24.7.18

“OLHO POR OLHO, DENTE POR DENTE”

As eleições de 2018 já despontam como uma das mais críticas, em virtude do atual momento político, econômico, jurídico e social do país. Entre as candidaturas para assumir o Planalto, a mais emblemática é a do deputado federal Jair Bolsonaro (PSL-Rio). O deputado, ganhou notoriedade nas redes sociais, tendo inúmeros seguidores, ajudado, obviamente, pelos famosos “robozinhos” que habitam o espaço digital. Além disso, o candidato ganhou um certo destaque pelo seu tom jocoso ao tratar de assuntos delicados como feminicídio e homossexualidade. Somando a isso, o candidato vem colecionando declarações polêmicas, com o seu habitual destempero em entrevistas quando questionado com mais contundência.

Até o momento, o candidato do PSL não apresentou um plano de governo, até porque, segundo ele, ninguém ainda tem plano de governo. Mesmo assim, a sua principal agenda segue sendo o acesso às armas; a demarcação de terras para indígenas e quilombolas; a diminuição do Estado e da máquina pública, logo ele que tem todos os seus filhos na esfera político-partidária fazendo carreira, assim como o próprio que já está há vinte e oito (28) anos ininterruptos como Deputado Federal.

Com um português sofrível e jargões do universo militar, o deputado que pretende ser presidente do maior país da América Latina e da quinta economia do mundo, não consegue desenvolver uma argumentação lógica, coerente e plausível. O seu maior receio, declarado, é enfrentar um debate aberto com os demais candidatos à presidência.

Mesmo com o despreparo latente e a desqualificação visível para ser um presidente da República, o candidato segue sendo uma opção para uma porcentagem da população.

Ocorre que a sua principal plataforma política tem sido o “ódio”. Em uma questão o candidato e sua assessoria tem acertado: o ódio é uma arma poderosa em tempos de crise institucional. Depois dos crescentes escândalos envolvendo partidos políticos e grandes empresários, o candidato apareceu como um catalisador de frustrações, mas também de protestos de uma parte do eleitorado brasileiro. Assim, as suas colocações não causam nenhum espanto para quem já decidiu dar a ele o voto no primeiro turno.

A proposta do ódio e da vingança (toma lá dá cá), tem ganhado as redes sociais e a figura do “homem” violento tem sido personificada nessa figura boçal. À quem quer vê-lo presidente, porque só assim terá uma chance de colocar uma arma de fogo na cintura, por entender que dessa forma terá oportunidade de se defender da criminalidade, mas isso só será possível para o “cidadão de bem”.  Como lembra o historiador Leandro Karnal, “Somos um país violento. Violentos ao dirigir, violentos nas ruas, violentos nos comentários e nas fofocas, violentos ao torcer por nosso time, violentos ao votar. Como pensar é árduo, odiar é mais fácil”. Se o país já está tão polarizado e as discussões estão cada vez mais permeadas pela violência, não havendo, nem mesmo, em alguns casos, uma base mínima civilizatória de diálogo, um presidente como esse não aprofundaria ainda mais esse fosso?

Recentemente o candidato, com uma criança nos braços, a ensinou fazer o “sinal” de uma arma, algo já recorrente. Ainda que houve inúmeras reações contrárias ao ocorrido, assessores do deputado, quando questionados sobre o fato de estar ensinado uma criança de quatro anos a imitar uma arma com os dedos, disse que poderia ser interpretado como um “gesto cristão” de bravura.

Infelizmente, há cristãos que apoiam o candidato e fazem “vistas grossas” com um fato como esse, julgando se tratar de uma “montagem” quando os principais jornais do país noticiaram o ocorrido.

Ao que parece, esses cristãos estão embarcando na lei do talião, o tal “olho por olho, dente por dente”. Algo típico da herança fundamentalista no país. Nem mesmo uma criança escapa da propaganda gratuita da violência. Logo as crianças que são as preferidas por Jesus. O Nazareno as colocou no colo e disse que o Reino de Deus pertence àqueles que, como crianças, se tornarem. Foi ele quem condenou qualquer tipo de escândalo contra as crianças de uma maneira veemente (Mt 18).

Ao que tudo indica, a candidatura do deputado amante das armas seguirá. Resta saber quem mais seguirá, juntamente com ele, disseminando o ódio e pregando mais violência como uma possível solução para os problemas do país.

16.7.18

31º Congresso Internacional SOTER (Carta-Manifesto)








SOTER – Sociedade de Teologia e Ciências da Religião

CARTA-MANIFESTO


Belo Horizonte, 13 de julho de 2018.

“Será que Deus se enganou ao criar-nos assim, negros, como somos?”
Paulina Chiziane
Cidadãs e cidadãos brasileiros:
Sob o impacto das conferências que ouvimos no 31º Congresso Internacional da
SOTER, realizado em Belo Horizonte, de 10 a 13 de julho de 2018, a partir do tema “Religião,
Ética e Política”, do testemunho profético da escritora moçambicana Paulina Chiziane, e dos debates entre os mais de 550 participantes do evento, tomamos a liberdade de nos manifestar à sociedade brasileira porque o momento vivido no país é da maior gravidade. Como intelectuais e estudiosos das mais diversas expressões religiosas e dos dramas vividos por nosso povo, não podemos nos calar, muito menos como pessoas de fé que pautam suas vidas pela coerência na luta pela justiça, pela democracia e pela dignidade humana. 
Como observadores atentos da conjuntura atual brasileira, denunciamos o processo iníquo de desconstrução da frágil democracia que vimos construindo duramente depois de mais de 20 anos de ditadura civil-militar. Percebemos que há um claro intento, em curso, de quebra do Estado Democrático de Direito, com a não garantia plena dos direitos e garantias fundamentais contidas na Constituição Federal de 1988, a relativização desses direitos em nome da racionalidade do mercado, que não está mais sob o controle do Estado Democrático de Direito. Constatamos a precarização das conquistas sociais e dos direitos da classe trabalhadora; o recrudescimento de distintas formas de violência que atingem particularmente os mais pobres e vulneráveis, os povos indígenas, os quilombolas e as populações tradicionais, além da violência crescente contra movimentos sociais e suas lideranças. Assistimos, indignados, ao aumento do feminicídio e da impunidade, ao desrespeito aos direitos humanos, à onda de intolerância religiosa e à disseminação do ódio social nas mídias abertas e redes sociais, situação que vem chegando às raias do crime contra a pessoa em número inédito neste país. Parece-nos, igualmente, um equívoco a militarização do combate ao crime organizado e a imposição da ordem social pela força em detrimento da liberdade de ir e vir e de um plano de segurança debatido amplamente pela sociedade.
Diante deste quadro dramático, como Sociedade de Teologia e Ciências da Religião, reivindicamos publicamente as seguintes medidas que podem ajudar o país a retomar o caminho da democracia e da paz social:
1.        Resgate da Democracia, do Estado Democrático de Direito e da Soberania Nacional;
2.        Recuperação dos serviços públicos de saúde para toda a população, com a sustentação prioritária do SUS;
3.        Revogação das leis antipopulares como a Reforma Trabalhista e a Lei do engessamento do Orçamento Nacional por 20 anos;
4.        Recuperação da Educação pública, gratuita e universal em todos os níveis e a garantia da continuidade da pesquisa nacional autônoma;
5.        Demarcação dos territórios indígenas, das terras quilombolas, das terras dos povos originários, sobretudo na Amazônia;
6.        Reforma Agrária com apoio creditício e técnico à agricultura familiar, à agroecologia e à agricultura orgânica; retomada do PAA – Programa de Aquisição de Alimentos pelo governo federal e instituições públicas de ensino; a redução do uso de agrotóxicos;
7.        Combate à impunidade e ao feminicídio, com garantia da vida de mulheres ameaçadas;
8.        Garantia de liberdade de culto para todas as expressões religiosas sem interferência do Estado;
9.        Garantia plena do direito de opinião, de exercício do pensamento crítico e do debate público nas escolas em todos os níveis;
10.    Resgate da ética na política com participação popular, garantia plena do voto popular e do direito às candidaturas de todas as pessoas;
11.    Resgate do direito pleno à presunção de inocência, cf. o artigo 5º da CF 1988;
12.    Resgate da dignidade de isenção do Poder Judiciário;
13.    Democratização das mídias abertas e controle dos monopólios da informação;
14.    Defesa irrestrita da vida das pessoas, do meio ambiente e resgate do instituto da precaução, sobretudo na agricultura de exportação e da monocultura;
15.    Promoção da dignidade de todas as pessoas e dos direitos humanos conforme os Planos Nacionais de Direitos Humanos.
No momento em que o pais vive talvez sua mais grave crise social, política, econômica, ambiental e moral, a SOTER, seus membros e participantes deste Congresso Internacional conclamam publicamente o povo, as instituições científicas, as comunidades de fé, os movimentos sociais, as igrejas, os sindicatos, as entidades civis, as associações e as cooperativas a levantarem sua voz em defesa dos direitos e garantias fundamentais, e a buscar com organização e criatividade caminhos para o resgate da Democracia participativa e transformadora, única forma de evitar o caos social, o abuso do poder estabelecido e a violência sem tréguas.
Inspirados pelo Espírito da Vida que sopra dos quatro ventos da terra, afirmamos nossa esperança de novos céus e nova terra, com cidadania, justiça e paz.
            A Diretoria 
            Cesar Kuzma – Presidente da SOTER
            Maria Clara L. Bingemer
            Paulo Fernando C. de Andrade
            Solange Maria do Carmo
            Alex Villas Boas Mariano

Participantes do 31º Congresso Internacional da SOTER 2018



24.6.18

O DESCONTROLE EMOCIONAL DE NEYMAR, O ÍDOLO PATÉTICO QUE SOBROU PARA O BRASIL

Kiko Nogueira
Neymar chora.

Tite defendeu o choro de Neymar após a vitória suada do Brasil sobre a Costa Rica: “Ele tem a responsabilidade, a alegria, a pressão e a coragem para externar esse sentimento. Eu, por exemplo, sou um cara emotivo, mas cada um tem a sua característica”, disse.

Desequilibrado, Neymar foi às redes sociais se queixar.
“Nem todos sabem o q passei pra chegar até aqui, falar até papagaio fala, agora fazer…”, escreveu.

Segundo ele, as lágrimas são de “alegria, de superação, de garra”.
“Na minha vida as coisas nunca foram fáceis, não seria agora né! O sonho continua, sonho não, OBJETIVO!”. 

O mimimi ganhou o apoio de Thiago Silva, o zagueiro que abriu um berreiro indigente em 2014 antes da decisão nos pênaltis contra o Chile.
“Falei para ele: ‘Chora mesmo, só você sabe o que passou para estar aqui nesta Copa’”. Thiago Silva, um mestre em choramingar, é capitão. 

Tite gosta de repetir um mantra para seus comandados: “Mentalmente forte”. O resultado é esse que se vê.

A comissão técnica dispensou um psicólogo.

Tite faz esse papel como “coach” — uma dessas picaretagens marqueteiras que não significam coisa alguma, tipo “sustentabilidade”.

Neymar é tratado, simultaneamente, como um menino que precisa ter as fraldas trocadas e como um super salvador da pátria.

Nas entrevistas, os outros jogadores, a grande maioria estrelas em seus clubes, têm que ouvir perguntas sobre ele.

“Na minha vida as coisas nunca foram fáceis”, diz um sujeito que ganha mais de 700 mil euros por semana e carrega dois cabeleireiros para a Rússia.

É absurdo um atleta desabar dessa maneira na fase de grupos após superar a esforçada Costa Rica.

Tentou cavar um pênalti com um teatro ridículo.

Mais tarde, reclamou com o juiz que colocou casualmente a mão em seu peito: “Não me toque!”.

Deu um soco na bola. Xingou um adversário, em espanhol, de “filho da puta”, entre outras gentilezas, por uma falta ordinária.

Tomara que sejamos campeões.

Mas Neymar é o ídolo patético que este Brasil merece.

31.5.18

O PERIGO DA INERRÂNCIA SELETIVA

Molly T. Marshall (1)

Inerrância bíblica foi supostamente a razão para a aquisição hostil da Convenção Batista do Sul (SBC), ou ressurgimento conservador, como alguns preferem. Eu afirmo que a inerrância bíblica era uma mera ferramenta para a preservação do poder patriarcal e do privilégio masculino branco.

Eu estava involuntariamente na mira de tudo, tendo começado meu doutorado no Seminário Teológico Batista do Sul em 1979, o ano da primeira vitória fundamentalista seguindo o manual de Pressler (2) e Patterson (3). Quando entrei para a faculdade lá em 1984, a controvérsia estava a todo vapor, e a posição de alguém sobre o papel das mulheres no ministério tornou-se o teste decisivo para a inerrância. Como pastor que trabalhava na SBC na época em que fui contratada, tornei-me uma exposição de tudo o que os líderes masculinos temiam: uma mulher ordenada que reivindicou seu lugar de direito como líder pastoral.

No verão de 1984, a Convenção tinha notoriamente resolvido que as mulheres deveriam ser impedidas de exercer o ministério pastoral por causa da “prioridade na queda edênica”. Falo sobre a inerrância seletiva! Os proponentes escolheram um texto obscuro como prova da disposição duradoura de Deus sobre a culpabilidade feminina e, portanto, a incapacidade de liderar uma igreja. Naturalmente, este é o único lugar em todas as Escrituras (além do Gênesis) onde Eva é mencionada, e a abordagem hermenêutica dos conservadores Batistas do Sul convenientemente ignoraram a maioria do corpus paulino com seu acento sobre a transgressão de Adão.

A teologia ossificada tem sido a marca do ressurgimento conservador, e Paige Patterson é o principal exemplar dessa tradição. Destrutiva em sua aplicação, esta teologia promoveu resultados cruéis. Enquanto eu evito a proposição da inerrância, acreditando que ela reivindica algo para a Escritura que não reivindica por si mesma, a inerrância seletiva de Patterson tem sido buscada por interesse próprio e medo do poder das mulheres. 

Patterson leu aqueles avisos ou proibições historicamente situados sobre a liderança das mulheres, literalmente ignorando todos os textos que identificam a liderança e as realizações das mulheres. Uma interpretação masculinista de textos o manteve cativo, e o dano esmagador de sua abordagem de sua teologia veio à tona agora. Exigir que as mulheres mantenham silêncio sobre o abuso e se submeter à chefia masculina é tudo sobre o patriarcado e nada sobre os valores bíblicos.

Eu trabalhei em um projeto de livro no início dos anos 90 com Paige; ele fazia parte de uma equipe conservadora de autores, eu estava com a equipe moderada. O volume resultante foi Beyond the Impasse (“Além do impasse”), um destino que nos iludiu. O que me impressionou imediatamente foi sua incapacidade de ouvir qualquer coisa que desafiasse sua visão de mundo fundamentalista. Lembro-me de uma troca entre o renomado estudioso do Velho Testamento Walter Harrelson (4) e Patterson sobre sua abordagem das Escrituras e o que estava em jogo se você abandonasse a inerrância. “Se não há Adão e Eva históricos e literais”, alegou Patterson, “então não temos doutrina do pecado”. Harrelson respondeu com sua bondade característica, ainda que incisiva: “Ó meu querido irmão, minhas perguntas são muito maiores do que isso”. Ele sabia que uma falsa suposição sobre as Escrituras não permitiria uma fé coerente.

A visão obscurantista de Patterson também permitiu que ele ignorasse inúmeras bandeiras sobre o comportamento desagradável de Pressler com os rapazes. Enquanto o seu lugar de honra fosse preservado, ele poderia ignorar as alegadas aberturas de seu colega mais próximo, cujo caso agora está no tribunal. O objetivo de recuperar a SBC de sua tendência liberal importava mais do que a integridade daqueles que guiavam essa busca, como confirmam recentes divulgações (o caso das mulheres que veio à público agora).

A inerrância seletiva é tão prejudicial quanto a escolha de textos que reforçam as pressuposições liberais. A leitura de todo o texto divino-humano conta a história do envolvimento de Deus com a humanidade nas várias épocas, forjando a tradição judaico-cristã. A Bíblia fala implacavelmente de mudanças sociais e da esperança de que a nova comunidade forjada por Cristo supere as estruturas patriarcais.

Esconder-se atrás da inerrância, a fim de preservar o privilégio masculino, causa danos irreparáveis ​​a um testemunho cristão lúcido. Deus sabe, precisamos contar melhor nossa história e vivê-la mais plenamente, para que tanto mulheres quanto homens possam florescer.

Notas
(1)   Doutorado em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Sul; pós-graduação no Instituto Ecumênico Tantur (Jerusalém, Israel); Universidade de Cambridge (Cambridge, Inglaterra); Seminário Teológico de Princeton (Princeton, Nova Jersey). 
(2)   Paul Pressler, uma figura importante no processo fundamentalista da Convenção Batista do Sul em 1979. Em 2018, surgiram alegações de décadas de abuso sexual. Pressler foi acusado de ter estuprado um menino regularmente, começando quando o menino tinha 14 anos quando ministro da juventude. O líder da Convenção Batista do Sul, Paige Patterson, é acusado de ter ajudado no acobertamento do caso.
(3)   Paige Patterson, foi demitido do Seminário Batista do Sul depois que surgiu acusações de que ele teria aconselhado mulheres abusadas física e sexualmente a se manterem caladas e casadas.
(4)   Walter Harrelson, pastor batista; estudou na Universidade de Basileia (Suíça) e na Universidade de Harvard. No Brasil tem um livro traduzido: “Os Dez Mandamentos e os Direitos Humanos” (Paulinas, 1987).