8.3.11

O SUPERMERCADO RELIGIOSO EM IPORANGA

É um fato a globalização religiosa, o pluralismo como marca da sociedade contemporânea possibilitou a multiplicação de igrejas/movimentos religiosos no país. A estimativa é que a cada dia surgem dezenas de “igrejas” em lugares mais diversos deste país. Este fenômeno chamou a atenção da Igreja Católica já algum tempo e, como resposta, foi o surgimento dos “padres pop-star” e o fortalecimento do catolicismo carismático. No campo do protestantismo histórico a medida foi estudar o fenômeno e entender o seu status de funcionamento e suas mediações simbólicas. Produziu-se muita coisa (e ainda se produz) na academia como dissertações, pesquisas, fóruns de debate e teses de doutoramento sobre o movimento neopentecostal (são as igrejas: Universal, Internacional e Mundial). As igrejas históricas tem a tendência de preservar a sua tradição e liturgia, com algumas exceções é claro, mas não procuram competir com esses movimentos uma vez que a sua própria teologia não comporta mudanças comportamentais no seu imaginário litúrgico e teológico.

Somado a isso, há mudanças culturais na sociedade que produzem novas perspectivas no campo religioso, uma vez que a religião, assim como tudo na contemporaneidade marcada pelo individualismo e capitalismo, “pode ser consumida pela satisfação que é capaz de proporcionar aos indivíduos” (R. Prandi). Neste segmento, surgem os “novos especialistas” do Sagrado prometendo meios para solucionar o sofrimento humano na mesma velocidade que se toma o copo com água ungido pelo “profeta de Deus”; outra marca indelével do nosso atual momento é a disputa pela interpretação tida como correta, há uma busca de legitimação entre os sistemas religiosos (leem-se igrejas) e cada um procura dar a interpretação verdadeira, uma vez que não existe mais uma instância social/institucional com hegemonia o bastante para estabelecer a “verdade”; além dos conflitos entre sistemas religiosos, há uma dinâmica crescente pela busca da experiência religiosa que passa pelo crivo da individualização e subjetivação, é preciso ser do gosto pessoal (a pergunta é: você se sente bem naquela igreja?), é preciso ser conveniente, pois isso proporciona ao indivíduo costurar seu próprio sistema simbólico religioso, experimentar outras igrejas não é problema.

Traços do que acabei de analisar é possível ver na cidade de Iporanga, cidadezinha de quatro mil e duzentos e cinquenta e dois habitantes (IBGE/2010), no Vale do Ribeira. Aconchegante, simples, com um custo de vida muito modesto com apenas quatro supermercados, mas uma quantidade enorme de igrejas na sua plena diversidade e gosto. É incrível ver como a história do cristianismo é patente na cidade de Iporanga. A Igreja Católica, com sua hegemonia simbólica e ritualista predomina na cidade, como toda a cidade do interior do Brasil; a Igreja Batista, o único ramo protestante na cidade, a primeira igreja não católica a chegar à cidade; três Assembleias de Deus, cada uma reivindicando a manipulação do Espírito Santo, todas com o mesmo poder e fogo, mas não podem ser uma, pois a política dessas denominações não permite: há Belém, Madureira e outra que se dividiu das duas citadas que nem mesmo sei de que ramo é; a cidade conta ainda com a igreja do missionário Davi Martins Miranda, a Igreja Deus é Amor, inexpressiva, mas está aqui, e uma igreja que se denomina Comunidade Evangélica, um ramo que se identifica com a Igreja do Evangelho Quadrangular, mas não é Quadrangular. Por aqui não temos Universal, Internacional, não há dinheiro na cidade, portanto o deus dessas igrejas não se interessa por Iporanga, houve a tentativa de implantar a Mundial, não deu certo, o mínimo que se pediu foi sessenta reais, não houve clientes, digo, crentes!

Como se não bastasse essa quantidade de igrejas na cidade, chega agora duas entidades religiosas com o velho discurso exclusivista: Testemunhas de Jeová e Adventistas. A primeira é fruto de alucinações de Charles Taze Russel, fundou a Sociedade Torre de Vigia em 1879. Eles têm a própria bíblia, conhecida como Tradução do Novo Mundo; entendem que Jesus foi a primeira criação de Deus e rejeitam a Trindade como revelação, além é claro de enfatizarem o sangue como portador da vida, daí a sua não transfusão. Já os Adventistas, fundado por Willian Miller, conta com a sua profetiza, Ellen White, a continuadora da Bíblia com suas revelações. Com uma ênfase extremada na volta de Cristo (marcaram por diversas vezes a data desse acontecimento) e no sábado como meio salvífico. Ambos proselitistas, possuidores de uma mensagem ímpar, onde quem não pertence ao grupo não é “salvo” ainda.

Diante dessa variedade de sistemas religiosos, é preciso reafirmar algumas propostas: acentuar a humanidade de Deus em Cristo Jesus; estabelecer laços de fraternidade e solidariedade na comunidade; focar na figura/presença de Jesus na comunidade de fé e reproduzir seus compromissos como amor, perdão e reino de Deus; extirpar do meio da comunidade o julgamento/monitoramento legalista/moralista.

4.3.11

AS DIFICULDADES DO NOSSO JEITO DE SER CRISTÃO

É impressionante como algumas ideias, alguns conceitos e comportamentos surgem na comunidade de fé que, na sua grande maioria, não tem fundamento bíblico e até mesmo sensato! São coisas que passam de pais para filhos, que se ouve de púlpitos, onde o pregador está mais interessado em proferir o que não se deve fazer do que acentuar a graça de Deus e seu amor. Com um discurso carregado de moralismo e pedantismo, pregadores, ao invés de pregar algo que seja bíblico e ensine o povo, prega sobre comportamentos e autoflagelo como meio de uma espiritualidade sadia. Isso é horrível! O povo vai tendo e nutrindo algumas ideias que chegam a ser absurdas.

Aqui na Memorial em Iporanga tratei durante um mês sobre as dificuldades do nosso jeito de ser cristão. Aquelas questões que todo mundo ouve, acredita que é o correto passa para frente como verdade absoluta e aí daquele que discordar. Essas coisas minam o Evangelho transformando-o em mero produto religioso.

Tratei com a comunidade sobre os seguintes assuntos: 1). Confundimos cristianismo com legalismo; 2). Confundimos fidelidade a Deus com ativismo religioso; 3). Confundimos batismo com seguir a igreja. Esses temas, não sei na sua igreja, mas aqui, e creio que em muitas, existem distorções, confusão em torno de algo que foi desvirtuado.

Confundimos cristianismo com legalismo: o legalismo é aquela ideia de que no final das contas o que salva mesmo é o comportamento. É comum na comunidade de fé julgar uma pessoa pelo seu comportamento e dizer se ela tem ou não uma experiência com Deus a partir disso. Em geral o legalista se gloria de suas ações e avalia o outro a partir da sua maneira de ser. Como isso é comum em nossas igrejas, às pessoas rotulam umas as outras a partir do que fazem. Muitas se assemelham com a parábola de Lucas 18,10-14, o publicano se gloriando de ser, na sua perspectiva, melhor do que o cobrador de impostos. A liberdade que tanto o apóstolo Paulo coloca (Gl 5,1-4) é substituída por regras que “salvam” no entender de alguns. Confundem cristianismo com legalismo quando na verdade não há nem mesmo paridade.

Confundimos fidelidade a Deus com ativismo religioso: um primeiro erro é a confusão que se faz com Templo/Igreja. As pessoas dizem ir à igreja e não ao templo. Uma vez que igreja são pessoas que se reúnem no templo. A nossa cultura, contrariando o NT, viu templo/igreja como morada de Deus, uma herança do catolicismo – é por isso que o fiel católico quando passa na frente de um templo ele logo faz o sinal da cruz, outros tiram o chapéu, sinal de respeito por entender que Deus está ali. Nós não temos isso, sinal da cruz, mas muitas pessoas idolatram o templo. Não pode mexer na mobília, por exemplo. Conheço um pastor que ousou tirar uma mesa do centro do templo e quase deixou o ministério por conta disso! Com essa confusão, há pessoas que entendem que ir ao templo/igreja é sinal de fidelidade a Deus, e aqueles que faltam aos cultos são relapsos e descompromissados e, até mesmo, nem mesmo são cristãos! Cria-se uma cobrança e um julgamento para com os infrequentes. No NT não havia templos, a igreja se reunia em casas (Rm. 16, 5; 1Co. 16, 19). Quando a fidelidade a Deus não passa pela vida, mas pelo templo, temos um problema.

Confundimos batismo com seguir a igreja: o batismo deixou de ser aquilo que Paulo fala em Romanos 6 de que ele significa participação na morte e ressurreição de Cristo e passa a ser o meio pelo qual filtra e identifica alguém como pertencente a igreja, ou seja, o batismo não salva, mas para a igreja sim. Antes do batismo o frequentador comete pecados, não há problemas, a igreja não se sente responsabilizada por ele, mas se ele for batizado aí há um problema, porque agora ele é membro da igreja. O batismo deixa de ser a marca do discipulado e passa a ser a marca da igreja; a marca da adesão as suas regras e doutrinas.

Esses temas precisam passar por revisões, do contrário estaremos contribuindo para que mais pessoas cometam a mesma confusão. Cristianismo nunca foi um pacote de regras e normas, mas fé em Cristo e como consequência uma novidade de vida. Tanto o AT como o NT fala do mero ativismo religioso sem a motivação correta. Não dá mais para tolerar em nossas comunidades pessoas que se acham melhores que outras porque desempenha diversas funções.

A comunidade de fé é feita de pessoas com seus defeitos e qualidades. Há fortes e fracos, como diz Paulo, mas todos queridos e amados por Deus em Cristo Jesus.

18.2.11

A CNBB DÁ MAIS UM EXEMPLO DE TEOLOGIA PÚBLICA

A discussão sobre teologia pública esta chegando agora no Brasil. Recentemente postei algo sobre eclesiologia pública no blog (http://wwwibmi.blogspot.com/2010/12/por-uma-eclesiologia-publica.html), alertando da necessidade que temos de pensar a relevância da teologia para a vida citadina como um todo, a libertação do gueto que chamamos igreja, para um pensar aberto e acolhedor dos dilemas e problemas da sociedade. Jürgen Moltmann trabalha esta questão no seu livro Dio nel progetto del mondo moderno; contributi per uma rilevanza pubblica della teologia (Brescia: Queriniana, 1999) colocando que uma identidade cristã só é possível com a devida relevância na cidade/sociedade, do contrário os valores do reino de Deus não terão êxito! As igrejas não católicas não se aperceberam disso ainda. Sofremos ainda com certo tipo de apartheid que segrega uns dos outros, fragmentando a mensagem de Jesus, distorcendo o Evangelho, olhando apenas para o seu mundo, reduto de poder e conquistas.

Exemplo disso foi a completa omissão no debate sobre a “Ficha Limpa”, a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) estabeleceu parceiros como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) para levantar as assinaturas e transformar o projeto em Lei, os protestantes históricos, os pentecostais clássicos, os neopentecostais, todos fizeram como o levita e o sacerdote da parábola do Bom Samaritano, passaram a distância do assunto.

Quem em nossas igrejas não acompanha o reality show Big Brother Brasil? Há onze (11) anos a Rede Globo coloca esse programa estúpido no ar. Quantas pessoas já passaram por ali que não tinham nada a dizer? Enquanto isso os milhares de brasileiros acompanham um programa chula, vulgar, maquiado com um jornalista, tido como inteligente e intelectual, para dar um pouco de credibilidade que não tem. O BBB até mesmo incorporou jargões como “afinidade” ou “espiadinha” na nossa cultura.

A CNBB mais uma vez dá o exemplo de uma teologia pública, quando leva a sociedade a refletir sobre esse programa. Recentemente o órgão máximo dos católicos no Brasil declarou* que os reality shows atentam contra a dignidade da pessoa humana, como também de seus participantes, pedindo um esforço comum contra a agressão impune aos valores morais vinculados nos programas (lê-se aí, BBB).

O programa tem perdido audiência. Quando isso ocorre, as manobras são feitas para assegurar o barraco, a promiscuidade e a falta de decência moral e ética. A CNBB ainda completa na sua nota, dizendo que esses programas (os reality shows [BBB]), gera o processo de degradação da sociedade e da família brasileira.

Teologia pública é isso. É emitir opinião mesmo sabendo que muitos não darão ouvidos, mas mesmo assim fala. Foi-se o tempo de ficarmos no casulo esperando que as coisas aconteçam pelo “dedo de Deus”. A igreja faz exatamente aquilo que Mt 5, 14-16 contraria, coloca a luz debaixo da mesa aguardando a consumação dos séculos. Enquanto isso fica completamente descartada dos grandes debates nacionais, apenas discutindo assuntos supérfluos. Os batistas na sua última Assembleia Convencional (CBB) assumiu o compromisso para com o meio ambiente e a defesa da vida. Isso é teologia pública, é levar a reflexão sobre Deus a níveis mais altos da sociedade, se comprometendo com a vida que Deus outorgou.

Como protestante, só tenho que parabenizar a CNBB por mais esse gesto de preocupação e defesa da dignidade humana. Agradeço a Deus porque muitos católicos engajados na sua igreja estão no Congresso Nacional e eles irão debater acirradamente contra leis que querem privilegiar alguns em detrimento da maioria com o pretexto da discriminação – refiro-me a PL/122.

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* Disponível em: http://bbb11.yahoo.net/noticias/554/reality-shows-atentam-contra-a-dignidade-humana-diz-cnbb.html
Acesso em 17 fev. 2011

12.2.11

O QUE BOB HAZLETT NÃO ENTENDE

Quando chega esta época é a mesma coisa de sempre em alguns redutos tidos como “evangélicos” – estou me referindo ao carnaval – pragueja, expulsa demônios territoriais, prega-se contra, demoniza como festa do diabo e da carne, da sensualidade etc. Tudo isso já ouvimos e continuamos a ouvir quando chega nesses meses. As igrejas fazem os seus acampamentos, se afastando completamente do “mundo” e se encastelando como os “separados”. Assim a condição de gueto é assegurada.

No começo desse mês o carnaval do Rio de Janeiro teve uma perda incalculável. Na Cidade do Samba alguns galpões pegaram fogo consumindo anos de trabalho duro de gente de diferentes classes sociais e lugares. Carros alegóricos, fantasias, a logística do evento o fogo consumiu em questão de minutos. Uma pena mesmo!

Particularmente não sou fã do carnaval. Embora fique admirado com a criatividade e com alguns temas escolhidos, mas não me agrada a conjuntura do evento, mas isso sou eu, nem todos, por exemplo, ouvem ou já ouviram Beethoven, Mozart, Chopin ou Bach, é uma questão de estilo musical mesmo. Assim como esses nomes representam a cultura popular da Europa, e principalmente da Alemanha, o carnaval representa a cultura popular brasileira, isso é inquestionável. Também não suporto a importação da festa das bruxas do EUA, onde por lá todos participam independente de religião, é uma festa cultural, não poderia demonizá-la porque não me agrada.

Digo isso porque, em visita ao nosso país, o Pr. Bob Hazlett (EUA) falou essas palavras: “Eu escuto o Senhor dizendo: Eu vou fechar a festa do diabo e Eu terei uma festa nas ruas, porque Eu adorarei durante o carnaval. Eu estarei curando enfermos durante o carnaval. Eu estarei expulsando os demônios durante o carnaval… Minha igreja se levantará para trazer luz durante a festa das trevas”.* Logo após o acontecido no Rio de Janeiro com os galpões do samba, essas palavras se transformaram em “profecia”. O referido pastor ficou famoso por “profetizar dias antes o incêndio nos barracões das Escolas de Samba do Rio”. O sensacionalismo “evangélico” é incrível. Primeiro ele não diz nada, essa que é a verdade. Não diz o que aconteceria; o processo sugestivo funcionou muito bem aqui. Depois diz que irá “fechar a festa do diabo”, o carnaval irá acontecer, e ainda, mais animado, mais empolgante e emocionante por parte de seus participantes, porque para eles realizar o carnaval este ano será uma questão de honra. Depois, como já disse, nessa época sobram “profetas” falando contra o carnaval, ele foi mais um. Apenas coincidiu de ser na mesma semana, apenas isso.

Não dá para demonizar aquilo que não concordamos ou entendemos que esteja errado. O que Bob Hazlett não entende é que no nosso país o carnaval é uma imensa obra de arte coletiva produzida por centenas e até mesmo milhares de artistas. É a ocasião "em que a vida diária cessa de ser operante e, por causa disso, inventa-se esse momento extraordinário" (Roberto DaMatta). É a festa onde o povo desfila, e as cores tomam conta do ambiente. Para citar Jaci Maraschin, “no carnaval, as diferenças de raça, classe, sexo e indivíduo são apagadas. Essa festa confunde tudo. Mistura e tornam iguais tanto os ricos como os pobres, os brancos e os pretos, os empregados e os patrões, a senhora e sua empregada, desmanchando preconceitos e distâncias. Cria certo tipo de miragem onde os feios se tornam bonitos, o dia se transforma em noite, e a noite, em dia”.

Seria bom se todas as nossas festas tivessem um fundamento religioso, como Israel, por exemplo, mas não é assim aqui. No nosso país o carnaval tem diferentes faces, uma espécie de comercialização e banalização sexual em São Paulo e Rio de Janeiro, mas também a obra de arte sendo exposta em carros gigantescos e enredos que cantam a vida; no nordeste o frevo e os bonecos gigantes que marcam as ruas de Olinda e Recife. Em todas essas manifestações a presença do mal é inevitável, aliás, o mal é inevitável até mesmo dentro das igrejas.

Carnaval no Brasil não é a festa das trevas, embora você possa discordar de mim. É a festa daqueles que ainda não encontraram a motivação correta para celebrar a vida, que é Jesus Cristo, mas aí pensar que Deus colocaria fogo em galpões com milhares de pessoas dentro apenas para parar a “festa do diabo” é demais.
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* Disponível em: http://noticias.gospelmais.com.br/video-pastor-profetiza-incendio-escolas-cidade-samba-rio-16309.html
Acesso em: 10 fev. 2011

5.2.11

OS BATISTAS E A ECOLOGIA

O modo de vida hoje é resultado de uma mentalidade que rompe com a Idade Média patrocinada, dentre outros, por F. Bacon e R. Descartes quando coloca a relação do ser humano com o mundo sob o paradigma de sujeito-objeto. Com essa ideologia, a ciência triunfa sobre a natureza, ignorando os seus limites e espaços. A proposta é subjugar a natureza ao conhecimento científico, não importando as consequências. A questão ecológica é deixada de lado e o mundo é objeto a ser desvendado. Teve seus resultados benéficos, mas muito mais maléficos como presenciamos hoje.

O protestantismo, de modo geral, é fruto da modernidade, portanto, compartilha dessa ideologia. Com a ênfase no indivíduo e o processo de dessacralização do mundo (Planeta Terra), este passou a ser visto como útil apenas. A natureza passa a ser matéria-prima para a atividade humana. Decorre disso, a completa omissão para com a criação e a falta de uma espiritualidade ecológica. O protestantismo, como um dos protagonistas do sistema capitalista (M. Weber), contribuiu e muito para o atual sistema exploratório da Terra, quando adotou a cosmovisão utilitarista ao invés da bíblica que apresenta a noção de mordomia e corresponsabilidade para com o meio ambiente.

A atividade econômica do sistema globalizado capitalista quando se atém ao lucro e não respeita a diversidade da vida, a formação geográfica natural de um lugar, a nascente de um rio, a biodiversidade do Planeta Terra, está ignorando a presença de Deus na criação, além de negar, peremptoriamente, de que o ser humano não é parte integrante do ecossistema. Parece que muitos ainda não perceberam de que “quando a última árvore for abatida, quando o último rio for envenenado, quando o último peixe for capturado, somente então nos daremos conta de que não se pode comer dinheiro” (cacique norte-americano Sattel). O clima pede socorro, e os mordomos de Deus na criação ignoram esta tarefa quando discute sobre tantas outras coisas e esquecem o que está aí, a vida e suas mazelas causadas, na sua maioria, pela ganância humana.

A narrativa bíblica da criação nos apresenta a superação de tensões, humanidade-natureza, e oferece caminhos para um viver harmonizado com Deus, com o outro e com a natureza. A criação é fruto do amor de Deus. Com o ato de criar Deus permanece junto a sua criação, sustentando e se relacionando com toda a obra criada. Sendo assim, a criação está toda interligada, numa relação de interdependência, Deus-Terra-Humanidade.

Com a Carta de Niterói, sobre o meio ambiente, os batistas, reunidos para a sua 91ª Assembleia da Convenção Batista Brasileira (CBB) na cidade de Niterói/RJ, estabelece marcos de uma nova era de reflexão sobre a atuação pastoral da igreja no meio ambiente. Isto é salutar, pois ainda carregamos estigmas de uma velha ideia, a de que Deus está interessado apenas com a “alma” do indivíduo, esquecendo de que ele é um ser integrado numa sociedade e no meio ambiente. A Carta de Niterói abre espaço para a igreja refletir sobre a sociedade em que esta inserida e apresentar propostas para amenizar o problema. É possível organizar uma coleta seletiva; ou ainda apresentar projetos junto as autoridade políticas da cidade para uma maior conscientização do meio ambiente. Há diversas atividades que podem ser feitas a fim de contribuir para atenuar os dilemas ambientais.

O momento é de reflexão sobre o tema. É inadmissível para aqueles que creem que Deus é criador e não agir como mordomos da criação divina. Esperamos, sinceramente, que artigos, textos, impressos e online, sejam escritos sobre isso. É bom saber que já há um blog com o título Vida e Meio Ambiente tornando possível o acesso a textos e artigos de opinião sobre o tema. Que possa haver revistas de EBD com a temática, pastores pregando, teólogos discutindo e elaborando fóruns de debate, este é o momento. A CBB já deu o início, resta agora aprofundarmos a discussão. Que seja reivindicando, protestando, trabalhando, refletindo, cuidando, o que não podemos mais é ficar inertes ao tema.

3.2.11

O DESVIRTUAMENTO DO PROTESTANTISMO

O protestantismo do qual somos “herdeiros” era pujante. Um protestantismo comprometido com a política do seu tempo, daí a recusa por qualquer sistema de governo absolutista; um protestantismo partidário da ciência, das descobertas (é claro que daí veio a cosmovisão utilitarista do mundo e seus recursos naturais).

O protestantismo é fruto da modernidade e seus valores como o racionalismo. Lá, o protestantismo teve um envolvimento significativo na política, forjando modelos alternativos de governo por onde passou. Aliás, foi por querer a separação entre igreja e estado que os batistas surgiram na Inglaterra do século XVII. Por lá os protestantes levantaram a bandeira da liberdade em todos os sentidos, inclusive a religiosa. Liberdade para tolerar o outro e suas opções (Locke). A liberdade de consciência e expressão e o conceito de individualidade são o legado da Reforma Protestante.

O que se tornou o protestantismo em terras brasileiras? O protestantismo por aqui sofreu sérias mutações, na verdade ele foi desvirtuado mesmo. Num primeiro momento o protestantismo de missão não soube lidar com a brasilidade – sua formação cultural e religiosa. Com um discurso exclusivista, o resultado foi: 1). O isolamento cultural – tornou a igreja num gueto de “salvos e santificados” esperando apenas o céu. O não envolvimento com o tido “mundanismo” é evidência de salvação, daí a completa falta de inserção na cultura do país; 2). O discurso hermético – extremamente confessional; apologético mesmo. O protestantismo se alimenta de disputas com o catolicismo e propaga um ufanismo, sempre atacando os diferentes, absorvendo a cultura anglo-saxônica e preterindo a brasileira.

O resultado disso é um conjunto de crenças, modismo, ideologias, idiossincrasias que, na sua maioria, não comtempla o espírito protestante.

Apenas para constatar:

Cristologia – o Cristo protestante reside no céu, e logo voltará para buscar os seus que se comportaram muito bem, afinal de contas não é a graça que salva, mas o comportamento, porque por aqui se confunde e muito cristianismo com legalismo. Não se vive sob a graça, mas sob a lei. A liberdade, tanto em Paulo quanto no protestantismo de lá, é solapada por uma série de preceitos, regras. Por aqui o protestantismo de princípios, como a nossa vertente (os batistas), não teve lugar. É lamentável.

Eclesiologia – o cristão protestante vai à igreja e não no templo. A igreja não é uma realidade de salvos que se reúnem para louvor a Deus, mas é uma tarefa que precisa ser cumprida. Desse modo, aqueles que não frequentam os cultos estão com problemas com Deus, porque por aqui se confunde fidelidade a Deus com ativismo religioso. No final das contas, é a igreja (instituição) que salva. É por isso que batismo numa igreja protestante não é uma identificação que o cristão tem com Cristo na sua morte e ressurreição, Paulo estava errado em Rm 6, mas é uma maneira de dizer que aquela pessoa a partir do batismo irá seguir as regras daquela igreja. Portanto, não fico espantado quando vejo igrejas que transformam a Ceia num critério de disciplina e não de pertencimento ao corpo de Cristo. A Ceia se parece mais com uma autoflagelação para o cristão, quando chega o momento ele fica se perguntando: o que fiz de errado para não participar do corpo de Cristo?

O nosso jeito de ser protestante é marcado por um novo fundamentalismo que torna a igreja num gueto social e cultural e forja cristãos neuróticos com a saga de querer agradar a Deus com suas práticas religiosas.

18.1.11

O SACRAMENTO DO OUTRO

As pessoas na igreja estão sempre se questionando o que agrada a Deus. Agradar a Deus, geralmente, é procurar satisfazê-lo de alguma forma. Daí a variedade de ideias, preceitos que julgam agradar a Deus. Para alguns significa não ter nenhum relacionamento com pessoas que não sejam da igreja, isso é sinônimo de santidade. Quando aquela reunião com os colegas da empresa é recusada é sinal de santidade e proximidade com Deus. Outros ainda agradar a Deus é orar por duas horas, ler a Bíblia diariamente, não que isso não seja importante, mas isso é colocado como condição única de se agradar a Deus. Sem contar na confusão que há entre moralismo e santidade, não usar determinadas coisas é ser santo, por exemplo.

O texto de 1Jo traça um caminho interessante de relacionamento com Deus, de santidade, no sentido de se tornar mais semelhante a Deus. O autor de 1Jo afirma peremptoriamente que o relacionamento com Deus passa pelo outro. Deus sendo eterno dá algo de si mesmo, o amor. O que define Deus é o amor (3,16). O amor é vida eterna. A vida eterna se constrói em amor (3,14). Salvação aqui não é doutrina de preceitos e conceitos que carecem serem decorados, mas é a realização de uma vida em amor.

Para 1Jo o amor se mostra em serviço ao outro (3,17-18); no amor e no perdão ao outro é possível o relacionamento com Deus (4,7-21). Até mesmo o julgamento final, o critério será o amor (4,16-18).

O momento é de extremo egoísmo e individualismo nas igrejas. A igreja, como instituição, valoriza muito mais as regras e os códigos de conduta do que o amor ao próximo como sacramento perante Deus. Uma santidade baseada em preceitos e mandingas tidas como “evangélicas” estão norteando a caminhada de muitos. Os cultos são individualistas, onde o que ocorre é julgado se foi bom ou não apenas pelo aspecto subjetivo, e, quase nunca, coletivo.

Para a comunidade de 1Jo o amor é o fundamento da vida cristã. O único meio de se ter relacionamento com Deus, é por meio do outro; sem a mediação do irmão não pode haver conhecimento de Deus, neste sentido o outro se torna sacramento, no sentido de mediar a graça de Deus a nós. A salvação é concretizada pelo amor ao outro; a eternidade é possível apenas pelo amor ao outro; o julgamento perde a sua dimensão terrorista para aqueles que amam.