A contribuição de Andrés Torres Queiruga para o problema do mal
O mal sempre foi (e é) um grande problema tanto para a filosofia quanto para a teologia. Epicuro já alertava para o grande dilema: “ou Deus quer tirar o mal do mundo, mas não pode; ou pode, mas não quer tirá-lo; ou não pode nem quer; ou pode e quer. Se quer e não pode, é impotente; se pode e não quer, não nos ama; se não quer nem pode, não é o Deus bom, e, além do mais, é impotente; se pode e quer – e esta é a única alternativa que, como Deus, lhe diz respeito – de onde vem, então, o mal real e por que não o elimina de uma vez por todas?”
Com uma teologia comprometida com os paradigmas da modernidade (subjetividade, autonomia, racionalismo), Torres Queiruga traça uma trilha teológica que passa por uma nova imagem de Deus, desvencilhando aquela velha maneira de ver um Deus rival do ser humano, daí a sua tese de que Deus se revela na realização humana e a verdadeira imagem de Deus é aquela que Jesus de Nazaré apresenta como o Abbá; uma profunda compreensão da criação, onde Deus não tem que vir ao mundo, porque já está desde sempre em sua raiz mais profunda e originária; não tem de intervir, pois é sua própria ação que está sustentando e promovendo tudo; não acode e intervém quando é chamado, porque é ele quem, desde sempre, está convocando e solicitando nossa colaboração; além disso a postura respeitosa e teológica frente as diversas tradições religiosas.
Em todas essas vertentes, Torres Queiruga trabalha com o problema do mal. Reexaminando a obra do filósofo alemão Gottfried Wilhelm Leibniz (o mal como metafísica, moral e físico), Queiruga trabalha com o conceito de ponerologia – do grego ponerós, mal – na tentativa de tirar o foco de Deus e tratar do mal como mal mesmo, como algo em si mesmo e não dedutivo de algo ou causado por Deus. Tarefa difícil.
Colocar o problema em Deus, alegando sua onipotência em contraste com sua bondade, trabalho que a teodicéia intentou, não é mais possível em um mundo secularizado. A proposta é tratar o tema como um fim em si mesmo, sem conotações religiosas, pois afinal de contas o mal é um problema de todos e não apenas religioso. Ele nos afeta desde o nascimento, como dor física, opressão social, tragédias, guerras, catástrofes e desgraças. Portanto, Deus é absolvido disso. O interesse é buscar outros pressupostos para teorizar o assunto.
Para Torres Queiruga, o mal encontra sua origem não numa realidade exterior ao mundo, mas na limitação e na finitude do mundo. Devido a sua limitação, o mundo se apresenta como condição de possibilidade que torna inevitável a existência do mal. A finitude implica em imperfeição, e o que sofre de imperfeição é passível do mal, pois esta em processo de construção. O mundo é em si bom, mas como não é perfeito e acabado, acaba sendo afetado pelo mal. O mal aparece então como uma realidade inevitável. Se existe mundo, a presença do mal é possível, pois em qualquer realidade finita e limitada o mal é uma possibilidade. Somente no ser que é Infinito e sem limitação, no caso Deus, é pensável a total ausência de mal.
Em pormenores, Deus esta conosco contra o mal. Essa verdade é revelada em Jesus de Nazaré, que passou pelas consequências do mal na cruz. Em Jesus Deus nos ajuda a suportar, superar o peso inevitável da existência. Em Jesus Deus esta do nosso lado, sofrendo conosco. Por ser amor infinito, se compadece, não abandona, mas coloca-se ao lado do humano dando esperança e alento em meio à dor. Em Jesus, Deus se coloca ao nosso lado contra o mal, sofre o mal e vence o mal. Daí que em Jesus Deus de forma alguma pode ser considerado “impotente” ou “apático” diante da realidade do mal. Pelo contrário, Deus está absolutamente conosco contra o mal.
"Escrever é construir, através do texto, um modelo específico de leitor" (Humberto Eco)
23.5.09
6.5.09
POR UMA NOVA LEITURA DA BÍBLIA
Um Diálogo com Andrés Torres Queiruga
Alguns anos atrás eu estava num Concílio Examinatório (uma reunião de pastores com o propósito de sabatinar o candidato para ver se ele serve ou não para o pastorado, as vezes funciona, outras não). Bem. Estava lá e era examinador na área de teologia. Minha pergunta, a meu ver, foi simples e sem nenhuma pretensão de constranger o candidato. Perguntei: “a Bíblia é um registro da revelação ou a própria revelação?” Bastou isso para ser acusado de “neo-ortodoxo”. Um dos presentes solicitou a leitura de um teólogo norte-americano, Wayne Grudem e sua exaustiva e atual Teologia Sistemática, para ratificar que a Bíblia é a revelação e não registro de uma. É claro que estou mexendo num ponto da teologia que teve (e tem) uma intensa discussão. Mas o intuito mesmo é apresentar algumas concepções do teólogo católico espanhol Andrés Torres Queiruga.
Citei o caso para demonstrar como a teologia protestante encerrou no texto a revelação. É claro que com a Reforma Protestante e sua centralização no texto bíblico, os olhos se voltaram para a Bíblia na tentativa de compreender o que era. Não faltou ideias. Rudolf Bultmann deixa sua contribuição: demitologização. É uma maneira de ver Deus no texto bíblico, mas não ficar espantado com o vocabulário mitológico e pré-científico. A Crítica da Forma coloca dúvidas que até então eram sacralizadas, como a autoria do Pentateuco, Evangelhos Sinóticos e suas fontes, as Cartas de Paulo, e o texto é desqualificado como produto final de Deus para o Homem.
Essas novas maneiras de ver o texto ganharam proporções e logo surgiu o fundamentalismo norte-americano como paladinos da ortodoxia e apologistas da fé, asseverando a inspiração das Escrituras como revelação literal da Palavra de Deus, retomando posturas da Patrística como as de Jerônimo e sua posição de que as Escrituras, em cada palavra, sílaba, acento e ponto há revelação. O protestantismo de missão, inevitavelmente, é herdeiro dessa perspectiva.
O espanhol Andrés Torres Queiruga, em sua tese doutoral, escreveu uma obra considerada magistral: A Revelação de Deus na Realização Humana (Trad. Afonso Maria Ligorio Soares. São Paulo: Paulus, 1995). Neste trabalho Torres Queiruga expõe seu método teológico “maiêutica histórica”. O velho método dialético socrático toma forma teológica. A proposta é buscar uma síntese entre transcendência e imanência. A revelação vem de fora, mas encontra ressonância na pessoa.
Partindo de eixos condutores como a exegese contemporânea e a teologia das religiões, ou seja, a contribuição da exegese na solução de questões bíblicas que até então eram inquestionáveis e a teologia das religiões como formas revelacionais, Torres Queiruga quer mostrar que aquela ingenuidade de pensar que os homens e mulheres da Bíblia viviam sua ética, culto e religiosidade como algo expressamente revelado não é mais concebível. O povo de Israel viveu sua fé que incluiu, naturalmente, vicissitudes como tramas, conquistas, derrotas, alegrias, tristezas. Sua história foi ganhando corpo escrito depois do exílio babilônico. E se há revelação no texto, como há de fato, ela surgiu como consequência de um processo de fé que modelou seu pensamento e experiência. O texto não surgiu como palavra feita e dada no nada e no vazio, pelo contrário, o texto recolhe sagas, mitos, festas, lendas, folclore para dar claridade ao passado de Israel e sua experiência originária com o conhecido Iahweh. O mesmo com os escritos neotestamentários: a experiência com o Deus de Israel e sua manifestação no Jesus de Nazaré e a ressurreição como confirmação de que ele era o Filho de Deus; dentro do imaginário religioso e cultural, a comunidade vivencia a sua fé sem pretensão alguma de construir dogmas e fazer doutrinas.
Para Queiruga a Bíblia nasceu do descobrimento de Deus na vida de um povo. Antes mesmo de passar pela pena de um redator, ele é (era) fruto de uma experiência revelacional. O texto já é um produto revelacional e não, propriamente, revelação. A revelação não apareceu como palavra feita, como oráculo de uma divindade escutado por um vidente, mas como experiência viva.
O texto não pode ganhar status revelacional cabalmente. Ele possui fragilidades, e está aí a graça. As contradições, as ambivalências, o caráter histórico, vem corroborar de que o texto é humano, demasiadamente humano-divino.
Alguns anos atrás eu estava num Concílio Examinatório (uma reunião de pastores com o propósito de sabatinar o candidato para ver se ele serve ou não para o pastorado, as vezes funciona, outras não). Bem. Estava lá e era examinador na área de teologia. Minha pergunta, a meu ver, foi simples e sem nenhuma pretensão de constranger o candidato. Perguntei: “a Bíblia é um registro da revelação ou a própria revelação?” Bastou isso para ser acusado de “neo-ortodoxo”. Um dos presentes solicitou a leitura de um teólogo norte-americano, Wayne Grudem e sua exaustiva e atual Teologia Sistemática, para ratificar que a Bíblia é a revelação e não registro de uma. É claro que estou mexendo num ponto da teologia que teve (e tem) uma intensa discussão. Mas o intuito mesmo é apresentar algumas concepções do teólogo católico espanhol Andrés Torres Queiruga.
Citei o caso para demonstrar como a teologia protestante encerrou no texto a revelação. É claro que com a Reforma Protestante e sua centralização no texto bíblico, os olhos se voltaram para a Bíblia na tentativa de compreender o que era. Não faltou ideias. Rudolf Bultmann deixa sua contribuição: demitologização. É uma maneira de ver Deus no texto bíblico, mas não ficar espantado com o vocabulário mitológico e pré-científico. A Crítica da Forma coloca dúvidas que até então eram sacralizadas, como a autoria do Pentateuco, Evangelhos Sinóticos e suas fontes, as Cartas de Paulo, e o texto é desqualificado como produto final de Deus para o Homem.
Essas novas maneiras de ver o texto ganharam proporções e logo surgiu o fundamentalismo norte-americano como paladinos da ortodoxia e apologistas da fé, asseverando a inspiração das Escrituras como revelação literal da Palavra de Deus, retomando posturas da Patrística como as de Jerônimo e sua posição de que as Escrituras, em cada palavra, sílaba, acento e ponto há revelação. O protestantismo de missão, inevitavelmente, é herdeiro dessa perspectiva.
O espanhol Andrés Torres Queiruga, em sua tese doutoral, escreveu uma obra considerada magistral: A Revelação de Deus na Realização Humana (Trad. Afonso Maria Ligorio Soares. São Paulo: Paulus, 1995). Neste trabalho Torres Queiruga expõe seu método teológico “maiêutica histórica”. O velho método dialético socrático toma forma teológica. A proposta é buscar uma síntese entre transcendência e imanência. A revelação vem de fora, mas encontra ressonância na pessoa.
Partindo de eixos condutores como a exegese contemporânea e a teologia das religiões, ou seja, a contribuição da exegese na solução de questões bíblicas que até então eram inquestionáveis e a teologia das religiões como formas revelacionais, Torres Queiruga quer mostrar que aquela ingenuidade de pensar que os homens e mulheres da Bíblia viviam sua ética, culto e religiosidade como algo expressamente revelado não é mais concebível. O povo de Israel viveu sua fé que incluiu, naturalmente, vicissitudes como tramas, conquistas, derrotas, alegrias, tristezas. Sua história foi ganhando corpo escrito depois do exílio babilônico. E se há revelação no texto, como há de fato, ela surgiu como consequência de um processo de fé que modelou seu pensamento e experiência. O texto não surgiu como palavra feita e dada no nada e no vazio, pelo contrário, o texto recolhe sagas, mitos, festas, lendas, folclore para dar claridade ao passado de Israel e sua experiência originária com o conhecido Iahweh. O mesmo com os escritos neotestamentários: a experiência com o Deus de Israel e sua manifestação no Jesus de Nazaré e a ressurreição como confirmação de que ele era o Filho de Deus; dentro do imaginário religioso e cultural, a comunidade vivencia a sua fé sem pretensão alguma de construir dogmas e fazer doutrinas.
Para Queiruga a Bíblia nasceu do descobrimento de Deus na vida de um povo. Antes mesmo de passar pela pena de um redator, ele é (era) fruto de uma experiência revelacional. O texto já é um produto revelacional e não, propriamente, revelação. A revelação não apareceu como palavra feita, como oráculo de uma divindade escutado por um vidente, mas como experiência viva.
O texto não pode ganhar status revelacional cabalmente. Ele possui fragilidades, e está aí a graça. As contradições, as ambivalências, o caráter histórico, vem corroborar de que o texto é humano, demasiadamente humano-divino.
5.4.09
DESCER DA CRUZ OS CRUCIFICADOS
Em abril comemoramos a Páscoa. A maior festa cristã. Só entristeço-me em ver que o Natal continua sendo a data mais propagada e falada. É uma pena, porque o cristianismo não vive do nascimento de Jesus, mas sim de sua ressurreição. A base da nossa fé, o sentido da nossa esperança está na ressurreição. Embora o Novo Testamento apresente diversos relatos sobre a ressurreição de Jesus – os Evangelhos Sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) interpretam a ressurreição de uma maneira diferente que o apóstolo Paulo, este desconhece túmulo vazio e aparições relatadas pelos evangelhos, para ele a manifestação do Ressuscitado foi espiritual e revelacional para algumas testemunhas (1Co 15) – o fato é que a ressurreição de Jesus deu fôlego aos discípulos e dá fôlego à Igreja hoje.
Em que a ressurreição de Jesus tem contribuído para a visão da Igreja? Nós a reduzimos a conquista da salvação, algo que já estava determinado por Deus. A morte-ressurreição é a coroação dos planos de Deus para Jesus, seu Filho. A teologia calvinista vai mais além, a morte-ressurreição foi limitada apenas para os eleitos e predestinados. Daí a teologia do sacrifício expiatório. Jesus morreu para recompensar a justiça divina. O Filho nada mais é do que uma oblação ao Pai.
A teologia bíblica nos mostrou outro quadro de Jesus. Não aquele pintado pelos concílios recheados de filosofia grega. Mas um Jesus que foi vítima de sua própria mensagem: o Reino de Deus. É difícil, como atesta Rudolf Bultmann, tentar adivinhar a consciência messiânica de Jesus, se ele se via ou não como enviado predestinado de Deus, como o Messias esperado etc. O fato é que Jesus iniciou seu ministério anunciando o Reino de Deus, e não a si mesmo. Foi vítima de um sistema religioso que combinava poder, dinheiro e Sagrado. Por não concordar com a maneira que o povo era tratado pelo poder religioso instituído, ele ousou bater de frente e sua condenação teve seus dias contados com o incidente do templo revirando mesas e expulsando cambistas. Vítima de seu discurso, ele foi torturado, maltratado e crucificado. Mas ressuscitou.
A ressurreição de Jesus é uma ponte de esperança. Assim como ele enfrentou os opositores do Reino, hoje enfrentamos também. O poder econômico que marginaliza todos os dias centenas de pessoas, principalmente em tempos de crise, quando os grandes executivos de multinacionais têm seus fundos preservados, os trabalhadores pagam com o desemprego as bobagens que são feitas no universo capitalista; a política feita no país de forma desavergonhada, com super favorecimento de obras, castelos medievais no interior de Minas Gerais; a violência que ceifa todos os dias vidas de adolescentes e jovens; a impotência do cidadão para mudar a maneira abusiva em que são cobrados os impostos, constatando ainda a ineficiência do Estado para sanar as necessidades básicas da população como transporte, educação, saúde, estradas, infra-estruturas, segurança. Diante disso, a ressurreição de Jesus é uma saída, uma luz no fim do túnel.
A Bíblia é bem clara quanto à predileção de Deus para com os fracos, pobres e marginalizados da sociedade. Jesus foi vítima de sua mensagem, o Reino de Deus, mas Deus ressuscitou um crucificado. Com isso Deus não somente expressa seu poder sobre a morte, mas também sobre a injustiça, a marginalidade. A ressurreição é o aval divino para a mensagem de Jesus. Nos mostra ainda, que a esperança não morreu com o crucificado, ela ressuscitou com o ressuscitado, por isso há esperança para os crucificados de hoje.
Esta aí a tarefa da Igreja. Como lugar-presença do Ressuscitado, a Igreja é a manifestação real dessa cristologia. A ela é dada a tarefa de denunciar os valores do anti-reino, do discurso egoísta, do charlatanismo religioso vigente, da desumanização. Cabe a Igreja a tarefa de presenciar a misericórdia de Deus e o amor de Jesus para com o que sofre; proporcionar meios de convivência e comunhão na comunidade de fé e, principalmente, atualizar a mensagem do Reino de Deus e, assim como Jesus Cristo, descer da cruz os crucificados de hoje.
Em que a ressurreição de Jesus tem contribuído para a visão da Igreja? Nós a reduzimos a conquista da salvação, algo que já estava determinado por Deus. A morte-ressurreição é a coroação dos planos de Deus para Jesus, seu Filho. A teologia calvinista vai mais além, a morte-ressurreição foi limitada apenas para os eleitos e predestinados. Daí a teologia do sacrifício expiatório. Jesus morreu para recompensar a justiça divina. O Filho nada mais é do que uma oblação ao Pai.
A teologia bíblica nos mostrou outro quadro de Jesus. Não aquele pintado pelos concílios recheados de filosofia grega. Mas um Jesus que foi vítima de sua própria mensagem: o Reino de Deus. É difícil, como atesta Rudolf Bultmann, tentar adivinhar a consciência messiânica de Jesus, se ele se via ou não como enviado predestinado de Deus, como o Messias esperado etc. O fato é que Jesus iniciou seu ministério anunciando o Reino de Deus, e não a si mesmo. Foi vítima de um sistema religioso que combinava poder, dinheiro e Sagrado. Por não concordar com a maneira que o povo era tratado pelo poder religioso instituído, ele ousou bater de frente e sua condenação teve seus dias contados com o incidente do templo revirando mesas e expulsando cambistas. Vítima de seu discurso, ele foi torturado, maltratado e crucificado. Mas ressuscitou.
A ressurreição de Jesus é uma ponte de esperança. Assim como ele enfrentou os opositores do Reino, hoje enfrentamos também. O poder econômico que marginaliza todos os dias centenas de pessoas, principalmente em tempos de crise, quando os grandes executivos de multinacionais têm seus fundos preservados, os trabalhadores pagam com o desemprego as bobagens que são feitas no universo capitalista; a política feita no país de forma desavergonhada, com super favorecimento de obras, castelos medievais no interior de Minas Gerais; a violência que ceifa todos os dias vidas de adolescentes e jovens; a impotência do cidadão para mudar a maneira abusiva em que são cobrados os impostos, constatando ainda a ineficiência do Estado para sanar as necessidades básicas da população como transporte, educação, saúde, estradas, infra-estruturas, segurança. Diante disso, a ressurreição de Jesus é uma saída, uma luz no fim do túnel.
A Bíblia é bem clara quanto à predileção de Deus para com os fracos, pobres e marginalizados da sociedade. Jesus foi vítima de sua mensagem, o Reino de Deus, mas Deus ressuscitou um crucificado. Com isso Deus não somente expressa seu poder sobre a morte, mas também sobre a injustiça, a marginalidade. A ressurreição é o aval divino para a mensagem de Jesus. Nos mostra ainda, que a esperança não morreu com o crucificado, ela ressuscitou com o ressuscitado, por isso há esperança para os crucificados de hoje.
Esta aí a tarefa da Igreja. Como lugar-presença do Ressuscitado, a Igreja é a manifestação real dessa cristologia. A ela é dada a tarefa de denunciar os valores do anti-reino, do discurso egoísta, do charlatanismo religioso vigente, da desumanização. Cabe a Igreja a tarefa de presenciar a misericórdia de Deus e o amor de Jesus para com o que sofre; proporcionar meios de convivência e comunhão na comunidade de fé e, principalmente, atualizar a mensagem do Reino de Deus e, assim como Jesus Cristo, descer da cruz os crucificados de hoje.
3.4.09
PARABÉNS! O EMPREENDEDORISMO NEOPENTECOSTAL COMEMORA
O neopentecostalismo esta comemorando. Romildo Ribeiro Soares, o R. R., esta conclamando o seu “povo” para comemorar os 40 anos de seu batismo no Espírito Santo. Isso não pode passar despercebido, portanto haverá duas grandes comemorações nas duas maiores cidades do país: São Paulo e Rio de Janeiro. Outro que esta comemorando também é o recém midiático “apóstolo” Valdemiro Santiago com seus 11 anos (Igreja Mundial do Poder de Deus, fundada em 1998 como cisma da Igreja Universal do Reino de Deus) de discurso exclusivista de que “a mão de Deus está aqui” somente na Mundial do Poder de Deus.
Estes dois acontecimentos não poderiam passar despercebidos, devem ser comemorados. R. R. Soares comemora seus 40 anos de portador do poder do Espírito Santo em sua vida. Isso ocorre porque no neopentecostalismo o Espírito Santo é prerrogativa para “curar enfermos e expulsar demônios”. A ênfase no Espírito Santo é evidente nos movimentos neopentecostais. A Universal não tem a cruz como símbolo, mas uma pompa. R. R. Soares comemora porque sabe que a legitimidade mágica e centralizadora passa pela reivindicação do poder de Deus por meio do Espírito Santo. Como regra, o Espírito Santo é identificado com a voz do dono da igreja, no caso R. R. Soares. A hermenêutica passa pelo seu crivo, a bênção também, a palavra de ordem nem se fala. Afinal de contas é o “homem de Deus” quem esta mandando. O culto a personalidade não é mera inocência, é propositadamente consciente.
Pois aqui vão os parabéns à R. R. Soares por estar criando verdadeiros paranóicos religiosos que pagam até mesmo o que não tem para ter em casa uma tal “Nossa TV”; parabéns por transformar o evangelho em marketing, Jesus com certeza derrubaria os pôsteres espalhados pelos templos com a imagem do “missionário”.
Outro que merece os parabéns é Valdemiro Santiago. Conseguiu reativar a primeira estratégia da IURD com suas “agências de cura divina”. Com seu discurso arcaico e prepotente, o tido como “apóstolo” reivindica o poder de Deus para a sua igreja, e para isso usa e abusa da mídia. Há 11 anos quer ter seu lugar ao sol, afinal de contas um empreendimento neopentescostal é lucrativo. Ele exibe com muito orgulho os quase 1 milhão de dizimistas que a igreja tem em apenas 11 anos.
Estamos passando por momentos delicados como igreja evangélica. Durante muito tempo as igrejas históricas pouco se posicionaram contra essas aberrações doutrinárias e litúrgicas. Por isso estamos sentido os efeitos danosos disso. Estamos vendo um evangelho imagético e descompromissado com a cruz de Cristo; movimentos tidos como igrejas que não se parecem nenhum pouco com igreja neotestamentária, onde há uma comunidade em que todos se conhecem e o foco principal é adoração ao Senhor, o que vemos são interesses utilitários. É de ficar empolgado com a pretensão dos neopentecostais em querer provocar um avivamento genuíno no Brasil; como eles querem através da mídia apontar os desmandos e abusos dos políticos do país; é impressionante o engajamento social para com os mais pobres; os “homens de Deus” não são vistos promovendo a “cura divina” nos hospitais, não entendo como elas só ocorrem nas grandes concentrações de pessoas e ao vivo para todo o país.
Parabéns, o empreendimento esta dando certo. É uma pena encontrar pelo caminho pessoas com uma mentalidade impregnada pela cultura pós-moderna e o decadente sistema capitalista como base de suas vidas. As desculpas vão para Jesus e sua ênfase no Reino de Deus com valores totalmente contrários a tudo isso. Não é por acaso que ele derrubou e expulsou os cambistas e comerciantes do templo de Jerusalém.
Estes dois acontecimentos não poderiam passar despercebidos, devem ser comemorados. R. R. Soares comemora seus 40 anos de portador do poder do Espírito Santo em sua vida. Isso ocorre porque no neopentecostalismo o Espírito Santo é prerrogativa para “curar enfermos e expulsar demônios”. A ênfase no Espírito Santo é evidente nos movimentos neopentecostais. A Universal não tem a cruz como símbolo, mas uma pompa. R. R. Soares comemora porque sabe que a legitimidade mágica e centralizadora passa pela reivindicação do poder de Deus por meio do Espírito Santo. Como regra, o Espírito Santo é identificado com a voz do dono da igreja, no caso R. R. Soares. A hermenêutica passa pelo seu crivo, a bênção também, a palavra de ordem nem se fala. Afinal de contas é o “homem de Deus” quem esta mandando. O culto a personalidade não é mera inocência, é propositadamente consciente.
Pois aqui vão os parabéns à R. R. Soares por estar criando verdadeiros paranóicos religiosos que pagam até mesmo o que não tem para ter em casa uma tal “Nossa TV”; parabéns por transformar o evangelho em marketing, Jesus com certeza derrubaria os pôsteres espalhados pelos templos com a imagem do “missionário”.
Outro que merece os parabéns é Valdemiro Santiago. Conseguiu reativar a primeira estratégia da IURD com suas “agências de cura divina”. Com seu discurso arcaico e prepotente, o tido como “apóstolo” reivindica o poder de Deus para a sua igreja, e para isso usa e abusa da mídia. Há 11 anos quer ter seu lugar ao sol, afinal de contas um empreendimento neopentescostal é lucrativo. Ele exibe com muito orgulho os quase 1 milhão de dizimistas que a igreja tem em apenas 11 anos.
Estamos passando por momentos delicados como igreja evangélica. Durante muito tempo as igrejas históricas pouco se posicionaram contra essas aberrações doutrinárias e litúrgicas. Por isso estamos sentido os efeitos danosos disso. Estamos vendo um evangelho imagético e descompromissado com a cruz de Cristo; movimentos tidos como igrejas que não se parecem nenhum pouco com igreja neotestamentária, onde há uma comunidade em que todos se conhecem e o foco principal é adoração ao Senhor, o que vemos são interesses utilitários. É de ficar empolgado com a pretensão dos neopentecostais em querer provocar um avivamento genuíno no Brasil; como eles querem através da mídia apontar os desmandos e abusos dos políticos do país; é impressionante o engajamento social para com os mais pobres; os “homens de Deus” não são vistos promovendo a “cura divina” nos hospitais, não entendo como elas só ocorrem nas grandes concentrações de pessoas e ao vivo para todo o país.
Parabéns, o empreendimento esta dando certo. É uma pena encontrar pelo caminho pessoas com uma mentalidade impregnada pela cultura pós-moderna e o decadente sistema capitalista como base de suas vidas. As desculpas vão para Jesus e sua ênfase no Reino de Deus com valores totalmente contrários a tudo isso. Não é por acaso que ele derrubou e expulsou os cambistas e comerciantes do templo de Jerusalém.
18.3.09
UNIVERSAL, INTERNACIONAL OU MUNDIAL: O NEOPENTECOSTALISMO IMAGÉTICO
O cenário religioso no Brasil sempre foi dinâmico. Aqui se pega de tudo. O trânsito religioso é intenso. A regra básica é a conveniência e a necessidade. Uma expressão cunhada por Eduardo Peagle (www3.est.edu.br/nepp) cabe muito bem neste quadro: é a “McDonalização” da fé. Esta geração fast food que espera tudo pronto a qualquer momento chegou também no imaginário religioso. Hoje há uma porção de possibilidades para se atender as mais diversas necessidades das pessoas.
A era da espetacularização chegou para ficar. Estamos presenciando uma briga nos meios de comunicação de gente que quer ser grande a qualquer custo. A igreja imagética e seus pastores, bispos e apóstolos televisivos, estão lutando para conquistar espaço na mídia e pessoas. Este processo começou com a Igreja Universal do Reino de Deus, fundada por Edir Macedo em 1977 naquilo que os pesquisadores do fenômeno chamam de pentecostalismo de terceira onda. Seu cunhado, R. R. Soares, desgostoso com Edir rompe com este e cria a Igreja Internacional da Graça de Deus em 1980. Agora esta havendo um novo surto, é a Igreja Mundial do Poder de Deus com seu fundador o então “apóstolo” Valdomiro Santiago. Este, com problemas de relacionamento, acaba rompendo com a IURD e criando mais uma igreja que quer conquistar o mundo. Não é por acaso que estas igrejas têm em seus nomes adjetivos como universal, internacional e mundial.
Com uma forte presença, até mesmo com sinais claros de monopólio, a IURD tem na mídia a sua mensagem de prosperidade e saúde. Não é de hoje que os neopentecostais não se importam com a questão teológica e seu estudo, porque afinal de contas isso não interessa ao povo. O que o povo precisa é outra coisa. É a satisfação imediata de seus desejos. O apelo da Universal continua com a classe média. Os acessórios para a fé – sal, rosa, água do rio Jordão etc. – ainda chama atenção.
A Confissão Positiva é mais forte na Igreja Internacional da Graça de Deus. O apelo ao demônio como explicação plausível para as mazelas da vida continua sendo válido. O uso da TV é uma arma poderosa para conquistar novos patrocinadores. Embora tenha uma visão mais inclinada para as questões teológicas, a Internacional tem em seu estoque litúrgico a manipulação do Sagrado como maneira de arrebanhar mais adeptos. A figura de R. R. Soares é centralizadora na igreja.
Quem leu e aprendeu na cartilha da Universal não foi somente a Internacional, mas também a Mundial. Valdomiro Santiago ganhou espaço na mídia com suas concentrações de milagres que tem como lema “a mão de Deus está aqui”. Com isso parece que tem arrumado briga com a Universal que chega a sentir nostalgia dos tempos em que estava começando, agora a institucionalização já chegou à IURD também. Os elementos mágicos são os mesmos, só muda a clientela, que é de baixa renda e extremamente necessitada. Isso é um prato cheio para as sessões de “curas e milagres” como sinais claros de que a Mundial é a igreja de Deus no momento. Somando a isso, há um verdadeiro culto à personalidade de Valdomiro. Assim como na Universal e Internacional, na Mundial há os que imitam claramente seu mentor e fundador na fala, postura e gestos.
As pessoas estão tendo uma imagem equivocada do evangelho devido a essas igrejas eletrônicas. Há um novo corpo doutrinário hoje: Deus abençoa quem se sacrifica, Deus honra quem persevera. Há uma nova relação com a Divindade, uma relação baseada nas necessidades atendidas – quase sempre financeira e física. Uma nova mentalidade foi inaugurada, a de que as bênçãos de Deus devem ser conquistadas e elas não veem pela sua graça.
O lema de João Batista era simples: “importa que ele cresça e que eu diminua”. O lema dos neopentecostais é: “importa que o outro diminua e eu cresça”. Entre Universal, Internacional e Mundial prefiro ficar com a igreja Local. Um lugar onde posso participar das debilidades e alegrais do meu irmão; um lugar onde a Bíblia se torne instrumento de consolo, ensino e comunhão; um lugar onde o Sagrado é solenizado e a sua manifestação é percebida com a reunião do corpo de Cristo e no partir do pão.
A era da espetacularização chegou para ficar. Estamos presenciando uma briga nos meios de comunicação de gente que quer ser grande a qualquer custo. A igreja imagética e seus pastores, bispos e apóstolos televisivos, estão lutando para conquistar espaço na mídia e pessoas. Este processo começou com a Igreja Universal do Reino de Deus, fundada por Edir Macedo em 1977 naquilo que os pesquisadores do fenômeno chamam de pentecostalismo de terceira onda. Seu cunhado, R. R. Soares, desgostoso com Edir rompe com este e cria a Igreja Internacional da Graça de Deus em 1980. Agora esta havendo um novo surto, é a Igreja Mundial do Poder de Deus com seu fundador o então “apóstolo” Valdomiro Santiago. Este, com problemas de relacionamento, acaba rompendo com a IURD e criando mais uma igreja que quer conquistar o mundo. Não é por acaso que estas igrejas têm em seus nomes adjetivos como universal, internacional e mundial.
Com uma forte presença, até mesmo com sinais claros de monopólio, a IURD tem na mídia a sua mensagem de prosperidade e saúde. Não é de hoje que os neopentecostais não se importam com a questão teológica e seu estudo, porque afinal de contas isso não interessa ao povo. O que o povo precisa é outra coisa. É a satisfação imediata de seus desejos. O apelo da Universal continua com a classe média. Os acessórios para a fé – sal, rosa, água do rio Jordão etc. – ainda chama atenção.
A Confissão Positiva é mais forte na Igreja Internacional da Graça de Deus. O apelo ao demônio como explicação plausível para as mazelas da vida continua sendo válido. O uso da TV é uma arma poderosa para conquistar novos patrocinadores. Embora tenha uma visão mais inclinada para as questões teológicas, a Internacional tem em seu estoque litúrgico a manipulação do Sagrado como maneira de arrebanhar mais adeptos. A figura de R. R. Soares é centralizadora na igreja.
Quem leu e aprendeu na cartilha da Universal não foi somente a Internacional, mas também a Mundial. Valdomiro Santiago ganhou espaço na mídia com suas concentrações de milagres que tem como lema “a mão de Deus está aqui”. Com isso parece que tem arrumado briga com a Universal que chega a sentir nostalgia dos tempos em que estava começando, agora a institucionalização já chegou à IURD também. Os elementos mágicos são os mesmos, só muda a clientela, que é de baixa renda e extremamente necessitada. Isso é um prato cheio para as sessões de “curas e milagres” como sinais claros de que a Mundial é a igreja de Deus no momento. Somando a isso, há um verdadeiro culto à personalidade de Valdomiro. Assim como na Universal e Internacional, na Mundial há os que imitam claramente seu mentor e fundador na fala, postura e gestos.
As pessoas estão tendo uma imagem equivocada do evangelho devido a essas igrejas eletrônicas. Há um novo corpo doutrinário hoje: Deus abençoa quem se sacrifica, Deus honra quem persevera. Há uma nova relação com a Divindade, uma relação baseada nas necessidades atendidas – quase sempre financeira e física. Uma nova mentalidade foi inaugurada, a de que as bênçãos de Deus devem ser conquistadas e elas não veem pela sua graça.
O lema de João Batista era simples: “importa que ele cresça e que eu diminua”. O lema dos neopentecostais é: “importa que o outro diminua e eu cresça”. Entre Universal, Internacional e Mundial prefiro ficar com a igreja Local. Um lugar onde posso participar das debilidades e alegrais do meu irmão; um lugar onde a Bíblia se torne instrumento de consolo, ensino e comunhão; um lugar onde o Sagrado é solenizado e a sua manifestação é percebida com a reunião do corpo de Cristo e no partir do pão.
10.3.09
UM DEUS DE EMOÇÕES
Preguei na comunidade esses dias sobre Oséias, um dos profetas menores. Tentei chamar atenção da congregação para a empatia de Deus no texto. Aquela figura simbólica de Oséias e Gômer, os dois filhos – Desfavorecida e Não Meu Povo – como mensagem de Deus para Israel. Com uma linguagem marital, o enredo quer mostrar uma história de amor e infidelidade: Oséias e Gômer, Deus e Israel. A forma como Deus ama seu povo, o modo como ele quer tratar seu povo, é surpreendente no texto.
O ápice disso esta no capítulo 11 versos 7 e 8: “meu coração está comovido dentro em mim, as minhas compaixões à uma se acendem”. A atribuição de emoções humanas a Deus é conhecido como antropopatismo. O texto de Oséias esta cheio disso, coisa linda de se ler.
A nossa teologia foi muito influenciada pela cosmovisão grega. Os gregos não aceitavam as emoções, as quais eles chamavam de pathos, como algo bom. Quando alguém era afetado por emoções e tinha seu interior modificado, logo se acreditava que essa pessoa era fraca. Portanto para os gregos, Deus não poderia ter sentimentos e muito menos pathos, pois eles acreditavam que a Divindade não poderia sofrer influência exterior. Já que ele é o causador de tudo, como poderia alguma coisa causar qualquer emoção em Deus. Aristóteles já havia formulado: “ele é o Motor Imóvel”; os estóicos não admitiam qualquer alteração na Divindade, mas apenas na criação.
Por este fato, que a tradição cristã se apegou demasiadamente no conceito de poder de Deus, formulando ideias como onipotência, onisciência, onipresença. A Bíblia está cheia de emoções atribuídas a Deus, os profetas falam disso com uma naturalidade incrível.
O filósofo e místico judeu Abraham Joshua Heschel (1907-1972) foi um dos líderes do movimento denominado hassidismo (tradução simples: piedoso). Uma visão mística de Deus a partir de dentro e não de fora da realidade. Neste processo de contemplação, Heschel formula três caminhos: o caminho do sentimento da presença de Deus no mundo; o caminho do sentimento de sua presença na Bíblia; o caminho de sua presença nos atos sagrados. Com a clara intenção de renovar a condição humana, no que ele chama de humanização, com o intuito de despertar a profundidade dessa condição humana no homem. Neste sentido, Heschel formula não uma teologia de Deus, mas uma antropologia de Deus: “a Bíblia é mais uma antropologia de Deus do que uma teologia do homem. Os profetas não falaram tanto do interesse do homem por Deus, como no interesse de Deus pelo homem”. E neste interesse de Deus pelo homem que a linguagem é puramente emocional, pois afinal de contas somos mais pathos que logos.
O ápice disso esta no capítulo 11 versos 7 e 8: “meu coração está comovido dentro em mim, as minhas compaixões à uma se acendem”. A atribuição de emoções humanas a Deus é conhecido como antropopatismo. O texto de Oséias esta cheio disso, coisa linda de se ler.
A nossa teologia foi muito influenciada pela cosmovisão grega. Os gregos não aceitavam as emoções, as quais eles chamavam de pathos, como algo bom. Quando alguém era afetado por emoções e tinha seu interior modificado, logo se acreditava que essa pessoa era fraca. Portanto para os gregos, Deus não poderia ter sentimentos e muito menos pathos, pois eles acreditavam que a Divindade não poderia sofrer influência exterior. Já que ele é o causador de tudo, como poderia alguma coisa causar qualquer emoção em Deus. Aristóteles já havia formulado: “ele é o Motor Imóvel”; os estóicos não admitiam qualquer alteração na Divindade, mas apenas na criação.
Por este fato, que a tradição cristã se apegou demasiadamente no conceito de poder de Deus, formulando ideias como onipotência, onisciência, onipresença. A Bíblia está cheia de emoções atribuídas a Deus, os profetas falam disso com uma naturalidade incrível.
O filósofo e místico judeu Abraham Joshua Heschel (1907-1972) foi um dos líderes do movimento denominado hassidismo (tradução simples: piedoso). Uma visão mística de Deus a partir de dentro e não de fora da realidade. Neste processo de contemplação, Heschel formula três caminhos: o caminho do sentimento da presença de Deus no mundo; o caminho do sentimento de sua presença na Bíblia; o caminho de sua presença nos atos sagrados. Com a clara intenção de renovar a condição humana, no que ele chama de humanização, com o intuito de despertar a profundidade dessa condição humana no homem. Neste sentido, Heschel formula não uma teologia de Deus, mas uma antropologia de Deus: “a Bíblia é mais uma antropologia de Deus do que uma teologia do homem. Os profetas não falaram tanto do interesse do homem por Deus, como no interesse de Deus pelo homem”. E neste interesse de Deus pelo homem que a linguagem é puramente emocional, pois afinal de contas somos mais pathos que logos.
19.2.09
CONSTRUTORES DO REINO
Uma reflexão a partir da teologia do seguimento de Jon Sobrino
O Reino de Deus nunca foi um tema central na cristologia. A reflexão sempre girou em torno da pessoa de Jesus e não de sua mensagem. Tanto teólogos católicos quanto protestantes, se debruçaram na obra salvífica de Jesus de Nazaré. A sentença era: berço, cruz e pedra – nascimento, morte e ressurreição.
O Reino de Deus, na teologia protestante, sempre foi vinculado com ideias milenaristas. O amilenismo compreende a presença do Reino em seu caráter provisório; o pré-minelismo entende que o Reino ainda virá e Jesus irá reinar mil anos, literais; o pós-milenismo acredita na realidade presente do Reino, e não o concebe como algo celestial e futuro. Somando a isso, a ideia de que tudo está caminhando para um acerto final de contas com Deus. Os cristãos estão de passagem, são agentes de Deus para povoar o céu. Diante disso, os eventos que ocorrem no mundo são apenas os “sinais dos tempos”. Esta postura inviabiliza totalmente um estar-no-mundo. O mundo passa a ser apenas um trampolim para a eternidade e os crentes expectadores dos acontecimentos. O resultado é uma total desatenção para com os alvos do Reino de Deus e sua expansão.
A teologia bíblica atestou: a mensagem central de Jesus era o Reino de Deus. Os estudiosos do Jesus histórico não negam, o Reino de Deus dominou a vida de Jesus. Qualquer pesquisador sério do Novo Testamento verá que o Reino de Deus é a chave para compreender o propósito de Jesus.
A cristologia da América Latina tem no Reino de Deus a sua centralidade. Leonardo Boff e sua abordagem antropológica do Reino como topia de uma existência plena; Juan Luis Segundo e sua clave política; Jon Sobrino enxerga no seguimento de Jesus a continuidade da construção do Reino de Deus. A teologia da libertação, em suas bases metodológicas, não se dá sem o Reino de Deus.
O teólogo salvadorenho, Jon Sobrino, tem contribuindo para uma reflexão sobre o Reino de Deus. Para ele, entender o Reino é preciso ir a Jesus, para conhecer Jesus é preciso ir ao Reino de Deus. Este caminho se faz pelo seguimento de Jesus.
A teologia do seguimento se dá na prática de Jesus: na valorização dos excluídos e marginalizados da sociedade; na compaixão e no perdão; na promoção da paz e da justiça como meio equitativo de convivência. A teologia do seguimento não se dá na imitação, mas no comportamento do cristão e suas consequências práticas, uma vez a impossibilidade de reproduzir os atos concretos de Jesus no seu tempo.
Para Sobrino o Reino de Deus esta sendo construído pelos seguidores de Jesus. Os valores do anti-Reino – como a desumanização; a violência; a injustiça social; a morte precoce do pobre – precisam ser combatidos. Uma espiritualidade que valorize o seguir Jesus com sua ênfase no Reino de Deus é urgente.
O Reino de Deus nunca foi um tema central na cristologia. A reflexão sempre girou em torno da pessoa de Jesus e não de sua mensagem. Tanto teólogos católicos quanto protestantes, se debruçaram na obra salvífica de Jesus de Nazaré. A sentença era: berço, cruz e pedra – nascimento, morte e ressurreição.
O Reino de Deus, na teologia protestante, sempre foi vinculado com ideias milenaristas. O amilenismo compreende a presença do Reino em seu caráter provisório; o pré-minelismo entende que o Reino ainda virá e Jesus irá reinar mil anos, literais; o pós-milenismo acredita na realidade presente do Reino, e não o concebe como algo celestial e futuro. Somando a isso, a ideia de que tudo está caminhando para um acerto final de contas com Deus. Os cristãos estão de passagem, são agentes de Deus para povoar o céu. Diante disso, os eventos que ocorrem no mundo são apenas os “sinais dos tempos”. Esta postura inviabiliza totalmente um estar-no-mundo. O mundo passa a ser apenas um trampolim para a eternidade e os crentes expectadores dos acontecimentos. O resultado é uma total desatenção para com os alvos do Reino de Deus e sua expansão.
A teologia bíblica atestou: a mensagem central de Jesus era o Reino de Deus. Os estudiosos do Jesus histórico não negam, o Reino de Deus dominou a vida de Jesus. Qualquer pesquisador sério do Novo Testamento verá que o Reino de Deus é a chave para compreender o propósito de Jesus.
A cristologia da América Latina tem no Reino de Deus a sua centralidade. Leonardo Boff e sua abordagem antropológica do Reino como topia de uma existência plena; Juan Luis Segundo e sua clave política; Jon Sobrino enxerga no seguimento de Jesus a continuidade da construção do Reino de Deus. A teologia da libertação, em suas bases metodológicas, não se dá sem o Reino de Deus.
O teólogo salvadorenho, Jon Sobrino, tem contribuindo para uma reflexão sobre o Reino de Deus. Para ele, entender o Reino é preciso ir a Jesus, para conhecer Jesus é preciso ir ao Reino de Deus. Este caminho se faz pelo seguimento de Jesus.
A teologia do seguimento se dá na prática de Jesus: na valorização dos excluídos e marginalizados da sociedade; na compaixão e no perdão; na promoção da paz e da justiça como meio equitativo de convivência. A teologia do seguimento não se dá na imitação, mas no comportamento do cristão e suas consequências práticas, uma vez a impossibilidade de reproduzir os atos concretos de Jesus no seu tempo.
Para Sobrino o Reino de Deus esta sendo construído pelos seguidores de Jesus. Os valores do anti-Reino – como a desumanização; a violência; a injustiça social; a morte precoce do pobre – precisam ser combatidos. Uma espiritualidade que valorize o seguir Jesus com sua ênfase no Reino de Deus é urgente.
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