2.10.22

O USO INDEVIDO DE SALMOS 33,12

Nesses dias o que mais se vê é gente usando o texto bíblico de Salmos 33,12 na sua primeira parte que diz “feliz é a nação cujo Deus é o Senhor”. A segunda parte do versículo esquece, propositadamente ou não. Com isso, querem dizer que uma “nação” que tem “Deus” como o Senhor é feliz, logo, o versículo vira “cabo eleitoral”.

Que nação é essa do versículo? É a brasileira? Deus quer uma nação para ele? Para todas as perguntas é um não auditável!

O texto de Salmos 33,12 está falando da nação de Israel e não de qualquer outra nação, muito menos a brasileira. A segunda parte do versículo diz: “cujo povo ele escolheu para lhe pertencer!”. Que povo ele escolheu para lhe pertencer? Israel! Não outro povo. Isso porque esse povo, Israel, não era lá essas coisas (Dt 7,7-8). Assim, Salmos 33,12 está se referindo, exclusivamente, ao povo de Israel dentro da aliança que Yahweh fez com ele. Não é de longe outra nação que o texto está se referindo, muito menos o Brasil.

Alguém pode dizer: “Mas isso é no sentido de ser abençoado por Deus uma nação que tem ele como Senhor”. Pois é, outro equívoco. Nada que uma boa teologia bíblica da igreja não resolva.

A igreja tem uma função que está acima de qualquer governo ou autoridade política. Isso ela tem por que foi o próprio Cristo que assim o fez. Em Efésios 1,21-23 é dito: “Agora ele está muito acima de qualquer governante, autoridade, poder, líder ou qualquer outro nome não apenas neste mundo, mas também no futuro. Deus submeteu todas as coisas à autoridade de Cristo e o fez cabeça de tudo, para o bem da igreja. E a igreja é seu corpo; ela é preenchida e completada por Cristo, que enche consigo mesmo todas as coisas em toda parte” (NVT). Logo, é a igreja, por meio de Cristo, que assume a função de continuar o ministério de Cristo. Ele é o Senhor de tudo. E como Senhor de tudo, ele escolhe a igreja para preencher todas as partes. Isso significa que a igreja não pode ser de uma nação! Isso significa que a igreja não pode participar do poder, porque ela tem no Cristo alguém que está acima de qualquer ordem política nesse mundo! Entendeu?

Para deixar mais claro ainda. As funções do Israel bíblico, o Novo Testamento entende que cabe à igreja ser a continuidade. Não mais por meio de um único povo, uma única nação, mas todos os povos. 1Pe 2,9 é muito claro: “Vocês, porém, são povo escolhido, reino de sacerdotes, nação santa, propriedade exclusiva de Deus. Assim, vocês podem mostrar às pessoas como é admirável aquele que os chamou das trevas para sua maravilhosa luz” (NVT). A igreja é multiétnica. Ela não tem nacionalidade. Antes é o ajuntamento de todas as cores, de todas as pessoas. O povo escolhido é a igreja. O sacerdócio de Deus é o povo dele, a igreja. Esse povo é propriedade exclusiva de Deus, não um país, não uma nação!

Não é por acaso, que a igreja quando diante do Cordeiro será assim: “Depois disso, vi uma imensa multidão, grande demais para ser contada, de todas as nações, tribos, povos e línguas, em pé diante do trono e diante do Cordeiro. Usavam vestes brancas e seguravam ramos de palmeiras (Ap 7,9 – NVT).

O Brasil não será uma “nação” cristã! E ainda bem que não. Porque Deus já tem a sua nação, a igreja, composta de todas as pessoas que proclamam o Evangelho de Jesus Cristo! 

Quem fica por aí citando Salmos 33,12 como se fosse para o Brasil de hoje, usando o texto como cabo eleitoral, está cometendo um duplo erro: o texto é para o povo/nação de Israel; e cabe à igreja (nova aliança) ser o ajuntamento de muitas nações.

8.9.22

TEXTO PARA LER NO DIA TRINTA E UM DE OUTUBRO

Os pastores-midiáticos estão confiantes de que podem influenciar os seus milhares de seguidores virtuais a votarem no atual presidente que concorre à reeleição. Não fazem isso como meros cidadãos que tem o direito constitucional de votarem, antes querem que todos saibam da sua “divina” opinião quando declaram o seu voto no atual presidente. Bom, até aí não haveria o menor problema. Esses pastores-midiáticos têm a estrutura da internet e podem fazer isso, como um youtuber ou influenciador digital.

Mas o ponto não é esse...

Não querem apenas dizer em que seus seguidores devem votar, mas também chamar a “vontade” de “Deus” para dizer que foi ele, “Deus”, quem disse em quem seus seguidores devem votar. O “Deus” deles foi até o TSE celestial e tirou o seu Título de Eleitor divino para votar exclusivamente no pleito desse ano no Brasil, não por acaso que esse “Deus” deve ser brasileiro mesmo. 

A criatividade desses pastores-midiáticos é incrível, isso é preciso admitir.

Um diz que jejuou quarenta dias, assim como Jesus no deserto e depois foi tentado pelo diabo, mas ele acredita piamente que ouviu mesmo foi a “voz” de “Deus”. O jejum (diferente daquele que Deus cobrou em Isaías 58 dos líderes religiosos, qual seria, “partilhar a comida com o faminto, abrigar o pobre desamparado, vestir o nu e não recusar ajudar o próximo”) serviu para dar a ele a clareza absoluta de que “Deus” estava decidido a dar mais quatro anos para o atual presidente. Ele tem certeza!

Outro disse que orou muito e “Deus” falou com ele de que o atual presidente teria a “vitória” em outubro, pelo fato de “Deus” está conduzindo a Nação para a prosperidade com o atual governo. Além de argumentos já batidos de que o País pode se tornar “socialista” e “comunista” (como se as duas coisas fossem a mesma coisa), o pastor-midiático elencou a sua agenda moral para dizer que os seus seguidores deveriam seguir a sua história e discernimento “espiritual” para votar a partir de princípios que ele considera que o atual governo tem. “Deus” quem o orientou.

O mais conhecido dos pastores-midiáticos conseguiu a proeza de dizer que está “orando” para que as urnas eletrônicas travem por oito horas no dia da eleição e assim o pleito seja cancelado e o resultado não declarado, comprovando, assim, de que houve frade eleitoral. O “Deus” desse pastor-midiático tiraria um tempinho para interferir no processo eleitoral brasileiro a fim de favorecer o seu “Messias”, uma vez que ele é o “ungido” de “Deus” para governar o País. Imagina o “dedo” dele nas urnas...

Esse texto foi escrito no dia oito de setembro de 2022 e poderá ser lido no dia trinta e um de outubro de 2022, caso haja segundo turno.

Sendo o primeiro colocado nas pesquisas de intenção de voto a ganhar a eleição, o “Deus” desses pastores-midiáticos estará em maus lençóis.

Primeiro ele terá que explicar por que falou tão claramente para o pastor que jejuou quarenta dias e falhou na sua “decretação” de quem deveria ganhar a eleição.

Depois ele terá que dizer por que desacreditou a oração do pastor que acredita que o País estava caminhando para ser uma “Venezuela” e “Deus” não impediu. O pastor “jura” de pé junto que foi “Deus” quem mostrou a “vitória”. Isso pegará mal!

Por fim, caso as urnas não travem e o pleito ocorra sem maiores intercorrências, o “Deus” do pastor gritador terá que dizer por que ele não interferiu nas urnas para favorecer o candidato à reeleição. E não interferindo, fica a pergunta: estaria ele, “Deus”, “torcendo” para o outro candidato? De qualquer forma, esse “Deus” estaria “encrencado” caso as coisas não saiam do modo como o pastor está dizendo.

No mais, vamos nos preparar para ver uma virada da “teologia do domínio” de muitos pastores nesse Brasil de bolsonaristas.

A partir do dia trinta e um de outubro, Rm 13 não servirá mais, serviu até agora para “calar” a boca de críticos. E aquele “irmão” que dizia que quem criticava o atual governo deveria na verdade é orar, irá passar a criticar o que assumirá em janeiro de 2023. E aquela conversa de que o Palácio do Planalto foi ungido por “Deus” terá um novo capítulo, isso porque a “unção” de “Deus” terá ido embora do Palácio.

É esperar para ver.

Como esse texto não é para ser lido agora, é aguardar o dia trinta e um de outubro para ler e se certificar se realmente esse “Deus” falou com esses pastores-midiáticos.

Obs.: As aspas são para preservar o Nome daquele que não se deixa usar como cabo eleitoral.

24.5.22

“SÓ DEUS ME TIRA DAQUI” (na possibilidade de “Deus” ter título de eleitor)

Essa é uma velha e conhecida tática: usar e abusar do “nome” de Deus para fazê-lo parecer partidário. Alguns políticos tem feito isso e tornado o Nome um “nome” apenas, fazendo com que a inefável nomeação do “divino” se torne palatável em uma pessoa. Idolatria, é o nome bíblico para isso.

Deus passou a ser identificado, para alguns, com um determinado político, o atual presidente. Ele usa e abusa desse “nome” tornando-o obsoleto dentro de uma conjuntura religiosa. A frase mais ouvida agora é: “Só Deus me tira daqui”. Uma referência à presidência da República e as eleições deste ano.

Para a classe política, e para muitas igrejas, parece ser difícil entender que Deus não tem “título de eleitor”. Mas como o atual presidente entende que “Deus” parece ter uma espécie de “título de eleitor” celestial, vamos entrar na onda dele e ver se o Deus que conhecemos, e se dependesse dele, deixaria o que está aí continuar.

Vejamos...

O Deus dos profetas tiraria o que está aí porque não suporta ver o povo passando fome. Sim, enquanto muitos estão muito bem, há milhares passando necessidade. As famílias estão com fome e isso parece não incomodar quem faz uso desse termo, “família”, o tempo todo. O Deus de Amós diria assim: “Ouçam esta palavra, vocês, políticos que estão em Brasília, vocês, que oprimem os pobres e esmagam os necessitados” (4,1 parafraseado). Deus não compactua com ninguém que deixa o seu povo na fila do osso; Deus não está do lado de ninguém que na maior pandemia da história ofertou R$ 200,00 e o Congresso Nacional aumentou para R$ 600,00 com muita briga, enquanto o Fundo Partidário está na casa dos 5 bilhões. Deus não pode querer alguém que trama para tirar os poucos direitos que ainda restam a grande maioria da população como saúde, educação gratuita e segurança alimentar.

Sendo apenas “Deus” a tirar o que está aí, ele anda pensando muito nessa possibilidade, até porque ele não fica nenhum pouco satisfeito com a devastação que esse governo vem fazendo na Amazônia. Sim, foi ele quem fez com que as árvores dessem o seu fruto e a floresta de pé é coisa dele (Gn 1,11-12). Com certeza ele não gostaria de ver as árvores no chão, com uma política predatória conduzida por um ignóbil que acha que tudo aquilo deveria ser pasto e virar cratera de garimpeiros.

Ainda que haja situações de violência envolvendo o “nome” de Deus na Bíblia, sabemos que ele procurou ensinar o seu povo a buscar a paz e não a violência. É Provérbios 16,29 que diz: “O violento recruta o seu próximo e o leva por um caminho ruim”. Deus observando um ser que apenas usa e abusa do seu Nome e não tem nenhum compromisso com seus princípios, conspirando contra o próprio povo a ponto de vê-los se gladiando nas ruas com tamanha violência, se dependesse dele, tiraria mesmo. E foi Jesus quem ensinou: “Bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9).

Já que é somente “Deus” que poderia tirar alguém do poder, como vem sugerindo o atual presidente, ele deve estar inclinado a isso, caso tivesse o “título de eleitor” celestial. Isso porque ele não suporta a dor e o sofrimento do outro ao ponto de ficar impassível, muito menos fazendo chacota. Quando ele viu a aflição do povo no Egito (Êx 3,7), ele teve compaixão, porque era um povo sofrendo as dores dos seus mortos e feridos pelo trabalho escravo. Sim, ele viu, sentiu e ouviu o choro do povo. Assim, Deus não compactuaria com alguém que, diante da dor do outro, dissesse: “Eu não sou coveiro”.

Mas como Deus não tem “título de eleitor” celestial, tiraremos o que está aí por meio das mesmas urnas que o colocaram lá há quase quatro anos atrás.

14.4.22

MAIS UMA VEZ, MARXISMO E RELIGIÃO

Chega nessa época de eleições gerais no país e mais uma vez ouvimos e vemos vídeos em que a desonestidade intelectual e, não poucas vezes, o mau-caratismo de alguns quando tratam do tema “marxismo e religião” (leia-se cristianismo). Dizem: “Não é possível ser cristão e marxista”. E as frases de efeito e chavões prontos são reproduzidos sem critério algum.

Aqui vai uma breve contribuição sobre esse tema, "marxismo e religião".
Uma das frases mais ouvidas é que Marx tenha dito: “A religião é o ópio do povo”. Essa frase é usada tanto por críticos ao marxismo, no sentido de acentuar um certo “ateísmo” da corrente filosófica, como também por marxistas contrários à religião no sentido de ignorá-la por ser alienadora. Quanto à frase, Michael Löwy faz um alerta: “Devemos enfatizar que essa afirmação não é, de modo algum, especificamente marxista. A mesma frase pode ser encontrada, em vários contextos, nos escritos de Kant, de Herder, de Feuerbach, de Bruno Bauer, de Moses Hess e de Heinrich Heine”. Marx não nega sua aversão à religião em seus escritos, mas quanto ao seu suposto ateísmo, foi desenvolvido muito antes do filósofo formular suas concepções econômico-filosóficas conhecidas hoje como marxismo. Chama a atenção que no mesmo texto do “ópio”, aparecem as expressões “protesto” e “suspiro”. Assim, para Marx, a religião antes de ser “ópio” é “a expressão da verdadeira angústia e um protesto contra a verdadeira angústia. A religião é o suspiro da criatura oprimida”. Depois dessa sentença, o marxismo vem somando intérpretes e releituras a partir do contexto que se coloca. Certo de que a religião não deixou de conduzir as massas, o marxismo precisou se atualizar para enxergar na religião, principalmente no cristianismo de tendência revolucionária, uma força utópica relevante e necessária para a sociedade e seus dilemas sociais.
Mesmo havendo entre os intérpretes marxistas uma certa apologia ao ateísmo, direcionando tão somente a leitura alienadora da religião presente em Marx, é consenso também entre os autores do pensamento marxiano que a questão da religião não é um ponto claro e definido em Marx. Desse modo, os intérpretes de Marx, atentos a isso, concordam que a frase de que “a religião é o ópio do povo”, ainda que aparenta ter um caráter meramente unilateral, significa que a sentença não se confirmou na sua crítica integralmente.
Entre os intérpretes de Marx, que estiveram atentos a essa potencialidade revolucionária da religião, em específico, um ramo do cristianismo, está Rosa Luxemburgo que fez uma distinção entre Igreja e cristianismo, como também Max Adler que distinguiu, no interior do cristianismo, o catolicismo do movimento protestante, sendo este último mais revolucionário que o primeiro em diversos aspectos por razões históricas.
Com isso, é possível concluir com a sentença de Tommaso La Rocca: “É notório que o marxismo teve, repetidas vezes e com maior ou menor oportunidade, de rever ou pelo menos precisar as suas ideias e afinar os seus métodos, forçado pela tomada de consciência da complexidade das realidades históricas e culturais com as quais entrava sucessivamente em contato. Não há dúvida de que uma dessas realidades que induziu o marxismo a repensar a si mesmo foi a religião”. Não por acaso que marxianos têm vem recorrendo à religião como força propulsora para a leitura da realidade política e social. Dentre eles destaca-se Slavoj Žižek.

21.9.21

A IGREJA QUER BRIGA! (SOBRE A TAL “GUERRA CULTURAL”)

Uma rápida busca na internet é possível ver a quantidade de pregadores falando sobre “guerra cultural” (um tema importado dos EUA para o Brasil e que ganhou força, especialmente, a partir de 2018). A maioria dos pastores, bispos e apóstolos, estão preparando a igreja para a briga. Isso porque entendem que a igreja está em uma guerra moral com essa sociedade e seus costumes e comportamentos, uma vez que tais posturas “culturais” não têm compatibilidade com a “Bíblia”. Por isso, é preciso que a igreja dê um “xeque-mate” nessa sanha imoral, brigando e fazendo valer sua moralidade através de leis e visibilidade na arena pública. Do contrário, afirmam, a igreja perderá a sua liberdade e não terá mais oportunidade de cultuar e falar abertamente a sua mensagem (desconhecem o tema da secularização?).

Um pastor de Brasília, falando sobre “guerra cultural”, disse que a igreja deve entrar nessa briga com o “evangelho e a legislação”, ou seja, não basta o evangelho pregado, é preciso brigar por uma legislação que seja compatível com o ordenamento político-religioso da igreja. Agora imagine Paulo dizendo para os irmãos de Corinto que apenas o Evangelho de Jesus Cristo não era o suficiente, mas também que os irmãos precisavam brigar para ver aprovadas leis que contemplassem o entendimento da igreja em determinados assuntos, um deles, por exemplo, a de que a adoração à César era ilegítima, porque só havia apenas um rei, Jesus Cristo.

O fato é que a igreja no Brasil, ou uma parte dela para não generalizar, não faz uma leitura da Bíblia comprometida com o seu contexto imediato. Não por acaso que há inúmeros pastores que domingo após domingo cometem erros grotescos falando do texto bíblico (não desmerecendo a força espiritual da Bíblia para as inúmeras comunidades que se reúnem em torno do texto Sagrado). A leitura da Bíblia, mais especificamente o Novo Testamento, é feita de maneira simplista em relação aos temas que perpassam o pensamento da igreja primitiva. O que ocorre é uma leitura oportunista, de ocasião. Um exemplo é que algum tempo atrás se falava muito em “pós-modernidade”. Muitos pastores deram palestras sobre esse tema sem ter lido nenhuma vez um dos teóricos do tema, o francês Jean-François Lyotard. Hoje, mudando apenas os nomes dos pregadores, usa-se os mesmos textos bíblicos de quando se falava contra a “pós-modernidade” para falar sobre a tal “guerra cultural”. Ou seja, é uma leitura ocasional. O mesmo é possível dizer sobre os pregadores que fazem palestras nas igrejas sobre o tal “marxismo cultural”, tratando-o como uma espécie de “teoria conspiratória” para derrubar os pilares da civilização judaico-cristã no Ocidente. E não é surpresa alguma que esses palestrantes nunca tenham lido as obras de Karl Marx. Mas o que importa mesmo é usar o jargão. Isso atraí incautos.

O fato é que no Brasil a igreja sempre terá um “inimigo” para lutar e armar os “crentes” para a briga. Já foi a vez da “teologia da prosperidade”, mas essa se consolidou e quem já atacou um dia se aliou a ela, fazendo uso com outros nomes para dar muito na vista. Agora é “teologia da aliança com Deus”, “da colheita”, “da semente de fé” e por aí vai. A pauta hoje é uma guerra que algumas pessoas entendem que a igreja precisa enfrentar com a “cultura”, esta reduzida em alguns temas. Isso porque a igreja evangélica nunca foi dada a entender a cultura brasileira.

Não há dúvida de que a igreja foi cooptada pela Direita com esse tema. Uma parte da igreja, por sua vez, segue fazendo o jogo político reverberando o tema como um assunto de “vida ou morte”, fazendo disso um cavalo de batalha.   

Diante disso, uma pergunta sincera: será mesmo que a igreja do Novo Testamento ensinou algo tão bélico assim? Ela foi para a guerra com o propósito de emparedar a ordem vigente e modificar as leis para que a sociedade se adequasse ao que ela entendia como o correto ordenamento político-social? A igreja aliou “evangelho e legislação” para fazer valer a sua visão de mundo? Paulo ensinou que os irmãos deveriam concorrer a cargos públicos para que, uma vez neles, aprovassem leis que pudessem favorecer o crescimento do Reino de Deus?

Quando Paulo chega em Tessalônica e apresenta o Evangelho, as estruturas da cidade são abaladas. A acusação diante das autoridades foi: “Estes que têm transtornado o mundo chegaram também aqui”. O verbo grego para “transtornar” é “revolucionar”. O Evangelho pregado tem, naturalmente, uma conotação política. Isso é inevitável. Os apóstolos foram presos e torturados não apenas porque pregavam o Evangelho, mas porque havia nele uma força subversiva que deixava qualquer autoridade local no mínimo atenta. Em Atos 17,7 a acusação foi de que os cristãos tinham “outro rei”, um rival de César. John Stott, comentando sobre esse trecho no seu comentário de Atos dos Apóstolos, irá dizer: “O senhorio de Jesus possui implicações políticas inevitáveis já que, como servos leais, não podemos dar a nenhuma autoridade ou ideologia a honra suprema e a obediência total que devemos apenas a ele”. Isso não era qualquer coisa, era grave! Na mesma linha, o estudioso do Novo Testamento N. T. Wright, irá dizer: “A obra missionária de Paulo deve ser concebida não simplesmente em termos de um evangelista itinerante oferecendo ao povo uma nova experiência religiosa, mas de um embaixador de um rei em exercício, estabelecendo coalizões de pessoas leais a esse novo rei”.

Os cristãos causavam transtornos, porque era um povo que não se importava se o imperador era bonito ou feio; se ele tinha tanques de guerra ou não; se ele poderia dar terras para a igreja ou não; se ele poderia oferecer cargos no seu governo ou não! Não havia nenhuma preocupação em mudar o ordenamento político-jurídico do Império a partir de dentro. Isso porque a igreja tinha uma mensagem que estava para além desse ordenamento. É por essa razão que James K. A. Smith irá afirmar: “O evangelho, então, é profundamente contra imperial – contra os impérios dos Césares de nosso mundo”.

Ao que parece, a igreja, pelo menos uma parte dela no Brasil, desconhece o poder e a força do Evangelho porque precisa se aliar aos políticos para vencer uma guerra que ela, a igreja, nunca deveria travar. O interessante disso, é que filósofos como Slavoj Žižek, que professa o ateísmo, entende muito bem qual deveria ser o papel dos cristãos para este tempo enquanto muitos cristãos nem mesmo fazem ideia do papel preponderante que exercem na sociedade. Diz o filósofo: “A responsabilidade primeira dos cristãos não é assumir a sociedade e impor suas convicções e seus valores a quem não tem sua fé, mas ‘ser a Igreja’. Recusando-se a responder ao mal com o mal, vivendo em paz e dividindo bens, a Igreja comprova que há uma alternativa à sociedade” (parece que aqui caberia muito bem Lucas 19,40).

A igreja precisa pregar a Cristo! Pregar a Cristo significava dizer para todo o mundo de que há um rei, e ele não é o César; há uma esperança, e ela não está na força das armas; há uma subversão da ordem, porque esta que aí está afronta o Deus de justiça e graça.

A igreja não deveria lutar “guerra cultural” nenhuma. O teólogo Miroslav Volf, em entrevista para um jornal aqui, disse que “as igrejas deveriam ficar de fora de guerras culturais”. O que, então, a igreja deveria querer? Faço minhas palavras a de James K. A. Smith: “Não estamos querendo ganhar uma guerra cultural; estamos apenas tentando ser testemunhas. Não estamos querendo ‘transformar’ a cultura através de carteirada da máquina do Estado; estamos tentando esculpir pequenos antegostos de um Reino vindouro”. E há outra coisa que a igreja foi chamada para fazer de acordo com o Novo Testamento?

2.9.21

A IGREJA QUE ATRAPALHA A LÓGICA DO MUNDO

Thomas Hobbes é o filósofo conhecido por escrever a obra Leviatã. Nesse texto, o filósofo inglês coloca a necessidade de haver uma sociedade forte com um governo forte. Para isso, a sociedade deveria ter uma autoridade centrada ou num monarca ou em uma assembleia e isso garantiria a paz e a defesa do bem comum. Essa autoridade deveria ser um Leviatã (monstro marinho citado no Antigo Testamento).  O Leviatã, em Hobbes, seria aquela autoridade inquestionável, onde todos devessem obediência e servisse para o bem de todos.

Ocorre que para Hobbes havia algo que atrapalhava a concretização dessa forma de governo, do Leviatã. Tratava-se do cristianismo. 

Escandalizava Hobbes o potencial subversivo do cristianismo. Isso porque ele envergava no cristianismo, mais propriamente na igreja, uma capacidade de desagregar o poder da autoridade. Esse poder, como deixa claro o filósofo inglês, deveria ser único e absoluto nas mãos de um monarca ou assembleia, um Leviatã. Desse modo, Hobbes compreendia que a igreja causava uma divisão no poder quando fazia distinção entre secular e religioso. O que mais impressionava Hobbes, era a submissão que as pessoas faziam, voluntariamente, a um único Deus vivo e isso ameaçava toda e qualquer autoridade secular.

Comentando sobre os romanos e como eles trataram o cristianismo assim que se tornou conhecido no Império Romano, Hobbes salienta: “Os romanos, que conquistaram a maior parte do mundo conhecido de então, não tinham escrúpulos ao tolerar a religião que fosse, na própria cidade de Roma, a menos que houvesse nela algo incompatível com o governo civil”. O cristianismo estava nessa religião “incompatível com o governo civil”. Isso porque o cristianismo se constituía uma força autônoma, heterodoxa, que não fazia questão alguma de estar vinculada ao poder estatal e isso incomodava e atrapalhava os planos de qualquer autoridade. Não por acaso que o imperador, não podendo vencer os cristãos, o cooptaram para o Império, tornando o cristianismo religião aceita e, logo depois, oficial.

A igreja, quando está imbuída da sua gênese, atrapalha qualquer tentativa de poder e controle político-social. A razão é muito simples: a igreja tem a sua origem no feito escatológico do Cristo, a sua permanência nesse mundo não está condicionada a qualquer recompensa meritória, uma vez que essa recompensa já foi concretizada de modo escatológico na cruz-ressurreição. Assim, a igreja tem algo que está para além da própria igreja, algo que a mantém, mas não a torna dona, o que seja, o seu horizonte escatológico.

Nessa constituição escatológica de ser igreja, ela carrega algo que ousa celebrar, mas que não possui, e ousa representar o que não é da sua propriedade, além de proclamar uma palavra que não é deste mundo. É por essa razão, que a igreja pode estar envolvida politicamente com este tempo porque o que este mundo e sua lógica poderia oferecer a ela, a igreja, não é compatível com aquilo que ela já tem, o que seja, um horizonte escatológico delineado pelo Cristo com a proclamação do Reino de Deus. E o Reino de Deus não cabe na lógica do mundo.

É nesse sentido, portanto, que a igreja atrapalha a lógica do mundo.

A lógica do mundo é conhecida: torna as pessoas mercadorias; estabelece as relações pessoais a partir de uma lógica de poder. A isso, acrescenta-se os pastores midiáticos que fazem uso dessa lógica quando utilizam sua influência para barganhar com o poder estatal. A lógica do mundo está atrelada ao “quem pode mais, chora menos”; a lógica do mundo faz questão de acentuar as diferenças entre as pessoas, quer por gênero, condição econômica ou status social.

Aí vem a igreja e empareda toda essa lógica quando diz: judeus e gregos podem coexistir no mesmo lugar; mulheres, homens e crianças não são diferentes; as distinções sociais não são critério de aceitação por Deus; o status social de alguém não tem valor meritório na vivência comunitária. Isso é realmente revolucionário. Primeiro para um Império estratificado socialmente como era o romano e depois para o mundo em que o valor das pessoas são medidos pela conta bancária.

E como a igreja rompe com essa lógica? Pegando em armas e planejando a derrubada dos poderes constituídos? A igreja precisa ser anárquica para subverter essa lógica? Não! Obviamente que não.

A igreja rompe e atrapalha a lógica do mundo quando em culto celebra a existência dos enfuturados. Sim, a liturgia (que significa serviço para o povo) é o espaço em que a igreja reunida diz em claro e bom som que as estruturas desse mundo são pecaminosas e que somente pela mensagem da cruz de Cristo e na esperança da ressurreição as coisas terão o seu desfecho dentro da perspectiva divina.

Antes mesmo de James K. A. Smith publicar a sua bela trilogia sobre “Liturgias Culturais”, o teólogo J.J. von Allmen, com o seu livro O culto cristão: teologia e prática, já dizia que a igreja em culto questiona a justiça dos homens e constitui uma “ameaça para o mundo”. Allmen diz: “O culto é o desmentido mais eloquente das pretensões que o mundo possa ter de prover aos homens”. É por essa razão, segundo von Allmen, que “o culto cristão, pelo mero fato de ser celebrado, é um ato fundamentalmente político”. Mais tarde James K. A. Smith, no seu texto Aguardando o rei, irá afirmar: “A adoração da igreja não é apenas uma polis alternativa de um enclave isolado; ela é sempre uma intervenção política no ‘mundo’”. A força da igreja reside na sua celebração que ganha dimensão política quando, de maneira profética, proclama a sua mensagem para um mundo que vive a partir de uma lógica mundana.

Igreja, é aquela comunidade formada de pessoas que fazem questão de atrapalhar a lógica do mundo com a sua postura contestatória e audível quando, de maneira litúrgica, diz para todos que possam ouvir: entre nós não temos um kyrios, não temos um führer, não temos um messias. Temos somente um Senhor, Jesus Cristo, a quem anunciamos como loucura para este mundo e sua lógica desagregadora.

Em um tempo em que parte da igreja foi capturada pelo poder político-econômico no nosso país e tendo, infelizmente, a parceria de pastores para fomentar ainda mais a ebulição social, lembremos, mais uma vez, qual é o papel que a igreja de Jesus Cristo deve exercer nesse tempo. Este é o momento de parte da igreja reconsiderar se realmente os seus caminhos são de paz ou de mal (Jr 29,11). Isso é preciso, caso a igreja queira continuar a ameaçar, escandalosamente, o poder do Leviatã.

16.8.21

GOSPEL BEAUTIFUL

O gospel beautiful é altamente rentável.

Segundo Magali Cunha, uma referência nesse tema, o que temos é uma “cultura gospel”. Isso foi possível porque houve uma ocupação cada vez maior do espaço público com mídias, redes sociais, mas, principalmente, o mercado fonográfico. Isso mesmo. Vender músicas alimenta o mercado gospel como também produz teologia para quem consome o gospel beautiful.

O gospel beautiful é lindo, belo, cheiroso, gostoso, afável, apaixonante. O gospel beautiful leva para as nuvens, tira os pés do chão da realidade e transporta para um estado de espírito onde ocorre o encontro com o self. Quem vive sua vida religiosa a partir do gospel beautiful só precisa ter uma preocupação: deixar a casa para ele entrar e curtir o momento.

Essas bandas que seguiram nas pegadas do sucesso do grupo musical australiano Hillsong, além da mesma postura de palco, luzes e estilo copiado, também procuraram transportar as letras. Quando o repertório acabou, passaram a criar suas próprias letras (óbvio que a qualidade não é a mesma nem aqui e nem na Austrália).

O que temos hoje com essas bandas do gospel beautiful é uma espécie de antropopatia versão 2.0. Fala-se de Deus e, principalmente de Jesus, como se fosse um “namorado”. Por isso ele é lindo, lindo, lindo e mais lindo. E por essa razão é possível estar “apaixonado” por ele perdidamente.

Dentre vários grupos do gospel beautiful, o destaque é a Casa Worship. Sim, essa que tem uma letra em que diz que “deixou a casa” para Jesus, como se houvesse uma para deixar. A letra cantada por Julliany Souza exemplifica muito bem esse gospel beautiful.

Diz a letra:

Te chamam de Deus e de Senhor 

Te chamam de Rei e Salvador

Mas eu me atrevo a te chamar de meu amor

Sim, todas as outras qualificadoras teológicas para Jesus não seriam suficientes, mas agora há um “atrevimento” ao chamá-lo de “meu amor”. A situação muda e tudo fica mais claro e, de maneira indescritível, lindo, porque se trata do gospel beautiful.

E não poderia faltar na letra da Casa Worship o refrão: “Yeshua tu és tão lindo que eu nem sei expressar” (Ainda bem que tenho todas as músicas do amigo Daniel Souza - “Fruto do Espírito”).

E assim temos uma teologia forjada a partir do gospel beautiful, que procura desvencilhar o Jesus de Nazaré da sua missão e a consequente exigência para que os seus discípulos assumam o compromisso de continuarem as suas pegadas. Enquanto isso, uma multidão segue sendo anestesiada com o gospel beautiful. E vai dizer que Jesus não é lindo para essa galera, é bem provável que chamem você de “comunista”.