10.4.18

LULA DEU UM NÓ NAS FORÇAS DO GOLPE NEOLIBERAL

Que Lula há muito tempo deixou de ser homem e se tornou uma instituição é consenso à direita e à esquerda. O que está em jogo, em disputa, é o significado da instituição, o que ela representa.

Lula é o maior corrupto da história do Brasil ou a principal liderança popular que esse país já teve?

A disputa está aí. No atual estado da situação não sobrou muito espaço para meio termo. Ou é uma coisa ou é a outra. Cada um que escolha seu lado.

Na condição de instituição, todo gesto de Lula tem dimensão simbólica, é lido e interpretado por todos, por detratores e admiradores. Lula pega o microfone e o país paralisa em frente à TV. Os admiradores choram. Os jornalistas a serviço da mídia hegemônica silenciam. Ninguém fica indiferente a uma instituição desse tamanho. Lula sabe perfeitamente que está sendo observado, conhece muito bem o tamanho que tem e explora com extrema habilidade sua capacidade de fabricar símbolos.

Aqui neste ensaio, trato de uma parte muito pequena da biografia de Lula, mas que talvez seja, na perspectiva simbólica, a mais importante. Talvez seja até mais importante que os oito anos de seu governo.

Falo das 34 horas em que Lula esteve no sindicato dos metalúrgicos, sob os olhares do mundo, construindo a narrativa de seu próprio martírio. Não falo em “resistência”, pois desde a condenação no TRF-4, em 24 de Janeiro, que o destino de Lula já estava selado. Os advogados cumpriram sua função, recorrendo a todas as instâncias e tentando um habeas corpus, mas todos já sabiam que Lula seria preso. Por isso, seria ingênuo dizer que o que aconteceu em São Bernardo do Campo foi um ato de resistência. Lula é um político experiente demais para resistir em causa perdida.

Alguns companheiros e companheiras, no auge da emoção, tentaram usar a força. Lula fugiu da custódia dos trabalhadores e se entregou à Polícia Federal, pois sabe que contra o braço armado do Estado ninguém pode. Lula sabe que aqueles que ali estavam eram trabalhadores e trabalhadoras, pais e mães de família. Não eram soldados. Não eram guerrilheiros. A resistência não era possível.

Lula sabe que seria impossível sustentar aquela mobilização durante muito tempo e por isso não resistiu. Mas daí a se entregar resignado como boi manso para o abate a distância é grande, muito grande.

Penso mesmo que Lula fez mais que resistir, já que a resistência seria quixotesca, irresponsável. Lula pautou a própria prisão, saiu da posição de simples condenado pela Justiça para se tornar o dono da narrativa. Lula foi sujeito do próprio encarceramento, deu um nó nas forças do golpe neoliberal.

Muitos achavam que Lula deveria ter fugido para uma embaixada amiga e de lá partido para o exílio no exterior. Confesso que também pensei assim. Mas Lula é muito mais inteligente que todos nós juntos.

Lula sabe que já viveu muito, sabe que não lhe sobra muito tempo de vida. O que resta agora é a consolidação da biografia, o retorno às origens, seu renascimento como ícone da esquerda brasileira, imagem que ficou um tanto maculada pelos oito anos em que governou o Brasil.

É que no capitalismo não existem governos de esquerda. Governo de esquerda só com revolução e Lula nunca foi revolucionário, nunca prometeu uma revolução. Todo governo legitimado pelas instituições burguesas será sempre burguês. No máximo, no melhor dos cenários, será um governo de centro sensível às demandas populares. O lulismo foi exatamente isso: uma prática de governo de centro sensível às necessidades dos mais pobres. O lulismo transformou o Brasil para melhor, com todos os seus limites, com todas as suas contradições.

Mas para encerrar a vida em grande estilo carece de algo mais. Era necessária a canonização política. E só a esquerda canoniza líderes políticos. A direita é dura, cinza, sem poesia.

O golpe neoliberal conseguiu reconciliar Lula com as esquerdas, o que há poucos anos parecia algo impossível de acontecer.

É que para ser canonizado pelas esquerdas nada melhor que ser perseguido pelo Poder Judiciário, habitat histórico das elites da terra. Basta lançar no Google os sobrenomes da maioria dos nossos juízes, procuradores e desembargadores e veremos os berços de jacarandá que embalaram os primeiros sonhos dos nossos magistrados.

É claro que Lula não planejou a perseguição. É óbvio que ele não queria ser perseguido. Se pudesse escolher, estaria tendo um final de vida mais tranquilo, talvez afastado da política doméstica e atuando nas Nações Unidas. Mas já que a vida deu o limão, por que não espremer, misturar com açúcar, cachaça, mexer bem e mandar para dentro? Lula fez exatamente isso: uma caipirinha com os limões azedos que seus adversários togados lhe deram.

Primeiro, ele fez questão de esgotar todos os mecanismos legais. A sentença de Moro, os votos dos desembargadores, os votos dos ministros da Suprema Corte não são palavras ao vento. São “peças”, para falar em bom juridiquês, que ficarão arquivadas e disponíveis para a consulta, para análise. Imaginem só, leitor e leitora, os historiadores que no futuro, afastados da histeria e das disputas que hoje turvam nossos sentidos, examinarão a sentença de Sérgio Moro, verão que o juiz não foi capaz de determinar em quais “atos de ofício” Lula teria beneficiado a OAS para fazer por merecer o tal Tríplex do Guarujá. É como se Moro estivesse falando: “Não sei como fez, mas que fez, ah, fez”. E o voto dos desembargadores do TRF-4, atravessados de juízos de valor, quase sem relar no mérito da sentença? E o voto de Rosa Weber? Por Deus, o que foi aquele voto de Rosa Weber? “Sei que estou votando errado, mas vou continuar votando errado só porque a maioria votou errado. Uma maioria que só vai votar porque eu vou votar errado também”. Lula, ao se negar a fugir, obrigou cada um desses togados a deixar impressos na história os rastros da própria infâmia.

Uma vez decretada a prisão, o que fez Lula? Deu um tiro no peito? Se entregou em São Paulo? Foi para Curitiba? Fugiu? Não! Lula se aquartelou no sindicado mais simbólico da redemocratização brasileira, o sindicado que representa as expectativas que nos anos 1980 apontavam para um Brasil mais justo, mais solidário. No apogeu da crise que significa o colapso do regime político fundado na redemocratização, Lula decidiu encenar o seu martírio onde tudo começou. Naquele que talvez seja o último grande ato de sua vida pública, Lula voltou às origens. Protegido pela massa de trabalhadores, Lula não cumpriu o cronograma estipulado por Sérgio Moro. Cercado por uma multidão, o Presidente operário transformou o sindicato dos metalúrgicos numa embaixada trabalhista.

A Polícia Federal, o braço armado do governo golpista, disse que não usaria a força. A Polícia Federal sabia que o povo resistiria, que sem negociação não tiraria Lula do sindicado sem deixar uma trilha de sangue. Lula negociou e, nos limites dados por sua posição de condenado pela Justiça, venceu e humilhou as instituições ocupadas pelo golpe neoliberal.

Lula não estava foragido. O mundo inteiro sabia onde ele estava e mesmo assim o Estado brasileiro não foi capaz de prendê-lo no prazo determinado pela Justiça golpista. Durante um pouco mais de 30 horas, Lula foi um exilado dentro do Brasil, como se São Bernardo do Campo fosse um República independente, a “República Popular dos Trabalhadores”.

Lula fez de uma missa em homenagem a Dona Marisa Letícia um ato político e aqui temos mais um lance simbólico do Presidente operário: restabeleceu as pontes entre a esquerda brasileira e a Igreja Católica, aliança que tão importante nos anos 1970, quando sob as bênçãos da Teologia da Libertação foi fundado o Partido dos Trabalhadores.

No palanque, junto com o padre, estavam Lula e as futuras lideranças da esquerda brasileira. Lula dividiu seu espólio em vida, tomou para si esse ato mórbido ao abençoar Boulos, Manuela e Fernando Haddad. Lula unificou em vida a esquerda brasileira. Não só unificou, mas pautou, apresentou o programa, cantou o caminho das pedras. Lula deixou claro que o povo mais pobre precisa comer melhor, precisa consumir, viajar de avião, estudar na universidade. Lula, o operário que durante a vida inteira foi humilhado por não ter diploma de ensino superior, foi o professor de milhões de brasileiros que sonham com um país melhor. É como se Lula estivesse dizendo: “Num país como o Brasil, a obrigação mais urgente da esquerda é transformar o Estado burguês em agente provedor de direitos sociais”.

Lula discursou durante uma hora em rede nacional, se defendeu das acusações. Não foi uma defesa para a Justiça, mas sim para o tribunal moral da nação. Não foi um discurso para o presente. Foi um discurso para a história.

Não, meus amigos, acuado pelas forças do atraso, Lula não deu um tiro no próprio peito.

Lula mandou trazer cerveja e carne e fez um churrasco com seus companheiros e companheiras. Foi carregado pelos seus iguais, foi tocado, beijado. Saliva, suor, pele. Lula não deu um tiro no próprio peito.

Getúlio é gigante, sem dúvida, mas também era herdeiro das oligarquias. Lula é o único trabalhador que, vindo da base da sociedade, conseguiu governar e transformar o Brasil. Lula já é maior que Getúlio. Diferente de Getúlio, Lula entrou para a história sem precisar sair da vida.

(Rodrigo Perez Oliveira - professor de Teoria da História na UFBA)

30.3.18

O GALILEU

Chega nessa época do ano, a Páscoa, as igrejas trazem à memória os significativos relatos sobre a morte e ressurreição de Jesus. Celebrações em torno da figura polissêmica do homem de Nazaré. Sabemos com Maurice Halbwachs (“A memória coletiva”), que algo assim é contínuo e nada artificial, porque “não retém do passado senão o que ainda está vivo ou é capaz de viver na consciência do grupo que a mantém”. Se for assim, esse grupo entende que, a partir da narrativa que possibilitou a memória de Jesus, precisa dar continuidade à sua vida, por meio de uma autêntica identificação com ele.

Se esse grupo, que a teologia comumente identifica como “igreja”, concebe na figura de um nortista da Galiléia, que de maneira itinerante, saiu pelos vilarejos e cidades com uma mensagem de que a face de YAHWEH é de um Pai (Abbá) que continuava querendo estabelecer um Reino, esse grupo precisa olhar para o “rosto” desse nazareno e se identificar com ele. A identificação passa pela práxis, ou seja, só é possível cultivar memória quando o quê ou quem a motivou, continue fazendo sentido. As igrejas celebrando a Páscoa, estão dizendo que a memória do nazareno continua presente e sua mensagem e trajetória de vida, fazendo sentido. 

Ocorre que a práxis de Jesus não foi entendida plenamente nem mesmo pelos seus mais próximos seguidores (os discípulos/as). Sabemos, pelos Evangelhos, que mesmo espoliados pelo sistema político (romanos) e religioso (sacerdotes), o preconceito e a indiferença tinha lugar cativo no coração e atitudes desses seguidores. Nesse sentido, estamos dizendo que para os discípulos mais próximos de Jesus de Nazaré, entender a sua práxis e vivenciá-la na caminhada, não se deu de maneira tranquila, antes houve sérios conflitos, inclusive com a pessoa de Jesus. Por exemplo: são os discípulos que afastam as crianças quando estas querem estar com ele; são os discípulos que procuram silenciar o cego que gritava à beira do caminho por esmola; são os discípulos mais íntimos de Jesus que não aguentam a vigília na noite mais tenebrosa do galileu; são também os discípulos que ficam assustados quando veem Jesus conversando com uma mulher no poço. Os relatos poderiam se multiplicar. Os discípulos de Jesus não percebem, num primeiro momento, a dinâmica da sua caminhada e a clara preferência por questões consideradas incólumes. Como bem nos lembra o exegeta Günther Bornkamm: “caminhar atrás dele não significa segui-lo”.

No Brasil há uma polaridade política que tem afetado relacionamentos familiares, amigos e igrejas. A polarização chegou também na figura do nazareno. Há aqueles que querem diminuir o aspecto político-social dos Evangelhos por, pensam, favorecer um segmento da política brasileira. Outros ainda usam a figura de Jesus e sua práxis direcionada para os marginalizados e despossuídos como uma plataforma político-ideológica a fim de promover uma agenda socialista. Nessa disputa pela narrativa do galileu, estão os que insistem em espiritualizar a caminhada de Jesus e sua mensagem, o transformando em um Cristo do “coração”. O fato é que a figura, a vida, mensagem, morte-ressurreição de Jesus não pode ser institucionalizada cabalmente. A igreja procurou fazer isso, mas não há dúvidas de que falhou; a julgar pela quantidade de denominações e sua diversidade de interpretações, algumas se colocando como exclusivas até. A questão, como bem coloca Franz Hinkelammert, é que “as bem-aventuranças dos pobres, dos presos e dos enfermos, e em geral de todos os marginalizados da sociedade, constituem uma exigência que, quando interpretada em toda a sua rigidez, é incompatível com qualquer vida social realisticamente institucionalizada”. Em outras palavras, qualquer tentativa de capturar (seja essa captura política ou religiosa) a práxis de Jesus está fadada ao um certo fracasso. As instituições, criadas para legitimar a narrativa de Jesus, não dão conta da expressividade e dinâmica do nazareno. As suas ações e gestos estão para além das redomas criadas para comprimir a práxis do galileu.

Ao que parece, estamos parecidos com os discípulos dele que não vendo muito sentido em suas palavras e gestos, “tinham receio de perguntar”. Mas esse receio não os impediam de ficarem discutindo quem, entre eles, era, de fato, o maior (Mc 9,32-34).

21.3.18

APOIO À CANDIDATOS POR PASTORES BATISTAS

Estamos todos mergulhados em uma profunda crise que assola o país. Essa crise passa por diversos setores da vida nacional e, pelo que conste, nada passa despercebido. Uma das mais profundas é, indubitavelmente, a crise política. O país acompanhou (e continua acompanhando), diversos políticos de diferentes legendas sendo conduzidos para depoimentos, julgamentos e não poucos encarcerados por diferentes crimes envolvendo a administração pública.

Somando a esse quadro de crise política – que parece ser complexo e qualquer observação sem a máxima apuração corre-se o risco de imprecisões –, há uma intensa polarização político-ideológica na grande maioria da população. As pessoas estão tomando partido de A ou B, baseadas em suas convicções religiosas, morais e políticas. Há, inclusive, alguns que até então, confessadamente, não tinham qualquer interesse na política, mas, nos últimos anos, vem se envolvendo com questões partidárias de maneira acirrada, se colocando como de “Direita” ou de “Esquerda”, mesmo que esses “rótulos” (direita ou esquerda) não tenham a devida lucidez para a maioria que assim se definem.

Não é de hoje que as redes sociais se transformaram em “campo de batalha” entre pessoas de diferentes posições políticas. Há pesquisadores que arriscam em dizer que as eleições de 2018 serão decididas na internet e, mais especificamente, nas redes sociais. Não sem razão que há grupos criminosos que ganham dinheiro produzindo e espalhando nas redes sociais “Fake News” (notícias falsas). A proliferação de fake news é muito maior do que mesmo uma notícia verdadeira, constatam os especialistas em internet.

Com esse tenebroso cenário, perguntamos: um pastor batista deveria apoiar candidatos nessas eleições de 2018? Ele deveria dizer, divulgar, seja de púlpito ou em redes sociais, conteúdos envolvendo o candidato A ou B?

Antes de qualquer coisa, é preciso frisar o “pastor batista”, ou seja, não está se falando de um cidadão com seus direitos e deveres, antes uma pessoa que exerce liderança em uma comunidade de fé e professa uma identidade denominacional, portanto, tem uma função pública-social. Diante disso, daremos algumas razões porque um pastor batista não deveria expressar sua adesão/apoio à candidatos à cargos eletivos.

Separação entre Igreja-Estado

Notadamente, os batistas têm na separação Igreja-Estado um dos seus principais princípios. Ocorre que a defesa da separação Igreja-Estado nunca significou omissão e desinteresse pela política. Professar este princípio não significa deixar a política de lado, alegando que o interesse da Igreja é tão somente espiritual. Quando o batista norte-americano Walter B. Shurden, comenta sobre este tema, diz: “A legitimidade do Estado deve ser reconhecida pelo cristão, embora lhe seja permitido se opor ao Estado quando este contraria os princípios que caracterizam os ensinamentos da Palavra de Deus”. Foi nesse espírito, que Martin Luther King Jr., sem nunca ser candidato ou apoiar qualquer que fosse o presidente dos EUA, disse: “É preciso lembrar a Igreja que ela não é senhora nem serva do Estado, mas, sim, a consciência dele. A Igreja tem o dever de o criticar e o orientar, sem nunca se tornar para ele num instrumento”. Separação entre Igreja-Estado não significa omissão política, antes a vigilância com espírito profético. Já dizia João Falcão Sobrinho, destacado pastor batista no Rio de Janeiro: “O cristão, como cidadão da pátria terrena, tem dever para com o seu país, mas sempre que entrar em conflito o seu dever cívico com os seus deveres para com Deus, deve permanecer fiel ao seu Redentor”. Por prezar pelo princípio da separação Igreja-Estado, o pastor batista, quando se isenta de apoiar candidato A ou B, tem condições de refletir a partir de algo maior, qual seja, as pessoas e o seu bem-estar. Esse deveria ser o principal foco de todos os cristãos batistas, mas principalmente do pastor batista. No item ORDEM SOCIAL (Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira), traz algo fundamental quanto ao papel de todos os cristãos: “Como sal da terra e luz do mundo, o cristão tem o dever de participar em todo o esforço que tende ao bem comum da sociedade em que vive”. É sabido que uma dessas formas de buscar o bem comum de uma sociedade que tem um sistema de governo republicano, se dá com a tarefa política. Por isso, mais uma razão para não se envolver com legendas partidárias de maneira estrita. Essa adesão, no nosso entender, prejudicaria um olhar holístico sobre as demandas de uma sociedade. Quando há comprometimento partidário, há descomprometimento social na sua inteireza.

Histórico negativo

Além desse fator (separação entre Igreja-Estado), que consideramos decisivo para não se apoiar, de maneira aberta e pública, candidatos à cargos eletivos, há também um outro fator: pesa contra nós, batistas, um histórico negativo quando se optou por um determinado segmento político no país. Antes de 1964, portanto antes do golpe civil-militar, os batistas tinham no seu horizonte de reflexão e ação uma agenda que contemplava as mazelas de um povo que sofria, por conta de políticas insatisfatórias em décadas anteriores. O êxodo rural e a ineficiência de políticas públicas, mergulharam o país em uma profunda e sistêmica desigualdade social. São os batistas, que em 1963, irão produzir o mais audacioso Manifesto reconhecido até hoje. No conhecido documento “Manifesto dos Ministros Batistas do Brasil”, há um espírito profético e combativo diante dos problemas prementes da sociedade brasileira. Nesse Manifesto, está presente um senso de justiça social que, mesmo respeitando a separação entre Igreja-Estado, não se omite diante dos dilemas do povo brasileiro à época. Destacamos algumas das suas preocupações e denúncias: “Reconhecemos a inadequação da presente estrutura social, política e econômica para a realização plena da justiça social, pelo que insistimos na necessidade de um reexame corajoso, objetivo e despreconcebido da presente realidade brasileira, com vistas à sua estruturação em moldes que possibilitem o atendimento das justas aspirações e necessidades do povo. Essa necessidade ressalta da constatação da ineficiência dos institutos assistenciais do Estado, que transformam num favor concedido a custo, direitos líquidos dos trabalhadores; da irracional aplicação dos recursos públicos, que deveriam antes de se destinar, mais liberalmente, aos ministérios da Saúde, Educação e Agricultura, para a solução de problemas sociais angustiantes; da sobrevivência de regimes feudais de propriedade e exploração da terra; da generalizada pobreza das populações carentes mesmo do alimento indispensável à sobrevivência; da injustiça na distribuição das riquezas, e da utilização destas para o cerceamento das liberdades essenciais; da inadequada exploração das nossas riquezas naturais, cujo aproveitamento não só deveríamos intensificar, como fazer revestir-se de significação social; da corrupção que tem campeado nos pleitos eleitorais, na prática policial (quer preventiva, quer corretiva), na previdência social, no preenchimento de cargos públicos...” (1). Depois de 1964, os batistas se alinharam ao regime militar por razões conhecidas e pesquisadas (2). Com isso, notamos que todo e qualquer alinhamento político-ideológico leva, inevitavelmente, a uma forma de alienação das reais condições de vida de uma população. Por essa razão, ao nosso ver, um pastor batista não deveria dizer em que candidato deve ou não votar. Antes, a sua voz deveria ser apartidária, uma vez que optando por um partido, já se está optando por qual linha política irá seguir. É oportunidade de aprender com os pastores batistas que passaram pela década de 1960.

Código de Ética dos Pastores Batistas do Brasil

A Ordem dos Pastores Batistas do Brasil está para reformar o seu Código de Ética. No atual Código, há um item dedicado aos “Deveres do Pastor para com a Sociedade”. Antes de qualquer coisa, um pastor batista não deveria ser candidato a cargo político. Isso, per si, se constitui um desvio grave da sua vocação e tarefa ministerial. Mesmo o pastor batista não concorrendo a um cargo político, o Código não faculta a ele a omissão diante dos problemas sociais. Nesse sentido é dito: “Participar da vida da comunidade [...] identificando-se com sua causa e solidarizando-se com os anseios de seus moradores, procurando apoiá-los quanto possível nos esforços para satisfação deles”. É dito que a voz do pastor não é emudecida diante dos problemas, pelo contrário, ele deve se envolver nas questões que atingem a todos e, a partir da sua participação, oferecer soluções. Em outro momento do Código, é dito que o pastor deve “praticar a cidadania cristã responsável, sem engajar-se em partidos políticos”. Essa observação faz todo o sentido. Primeiro que um pastor batista, em hipótese alguma, deveria dizer para a sua Igreja Local em qual candidato os membros devem ou não votar. Isso feriria a liberdade de consciência e opinião (um dos caros princípios batistas); num segundo momento, essa recomendação se dá porque uma vez o pastor sendo do partido A ou B, ele fica comprometido com a agenda desse partido ou candidato, mesmo que concorde com algumas das questões e discorde de outras. Não obstante a isso, o Código completa: “Dar apoio à moralidade pública [...], por meio de testemunho profético responsável e de ação social”. Só essa tarefa que o Código recomenda já é, por demais, árdua. 

Um pastor batista deve, com todos esses rótulos e ódio explícito que acompanha a política brasileira nos últimos três anos e, principalmente, nas redes sociais, continuar perseguindo os exemplos de homens que lutaram contra um sistema político que marginalizava e oprimia as pessoas. Nesse sentido, os profetas do Antigo Testamento estão aí: Jeremias, Amós, Isaías e tantos outros. Em comum em todos eles há uma mensagem profética de repúdio as práticas desumanas e parciais dos reis! João Batista, no Novo Testamento, não ficou calado diante da corrupção e imoralidade de Herodes, perdeu a cabeça por conta disso. O próprio Jesus, contrário aos interesses dos sacerdotes, expulsou os ladrões que abusavam da boa fé do povo no templo de Jerusalém, e isso selou a sua execução incentivada pelo sistema sacerdotal.

Cabe ao pastor batista ser voz ativa na propagação dos valores do Reino de Deus. Quando o Reino de Deus está em primeiro lugar, há comprometimento com a justiça (Evangelho de Mateus).

Notas

(1). Publicado no “O Jornal Batista” – 14.09.1963.
(2). Confere o trabalho de Leandro Seawright Alonso, uma tese de doutorado em História Social pela USP – Ritos de oralidade: a tradição messiânica de protestantes no regime militar brasileiro (Jundiaí: Paco Editorial, 2016). 

25.2.18

A TRADIÇÃO ECUMÊNICA BATISTA

Os batistas não surgem nos Estados Unidos. Apenas para deixar bem claro.

Os batistas aparecem na Inglaterra do século XVII tendo como contexto os separatistas ingleses e, portanto, “os batistas fazem parte da gênese do pensamento liberal inglês” (1) que eclodia na época. 

Nesse sentido, os postulados do liberalismo inglês serão os mesmos dos primeiros batistas como liberdade individual e separação entre Igreja e Estado.

Os batistas ingleses aparecem na história do cristianismo como um grupo que luta por liberdade religiosa e isso custa a vida de um de seus líderes, Thomas Helwys que se manifestou com o livro Uma breve declaração do mistério da iniquidade em 1612, “em que defendeu liberdade religiosa para todos, incluindo os católicos romanos” (2). 

Os batistas ingleses têm na sua gênese a diversidade que gera, naturalmente, divergências, mas mesmo assim convergiam em temas comuns e buscavam o diálogo, honrando assim o início do movimento batista. Aqui podem ser citados os batistas gerais e os batistas particulares, como exemplos. “Apesar da diferença quanto à teologia arminiana e calvinista, adotaram princípios e práticas semelhantes e se desenvolveram separadamente, até que em 1891 se uniram através da União Batista da Grã-Bretanha e Irlanda” (3).

A fim de sobreviver, os batistas buscam liberdade religiosa para todos e isso, concomitantemente, incluía as demais manifestações religiosas. Como consequência, os batistas procuram a unidade dos cristãos a fim de testemunhar o Cristo. É neste sentido que John Smyth se expressa em um texto produzido em 1612: “Estando profundamente contristados porque nós que seguimos uma fé, e um espírito, um Senhor, e um Deus, um corpo e um batismo, estamos divididos em tantas seitas e cismas: e isto apenas por assuntos de menor importância” (4).

Não por acaso que os batistas ingleses vêm “participando ativamente em várias organizações do movimento ecumênico” (5). Assim que o Conselho Mundial de Igrejas (CMI) foi organizado em 1948, os batistas ingleses têm sua participação tendo, inclusive, um batista como presidente do CMI, Ernest Payne (6).

Ainda em território inglês, ocorre o primeiro grande encontro dos batistas (1905) em Londres sobre os auspícios do batista inglês Howard Shakespeare. Desse congresso surge a Aliança Batista Mundial (sigla em inglês BWA) tendo como primeiro presidente o pastor londrino John Clifford (7).

A Aliança Batista Mundial vem procurando abrir diálogo com diferentes representações religiosas, não apenas o cristianismo, mas inclusive com este, principalmente com a Igreja Católica.

Em 2012 Timothy George (autor do livro muito conhecido por aqui, Teologia dos reformadores. São Paulo: Vida Nova, 2017), como presidente da Comissão de Doutrina e União Cristã da Aliança Batista Mundial, participou de um sínodo no Vaticano, e foi recebido pelo Papa Bento XVI.

Na recepção à delegação da BWA, Bento XVI se dirige aos batistas da seguinte maneira: Dou-vos minhas cordiais boas-vindas, membros da comissão internacional patrocinada pela Aliança Batista Mundial e pelo Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos. Agrada-me que tenhais escolhido como lugar para vosso encontro esta cidade de Roma, onde os apóstolos Pedro e Paulo proclamaram o Evangelho e coroaram seu testemunho do Senhor ressuscitado derramando seu sangue. Espero que vossas conversas tragam abundantes frutos para o progresso do diálogo e o crescimento do entendimento e da cooperação entre católicos e batistas (8).

A BWA tem protagonizado encontros e diálogos fraternos com os católicos, unindo esforços em questões comuns. A Aliança Batista Mundial congrega diferentes ramificações dos batistas e isso favorece o diálogo.

A Convenção Batista Brasileira (CBB) integra a BWA.

NOTAS
(1) AZEVEDO, Israel Belo de. A celebração do indivíduo: a formação do pensamento batista brasileiro. São Paulo: Vida Nova, 2004, p. 12. 
(2) OLIVEIRA, Zaqueu Moreira de. Um povo chamado batista: história e princípios. Recife: Kairós Editora, 2010, p. 56.
(3) OLIVEIRA, 2010, p. 58-59.
(4) OLIVEIRA, Zaqueu Moreira de. Liberdade e exclusivismo: ensaios sobre os batistas ingleses. Rio de Janeiro/Recife: Horizonal/STBNB, 1997, p. 129.
(5) OLIVEIRA, 1997, p. 154.
(6) OLIVEIRA, 1997, p. 155.
(7) OLIVEIRA, 1997, p. 139.
(8) DISCURSO DO PAPA BENTO XVI AOS MEMBROS DE UMA DELEGAÇÃO DA ALIANÇA BATISTA MUNDIAL. Disponível em: <https://w2.vatican.va/content/bened...>.

FOTOS
1 - Este ano o Conselho Mundial de Igrejas (CMI) completa 70 anos.
2 - Rev. Martin Luther King no CMI em 1967. Ele pregaria na Assembleia do CMI no ano seguinte, se não tivesse sido assassinado em 1968.
3 - Rev. Timothy George e o Papa Bento XVI no Vaticano. 
4 - Rev. Billy Graham e o Papa João Paulo II no Vaticano (1981).

22.2.18

BILLY GRAHAM: HOMEM DE DEUS, MAS TAMBÉM DA WHITE HOUSE

O universo evangélico recebeu a notícia do falecimento de Billy Graham (1918-2018) com um certo ufanismo e regozijo. Afinal de contas, ele já estava com 99 anos e havia quem esperasse que pudesse completar 100 anos, um século de vida. Uma marca indelével para um ser humano, com certeza. A mídia, quando noticiou a sua morte, fez questão de citar que ele atraiu multidões em seus sermões e esteve bem próximo dos presidentes norte-americanos, sendo, inclusive, por décadas, conselheiro de vários deles. 

Sem dúvida, Billy Graham, um pastor batista que ganhou status de celebridade religiosa em uma cruzada em 1949 na cidade de Los Angeles, se tornou um dos homens mais conhecidos do mundo. Há quem diga que ele logrou êxito e maior notoriedade na proclamação do Evangelho ao ponto de superar o Apóstolo Paulo, com as devidas proporções, obviamente. O sucesso das suas cruzadas só foi possível porque houve um apoio maciço da mídia, alcançando os meios de comunicação convencionais da época como rádio, televisão e jornais. Tudo isso graças aos empresários que viu no jovem loiro, alto e de olhos azuis o símbolo de uma América do Norte em exportação. Com esse sucesso, a sua proximidade com o poder político foi uma mera consequência conveniente. Assim, Billy Graham se configurou como um “homem de Deus”, alguém que, com a mensagem de Cristo, poderia entrar e sair de países comunistas, como fez, por exemplo, na então URSS e depois na Coréia do Norte.

Com uma oratória cativante e eloquente, Graham não apenas se destacou no cenário nacional, mas também mundial. Na guerra da Coréia, ele foi uma das principais figuras que ficou responsável pela implantação do conhecido american way of life no sul da península. Na Guerra Fria, o evangelista se tornou uma figura central para o governo norte-americano, principalmente na América Latina.

Qual o legado de Billy Graham para o protestantismo latino-americano?

Billy não era apenas um homem de Deus, como bem o conheciam e o chamavam, mas também um exímio observador e influenciador dos assuntos de governo da Casa Branca, portanto, um homem também da White House. Mesmo admitindo que o governo político não transformava o mundo, por conta da sua escatologia fatalista – ou seja, somente a iminente segunda vinda de Cristo poderia pôr fim às misérias e conflitos no mundo –, ainda assim Graham exerceu uma enorme influência nas políticas de Estado em países latino-americanos no auge da Guerra Fria, falando abertamente contra o comunismo num tempo em que o mundo se dividia em dois blocos.

Por meio da Associação Evangelística Billy Graham (AEBG), houve maciço apoio às igrejas que apoiavam governos militares na América Latina. Nos momentos cruciais dos regimes militares, que tinham como vocação purgar o temível “espírito comunista” na América Latina, não se importando se havia ou não Diretos Humanos, Graham estava lá com suas conferências de teor apenas evangelístico e não, necessariamente, político. Mesmo que isso fosse um fato, apenas a sua presença em um país sob o regime militar só conotava apoio norte-americano ao que estava em curso.

A América Latina estava entre os continentes que mais chamavam a atenção de Graham. Quando há uma convocação para o primeiro congresso mundial sobre evangelização em Berlim (1966), sob os auspícios da AEBG e a revista fundada por Graham, Christianity Today, houve uma resolução no congresso cujo teor era a implantação de congressos de evangelização na América Latina (1). Algo que foi recebido prontamente por lideranças do protestantismo latino-americano, por conta da herança e do histórico laço com o protestantismo estadunidense. Há, portanto, uma clara relação entre as campanhas evangelísticas e os governos militares na América Latina. Não por acaso que a Associação de Graham não levará adiante os ideais do Pacto de Lausanne, havendo um claro antagonismo de direção e teologia. Enquanto o Pacto impulsionou o que ficou conhecido na América Latina como Teologia da Missão Integral, Graham se moveu deliberadamente para esvaziar o discurso e a práxis de Lausanne. Principalmente quando ainda em Lausanne, René Padilla fez duras críticas ao imperialismo norte-americano.

No Brasil, os batistas “apoiam” o golpe civil-militar e orientam as igrejas por meio do “O Jornal Batista” – “Os acontecimentos políticos militares de 31 de Março e 1º de Abril que culminaram com o afastamento do presidente da República vieram, inegavelmente, desafogar a nação. Porque estávamos vivendo num clima pesado de provocações, de ameaças, de agitações, que nos roubavam o mínimo de tranquilidade necessária para poder trabalhar e progredir. Necessária inclusive para a pregação do Evangelho. Agora as coisas mudaram. Era tempo” (2). É nesse contexto que Graham aparece no Estádio do Maracanã em 1960 (Aliança Batista Mundial), no Pacaembu em 1962 e, novamente no Maracanã, em 1974. Em 1974 o Brasil estava sob o comando de um general de tradição luterana, Ernesto Geisel. A presença de Billy Graham acentua ainda mais o apoio norte-americano aos anos de repressão e as Igrejas Batistas se dedicam a campanha de evangelização “Jesus Cristo é a Única Esperança”.

A influência de Billy Graham na formação missionária e pastoral da América Latina protestante é inegável. Fruto de seu tempo e portador de uma teologia salvacionista (ganhar almas) e imbuído do “destino manifesto” – ou seja, a ideia de que os EUA é a nação que colocará o mundo em ordem –, Graham deixou um legado marcado por uma escatologia pré-milenista e fatalista; uma antropologia pessimista; uma visão política que emudece a voz profética.

Notas
(1) NETO, LONGUINI, Luiz. O novo rosto da missão: os movimentos ecumênico e evangelical no protestantismo latino-americano. Viçosa: Ultimato, 2002, p. 155-156.
(2) REILY, Ducan Alexander. História documental do protestantismo no Brasil. 3. ed. São Paulo: ASTE, p. 315 e 322.

14.2.18

SOMOS TODOS IRMÃOS...

Campanha da Fraternidade 2018 – Fraternidade e Superação da Violência

Nos últimos anos o país conheceu a brutalidade das facções que operam nas penitenciárias. Nas ruas a violência está gratuita e sistêmica e a mídia tem todos os dias notícias que relatam casos de famílias atingidas por ela, vitimando, cruelmente, crianças. Como se tudo isso não bastasse, nossa gente convive com a violência da corrupção do sistema político, o tipo de crime que mata silenciosamente quando priva crianças da merenda escolar e de melhores escolas; quando as pessoas convivem com o medo e a falta de segurança pública, onde seus agentes (policiais), não recebem adequadamente seus salários; quando os doentes precisam de hospitais, remédios e exames emergenciais e não há equipamentos disponíveis.

Somos todos irmãos”, trecho do Evangelho de Mateus 23,8. Com esse texto, a Campanha frisa que a violência é sempre contra um semelhante, ou seja, é sempre contra o outro que é igual diante de Deus. Nessa busca por dirimir a violência, as igrejas podem contribuir e muito, uma vez que são portadoras da mensagem de esperança e paz. Nesse sentido, as igrejas não poderiam coadunar com qualquer justificativa de violência, quer de pessoas que nutrem um discurso assim, quer do Estado e seu aparato policial.

Importa refletir sobre a paz e meios para buscá-la na permanente tentativa de aplacar a violência.

Um caminho de paz abre um caminho para a justiça. Na tradição bíblica, a justiça está na pregação profética, onde há um Deus de justiça. É Paul Tillich quem aponta a justiça como um dos critérios para se julgar as expressões religiosas, principalmente o cristianismo. No cristianismo, Tillich nos lembra, que os homens são aceitos pela justiça praticada, e não necessariamente pela religião confessada (Mateus 25,31-45).

As igrejas, por tradição, nutrem uma força ética para promover/provocar mudanças que favoreçam uma cultura de paz. O Estado, há muito comprometido com o mercado, ignora a grande maioria das pessoas que lutam pela sobrevivência. As igrejas podem e devem contribuir, principalmente sendo a consciência do Estado, como alertara Martin Luther King – “igreja... não é a senhora ou a serva do Estado, mas, antes, a sua consciência. Ela deve ser a orientadora e a crítica do Estado. E nunca sua ferramenta!”.

As igrejas não podem abrir mão da participação e atuação no atual contexto brasileiro. Estamos em um momento em que se conhece o drama da imigração de venezuelanos e haitianos; um tempo de intolerância religiosa, principalmente em relação às religiões afro-brasileiras; a brutalidade contra pessoas homoafetivas; a luta por igualdade de direitos da população negra. Diante de todos esses dilemas, é pueril pensar que o Estado tenha como principal meta encontrar soluções equitativas para esses dramas, até porque a justiça, na sua plena expressão, nunca foi o ponto forte do Estado. Em uma sociedade onde se dependa, exclusivamente, da justiça legal, acentua-se muito mais a sua desumanidade, principalmente quando há um sistema penitenciário onde a terceira maior população carcerária do mundo vive em condições sub-humanas. 

Não obstante a isso, a situação está ficando mais delicada ainda com um governo à serviço do capital neoliberal. Um governo que trabalhou, incansavelmente, para diminuir direitos dos trabalhadores com a sua Reforma Trabalhista. Isso não sendo suficiente, o atual governo quer continuar na sua missão de distanciar ainda mais aqueles que têm dinheiro daqueles que nada têm com uma Reforma da Previdência que atinge, em cheio, os menos favorecidos economicamente do país. Uma violência praticada por um Estado que não consegue fechar suas contas públicas por irresponsabilidade administrativa.

Diante disso, é preciso lembrar que o Deus bíblico se dá na prática da justiça e onde há injustiça, a sua ação é libertadora – “Deus também já está presente lá onde acontece a injustiça. Fazendo justiça aos que sofrem violência. O que é feito aos pobres e indefesos indiretamente é também feito a ele”, já dizia Jürgen Moltmann. Os profetas reivindicam justiça diante dos desmandos do Estado. Há uma luta intensa pelo direito dos despossuídos, desfavorecidos e marginalizados da sociedade. A justiça – como bem nos lembra Moltmann –, na perspectiva bíblica, se dá no direito, ou seja, “a justiça de Deus é, ao mesmo tempo, aquela que cria o direito, mas também traz justiça à vida injustiçada. Desta forma, é uma justiça criativa. Deus faz justiça a quem sofre violência e põe em ordem quem comete o mal”. Essa é a nossa esperança que nos impulsiona para uma práxis libertadora.

Caminhos de paz se faz por meio da justiça e justiça se estabelece na prática do direito equitativo. Que a Campanha da Fraternidade 2018 venha nos lembrar de que somos todos irmãos, portanto, devemos dar as mãos e enfrentar a violência sistêmica com amor e voz profética.