2.5.13

A PROPÓSITO DA NOTA DE ESCLARECIMENTO DA ORDEM DOS PASTORES BATISTAS DO BRASIL SEÇÃO SP

Não é novidade nenhuma que na Ordem dos Pastores Batistas do Brasil, Seção SP, da qual faço parte, há, em sua grande maioria, pastores e líderes denominacionais que recusam veementemente a ordenação feminina. Mediante diversos fóruns de debate, a OPBB-SP estabeleceu um posicionamento muito claro sobre esse assunto, ou seja, contrária ao ministério pastoral feminino. Além disso, a OPBB-SP considera o assunto superado, não cabendo mais discussão em âmbito nacional e estadual. Legítimo! Esse é o posicionamento da maioria.

Agora, é sabido também que pastores filiados à OPBB-SP são favoráveis à ordenação feminina e procuram externar suas opiniões de diversas maneiras. Esses pastores, assim como os contrários, também têm suas razões para serem favoráveis, tendo, igualmente, o legítimo direito de divergir do posicionamento da OPBB-SP. Esse é o espírito dos batistas.

Sendo assim, mesmo sendo a OPBB-SP uma instituição que representa os pastores e tem todo o direito de emitir sua opinião diante de assuntos e temas discutidos previamente, ela não tem o direito e nem pode tutelar a opinião e posicionamento de filiados que não concordam com suas definições! A OPBB-SP não tem a tarefa de eliminar opiniões que a maioria não aprova.

Falo isso, porque a OPBB-SP emitiu uma NOTA DE ESCLARECIMENTO, veiculada na Internet como no Jornal Comunhão, sobre a indicação da Pra. Diana Flávia à diretoria da Ordem dos Pastores Batistas do Brasil em Aracaju/SE por um filiado da OPBB-SP. Transcrevo parte da nota:

Filiação de Pastoras
Nota de Esclarecimento da OPBB-SP
 A SEÇÃO SÃO PAULO DA OPBB, através de sua Diretoria 2012/2013 também vem a publico esclarecer que:
Causou estranheza aos membros da Diretoria da Seção São Paulo 2012-2013, presentes na Assembleia Anual da OPBB em Aracaju/SE, a indicação do nome da Pra Diana Flávia para concorrer a Secretaria da Diretoria da OPBB, especialmente, por um filiado na Seção São Paulo, uma vez que a Seção já realizou fóruns no qual a maioria dos pastores rejeitou a filiação de pastoras, entende esta atitude como inconveniente.

São Paulo, 1º de Fevereiro de 2013
Diretoria da OPBB-SP 2012/2013

Retirado do Site http://www.opbb-sp.org.br

O que me causa estranheza é a OPBB-SP querer cercear o direito de alguém emitir sua opinião em uma Assembleia Anual da OPBB porque a Seção SP já realizou fóruns no qual a maioria dos pastores rejeitou a filiação de pastoras. A OPBB-SP, por meio de seus fóruns, rejeitar a filiação de pastoras é completamente coerente; agora, impor suas reflexões e conclusões aos pastores filiados e ainda inibir a livre opinião da divergência, é outra coisa totalmente diferente! Isso sim é estranho.

21.4.13

O ESPÍRITO SANTO: ATUALIZADOR DA PRÁXIS DE JESUS

José Comblin é, indubitavelmente, um dos mais conhecidos teólogos na América Latina e no mundo. Sua vasta produção bibliográfica o colocou na lista dos teólogos mais importantes da teologia latino-americana da libertação. Falecido em Março de 2011, Comblin deixou uma profícua reflexão em torno do tema da pneumatologia. A sua última obra, editada postumamente, leva o seguinte título: O Espírito Santo e a tradição de Jesus. São Bernardo do Campo: Nhanduti, 2012. O livro é um ajuntamento de vários textos que Comblin vinha trabalho sobre o Espírito Santo e sua relação com Jesus e, como consequência, com os discípulos de Jesus, ou seja, com a igreja de Jesus.

Uma frase chamou-me atenção no livro de Comblin: “pois Jesus foi a revelação do Pai, mas essa revelação somente pode ser entendida pelo Espírito Santo. Somente podemos entender Jesus agindo como ele”. Nesta frase há alguns enfoques seminais sobre a pneumatologia que passo a destacar brevemente.

O Novo Testamento sempre deixou muito claro que Jesus é a revelação de Deus. Por mais que alguns queiram colocar a Bíblia como revelação de Deus, o Novo Testamento parte do pressuposto de que Jesus revelou a Deus Pai planamente: Jo 14,9 – quem me vê a mim, vê o Pai. A revelação, portanto, não é um texto, é uma pessoa – Jesus de Nazaré. Como Jesus revelou o Pai? Agindo, curando, ensinando, se relacionando, comendo junto, bebendo junto, participando de festas, andando com os marginalizados e etc. Tudo isso e muito mais é Jesus! A novidade teológica de Comblin é que essa revelação só pode ser entendida pelo Espírito Santo. A questão é como se dá esse entendimento. Há princípio não é um entendimento intelectual de aprender lendo apenas. Também não é um entendimento meramente racional, ou seja, é preciso ir além da mera letra, é preciso agir como Jesus. Para que a revelação de Jesus sobre o Pai seja entendida por nós – seus discípulos hoje –, se dá por meio do Espírito Santo, mas se não for possível compreender como o Espírito Santo atualiza a prática de Jesus, a revelação que Jesus faz do Pai não será entendida.

Jesus – enquanto portador da mensagem do Reino de Deus – buscou estar aberto ao outro em suas necessidades e problemas. A missão de seus discípulos foi em seguir os passos do Mestre, reproduzindo sua práxis em situações históricas diante de outros contextos e circunstâncias. Aos discípulos de hoje só é possível entender Jesus por meio do Espírito Santo, e para isso é preciso entender como o Espírito Santo age nos discípulos de Jesus. Se Jesus foi abertura incondicional ao outro, ou seja, ao próximo, o Espírito Santo é essa força (δυναμις = Dunamis) que possibilita ao discípulo a abertura para o outro, porque a tendência geral do ser humano é o fechamento em si mesmo no egoísmo. No entendimento da revelação e no agir como Jesus é que se dá a atuação do Espírito Santo.

Diante disso, a ideia de que as pessoas precisam aprender doutrinas porque assim elas entenderão Jesus é apenas menos da metade. Doutrina, não necessariamente, ajuda a entender o agir de Jesus. O entendimento racional sobre Jesus é possível, mas a sua práxis é que é fundamental. Sem a práxis de Jesus não é possível entender Jesus plenamente. A atualização da práxis de Jesus é o Espírito Santo que realiza com sua força que impulsiona o discípulo a agir como ele.

18.3.13

CRESCER PARA BAIXO – A LÓGICA DA COMUNIDADE DE MATEUS

Reflexão em Mateus 20,17-28

Tenho refletido com a comunidade a partir do evangelho de Mateus. Um texto riquíssimo que aborda a comunidade (igreja, Mt 16,18) que está por trás do evangelho. Quando se cria a noção de que o texto tem um sujeito (autor ou autores do evangelho) e um objeto (a comunidade de fé), a leitura tem um sentido surpreendente. É isso que procuro fazer a partir da mensagem expositiva.

Em nossa última reflexão tratei do capítulo 20,17-28. Texto que em Mateus ganha conotação comunitária, diferente de Marcos, por exemplo, em que o mesmo texto tem a função de ensinar os discípulos o caminho de Jesus, ou seja, a cruz.

Pensando em “crescimento espiritual” percebo certa confusão quanto ao sentido disso. Se dermos uma olhada panorâmica nos principais segmentos denominados de “evangélicos”, podemos perceber que cada um deles tem uma concepção própria do que seria “crescimento espiritual”.

Para os neo-pentecostais “crescimento espiritual” é sinônimo de bênçãos financeiras. Quando se obtém alguma benesse econômica significa que Deus está ajudando a crescer e isso é sinal de que ele (Deus) está prosperando e fazendo o negócio crescer. Já para os irmãos pentecostais a evidência de “crescimento espiritual” está ligada a posse do Espírito Santo. Quanto mais o irmão é “cheio” do Espírito Santo, ele tem “poder” e o falar em línguas dá legitimidade para ser visto pelos outros (irmãos da comunidade) como o “ungido” e detentor de certas credenciais espirituais. Tanto para um (os neo-pentecostais  quanto para o outro (os pentecostais), “crescimento espiritual” é baseado em algo subjetivo, individualista mesmo. Tanto a bênção financeira quanto a posse, e suas consequências, do Espírito Santo são interpretadas como “crescimento espiritual” e, não seria um contrassenso, sempre no sentido de ser para cima, nunca para baixo.

No caso do protestantismo “crescimento espiritual” é sinônimo de ativismo na igreja (lê-se templo e suas atividades, programas e organizações). Quanto mais atividade e envolvimento em alguma coisa da igreja, mais a sensação de que esta crescendo espiritualmente. Daí a cobrança para com aqueles que não frequentam os cultos e reuniões assiduamente tendo, como consequência desse policiamento, a concepção de que uma vez não presente significa que não vai bem espiritualmente. Com isso não estou dizendo que o ajuntamento para a celebração não seja importante, estou dizendo que quando o critério de santidade passa pela obrigação do estar junto ele perdeu o seu foco.

Bem, para a comunidade de Mateus a lógica do dito “crescimento espiritual” não é para cima, e sim para baixo. Não há relação de poder, ou seja, quando a vontade de alguém, ou de um determinado grupo, impõe sobre os outros. O que há na comunidade é uma relação servil. Para a comunidade de Mateus o caminho para ser “grande” – se é possível isso dentro da comunidade –, passa por baixo, ser servo. Servir é fazer algo em benefício do outro. É doar-se ao outro sem arrogância ou prepotência. Quem quiser ser importante (versão da NVI) deverá ser servo; quem quiser ser o primeiro deverá ser escravo. Para Mateus crescer é para baixo e não para cima.

Se quisermos saber o quanto estamos crescendo espiritualmente, basta avaliarmos o quanto de servo estamos nos tornando.

3.3.13

DEVERIA SER ASSIM: O SERMÃO DO MONTE EM MATEUS

Já vimos que o Evangelho de Mateus, dentre os evangelhos sinóticos, é o mais judaico. Ele visa fazer uma releitura do Antigo Testamento colocando pontos comuns para a sua comunidade de fé. Daí essa semelhança, por exemplo, de Jesus com Moisés, onde o autor/es de Mateus faz um paralelo entre Jesus e o grande ícone do Antigo Testamento. Assim como Moisés vai para o Egito, Jesus também; assim como o Faraó mata recém-nascidos no Egito, Herodes faz o mesmo na Judéia; assim como Moisés sobe ao Monte Sinai e traz os Dez Mandamentos ao povo, Jesus sobe no monte e proclama as bem-aventuranças, e tem que ser dez também.         

Uma vez trabalhando com a comunidade de fé, Mateus, assim como o povo hebreu sob os cuidados de Moisés, quer fazer um tratado com a comunidade/igreja, por isso o “Sermão do Monte” é direcionado aos discípulos (Mt 5,1). Assim como Moisés tornou conhecido os Dez Mandamentos, Jesus, no monte, quer tornar conhecido aos seus discípulos o caminho da comunidade. São atitudes que os “membros” da comunidade deveriam ter em relação a Deus, aos outros e consigo mesmo. Em outras palavras, Mateus está dizendo: “deveria ser assim a comunidade”.

As palavras do Sermão do Monte precisam ser internalizadas. As palavras de Jesus não podem ser apenas lidas e observadas, precisam modificar nossa vida. Este é o desafio.

O Sermão do Monte não é um conjunto de preceitos éticos e morais; o texto não está falando de doutrina, regras ou coisa parecida. Jesus está dizendo: deveria ser assim. Quem agir assim é bem-aventurado, é feliz.

O Sermão do Monte é uma caminhada, um ideal a ser seguido, não é algo pronto, mas um processo. Quem conseguir trilhar este caminho é feliz. É bem-aventurado quem conseguir desenvolver a mansidão, porque a arrogância é mais fácil; é bem-aventurado quem conseguir ser misericordioso, porque o egoísmo é o natural; é bem-aventurado quem conseguir ser pacificador, porque fazer guerra é mais comum.

Mateus está dizendo: “deveria ser assim”. É um ideal a ser seguido, mesmo errando e acertando, mais caminhando.

10.2.13

UMA IGREJA ASSIM? SÓ MATEUS MESMO

O texto é Mateus 20,1-16.

Compartilhei com a comunidade este texto neste domingo.

Geralmente todos conhecem este texto como a parábola da vinha. Na verdade, seguindo Joachim Jeremias, a parábola é do bom patrão.

A parábola do bom patrão quer tratar, peculiaridade de Mateus, a relação de graça de Deus com a comunidade de fé, e, neste sentido, as questões que Mateus levanta nós, hoje, enfrentamos.

O primeiro ponto é entender a graça de Deus. As pessoas tendem a colocar Deus dentro de uma redoma, com suas ideias, preconceitos e valores, e julgam que Deus não ultrapassa aquele perímetro. A maneira de se relacionar das pessoas é baseada no mérito; a maneira de Deus se relacionar é baseada na graça.

Se a parábola é endereçada à comunidade de fé (os discípulos), o problema é a graça do bom patrão, os trabalhadores das primeiras horas e o pagamento igualitário. O desenrolar da estória é conhecida.

Seria o problema de Mateus com àquelas pessoas que já pertenciam a comunidade de fé e a relação com os novos membros? Estaria Mateus tentando responder: quem chegou primeiro tem a preferência, tem a primazia?

Minha conclusão é de que Mateus está dizendo que todos são iguais, porque a graça de Deus iguala a todos! Isso é assim queriam ou não! Não importa quem chegou nas primeiras horas e quem só apareceu na última hora de trabalho. Todos são iguais!

Haverá aqueles que sempre vão querer questionar a bondade de Deus por ele fazer questão de igualar a todos, sem distinção. Na comunidade de Mateus é assim: não importa quem chegou por último ou primeiro, todos são tratados com igualdade. Mas sempre  haverá na comunidade de fé pessoas que, por estarem primeiro, irão querer se aproveitar disso para dizer o que pode, o que não pode, o que deve ser assim e o que não deve! Sempre haverá àqueles que irão apontar o dedo e dizer: "ele/a não pode fazer isso, ele/a chegou depois".

A igreja no Evangelho de Mateus é assim: não há primeiros e nem últimos; os últimos não estarão atrás, nem os primeiros estarão na frente. Na igreja de Mateus havia pessoas que se incomodavam com a graça de Deus, mas a questão não é com a bondade de Deus, mas sim com os olhos que estão contaminados com a falta de misericórdia e amor aos irmãos.

23.1.13

“ERA BATISTA, HOJE SOU ADVENTISTA” – UMA CONVERSA NO PORTÃO

Já é comum saber que entre os neopentecostais há um intenso trânsito de pessoas entre as principais denominações deste segmento. Há pessoas que eram da Universal e foram para a Mundial e outras que eram da Mundial e foram para a Internacional e vice e versa. Isso não é surpresa, o modus operandi de todas elas é o mesmo. Até mesmo entre os pastores dessas denominações, como a revista Veja mostrou (http://vejasp.abril.com.br/materia/capa-as-exigencias-de-algumas-igrejas-para-quem-senha-ser-pastor) há um intenso trânsito em troca de benefícios e outras benesses. O vai e vem de pessoas nas denominações é frequente entre pentecostais e neopentecostais, infelizmente o IBGE não apontou esses dados no senso de 2010. Há pessoas que pertencia a uma Assembleia de Deus ministério tal (já existem tantos) e que, por algum motivo, deixou o ministério X e foi para o ministério Y por conta do pastor que dividiu a igreja e levou alguns membros com ele. O caso dos universais e genéricos é a mesma coisa. Quanto a essa prática é comum entre pentecostais e neopentecostais. A mudança de igrejas é corriqueira e, em alguns casos, necessária.

De uns tempos pra cá ouço pessoas que deixaram uma igreja histórica para se filiar a uma igreja pentecostal. Por alguma razão certas práticas nas igrejas pentecostais chamam atenção e essas pessoas querem vivenciar alguma experiência extrassensorial e procuram igrejas que tenha um apelo mais emocional. Quando essas pessoas chegam nessas igrejas são, geralmente, bem recebidas e logo são integradas as atividades da igreja como cultos, sermões e reuniões. O batismo delas é considerado e a qualificação bíblica e doutrinária não é questionada.

Conversei com um rapaz que pertencia a uma Igreja Batista e por outras razões que não foi o sábado, se filiou a uma Igreja Adventista. Lá teve que se batizar de novo, pois a Igreja Adventista não aceita o batismo de nenhuma igreja a não ser a dela mesma. Na mesma semana minha esposa pegou no canal TV Novo Tempo uma entrevista com Jeanne Gomes relatando de como ela e o esposo, um pastor batista já quinze anos, se tornaram adventistas (http://www.portaladventista.org/portal/asn---portugu/1484-pastor-batista-e-esposa-sao-batizados-na-igreja-do-unasp). Na entrevista ela conta que Deus abriu-lhe os olhos para a verdade do sábado e não pode contrariar, a não ser aceitar a nova descoberta que, mesmo com curso teológico, não tinha percebido ainda. Não fiquei chocado, mas surpreso. Ela e o esposo batizaram-se na Igreja Adventista do Sétimo Dia. Se nas igrejas pentecostais o batismo dos batistas é considerado, na Igreja Adventista, mesmo sendo pastor, não é possível. Isso porque os batistas fazem parte de um seleto grupo da chamada Reforma Radical que reivindicaram o batismo por imersão, e mais adiante, a partir de uma pública profissão de fé. É sabido que o movimento adventista tem suas raízes na Igreja Batista por meio de Guillerme Miller, pregador batista, que teve juntamente com algumas pessoas e entre elas Ellen G. White, o devaneio de querer marcar a data da segunda volta de Cristo em 1844. Nesta igreja o ex-pastor batista, e eles fazem questão de frisar isso, e o rapaz que encontrei tiveram que passar pelo batismo por imersão em nome da Trindade novamente.

Os adventistas são extremamente proselitista e consideram que apenas a sua igreja é a correta e o sábado é a maior revelação bíblica. Quando alguém de outra denominação chega à Igreja Adventista o alarido é maior. Parece que a conquista foi grande, principalmente se a origem é pentecostal.

É pena que alguns batistas desavisados, que na sua maioria desconhecem os princípios da Igreja Batista e sua identidade, podem trocar a sua igreja por qualquer outra e pena mais ainda por uma Igreja Adventista.

3.1.13

A TEOLOGIA CANNED PRODUZIDA EM TERRAS TUPINIQUINS

Na história do Cristianismo o protestantismo tem o seu lugar ao sol. O seu surgimento – levando em consideração toda a ambiguidade de qualquer movimento social e contexto religioso –, teve elementos que contribuíram para o desenvolvimento de setores fundamentais da sociedade ocidental. Em seus primórdios, o protestantismo foi comprometido com a política do seu tempo, daí a recusa por qualquer sistema de governo absolutista; em países predominantemente protestantes, com algumas exceções, a ciência, e a busca por novas descobertas de conhecimento, existia a oportunidade de pesquisas e estudos. O protestantismo é fruto da modernidade e seus valores como o racionalismo e a epistemologia. No campo filosófico o tema da liberdade sempre esteve na pauta do protestantismo. Liberdade para tolerar o outro e suas opções (John Locke); liberdade de consciência e expressão e o conceito de individualidade foram temas frequentes entre os reformadores. A temática da liberdade na Reforma foi vista por Georg Hegel como um momento decisivo na história, onde o espírito servil dá lugar a um espírito livre.

O que se tornou o protestantismo em terras brasileiras? O protestantismo por aqui sofreu sérias mutações; ele sofreu um processo de desvirtuamento. A capacidade de diálogo, tão singular nos primórdios do protestantismo, inclusive sinalizado com o diálogo ecumênico, sofreu baixas ao longo de sua trajetória, principalmente o segmento surgido nos Estados Unidos.

Uma vez que o protestantismo no Brasil, e no continente latino-americano, tem sua matriz estadunidense, o protestantismo de missão não soube lidar com a brasilidade – sua formação cultural e religiosa. Com um discurso exclusivista teve como resultado: o isolamento cultural – tornou a igreja num gueto de “salvos e santificados” esperando apenas o céu; o não envolvimento com o tido “mundanismo” é evidência de salvação, daí a completa falta de inserção na cultura do país; o discurso hermético – extremamente confessional; a apologética como chave hermenêutica para entender os “sinais dos tempos”. Desse modo, o protestantismo se alimenta de disputas com o catolicismo e propaga um ufanismo, sempre atacando os diferentes, absorvendo a cultura anglo-saxônica e preterindo a brasileira.

O resultado disso é um conjunto de crenças, modismos, ideologias, idiossincrasias que, na sua maioria, não contempla o espírito protestante (Paul Tillich).

Os pressupostos da pós-modernidade tem solicitado uma abertura de diálogo. Quando se pensa em pós-modernidade e suas bases – pluralismo e secularismo –, há dois tipos de discurso sendo viabilizado – um de teor apologético e outro de convergência. O primeiro trata de importar elementos discutíveis na Europa e nos EUA como ateísmo e evolucionismo como sendo o problema no Brasil e América Latina, não levando em consideração o fato de que o continente respira religião. E, mais recentemente, a questão do teísmo aberto trazendo a tona à temática da soberania de Deus versus a liberdade humana. O segmento que procura ler a pós-modernidade e convergir a partir de temáticas relevantes para o contexto são tidos como heréticos e progressistas.  

Faz-se necessário uma leitura pós-moderna da realidade. Assim como o teólogo suíço Karl Barth lia a conjuntura do seu tempo, quando assumiu o pastorado em Safenwill, numa mão a Bíblia e noutra o jornal, se faz necessário buscar parâmetros e ferramentas hermenêuticas que possam contribuir para uma reflexão teológica que contemple o contexto atual com seus desafios culturais e sociológicos e dê prospectivas sensatas.