17.6.20

IGREJA BATISTA E RACISMO

Os batistas surgiram no Brasil a partir de missionários estadunidenses que deixaram o seu país de origem por conta da Guerra da Secessão. Um dos principais pontos da guerra foi a questão da abolição da escravidão. Algo que o Sul jamais tolerou foi a possibilidade de se ver livre da mão de obra escrava nas suas fazendas de algodão.  Os missionários racistas deram origem a uma das maiores denominações do Brasil, ramo do protestantismo de missão com maior capilaridade na sociedade brasileira depois dos pentecostais. Ainda assim, o racismo que trouxeram na bagagem foi patente no relacionamento dos missionários com os chamados “nativos” brasileiros. Sobre o racismo dos missionários estadunidenses, o pesquisador Dr. João B. Chaves publicará um livro onde recolhe documentos e correspondências dos missionários com a Junta de Richmond. No livro, Chaves demonstra a maneira como os missionários tratavam a questão dos negros no país e o racismo explícito de muitos deles. O livro está para ser lançado com o seguinte título “O racismo na história batista brasileira: uma memória inconveniente do legado missionário” (Brasília: Novos Diálogos, 2020, no prelo). 

O racismo faz parte da estrutura social brasileira. Isso quer dizer que não está meramente nas piadas com pretos, antes domina as relações sociais e determina as condições que favorece a desigualdade em termos políticos, sociais e econômicos. As falas racistas e o comportamento preconceituoso que corriqueiramente ganha notoriedade na impressa e redes sociais, é mais uma mera manifestação de um fenômeno que é sistêmico e se faz presente em todas as facetas do país, sendo que a violência policial e a quantidade de presos pretos no sistema penitenciário brasileiro é a face mais visível desse racismo sistêmico.

O caso dos protestantismos no Brasil, não obstante apenas os batistas, infelizmente reforçou o racismo sistêmico, sendo, portanto, um dos pilares da estrutura racista que permeia o Estado brasileiro. O protestantismo de cunho étnico tinha um claro objetivo: o branqueamento da raça. O protestantismo se configurou no país a partir da “guerra cultural”, demonizando as religiões de matriz africana. Por essa razão, que o “samba, originalmente, era música do morro, de negro e pobre, e foi rejeitada pelas igrejas protestantes, muito mais por racismo que por razões teológicas” (ALENCAR, 2007, p. 79).

A Igreja Batista, em específico, é resistente quanto ao enfrentamento do racismo como tema inevitável quando da origem e formação da denominação no país. Sempre foi um tema escamoteado e negligenciado por lideranças denominacionais e pastores de igrejas locais. Um tema comumente ausente dos púlpitos das igrejas e inexistente na literatura das conhecidas “Escolas Bíblicas Dominicais”. Por conta disso, sabemos da dificuldade que há quando o assunto surge em igrejas Batistas. Algum tempo atrás, um colega de ministério testemunhou da sua dificuldade quando em Assembleia Geral a igreja elegeu membros negros para cargos da Diretoria Administrativa da igreja. Houve séria resistência quanto a esse ocorrido, mas o pastor permaneceu firme no seu propósito de integrar essas pessoas na liderança da comunidade.

Em 2019, ocorreu algo ainda mais grave enquanto denominação Batista no Brasil. A Juventude Batista Brasileira da CBB, no seu congresso anual “Despertar”, organizou mesas de debates e falas sobre diferentes assuntos. Dentre essas mesas estava uma em especial: “Descolonizando o olhar: o racismo atinge a igreja?”. Os convidados foram Fabíola Oliveira e o pastor batista Marco Davi Oliveira. Após o movimento contrário de um determinado grupo ultraconservador que alegou “desvio doutrinário” na formação da mesa, manifestando que eram desfavoráveis quanto a presença de Fabíola e Marco no congresso da JBB, a direção da JBB decidiu desconvidá-los. Decisão que contou com a participação da Diretoria da CBB. O caso ganhou repercussão e a Igreja Batista passou a ser qualificada como “racista”. Um episódio lamentável e inconcebível quando se trata do ethos dos Batistas e seu apreço pela democracia e o lugar de fala dos seus membros.

Essa semana mais um episódio execrável envolvendo uma live do senhor Rodrigo Santos e sua esposa Jéssica Maciel e a citação de uma Igreja Batista.

Na referida live, Rodrigo (que se apresenta como pastor) narra como conheceu a sua esposa, Jéssica (também pastora) na cidade de Toledo/PR quando ambos frequentavam a Igreja Batista do Calvário. Ele pontua que a igreja estava no lado pobre da cidade e afirma que ficou surpreso em encontrar Jéssica ali. O que vem depois disso é repugnante e demonstra mais uma vez o racismo estrutural e desumano que permeia a sociedade brasileira e a igreja segue sendo um recorte disso. Rodrigo diz que na igreja a maioria dos irmãos eram “encardidos”, “mais moreninho” e “meio sujo” e que sua esposa, por ser loira, causou um certo destaque, além de ser ela da “Zona Norte, zona mais nobre da cidade”.

A Igreja Batista do Calvário reagiu e divulgou uma Nota de Esclarecimento pela fala do então Pr. Rodrigo Santos. Segue:

A Primeira Igreja Batista do Calvário em Toledo, tem uma história de quase quatro décadas desenvolvendo suas atividades religiosas e sociais em Toledo, localizada sua Sede na Grande Pioneira.

Por meio desta nota manifestamos publicamente que não compartilhamos de forma alguma com quaisquer atitudes preconceituosas, manifestação de racismo, desrespeito a individualidade ou manifestações de ódio.

À luz da Lei 7.716/1989 e do Estatuto da Igualdade Racial (Lei 12.288/2010) definem o Racismo como crime inafiançável, inaceitável e indefensável.

A igreja, diante das repercussões geradas pela “live do pastor Rodrigo dos Santos”, reafirma seu compromisso institucional com a promoção da igualdade étnico-racial, sexual, religiosa, repudiando toda e qualquer manifestação de preconceito, contra quem quer que seja. Sendo que reconhecemos que todas as pessoas são iguais perante a Lei e o Criador.

Também informamos que o Sr. Rodrigo dos Santos, foi membro de nossa igreja há tempos atrás, mas que atualmente (8 anos) reside fora do país e congrega em outro ministério onde atua como pastor.

A nota de retratação foi postada em nossa página em função de nossa igreja ter sido citada na live.


O racismo estrutural precisa ser combatido e denunciado.


O racismo é pecado e mata! Ainda estamos todos consternados por um João Pedro, morto pela polícia na sua casa em Niterói; por um George Floyd asfixiado por um policial branco em Minneapolis (EUA); e Miguel, menino negro, que caiu do nono andar de um prédio em Pernambuco porque a patroa da sua mãe permitiu que a criança de cinco anos de idade entrasse sozinho no elevador e subisse para a morte. Por essa razão que quando se levanta o grito de que “VIDAS NEGRAS IMPORTAM” não é apenas um discurso retórico. É a constatação de que algumas vidas não importam tanto e que qualquer tentativa de querer igualar as classes sociais como se as mesmas fossem homogêneas é falaciosa.

 

As igrejas Batistas precisam enfrentar esse dilema social com honestidade e a partir de uma perspectiva bíblico-teológica, denunciando o racismo como pecado! A atitude da Igreja Batista do Calvário em Toledo com sua Nota de Esclarecimento é louvável, porque reafirma a luta constante contra o racismo. É de se lamentar que o senhor Rodrigo passou pela comunidade e não encontrou a glória de Deus no rosto daqueles irmãos. A igreja segue seguindo Jesus de Nazaré que se sentou à mesa e andou com pessoas que não eram bem vistas dentro de uma sociedade classista e preconceituosa, muito parecida com a nossa. E foi para essas pessoas que ele disse: “Bem aventurados vocês, os pobres [e pretos], pois a vocês pertence o Reino de Deus” (Lc 6,20).

Referência
ALENCAR, Gedeon. Protestantismo tupiniquim: hipóteses sobre a (não) contribuição evangélica à cultura brasileira. 2. ed. São Paulo: Arte Editorial, 2007. 

17.5.20

BATISTAS E BOLSONARISTAS: COMPATÍVEIS?

Antes de mais nada é bom deixar claro o que seja o bolsonarismo. Trata-se de um fenômeno social, que envolveu uma parcela da sociedade brasileira que nutria já algumas décadas um discurso de extrema-direita, mas que depois das Eleições de 2018 houve uma radicalização e uma organização como militância político-partidária, antes PSL e agora Aliança pelo Brasil, que não se concretizou ainda como partido. Esse fenômeno social ganhou proporção maior com o então candidato do PSL à presidência da República, Jair Bolsonaro. Depois do pleito, tendo como resultado a eleição do atual presidente, o bolsonarismo seguiu sendo um grupo com pautas antidemocráticas, explicitadas em manifestações, como também um grupo com um braço paramilitar em treinamento que não esconde o uso de armamento como pretexto para se defender de um inimigo identificado como “esquerdistas” e “comunistas”. Além disso, esse grupo tem o apoio e o alimento intelectual do seu principal guru, Olavo de Carvalho, que vive já algum tempo nos EUA e de lá mexe algumas peças no tabuleiro do governo. Daí que para alguns a expressão mais adequada seria “bolsolavismo”. De qualquer forma, há pesquisadores que asseguram que o bolsonarismo é maior que Jair Bolsonaro. Caso ele saia do governo, terminando o mandato ou sendo retirado, o fenômeno social bolsonarismo irá perdurar.

Além desse dois aspectos desse fenômeno social chamado bolsonarismo – a militância raivosa e o braço paramilitar –, há também o endosso acrítico de uma parcela da Igreja Evangélica. Com uma pauta moral esbravejante nas falas de um Silas Malafaia e um Marco Feliciano, apenas para citar esses dois como um estereótipo de que “evangélicos” estamos nos referindo aqui, fez-se campanha para o então presidente e assumiu definitivamente a face bolsoevangélica do Governo Federal, com ministros evangélicos, bem como uma agenda presidencial voltada apenas para esse segmento religioso do país, que é, por natureza, plural na sua religiosidade. A narrativa é: “O Estado é laico, mas eu sou cristão” (leia-se, simpatizante dos evangélicos). O fenômeno social do bolsonarismo capturou o desejo nutrido por anos de ter, finalmente, um “presidente evangélico” e elegeu Bolsonaro como seu “messias”. Dessa forma, foi possível surgir, como em outras épocas da política nacional, mas muito mais acentuado agora, um messianismo político-evangélico quando passou a idolatrar o presidente da República como um “salvador” do país que estava, segundo eles, indo a reboque quando um determinado partido no poder pregava aborto, casamento entre pessoas do mesmo sexo, ideologia de gênero e militância política de esquerda nas escolas e universidades. Assim, o bolsonarismo passou a funcionar como um parasita que encontrou na Igreja Evangélica (parte dela e alguns líderes) um fiel hospedeiro.  

Para a surpresa de alguns, a decepção de outros e a resistência de uma maioria, o bolsonarismo também conseguiu capturar mentes e almas entre os batistas. Não apenas membros, mas pastores passaram a fazer parte da militância bolsonarista. Para citar um, em específico, há o pastor Josué Valandro Jr., da Igreja Batista Atitude, no Rio. No dia 19 de Agosto de 2018, o pastor chamou à frente o candidato do PSL à presidência da República. Sua intenção era orar pelo candidato, uma vez que a esposa do candidato era membro da referida igreja. Além de emitir a sua opinião a favor do candidato, a vontade de Deus, segundo o pastor, pelo menos num primeiro momento, já estava manifestada para ele: o presidente era o então candidato ao seu lado. Mesmo que o pastor tenha dito que na igreja não havia “voto de cabresto”, ele negou, pelo menos, dois princípios dos batistas. Um deles é a separação entre Igreja e Estado. Por esse princípio, o candidato do PSL não deveria estar à frente da igreja, a não ser que este fosse o presidente do país. O segundo princípio, é a liberdade de consciência e opinião, que faculta a todos o direito inalienável de decidir suas questões morais, éticas, políticas e religiosas.

Os batistas, para um rápido recurso da história, surgem como um grupo político-religioso organizado que luta com veemência pela liberdade religiosa e, como consequência, a separação entre Igreja e Estado, reivindicando, portanto, o lugar do indivíduo como fator decisivo de consciência, opinião, crença e participação política.

Tendo os batistas a sua gênese no movimento liberal inglês, eles participam dos anseios e perspectivas de sua época, ou seja, liberdade religiosa e separação entre Igreja e Estado. Esse ímpeto por liberdade levou o filósofo inglês John Locke a dizer que “os batistas foram os primeiros proponentes de uma liberdade absoluta, justa e verdadeira liberdade, liberdade igual e imparcial”.

Recentemente, houve deliberada desconsideração ao ethos histórico-político-teológico dos batistas e dos caros princípios fomentados pelos batistas ingleses da liberdade de consciência e separação entre Igreja-Estado. O ethos histórico-político-teológico dos batistas se dá a partir do (i) livre exame da Palavra de Deus; (ii) da liberdade de consciência; (iii) da responsabilidade pessoal para com a igreja local e outras coirmãs; (iv) a responsabilidade civil para com o Estado; (v) a separação entre Igreja e o Estado; (vi) e o amor, que gera conduta e respeito para com o próximo, testemunho e ação no mundo.

A partir disso, quem diz que é batista e tem nessa tradição o seu balizamento para se identificar como tal, não poderia ser bolsonarista. Esses dois pontos não são convergentes, antes são antagônicos.

O ser batista não tem qualquer relação com quem defende o fim de instituições que compõem o Estado Democrático de Direito, como o Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional. Os batistas não tem no seu histórico o fim do estrato político, antes, foi a partir do estrato político que lutaram para que os princípios que balizam o ser batista hoje fosse possível. Martin Luther King Jr., para citar um exemplo, pastor batista ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 1964, não fez qualquer tipo de manifestação contra as instituições políticas dos EUA. Diferente de Malcon X, Luther King não defendeu luta armada contra o governo porque os direitos civis dos negros não estavam sendo respeitados a partir da Constituição norte-americana. Antes, as batalhas se travaram no campo político, mesmo sofrendo constantes atos de violência. É desse batista a seguinte frase: “Através da legislação e de ordens judiciais procuramos regular o comportamento”. Luther King nunca cogitou lutar fora do contexto político e democrático. Portanto, batistas que se julgam bolsonaristas estão equidistantes do que é o espírito de luta e resistência que a tradição batista legou.

O ser batista não tem qualquer relação com quem defende a volta do Ato Institucional número 5. O AI-5 é o ato mais cruel do período da Ditadura Civil-Militar no país (1964-1985). O AI-5 estabelecia: “A suspensão dos direitos políticos; suspensão do direito de votar e de ser votado nas eleições sindicais; proibição de atividades ou manifestação sobre assunto de natureza política; aplicação, quando necessária, das seguintes medidas de segurança: a) liberdade vigiada; b) proibição de frequentar determinados lugares”. Esse foi o AI-5 com todos os seus elementos de privação e violação de direitos em nome de uma guerra contra o “comunismo” que nunca foi possível de maneira direta no país. É esse mesmo Ato Institucional que é proclamado por bolsonaristas. A incansável busca dos batistas se deu a favor da liberdade e isso custou a vida de Thomas Helwys que morreu na prisão por defender o direito de dizer o que pensava.

Por fim, ressalto a definição do ser batista de A. B. Langston: “Os batistas são um povo que tem a coragem das suas convicções. Creem num indivíduo livre, numa igreja livre, num estado livre; creem nos direitos iguais para todos e privilégios especiais para ninguém; creem numa democracia política, religiosa, social, econômica e educativa”. Quando que ser bolsonarista se enquadraria em algo assim? Nunca!

Democracia combina com o ser batista, já com o bolsonarismo jamais!

14.5.20

A "BOLSORRELIGIOSIDADE": A NOVA SEITA BRASILEIRA

Religião é rede simbólica perpassada por memórias, metáforas, ritos e narrativas, cujo sistema interpreta o mundo e a realidade a partir do conjunto de valores e saberes partilhados por determinado grupo. Por vezes, o fiel se sente na obrigação de defender seus dogmas e verdades irredutivelmente, ao mesmo tempo em que precisa proteger seus líderes, dos quais aceitam acriticamente suas informações sagradas. No Brasil, temos testemunhado um tipo novo de fenômeno religioso: a bolsorreligiosidade. Em termos gerais, essa nova expressão de fé tem algumas características: moralismo intolerante, messianismo acrítico, monofonia, sacrificialismo violento, antipatia à ciência, dualismo e verborragia com indícios de pós-verdade.
A Bolsorreligiosidade defende conceitos pouco realistas de família tradicional, o que alimenta intolerância contra a pluralidade e modelos não adequados ao padrão idealizado. Por vezes, tem relações sincréticas com evangélicos fundamentalistas, o que alimenta um moralismo intolerante. É messianicamente acrítica, porque preserva um discurso messiânico tipicamente sebastianista. Bolsonaro é aceito como modelo de salvador, o qual representa a descontinuidade e novidade político-religiosas. O seu messias é blindado pela infalibilidade, o que desenvolve um sistema idólatra. Com pouco espaço para o contraditório, essa expressão religiosa é monofônica. Ou seja, os dogmas da bolsorreligiosidade não abrem espaços para o diálogo ou polifonia. A eliminação inquisitorial é seu modus operandi no trato com as heterodoxias. Consequentemente, tem traços da religiosidade sacrificial-violenta. Como as religiões primitivas, a bolsorreligiosidade tem na linguagem e práticas violentas a proteção de seu sistema de crenças e bens simbólicos. Qualquer ameaça é passível de punição. Por outro lado, nessa expressão de religiosidade o bolso-messias sacrifica-se pelos fiéis, porque é visto como um tipo de servo sofredor.
Comum nas expressões religiosas mais fundamentalistas, costuma relativizar o valor da ciência ou mesmo negá-la. Em sintonia com discursos e mentalidade medievais, essa expressão religiosa repetidamente desqualifica o saber científico. Na bolsorreligiosidade o obscurantismo e a ignorância são tratados como provas de fé e fidelidade. Naturalmente, nessa perspectiva, o mundo deixa de ser social e historicamente complexo, pois é dividido de maneira maniqueísta e dualista: nós x eles, bons x maus, cidadãos de bem x comunistas, fiéis ao Messias x marxistas. E, como estratégia de blindagem de suas contradições e legitimação das incoerências, usam-se expressões verborrágicas perpassadas por tendências comuns da “pós-verdade”: o real e verdadeiro serão sempre modelados pelas crenças do seu líder, mesmo que não haja qualquer fonte legítima ou plausível. Por ser fortemente retórica, as afirmações aceitas pelos seus fiéis não dependem de comprovação, bastam repetir discursivamente suas crenças.
Por essa razão, precisamos, mais do que nunca, preservar no Brasil a inegociável separação entre religião e Estado.

Kenner Terra
Jornal A Gazeta 

2.5.20

DA ESTUPIDEZ

*Dietrich Bonhoeffer (texto de 1943)

A estupidez é mais perigosa que a maldade. Contra o mal se pode protestar; o mal pode ser exposto, revelado; pode também ser evitado, se necessário, até pela força; o mal sempre carrega o germe da autodecomposição, deixando pelo menos um desconforto naquele que o pratica. Diversamente, não há como se defender da estupidez. Nada pode ser feito aqui com protestos ou com violência; razões não a convencem; simplesmente não se dá crédito a fatos que contradigam o próprio preconceito – em tais casos, o estúpido se torna ainda mais resistente – e se esses fatos são incontestáveis, podem com facilidade ser postos de lado como casos isolados e sem sentido.

O estúpido, ao contrário da pessoa má, sente-se completamente satisfeito consigo mesmo; sim, ele até se torna perigoso, enfurecendo-se facilmente quando é refutado. Portanto, a relação com o estúpido exige muito mais cautela do que com a pessoa má. Nunca se há de convencer o estúpido pela razão – é inútil e perigoso. Para saber lidar com a estupidez, é preciso antes procurar entender sua natureza. Não se trata essencialmente de um defeito intelectual, mas algo que atinge a humanidade do sujeito. Tanto é assim que existem pessoas de inteligência extraordinariamente ágil que são estúpidas e pessoas intelectualmente pesadas que podem ser tudo, menos estúpidas.

Para nossa surpresa, chegamos à seguinte conclusão: parece que a estupidez não é propriamente um defeito congênito, mas um processo em que as pessoas se tornam estúpidas sob certas circunstâncias, ou deixam-se fazer estúpidas de forma recíproca. Também observamos que a estupidez aparece mais em pessoas ou grupos propensos ou condenados a viver em comum do que em pessoas mais fechadas, reservadas e solitárias. Assim, parece que a estupidez é um problema mais sociológico do que psicológico. É uma forma especial de influência das circunstâncias históricas sobre o homem, isto é, uma consequência psicológica de certas circunstâncias externas. Em uma análise mais detalhada, verifica-se que toda forte expansão externa do poder, seja política ou religiosa, golpeia um grande número de pessoas com estupidez. Sim, parece que é uma lei psicológica e sociológica. O poder de alguém precisa da estupidez de outrem.

O processo não é que, de repente, algumas faculdades – como a intelectual - definhem ou fracassem, mas sim que a independência interna da pessoa vai sendo roubada pela impressão esmagadora do desenvolvimento do poder, até que – mais ou menos inconscientemente – essa pessoa renuncia a encontrar seu próprio comportamento em relação às situações que a vida lhe apresenta.

O fato de o estúpido ser muitas vezes teimoso não significa que ele seja independente. Conversando com ele, você quase pode sentir que seu discurso nem sequer tem a ver com ele mesmo, com aquilo que o constitui. Trata-se de frases de efeito, slogans e chavões que se apoderaram dele. Ele está enfeitiçado, cego, abusado e maltratado em sua própria natureza. Tornando-se assim um instrumento sem vontade própria, o estúpido será capaz de todo o mal e, ao mesmo tempo, incapaz de reconhecer-se mau ou de reconhecer maldade em seus atos. Aqui está o perigo de um abuso diabólico. Como resultado, as pessoas serão destruídas para sempre.

Disso decorre que somente um ato de liberação – e não um ato de instrução – poderá superar a estupidez. Na grande maioria dos casos, para superar a estupidez, a pessoa terá de aceitar que uma genuína libertação interior só se tornará possível após a libertação externa; até então, sem essa condição, teremos que desistir de todas as tentativas de convencer os estúpidos. A propósito, nesse estado de coisas, fica bem claro que em tais circunstâncias é vão tentar saber o que "o povo" realmente pensa, mesmo porque, ao mesmo tempo – nessas dadas circunstâncias – qualquer resposta seria supérflua para o pensador e realizador responsável.

Palavra da Bíblia que diz que o temor de Deus é o começo da sabedoria (Salmos 111: 10); diz que a liberação interior dos humanos, para uma vida responsável diante de Deus, é a única verdadeira superação da estupidez.

De resto, esses pensamentos sobre a estupidez são reconfortantes, pois não permitem tratar a maioria das pessoas como estúpidas a todo custo. Realmente, isso dependerá da tendência dos Poderes Instituídos, vale dizer, se querem tornar seu povo estúpido ou se buscam a independência interior e sabedoria de seus governados.

30.4.20

NOTA DE REPUDIO DOS PROFETAS DO ANTIGO TESTAMENTO AO SR. MINISTRO DA JUSTIÇA

Excelentíssimo senhor, agora Ministro da Justiça, André Mendonça, nós, profetas que atuamos fielmente e com compromisso com Deus no Antigo Testamento, viemos, por meio desta nota, REPUDIAR VEEMENTEMENTE o seu uso indevido de nosso título.
No dia 29 de Abril de 2020, em ato que celebrava a sua posse como Ministro da Justiça, o senhor se referiu ao presidente Jair Bolsonaro como “um profeta no combate à criminalidade”. Pois saiba que nunca recebemos maior insulto. E denunciamos porque: 
Nosso irmão mais velho, Samuel, chamou atenção no capítulo 8 do seu primeiro livro, como Deus desaprova o governante que não faz outra coisa senão explorar seu povo, despreza sua vida e tem a cabeça na guerra. Pois nós sabemos que Bolsonaro é um homem que não pensa em outra coisa senão em armas, violência, militarização e elogia torturadores.
Nosso irmão Elias foi ameaçado de morte e perseguido, por denunciar os abusos e a agressividade do governos de Acabe e Jezabel. Nós sabemos como Bolsonaro persegue e agride opositores, principalmente jornalistas. Você vê algum ato profético nisso?
A Covid-19 ultrapassou os cinco mil mortos, e Bolsonaro se limitou a dizer apenas “E daí?”, além de colocar a vida de tantas pessoas em risco com suas exposições e zombando da quarentena e do poder letal do vírus. Lembramos do nosso irmão Jeremias, que diante de um contexto de morte e desamparo, se solidarizou e constrangeu a ponto de publicar um livro só sobre suas lamentações e dor, sua dor e a dor do povo.
Nosso irmão Isaías, no capítulo 5 do seu livro, é poderosamente usado por Deus para denunciar latifundiários, poderosos donos de terras, acumuladores de terras. Bolsonaro é um aliado do latifúndio, de garimpeiros que desrespeitam terras indígenas, de fazendeiros que planejam a morte de camponeses. O jejum é a justiça, é libertar o cativo, é acolher desabrigados e amparar desamparados.
Aliás, através de nosso irmão Isaías, Deus foi taxativo sobre o jejum que lhe agrada, e ele não tem nada a ver com o jejum interesseiro e anti-bíblico que Bolsonaro e Marco Feliciano convocaram.
Por fim, lembramos nosso irmão Amós, e ele estava certo quando disse que “não sabem agir com justiça aqueles que amontoam opressão e violência em seus palácios”. É exatamente isto que Bolsonaro e seus filhos tem feito, com este núcleo que, fica cada vez mais evidente, age como um gabinete do ódio. Um grupo que homenageia homens violentos, torturadores, policiais comprovadamente envolvidos com milícias que assassinam e extorquem os pobres do povo do Deus.
Por tudo isto, nós, PROFETAS DO ANTIGO TESTAMENTO, exigimos que o agora ministro se retrate deste vergonhoso pronunciamento. Declaramos: Bolsonaro não é profeta, ele não tem honra, caráter e compromisso com a justiça de Deus para ser um. Conosco está Martin Luther King, Doroth Stang, Chico Mendes, Abdias do Nascimento, Cornel West, Mãe Beata, Zilda Arns, Oscar Romero, Nelson Mandela, Marielle Franco. Entende a diferença? Para nós, Bolsonaro, seus filhos e os pastores que o seguem são ladrões, víboras e traidores do chamado de Deus à justiça. Assim diz o Senhor. Sem mais.
Assinam: Samuel; Elias; Eliseu; Natan; Isaías; Jeremias; Ezequiel; Daniel; Joel; Amós; Miquéias; Naum; Habacuque; Sofonias; Zacarias; Malaquias.

* Texto escrito por Ronilso Pacheco*
(Disponível: https://www.facebook.com/ronilso.pacheco/posts/2905554896226531

7.4.20

BATEU A SAUDADE DA COMUNIDADE DE FÉ

E aqui estamos, surpreendidos por um vírus altamente contagioso e agressivo que segue nos impedindo de abraçar quem amamos e de estar perto de quem partilhamos a fé em comunidade.

Pois é, agora a comunhão na comunidade de fé está fazendo uma falta danada.

Inúmeros irmãos me escrevem sobre a falta que está sentido da igreja reunida no templo para o louvor e adoração e escuta da Palavra.

Recentemente gravei um vídeo do templo vazio e alguém me escreveu: “Pastor, que tristeza ver esses bancos vazios”. Respondi que em breve estaríamos juntos como comunidade, essa é a nossa expectativa.

Mas esse momento também provoca reflexão.

Estou colhendo testemunhos de pessoas que só agora se deram conta da falta que a comunidade está fazendo na sua vida, mesmo reconhecendo que não é tão assíduo na comunidade e que não participa com certa frequência de encontros com os demais irmãos. Essas pessoas estão revendo seus caminhos.

Mas agora bateu a saudade...

Saudade daquela conversa antes de iniciar os cultos. Aquele momento de bater um papo sobre a semana. E claro, a brincadeira sobre o time do coração, tão presente nas rodas de conversa entre os homens.

Saudade do abraço. Sim, o abraço que faz toda a diferença na semana. Aquele carinhoso e confortante abraço que apenas com esse gesto diz sem dizer: “Como é bom vê-lo/a novamente aqui”.

E a saudade do culto. Essa saudade é que mais aperta o coração. É o momento ímpar de congregar que muitos valorizam como uma atividade imprescindível durante a sua semana. É o momento de congregar como corpo de Cristo e presenciar a ação do Espírito Santo falando à comunidade de fé.

Com a saudade batendo, só se espera estar juntos novamente. E não importa se está frio ou calor, isso não vem ao caso. Não importa se é o pastor ou outro irmão que irá trazer o sermão, o que importa é ouvir. Não importa se está só o violão, ou a banda completa, o que se quer é louvar juntos ao Senhor.

É nesse tempo também que algumas pessoas se pegam pensando: “Quantas vezes tive a oportunidade de estar com os irmãos, mas preferi ficar no sofá de casa vendo minha televisão”. Porque agora o que importa mesmo é a saudade de querer estar, porque sabe que não pode estar.

Por saber que a igreja são as pessoas e não o templo, é que sentimos saudade.
  
Em meio a saudade, nasce a esperança de que logo essa saudade será compensada com a comunidade reunida novamente. Afinal de contas, como bem disse um poeta, “a saudade é o bolso onde a alma guarda aquilo que ela provou e aprovou. Aprovadas foram as experiências que deram alegria”. E como na comunidade que sou pastor há alegria e comunhão, é mais que natural as ovelhas/amigos sentirem saudade. Eu já estou com muita saudade, por isso digo: não vejo a hora de estar com os meus irmãos.

1.4.20

O VÍRUS QUE ATIGE O PLANETA DEU UMA TRÉGUA

É de se lamentar as mortes que o novo coronavírus tem causado com a doença conhecida pelo mundo como COVID-19. Famílias não podem ao menos velar seus mortos. O processo de luto, que é fundamental no momento de dor, não é possível pelo altíssimo grau de transmissibilidade do vírus. Além disso, a sociedade brasileira precisa lidar com a tal “segunda onda”, segundo os especialistas em Economia. Aquela onda gigante que engole empresas, empregos, salários e não respeita classe social, cor da pele ou gênero. Aliás, alguém da OMS lembrou que o coronavírus não tem preferência por pessoas, atinge tanto ricos como pobres. Indubitavelmente os pobres são os que mais sofrem com uma pandemia dessa magnitude.

Ainda que o foco das autoridades de saúde esteja totalmente voltado para a preservação das vidas e setores da economia, por outro lado, esteja fazendo os seus cálculos para saber quanto perde e quanto ganha, tabelando quem paga mais a conta e quem ainda pode lucrar com a tragédia, há algo que não está sendo dito porque também não vem ao caso: o alívio que o planeta Terra vem tendo durante esses meses de isolamento social.

Quem vem suportando há muito tempo um vírus que tem uma capacidade impressionante de letalidade é a Terra. Desde que esse vírus se desenvolveu com seus efeitos predatórios, o planeta não vem tendo tanta oportunidade de respirar como tem tido nesses primeiros meses de 2020. Esse vírus tem tentáculos por todos os lados do planeta e funciona como um parasita que há séculos vem sugando as riquezas naturais como também seus recursos fósseis.

Com o COVID-19, o planeta se viu mais limpo, respirando melhor. Algo que não fazia há muito tempo. O vírus que o atinge está em confinamento e por isso ele se viu mais leve, por enquanto.

Por conta do novo coronavírus, a China fechou suas fábricas e lojas. Com restrições de viagens e o menor descolamento possível, a China viu diminuir drasticamente o consumo de combustíveis fósseis no país. Esse processo produziu uma queda de pelo menos 25% na emissões de dióxido de carbono (CO₂) na China, segundo cálculos de Lauri Myllyvirta, do Centro de Pesquisa em Energia e Ar Limpo, com sede nos Estados Unidos. “A demanda por eletricidade e produção industrial (da China) permanece bem abaixo dos níveis normais, segundo vários indicadores”, disse Myllyvirta em uma análise publicada no portal especializado Carbon Brief, no fim de Fevereiro. “É provável que isso tenha eliminado um quarto ou mais das emissões de CO₂ do país nas duas semanas seguintes ao feriado do Ano Novo chinês”, completa o especialista. O mesmo deve ocorrer agora nos EUA com o isolamento social do país até o final de Abril.

Outro país atingido de maneira violenta pelo COVID-19 foi a Itália. Imagens de satélite que conseguem calcular a incidência de dióxido de nitrogênio, substância formada a partir da combustão, mostram que após um mês de quarentena, os índices de poluição caíram de forma impressionante em toda Itália e, em especial, na região da Lombardia, onde a crise começou.

As ruas estão vazias. Os carros, na sua grande maioria, estão parados. São Paulo não registrou nenhum engarrafamento. Um fato histórico!

O consumo diminuiu e assim diminuiu significativamente o descarte indevido do lixo. Logo, os oceanos e os rios agradecem por não receberem toneladas de plásticos e outros derivados, resultado do alto nível de consumismo. Nos rios de Veneza (Itália), por exemplo, os peixes voltaram a serem vistos. O que não ocorriam há muitos anos porque a poluição da água não permitia visibilidade.

Houve um filósofo que estudou por muito tempo os impactos do capitalismo no mundo (esse vírus propagado pelo bicho “Homem”) e ele dizia que o modo de produção capitalista acabaria destruindo as próprias fontes de sua riqueza: o ser humano e a natureza. O COVID-19 está demonstrando que a humanidade pode ser melhor e o vírus que a infecta há muitos anos, pode ter uma vacina: o cuidado para com o planeta. Caso essa vacina não seja tomada por uma parcela significativa dos seres humanos, o planeta pode querer expulsar a humanidade porque só assim conseguirá expurga esse vírus maléfico. E isso pode acontecer de maneira silenciosa.