16.4.10

CONTRARIANDO A DONA FLORINDA

Um dia desses preguei um sermão na Memorial em que falava do encontro entre Pedro e Cornélio. O contexto é: Atos dos Apóstolos vem narrando como o Evangelho foi sendo levado a outros lugares. Passou por Samaria com Filipe e chega pela 1ª vez a um gentio, Cornélio.

Antes de Pedro se encontrar com Cornélio, ele tinha seus medos e preconceitos sobre os gentios. Judeu e gentio não se davam bem, havia discriminação, repulsa mesmo, ainda mais se este fosse romano, ou seja, chefe do exército invasor! Pedro, e muitos de Israel, desprezavam os gentios, achavam que Deus não se importava muito com eles! Pedro não era diferente. Ele precisou de uma visão para abrir os olhos e mesmo assim foi até a casa de Cornélio contra a sua vontade. Ele aprende que a dicotomia pureza/impureza não cabia mais no Deus de Jesus. Quantos não agem assim quando dizem: “Aquele ali nem Deus dá jeito”. Crentes não têm um relacionamento com pessoas que não são da Igreja, pois acham que são impuras, incrédulas, ímpias, e para alguns ainda, merecedoras do “inferno!” Quando na verdade a Igreja é lugar de impuros, de doentes e debilitados! Crentes que não vai em aniversários e encontros de pessoas que não pertencem à Igreja pois não quer se misturar, agindo como um puro. Pedro pensava assim! Não se misturar. Deus mostra a ele que é tarefa de todos o convívio com pessoas que não pertencem ao nosso meio. Não há mais separação entre puros e impuros, Deus deixa isso bem claro a Pedro.

Um judeu na casa de um gentio e ainda mais, comendo com ele! Isso era uma afronta, um total desrespeito! Era assim que Pedro via aquele encontro. É por isso que ele vai logo dizendo: “não é lícito um judeu ajuntar-se a um estrangeiro”. Pedro aprendeu na prática a bobagem que é o preconceito quando se conhece o Evangelho. Com isso Deus esta dizendo: o Evangelho é para todos, e não somente para os judeus, pois Deus ama a todos! E mais, Pedro viu muito bem que Deus “não faz acepção de pessoas”, para ele todos são iguais. Quem somos nós para negar a comunhão da Igreja a alguém? Quem somos nós para dizer: “este não pode ser membro da Igreja, aquele pode?”. Pedro se deu conta de que Deus estava agindo no meio dos gentios e disse: “pode-se recusar o batismo?” Ou seja, pode-se recusar a comunhão dessas pessoas? Não! Precisamos quebrar tabus como este: “não converso com católico”.

Deus não faz acepção de pessoas, Pedro aprendeu isso na prática. Para ele, sendo judeu, nunca poderia imaginar entrando na casa de um gentio, ainda mais romano. Não podemos ser partidários da ideia da dona Florinda (Programa do Chaves, SBT). Todas as encrencas do Kiko com o Seu Madruga acabam em tapas e bofetadas, e o ritual acaba com a famosa frase: “vamos tesouro, não se misture com essa gentalha (Florinda)”. Pelo contrário, é nossa tarefa testemunhar de Cristo no convívio com amigos, parentes e conhecidos que não frequentam a nossa Igreja! Misturar mesmo e não tratá-los como perdidos e estranhos. Somente assim seremos luz e sal da terra.

12.4.10

A CIDADE: ALVO DA GRAÇA DE DEUS

Sermão pregado na Segunda Igreja Batista em Jacupiranga/SP – 11/04/10

No segundo domingo de Abril estivemos (eu e Lívia) na Segunda Igreja Batista em Jacupiranga. Que Igreja! A hospitalidade, o carinho, a empatia, a disposição, a amizade, as conversas... Dizem que a Igreja é a cara do pastor, em relação à SIB em Jacupiranga posso dizer que isso corresponde. Uma Igreja em que seu pastor imprimiu seu modo de pensar e agir, encurtou as relações pastor-igreja com amor, distanciando a característica tão frequente em muitas igrejas em que o pastor faz questão de ser visto como o PASTOR, centralizador, e às vezes até, autoritário.

Pela manhã falamos sobre a “Educação cristã numa sociedade em mutação”. O objetivo era fazer um panorama da nossa cultura e apontar pistas de como o currículo da Escola Bíblica Dominical pode estar envolvido com as questões pertinentes da sociedade.

À noite, a mensagem foi o tema deste artigo baseada em Atos 18, 1-11.

Hoje se faz necessário a Igreja pensar a cidade de maneira integral. A concepção de pastoral precisa ser revista, pois se entende que cabe apenas ao pastor pastorear quando Igreja tem funções pastorais na cidade.

Geralmente há três posições da igreja em relação à cidade:
1 – Completa omissão: ignorando completamente as mazelas e os problemas da cidade;
2 – Conquista: com a preocupação de trazer pessoas para o templo; a mensagem é de que no templo, na Igreja física, as pessoas estarão salvas, e quem participa da Igreja é um agraciado.
3 – Pastoral da graça: uma Igreja que olha a cidade como alvo da graça de Deus não espera nada em troca quando age em função da cidade. É uma pastoral que leva a Igreja para a cidade e não quer trazer a cidade para a Igreja.

Para ter uma mentalidade de pastorear a cidade, é necessário modificar alguns comportamentos como: rever a teologia missionária que olha apenas o indivíduo com o objetivo de “ganhá-lo”. Para a Igreja ver a cidade como alvo da graça de Deus é preciso: quebrar a barreira dos puros/impuros. Aquilo que Paulo faz em Corinto quando deixa a sinagoga e vai em direção aos gentios, pessoas consideradas imundas aos judeus. A cidade de Corinto não é diferente de nossas cidades: uma cidade de comércio muito forte, com o seu porto que ligava a Europa à Ásia; uma cidade com vícios e promiscuidade; uma cidade orgulhosa e de religião desintegrada com cerca de 750 mil habitantes. É nesta cidade que o Senhor pede a Paulo para não se calar e falar. Para que uma pastoral aconteça na cidade, é preciso quebrar a ideia de que dentro da Igreja estão os salvos e lá fora os perdidos; dentro o amor e o perdão de Deus, lá fora a perdição e os pecadores. Quando a Igreja olha a cidade com alvo da graça de Deus ela oferece, por meio de uma pastoral comprometida, refrigério e descanso aos esgotados da cidade; ela é a humanização da cidade quando nesta reina a competição e na Igreja cooperação; quando na cidade reina a solidão na Igreja a comunhão. Isso será possível quando houver esta quebra de barreira de puro-impuros, salvos-pecadores.

Outra postura da Igreja que olha a cidade como alvo da graça de Deus é a clara noção do Reino de Deus. Reino de Deus não pode ser confundido com conquista, expansão territorial, ideias tão comuns na ação missionária. Reino de Deus é o domínio de Deus na cidade; são os valores como justiça, paz, vida e o amor de Deus. A Igreja é sinal do Reino de Deus quando luta contra a malignidade das estruturas políticas e sociais da cidade. Como sinal do Reino de Deus ela tem função profética de denunciar; chamar ao arrependimento; estar atenta à política da cidade. Onde reinar o mal, o Reino de Deus precisa se fazer presente. A ação missionária da Igreja não pode ser vista como avanço de território numa linguagem militar, mas sim como sinal da graça de Deus ao outro, essência do Evangelho.

Uma pastoral que olhe para a cidade como alvo da graça de Deus sua ação para a cidade não se resume aos seus chamados “cultos evangelísticos”, mas faz valer os valores do Reino de Deus como a igualdade; a denúncia da opressão; a solidariedade nos serviços públicos.

Ser sinal do Reino de Deus é agir pastoralmente na cidade entendendo que o Senhor tem muita gente na cidade são alvo do seu amor.

5.4.10

ESPIRITUALIDADE CAPITALISTA

Durante muito tempo ouvi de que este mundo é passageiro, somos peregrinos aqui. Minha tradição, batista, canta este tema, prega-se sobre isso. Como uma das ramificações do protestantismo, os batistas não fogem à regra, a preocupação é com a “alma” do indivíduo, é preciso salvar a “alma” e o restante esta sob o “controle” de Deus. Aquela ideia de que tudo está nas suas “mãos” e de que somos apenas indivíduos passivos.

Com esta postura, muitos deixam de olhar a sociedade como um ajuntamento de pessoas e que, portanto, há ditames de uma sociedade, ou seja, algo puramente humano e não sobrenatural. Quem decide o valor do dólar é o mercado; o preço aumenta no supermercado devido à lei da oferta/procura; os juros sobem ou descem porque no sistema neoliberal o Estado tem uma interferência direta na economia com o pretexto de assegurar o sistema capitalista. Neste sentido a condução da história não está nas mãos de Deus; não foi ele quem inventou a fome; não foi ele quem criou a metralhadora! Foram os seres humanos, os mesmos que exploram o continente africano o empobrecendo cada vez mais. A condução da história se faz pelo poder, somente assim um presidente poderia declarar guerra a um país com uma mentira tão bem contada que se transformou em verdade (refiro-me ao Iraque). É tolice, criancice espiritual, imaturidade de fé, acreditar que tudo passa pelas mãos de Deus, há não ser quando se é calvinista e entende que tudo que ocorre no planeta é meramente palco da glória de Deus, neste sentido as guerras se justificam, os ataques terroristas são divinos.

Recentemente a revista Cristianismo Hoje (on-line) divulgou os nomes e valores dos pastores televisivos que compraram recentemente seus jatinhos particulares avaliados em milhões de dólares. Um adquiriu um modelo luxuoso e veloz depois de uma campanha na TV pedindo ao povo uma oferta de R$ 900,00. Os outros não há necessidade de se justificar, afinal de contas são “homens de Deus” e seus templos-mercado estão por todo lugar, de fato são internacionais, mundiais e até mesmo universais. Mas isso é sinal de bênção de Deus, e eu, bem, eu sou um invejoso que não pastoreio uma mega-igreja e não tenho um helicóptero ou um jatinho, e por isso estou escrevendo isso, porque me responda aí: “você já viu algum crítico construir alguma coisa?”

Materializou-se a espiritualidade capitalista. É a oração para Deus dar dinheiro, aumentar salário. A oração não é uma ferramenta de intimidade com Deus, de relacionamento de amor, mas é uma forma de conquistar, de pedir a intervenção de Deus para melhorar a vida, diga-se financeira.

Estou lendo um opúsculo do teólogo Jung Mo Sung com o título Se Deus existe, por que há pobreza? O teólogo coloca que a responsabilidade da história está nas mãos dos homens. Ocorre que Deus esta cada vez mais fora desse processo histórico. A mensagem do Reino de Deus, tema central da pregação de Jesus, foi trocada por uma mensagem triunfalista e de ordem: “eu determino”!

Para fazer alguma coisa é preciso primeiro de uma teologia de responsabilidade com este tempo e esta história, não dá mais para ficar alimentando a pregação de que este “mundo jaz do maligno” e que, portanto, não há nada mais por fazer, errado, a Igreja está aqui; segundo, a Igreja ser agência de transformação histórica. Escrevendo estas palavras, lembro-me de Desmond Tutu (protestante), arcebispo na África do Sul, ganhador do prêmio Nobel da Paz. Há uma frase dele muito perspicaz: “quando os missionários aqui chegaram, nós tínhamos a terra e eles a Bíblia, e nos ensinaram a orar de olhos fechados. Quando abrimos os olhos nós tínhamos a Bíblia e eles a terra. Agora essa Bíblia ficará em nossas mãos, e com ela reconquistaremos a terra”. Postura profética e de não conformidade com a situação. Será mesmo que foi da vontade de Deus o apartheid na África do Sul, onde brancos (protestantes) exploram e marginalizaram os negros, prendendo Mandela por 27 anos?

18.3.10

A IDOLATRIA DO DINHEIRO

Com o tema ECONOMIA E VIDA a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB – lançou a Campanha da Fraternidade/2010. O lema é: “vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro”. Na ocasião do lançamento, estavam representantes das igrejas históricas: luteranos, metodistas, presbiterianos, batistas e anglicanos. Por mais que alguns líderes denominacionais não queiram se envolver com este tipo de agenda, o fato é que a Igreja Católica deu um tom ecumênico para a campanha entendendo que este movimento de libertação do poder econômico opressor só é possível com a participação de todos. É a comunidade cristã que envia uma mensagem de alerta para governantes e o povo de que Deus requer adoração exclusiva, pois adorar a Deus e idolatrar a riqueza se torna impraticável.

Além da mensagem de que o dinheiro não deve ser o agente transformador das pessoas, mas Deus, a CNBB manda uma mensagem clara para os neopentecostais com sua Teologia da Prosperidade, onde ensina que o dinheiro e as conquistas são sinais das bênçãos de Deus. Enquanto isso, o sistema econômico operante marginaliza pessoas; torna seres humanos em mercadoria; fabrica a pobreza quando não há uma clara divisão de riqueza. De pensar que os bens produzidos pela indústria poderiam manter a população do planeta, mas não o fazem porque a natureza vive em função do lucro desumano e descabido. Recentemente foi divulgada uma lista dos homens mais ricos do mundo. Nesta lista constavam apenas mil pessoas. Ou seja, a riqueza do planeta esta concentrada nas mãos de um pouco mais que mil pessoas e hoje o planeta conta com aproximadamente seis bilhões de pessoas! Destino? Não! Conformismo, uns nasceram para ser pobres enquanto outros para serem ricos? Nada disso. Um sistema que privilegia o lucro e a luxuria em detrimento do próximo não pode vencer. Enquanto alguns gastam milhões em lanchas e carros importados outros morrem de fome; enquanto muitos moram em condomínios fechado outros vivem favelizados por dentro e por fora.

Há um deus hoje. Um deus opressor, desumano. Um deus que provoca mortes de inocentes e inocenta políticos corruptos; um deus que impede jovens de baixa renda estudar; um deus que favorece uma emenda parlamentar; um deus para poucos abastados; um deus que é glorificado nas igrejas neopentecostais. É o deus-dinheiro, símbolo de poder e desprezo; obsessão e descontrole.

A idolatria se faz quando serve ao deus-dinheiro e não ao Deus de Jesus. O Deus de Jesus liberta da opressão, socializa os bens (multiplicação dos pães e peixes); perdoa as dívidas (parábolas).

A CNBB esta correta quando coloca que hoje não é mais possível dizer que serve a Deus e deixar o próximo na miséria; dizer que serve a Deus e não dividir o pão.

12.3.10

A ATUALIDADE DE DIETRICH BONHOEFFER

Nas últimas postagens tratei do tema religião e as dificuldades que envolvem o atual contexto de abertura e diálogo com a globalização e o secularismo. Quando penso em religião estou colocando o Cristianismo em especial e suas dificuldades dialógicas com o mundo pós-moderno.

O distanciamento Igreja/mundo causou sérios problemas de interação com a Igreja Católica. Na passagem da Idade Média, período dominado pelo pensamento da Igreja, para a era Moderna, a Igreja não participou da separação Igreja-Estado; não forneceu subsídios pastorais para o distanciamento entre religiosidade e vida secular; não se envolveu com as demandas sociais das revoluções que estavam em ebulição. Resultado disso é que a Igreja acabou por ver esses movimentos e as mudanças como inimigos de Deus e de si mesma, ao invés de interagir e tornar-se consciência das novas posturas do mundo.

A Reforma Protestante trouxe a secularização. Os movimentos teológicos abriram um leque de pesquisas e uma diversidade de caminhos. R. Bultmann deu uma nova interpretação para o Novo Testamento, a demitização; Dietrich Bonhoeffer desenvolveu o conceito de “cristianismo sem religião”. O conceito de religião para Bonhoeffer significava dizer a institucionalidade da religião, ou seja, a velha maneira de ver Deus metafisicamente separado do mundo, a ideia do sagrado/profano. Para o teólogo alemão a religião que ignora o mundo e reivindica o indivíduo para si e proclama um espaço próprio, territorial e setorial não tem mais espaço mesmo. Neste quadro incube a todos apresentar um Cristianismo que não seja religioso, ou seja, não trate o homem pós-moderno como alguém que ignora os avanços da ciência, que não perceba a condução do mundo pelas nações e suas relações internacionais e que ainda sofre com carências espirituais!

O homem que morreu nas mãos de Adolf Hitler entende que é preciso assumir posturas pastorais não de convencimento, mas de dedicação ao homem. Bonhoeffer faz questão de frisar que Jesus nunca, e nem se quer deixou, a impressão de mostrar às pessoas que elas eram realmente piores quando na verdade eram de fato; com os ladrões na cruz ele não vez nenhuma tentativa de convencimento, até que um deles dirigiu a palavra a ele. Essa tentativa de ser mais religioso que Deus é pedantismo espiritual. É por isso que o luterano preferia a companhia de “não-crentes” à de piedosos que só falavam a respeito de Deus.

O Cristianismo que Bonhoeffer propõe é o do seguimento de Jesus, o discipulado mesmo. Cristianismo não é mera introspecção de soluções de problemas, mas é engajamento com o mundo e com o homem pós-moderno. Cristo não pertence à Igreja, ele pertence ao mundo, mas a Igreja deve desenvolver uma teologia política.

A atualidade de Bonhoeffer é no sentido de que hoje, inevitavelmente, não dá mais para explorar a fraqueza humana em nome do céu. O olhar é holístico, integral e não paliativo. A secularidade deve ser uma aliada da Igreja com sua missão no mundo, do contrário corremos o risco de cometer o mesmo erro da Igreja Católica quando ignorou a mutação social e foi perceber bem tarde que as cidades não são conhecidas pelas suas catedrais, mas pelos seus edifícios e chaminés. Não é com dominação social e discurso reacionário que a Igreja conseguirá ser portadora do Evangelho para esta sociedade globalizada.

8.3.10

A MULTIPLICAÇÃO DE IGREJAS EM IPORANGA

Em cidades como São Paulo a proliferação de igrejas é incrível. A todo o momento esta surgindo outra “igreja” com um nome bizarro, o mais criativo possível. Num bairro onde tenho parentes, há alguns anos atrás havia pouquíssimas igrejas, hoje em uma mesma rua há nove, isso mesmo nove, todas se dizendo pentecostal.

Parece que este surto esta acontecendo aqui na nossa cidade. Está surgindo igrejas de todo o tipo: do tipo divisão de uma e depois divisão de novo. Só há este dois tipos de igrejas aqui, a Primeira Igreja Divisionista e a Segunda Igreja Divisionista, ambas reivindicando o poder do Espírito Santo. Até agora não vi nenhuma igreja que tenha começado com um trabalho missionário coerente com o Evangelho, um trabalho de evangelismo mesmo de pessoas que não conhecem uma igreja, mas apenas igrejinhas surgindo em cima de igrejinhas. Pergunto em que essas novas igrejas estão contribuindo para o Evangelho na cidade? Como as pessoas irão entrar em uma dessas igrejas em que os que estão lá dentro não se dão bem e por questão de vaidade, poder ou qualquer outra coisa saem abrindo outras igrejinhas à imagem e semelhança de seus líderes? Parece que a quantidade de novas igrejas na cidade não esta abençoando em nada as pessoas, pelo contrário, as pessoas estão fazendo chacota, e o Evangelho está perdendo a credibilidade com isso. Ainda bem que neste miolo as pessoas sabem identificar quem é quem, e os batistas continuam sendo identificados como BATISTAS, como protestantes.

Historicamente a igreja que mais se divide é a Assembleia de Deus. É só olhar ao redor para ver a quantidade de assembleias de Deus que há por aí. Aqui mesmo na cidade temos duas igrejas de divisão histórica, a Assembleia de Deus Ministério do Belém (uma divisão da Primeira Igreja Batista em Belém, Pará) e a Assembleia de Deus Ministério Madureira, uma divisão que ocorreu no bairro Madureira no Rio de Janeiro. Uma do lado da outra. Recentemente chegou à cidade mais uma Assembleia de Deus, Ministério Vale do Ribeira, uma divisão da Assembleia de Deus Ministério Santos, que bagunça, dá até para confundir a cabeça. O detalhe é que essas igrejas têm o mesmo discurso: a posse do Espírito Santo. Alguns se acham donos do Espírito Santo e por isso criticam e até mesmo não conversam com cristãos batistas porque acham que os batistas não têm o Espírito Santo, e quem decidi quebrar esta regra por lá é taxado de frio, de crente geladeira, de amigo dos batistas.

Por não ter um aprofundamento bíblico sobre o Espírito Santo, nossos irmãos pentecostais acham que pular, gritar e falar a tal “língua dos anjos” é estar com o Espírito Santo. Ocorre que a Bíblia ensina que o Espírito Santo promove a paz; ensina que o seu fruto é amor, longanimidade; ensina que é ele quem proporciona a unidade da Igreja; é ele quem capacita com os dons espirituais para a edificação da Igreja e não para vaidade pessoal; a Bíblia ensina que o Espírito Santo não é de confusão, mas de harmonia; o Espírito Santo é o responsável por nos apontar para Cristo, portanto o centro do culto não deve ser necessariamente o Espírito Santo, mas Cristo.

Hoje na cidade de Iporanga ninguém pode alegar que nunca ouviu falar de Jesus Cristo. Já ouviram e agora estão vendo a bagunça religiosa que se formou aqui. O testemunho é pessoal, é de vida, é de caráter, é de identidade mesmo. Só conseguiremos falar para alguém sobre Cristo quando elas virem em nós o caráter de Cristo.

4.3.10

CRISTÃOS ANÔNIMOS

No último texto publicado neste blog, o Pr. Natanael Gabriel da Silva (doutor em Ciências da Religião pela UMESP), postou com muita propriedade um comentário em que fala do teólogo católico Karl Rahner, aliás, autor pesquisado em sua dissertação de mestrado e tese doutoral, acerca do “cristianismo anônimo”. Com isso ele coloca a questão do Cristianismo em outras dimensões, não somente aquela institucional e dogmática. Uma expressão que chamou minha atenção foi a “teologia da afetividade”, no sentido de que hoje, inevitavelmente, é preciso olhar com afeto e nem tanto com regras. Como deixei claro no comentário subsequente, o próximo texto que estaria indo ao ar seria sobre o teólogo alemão, que aprendi a ler com o próprio Natanael. Sua ideia seria analisada justamente porque, sendo um teólogo confessional, Rahner ultrapassa os limites da Igreja colocando Cristo em cada pessoa que seguisse o seu projeto humano-espiritual. Ocorre também que juntamente com alguns colegas do Vale do Ribeira estar-se pensando nos desafios que a cultura hodierna coloca diante da religião e da denominação enquanto instituição. Não somente nós, mas outros autores batistas, dentre eles Lourenço Stelio Rega em artigo publicado no O Jornal Batista com o título: “O bonde atrapalha o trânsito”, em que abre uma discussão sobre o real papel das instituições denominacionais como a CBB que corre um sério risco de cair no obsoletismo. Ainda em cima desse assunto, no dia 20/Fev realizamos a 1ª Mesa Redonda entre Pastores em Jacupiranga cujo tema foi as dificuldades dialógicas dos batistas com os paradigmas da pós-modernidade.

O sentimento religioso não vai deixar de existir, mas a religião institucionalizada deve passar por transformações, por mudanças que gerem vida. Como colocar diante da nova cultura uma postura mais afetiva, solidaria e companheira? Na expressão do Pr. Natanael isso é possível apenas quando pensarmos a teologia a partir da afetividade, do afeto mesmo, do amor; com a mudança da velha maneira de ler o mundo e nossa relação com ele.

Por mais que a comunidade seja o melhor lugar para se esta, a Igreja não é detentora da salvação. Há uma revelação de Deus que não passa pelo dogma, ritos ou declarações doutrinárias. No entender de Karl Rahner essa revelação seria um conhecimento de Deus atemático, ou seja, sem ainda sistematizar em que se vai crer. Essa dimensão no ser humano, segundo Rahner, é fruto da sua natureza transcendental. A antropologia teológica do teólogo alemão é transcendental. A experiência transcendente orienta para o mistério de Deus, portanto é um conhecimento atemático e anônimo de Deus. Com isso, segundo Rahner, todo aquele que vive valores humanos e religiosos relacionado ao projeto salvífico de Deus em Cristo Jesus é um “cristão anônimo”, sem a necessidade de conhecer tal relação entre Jesus e seus valores.

Acontece que nossa soteriologia é de gueto. Só é “salvo”, neste sentido, aquele que levanta sua mão num apelo no culto de domingo à noite. A própria postura das juntas missionárias trabalha com critérios de “conquistas” ou “ganhar” almas para Cristo!

Não esta se negando a atividade missionária da Igreja, mas os critérios adotados para se levar o Evangelho. Não se leva em consideração a revelação atemática de Deus; trabalha-se com a dialética nós/eles, como se fossemos os portadores auto-suficientes da mensagem de Cristo; ignora-se ainda que aqueles que não seguem o mesmo rito ou orientação de fé são considerados “não-convertidos”. Isso é tão real que há quem questione a vivência cristã de Zilda Arns!

Esse dualismo estabelecido em nossa postura de profano/sagrado, Igreja/mundo, obscureceu a nossa maneira de enxergar o mundo e suas possibilidades de ver Deus. Parece que estamos agindo como os discípulos que proibiram certo homem agir em nome de Jesus porque não andavam com eles.