Na Memorial em Iporanga estamos trabalhando com alguns temas da fé: Deus, Jesus Cristo, Espírito Santo, Salvação, Pecado, Igreja etc. Com esta série de sermões, estou tentando mostrar outras dimensões desses temas que viraram tabu no protestantismo. No primeiro domingo de julho pregamos sobre Jesus Cristo. Embora com um discurso ameno e descompromissado com teorias teológicas elaboradas, procurei passar para a comunidade temas como Reino de Deus e o rosto humano de Deus revelado por Jesus de Nazaré, em contraponto com a teologia do sacrifício que perdura no nosso imaginário religioso. Com isso levantamos questões sobre a morte de Jesus: “o que o levou à morte?” A resposta comum entre os cristãos é de que Jesus veio para morrer em nosso lugar, e desde o início ele tinha isso em mente, sabendo, inclusive, que era o Filho de Deus. Dessa perspectiva saem os três temas que envolvem Jesus: o berço, a cruz e a pedra.
A teologia do sacrifício predomina na tradição protestante. A teologia da expiação é notória: Jesus Cristo morreu por nossos pecados; sua morte na cruz garantiu o nosso acesso a Deus e possibilitou a salvação para a humanidade. Daí a ênfase no sangue de Jesus que “me lavou” ou “salvos pelo sangue”. Imagens que estão presentes em nosso Cantor Cristão de forma até exagerada. Já com os católicos, a teologia do sacrifício é ainda pior, na Eucaristia come-se a carne e bebe-se do sangue, é a transubstanciação.
A exegese contemporânea, principalmente as pesquisas do teólogo alemão Rudolf Bultmann, mostraram a impossibilidade de determinar um rosto e uma missão única para Jesus. Isso se dá porque as comunidades interpretam Jesus de modo diferente, nenhuma delas trata do Nazareno de forma uníssona. Por estarem em diferentes lugares e possuírem uma teologia própria, as comunidades deram um rosto a Jesus totalmente comprometido com o seu contexto. A ressurreição é a chave hermenêutica das comunidades. É a partir dela que a cristologia da Igreja Primitiva irá se desenvolver. Por este fato a pluralidade de títulos cristológicos a Jesus: Senhor, Messias, Justo, Salvador e etc. Mas numa coisa as fontes evangélicas concordam: o tema da sua mensagem foi o Reino de Deus e o comprometimento da sua vida foi revelar o rosto humano de Deus.
Os evangelhos mostram que Jesus não começou pregando a si mesmo, muito menos dizendo que veio para morrer por nós na cruz, ele iniciou seu ministério pregando o Reino de Deus (Mc 1,14-15). A conversão era para o Reino de Deus que havia chegado. Reino de Deus é a realização de uma esperança; a superação do mal; é o senhorio de Deus sobre nossas vidas. É de Alfred Firmin Loisy a frase: “Jesus pregou o Reino e o que veio foi a Igreja”. A igreja não é o Reino de Deus, mas sim promotora; aquela que contribui para a continuação do Reino de Deus. Infelizmente a igreja esqueceu isso. Nos manuais de teologia sistemática não há nenhuma seção sobre o Reino; no nosso hinário o tema é escasso; no púlpito um tema quase abolido.
Conforme o evangelho, Jesus vai para cruz porque se opõe ao Deus da religião e àqueles que manipulavam o Sagrado de forma inconsequente (Mc 11,15-18). A cruz foi uma consequência da sua mensagem; a ressurreição foi a sua confirmação.
Como não formulamos uma teologia do Reino, colhemos a total ignorância da igreja para com os valores do Reino de Deus; desconsideramos a mensagem política e espiritual do Reino de Deus. Como resultado: uma conversão que nega o passado e o presente da pessoa; uma teologia fatalista de que o mundo vai piorar mesmo, e as coisas que acontecem é nada mais que os sinais dos tempos; uma fé que não se engaja com as questões do país, onde se demoniza o mundo e assimila-se a opressão e o descaso. É isso que colhemos como resultado de anos do predomínio da teologia do sacrifício. A igreja ainda não desceu Jesus da cruz.
Deslocar Jesus de seu contexto é ignorar o que motivou a sua vida, e com certeza a cruz não foi a sua máxima idealização, se assim o fosse a oração no jardim não teria sentido – “passe de mim esse cálice”. Fico com uma frase do teólogo salvadorenho Ignácio Ellacuria no seu livro “Conversión de la Iglesia al Reino de Dios”: o Jesus histórico não buscou nem a morte nem a ressurreição em si mesmas, mas o anúncio, até a morte, do Reino de Deus, que trouxe consigo a ressurreição.
Entre a cruz e o Reino fico com os dois: primeiro o Reino e como consequência a cruz; primeiro o Reino e como consequência a ressurreição.
"Escrever é construir, através do texto, um modelo específico de leitor" (Humberto Eco)
1.8.09
IGREJA E SOCIEDADE
Na Idade Média a igreja propagou sua supremacia nas diversas instâncias do pensamento: da ciência à arte. O predomínio do sagrado frente ao profano aprofundou ainda mais esta dicotomia, forçando a uma secularização que estava à vista. De fato ela veio com o advento do Iluminismo, movimento cultural-filosófico importante para o pensamento no Ocidente. Com os postulados do Iluminismo, veio a crítica à religião e suas formas de expressão, tornando esta uma esfera obsoleta para o progresso humano. As democracias surgem; a ciência toma o lugar de Deus; a liberdade individual é acentuada; a matéria é domada; o universo é desvendado; o mundo torna-se um meio para se alcançar um fim, onde a depredação ambiental é justificada pelo progresso científico. Frente a isso, a Revolução Industrial torna possível a luta de classes: ricos e pobres. Diante dessas mudanças, a teologia formula discursos que adéquam ou contestam esta forma de vida; a igreja é chamada a viabilizar maneiras de vivenciar a fé nesse universo pluralista.
O capitalismo, por enquanto, continua sendo a matriz econômica do Ocidente. Ele proporcionou a globalização; estabeleceu a mercadoria em detrimento ao humano; consolidou o mercado especulativo que não respeita governos, culturas ou povos; aprofundou a desigualdade entre as pessoas; favoreceu ainda mais os donos de capital.
Diante dessa analise macro do contexto, convém pensar nas posturas que as vertentes do cristianismo no Brasil tomaram/tomam para enfrentar este cenário. Vejo pelo menos quatro posturas: protestantismo histórico, pentecostais, neopentecostais e teologia da libertação.
No protestantismo a postura frente aos desafios da sociedade é de completa omissão. Isso se deve pelo fato de que o protestantismo dessacralizou o mundo, tornando-o utilitário, secular e passageiro. Espera-se pelo seu fim: a vida não pertence a este mundo, “somos peregrinos aqui” como ensina um hino do Cantor Cristão. Não poderia ser diferente, pois aqui o protestantismo de missão se caracterizou por afastar-se completamente da ação política. O foco foi centralizado no indivíduo: convertendo o indivíduo, convertem-se as estruturas. A intenção era formar cristãos autônomos e críticos, daí a ênfase protestante na educação secular. Parece que isso não funcionou, e hoje há uma grande apatia por parte do protestantismo em relação à vida política do país. É claro que houve esforços para se pensar o político no movimento evangélico, por exemplo, a Missão Integral, mas esta ainda sofre de auto-afirmação.
No universo pentecostal clássico, a maneira de encarar o problema é ainda mais inconsciente. Com uma liturgia carrega de emoção, contraponto ao protestantismo histórico que tem na voz/razão a sua razão de ser, os pentecostais fazem um discurso de entrega e gostam muito de usar aquele versículo de que o “mundo jaz do maligno”. Com isso esta patenteada a completa separação para com as circunstâncias sociais. Tem-se no culto o momento de catarse emocional; lugar de presenciar a glória de Deus, e diante da glória de Deus as desigualdades da vida são pequenas; a vida cristã é legitimada pela luta constante, pois é desta forma que o crente prova que esta com Deus. O corpo do indivíduo torna-se meio para aliviar o sofrimento do dia-a-dia, daí a oração por cura e o “falar em línguas”.
Com uma postura totalmente diferente do pentecostalismo clássico, os neopentecostais vêm se notabilizando pelo discurso de conquista e vitória financeira e física. Com o lema “o melhor desta terra é meu”, os neopentecostais fazem reuniões para empresários, fogueiras santas, campanhas financeiras. Com uma teologia de prosperidade, os neopentecostais assimilam o capitalismo e torna seus adeptos participantes desse queijo.
Com a teologia da libertação há um processo de conscientização do pobre e uma postura contestatória. Uma forma de denunciar e de reivindicar mais humanidade para com os pobres do continente. As pessoas não são demonizadas, mas sim as estruturas sociais.
A igreja é agência de transformação histórica (Robinson Cavalcanti). A ela é dado o poder profético frente às situações da vida. Como portadora do Reino de Deus, a igreja torna-se promotora da vida em suas diversas dimensões. Não é com posturas paliativas que será transformada esta realidade, mas com medidas concretas que tomem como centro o ser humano como imagem e semelhança de Deus.
Converter o indivíduo, não transforma um país; intimizar as mazelas da vida e compensá-las numa liturgia não resolvem o problema social; adequar-se ao discurso capitalista agrava mais ainda a vida daqueles que não possuem nada; conscientizar o pobre de seu estado já é um começo, municiá-lo de coragem e formas legitimas de lutar pela terra e pelo pão de cada dia é formar agentes transformadores de realidades.
O capitalismo, por enquanto, continua sendo a matriz econômica do Ocidente. Ele proporcionou a globalização; estabeleceu a mercadoria em detrimento ao humano; consolidou o mercado especulativo que não respeita governos, culturas ou povos; aprofundou a desigualdade entre as pessoas; favoreceu ainda mais os donos de capital.
Diante dessa analise macro do contexto, convém pensar nas posturas que as vertentes do cristianismo no Brasil tomaram/tomam para enfrentar este cenário. Vejo pelo menos quatro posturas: protestantismo histórico, pentecostais, neopentecostais e teologia da libertação.
No protestantismo a postura frente aos desafios da sociedade é de completa omissão. Isso se deve pelo fato de que o protestantismo dessacralizou o mundo, tornando-o utilitário, secular e passageiro. Espera-se pelo seu fim: a vida não pertence a este mundo, “somos peregrinos aqui” como ensina um hino do Cantor Cristão. Não poderia ser diferente, pois aqui o protestantismo de missão se caracterizou por afastar-se completamente da ação política. O foco foi centralizado no indivíduo: convertendo o indivíduo, convertem-se as estruturas. A intenção era formar cristãos autônomos e críticos, daí a ênfase protestante na educação secular. Parece que isso não funcionou, e hoje há uma grande apatia por parte do protestantismo em relação à vida política do país. É claro que houve esforços para se pensar o político no movimento evangélico, por exemplo, a Missão Integral, mas esta ainda sofre de auto-afirmação.
No universo pentecostal clássico, a maneira de encarar o problema é ainda mais inconsciente. Com uma liturgia carrega de emoção, contraponto ao protestantismo histórico que tem na voz/razão a sua razão de ser, os pentecostais fazem um discurso de entrega e gostam muito de usar aquele versículo de que o “mundo jaz do maligno”. Com isso esta patenteada a completa separação para com as circunstâncias sociais. Tem-se no culto o momento de catarse emocional; lugar de presenciar a glória de Deus, e diante da glória de Deus as desigualdades da vida são pequenas; a vida cristã é legitimada pela luta constante, pois é desta forma que o crente prova que esta com Deus. O corpo do indivíduo torna-se meio para aliviar o sofrimento do dia-a-dia, daí a oração por cura e o “falar em línguas”.
Com uma postura totalmente diferente do pentecostalismo clássico, os neopentecostais vêm se notabilizando pelo discurso de conquista e vitória financeira e física. Com o lema “o melhor desta terra é meu”, os neopentecostais fazem reuniões para empresários, fogueiras santas, campanhas financeiras. Com uma teologia de prosperidade, os neopentecostais assimilam o capitalismo e torna seus adeptos participantes desse queijo.
Com a teologia da libertação há um processo de conscientização do pobre e uma postura contestatória. Uma forma de denunciar e de reivindicar mais humanidade para com os pobres do continente. As pessoas não são demonizadas, mas sim as estruturas sociais.
A igreja é agência de transformação histórica (Robinson Cavalcanti). A ela é dado o poder profético frente às situações da vida. Como portadora do Reino de Deus, a igreja torna-se promotora da vida em suas diversas dimensões. Não é com posturas paliativas que será transformada esta realidade, mas com medidas concretas que tomem como centro o ser humano como imagem e semelhança de Deus.
Converter o indivíduo, não transforma um país; intimizar as mazelas da vida e compensá-las numa liturgia não resolvem o problema social; adequar-se ao discurso capitalista agrava mais ainda a vida daqueles que não possuem nada; conscientizar o pobre de seu estado já é um começo, municiá-lo de coragem e formas legitimas de lutar pela terra e pelo pão de cada dia é formar agentes transformadores de realidades.
21.7.09
IGREJA MUNDIAL DO PODER DE DEUS EM IPORANGA
Um empreendimento que não deu certo
A Igreja Mundial do Poder de Deus (IMPD) tem na Igreja Universal do Reino de Deus o seu embrião. Com um discurso milagreiro, a IMPD adota a estratégia da “cura divina" como meio de conquistar adeptos para o movimento. Com o slogan “a mão de Deus está aqui Brasil” o então “apóstolo” Valdemiro Santiago tem na TV o mecanismo ideal para alcançar o “Brasil” para o único lugar que Deus está, ou seja, na Igreja Mundial do Poder de Deus. Com isso, Valdemiro tem aberto em quase todos os lugares a sua agência de cura divina, sempre se valendo da magia e do culto a sua personalidade para atrair pessoas. Mas na cidade de Iporanga no Vale do Ribeira (região sul do Estado de São Paulo), a IMPD fechou suas portas no primeiro mês de funcionamento. Por que isso ocorreu? Seria por falta de pastor? Não. Seria por falta de frequentadores? Não. Sempre há pessoas impressionadas com o “sobrenatural”.
Iporanga. Cidade com cerca de cinco mil habitantes, situada na região mais pobre do Estado de São Paulo; índice IDH muito baixo; renda per capita por família não passa de duzentos reais na sua maioria; deslocada de um grande centro urbano; sua subsistência esta no turismo, funcionalismo público, agricultura familiar e repasses de verbas governamentais; uma das cidades que mais tem participantes nos programas sociais do governo federal como Bolsa Família; uma juventude envolvida com drogas e vida ociosa; um índice alarmante de gravidez precoce. Por que uma igreja que reivindica a “mão de Deus e seu poder” fecharia as suas portas numa cidade como essa?
A questão esta no empreendimento que não deu certo devido à clientela não ser adequada para os objetivos da empresa. É exatamente assim, com uma linguagem mercadológica que a IMPD deve ser encarada. Em Iporanga a IMPD fechou porque a sua maior preocupação esta em satisfazer as necessidades visíveis e imediatas das pessoas. Como a IMPD não tem uma mensagem em que Cristo é o agente transformador da condição humana, em Iporanga ela não daria certo mesmo. Uma igreja interessada no ganho financeiro também não atenderia os anseios desse povo, porque aqui a oferta/dízimo não esta baseada na barganha com Deus, mas na continuação do evangelho na cidade.
Aqui não cabe megaigrejas sensacionalistas que tem na TV seu elemento disseminador de bobagens e crendices ridículas. Não cabe aqui uma igreja que não preze pela comunhão com o irmão, pela ajuda as suas necessidades espirituais, físicas e financeiras. Fecha mesmo uma igreja que não tem compromisso ético-espiritual com as necessidades do município.
Parece que o “poder de Deus” não conseguiu penetrar na pequena, mas aconchegante, cidade de Iporanga, onde não há megaigrejas, mas Igreja que proclama Cristo autor da salvação e tem o culto como meio de adoração a Deus, somente a ele.
A Igreja Mundial do Poder de Deus (IMPD) tem na Igreja Universal do Reino de Deus o seu embrião. Com um discurso milagreiro, a IMPD adota a estratégia da “cura divina" como meio de conquistar adeptos para o movimento. Com o slogan “a mão de Deus está aqui Brasil” o então “apóstolo” Valdemiro Santiago tem na TV o mecanismo ideal para alcançar o “Brasil” para o único lugar que Deus está, ou seja, na Igreja Mundial do Poder de Deus. Com isso, Valdemiro tem aberto em quase todos os lugares a sua agência de cura divina, sempre se valendo da magia e do culto a sua personalidade para atrair pessoas. Mas na cidade de Iporanga no Vale do Ribeira (região sul do Estado de São Paulo), a IMPD fechou suas portas no primeiro mês de funcionamento. Por que isso ocorreu? Seria por falta de pastor? Não. Seria por falta de frequentadores? Não. Sempre há pessoas impressionadas com o “sobrenatural”.
Iporanga. Cidade com cerca de cinco mil habitantes, situada na região mais pobre do Estado de São Paulo; índice IDH muito baixo; renda per capita por família não passa de duzentos reais na sua maioria; deslocada de um grande centro urbano; sua subsistência esta no turismo, funcionalismo público, agricultura familiar e repasses de verbas governamentais; uma das cidades que mais tem participantes nos programas sociais do governo federal como Bolsa Família; uma juventude envolvida com drogas e vida ociosa; um índice alarmante de gravidez precoce. Por que uma igreja que reivindica a “mão de Deus e seu poder” fecharia as suas portas numa cidade como essa?
A questão esta no empreendimento que não deu certo devido à clientela não ser adequada para os objetivos da empresa. É exatamente assim, com uma linguagem mercadológica que a IMPD deve ser encarada. Em Iporanga a IMPD fechou porque a sua maior preocupação esta em satisfazer as necessidades visíveis e imediatas das pessoas. Como a IMPD não tem uma mensagem em que Cristo é o agente transformador da condição humana, em Iporanga ela não daria certo mesmo. Uma igreja interessada no ganho financeiro também não atenderia os anseios desse povo, porque aqui a oferta/dízimo não esta baseada na barganha com Deus, mas na continuação do evangelho na cidade.
Aqui não cabe megaigrejas sensacionalistas que tem na TV seu elemento disseminador de bobagens e crendices ridículas. Não cabe aqui uma igreja que não preze pela comunhão com o irmão, pela ajuda as suas necessidades espirituais, físicas e financeiras. Fecha mesmo uma igreja que não tem compromisso ético-espiritual com as necessidades do município.
Parece que o “poder de Deus” não conseguiu penetrar na pequena, mas aconchegante, cidade de Iporanga, onde não há megaigrejas, mas Igreja que proclama Cristo autor da salvação e tem o culto como meio de adoração a Deus, somente a ele.
16.7.09
ESPÍRITO E VIDA
O Espírito Santo em Jürgen Moltmann
Minhas leituras em J. Moltmann tem modelado minhas perspectivas teológicas nas diversas áreas: Deus, Jesus Cristo, Reino de Deus, Igreja, Ecologia e Espírito Santo. Dentro deste último tema, J. Moltmann desenvolveu uma teologia da vida que tem no Espírito Santo a razão de ser. Escreveu: O Espírito da vida: uma peneumatologia integral. Petrópolis: Vozes, 1999; outro texto menos elaborado teologicamente para alcançar o grande público, foi A fonte da vida: o Espírito Santo e a teologia da vida. São Paulo: Loyola, 2002, com alguns artigos inéditos. Com uma perspectiva ecumênica, J. Moltmann articula sua peneumatologia a partir de várias fontes teológicas. Além de utilizar fontes evangélicas, ele abre um profícuo diálogo com a Igreja Oriental e, principalmente, a mística judaica, além, de assumir alguns conceitos da filosofia da vida.
No nosso contexto, o tema Espírito Santo, sempre foi controverso. A teologia reformada não dispensou uma atenta atenção para o assunto, alguns manuais de sistemática nem se quer menciona a temática. Com a chegada dos pentecostais, as coisas ficaram ainda mais no campo da animosidade. Com um discurso carismático, os pentecostais alegavam/alegam vivenciar a plenitude do Espírito Santo e sua evidência era o “falar em línguas”, é claro que este não é o único critério de avaliação deste grupo religioso, mas o principal elemento identitário. O Espírito Santo foi o principal meio de divisão entre as denominações históricas, logo ele que é responsável pela unidade da igreja. No ambiente pentecostal a liturgia gira em torno do Espírito Santo, o culto é o espaço para a sua manifestação e veículo social amenizador de sofrimentos. Os protestantes históricos ainda relutam com o tema e qualquer manifestação que fuja da normalidade em sua liturgia é considerada estranha.
Com J. Moltmann há um novo paradigma para se pensar o Espírito Santo, não mais no campo das emoções (pentecostais) ou puramente doutrinário (protestantismo histórico), mas no processo da vida política, social e ecológica. O próprio J. Moltmann crítica a completa ausência do movimento pentecostal com as questões que envolvem a todos como a política e a ecologia. Ele não concebe um Espírito outorgado fugindo dos conflitos do mundo e se encasulando numa religião ilusória.
O Espírito da Vida tem como missão promover a vida. Foi por este motivo que Deus nos enviou o seu Espírito, para promover e preservar a vida. Dentro desta perspectiva, a missão não é a expansão da fé cristã a partir do proselitismo, mas a paixão pelo Reino de Deus. O Espírito Santo envolve a vida e sua renovação. J. Moltmann faz questão de ficar com o termo hebraico para espírito, ruah, que quer dizer fôlego da vida de Deus. Daí a sua concepção de que o Espírito Santo não pode ficar enclausurado na economia da salvação, mas também numa economia ecológica da salvação. A sua peneumatologia parte de que a criação é obra de Deus e que, portanto, deve-se entender o Espírito Santo no mundo criado, portanto, é legítimo dizer que J. Moltmann tem uma peneumatologia ecológica. A vida é amada por Deus e o seu Espírito está em toda a sua criação, sendo assim a igreja deve engajar-se em promover a vida. Para J. Moltmann, o Espírito Santo não esta limitado à igreja e seu horário de culto, ele pertence ao mundo, e na teologia latino-americana, a igreja torna-se sinal da ação salvífica do Espírito Santo no mundo.
Minhas leituras em J. Moltmann tem modelado minhas perspectivas teológicas nas diversas áreas: Deus, Jesus Cristo, Reino de Deus, Igreja, Ecologia e Espírito Santo. Dentro deste último tema, J. Moltmann desenvolveu uma teologia da vida que tem no Espírito Santo a razão de ser. Escreveu: O Espírito da vida: uma peneumatologia integral. Petrópolis: Vozes, 1999; outro texto menos elaborado teologicamente para alcançar o grande público, foi A fonte da vida: o Espírito Santo e a teologia da vida. São Paulo: Loyola, 2002, com alguns artigos inéditos. Com uma perspectiva ecumênica, J. Moltmann articula sua peneumatologia a partir de várias fontes teológicas. Além de utilizar fontes evangélicas, ele abre um profícuo diálogo com a Igreja Oriental e, principalmente, a mística judaica, além, de assumir alguns conceitos da filosofia da vida.
No nosso contexto, o tema Espírito Santo, sempre foi controverso. A teologia reformada não dispensou uma atenta atenção para o assunto, alguns manuais de sistemática nem se quer menciona a temática. Com a chegada dos pentecostais, as coisas ficaram ainda mais no campo da animosidade. Com um discurso carismático, os pentecostais alegavam/alegam vivenciar a plenitude do Espírito Santo e sua evidência era o “falar em línguas”, é claro que este não é o único critério de avaliação deste grupo religioso, mas o principal elemento identitário. O Espírito Santo foi o principal meio de divisão entre as denominações históricas, logo ele que é responsável pela unidade da igreja. No ambiente pentecostal a liturgia gira em torno do Espírito Santo, o culto é o espaço para a sua manifestação e veículo social amenizador de sofrimentos. Os protestantes históricos ainda relutam com o tema e qualquer manifestação que fuja da normalidade em sua liturgia é considerada estranha.
Com J. Moltmann há um novo paradigma para se pensar o Espírito Santo, não mais no campo das emoções (pentecostais) ou puramente doutrinário (protestantismo histórico), mas no processo da vida política, social e ecológica. O próprio J. Moltmann crítica a completa ausência do movimento pentecostal com as questões que envolvem a todos como a política e a ecologia. Ele não concebe um Espírito outorgado fugindo dos conflitos do mundo e se encasulando numa religião ilusória.
O Espírito da Vida tem como missão promover a vida. Foi por este motivo que Deus nos enviou o seu Espírito, para promover e preservar a vida. Dentro desta perspectiva, a missão não é a expansão da fé cristã a partir do proselitismo, mas a paixão pelo Reino de Deus. O Espírito Santo envolve a vida e sua renovação. J. Moltmann faz questão de ficar com o termo hebraico para espírito, ruah, que quer dizer fôlego da vida de Deus. Daí a sua concepção de que o Espírito Santo não pode ficar enclausurado na economia da salvação, mas também numa economia ecológica da salvação. A sua peneumatologia parte de que a criação é obra de Deus e que, portanto, deve-se entender o Espírito Santo no mundo criado, portanto, é legítimo dizer que J. Moltmann tem uma peneumatologia ecológica. A vida é amada por Deus e o seu Espírito está em toda a sua criação, sendo assim a igreja deve engajar-se em promover a vida. Para J. Moltmann, o Espírito Santo não esta limitado à igreja e seu horário de culto, ele pertence ao mundo, e na teologia latino-americana, a igreja torna-se sinal da ação salvífica do Espírito Santo no mundo.
1.7.09
TEOLOGIA DA PROSPERIDADE OU MISSÃO INTEGRAL: UMA BREVE COMPARAÇÃO
As duas correntes teológicas não têm nada a ver uma com a outra. A primeira “pegou” e a outra nem se quer chegou a sair do berçário.
Interessante pontuar algumas diferenças entre essas duas correntes. A teologia da prosperidade é notória no meio neopentecostal. O discurso vitorioso, a confissão positiva, a bênção mediante barganhas, a fé para ser vitorioso na vida financeira e física etc., não vale muito a pena alongar esta lista. Como não sou sociólogo da religião, mas curioso, arrisco-me em apontar, ainda que dentro de um olhar leigo sobre o tema, algumas pistas do porquê teologia da prosperidade e não missão integral.
Pesquisadores do tema, teologia da prosperidade, vão colocar seu surgimento nos Estados Unidos, e seu principal expoente, Kenneth Hagin entre outros. De lá saíram várias aberrações teológicas como Benny Hinn e diversos modismos apareceram com clara intenção de exportação. Como toda teologia é fruto de uma cultura, a teologia da prosperidade não poderia ser diferente. A potência responsável pela estabilização econômica do mundo, e por meio das armas e ideologia pressionar nações, há muito tempo se comporta como a “polícia do mundo” e conseguiu por meio de sua moeda e filmes impregnar o Ocidente com a sua cultura e modo operacional econômico. Pragmáticos, donos da verdade absoluta, fundamentalistas em quase todos os assuntos, os Estados Unidos passa uma imagem de opulência financeira e defensores do capitalismo selvagem neoliberal. Não é por acaso que a crise econômica mundial teve sua origem lá. Diante desse quadro, só poderia mesmo vir de lá a teologia da prosperidade.
No Brasil a febre pega lá pelos anos 70. Com a igreja brasileira sofrendo profundas mudanças, os líderes pentecostais importam o produto; assimila a sociedade de consumo; adéqua a mensagem ao mercado empresarial e formula um discurso triunfalista, repleto de prescrições como andar no sal grosso, passar pela “porta”, a campanha dos 318 pastores etc. Seus partidários são: R. R. Soares, Edir Macedo, Valnice Milhomens entre outros.
Os evangélicos dão ao mundo uma postura diante das mudanças que estavam acontecendo: o Congresso Mundial de Evangelização em Lausanne, 1974, que deu origem ao Pacto de Lausanne, cujo relator foi John Stott, eminente teólogo inglês. Combustível para o que seria a missão integral no continente latino-americano, teólogos como Orlando Costas, Samuel Escobar e René Padilla, formularam uma teologia holística para as necessidades do continente. É claro que missão integral sofreu diversas acusações quando equiparada com a teologia da libertação – ela seria uma adaptação evangélica da teologia da libertação e que por isso não teve impulso o suficiente para sair do berço. De fato ela não teve bases para se desenrolar, ou seja, ela não teve povo para digeri-la. Missão integral ficou nos livros, que por sinal são bons do ponto de vista metodológico e teológico, nos congressos, nas revistas. Com a teologia da libertação, da qual sou um partidário convicto, foi diferente, esta teve povo, as chamadas Comunidades Eclesiais de Base. Com as reuniões do CELAM em Medellín e Puebla, ela ganhou força mesmo sendo bombardeada pela Santa Sé e sua Congregação para a Doutrina da Fé. Com um discurso teológico impregnado pela práxis libertadora, a teologia da libertação ganhou proporções mundiais. As semelhanças com a missão integral são claras: o que fazer diante do avanço do capitalismo neoliberal desumano? René Padilla, já em Lausanne, fez duras críticas ao imperialismo norte-americano, propondo, entre outras coisas, a rejeição do cristianismo com o famoso slogan norte-americano: “american way of life” (maneira americana de vida).
Missão integral: Reino de Deus e seus valores holísticos; uma comunidade que alimente o espírito coletivo de mudanças concretas; uma mensagem que seja “o evangelho todo, para o homem todo”; uma evangelização que tenha na sua agenda não apenas assistencialismo social, mas postura profética e comprometida em mudar realidades.
Teologia da prosperidade: sofrimento é coisa do diabo; a fé serve para conquistar bênçãos; todo o crente deve reivindicar prosperidade, a ausência dela significa falta de fé; a enfermidade é sinal de pecado; o mundo e tudo que nele há esta aí para ser conquistado.
Não dá nem para comparar.
Interessante pontuar algumas diferenças entre essas duas correntes. A teologia da prosperidade é notória no meio neopentecostal. O discurso vitorioso, a confissão positiva, a bênção mediante barganhas, a fé para ser vitorioso na vida financeira e física etc., não vale muito a pena alongar esta lista. Como não sou sociólogo da religião, mas curioso, arrisco-me em apontar, ainda que dentro de um olhar leigo sobre o tema, algumas pistas do porquê teologia da prosperidade e não missão integral.
Pesquisadores do tema, teologia da prosperidade, vão colocar seu surgimento nos Estados Unidos, e seu principal expoente, Kenneth Hagin entre outros. De lá saíram várias aberrações teológicas como Benny Hinn e diversos modismos apareceram com clara intenção de exportação. Como toda teologia é fruto de uma cultura, a teologia da prosperidade não poderia ser diferente. A potência responsável pela estabilização econômica do mundo, e por meio das armas e ideologia pressionar nações, há muito tempo se comporta como a “polícia do mundo” e conseguiu por meio de sua moeda e filmes impregnar o Ocidente com a sua cultura e modo operacional econômico. Pragmáticos, donos da verdade absoluta, fundamentalistas em quase todos os assuntos, os Estados Unidos passa uma imagem de opulência financeira e defensores do capitalismo selvagem neoliberal. Não é por acaso que a crise econômica mundial teve sua origem lá. Diante desse quadro, só poderia mesmo vir de lá a teologia da prosperidade.
No Brasil a febre pega lá pelos anos 70. Com a igreja brasileira sofrendo profundas mudanças, os líderes pentecostais importam o produto; assimila a sociedade de consumo; adéqua a mensagem ao mercado empresarial e formula um discurso triunfalista, repleto de prescrições como andar no sal grosso, passar pela “porta”, a campanha dos 318 pastores etc. Seus partidários são: R. R. Soares, Edir Macedo, Valnice Milhomens entre outros.
Os evangélicos dão ao mundo uma postura diante das mudanças que estavam acontecendo: o Congresso Mundial de Evangelização em Lausanne, 1974, que deu origem ao Pacto de Lausanne, cujo relator foi John Stott, eminente teólogo inglês. Combustível para o que seria a missão integral no continente latino-americano, teólogos como Orlando Costas, Samuel Escobar e René Padilla, formularam uma teologia holística para as necessidades do continente. É claro que missão integral sofreu diversas acusações quando equiparada com a teologia da libertação – ela seria uma adaptação evangélica da teologia da libertação e que por isso não teve impulso o suficiente para sair do berço. De fato ela não teve bases para se desenrolar, ou seja, ela não teve povo para digeri-la. Missão integral ficou nos livros, que por sinal são bons do ponto de vista metodológico e teológico, nos congressos, nas revistas. Com a teologia da libertação, da qual sou um partidário convicto, foi diferente, esta teve povo, as chamadas Comunidades Eclesiais de Base. Com as reuniões do CELAM em Medellín e Puebla, ela ganhou força mesmo sendo bombardeada pela Santa Sé e sua Congregação para a Doutrina da Fé. Com um discurso teológico impregnado pela práxis libertadora, a teologia da libertação ganhou proporções mundiais. As semelhanças com a missão integral são claras: o que fazer diante do avanço do capitalismo neoliberal desumano? René Padilla, já em Lausanne, fez duras críticas ao imperialismo norte-americano, propondo, entre outras coisas, a rejeição do cristianismo com o famoso slogan norte-americano: “american way of life” (maneira americana de vida).
Missão integral: Reino de Deus e seus valores holísticos; uma comunidade que alimente o espírito coletivo de mudanças concretas; uma mensagem que seja “o evangelho todo, para o homem todo”; uma evangelização que tenha na sua agenda não apenas assistencialismo social, mas postura profética e comprometida em mudar realidades.
Teologia da prosperidade: sofrimento é coisa do diabo; a fé serve para conquistar bênçãos; todo o crente deve reivindicar prosperidade, a ausência dela significa falta de fé; a enfermidade é sinal de pecado; o mundo e tudo que nele há esta aí para ser conquistado.
Não dá nem para comparar.
30.6.09
UM NOVO PARADIGMA NA AÇÃO MISSIONÁRIA
Leituras em Jürgen Moltmann
A contribuição de J. Moltmann para a teologia do século XXI é inestimável. Com uma profunda reflexão contemporânea, Moltmann busca um diálogo com a modernidade na tentativa de propor novos rumos para pensar Deus, Cristo, a Igreja e o mundo. Escritor profícuo e competente, ele vem contribuindo para um pensar teológico que leve em consideração o mundo e suas mudanças de paradigmas.
Com a constatação de que as relações humanas foram influenciadas pela Revolução Industrial, e como consequência o surgimento da sociedade de consumo; a subjetividade e a autonomia do indivíduo como fruto do Iluminismo; a emancipação das tradições religiosas; as descobertas científicas e o avanço tecnológico; a quebra de paradigmas até então absolutos na história. Com esses fatores, tornou-se imprescindível ao cristianismo abrir um diálogo com a pós-modernidade. E uma dessas vertentes, com certeza, é a questão missionária. Como evangelizar numa sociedade pluralista tanto econômica, cultural e religiosa?
Uma coisa que não se pode negar nesta conjuntura, é que há uma necessidade em aceitar que a sociedade que está aí é desta forma e não de outra. Não dá mais para ficar pensando no que nós gostaríamos que ela fosse ou adotar uma postura conformista do “é assim mesmo, as coisas mudaram”. É possível assumir um novo paradigma para uma prática missionária que leve em consideração o nosso tempo, e para isso J. Moltmann contribui.
Em vez de proselitismo, o Reino de Deus: não é mais possível o proselitismo como forma missionária. A tática do céu-inferno não cola mais, ou pelo menos há um grande percentual de pessoas que não acreditam mais nisso. Alguns mitos já foram superados na sociedade dos celulares. Pesquisa realizada pelo instituto Vox Populi alguns anos atrás, mostrou que 83% dos entrevistados acreditavam que iriam para o Paraíso depois da morte. A velha maneira de evangelizar que tomava como ponto de partida a igreja da reta-doutrina já não funciona mais. Se fosse o contrário as igrejas neopentecostais não teriam tantos adeptos procurando algo neste mercado financeiro que cresce a cada dia. O foco precisa ser (continuar sendo) o Reino de Deus. A missão da igreja é ser fermento do Reino de Deus. A ela é dada as promessas do Reino; como protagonista disso, cabe a ela os sinais históricos e concretos do Reino na sociedade, levar adiante a esperança utópica do Reino de Deus e suas consequências espirituais e sociais. A igreja tem a missão de proclamar o Reino de Deus; a ela cabe despertar no mundo um sentimento apaixonado pelo Reino a fim de transformá-lo. Isso será possível, porque para J. Moltmann a tarefa de antecipar e participar do futuro do mundo é da igreja.
Não existe missão sem a mensagem do Reino de Deus. Os seus valores e seu projeto de uma sociedade regida pelo amor, o perdão, a justiça e a doação como forma de convivência precisa estar na agenda da igreja. Foi o que a igreja neotestamentária procurou realizar quando quebrou as fronteiras entre ricos e pobres, judeus e gentios, homem e mulher.
A contribuição de J. Moltmann para a teologia do século XXI é inestimável. Com uma profunda reflexão contemporânea, Moltmann busca um diálogo com a modernidade na tentativa de propor novos rumos para pensar Deus, Cristo, a Igreja e o mundo. Escritor profícuo e competente, ele vem contribuindo para um pensar teológico que leve em consideração o mundo e suas mudanças de paradigmas.
Com a constatação de que as relações humanas foram influenciadas pela Revolução Industrial, e como consequência o surgimento da sociedade de consumo; a subjetividade e a autonomia do indivíduo como fruto do Iluminismo; a emancipação das tradições religiosas; as descobertas científicas e o avanço tecnológico; a quebra de paradigmas até então absolutos na história. Com esses fatores, tornou-se imprescindível ao cristianismo abrir um diálogo com a pós-modernidade. E uma dessas vertentes, com certeza, é a questão missionária. Como evangelizar numa sociedade pluralista tanto econômica, cultural e religiosa?
Uma coisa que não se pode negar nesta conjuntura, é que há uma necessidade em aceitar que a sociedade que está aí é desta forma e não de outra. Não dá mais para ficar pensando no que nós gostaríamos que ela fosse ou adotar uma postura conformista do “é assim mesmo, as coisas mudaram”. É possível assumir um novo paradigma para uma prática missionária que leve em consideração o nosso tempo, e para isso J. Moltmann contribui.
Em vez de proselitismo, o Reino de Deus: não é mais possível o proselitismo como forma missionária. A tática do céu-inferno não cola mais, ou pelo menos há um grande percentual de pessoas que não acreditam mais nisso. Alguns mitos já foram superados na sociedade dos celulares. Pesquisa realizada pelo instituto Vox Populi alguns anos atrás, mostrou que 83% dos entrevistados acreditavam que iriam para o Paraíso depois da morte. A velha maneira de evangelizar que tomava como ponto de partida a igreja da reta-doutrina já não funciona mais. Se fosse o contrário as igrejas neopentecostais não teriam tantos adeptos procurando algo neste mercado financeiro que cresce a cada dia. O foco precisa ser (continuar sendo) o Reino de Deus. A missão da igreja é ser fermento do Reino de Deus. A ela é dada as promessas do Reino; como protagonista disso, cabe a ela os sinais históricos e concretos do Reino na sociedade, levar adiante a esperança utópica do Reino de Deus e suas consequências espirituais e sociais. A igreja tem a missão de proclamar o Reino de Deus; a ela cabe despertar no mundo um sentimento apaixonado pelo Reino a fim de transformá-lo. Isso será possível, porque para J. Moltmann a tarefa de antecipar e participar do futuro do mundo é da igreja.
Não existe missão sem a mensagem do Reino de Deus. Os seus valores e seu projeto de uma sociedade regida pelo amor, o perdão, a justiça e a doação como forma de convivência precisa estar na agenda da igreja. Foi o que a igreja neotestamentária procurou realizar quando quebrou as fronteiras entre ricos e pobres, judeus e gentios, homem e mulher.
13.6.09
ERA POSSÍVEL UM MILAGRE?
A discussão teológico-filosófica sobre a relação Deus-mundo é ampla. Há algumas ideias clássicas sobre este tema como a doutrina da providência: o mundo e a humanidade não são governados por acaso ou pelo destino, mas por Deus, que dirige a história e a criação em direção a um objetivo supremo. Os pressupostos apontados pela doutrina da providência parecem não convencer a mentalidade pós-moderna de que Deus esta dirigindo a história e a criação, pelo contrário, o que se vê é um homem cada vez mais interessado em conhecer o universo e suas leis para dominar e explorar; um planeta em constante ameaça pelos poluentes produzidos pela ganância humana; uma história construída em meio a guerras e tragédias que poderiam ser evitadas se os homens vivessem em harmonia. Outra questão é: se Deus dirige a história ele esta sendo conivente com tudo isso?
Com isso gostaria de refletir sobre a mais recente tragédia humana: o voo AF 447 Rio-Paris da Air France. Até então não tinha nenhuma intenção de escrever sobre o assunto. Os depoimentos colhidos dos parentes e amigos daquelas pessoas, por si só já era sofrimento demais. Mas aí, como de costume nessas ocasiões, aparecem àqueles programas sensacionalistas querendo a qualquer custo ter audiência, buscando pessoas que poderiam estar no voo e por algum motivo não entraram naquele avião. Esta semana que passou, um programa de TV entrevistou um rapaz que no último minuto foi impedido de embarcar porque o avião já estava taxiando. Estavam no programa mais dois convidados: um astrólogo e um teólogo da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Eles tentavam entender porque o jovem não morreu com todos os outros. Para encurtar aquelas bobagens, que nem mesmo tive paciência de acompanhar até o fim, o professor universitário afirmou que o jovem não entrou no voo porque ele precisava acertar alguma coisa em sua vida, por isso Deus o poupou. Simplesmente um absurdo. Uma postura recheada de conceitos calvinistas.
Para quem acredita em milagres, esse caso foi um deles. Mas, que Deus seria esse que poupou apenas uns e não mais de 200 pessoas? Se pudesse impedir, para quem entende que Deus permite tudo e se permite pode impedir, por que não segurou a aeronave no ar?
São vários os atalhos que tentam esquivar o homem do controle da história. O fato é que ao homem cabe a construção da história em liberdade e juízo, e que, portanto, cabem também as consequências de seus feitos e atos. Um mundo dirigido por milagres é inconsistente. Se o mundo fosse regido por milagres não haveria a necessidade da ordem natural das coisas e os efeitos que emanam da criação e sua complexa leis invioláveis. Se fosse possível um Deus atuando no mundo por meio de milagres, as grandes catástrofes naturais, as tragédias, a dor humana não seria mais possível, pois se Deus pode impedir que uma pessoa não entre no voo da morte pode também impedir que uma onda gigante não mate dezenas de milhares de pessoas! Por isso a impossibilidade de milagres, porque eles seriam contínuos a todo o momento e Deus estaria remendando a imperfeição do mundo com suas vicissitudes.
Com este texto não se pretende ser insensível com a dor humana ou muito menos negar o poder de Deus. O que se propõe é uma reflexão que indague se é possível uma predileção de Deus para alguns e outros não e ainda mais, essa predileção ser justificada como um milagre.
Deus não é o regente do mundo que a tudo manipula para se revelar; é entregue às criaturas a construção de sua história, Deus, tendo poder, leva muito a sério isso porque age com respeitosa resignação e aceitação consequente dos atos humanos.
A fé me sentencia a ver um Deus que não abandona na escura noite; um Deus de amor infinito que nunca quis o mal para seus filhos; um Deus que se coloca ao nosso lado nos momentos de dor, ajudando a suportá-la, dando alento e completando o coração com esperança.
Com isso gostaria de refletir sobre a mais recente tragédia humana: o voo AF 447 Rio-Paris da Air France. Até então não tinha nenhuma intenção de escrever sobre o assunto. Os depoimentos colhidos dos parentes e amigos daquelas pessoas, por si só já era sofrimento demais. Mas aí, como de costume nessas ocasiões, aparecem àqueles programas sensacionalistas querendo a qualquer custo ter audiência, buscando pessoas que poderiam estar no voo e por algum motivo não entraram naquele avião. Esta semana que passou, um programa de TV entrevistou um rapaz que no último minuto foi impedido de embarcar porque o avião já estava taxiando. Estavam no programa mais dois convidados: um astrólogo e um teólogo da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Eles tentavam entender porque o jovem não morreu com todos os outros. Para encurtar aquelas bobagens, que nem mesmo tive paciência de acompanhar até o fim, o professor universitário afirmou que o jovem não entrou no voo porque ele precisava acertar alguma coisa em sua vida, por isso Deus o poupou. Simplesmente um absurdo. Uma postura recheada de conceitos calvinistas.
Para quem acredita em milagres, esse caso foi um deles. Mas, que Deus seria esse que poupou apenas uns e não mais de 200 pessoas? Se pudesse impedir, para quem entende que Deus permite tudo e se permite pode impedir, por que não segurou a aeronave no ar?
São vários os atalhos que tentam esquivar o homem do controle da história. O fato é que ao homem cabe a construção da história em liberdade e juízo, e que, portanto, cabem também as consequências de seus feitos e atos. Um mundo dirigido por milagres é inconsistente. Se o mundo fosse regido por milagres não haveria a necessidade da ordem natural das coisas e os efeitos que emanam da criação e sua complexa leis invioláveis. Se fosse possível um Deus atuando no mundo por meio de milagres, as grandes catástrofes naturais, as tragédias, a dor humana não seria mais possível, pois se Deus pode impedir que uma pessoa não entre no voo da morte pode também impedir que uma onda gigante não mate dezenas de milhares de pessoas! Por isso a impossibilidade de milagres, porque eles seriam contínuos a todo o momento e Deus estaria remendando a imperfeição do mundo com suas vicissitudes.
Com este texto não se pretende ser insensível com a dor humana ou muito menos negar o poder de Deus. O que se propõe é uma reflexão que indague se é possível uma predileção de Deus para alguns e outros não e ainda mais, essa predileção ser justificada como um milagre.
Deus não é o regente do mundo que a tudo manipula para se revelar; é entregue às criaturas a construção de sua história, Deus, tendo poder, leva muito a sério isso porque age com respeitosa resignação e aceitação consequente dos atos humanos.
A fé me sentencia a ver um Deus que não abandona na escura noite; um Deus de amor infinito que nunca quis o mal para seus filhos; um Deus que se coloca ao nosso lado nos momentos de dor, ajudando a suportá-la, dando alento e completando o coração com esperança.
Assinar:
Postagens (Atom)