Lá pelo ano de 2001 estava eu em um Concílio Examinatório na cidade de Americana/SP. Para os leitores que não são batistas vai aí uma explicação. Concílio Examinatório é uma reunião de pastores em que sabatinam o candidato ao Ministério Pastoral na área teológica, eclesiológica etc. Se o candidato for aprovado, durante aquelas longas horas de perguntas, o Concílio aprova-o e recomenda a sua Ordenação à Igreja, do contrário ele será reprovado e um novo Concílio pode ser feito depois de 180 dias. É um procedimento válido. Bem, estava eu neste Concílio e na parte final do exame em teologia foi feita a seguinte pergunta: “qual a posição do candidato em relação ao Milênio, é pré, pós ou amilenista?” O candidato pensou, pensou e respondeu: “não defini ainda o que sou”. Bastou isso para que dois pastores começassem a discutir suas “posições escatológicas”. Um requeria saber de qualquer jeito o que o candidato era e outro apenas valorizava a posição do candidato de não ter nenhuma posição.
Está é apenas uma prova do quanto a questão do Milênio fez a cabeça e o imaginário religioso no protestantismo. Há pastores que fazem amizades e desfazem dependendo da interpretação sobre o Milênio! Seminários teológicos são expressamente pré-milenistas e ensinam a doutrina claramente. Bíblias de estudo, como a Scofield, por exemplo, trabalham a interpretação bíblica a partir do pré-milenismo dispensacionalista do Gênesis ao Apocalipse.
Segundo Antonio Gouvêa Mendonça, um dos principais pesquisadores do protestantismo no Brasil falecido em 2007, a disputa entre pré-milenismo e pós-milenismo começou nos EUA por volta do século XIX. Enquanto o pós-milenismo tinha como pano de fundo o mito do progresso social, em que entendia que havia a possibilidade de uma vida de perfeita santidade, o que significava uma melhoria progressiva e constante da sociedade através dos indivíduos aperfeiçoados, esse progresso, portanto, viria pela ação normal da igreja que prepararia a segunda vinda de Cristo. O grande pregador do pós-milenismo foi Jonathan Edwards no século XVIII que, assim, incentivou as campanhas missionárias nos EUA e em outros países. Na concepção do pós-milenismo, o Reino de Deus, já a caminho, devia ser compartilhado com outros povos. Já o pré-milenismo é totalmente diferente, este entende que o Homem é incapaz de se aperfeiçoar. Assim, o Milênio (Reino de Deus) só seria possível com a volta de Cristo para implantá-lo. Essa concepção ganhou grande força a partir dos anos 70 do século XIX. O resultado foi o progressivo distanciamento entre a Igreja e o mundo, incompatibilizando-a com projetos de melhoria social. A Igreja, voltada para si mesma, concentrou-se na evangelização e nas missões estrangeiras. O pré-milenismo chocou-se de frente com o Evangelho Social, assim como contra qualquer forma de compromisso com mudanças estruturais da sociedade. O pós-milenismo foi inteiramente superado no Brasil pelo pré-milenismo.
Com o pré-milenismo assegurado no Brasil protestante, os livros de maior sucesso por aqui sempre foram os de escatologia, de péssimo gosto, diga-se de passagem. Recentemente Ricardo Quadros Gouvêa escreveu um artigo em que aponta os quarenta livros mais lidos pelos evangélicos durante quarenta anos (Revista Ultimato, Viçosa, ed. 315, nov./dez. 2008). Entre os autores estão: Hall Lindsay A agonia do grande planeta Terra; Frank Peretti, Este mundo tenebroso. O livro de Hall Lindsay produziu uma verdadeira paralisia da Igreja em relação ao mundo. A partir da concepção pré-milenista, com forte ênfase no fim do mundo, o livro de Lindsay partiu de uma hermenêutica literalista, algo que é clássico na postura fundamentalista, e empolgou uma porção de gente com o “fim do mundo” e a instauração do Milênio. Resultado disso: uma apatia quanto à atuação da Igreja na sociedade e sua participação política.
Criticou-se muito a Teologia da Libertação porque olhava para a dimensão social e pregava em cima das mazelas do povo. No caso da Teologia Protestante, o pré-milenismo tem/teve um efeito paralisante na Igreja. Logo no protestantismo que tem na sua razão de ser a crítica, a liberdade de consciência, a atuação no mundo para a glória de Deus. Com o pré-milenismo produziu-se a indiferença pelo mundo e pela sociedade. Até mesmo a ação no mundo do crente pregado pelo puritanismo como vocação divida o pré-milenismo solapou!
Como consequência do exagero dessa posição escatológica, colhemos um povo apático e desmotivado para encarar a sociedade. Quando o Reino de Deus ficou lá, o aqui parece que não conta mais. Vai demorar a mudar este imaginário fatalista, mas é preciso começar.
"Escrever é construir, através do texto, um modelo específico de leitor" (Humberto Eco)
23.6.10
OS EQUÍVOCOS EM RELAÇÃO AO REINO
Não é novidade nenhuma na exegese contemporânea da teologia bíblica do Novo Testamento de que a mensagem principal, primeira, primordial de Jesus foi o Reino de Deus. Ele inicia sua caminhada na Galiléia pregando sobre o Reino de Deus (Mc 1,14-15). Dentro da perspectiva do Antigo Testamento sobre o reinado de Deus, Jesus materializa a presença do Reino a partir das suas ações e pastoral: acolhe os marginalizados da sociedade; expulsa o mal pelo poder de Deus; leva as boas novas do Evangelho. Jesus respira o Reino; sua vida está em função do Reino.
Como é incrível a total desconsideração da teologia protestante (se é que podemos chamar assim) quanto a temática do Reino de Deus. Apenas para levantamento: quantas literaturas para a EBD há sobre o Reino de Deus? Livros? Autores/teólogos que escrevem e dão palestras sobre o tema? Quase nada! É um tema relegado, desconsiderado. No cenário religioso brasileiro temos algumas manifestações que nem mesmo cogitam sobre o Reino. Entre os neopentecostais a ênfase está na prosperidade, no dinheiro como instrumento de bênção de Deus, embora a IURD tenha no seu nome “Reino de Deus”, mas é puramente no sentido financeiro e territorial. Entre os pentecostais o tema nunca foi enfatizado, pois a preocupação era (e é) com o Espírito Santo, o poder, a unção.
O protestantismo (batistas) olhou para Jesus apenas sob a perspectiva do berço, da cruz e da pedra. A história da teologia protestante ignorou completamente o aspecto do Reino de Deus na vida de Jesus. A discussão e maior preocupação foi sobre sua divindade, homem ou Deus? O aspecto pastoral da ação de Jesus foi omitido. Quantos livros sobre o Reino de Deus temos? Nas teologias sistemáticas que tantos gostam o Reino de Deus, na área de cristologia, não aparece! Apenas na discussão sobre o Milênio o Reino irá aparecer, mas ainda em cima de uma discussão inútil: ainda virá, já está aqui, é pré, pós ou a?
Alguns equívocos que fizeram com que o Reino de Deus fosse marginalizado na vida da Igreja. Faço apenas alguns apontamentos. O primeiro deles foi, indubitavelmente, confundir Reino de Deus com expansionismo: essa é uma prática que vêm desde o catolicismo português e passa pelos missionários protestantes no século XIX. Reino de Deus ficou sendo abrir templos; levar o nome da Igreja era o mesmo que expandir o Reino de Deus; conquistar território era o Reino de Deus. Onde não houvesse uma determinada denominação era preciso ter, pois era a expansão do Reino de Deus. Vem daí a nossa dificuldade em entender que em outras vertentes do Cristianismo o Reino de Deus também se manifesta. É claro que o fundamentalismo é o segundo fator de marginalização do Reino de Deus. Com a excessiva preocupação com a “sã doutrina” como a inerrância da Bíblia, a hermenêutica literalista do texto, esqueceu-se do principal, o Evangelho.
O terceiro elemento que marginalizou a concepção do Reino de Deus na Igreja foi o pré-milenismo. O pré-milenismo proliferou na teologia protestante, livros, palestras, seminários, como o PV, Bíblias como a Scofield e a Anotada, além dos pentecostais com suas teorias mirabolantes sobre o “fim do mundo”. Jesus virá, estabelecerá o seu Reino por mil anos, o mal será extirpado e aí haverá paz. Com essa assertiva o pré-milenismo imprimiu no imaginário religioso um final feliz nos fins dos tempos, portanto, o povo é apenas espectadores aqui, vendo as coisas acontecerem e aguardando o céu. Canta-se isso: “sou peregrino aqui, em terra estranha estou...”. Resultado: omissão política e social; desvalorização da cultura.
O Reino de Deus tem uma dupla dimensão: aqui e lá, o famoso já e ainda não. Ele tem o seu início com Jesus e a continuação com a Igreja. Esta, a Igreja, nunca poderá ser confundida com o Reino, ele tem dimensões próprias, mas o Reino será propagado com a ajuda e mediação da Igreja.
Como é incrível a total desconsideração da teologia protestante (se é que podemos chamar assim) quanto a temática do Reino de Deus. Apenas para levantamento: quantas literaturas para a EBD há sobre o Reino de Deus? Livros? Autores/teólogos que escrevem e dão palestras sobre o tema? Quase nada! É um tema relegado, desconsiderado. No cenário religioso brasileiro temos algumas manifestações que nem mesmo cogitam sobre o Reino. Entre os neopentecostais a ênfase está na prosperidade, no dinheiro como instrumento de bênção de Deus, embora a IURD tenha no seu nome “Reino de Deus”, mas é puramente no sentido financeiro e territorial. Entre os pentecostais o tema nunca foi enfatizado, pois a preocupação era (e é) com o Espírito Santo, o poder, a unção.
O protestantismo (batistas) olhou para Jesus apenas sob a perspectiva do berço, da cruz e da pedra. A história da teologia protestante ignorou completamente o aspecto do Reino de Deus na vida de Jesus. A discussão e maior preocupação foi sobre sua divindade, homem ou Deus? O aspecto pastoral da ação de Jesus foi omitido. Quantos livros sobre o Reino de Deus temos? Nas teologias sistemáticas que tantos gostam o Reino de Deus, na área de cristologia, não aparece! Apenas na discussão sobre o Milênio o Reino irá aparecer, mas ainda em cima de uma discussão inútil: ainda virá, já está aqui, é pré, pós ou a?
Alguns equívocos que fizeram com que o Reino de Deus fosse marginalizado na vida da Igreja. Faço apenas alguns apontamentos. O primeiro deles foi, indubitavelmente, confundir Reino de Deus com expansionismo: essa é uma prática que vêm desde o catolicismo português e passa pelos missionários protestantes no século XIX. Reino de Deus ficou sendo abrir templos; levar o nome da Igreja era o mesmo que expandir o Reino de Deus; conquistar território era o Reino de Deus. Onde não houvesse uma determinada denominação era preciso ter, pois era a expansão do Reino de Deus. Vem daí a nossa dificuldade em entender que em outras vertentes do Cristianismo o Reino de Deus também se manifesta. É claro que o fundamentalismo é o segundo fator de marginalização do Reino de Deus. Com a excessiva preocupação com a “sã doutrina” como a inerrância da Bíblia, a hermenêutica literalista do texto, esqueceu-se do principal, o Evangelho.
O terceiro elemento que marginalizou a concepção do Reino de Deus na Igreja foi o pré-milenismo. O pré-milenismo proliferou na teologia protestante, livros, palestras, seminários, como o PV, Bíblias como a Scofield e a Anotada, além dos pentecostais com suas teorias mirabolantes sobre o “fim do mundo”. Jesus virá, estabelecerá o seu Reino por mil anos, o mal será extirpado e aí haverá paz. Com essa assertiva o pré-milenismo imprimiu no imaginário religioso um final feliz nos fins dos tempos, portanto, o povo é apenas espectadores aqui, vendo as coisas acontecerem e aguardando o céu. Canta-se isso: “sou peregrino aqui, em terra estranha estou...”. Resultado: omissão política e social; desvalorização da cultura.
O Reino de Deus tem uma dupla dimensão: aqui e lá, o famoso já e ainda não. Ele tem o seu início com Jesus e a continuação com a Igreja. Esta, a Igreja, nunca poderá ser confundida com o Reino, ele tem dimensões próprias, mas o Reino será propagado com a ajuda e mediação da Igreja.
9.6.10
IGREJA: ENTRE A MASSA E A MINORIA
Vendo esses dias o blog Genizah, vejo a seguinte notícia: Igreja Mundial Renovada. É a mais nova cisão da Igreja Mundial do Poder de Deus. O braço direito do então Valdemiro Santiago, o senhor Roberto Damásio, fundou a Igreja Mundial Renovada com os mesmos caracteres da sua antiga igreja, a IMPD. Não tenho nenhum interesse em saber quem está traindo quem, quem está abrindo mais uma casa de espetáculo. O que achei interessante na matéria do Genizah é a frase do mais novo pop star do mundo das celebridades bizarras. Ele disse: “A Igreja que fundei e abri é melhor do que a primeira de onde vim! A gloria será minha, a igreja é minha, eu sou o dono dela e ninguém me tira”. Palavras de profunda sabedoria espiritual.
Segundo o sociólogo Ricardo Mariano (mestre e doutor em Ciências Sociais pela USP) no seu livro Neopentecostais, sociologia do novo pentecostalismo no Brasil (Loyola, 1999), o neopentecostalismo é um empreendimento profundamente lucrativo. Abrir igrejas é um negócio como outro qualquer. A clientela é vasta; o produto muda apenas de mão, de bispo para apóstolo; a propaganda é feita pela TV com slogan chamativo. As pretensões é crescer, crescer e crescer.
É interessante a diversidade do Evangelho neste país. Enquanto prego na minha tranquila e abençoada comunidade sobre ser semelhante à Cristo, amar o irmão, dialogar com aquele que discordamos, os membros vê na TV pastor vendendo semente; missionário pedindo para comprar uma tal de “Nossa TV” extorquindo o povo em nome de uma pretensa programação “santa”; outro com seus milagres e unções reivindicando a mão de Deus. Já estou cheio disso e acho que você também.
Lendo um dos teólogos mais importantes da América Latina, Juan Luis Segundo, o seu livro Teologia aberta para o leigo adulto: essa comunidade chamada Igreja (Loyola, 1976), Segundo faz uma observação: a Igreja sempre será minoria. Ele faz uma distinção entre massa e minoria. A Igreja de fato será sempre aquela em que pessoas que seguem de fato a Jesus Cristo, participam do seu projeto chamado Reino de Deus e transmitem aos outros a fé recebida. Segundo coloca que Jesus nunca pretendeu alcançar a massa; Paulo nunca teve intenção de conquistar um império. Para o teólogo uruguaio, Igreja será aquela em que o amor ao próximo seja a primeira e principal doutrina. Igreja será minoria sempre, porque nem todos estão interessados em diminuir para que o outro cresça.
A massa pode ser manipulada (e é). A minoria pode mudar algumas coisas, mas não tem a pretensão de mudar o mundo, mas a sua volta. A Igreja de Cristo é minoria. É a dificuldade de relacionamento dos Doze; é a possibilidade dos fortes carregarem as fraquezas dos fracos; é a mutualidade na compaixão e no amor cristão.
Acho que estou fadado a lidar sempre com a minoria, pois é nela que me identifico como pastor.
Segundo o sociólogo Ricardo Mariano (mestre e doutor em Ciências Sociais pela USP) no seu livro Neopentecostais, sociologia do novo pentecostalismo no Brasil (Loyola, 1999), o neopentecostalismo é um empreendimento profundamente lucrativo. Abrir igrejas é um negócio como outro qualquer. A clientela é vasta; o produto muda apenas de mão, de bispo para apóstolo; a propaganda é feita pela TV com slogan chamativo. As pretensões é crescer, crescer e crescer.
É interessante a diversidade do Evangelho neste país. Enquanto prego na minha tranquila e abençoada comunidade sobre ser semelhante à Cristo, amar o irmão, dialogar com aquele que discordamos, os membros vê na TV pastor vendendo semente; missionário pedindo para comprar uma tal de “Nossa TV” extorquindo o povo em nome de uma pretensa programação “santa”; outro com seus milagres e unções reivindicando a mão de Deus. Já estou cheio disso e acho que você também.
Lendo um dos teólogos mais importantes da América Latina, Juan Luis Segundo, o seu livro Teologia aberta para o leigo adulto: essa comunidade chamada Igreja (Loyola, 1976), Segundo faz uma observação: a Igreja sempre será minoria. Ele faz uma distinção entre massa e minoria. A Igreja de fato será sempre aquela em que pessoas que seguem de fato a Jesus Cristo, participam do seu projeto chamado Reino de Deus e transmitem aos outros a fé recebida. Segundo coloca que Jesus nunca pretendeu alcançar a massa; Paulo nunca teve intenção de conquistar um império. Para o teólogo uruguaio, Igreja será aquela em que o amor ao próximo seja a primeira e principal doutrina. Igreja será minoria sempre, porque nem todos estão interessados em diminuir para que o outro cresça.
A massa pode ser manipulada (e é). A minoria pode mudar algumas coisas, mas não tem a pretensão de mudar o mundo, mas a sua volta. A Igreja de Cristo é minoria. É a dificuldade de relacionamento dos Doze; é a possibilidade dos fortes carregarem as fraquezas dos fracos; é a mutualidade na compaixão e no amor cristão.
Acho que estou fadado a lidar sempre com a minoria, pois é nela que me identifico como pastor.
22.5.10
COMUNICAÇÃO BATISTA E RELIGIOSIDADE MIDIÁTICA
Neste domingo comemora-se o Dia da Comunicação Batista. Não temos muito que comemorar sobre neste dia. Os meios de comunicação que a CBB dispunha foram todos extintos. A JUERP praticamente todos conhecem a história que envolve incompetência e apadrinhamento político. A JURATEL, divisão de rádio e TV, não existe mais. Aliás, a Faculdade Teológica Batista de Campinas penou e muito para assumir o espaço da JURATEL, e uma instituição teológica dos batistas pagava, até pouco tempo atrás, aluguel do espaço físico, isso que é visão de Reino, mas deixa isso pra lá. O caso é que os meios de comunicação da CBB são escassos. O Jornal Batista agora chega a todas as igrejas batistas do Brasil, mas é um meio doméstico de comunicação. Fora este, há sites e outros meios de menor alcance. É claro que o sistema batista de governo, autônomo e democrático, favorece que igreja, com um maior poder aquisitivo, mantenha programa de rádio e TV em sua localidade, mas continua sendo regional. Uma vez se falou nos bastidores da CBESP a possível idealização de um programa de TV, vinculou até mesmo uma revista para bancar o projeto, mas não deu em nada.
A questão é a seguinte. Vivemos em uma sociedade do espetáculo, onde o que vende e atrai é o show. A cultura do consumo e a cultura da mídia são duas dessas manifestações da sociedade. Entenda-se por cultura do mercado o modo de vida determinado pelo consumo, onde o produto deve ser apreciado e visualizado, daí o marketing ser pesado. A comunicação é que vende o produto hoje, a propaganda, definitivamente, é a “alma do negócio”.
A sociedade do espetáculo aderiu a mais um produto no mercado, o Evangelho. Não sei se verdadeiro ou não, mas há pessoas, e muitas, construindo verdadeiros impérios político-econômico-social em cima da fé dos outros. Aderiram completamente o lema da sociedade de consumo e vende o seu produto com mensagens assim: “Deus me chamou para ganhar almas, somente isso”. Mas esta não é mais uma verdade. Nos anos 80, como mostra um estudo do teólogo Hugo Assmann que inaugurou o termo “Igreja Eletrônica”, foi-se o tempo em que os meios de comunicação eram usados para atrair pessoas às igrejas. Hoje a ênfase da mensagem transmitida não é da “Igreja” e na adesão a ela, mas no cultivo de uma religiosidade que não depende da Igreja, mas que é intimista e autônoma, com uma característica totalmente individualizada. O que se enfatiza não é a Igreja, mas a experiência religiosa mediada pelo meio TV ou rádio, isto é, o meio possibilita o cultivo da religiosidade, independente da adesão a uma comunidade de fé. Daí o crescente número de membros de nossas igrejas que se transformam em patrocinadores do Show da Fé. A mensagem atrelada é sobre produtos e patrocínio. Os pastores televisivos vendem seus produtos e compram seus jatinhos em cima de um conceito de mercado: produto + propagando = dinheiro. Por isso há uma verdadeira batalha entre os neopentecostais por espaço na mídia, estão se gladiando no ar em busca de clientes, digo, fiéis.
Neste universo de internacionais, mundiais e universais e outros peixes pequenos, nós não entramos. O sistema batista não permite, não há nenhuma franquia de igrejas para sustentar horas e horas de programa para vender “milagres” e “curas”. O que nos resta? Será que precisamos mesmo de um sistema de comunicação como os católicos fizeram para confrontar com os neopentecostais? Será que temos necessidade de fazer parte da frutífera e salutar edificação aos sábados de manhã da Rede TV? Que tipo de comunicação precisamos ter? Um jornal apenas? Não se importar com essa guerra midiática e continuar onde estamos é o melhor a fazer? O que fazer?
A questão é a seguinte. Vivemos em uma sociedade do espetáculo, onde o que vende e atrai é o show. A cultura do consumo e a cultura da mídia são duas dessas manifestações da sociedade. Entenda-se por cultura do mercado o modo de vida determinado pelo consumo, onde o produto deve ser apreciado e visualizado, daí o marketing ser pesado. A comunicação é que vende o produto hoje, a propaganda, definitivamente, é a “alma do negócio”.
A sociedade do espetáculo aderiu a mais um produto no mercado, o Evangelho. Não sei se verdadeiro ou não, mas há pessoas, e muitas, construindo verdadeiros impérios político-econômico-social em cima da fé dos outros. Aderiram completamente o lema da sociedade de consumo e vende o seu produto com mensagens assim: “Deus me chamou para ganhar almas, somente isso”. Mas esta não é mais uma verdade. Nos anos 80, como mostra um estudo do teólogo Hugo Assmann que inaugurou o termo “Igreja Eletrônica”, foi-se o tempo em que os meios de comunicação eram usados para atrair pessoas às igrejas. Hoje a ênfase da mensagem transmitida não é da “Igreja” e na adesão a ela, mas no cultivo de uma religiosidade que não depende da Igreja, mas que é intimista e autônoma, com uma característica totalmente individualizada. O que se enfatiza não é a Igreja, mas a experiência religiosa mediada pelo meio TV ou rádio, isto é, o meio possibilita o cultivo da religiosidade, independente da adesão a uma comunidade de fé. Daí o crescente número de membros de nossas igrejas que se transformam em patrocinadores do Show da Fé. A mensagem atrelada é sobre produtos e patrocínio. Os pastores televisivos vendem seus produtos e compram seus jatinhos em cima de um conceito de mercado: produto + propagando = dinheiro. Por isso há uma verdadeira batalha entre os neopentecostais por espaço na mídia, estão se gladiando no ar em busca de clientes, digo, fiéis.
Neste universo de internacionais, mundiais e universais e outros peixes pequenos, nós não entramos. O sistema batista não permite, não há nenhuma franquia de igrejas para sustentar horas e horas de programa para vender “milagres” e “curas”. O que nos resta? Será que precisamos mesmo de um sistema de comunicação como os católicos fizeram para confrontar com os neopentecostais? Será que temos necessidade de fazer parte da frutífera e salutar edificação aos sábados de manhã da Rede TV? Que tipo de comunicação precisamos ter? Um jornal apenas? Não se importar com essa guerra midiática e continuar onde estamos é o melhor a fazer? O que fazer?
14.5.10
A DESCONSTRUÇÃO DE UM DEUS METAFÍSICO
Apontamentos em Gianni Vattimo
Estamos diante de um fato: a pós-modernidade delineou um novo modo de se pensar e viver religião. Diante deste fenômeno, a filosofia da religião vem apontando caminhos para se pensar o religioso em outras matrizes. Esquemas que privilegie o diálogo, a abertura fraterna e honesta com os eixos da pós-modernidade. Um dos pontos que tanto teólogos quanto filósofos trabalham é o aspecto metafísico do conceito “Deus”. A construção teórica em torno de uma emancipação do conceito “Deus” da metafísica é tratada por F. Nietzsche com o seu famoso enunciado “Deus está morto”. Outro alemão que pensou sobre os limites da metafísica foi M. Heidegger. Com esses autores, o filósofo italiano Gianni Vattimo quer colocar a superação da metafísica. Sua intenção, a partir de Nietzsche e Heidegger, é desconstruir o “Deus” metafísico que norteou a cultura ocidental e apresentar novos rumos para o discurso sobre “Deus”.
O “Deus” gestado pelo Ocidente é o resultado da junção entre filosofia grega e escolástica (Santo Agostinho e Tomás de Aquino). Vattimo e outros filósofos concebem o retorno da religião como um fato; a ciência e a técnica não anularam o sentimento religioso do homem pós-moderno. Para Vattimo esse retorno se dá pelo esvaziamento de sentido, algo que a ciência e a filosofia não souberam trabalhar; uma maneira de preservar as culturas ancestrais, etc. Mas agora esse retorno corre alguns riscos e o principal deles é o fundamentalismo em suas diferentes vertentes.
O “Deus” metafísico da Idade Média proporcionava segurança, estabilidade. O ser era identificado com “Deus”. A partir da leitura de Nietzsche e Heidegger, Vattimo quer colocar a instabilidade de um solo que sempre se acreditou ser firme; “Deus” passa a ser não um fundamento imóvel, mas um vestígio, um traço. Para o filósofo italiano, “Deus” deixa de ser estrutura para se tornar evento. O discurso metafísico sobre “Deus” passa a não existir como um fato factível e torna-se evento, um “Deus” eventual.
O “Deus” metafísico desconstruído pela pós-modernidade e seus eixos, dá lugar agora a um pensamento que descobre os fragmentos do Sagrado por meio do vestígio, do evento histórico. Não é mais um “Deus” visto como absoluto, eterno, imóvel (Aristóteles), sem princípio e nem fim. Para aparecer este novo modo de interpretar e discursar sobre o Sagrado, Vattimo recorre ao conceito bíblico da encarnação. No entender do filósofo italiano, é o Cristianismo que supera o “Deus” metafísico! O Verbo encarnado assume a eventualidade do ser. Deus ter se tornado ser humano já é um enfraquecimento do “Deus” metafísico. Deixa de ser o “Deus” dos raios e trovões, o totalmente outro. O Deus que se torna ser humano come e bebe com malfeitores; assume as debilidades e fraquezas da vida; chama as pessoas de amigos.
O “Deus” metafísico é desconstruído e surge o Verbo, eventualidade do ser. A debilidade levou Vattimo ao Cristianismo. A encarnação torna-se elemento hermenêutico para um novo discurso sobre Deus, assumindo, portanto, a eventualidade do ser; algo em construção, em movimento, nunca fechado e inconcebível.
Estamos diante de um fato: a pós-modernidade delineou um novo modo de se pensar e viver religião. Diante deste fenômeno, a filosofia da religião vem apontando caminhos para se pensar o religioso em outras matrizes. Esquemas que privilegie o diálogo, a abertura fraterna e honesta com os eixos da pós-modernidade. Um dos pontos que tanto teólogos quanto filósofos trabalham é o aspecto metafísico do conceito “Deus”. A construção teórica em torno de uma emancipação do conceito “Deus” da metafísica é tratada por F. Nietzsche com o seu famoso enunciado “Deus está morto”. Outro alemão que pensou sobre os limites da metafísica foi M. Heidegger. Com esses autores, o filósofo italiano Gianni Vattimo quer colocar a superação da metafísica. Sua intenção, a partir de Nietzsche e Heidegger, é desconstruir o “Deus” metafísico que norteou a cultura ocidental e apresentar novos rumos para o discurso sobre “Deus”.
O “Deus” gestado pelo Ocidente é o resultado da junção entre filosofia grega e escolástica (Santo Agostinho e Tomás de Aquino). Vattimo e outros filósofos concebem o retorno da religião como um fato; a ciência e a técnica não anularam o sentimento religioso do homem pós-moderno. Para Vattimo esse retorno se dá pelo esvaziamento de sentido, algo que a ciência e a filosofia não souberam trabalhar; uma maneira de preservar as culturas ancestrais, etc. Mas agora esse retorno corre alguns riscos e o principal deles é o fundamentalismo em suas diferentes vertentes.
O “Deus” metafísico da Idade Média proporcionava segurança, estabilidade. O ser era identificado com “Deus”. A partir da leitura de Nietzsche e Heidegger, Vattimo quer colocar a instabilidade de um solo que sempre se acreditou ser firme; “Deus” passa a ser não um fundamento imóvel, mas um vestígio, um traço. Para o filósofo italiano, “Deus” deixa de ser estrutura para se tornar evento. O discurso metafísico sobre “Deus” passa a não existir como um fato factível e torna-se evento, um “Deus” eventual.
O “Deus” metafísico desconstruído pela pós-modernidade e seus eixos, dá lugar agora a um pensamento que descobre os fragmentos do Sagrado por meio do vestígio, do evento histórico. Não é mais um “Deus” visto como absoluto, eterno, imóvel (Aristóteles), sem princípio e nem fim. Para aparecer este novo modo de interpretar e discursar sobre o Sagrado, Vattimo recorre ao conceito bíblico da encarnação. No entender do filósofo italiano, é o Cristianismo que supera o “Deus” metafísico! O Verbo encarnado assume a eventualidade do ser. Deus ter se tornado ser humano já é um enfraquecimento do “Deus” metafísico. Deixa de ser o “Deus” dos raios e trovões, o totalmente outro. O Deus que se torna ser humano come e bebe com malfeitores; assume as debilidades e fraquezas da vida; chama as pessoas de amigos.
O “Deus” metafísico é desconstruído e surge o Verbo, eventualidade do ser. A debilidade levou Vattimo ao Cristianismo. A encarnação torna-se elemento hermenêutico para um novo discurso sobre Deus, assumindo, portanto, a eventualidade do ser; algo em construção, em movimento, nunca fechado e inconcebível.
5.5.10
APONTAMENTOS SOBRE PASTORAL
Uma breve análise a partir do neopentecostalismo, catolicismo e protestantismo
Tenho pensado sobre a forma de ser pastor batista e seus desafios, até mesmo pensei em escrever alguma coisa neste sentido e procurar publicar numa dessas revistas eletrônicas, periódicos teológicos com a intenção de abrir um diálogo entre a forma de pastoral no campo católico, que tem muito a contribuir, aliás, teólogos católicos se debruçam e escrevem muito sobre este tema, teologia pastoral, onde um dos mais respeitados teólogos na área é Cassiano Floristán, teólogo católico espanhol, e o modo protestante de entender o pastor e suas tarefas/funções dentro da comunidade, visão aquém do que se pensa e escreve na academia sobre pastoral.
Na última postagem, impressões de um encontro, um resumo do que foi falado na Igreja Batista em Barra do Turvo/SP sobre posturas pastorais, recebi um comentário do Pr. Natanael Gabriel da Silva (pastor na Igreja Batista Central em Sorocaba/SP) que chamou a minha atenção. Seu texto diz: “tenho pensado que pastores e líderes de movimentos neopentecostais acreditam que o pastoreamento deve ser uma demonstração da sobrenaturalidade de Deus no mundo, outras comunidades, que têm uma preocupação social mais acentuada, observam tal pastoreamento como o atendimento a integralidade do ser humano em sua dinâmica social. No caso dos batistas, do conhecido evangelismo de fronteira, tem-se o pastoreamento quase exclusivamente sob a ótica conversionista, em relação ao "mundo", e sacerdotal (preservação do sistema) quando se refere à comunidade especificamente. Expressões de comando autoritário, como controle interpretativo dos textos, buscando o apoio dos originais, cuja língua é praticamente desconhecida pela comunidade, ou ainda assumindo a sobrenaturalidade na homilia, em que questioná-la é quase um sacrilégio, têm sido os recursos de controle comunitário mais utilizado, creio.”
Pr. Natanael tem uma contribuição ímpar à denominação e sua experiência como pastor batista e participante, até pouco tempo atrás, dos bastidores da denominação, o credencia a ler a fisionomia do pastor batista com perspicácia.
Gostaria apenas de ampliar suas colocações usando outros autores/teólogos sobre o tema. Por ora pensar na concepção pastoral a partir do neopentecostalismo, do catolicismo e do protestantismo, especificamente batista.
A partir das considerações de Antonio Gouvêa Mendonça e Leonildo Silveira Campos, os neopentecostais têm na figura do pastor o mágico. O elemento mágico é o mecanismo de trabalho do líder; a manipulação de fórmulas e crendices são indispensáveis para o fortalecimento do empreendimento neopentecostal. Mendonça chama de sindicato de mágicos quando seus líderes fazem uso de “água abençoada”, “rosa ungida”, “areia do deserto do Sinai”. Neste modo de ser pastor, a comunidade inexistem, os frequentadores são clientes a espera dos bens religiosos; a credibilidade do líder/pastor é dada pela confirmação sobrenatural da bênção de Deus, geralmente financeira.
No caso católico, a tarefa pastoral esta voltada para a integralidade da pessoa humana, independentemente se participa ou não da paróquia. Segundo João Batista Libânio, teólogo católico mineiro, a pastoral é o agir da Igreja no mundo, é o sinal do Reino de Deus na cidade, na sociedade. É a presença da graça de Deus, através da Igreja, na sociedade. Daí a preocupação com as diversas áreas da sociedade surgindo, portanto, as diversas pastorais como da terra, da criança, do encarcerado... É uma pastoral coerente com o Evangelho, sem dúvida.
Já no caso protestante batista de ser, segundo Israel Belo de Azevedo, o pastor batista é anticatólico; tem formação teológica fundamentalista; olha o mundo como alvo da evangelização com o intuito de “ganhar”. Não é uma pastoral de comprometimento com o contexto. A fisionomia do pastor batista é puritana, tem como princípio a santidade de homens como Spurgeon, Baxter, Moody e outros. O púlpito é o principal elemento de pastoreamento e a Igreja, refém do discurso, cabe a moralidade como chave hermenêutica de uma autêntica fé.
A tentativa hoje é procurar dialogar com os “sinais dos tempos” (para um aprofundamento, ler um artigo de minha autoria na revista eletrônica Protestantismo em Revista no link http://www.est.edu.br/periodicos/index.php/nepp/article/viewFile/5/11); fazer uma leitura coerente com os pressupostos da pós-modernidade sem perder os princípios norteadores e a identidade. O recurso da mágica não cabe no modelo pastoral protestante; resta-nos fazer um fraterno diálogo com teólogos que entendem o caminho pastoral a partir da comunidade e não apenas do indivíduo, o pastor. Uma pastoral que encare o Reino de Deus como tarefa imprescindível para a missão da Igreja.
Tenho pensado sobre a forma de ser pastor batista e seus desafios, até mesmo pensei em escrever alguma coisa neste sentido e procurar publicar numa dessas revistas eletrônicas, periódicos teológicos com a intenção de abrir um diálogo entre a forma de pastoral no campo católico, que tem muito a contribuir, aliás, teólogos católicos se debruçam e escrevem muito sobre este tema, teologia pastoral, onde um dos mais respeitados teólogos na área é Cassiano Floristán, teólogo católico espanhol, e o modo protestante de entender o pastor e suas tarefas/funções dentro da comunidade, visão aquém do que se pensa e escreve na academia sobre pastoral.
Na última postagem, impressões de um encontro, um resumo do que foi falado na Igreja Batista em Barra do Turvo/SP sobre posturas pastorais, recebi um comentário do Pr. Natanael Gabriel da Silva (pastor na Igreja Batista Central em Sorocaba/SP) que chamou a minha atenção. Seu texto diz: “tenho pensado que pastores e líderes de movimentos neopentecostais acreditam que o pastoreamento deve ser uma demonstração da sobrenaturalidade de Deus no mundo, outras comunidades, que têm uma preocupação social mais acentuada, observam tal pastoreamento como o atendimento a integralidade do ser humano em sua dinâmica social. No caso dos batistas, do conhecido evangelismo de fronteira, tem-se o pastoreamento quase exclusivamente sob a ótica conversionista, em relação ao "mundo", e sacerdotal (preservação do sistema) quando se refere à comunidade especificamente. Expressões de comando autoritário, como controle interpretativo dos textos, buscando o apoio dos originais, cuja língua é praticamente desconhecida pela comunidade, ou ainda assumindo a sobrenaturalidade na homilia, em que questioná-la é quase um sacrilégio, têm sido os recursos de controle comunitário mais utilizado, creio.”
Pr. Natanael tem uma contribuição ímpar à denominação e sua experiência como pastor batista e participante, até pouco tempo atrás, dos bastidores da denominação, o credencia a ler a fisionomia do pastor batista com perspicácia.
Gostaria apenas de ampliar suas colocações usando outros autores/teólogos sobre o tema. Por ora pensar na concepção pastoral a partir do neopentecostalismo, do catolicismo e do protestantismo, especificamente batista.
A partir das considerações de Antonio Gouvêa Mendonça e Leonildo Silveira Campos, os neopentecostais têm na figura do pastor o mágico. O elemento mágico é o mecanismo de trabalho do líder; a manipulação de fórmulas e crendices são indispensáveis para o fortalecimento do empreendimento neopentecostal. Mendonça chama de sindicato de mágicos quando seus líderes fazem uso de “água abençoada”, “rosa ungida”, “areia do deserto do Sinai”. Neste modo de ser pastor, a comunidade inexistem, os frequentadores são clientes a espera dos bens religiosos; a credibilidade do líder/pastor é dada pela confirmação sobrenatural da bênção de Deus, geralmente financeira.
No caso católico, a tarefa pastoral esta voltada para a integralidade da pessoa humana, independentemente se participa ou não da paróquia. Segundo João Batista Libânio, teólogo católico mineiro, a pastoral é o agir da Igreja no mundo, é o sinal do Reino de Deus na cidade, na sociedade. É a presença da graça de Deus, através da Igreja, na sociedade. Daí a preocupação com as diversas áreas da sociedade surgindo, portanto, as diversas pastorais como da terra, da criança, do encarcerado... É uma pastoral coerente com o Evangelho, sem dúvida.
Já no caso protestante batista de ser, segundo Israel Belo de Azevedo, o pastor batista é anticatólico; tem formação teológica fundamentalista; olha o mundo como alvo da evangelização com o intuito de “ganhar”. Não é uma pastoral de comprometimento com o contexto. A fisionomia do pastor batista é puritana, tem como princípio a santidade de homens como Spurgeon, Baxter, Moody e outros. O púlpito é o principal elemento de pastoreamento e a Igreja, refém do discurso, cabe a moralidade como chave hermenêutica de uma autêntica fé.
A tentativa hoje é procurar dialogar com os “sinais dos tempos” (para um aprofundamento, ler um artigo de minha autoria na revista eletrônica Protestantismo em Revista no link http://www.est.edu.br/periodicos/index.php/nepp/article/viewFile/5/11); fazer uma leitura coerente com os pressupostos da pós-modernidade sem perder os princípios norteadores e a identidade. O recurso da mágica não cabe no modelo pastoral protestante; resta-nos fazer um fraterno diálogo com teólogos que entendem o caminho pastoral a partir da comunidade e não apenas do indivíduo, o pastor. Uma pastoral que encare o Reino de Deus como tarefa imprescindível para a missão da Igreja.
30.4.10
IMPRESSÕES DE UM ENCONTRO
Palestra no Encontro de Pastores Batistas do Vale do Ribeira – Barra do Turvo/SP, 29/04/10
Na última quinta-feira do mês de abril tive o privilégio de falar aos pastores batistas que compõe a Ordem dos Pastores Batistas do Vale do Ribeira na cidade de Barra do Turvo/SP. Na ocasião falamos sobre posturas pastorais, os desafios da teologia pastoral para a Igreja. Momento de reflexão, comunhão, louvor, oração e muita, mas muita risada mesmo.
O objetivo, num primeiro momento, era apresentar o ministério pastoral não apenas na figura do pastor, o indivíduo chamado e vocacionado por Deus para a função pastoral. A ideia não era abordar aspectos psicológicos do pastor como o pastor pregador, conselheiro, administrador, conceitos amplamente difundidos em livros que falam apenas para o pastor. Portanto, a compreensão era levar os pastores ao entendimento de que funções pastorais, ou posturas pastorais, se dão com a Igreja e o pastor (indivíduo), mas não somente com o pastor.
Para situar a discussão, era preciso compreender alguns conceitos. No entendimento do imaginário protestante, e especificamente batista, pastor é o homem que Deus chama, escolhe para ser o porta-voz dele, como se só a ele coubesse essa função. Outra concepção do pastor batista, feita por Israel Belo de Azevedo, em que pastor batista tem na sua genética pelo menos quatro características: é anticatólico, não há diálogo e nem mesmo relacionamento fraterno, transformando o catolicismo em alvo missionário; formação teológica não para pensar teologia, mas para evangelizar, portanto, ele deve ser antes de qualquer coisa um evangelista e não um pastor; função centralizadora na Igreja, tudo passa pelo pastor, nada é feito sem o seu consentimento ou aval, daí a grande dificuldade de alguns pastores com a descentralização; teologia fundamentalista, herança dos EUA, onde a literatura teológica consumida é traduções e a leitura bíblica é literalista com uma hermenêutica pragmática e conservadora.
Diante desse quadro é preciso apontar caminhos para uma reflexão em longo prazo, e isso é salutar no entendimento dos pastores ali presentes. É necessário entender que teologia pastoral não diz respeito às funções do pastor enquanto obreiro da Igreja, mas é algo que ultrapassa isso. Teologia pastoral é a face das ações eclesiais da Igreja, a sua razão teológica de ser. Teologia pastoral engloba a clara concepção de missão e sua relação com o reino de Deus.
Os desafios são gigantescos quando comparados com a estrutura denominacional e a diversidade de ideias que há. Mas o que deve ficar como posturas pastorais coerentes com o atual contexto é que a Igreja não pode mais ser definida e reduzida há um grupo de pessoas que esperam apenas a “segunda volta de Cristo” cantando “sou peregrino aqui, em terra estranha estou”. Ela é a antecipação do futuro; sinal do reino de Deus. Ela deve assumir as suas responsabilidades enquanto agência e promotora do reino de Deus. Outra postura pastoral relevante é o descobrimento da mensagem do reino de Deus, tema esquecido nos púlpitos por conta da teologia sacrificialista de observar e enfatizar a morte expiatória de Cristo e não dar tanta importância para a sua vida pública, sua mensagem e ações como pastor (Mc 6,34). O reino de Deus é o real fundamento da teologia da igreja, pois à igreja é dada uma obrigatoriedade missionária, pois ela está ligada à sociedade e compartilha com ela os sofrimentos desta época, formulando esperança em Deus para as pessoas. Ela como sinal do reino de Deus é continuadora da práxis de Jesus. Com sua pastoral, Jesus não propôs uma nova religião, mas o reino de Deus, e como igreja, deve-se continuar levando avante o seu projeto! A ação pastoral de Jesus olhava para as pessoas e hoje, por influência da mídia, a visão pastoral olha para as estruturas, para a quantidade de membros, para a conta bancária ou o templo luxuoso. O pastor do reino de Deus olha para a práxis de Jesus que anunciava o reino de Deus (Lc 4,43). O pastor do reino de Deus não pastoreia apenas a sua comunidade da qual recebe o seu sustento, mas olha para a cidade, pois entende que a ação pastoral de Jesus não era apenas a sinagoga, mas as cidades (Lc 8,1). O reino de Deus é o senhorio e a difusão dos valores do reino como justiça, equidade, solidariedade, amor, paz, perdão, promoção da dignidade humana.
Para que essas posturas pastorais sejam de fato concretas, é necessária uma reforma na concepção de missão. Missão não pode ser confundida com as campanhas de missões, que são importantes. Missão não tem como objetivo a colonização, a cristianização a qualquer preço; não é expansão territorial. Missão é o envio dos discípulos de Jesus para continuar aquilo que ele mesmo começou, portanto, os objetivos da missão é o amor de Deus, a solidariedade, a compaixão, a promoção da vida humana, o diálogo com o outro não para “ganhá-lo”, uma linguagem de batalha e guerra, mas para testemunhar mesmo de Cristo, ser sinal do reino de Deus. Não dá mais para encarar a tarefa missionária como mero proselitismo, atividade praticada durante anos! A Igreja em missão do reino de Deus é sinal de esperança e trabalha a partir da perspectiva da Nova Jerusalém; a Igreja em missão possui uma leitura bíblica contemporânea que consegue ler o seu contexto com coerência e se fazer relevante.
Os depoimentos dos pastores foram abençoadores. Alguns confessaram os seus receios e temores outros colocaram as dificuldades de uma mudança de mentalidade. O que ficou foi a clara impressão de que estamos todos preocupados em pensar a nossa postura enquanto pastores e o desafio de ensinar, direcionar a Igreja para ações que contribuam para o reino de Deus.
Pr. Alonso Gonçalves
Na última quinta-feira do mês de abril tive o privilégio de falar aos pastores batistas que compõe a Ordem dos Pastores Batistas do Vale do Ribeira na cidade de Barra do Turvo/SP. Na ocasião falamos sobre posturas pastorais, os desafios da teologia pastoral para a Igreja. Momento de reflexão, comunhão, louvor, oração e muita, mas muita risada mesmo.
O objetivo, num primeiro momento, era apresentar o ministério pastoral não apenas na figura do pastor, o indivíduo chamado e vocacionado por Deus para a função pastoral. A ideia não era abordar aspectos psicológicos do pastor como o pastor pregador, conselheiro, administrador, conceitos amplamente difundidos em livros que falam apenas para o pastor. Portanto, a compreensão era levar os pastores ao entendimento de que funções pastorais, ou posturas pastorais, se dão com a Igreja e o pastor (indivíduo), mas não somente com o pastor.
Para situar a discussão, era preciso compreender alguns conceitos. No entendimento do imaginário protestante, e especificamente batista, pastor é o homem que Deus chama, escolhe para ser o porta-voz dele, como se só a ele coubesse essa função. Outra concepção do pastor batista, feita por Israel Belo de Azevedo, em que pastor batista tem na sua genética pelo menos quatro características: é anticatólico, não há diálogo e nem mesmo relacionamento fraterno, transformando o catolicismo em alvo missionário; formação teológica não para pensar teologia, mas para evangelizar, portanto, ele deve ser antes de qualquer coisa um evangelista e não um pastor; função centralizadora na Igreja, tudo passa pelo pastor, nada é feito sem o seu consentimento ou aval, daí a grande dificuldade de alguns pastores com a descentralização; teologia fundamentalista, herança dos EUA, onde a literatura teológica consumida é traduções e a leitura bíblica é literalista com uma hermenêutica pragmática e conservadora.
Diante desse quadro é preciso apontar caminhos para uma reflexão em longo prazo, e isso é salutar no entendimento dos pastores ali presentes. É necessário entender que teologia pastoral não diz respeito às funções do pastor enquanto obreiro da Igreja, mas é algo que ultrapassa isso. Teologia pastoral é a face das ações eclesiais da Igreja, a sua razão teológica de ser. Teologia pastoral engloba a clara concepção de missão e sua relação com o reino de Deus.
Os desafios são gigantescos quando comparados com a estrutura denominacional e a diversidade de ideias que há. Mas o que deve ficar como posturas pastorais coerentes com o atual contexto é que a Igreja não pode mais ser definida e reduzida há um grupo de pessoas que esperam apenas a “segunda volta de Cristo” cantando “sou peregrino aqui, em terra estranha estou”. Ela é a antecipação do futuro; sinal do reino de Deus. Ela deve assumir as suas responsabilidades enquanto agência e promotora do reino de Deus. Outra postura pastoral relevante é o descobrimento da mensagem do reino de Deus, tema esquecido nos púlpitos por conta da teologia sacrificialista de observar e enfatizar a morte expiatória de Cristo e não dar tanta importância para a sua vida pública, sua mensagem e ações como pastor (Mc 6,34). O reino de Deus é o real fundamento da teologia da igreja, pois à igreja é dada uma obrigatoriedade missionária, pois ela está ligada à sociedade e compartilha com ela os sofrimentos desta época, formulando esperança em Deus para as pessoas. Ela como sinal do reino de Deus é continuadora da práxis de Jesus. Com sua pastoral, Jesus não propôs uma nova religião, mas o reino de Deus, e como igreja, deve-se continuar levando avante o seu projeto! A ação pastoral de Jesus olhava para as pessoas e hoje, por influência da mídia, a visão pastoral olha para as estruturas, para a quantidade de membros, para a conta bancária ou o templo luxuoso. O pastor do reino de Deus olha para a práxis de Jesus que anunciava o reino de Deus (Lc 4,43). O pastor do reino de Deus não pastoreia apenas a sua comunidade da qual recebe o seu sustento, mas olha para a cidade, pois entende que a ação pastoral de Jesus não era apenas a sinagoga, mas as cidades (Lc 8,1). O reino de Deus é o senhorio e a difusão dos valores do reino como justiça, equidade, solidariedade, amor, paz, perdão, promoção da dignidade humana.
Para que essas posturas pastorais sejam de fato concretas, é necessária uma reforma na concepção de missão. Missão não pode ser confundida com as campanhas de missões, que são importantes. Missão não tem como objetivo a colonização, a cristianização a qualquer preço; não é expansão territorial. Missão é o envio dos discípulos de Jesus para continuar aquilo que ele mesmo começou, portanto, os objetivos da missão é o amor de Deus, a solidariedade, a compaixão, a promoção da vida humana, o diálogo com o outro não para “ganhá-lo”, uma linguagem de batalha e guerra, mas para testemunhar mesmo de Cristo, ser sinal do reino de Deus. Não dá mais para encarar a tarefa missionária como mero proselitismo, atividade praticada durante anos! A Igreja em missão do reino de Deus é sinal de esperança e trabalha a partir da perspectiva da Nova Jerusalém; a Igreja em missão possui uma leitura bíblica contemporânea que consegue ler o seu contexto com coerência e se fazer relevante.
Os depoimentos dos pastores foram abençoadores. Alguns confessaram os seus receios e temores outros colocaram as dificuldades de uma mudança de mentalidade. O que ficou foi a clara impressão de que estamos todos preocupados em pensar a nossa postura enquanto pastores e o desafio de ensinar, direcionar a Igreja para ações que contribuam para o reino de Deus.
Pr. Alonso Gonçalves
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