O racismo faz parte da estrutura social brasileira. Isso quer dizer que não está meramente nas piadas com pretos, antes domina as relações sociais e determina as condições que favorece a desigualdade em termos políticos, sociais e econômicos. As falas racistas e o comportamento preconceituoso que corriqueiramente ganha notoriedade na impressa e redes sociais, é mais uma mera manifestação de um fenômeno que é sistêmico e se faz presente em todas as facetas do país, sendo que a violência policial e a quantidade de presos pretos no sistema penitenciário brasileiro é a face mais visível desse racismo sistêmico.
O caso dos protestantismos no Brasil, não obstante apenas os batistas, infelizmente reforçou o racismo sistêmico, sendo, portanto, um dos pilares da estrutura racista que permeia o Estado brasileiro. O protestantismo de cunho étnico tinha um claro objetivo: o branqueamento da raça. O protestantismo se configurou no país a partir da “guerra cultural”, demonizando as religiões de matriz africana. Por essa razão, que o “samba, originalmente, era música do morro, de negro e pobre, e foi rejeitada pelas igrejas protestantes, muito mais por racismo que por razões teológicas” (ALENCAR, 2007, p. 79).
A Igreja Batista, em específico, é resistente quanto ao enfrentamento do racismo como tema inevitável quando da origem e formação da denominação no país. Sempre foi um tema escamoteado e negligenciado por lideranças denominacionais e pastores de igrejas locais. Um tema comumente ausente dos púlpitos das igrejas e inexistente na literatura das conhecidas “Escolas Bíblicas Dominicais”. Por conta disso, sabemos da dificuldade que há quando o assunto surge em igrejas Batistas. Algum tempo atrás, um colega de ministério testemunhou da sua dificuldade quando em Assembleia Geral a igreja elegeu membros negros para cargos da Diretoria Administrativa da igreja. Houve séria resistência quanto a esse ocorrido, mas o pastor permaneceu firme no seu propósito de integrar essas pessoas na liderança da comunidade.
Em 2019, ocorreu algo ainda mais grave enquanto denominação Batista no Brasil. A Juventude Batista Brasileira da CBB, no seu congresso anual “Despertar”, organizou mesas de debates e falas sobre diferentes assuntos. Dentre essas mesas estava uma em especial: “Descolonizando o olhar: o racismo atinge a igreja?”. Os convidados foram Fabíola Oliveira e o pastor batista Marco Davi Oliveira. Após o movimento contrário de um determinado grupo ultraconservador que alegou “desvio doutrinário” na formação da mesa, manifestando que eram desfavoráveis quanto a presença de Fabíola e Marco no congresso da JBB, a direção da JBB decidiu desconvidá-los. Decisão que contou com a participação da Diretoria da CBB. O caso ganhou repercussão e a Igreja Batista passou a ser qualificada como “racista”. Um episódio lamentável e inconcebível quando se trata do ethos dos Batistas e seu apreço pela democracia e o lugar de fala dos seus membros.
Essa semana mais um episódio execrável envolvendo uma live do senhor Rodrigo Santos e sua esposa Jéssica Maciel e a citação de uma Igreja Batista.
Na referida live, Rodrigo (que se apresenta como pastor) narra como conheceu a sua esposa, Jéssica (também pastora) na cidade de Toledo/PR quando ambos frequentavam a Igreja Batista do Calvário. Ele pontua que a igreja estava no lado pobre da cidade e afirma que ficou surpreso em encontrar Jéssica ali. O que vem depois disso é repugnante e demonstra mais uma vez o racismo estrutural e desumano que permeia a sociedade brasileira e a igreja segue sendo um recorte disso. Rodrigo diz que na igreja a maioria dos irmãos eram “encardidos”, “mais moreninho” e “meio sujo” e que sua esposa, por ser loira, causou um certo destaque, além de ser ela da “Zona Norte, zona mais nobre da cidade”.
A Igreja Batista do Calvário reagiu e divulgou uma Nota de Esclarecimento pela fala do então Pr. Rodrigo Santos. Segue:
A Primeira Igreja Batista do Calvário
em Toledo, tem uma história de quase quatro décadas desenvolvendo suas
atividades religiosas e sociais em Toledo, localizada sua Sede na Grande
Pioneira.
Por meio desta nota manifestamos
publicamente que não compartilhamos de forma alguma com quaisquer atitudes
preconceituosas, manifestação de racismo, desrespeito a individualidade ou manifestações
de ódio.
À luz da Lei 7.716/1989 e do Estatuto
da Igualdade Racial (Lei 12.288/2010) definem o Racismo como crime inafiançável,
inaceitável e indefensável.
A igreja, diante das repercussões
geradas pela “live do pastor Rodrigo dos Santos”, reafirma seu compromisso
institucional com a promoção da igualdade étnico-racial, sexual, religiosa,
repudiando toda e qualquer manifestação de preconceito, contra quem quer que
seja. Sendo que reconhecemos que todas as pessoas são iguais perante a Lei e o
Criador.
Também informamos que o Sr. Rodrigo
dos Santos, foi membro de nossa igreja há tempos atrás, mas que atualmente (8
anos) reside fora do país e congrega em outro ministério onde atua como pastor.
A nota de retratação foi postada em nossa página em função de nossa igreja ter sido citada na live.
O racismo estrutural precisa ser combatido e denunciado.
O racismo é pecado e mata! Ainda estamos todos
consternados por um João Pedro, morto pela polícia na sua casa em Niterói; por
um George Floyd asfixiado por um policial branco em Minneapolis (EUA); e Miguel,
menino negro, que caiu do nono andar de um prédio em Pernambuco porque a patroa
da sua mãe permitiu que a criança de cinco anos de idade entrasse sozinho no
elevador e subisse para a morte. Por essa razão que quando se levanta o grito
de que “VIDAS NEGRAS IMPORTAM” não é apenas um discurso retórico. É a
constatação de que algumas vidas não importam tanto e que qualquer tentativa de
querer igualar as classes sociais como se as mesmas fossem homogêneas é
falaciosa.
As igrejas Batistas precisam enfrentar esse dilema social com honestidade e a partir de uma perspectiva bíblico-teológica, denunciando o racismo como pecado! A atitude da Igreja Batista do Calvário em Toledo com sua Nota de Esclarecimento é louvável, porque reafirma a luta constante contra o racismo. É de se lamentar que o senhor Rodrigo passou pela comunidade e não encontrou a glória de Deus no rosto daqueles irmãos. A igreja segue seguindo Jesus de Nazaré que se sentou à mesa e andou com pessoas que não eram bem vistas dentro de uma sociedade classista e preconceituosa, muito parecida com a nossa. E foi para essas pessoas que ele disse: “Bem aventurados vocês, os pobres [e pretos], pois a vocês pertence o Reino de Deus” (Lc 6,20).






