6.12.08

NATAL: O SALVADOR ENTRA NA HISTÓRIA

De fato é uma festa, uma celebração. O Sagrado é materializado na carne quente e mortal de Jesus de Nazaré. Seu começo deveria ter um início, e a Comunidade Primitiva não deixou de refletir e fazer teologia em cima disso. É claro que o tema da “encarnação” não é o ponto de partida, mas de chegada, pois as comunidades refletiram o processo cristológico até chegar ao berço.

É claro que o espírito natalino que invade as lojas, o comércio, não tem nada a ver com o espírito apresentado pelos evangelhos de Mateus e Lucas. O que conta nesses dias de “festa” é o mercado de consumo e a preocupação se as vendas serão ou não prejudicadas pela crise financeira global.

A estória do Natal narrada nos evangelhos quer nos assegurar que Deus habitou entre nós; se tornou como nós, gente simples e ignorante. Ele não veio como um césar, mas como um camponês; seu anúncio não se deu no templo de Jerusalém, mas junto aos pastores de Belém; não nasceu em um hotel luxuoso, mas numa estrebaria; não estava cercado de autoridades, mas de animais. Tudo isso para ficar mais próximo de todos.

As duas narrativas natalinas, Mateus e Lucas, são diferentes. Não queremos levantar historicidade de fatos, se foi ou não em Belém, se Herodes matou ou não as crianças, nada disso. Se não for assim teremos dificuldades com um Paulo que nada diz sobre o assunto; Marcos que começa no batismo, e não conhece nenhuma estória de nascimento virginal e coisa e tal; João que se remete a criação fazendo uma dialética com o Logos grego. Depois a fé cristã tem sua raiz no acontecimento da cruz-ressurreição de Jesus e não na estória do nascimento – embora os Concílios (Nicéia, 325; Éfeso, 431; Calcedônia, 451) na história da Igreja sempre penderam para uma cristologia encarnacionista.

É interessante comparar as duas narrativas. Mt se interessa por José, Lc por Maria; em Mt José e Maria moram em Belém, para Lc José foi para Belém por causa de um recenseamento; Mt faz Jesus ir para o Egito, em Lc Jesus volta para Nazaré; Mt coloca os “magos” como coadjuvantes, em Lc são os pastores. Isso mostra a particularidade de cada autor/comunidade e seu objetivo com a narrativa, cada um tentando buscar seu referencial teológico e comunitário – Mt quer apresentar Jesus como o novo Moisés, e por isso ele vai para o Egito, assim como Moisés, e Herodes manda matar criancinhas recém-nascidas assim como o Faraó; Lc quer mostrar a entrada da salvação na história – “Hoje, na cidade de Davi, lhes nasceu o Salvador, que é Cristo, o Senhor”. Lc não está preocupado em verificar fatos históricos e exatos. É mais um estilo literário, uma linguagem artística, uma narração livre com o fim de edificar e iluminar as vidas de seus leitores/ouvintes.

Com sua narrativa, Lc quer dizer para todos que o Salvador entrou na história da humanidade. Este tema é tão forte no texto, que as palavras “Salvador, salvação, salvar” aparecem 17x. Para Lc o Salvador é o portador de libertação no sentido universal. Jesus é um hóspede pelo qual Deus visita os homens.

O tema da salvação é muito presente na narrativa lucana, por isso sua preocupação constante em ajudar o pobre, o pecador. Não poderia ter magos presenteando o menino com especiarias finas; é os pastores, em geral pobres, renegados, considerados sujos e ignorantes, gente que não tinha reputação nenhuma. A estes Jesus veio salvar. Em Lc os perdidos se salvam e os “salvos” se perdem em seu orgulho, preconceito e discriminação.

O Natal é gratuidade de Deus, doação de amor, singeleza de perdão, convivência com o irmão. Tudo isso é Jesus. Entrou em nossas vidas para nunca mais sair.

27.11.08

A IGREJA DA ESPERANÇA

Em sua principal obra Teologia da Esperança: estudos sobre os fundamentos e as conseqüências de uma escatologia cristã. São Paulo: Teológica, 2003, Jürgem Moltmann desenha uma Igreja que procura cumprir, verbalizar e transformar, a realidade social por meio de suas funções e vida. Partindo da ressurreição de Jesus Cristo, que se inicia a promessa e a abertura para o futuro, Moltmann entende que o futuro não se esgota com a ressurreição, mas antes confirma, antecipadamente, a promessa da glória e do senhorio do futuro Reino de Deus.

A igreja, portanto, é chamada para mediar a presença de Cristo, que por sua vez media o futuro de Deus. Cabe à igreja ser construtora da realidade futura, e não apenas intérprete da história (como é visto nas concepções milenaristas). À igreja é lhe dada a tarefa de esforça-se para trazer o futuro para o presente. Esta Igreja não pode estar à margem do cenário político-social-religioso. A igreja é a mediadora do Reino de Deus, o futuro de Deus. E como tal precisa estar aberta para o diálogo com o homem de hoje. A Igreja do futuro é uma “igreja de Cristo, missionária, ecumênica e política.” Para ela ser isso, fermento de vida, ela deve assimilar conscientemente de que é a antecipação, o sinal do Reino de Deus. Jesus, com sua missão e ressurreição, trouxe o Reino de Deus para a história, a igreja é a sua antecipação; portanto, é o povo do Reino de Deus. A esperança do futuro Reino de Deus é tarefa da igreja quando assume concretamente a sociedade em que esta inserida dando um horizonte de esperança, justiça, vida e humanidade.

Gostaria de apontar algumas implicações da eclesiologia de J. Moltmann para a Igreja Brasileira que anda capengando em suas funções e com uma profunda crise de identidade.

Em um país subjugado pelo capitalismo selvagem condenado a ser sempre especulativo, mas de terras belas e gente mestiça, a igreja tem a oportunidade de ser mais relevante nas questões sociais. Para um povo em que a “esperança é a última que morre”, a igreja necessita vivenciar a antecipação do Reino de Deus com uma postura que venha sempre favorecer a condição humana. Isso será possível com uma maior participação no processo político do país, onde, de fato, a igreja possa transmitir os fundamentos do Reino de Deus: justiça para todos, amor como base dos relacionamentos, fraternidade para com o desvalido e compaixão com quem sofre para comer o fruto da terra. A este povo festeiro que consegue passar do soluço à gargalhada em minutos, a igreja da esperança traz uma mensagem de que um país melhor é possível. Onde a violência possa perder seu espaço para a solidariedade; onde a discriminação e o preconceito para com o índio e o negro possam dar lugar ao acolhimento e a igualdade.
A grande contribuição que a igreja pode dar à sociedade brasileira é a proclamação de que o futuro ainda esta por vim. Um futuro que coadune desenvolvimento econômico com questões sociais; um futuro que inclua no desenvolvimento sustentável a responsabilidade para com o meio ambiente e suas formas de vida; um futuro que coloque Deus como promotor desta esperança e a espiritualidade, com sua diversidade de manifestações, como construtora desta realidade.

Com a proliferação de denominações tidas como evangélicas, a igreja se transformou em um grande supermercado religioso. Neste cenário, dominado pelos neopentecostais, as práticas e as prédicas são marcadas pela freqüente mercantilização do Sagrado e o uso de elementos mágicos com um fim bem claro de manipulação subjetiva e compensação imediata de desejos; o uso da comunicação de massa como ferramenta para construir impérios religiosos; o exclusivismo desavergonhado, reivindicando a verdade do discurso religioso e a atuação do poder de Deus em local e horário definido.
O desafio é urgente. Levar a igreja a ter uma consciência ética e responsável pelo seu contexto social; contar com o comprometimento de todos na missão ao mundo, tornando patente o seu plano de amor pelo mundo; incentivar o uso das vocações para a transformação da sociedade por meio dos valores do Reino de Deus; procurar ser a sinalização da graça de Deus, pois ela é a consciência mais profunda do manifestar de Deus; tornar realidade, nela mesma, a presença amorosa de Deus por meio do cuidado fraterno; alimentar a fé de um mundo melhor por meio da esperança; celebrar a chave do futuro, a ressurreição de Cristo; ser uma igreja que consiga fazer uma leitura do seu contexto com o coração aberto.

Para Moltmann, a igreja é chamada a participar do futuro e não esperá-lo como povo que observa passivamente os acontecimentos históricos, pelo contrário, a igreja tem a chave da história porque a ela lhe foi mostrada o que será o futuro a partir da ressurreição de Jesus e suas promessas.

6.11.08

"EU TENHO UM SONHO"

O mundo parou para ver a eleição norte-americana. Os jornais noticiam a vitória do democrata Barack Obama sobre o republicano John McCain. O mundo festeja a conquista de um negro filho de imigrante na chamada “terra das oportunidades”. A nação comparece em peso às urnas num país em que o voto não é obrigatório. Sentiram a urgência do momento e a possibilidade de fazer história.

Obama tem pela frente um Estados Unidos que colecionou inúmeros inimigos ao longo dos anos com sua política externa e sua pretensão de ser a “polícia do mundo”. Conta, ainda, com o desafio de enfrentar uma guerra causada por um único homem, o desastroso Bush; uma crise financeira que supera a de 1929; além, é claro, de ser estigmatizado pela sua cor.

Obama no seu discurso da vitória em Chicago, Estado de Illinois, agradeceu à sua família, em especial a esposa, aos voluntários de sua campanha, e, principalmente, a todos os norte-americanos que acreditaram que seria possível aquele dia. Lamentou a ausência de sua avó materna que gostaria de ver o neto presidente. Durante toda a sua campanha, Obama procurou a integração do país afirmando que não havia brancos, negros, mas os Estados Unidos. Passou uma mensagem de esperança e alimentou o sonho de muita gente que enxergou nele um messias.

Barack Obama é o resultado do empenho, esforço e paixão de um homem que um dia disse “eu tenho um sonho”. Martin Luther King Jr: nascido no dia 15 de janeiro de 1929 em Atlanta, Geórgia; ordenado pastor batista no dia 25 de janeiro de 1948. Sua trajetória é marcada pela luta contra a segregação racial e defesa da dignidade humana.

Na América de Luther King Jr, a segregação racial era legitimada por leis abusivas. Negros eram segregados em ônibus, lojas, restaurantes, parques, banheiros etc. É contra isso que Luther King Jr luta no caso da senhora Rosa Parks que é presa porque recusa a dar seu lugar no ônibus a um jovem branco na cidade de Montgomery. Líder natural dentro da comunidade, Luther King liderou o boicote aos ônibus da cidade.

A marcha pela liberdade culmina na “marcha dos negros” no dia 28 de agosto de 1963. Fazem exatamente 45 anos do seu discurso no Capitólio em Washington diante daquela multidão. Na capital daquele país ecoa o famoso “I have a dream (eu tenho um sonho)”. O sonho de Luther King Jr era ver “uma sociedade em que as pessoas não são avaliadas pela cor de sua pele, mas pelo seu caráter”. Alguém que vivenciou a violência de radicais racistas da Ku Klux Klan; cresceu e estudou no sul do país, região escravagista.

Obama agora é ícone de esperança e depositário de sonhos de seu povo. Se hoje ele pode dizer que é possível mudar, é porque Luther King Jr ousou dizer: “eu tenho um sonho”. Em abril de 1968 é assassinado por querer tornar este sonho realidade. Depois de 40 anos ele é concretizado na pele escura de Barack Obama.

1.11.08

A CRISE ECONÔMICA

Não sou economista. Na verdade estas linhas é um atrevimento de alguém que ouve nos jornais o que está acontecendo no universo econômico, à chamada crise financeira, e que gostaria de dar um pitaco.

Os historiadores costumam dizer que a história sempre se repete. Com esta crise parece que eles têm razão. Refiro-me a Crise de 1929. Ao final da Primeira Guerra Mundial, os Estados Unidos se estabelece como potência econômica e militar no mundo, fruto do seu messianismo para com os países europeus, que saíram arrasados da guerra. Responsável por quase 50% da produção mundial, os EUA assume a dianteira da economia mundial. O progresso tecnológico e o clima eufórico de consumo criaram o conhecido “estilo de vida americano”. A escalada de produção não acompanhou o consumo ocorrendo a quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque em 1929 que abala o mundo inteiro, inclusive o Brasil e seus produtores de café.

É preciso voltar um pouco para entender como chegamos até aqui.

Com o Iluminismo a razão ficou sendo o instrumento de ordenação do mundo. Agora o homem domina a natureza e faz dela sua matéria-prima para produzir mercadoria. O Iluminismo terá como um de seus filhos a Revolução Industrial na Inglaterra no século XVIII. Desde o século XIV, com a expansão comercial, o dinheiro e o lucro se tornaram mediador das relações humanas. O novo sistema econômico tem em Adam Smith o seu teórico mais expressivo com seu liberalismo econômico. Smith entendeu o capitalismo como uma força autônoma, defendendo a não intervenção do Estado no plano econômico e a livre concorrência. Na contramão Karl Marx. Alguém que denuncia o sistema capitalista como desumano e cruel. Não quero entrar na sua teoria econômica, mas apenas salientar a sua preocupação com a transformação do homem em mercadoria. Ele diz: “a produção capitalista produz o homem não só como mercadoria, a mercadoria humana, o homem com caráter de mercadoria, mas o produz, de acordo com esse caráter, como um ser desumano quer espiritual, quer fisicamente.”

Seria Marx um profeta? Estaria ele com razão quando no Capital acredita que a produção capitalista acabaria destruindo o ser humano e a natureza?

José Saramago, escritor português que faz uma leitura dos dilemas humanos como a dominação política, as barreiras que se opõem aos sentimentos mais profundos do ser humano como o amor e a solidariedade, deu uma entrevista na semana passada, e como de costume poucos jornais deram esta notícia. O assunto era a crise financeira e as medidas milionárias que os governos de diversos países estavam tomando para salvar o sistema financeiro global. Na entrevista ele pergunta: “onde está este dinheiro para salvar os africanos da fome e da miséria?” É Saramago o sistema econômico sempre foi mais importante que as pessoas. Friedrich Engels tem razão quando coloca o Estado como o primeiro poder ideológico no sentido de garantir o bom funcionamento da economia e a defesa da propriedade privada.

A crise demonstra a relação dependente das pessoas com o dinheiro. As pessoas coisificam as relações pessoais e personalizam as coisas. O dinheiro é transformado em fetiche quando o ter é confundido com o ser. É muito comum ver alguém comprando algo não porque precisa de fato, mas porque deseja. O produto é mais um combustível de vaidade pessoal.

A crise financeira revela uma crise humana. Quando as pessoas colocam o dinheiro como centro de suas vidas, as relações ficam deterioradas. Isso não começou no setor imobiliário norte-americano que deflagrou a crise. Isso é conseqüência da relação depredatória que a humanidade vem construindo com o planeta desde a Revolução Industrial; o autoritarismo econômico dos países chamados ricos sobre os países emergentes; o lucro como fator preponderante nas relações diplomáticas.

Quando as relações entre nações forem pautadas pela ética e a solidariedade e não somente pelo fator econômico, seria possível ver um mundo melhor onde os milhões seriam destinados a pessoas e não a bancos.

17.10.08

A MARCA DO DISCIPULADO: O AMOR

Ando decepcionado com o atual cenário evangélico. Não gostaria de ser pessimista, mas não consigo. Essa geração esta marcando o seu tempo com um grau de mediocridade que chega doer os olhos. Modismos são inaugurados a todo o momento, parece mais loja de saldão em que o cliente fica na expectativa da próxima promoção.

Não há mais pastores, e sim apóstolos. Não ocorre mais culto, mas show da fé. A música esta cada vez mais comercial. Existem até mesmo olheiros para descobri novos talentos. As mensagens são de baixo conteúdo e os pregadores televisivos estão preocupados com a prosperidade. O comércio do Sagrado já não é nenhuma novidade. A busca incessante de alguns líderes por promoção pessoal em detrimento da glória de Deus já não assusta mais. Surge cada dia mais pessoas neuróticas vitimadas pela fé. Com isso estamos perdendo o referencial de quem é quem e de qual cristianismo pertencemos.

Olhamos o cenário da Igreja Evangélica e nos deparamos com as múltiplas facetas de um cristianismo que tem em Jesus Cristo seu baluarte. O referencial de ser cristão é variado. Para alguns os usos e costumes diz quem é ou não um cristão de verdade. A fé é medida pelo tamanho da saia e a abstinência de cosméticos; outros têm como referencial de cristianismo o pregador X, que arrasta multidões aonde vai com sua mensagem “poderosa”; ainda há o legalismo farisaico que toma como base o dever como postura cristã.

Quando tento definir o cristianismo simplesmente não posso eximir a figura surpreendente de Jesus. Aquilo que definiu a sua vida inteira é a essência do cristianismo: o amor. Muitos acham que ser discípulo de Jesus é conhecer doutrinas bíblicas, decorar versículos, ler a Bíblia mais de uma vez inteira. Esquecem que a marca inegociável do discipulado é o amor. Os discípulos dos escribas para serem bons, deveriam saber e repetir palavra por palavra do seu mestre. Já o discipulado com Jesus não tinha ascensão, era discípulo a vida inteira. A exigência para o discipulado não era intelectual e muito menos moral – haja vista os relacionamentos de Jesus com publicanos e prostitutas.

Ser cristão não é sinônimo de “entrar no céu”, “ser salvo”. Não quero aqui entrar em soteriologia, mas a salvação é um estado de relacionamento com Deus e seu alvo não é o depósito da alma no céu. Lembremos de Romanos 8, 29: “pois aqueles que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho”. O alvo da salvação antes de qualquer coisa é a semelhança com Jesus e o seu maior legado: o amor. Aliás a identificação dos discípulos de Jesus é esta: “com isto todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros” (Jo 13,35).

Ser cristão passa por dois eixos: Jesus e o próximo. Não há como ter relacionamento com Deus sem o outro. Todo mundo gosta de João 3,16, mas poucos conhecem 1João 3,16: “nisto conhecemos o que é o amor: Jesus Cristo deu a sua vida por nós, e devemos dar a nossa vida por nossos irmãos”.

O amor deixou de ser a marca prioritária do cristianismo moderno. As bases são outras. Esta cada vez mais raro vermos comunidades onde impera o amor fraterno. Há sim as reuniões para a cura, o milagre financeiro.

Anelamos por um cristianismo que priorize gestos de bondade e amor e deixe a figura inconfundível de Jesus brilhar.

7.10.08

DEUS NÃO TEM TÍTULO DE ELEITOR

Quando chega esta época é a mesma coisa. Os políticos fazem suas alianças, combinam suas barganhas, prometem o impossível e compram alguns votos. No cenário evangélico chega a ser até mesmo bizarro algumas coisas. Os pretensos “eleitos do Senhor” usam o púlpito, transformando-o em palanque e com a conivência do líder, despeja um punhado de asneiras para convencer o povo de Deus de que ele e não outro é o “escolhido de Deus” para o cargo. Já vi este filme: sacos de cimento são “doados” tijolos comprados e latas de tinta adquiridas tudo em nome da “providência divina” que ouviu as orações da igreja.

O discurso é o mesmo: “irmão vota em irmão”; “Deus não nos colocou para sermos calda, mas cabeça”. Em alguns lugares há até mesmo “revelação” de Deus confirmando o candidato X. Em algumas igrejas o candidato leva a igreja de “porteira fechada” e aí daquele que não cumprir com os “propósitos de Deus”. Cidadania, direito de votar em quem quiser não existe.

Nas eleições municipais do Rio de Janeiro o Tribunal Regional Eleitoral recolheu exemplares do jornal Folha Universal (IURD) no dia das eleições (05/10) porque estava beneficiando o candidato a prefeito o senador Marcelo Crivella. Aliás, o senador visitou vários pontos da cidade do Rio de Janeiro fazendo boca de urna porque pretendia ir para o segundo turno de qualquer jeito. A Igreja Universal do Reino de Deus fez a sua parte, investiu pesado na divulgação do candidato além, é claro, de pedir votos abertamente em suas reuniões. Uma cidade nas mãos deles é o maior sonho de consumo.

Essa tendência de teocratizar o Estado não é de hoje. Calvino, por exemplo, pretendia estabelecer em Genebra um sistema totalitário onde pudesse controlar a vida dos cidadãos usando como pressuposto a Bíblia. Ele queria na verdade uma aristocracia dos eleitos, para isso queimou pessoas contrarias as suas pretensões. A perseguição religiosa promovida pela monarquia inglesa foi legitimada pela Igreja Anglicana, surgindo daí grupos contrários à união Igreja-Estado, dentre eles os batistas levantando a bandeira da separação entre Igreja e Estado no século XVII. Parece que em época de eleições o povo evangélico respira ares teocráticos. O candidato tem como legitimação a “vontade de Deus” e sendo assim Deus irá fazê-lo ganhar. Não é democracia onde o povo elege seus representantes pelo seu plano de governo e biografia pública, mas é teocracia, Deus movendo os eleitores para eleger o irmão que é “servo do Senhor”.

Conversando com um colega sobre isso, ele dizia que Deus não tem título de eleitor e muito menos preferência partidária. É preciso entender que a história é conduzida pelo Homem e suas decisões têm conseqüências. Não foi Deus quem colocou Hitler no poder que por sua vez dizimou milhares de judeus; não é Deus o responsável pela gestão desastrosa do Bush; não foi Deus quem elegeu Collor que por sua vez surrupiou a poupança dos brasileiros.

Ser evangélico não credencia ninguém a cargo político. Ser cidadão comprometido com a justiça e o bem comum do povo sim.

1.10.08

O JUGO DE JESUS

A observação da Lei no tempo de Jesus pelos fariseus era absoluta. Havia, até mesmo, em alguns círculos teológicos, a compreensão de que o próprio Deus nos céus se ocupava por algumas horas por dia no estudo da Lei. Essa obsessão pelo cumprimento da Lei levava os fariseus a fiscalizar e oprimir as pessoas com suas diversas prescrições legais.

O autor do Evangelho de Mateus irá ser taxativo em denunciar a postura dos fariseus. No capítulo 23, o mais denso contra os fariseus, o autor descreve a dimensão do jugo sobre os outros: “amarram fardos pesados e põem nas costas dos outros, mas eles mesmos não os ajudam, nem ao menos com um dedo, a carregar esses fardos” (Mt 23,4 NTLH).

Os embates de Jesus com os fariseus serão em torno da interpretação da Lei. A postura hermenêutica de Jesus contrariava padrões e desconsidera tradições. O homem não era para o sábado, mas o sábado para o homem; a impureza não estava em lavar ou não as mãos para comer, mas dentro do homem, de onde brota toda a maldade; não é a Lei que salva, mas é o amor. Com essas interpretações “heréticas”, Jesus é acusado de blasfemo. Era um novo jugo que Jesus convidava a carregar. Não aquele da opressão, mas da leveza.

“Venham a mim, todos vocês que estão cansados de carregar as suas pesadas cargas, e eu lhes darei descanso. Sejam meus seguidores e aprendam de mim porque sou bondoso e tenho um coração humilde; e vocês encontrarão descanso. Os deveres que exijo de vocês são fáceis, e a carga que ponho sobre vocês é leve” (Mt 11,28-30 NTLH). Com este texto, que só se encontra em Mateus, o autor esta dizendo que sua comunidade, que também era judaica, é um lugar de descanso, suavidade e conforto.

É interessante observar que este texto é usado para “evangelizar”. Quando alguém se “converte” a uma igreja é logo lhe colocado um jugo. Tira o “jugo do pecado” e coloca-se outro. Em alguns lugares o jugo é: não poder ver televisão; mulheres não cortam o cabelo, não usa cosmético, não veste calça; crente não joga futebol; não vai à praia. A vida cristã é mais legalidades que espiritualidade.

Confundi-se Evangelho com Cultura. Só para constar: os missionários do Norte chegaram aqui e não viam problema nenhum no tabagismo, aliás, a obra missionária era sustentada com a indústria do tabaco. Para acentuar a ética do diferente, marcada pelo anticatolicismo, estabeleceu-se a regra de que crente não bebe e não fuma. O que dizer dos cristãos na Itália que bebem seu vinho no almoço e na janta? E os alemães com sua cerveja? Os africanos e suas danças? Alguns ainda irão dizer que isso é totalmente errado e “pecado”.

O jugo não deixa ver o Evangelho, apenas as regras. É sempre mais fácil estipular regras e proibições porque a liberdade de consciência assusta. Além do mais o legalismo dá um ar de santidade e do viver correto e funciona como termômetro da “verdadeira espiritualidade”.

O jugo de Jesus é o amor, o perdão e o abraço de irmão. Para alguns esse jugo é mais pesado que dos fariseus. Foi o que Paulo tratou em Gálatas e o caso com os judaizantes. O único jugo de toda a Lei é o amor (5,13) e o único jugo de Jesus é o amor.