Jesus. Na valorização dos excluídos e marginalizados da sociedade; na compaixão e no perdão; na promoção da paz e da justiça como meio equitativo de convivência. O projeto de Jesus, portanto, é a continuação do Reino de Deus pelos seus discípulos.

Teologia da Libertação e Teologia da Prosperidade nunca poderão ser irmãs quanto mais gêmeas.