31.5.18

O PERIGO DA INERRÂNCIA SELETIVA

Molly T. Marshall (1)

Inerrância bíblica foi supostamente a razão para a aquisição hostil da Convenção Batista do Sul (SBC), ou ressurgimento conservador, como alguns preferem. Eu afirmo que a inerrância bíblica era uma mera ferramenta para a preservação do poder patriarcal e do privilégio masculino branco.

Eu estava involuntariamente na mira de tudo, tendo começado meu doutorado no Seminário Teológico Batista do Sul em 1979, o ano da primeira vitória fundamentalista seguindo o manual de Pressler (2) e Patterson (3). Quando entrei para a faculdade lá em 1984, a controvérsia estava a todo vapor, e a posição de alguém sobre o papel das mulheres no ministério tornou-se o teste decisivo para a inerrância. Como pastor que trabalhava na SBC na época em que fui contratada, tornei-me uma exposição de tudo o que os líderes masculinos temiam: uma mulher ordenada que reivindicou seu lugar de direito como líder pastoral.

No verão de 1984, a Convenção tinha notoriamente resolvido que as mulheres deveriam ser impedidas de exercer o ministério pastoral por causa da “prioridade na queda edênica”. Falo sobre a inerrância seletiva! Os proponentes escolheram um texto obscuro como prova da disposição duradoura de Deus sobre a culpabilidade feminina e, portanto, a incapacidade de liderar uma igreja. Naturalmente, este é o único lugar em todas as Escrituras (além do Gênesis) onde Eva é mencionada, e a abordagem hermenêutica dos conservadores Batistas do Sul convenientemente ignoraram a maioria do corpus paulino com seu acento sobre a transgressão de Adão.

A teologia ossificada tem sido a marca do ressurgimento conservador, e Paige Patterson é o principal exemplar dessa tradição. Destrutiva em sua aplicação, esta teologia promoveu resultados cruéis. Enquanto eu evito a proposição da inerrância, acreditando que ela reivindica algo para a Escritura que não reivindica por si mesma, a inerrância seletiva de Patterson tem sido buscada por interesse próprio e medo do poder das mulheres. 

Patterson leu aqueles avisos ou proibições historicamente situados sobre a liderança das mulheres, literalmente ignorando todos os textos que identificam a liderança e as realizações das mulheres. Uma interpretação masculinista de textos o manteve cativo, e o dano esmagador de sua abordagem de sua teologia veio à tona agora. Exigir que as mulheres mantenham silêncio sobre o abuso e se submeter à chefia masculina é tudo sobre o patriarcado e nada sobre os valores bíblicos.

Eu trabalhei em um projeto de livro no início dos anos 90 com Paige; ele fazia parte de uma equipe conservadora de autores, eu estava com a equipe moderada. O volume resultante foi Beyond the Impasse (“Além do impasse”), um destino que nos iludiu. O que me impressionou imediatamente foi sua incapacidade de ouvir qualquer coisa que desafiasse sua visão de mundo fundamentalista. Lembro-me de uma troca entre o renomado estudioso do Velho Testamento Walter Harrelson (4) e Patterson sobre sua abordagem das Escrituras e o que estava em jogo se você abandonasse a inerrância. “Se não há Adão e Eva históricos e literais”, alegou Patterson, “então não temos doutrina do pecado”. Harrelson respondeu com sua bondade característica, ainda que incisiva: “Ó meu querido irmão, minhas perguntas são muito maiores do que isso”. Ele sabia que uma falsa suposição sobre as Escrituras não permitiria uma fé coerente.

A visão obscurantista de Patterson também permitiu que ele ignorasse inúmeras bandeiras sobre o comportamento desagradável de Pressler com os rapazes. Enquanto o seu lugar de honra fosse preservado, ele poderia ignorar as alegadas aberturas de seu colega mais próximo, cujo caso agora está no tribunal. O objetivo de recuperar a SBC de sua tendência liberal importava mais do que a integridade daqueles que guiavam essa busca, como confirmam recentes divulgações (o caso das mulheres que veio à público agora).

A inerrância seletiva é tão prejudicial quanto a escolha de textos que reforçam as pressuposições liberais. A leitura de todo o texto divino-humano conta a história do envolvimento de Deus com a humanidade nas várias épocas, forjando a tradição judaico-cristã. A Bíblia fala implacavelmente de mudanças sociais e da esperança de que a nova comunidade forjada por Cristo supere as estruturas patriarcais.

Esconder-se atrás da inerrância, a fim de preservar o privilégio masculino, causa danos irreparáveis ​​a um testemunho cristão lúcido. Deus sabe, precisamos contar melhor nossa história e vivê-la mais plenamente, para que tanto mulheres quanto homens possam florescer.

Notas
(1)   Doutorado em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Sul; pós-graduação no Instituto Ecumênico Tantur (Jerusalém, Israel); Universidade de Cambridge (Cambridge, Inglaterra); Seminário Teológico de Princeton (Princeton, Nova Jersey). 
(2)   Paul Pressler, uma figura importante no processo fundamentalista da Convenção Batista do Sul em 1979. Em 2018, surgiram alegações de décadas de abuso sexual. Pressler foi acusado de ter estuprado um menino regularmente, começando quando o menino tinha 14 anos quando ministro da juventude. O líder da Convenção Batista do Sul, Paige Patterson, é acusado de ter ajudado no acobertamento do caso.
(3)   Paige Patterson, foi demitido do Seminário Batista do Sul depois que surgiu acusações de que ele teria aconselhado mulheres abusadas física e sexualmente a se manterem caladas e casadas.
(4)   Walter Harrelson, pastor batista; estudou na Universidade de Basileia (Suíça) e na Universidade de Harvard. No Brasil tem um livro traduzido: “Os Dez Mandamentos e os Direitos Humanos” (Paulinas, 1987).

12.5.18

AS OVELHAS PRETAS DA IGREJA

Não é novidade que quando há uma crise sistêmica, como essa que o país atravessa, setores conservadores da “Igreja Evangélica Brasileira” (na falta de um nome melhor para caracterizar um segmento do cristianismo não católico no Brasil, que funciona como um catalizador de diferentes posturas e idiossincrasias possíveis), ressuscitam alguns “inimigos” para legitimar o discurso político e a luta doutrinária. Não está sendo diferente da época pós-1964, quando as igrejas, notadamente as tradicionais, se alinharam com o regime civil-militar, mesmo quando viu a Igreja Católica pagar por seu “pecado” de ter apoiado, num primeiro momento, a deposição do governo de João Goulart e, depois, enfrentou sérios problemas com o regime, tornando-se vítima do aparelho repressivo do Estado de exceção que contava, sabidamente, com prisões, torturas e assassinatos.

Parece que o “inimigo” que setores conservadores da “Igreja Brasileira” elegeu para combater não é outro, somente no filme “Tropa de Elite 2” que o “inimigo era outro”. O “velho e conhecido inimigo” é o “comunismo”, dizem alguns. Outros falam no “socialismo”. Há quem diga “esquerdopatas”, uma mistura de esquerda política com psicopatia, qualificação usada por Silas Malafaia. Recentemente o pastor e deputado federal Marco Feliciano, não conseguiu chocar a todos quando contou uma “piada” quando perguntado sobre a morte da vereadora Marielle e do motorista Anderson em um programa de rádio. Disse: “O cérebro do esquerdista é do tamanho de uma ervilha. Há pouco tempo fiquei sabendo que deram um tiro num esquerdista no Rio de Janeiro e levou uma semana para morrer porque a bala não achava o cérebro”.

A polarização política no país vem somando imbecilidades, ao ponto que os conceitos “comunismo” ou “socialismo” são empregados nas Redes Sociais indiscriminadamente, desconsiderando as devidas conexões ou desconexões com os termos. Quem nunca ouvira falar de Karl Marx passou a odiá-lo, mesmo sem ter lido uma linha sequer das suas ideias. Assim, o “inimigo” a ser combatido no país é a “esquerda”, com o seu “satânico” intento de implantar medidas libertinas e fazer com que o país se transforme em uma “Cuba” ou em uma “Venezuela” economicamente. Essa é a narrativa, sem as devidas desproporções e limites, obviamente.

A narrativa do Golpe de 2016 se deu, para esse universo político-religioso, a partir do “combate ao comunismo”, assumindo o slogan de grupos de identificação política de “direita” na frase imperiosa: “Nossa bandeira nunca será vermelha”. Somou-se esforços para retirar do poder central do país o Partido dos Trabalhadores, acionando os parlamentares da conhecida “Bancada Evangélica”, também conhecida como a “bancada BBB” (da Bíblia, da bala e do boi), fazendo coro com o então “homem de Deus”, o pseudo-evangélico Eduardo Cunha. Quando o PT sai do governo, de maneira vexatória, o segmento evangélico conversador seguiu ignorando os inúmeros casos de corrupção explícita do atual governo, o embusteiro Michel Temer. Antes considerado “satanista”, Temer passou a ser uma espécie de “Ciro”, o rei da Pérsia que permitiu o povo de Israel voltar à Jerusalém. Se antes a corrupção sistêmica era causada e criada pelo PT, agora é preciso colocar nas mãos de Deus o próximo Presidente, que parecem que já “elegeram” (#SQN) um dos maiores engodos da democracia brasileira, o senhor Jair “Messias” Bolsonaro.

Para esses setores conservadores da “Igreja Brasileira”, a “esquerda” precisa ser combatida e isso se dá com um discurso doutrinário efusivo, ou seja, em grandes eventos, grandes igrejas, seminários, blogs, livros e Redes Sociais. Fazem um bom trabalho de articulação e marketing. O “inimigo” a ser encarado são os representantes da então “Missão Integral”, como se essa abrigasse os pastores e teólogos da “esquerda” (algo inverossímil). Mas o foco mesmo se dá em torno de nomes como Ariovaldo Ramos e Ricardo Gondim, por exemplo. As referências a esses dois é feita de modo velado em algumas ocasiões, mas em outras se dá de maneira aberta e audível. Esse setor alega que a Teologia da Missão Integral (TMI) é uma ramificação do marxismo cultural e, portanto, precisa ser extirpado da igreja, essas ovelhas pretas, quer dizer, vermelhas. Com isso, o discurso político vem alinhado ao discurso doutrinário, de tendência agostiniana-calvinista.

Para legitimar a pregação do evangelho sem, necessariamente, o comprometimento social (tensão que perdura no movimento evangelical), os pregadores e expoentes do setor conservador alegam estar de posse da “verdade” bíblica. A fim de ilustrar, recordo que uma vez estava ouvindo Jonas Madureira, um dos principais proponentes do conservadorismo evangélico, e ele dizia que a “igreja não deveria estar sendo guiada por uma agenda social, mas sim pela agenda de Deus”. Ao final da sua fala, abriu-se para perguntas. Indaguei: “Qual a agenda de Deus hoje?”. A sua resposta foi muito interessante: “A agenda de Deus é a palavra (Bíblia)”. E completou: “Na época que o ex-Presidente Lula foi indiciado pela ‘Lava-Jato’, no domingo preguei um sermão bíblico que veio de maneira certeira no atual momento que o país estava passando”. Uma pena não ter tido o direito da réplica. Nesse caso, a agenda de Deus funcionou assim: o pregador (Jonas) fez uso de um texto bíblico que, por coincidência divina (porque se tratava de uma série de mensagens), calhou com o indiciamento do ex-Presidente e, desta forma, o texto bíblico foi lido com as lentes da ocasião, ou melhor, serviu para dizer que os fatos estavam sendo, de alguma maneira, conduzidos por Deus. Não deixa de ser uma agenda. 

Ocorre que para legitimar o discurso doutrinário, é preciso combater o “inimigo”. O “inimigo” são pessoas e igrejas que professam um discurso aberto e integrador, com uma incidência político-social, identificados, porém, com uma perspectiva política à “esquerda” (com todas as dificuldades que esse termo acarreta e suas consequências políticas em discussão até hoje). Por isso, frases como “Não encontramos Deus na face do pobre, encontramos Deus na face de Cristo”, de Igor Miguel, por exemplo, são frequentes. É uma maneira de dizer que essa leitura dos evangelhos está equivocada (Deus na face do pobre), quando o correto mesmo é olhar para o Cristo, apenas ele, porque ele é a face de Deus (revelação). Isso é bom! Mas o Cristo que revela o Pai seria aquele de Mateus 25,34-40?

10.4.18

LULA DEU UM NÓ NAS FORÇAS DO GOLPE NEOLIBERAL

Que Lula há muito tempo deixou de ser homem e se tornou uma instituição é consenso à direita e à esquerda. O que está em jogo, em disputa, é o significado da instituição, o que ela representa.

Lula é o maior corrupto da história do Brasil ou a principal liderança popular que esse país já teve?

A disputa está aí. No atual estado da situação não sobrou muito espaço para meio termo. Ou é uma coisa ou é a outra. Cada um que escolha seu lado.

Na condição de instituição, todo gesto de Lula tem dimensão simbólica, é lido e interpretado por todos, por detratores e admiradores. Lula pega o microfone e o país paralisa em frente à TV. Os admiradores choram. Os jornalistas a serviço da mídia hegemônica silenciam. Ninguém fica indiferente a uma instituição desse tamanho. Lula sabe perfeitamente que está sendo observado, conhece muito bem o tamanho que tem e explora com extrema habilidade sua capacidade de fabricar símbolos.

Aqui neste ensaio, trato de uma parte muito pequena da biografia de Lula, mas que talvez seja, na perspectiva simbólica, a mais importante. Talvez seja até mais importante que os oito anos de seu governo.

Falo das 34 horas em que Lula esteve no sindicato dos metalúrgicos, sob os olhares do mundo, construindo a narrativa de seu próprio martírio. Não falo em “resistência”, pois desde a condenação no TRF-4, em 24 de Janeiro, que o destino de Lula já estava selado. Os advogados cumpriram sua função, recorrendo a todas as instâncias e tentando um habeas corpus, mas todos já sabiam que Lula seria preso. Por isso, seria ingênuo dizer que o que aconteceu em São Bernardo do Campo foi um ato de resistência. Lula é um político experiente demais para resistir em causa perdida.

Alguns companheiros e companheiras, no auge da emoção, tentaram usar a força. Lula fugiu da custódia dos trabalhadores e se entregou à Polícia Federal, pois sabe que contra o braço armado do Estado ninguém pode. Lula sabe que aqueles que ali estavam eram trabalhadores e trabalhadoras, pais e mães de família. Não eram soldados. Não eram guerrilheiros. A resistência não era possível.

Lula sabe que seria impossível sustentar aquela mobilização durante muito tempo e por isso não resistiu. Mas daí a se entregar resignado como boi manso para o abate a distância é grande, muito grande.

Penso mesmo que Lula fez mais que resistir, já que a resistência seria quixotesca, irresponsável. Lula pautou a própria prisão, saiu da posição de simples condenado pela Justiça para se tornar o dono da narrativa. Lula foi sujeito do próprio encarceramento, deu um nó nas forças do golpe neoliberal.

Muitos achavam que Lula deveria ter fugido para uma embaixada amiga e de lá partido para o exílio no exterior. Confesso que também pensei assim. Mas Lula é muito mais inteligente que todos nós juntos.

Lula sabe que já viveu muito, sabe que não lhe sobra muito tempo de vida. O que resta agora é a consolidação da biografia, o retorno às origens, seu renascimento como ícone da esquerda brasileira, imagem que ficou um tanto maculada pelos oito anos em que governou o Brasil.

É que no capitalismo não existem governos de esquerda. Governo de esquerda só com revolução e Lula nunca foi revolucionário, nunca prometeu uma revolução. Todo governo legitimado pelas instituições burguesas será sempre burguês. No máximo, no melhor dos cenários, será um governo de centro sensível às demandas populares. O lulismo foi exatamente isso: uma prática de governo de centro sensível às necessidades dos mais pobres. O lulismo transformou o Brasil para melhor, com todos os seus limites, com todas as suas contradições.

Mas para encerrar a vida em grande estilo carece de algo mais. Era necessária a canonização política. E só a esquerda canoniza líderes políticos. A direita é dura, cinza, sem poesia.

O golpe neoliberal conseguiu reconciliar Lula com as esquerdas, o que há poucos anos parecia algo impossível de acontecer.

É que para ser canonizado pelas esquerdas nada melhor que ser perseguido pelo Poder Judiciário, habitat histórico das elites da terra. Basta lançar no Google os sobrenomes da maioria dos nossos juízes, procuradores e desembargadores e veremos os berços de jacarandá que embalaram os primeiros sonhos dos nossos magistrados.

É claro que Lula não planejou a perseguição. É óbvio que ele não queria ser perseguido. Se pudesse escolher, estaria tendo um final de vida mais tranquilo, talvez afastado da política doméstica e atuando nas Nações Unidas. Mas já que a vida deu o limão, por que não espremer, misturar com açúcar, cachaça, mexer bem e mandar para dentro? Lula fez exatamente isso: uma caipirinha com os limões azedos que seus adversários togados lhe deram.

Primeiro, ele fez questão de esgotar todos os mecanismos legais. A sentença de Moro, os votos dos desembargadores, os votos dos ministros da Suprema Corte não são palavras ao vento. São “peças”, para falar em bom juridiquês, que ficarão arquivadas e disponíveis para a consulta, para análise. Imaginem só, leitor e leitora, os historiadores que no futuro, afastados da histeria e das disputas que hoje turvam nossos sentidos, examinarão a sentença de Sérgio Moro, verão que o juiz não foi capaz de determinar em quais “atos de ofício” Lula teria beneficiado a OAS para fazer por merecer o tal Tríplex do Guarujá. É como se Moro estivesse falando: “Não sei como fez, mas que fez, ah, fez”. E o voto dos desembargadores do TRF-4, atravessados de juízos de valor, quase sem relar no mérito da sentença? E o voto de Rosa Weber? Por Deus, o que foi aquele voto de Rosa Weber? “Sei que estou votando errado, mas vou continuar votando errado só porque a maioria votou errado. Uma maioria que só vai votar porque eu vou votar errado também”. Lula, ao se negar a fugir, obrigou cada um desses togados a deixar impressos na história os rastros da própria infâmia.

Uma vez decretada a prisão, o que fez Lula? Deu um tiro no peito? Se entregou em São Paulo? Foi para Curitiba? Fugiu? Não! Lula se aquartelou no sindicado mais simbólico da redemocratização brasileira, o sindicado que representa as expectativas que nos anos 1980 apontavam para um Brasil mais justo, mais solidário. No apogeu da crise que significa o colapso do regime político fundado na redemocratização, Lula decidiu encenar o seu martírio onde tudo começou. Naquele que talvez seja o último grande ato de sua vida pública, Lula voltou às origens. Protegido pela massa de trabalhadores, Lula não cumpriu o cronograma estipulado por Sérgio Moro. Cercado por uma multidão, o Presidente operário transformou o sindicato dos metalúrgicos numa embaixada trabalhista.

A Polícia Federal, o braço armado do governo golpista, disse que não usaria a força. A Polícia Federal sabia que o povo resistiria, que sem negociação não tiraria Lula do sindicado sem deixar uma trilha de sangue. Lula negociou e, nos limites dados por sua posição de condenado pela Justiça, venceu e humilhou as instituições ocupadas pelo golpe neoliberal.

Lula não estava foragido. O mundo inteiro sabia onde ele estava e mesmo assim o Estado brasileiro não foi capaz de prendê-lo no prazo determinado pela Justiça golpista. Durante um pouco mais de 30 horas, Lula foi um exilado dentro do Brasil, como se São Bernardo do Campo fosse um República independente, a “República Popular dos Trabalhadores”.

Lula fez de uma missa em homenagem a Dona Marisa Letícia um ato político e aqui temos mais um lance simbólico do Presidente operário: restabeleceu as pontes entre a esquerda brasileira e a Igreja Católica, aliança que tão importante nos anos 1970, quando sob as bênçãos da Teologia da Libertação foi fundado o Partido dos Trabalhadores.

No palanque, junto com o padre, estavam Lula e as futuras lideranças da esquerda brasileira. Lula dividiu seu espólio em vida, tomou para si esse ato mórbido ao abençoar Boulos, Manuela e Fernando Haddad. Lula unificou em vida a esquerda brasileira. Não só unificou, mas pautou, apresentou o programa, cantou o caminho das pedras. Lula deixou claro que o povo mais pobre precisa comer melhor, precisa consumir, viajar de avião, estudar na universidade. Lula, o operário que durante a vida inteira foi humilhado por não ter diploma de ensino superior, foi o professor de milhões de brasileiros que sonham com um país melhor. É como se Lula estivesse dizendo: “Num país como o Brasil, a obrigação mais urgente da esquerda é transformar o Estado burguês em agente provedor de direitos sociais”.

Lula discursou durante uma hora em rede nacional, se defendeu das acusações. Não foi uma defesa para a Justiça, mas sim para o tribunal moral da nação. Não foi um discurso para o presente. Foi um discurso para a história.

Não, meus amigos, acuado pelas forças do atraso, Lula não deu um tiro no próprio peito.

Lula mandou trazer cerveja e carne e fez um churrasco com seus companheiros e companheiras. Foi carregado pelos seus iguais, foi tocado, beijado. Saliva, suor, pele. Lula não deu um tiro no próprio peito.

Getúlio é gigante, sem dúvida, mas também era herdeiro das oligarquias. Lula é o único trabalhador que, vindo da base da sociedade, conseguiu governar e transformar o Brasil. Lula já é maior que Getúlio. Diferente de Getúlio, Lula entrou para a história sem precisar sair da vida.

(Rodrigo Perez Oliveira - professor de Teoria da História na UFBA)

30.3.18

O GALILEU

Chega nessa época do ano, a Páscoa, as igrejas trazem à memória os significativos relatos sobre a morte e ressurreição de Jesus. Celebrações em torno da figura polissêmica do homem de Nazaré. Sabemos com Maurice Halbwachs (“A memória coletiva”), que algo assim é contínuo e nada artificial, porque “não retém do passado senão o que ainda está vivo ou é capaz de viver na consciência do grupo que a mantém”. Se for assim, esse grupo entende que, a partir da narrativa que possibilitou a memória de Jesus, precisa dar continuidade à sua vida, por meio de uma autêntica identificação com ele.

Se esse grupo, que a teologia comumente identifica como “igreja”, concebe na figura de um nortista da Galiléia, que de maneira itinerante, saiu pelos vilarejos e cidades com uma mensagem de que a face de YAHWEH é de um Pai (Abbá) que continuava querendo estabelecer um Reino, esse grupo precisa olhar para o “rosto” desse nazareno e se identificar com ele. A identificação passa pela práxis, ou seja, só é possível cultivar memória quando o quê ou quem a motivou, continue fazendo sentido. As igrejas celebrando a Páscoa, estão dizendo que a memória do nazareno continua presente e sua mensagem e trajetória de vida, fazendo sentido. 

Ocorre que a práxis de Jesus não foi entendida plenamente nem mesmo pelos seus mais próximos seguidores (os discípulos/as). Sabemos, pelos Evangelhos, que mesmo espoliados pelo sistema político (romanos) e religioso (sacerdotes), o preconceito e a indiferença tinha lugar cativo no coração e atitudes desses seguidores. Nesse sentido, estamos dizendo que para os discípulos mais próximos de Jesus de Nazaré, entender a sua práxis e vivenciá-la na caminhada, não se deu de maneira tranquila, antes houve sérios conflitos, inclusive com a pessoa de Jesus. Por exemplo: são os discípulos que afastam as crianças quando estas querem estar com ele; são os discípulos que procuram silenciar o cego que gritava à beira do caminho por esmola; são os discípulos mais íntimos de Jesus que não aguentam a vigília na noite mais tenebrosa do galileu; são também os discípulos que ficam assustados quando veem Jesus conversando com uma mulher no poço. Os relatos poderiam se multiplicar. Os discípulos de Jesus não percebem, num primeiro momento, a dinâmica da sua caminhada e a clara preferência por questões consideradas incólumes. Como bem nos lembra o exegeta Günther Bornkamm: “caminhar atrás dele não significa segui-lo”.

No Brasil há uma polaridade política que tem afetado relacionamentos familiares, amigos e igrejas. A polarização chegou também na figura do nazareno. Há aqueles que querem diminuir o aspecto político-social dos Evangelhos por, pensam, favorecer um segmento da política brasileira. Outros ainda usam a figura de Jesus e sua práxis direcionada para os marginalizados e despossuídos como uma plataforma político-ideológica a fim de promover uma agenda socialista. Nessa disputa pela narrativa do galileu, estão os que insistem em espiritualizar a caminhada de Jesus e sua mensagem, o transformando em um Cristo do “coração”. O fato é que a figura, a vida, mensagem, morte-ressurreição de Jesus não pode ser institucionalizada cabalmente. A igreja procurou fazer isso, mas não há dúvidas de que falhou; a julgar pela quantidade de denominações e sua diversidade de interpretações, algumas se colocando como exclusivas até. A questão, como bem coloca Franz Hinkelammert, é que “as bem-aventuranças dos pobres, dos presos e dos enfermos, e em geral de todos os marginalizados da sociedade, constituem uma exigência que, quando interpretada em toda a sua rigidez, é incompatível com qualquer vida social realisticamente institucionalizada”. Em outras palavras, qualquer tentativa de capturar (seja essa captura política ou religiosa) a práxis de Jesus está fadada ao um certo fracasso. As instituições, criadas para legitimar a narrativa de Jesus, não dão conta da expressividade e dinâmica do nazareno. As suas ações e gestos estão para além das redomas criadas para comprimir a práxis do galileu.

Ao que parece, estamos parecidos com os discípulos dele que não vendo muito sentido em suas palavras e gestos, “tinham receio de perguntar”. Mas esse receio não os impediam de ficarem discutindo quem, entre eles, era, de fato, o maior (Mc 9,32-34).

21.3.18

APOIO À CANDIDATOS POR PASTORES BATISTAS

Estamos todos mergulhados em uma profunda crise que assola o país. Essa crise passa por diversos setores da vida nacional e, pelo que conste, nada passa despercebido. Uma das mais profundas é, indubitavelmente, a crise política. O país acompanhou (e continua acompanhando), diversos políticos de diferentes legendas sendo conduzidos para depoimentos, julgamentos e não poucos encarcerados por diferentes crimes envolvendo a administração pública.

Somando a esse quadro de crise política – que parece ser complexo e qualquer observação sem a máxima apuração corre-se o risco de imprecisões –, há uma intensa polarização político-ideológica na grande maioria da população. As pessoas estão tomando partido de A ou B, baseadas em suas convicções religiosas, morais e políticas. Há, inclusive, alguns que até então, confessadamente, não tinham qualquer interesse na política, mas, nos últimos anos, vem se envolvendo com questões partidárias de maneira acirrada, se colocando como de “Direita” ou de “Esquerda”, mesmo que esses “rótulos” (direita ou esquerda) não tenham a devida lucidez para a maioria que assim se definem.

Não é de hoje que as redes sociais se transformaram em “campo de batalha” entre pessoas de diferentes posições políticas. Há pesquisadores que arriscam em dizer que as eleições de 2018 serão decididas na internet e, mais especificamente, nas redes sociais. Não sem razão que há grupos criminosos que ganham dinheiro produzindo e espalhando nas redes sociais “Fake News” (notícias falsas). A proliferação de fake news é muito maior do que mesmo uma notícia verdadeira, constatam os especialistas em internet.

Com esse tenebroso cenário, perguntamos: um pastor batista deveria apoiar candidatos nessas eleições de 2018? Ele deveria dizer, divulgar, seja de púlpito ou em redes sociais, conteúdos envolvendo o candidato A ou B?

Antes de qualquer coisa, é preciso frisar o “pastor batista”, ou seja, não está se falando de um cidadão com seus direitos e deveres, antes uma pessoa que exerce liderança em uma comunidade de fé e professa uma identidade denominacional, portanto, tem uma função pública-social. Diante disso, daremos algumas razões porque um pastor batista não deveria expressar sua adesão/apoio à candidatos à cargos eletivos.

Separação entre Igreja-Estado

Notadamente, os batistas têm na separação Igreja-Estado um dos seus principais princípios. Ocorre que a defesa da separação Igreja-Estado nunca significou omissão e desinteresse pela política. Professar este princípio não significa deixar a política de lado, alegando que o interesse da Igreja é tão somente espiritual. Quando o batista norte-americano Walter B. Shurden, comenta sobre este tema, diz: “A legitimidade do Estado deve ser reconhecida pelo cristão, embora lhe seja permitido se opor ao Estado quando este contraria os princípios que caracterizam os ensinamentos da Palavra de Deus”. Foi nesse espírito, que Martin Luther King Jr., sem nunca ser candidato ou apoiar qualquer que fosse o presidente dos EUA, disse: “É preciso lembrar a Igreja que ela não é senhora nem serva do Estado, mas, sim, a consciência dele. A Igreja tem o dever de o criticar e o orientar, sem nunca se tornar para ele num instrumento”. Separação entre Igreja-Estado não significa omissão política, antes a vigilância com espírito profético. Já dizia João Falcão Sobrinho, destacado pastor batista no Rio de Janeiro: “O cristão, como cidadão da pátria terrena, tem dever para com o seu país, mas sempre que entrar em conflito o seu dever cívico com os seus deveres para com Deus, deve permanecer fiel ao seu Redentor”. Por prezar pelo princípio da separação Igreja-Estado, o pastor batista, quando se isenta de apoiar candidato A ou B, tem condições de refletir a partir de algo maior, qual seja, as pessoas e o seu bem-estar. Esse deveria ser o principal foco de todos os cristãos batistas, mas principalmente do pastor batista. No item ORDEM SOCIAL (Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira), traz algo fundamental quanto ao papel de todos os cristãos: “Como sal da terra e luz do mundo, o cristão tem o dever de participar em todo o esforço que tende ao bem comum da sociedade em que vive”. É sabido que uma dessas formas de buscar o bem comum de uma sociedade que tem um sistema de governo republicano, se dá com a tarefa política. Por isso, mais uma razão para não se envolver com legendas partidárias de maneira estrita. Essa adesão, no nosso entender, prejudicaria um olhar holístico sobre as demandas de uma sociedade. Quando há comprometimento partidário, há descomprometimento social na sua inteireza.

Histórico negativo

Além desse fator (separação entre Igreja-Estado), que consideramos decisivo para não se apoiar, de maneira aberta e pública, candidatos à cargos eletivos, há também um outro fator: pesa contra nós, batistas, um histórico negativo quando se optou por um determinado segmento político no país. Antes de 1964, portanto antes do golpe civil-militar, os batistas tinham no seu horizonte de reflexão e ação uma agenda que contemplava as mazelas de um povo que sofria, por conta de políticas insatisfatórias em décadas anteriores. O êxodo rural e a ineficiência de políticas públicas, mergulharam o país em uma profunda e sistêmica desigualdade social. São os batistas, que em 1963, irão produzir o mais audacioso Manifesto reconhecido até hoje. No conhecido documento “Manifesto dos Ministros Batistas do Brasil”, há um espírito profético e combativo diante dos problemas prementes da sociedade brasileira. Nesse Manifesto, está presente um senso de justiça social que, mesmo respeitando a separação entre Igreja-Estado, não se omite diante dos dilemas do povo brasileiro à época. Destacamos algumas das suas preocupações e denúncias: “Reconhecemos a inadequação da presente estrutura social, política e econômica para a realização plena da justiça social, pelo que insistimos na necessidade de um reexame corajoso, objetivo e despreconcebido da presente realidade brasileira, com vistas à sua estruturação em moldes que possibilitem o atendimento das justas aspirações e necessidades do povo. Essa necessidade ressalta da constatação da ineficiência dos institutos assistenciais do Estado, que transformam num favor concedido a custo, direitos líquidos dos trabalhadores; da irracional aplicação dos recursos públicos, que deveriam antes de se destinar, mais liberalmente, aos ministérios da Saúde, Educação e Agricultura, para a solução de problemas sociais angustiantes; da sobrevivência de regimes feudais de propriedade e exploração da terra; da generalizada pobreza das populações carentes mesmo do alimento indispensável à sobrevivência; da injustiça na distribuição das riquezas, e da utilização destas para o cerceamento das liberdades essenciais; da inadequada exploração das nossas riquezas naturais, cujo aproveitamento não só deveríamos intensificar, como fazer revestir-se de significação social; da corrupção que tem campeado nos pleitos eleitorais, na prática policial (quer preventiva, quer corretiva), na previdência social, no preenchimento de cargos públicos...” (1). Depois de 1964, os batistas se alinharam ao regime militar por razões conhecidas e pesquisadas (2). Com isso, notamos que todo e qualquer alinhamento político-ideológico leva, inevitavelmente, a uma forma de alienação das reais condições de vida de uma população. Por essa razão, ao nosso ver, um pastor batista não deveria dizer em que candidato deve ou não votar. Antes, a sua voz deveria ser apartidária, uma vez que optando por um partido, já se está optando por qual linha política irá seguir. É oportunidade de aprender com os pastores batistas que passaram pela década de 1960.

Código de Ética dos Pastores Batistas do Brasil

A Ordem dos Pastores Batistas do Brasil está para reformar o seu Código de Ética. No atual Código, há um item dedicado aos “Deveres do Pastor para com a Sociedade”. Antes de qualquer coisa, um pastor batista não deveria ser candidato a cargo político. Isso, per si, se constitui um desvio grave da sua vocação e tarefa ministerial. Mesmo o pastor batista não concorrendo a um cargo político, o Código não faculta a ele a omissão diante dos problemas sociais. Nesse sentido é dito: “Participar da vida da comunidade [...] identificando-se com sua causa e solidarizando-se com os anseios de seus moradores, procurando apoiá-los quanto possível nos esforços para satisfação deles”. É dito que a voz do pastor não é emudecida diante dos problemas, pelo contrário, ele deve se envolver nas questões que atingem a todos e, a partir da sua participação, oferecer soluções. Em outro momento do Código, é dito que o pastor deve “praticar a cidadania cristã responsável, sem engajar-se em partidos políticos”. Essa observação faz todo o sentido. Primeiro que um pastor batista, em hipótese alguma, deveria dizer para a sua Igreja Local em qual candidato os membros devem ou não votar. Isso feriria a liberdade de consciência e opinião (um dos caros princípios batistas); num segundo momento, essa recomendação se dá porque uma vez o pastor sendo do partido A ou B, ele fica comprometido com a agenda desse partido ou candidato, mesmo que concorde com algumas das questões e discorde de outras. Não obstante a isso, o Código completa: “Dar apoio à moralidade pública [...], por meio de testemunho profético responsável e de ação social”. Só essa tarefa que o Código recomenda já é, por demais, árdua. 

Um pastor batista deve, com todos esses rótulos e ódio explícito que acompanha a política brasileira nos últimos três anos e, principalmente, nas redes sociais, continuar perseguindo os exemplos de homens que lutaram contra um sistema político que marginalizava e oprimia as pessoas. Nesse sentido, os profetas do Antigo Testamento estão aí: Jeremias, Amós, Isaías e tantos outros. Em comum em todos eles há uma mensagem profética de repúdio as práticas desumanas e parciais dos reis! João Batista, no Novo Testamento, não ficou calado diante da corrupção e imoralidade de Herodes, perdeu a cabeça por conta disso. O próprio Jesus, contrário aos interesses dos sacerdotes, expulsou os ladrões que abusavam da boa fé do povo no templo de Jerusalém, e isso selou a sua execução incentivada pelo sistema sacerdotal.

Cabe ao pastor batista ser voz ativa na propagação dos valores do Reino de Deus. Quando o Reino de Deus está em primeiro lugar, há comprometimento com a justiça (Evangelho de Mateus).

Notas

(1). Publicado no “O Jornal Batista” – 14.09.1963.
(2). Confere o trabalho de Leandro Seawright Alonso, uma tese de doutorado em História Social pela USP – Ritos de oralidade: a tradição messiânica de protestantes no regime militar brasileiro (Jundiaí: Paco Editorial, 2016). 

25.2.18

A TRADIÇÃO ECUMÊNICA BATISTA

Os batistas não surgem nos Estados Unidos. Apenas para deixar bem claro.

Os batistas aparecem na Inglaterra do século XVII tendo como contexto os separatistas ingleses e, portanto, “os batistas fazem parte da gênese do pensamento liberal inglês” (1) que eclodia na época. 

Nesse sentido, os postulados do liberalismo inglês serão os mesmos dos primeiros batistas como liberdade individual e separação entre Igreja e Estado.

Os batistas ingleses aparecem na história do cristianismo como um grupo que luta por liberdade religiosa e isso custa a vida de um de seus líderes, Thomas Helwys que se manifestou com o livro Uma breve declaração do mistério da iniquidade em 1612, “em que defendeu liberdade religiosa para todos, incluindo os católicos romanos” (2). 

Os batistas ingleses têm na sua gênese a diversidade que gera, naturalmente, divergências, mas mesmo assim convergiam em temas comuns e buscavam o diálogo, honrando assim o início do movimento batista. Aqui podem ser citados os batistas gerais e os batistas particulares, como exemplos. “Apesar da diferença quanto à teologia arminiana e calvinista, adotaram princípios e práticas semelhantes e se desenvolveram separadamente, até que em 1891 se uniram através da União Batista da Grã-Bretanha e Irlanda” (3).

A fim de sobreviver, os batistas buscam liberdade religiosa para todos e isso, concomitantemente, incluía as demais manifestações religiosas. Como consequência, os batistas procuram a unidade dos cristãos a fim de testemunhar o Cristo. É neste sentido que John Smyth se expressa em um texto produzido em 1612: “Estando profundamente contristados porque nós que seguimos uma fé, e um espírito, um Senhor, e um Deus, um corpo e um batismo, estamos divididos em tantas seitas e cismas: e isto apenas por assuntos de menor importância” (4).

Não por acaso que os batistas ingleses vêm “participando ativamente em várias organizações do movimento ecumênico” (5). Assim que o Conselho Mundial de Igrejas (CMI) foi organizado em 1948, os batistas ingleses têm sua participação tendo, inclusive, um batista como presidente do CMI, Ernest Payne (6).

Ainda em território inglês, ocorre o primeiro grande encontro dos batistas (1905) em Londres sobre os auspícios do batista inglês Howard Shakespeare. Desse congresso surge a Aliança Batista Mundial (sigla em inglês BWA) tendo como primeiro presidente o pastor londrino John Clifford (7).

A Aliança Batista Mundial vem procurando abrir diálogo com diferentes representações religiosas, não apenas o cristianismo, mas inclusive com este, principalmente com a Igreja Católica.

Em 2012 Timothy George (autor do livro muito conhecido por aqui, Teologia dos reformadores. São Paulo: Vida Nova, 2017), como presidente da Comissão de Doutrina e União Cristã da Aliança Batista Mundial, participou de um sínodo no Vaticano, e foi recebido pelo Papa Bento XVI.

Na recepção à delegação da BWA, Bento XVI se dirige aos batistas da seguinte maneira: Dou-vos minhas cordiais boas-vindas, membros da comissão internacional patrocinada pela Aliança Batista Mundial e pelo Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos. Agrada-me que tenhais escolhido como lugar para vosso encontro esta cidade de Roma, onde os apóstolos Pedro e Paulo proclamaram o Evangelho e coroaram seu testemunho do Senhor ressuscitado derramando seu sangue. Espero que vossas conversas tragam abundantes frutos para o progresso do diálogo e o crescimento do entendimento e da cooperação entre católicos e batistas (8).

A BWA tem protagonizado encontros e diálogos fraternos com os católicos, unindo esforços em questões comuns. A Aliança Batista Mundial congrega diferentes ramificações dos batistas e isso favorece o diálogo.

A Convenção Batista Brasileira (CBB) integra a BWA.

NOTAS
(1) AZEVEDO, Israel Belo de. A celebração do indivíduo: a formação do pensamento batista brasileiro. São Paulo: Vida Nova, 2004, p. 12. 
(2) OLIVEIRA, Zaqueu Moreira de. Um povo chamado batista: história e princípios. Recife: Kairós Editora, 2010, p. 56.
(3) OLIVEIRA, 2010, p. 58-59.
(4) OLIVEIRA, Zaqueu Moreira de. Liberdade e exclusivismo: ensaios sobre os batistas ingleses. Rio de Janeiro/Recife: Horizonal/STBNB, 1997, p. 129.
(5) OLIVEIRA, 1997, p. 154.
(6) OLIVEIRA, 1997, p. 155.
(7) OLIVEIRA, 1997, p. 139.
(8) DISCURSO DO PAPA BENTO XVI AOS MEMBROS DE UMA DELEGAÇÃO DA ALIANÇA BATISTA MUNDIAL. Disponível em: <https://w2.vatican.va/content/bened...>.

FOTOS
1 - Este ano o Conselho Mundial de Igrejas (CMI) completa 70 anos.
2 - Rev. Martin Luther King no CMI em 1967. Ele pregaria na Assembleia do CMI no ano seguinte, se não tivesse sido assassinado em 1968.
3 - Rev. Timothy George e o Papa Bento XVI no Vaticano. 
4 - Rev. Billy Graham e o Papa João Paulo II no Vaticano (1981).